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14.1.19

Mulheres na filosofia (Reflexões no YouTube)

Achou que não tinha mulheres na filosofia antiga? Achou errado. Neste vídeo falaremos de três das grandes sábias da humanidade que conseguiram ter seus nomes lembrados mesmo após séculos de sociedades patriarcais. São elas: Temistocleia, a mestra do primeiro filósofo da história, Pitágoras de Samos; Hipátia de Alexandria, que ensinou diversos filósofos em sua época, incluindo Sinésio de Cirene, um dos bispos da igreja cristã; e, finalmente, Rabia Basri, a maior santa do sufismo, o misticismo islâmico.

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28.9.17

Hipátia de Alexandria, a grande mestra

Após ter acompanhado seu nascimento e crescimento desde o início, é com muita honra que hoje inauguramos a parceria deste blog com o canal Conhecimentos da Humanidade no YouTube, apresentado por Bruno Lanaro e Leo Lousada.

Neste primeiro roteiro enviado ao canal, eu me baseei no meu artigo Hipátia e Sinésio para trazer ao universo dos youtubbers uma narrativa historicamente fiel desta verdadeira musa da Filosofia, a grande Hipátia de Alexandria. Musa, não por sua lendária beleza, ou não somente por ela, mas tanto mais pela sabedoria que refletiu adiante em muitos de seus discípulos que, como pode ser visto no vídeo, jamais a esqueceram, e a trataram por “mestra” até o fim de suas vidas.

Então, sem mais delongas, fiquem agora com Hipátia, a Grande Mestra:

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26.6.15

Hipátia e Sinésio, parte 2

« continuando da parte 1

A Herculiano,

[...] Nós vimos com nossos próprios olhos e ouvimos com nossos próprios ouvidos a Senhora [Hipátia] que presidia, com legitimidade, sobre os mistérios da filosofia. E se acaso aqueles que compartilham tal laço de união são chamados a se relacionar, daí uma lei divina nos incita, a nós que estamos unidos pela mente, a nossa melhor parte, a honrar as qualidades uns dos outros.

[...] Viver de acordo com a razão é o alvo de todos os homens. Busquemos, portanto, tal alvo em vida; supliquemos que Deus transforme nossos pensamentos em coisas divinas, e nos dediquemos, tanto quanto for possível, a colher a sabedoria de todos os lados.


Esta outra carta de Sinésio, da qual trago somente alguns trechos [1], foi endereçada a Herculiano em 395 d.C. Nesta época ambos eram alunos de Hipátia em Alexandria, porém Herculiano (de quem sabemos muito pouco além do nome e do fato de provavelmente se tratar de um membro de alguma família rica da região) foi obrigado a retornar a sua terra natal. Logo Sinésio seguiria o mesmo caminho, e após alguns anos inesquecíveis aprendendo com sua mestra, também retornaria para onde nasceu, Cirene.

Ele ainda teria viajado algumas vezes para visitar Hipátia nos anos seguintes, porém as visitas vinham se tornando cada vez mais raras e complicadas, primeiro porque Sinésio já havia e se casado e tido seu primeiro filho, e segundo porque sua capacidade intelectual o levou, ainda que provavelmente a contragosto, a atuar na esfera política.

Em 399 Sinésio chefiou uma comitiva até Constantinopla, para negociar uma redução de impostos para sua cidade junto ao imperador Arcádio. Foi obrigado a residir por cerca de 3 anos na cidade, mas finalmente retornou com sua missão cumprida. Talvez tenha conseguido visitar prolongadamente Alexandria durante os anos seguintes, mas logo foi obrigado a retornar a Cirene novamente, desta vez para uma tarefa ingrata: comandar a defesa de suas fronteiras contra invasores vindos do deserto.

Novamente foi vitorioso, tendo inclusive elaborado um novo modelo de catapulta para as defesas da cidade. Desta feita, seus concidadãos ficaram tão entusiasmados com seus serviços prestados que decidiram lhe conceder um presente que ele, na verdade, aceitou com muita relutância: o cargo de Bispo em Cirene.

Naquele século ainda não fazia muito tempo que o cristianismo tinha sido conclamado a “religião oficial” do Império Romano. Nesta aurora da igreja cristã, os cargos de liderança eclesiástica muitas vezes tinham mais a ver com os afazeres governamentais e políticos do que propriamente com a condução das práticas religiosas.

Noutra de suas cartas que sobreviveram aos séculos, Sinésio conversa com outro companheiro das aulas de Hipátia, Olímpio, sobre a necessidade de evitar a luta por cargos, honras e carreiras políticas que satisfaçam somente ambições superficiais, e não valores humanos autênticos. Nessa correspondência, Sinésio parece consciente de que não conseguirá mais se afastar das suas obrigações na vida pública, e fala acerca do prazer de ainda poder desfrutar de alguns períodos de tranquilidade nas paisagens rurais em torno de Cirene, inteiramente dedicados à reflexão: “Temos tempo para a filosofia, mas não para fazer o mal”.

Mas ah!, quem dera todos os bispos da igreja fossem homens como Sinésio, fosse assim não somente sua mestra poderia haver escapado de seu triste destino, como todo o mundo ocidental seria outro, melhor, mais justo e mais iluminado pelo sol... A história, infelizmente, não transcorreu dessa forma.

Os eventos que terminaram no brutal assassinato de Hipátia tiveram muito mais a ver com uma disputa política pelo poder em Alexandria do que propriamente com uma disputa religiosa, tanto mais com uma disputa entre o cristianismo e o helenismo. Não, a disputa mais incendiária, desde aquele tempo, já era entre cristãos e judeus...

Os dois atores principais que ansiavam estabelecer um poder hegemônico sobre o governo de Alexandria eram Orestes, o prefeito augustal e governador secular da cidade, e Cirilo, o Patriarca (espécie de arcebispo) alexandrino. Ora, muito embora um representasse diretamente a igreja cristã, e outro exercesse um cargo público, fato é que ambos eram batizados e professavam publicamente o cristianismo. Onde estava, portanto, a disputa entre cristãos, judeus e pagãos?

Ocorre que no início daquele século, Alexandria era uma das maiores cidades do mundo, e uma potência comercial onde residiam muitas comunidades de relativa riqueza. Dentre elas, a mais rica era certamente o grupo pagão, cuja ancestralidade helênica havia garantido nobres heranças. Logo após tínhamos a comunidade judaica e enfim a comunidade cristã, que exatamente por ser a mais pobre (em média), era também a mais numerosa.

Orestes, como governador astuto, tentava sustentar suas chances de ascensão à hegemonia praticando relações amistosas com todos os três grupos. Cirilo, por outro lado, sabia que a sua única chance de agaranhar o poder total sobre a cidade seria com a vitória do cristianismo sobre as demais crenças, assim eliminando de vez quaisquer chances que Orestes poderia ter de vencer aquele embate político. Vejam bem, “embate político”, pois naquele contexto a religião era usada como mera desculpa para manobrar o povo em direção a este ou aquele projeto de poder (como vemos, até hoje não mudou tanta coisa, não é mesmo?).

Pelos seus desentendimentos constantes com a comunidade judaica alexandrina, é presumível que Cirilo tivesse um ódio pessoal para com os judeus em geral. Após várias trocas de ameaças que evoluíram com os anos, os judeus organizaram um ataque que terminou por matar muitos monges armados (chamados parabolani, que eram uma espécie de “guarda armada do Patriarca”), assim como diversos cristãos desarmados, num incêndio criminoso numa igreja.

Cirilo respondeu duramente ao ataque, destruindo sinagogas, saqueando as casas dos judeus mais abastados, e enfim expulsando toda a comunidade judaica da cidade. Este foi um resultado catastrófico para as pretensões de Orestes, pois ao mesmo tempo perdera o apoio tanto de toda a comunidade judaica (que fora banida) como de muitos cristãos, que não perdoaram o ataque dos judeus e passaram a apoiar Cirilo.

Ao governador restava somente o apoio dos helênicos; e dentre eles, todos sabiam, a maior autoridade moral se centrava em Hipátia, que além de tudo era amiga pessoal de Orestes e muitas vezes lhe aconselhava diretamente... Ora, a luz de Hipátia era ofuscante demais para que Cirilo arriscasse um debate direto, era preciso se livrar da filósofa com uma artimanha mais suja e sorrateira, uma arma usada somente pelos homens mais mesquinhos e ignorantes, mas mesmo assim extremamente eficaz: a boataria.

Numa comunidade composta majoritariamente de iletrados e propensos as mais diversas crenças mágicas, não foi muito difícil “convencer” as pessoas de que aquela mulher pagã, de família nobre e antiga, que se atrevia não somente a ensinar aos homens assuntos “não religiosos”, como também a aconselhar diretamente o governador, decerto seria uma diabólica praticante de magia negra, uma bruxa que seduzia a todos que escutavam suas palavras!

Assim chegamos aos tenebrosos eventos do dia 8 de março de 415 d.C., que prefiro não descrever, então os deixo com as palavras de Sócrates Escolástico [2]:

Foi então que a inveja se irrompeu contra esta mulher. Sucedia que ela passava muito tempo com Orestes, o que deu procedência as calúnias que a condenavam entre o povo ligado à Igreja, como se ela fosse a culpada de Orestes haver se distanciado do Patriarca. Com efeito, alguns homens que lhe faziam iradamente a mesma acusação a seguiram quando voltava para casa. Então, a arrancaram de sua carruagem e a arrastaram para o interior da igreja chamada Cesarion. Rasgaram suas roupas e depois a mataram usando cacos de cerâmica [ostraka]. Quando terminaram seu esquartejamento, tendo dilacerado cada um de seus membros, levaram o corpo para um lugar chamado Cinaron e lá o queimaram.

***

Assim deixou este mundo a maior das filósofas, cuja vida foi ainda mais grandiosa por haver sido a vida de uma mulher em meio a um mundo de homens, um brutal mundo de homens...

Se nos serve de algum consolo, tal notícia nunca chegou aos ouvidos de Sinésio, que havia morrido pelo menos um ano antes, em meio à amargura de não receber mais nenhuma correspondência de sua mestra.

Não nos cabe dizer o motivo exato pelo qual Hipátia deixou de responder ao seu querido e fiel aluno. Na sua condição de bispo, o envolvimento de Sinésio na disputa em Alexandria provavelmente não teria a auxiliado em muita coisa, embora certamente colocasse o seu cargo e a sua própria vida em risco. A filósofa, em sua sabedoria, provavelmente estaria a par do fato, e preferiu deixar que Sinésio pensasse que ela o havia esquecido.

Mas se há uma coisa essencial nesta triste e grandiosa história, é que ela não pode e não deve, jamais, ser esquecida...

***

[1] Fonte original (em inglês): Livius.org. A tradução é de Rafael Arrais.

[2] Trecho de Historia ecclesiastica. Retirado do livro de Maria Dzielska.

Bibliografia
Hipátia de Alexandria, Maria Dzielska (Relógio D’Água); Wikipedia; Livius.org

Vídeo
Este artigo serviu de base para o roteiro do vídeo Hipátia de Alexandria, a grande mestra no canal Conhecimentos da Humanidade do YouTube.

Crédito da imagem: Ágora/Alexandria/Divulgação (apesar de se valer de diversas “licenças poéticas e românticas”, este filme estrelado por Rachel Weisz no papel de Hipátia é, no geral, bem intencionado, e certamente merece ser visto)

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24.6.15

Hipátia e Sinésio, parte 1

A Filósofa,

Eu lhe saúdo, e lhe peço que saúde seus fortunados amigos por mim, majestosa Mestra. Há tempos venho lhe reclamando por não ser digno de uma resposta, mas hoje sei que não sou vítima do seu desprezo por nenhum erro de minha parte, mas porque sou desafortunado em muitas coisas, em tantas quanto um homem pode ser.

Se apenas eu pudesse receber novamente suas cartas e saber como todos estão passando – tenho certeza que estão felizes e desfrutando de boa fortuna – eu ficaria aliviado, neste caso, da metade dos meus próprios problemas, ao me alegrar pela sua felicidade. Mas hoje o seu silêncio é mais uma adição as minhas tristezas.

Eu perdi meus filhos, meus amigos, e a boa vontade de todos. A maior de todas as perdas, no entanto, é a ausência do seu espírito divino. Eu tive esperança de que isto sempre permanecesse em mim: a capacidade de vencer tanto os caprichos da fortuna quanto as voltas sombrias do destino.


A carta acima [1] foi escrita por Sinésio de Cirene no ano 413 d.C. Provavelmente seria tratada como um relato de pouca importância histórica, fruto do fim de vida amargo de um filósofo do século V, não fosse pela sua célebre destinatária, a qual o escritor lamenta profundamente a ausência: a “filósofa” em questão era exaltada como um “espírito divino” não somente por Sinésio, como por praticamente todos os seus discípulos. Ela era Hipátia de Alexandria, a mulher mais sábia de seu século, cuja luz e a lenda ainda irradiam até a era moderna.

Eis como Sócrates Escolástico, um historiador de sua época, a descreveu em sua obra Historia ecclesiastica [2]:

Havia uma mulher em Alexandria chamada Hipátia, filha do filósofo Théon, que galgou tantas realizações na literatura e na ciência, que ultrapassou em muito os filósofos de seu tempo. Tendo sido versada nos ensinamentos de Platão e Plotino, ela explicava os princípios da filosofia para os seus ouvintes, muitos dos quais viajavam enormes distância para serem instruídos por ela. Por conta de seu autocontrole e serenidade, frutos do cultivo de sua mente, ela aparecia muitas vezes em público na presença dos magistrados da cidade, e não se sentia envergonhada em participar das assembleias dos homens. Pois todos os homens que tinham notícia de sua extraordinária dignidade e virtude eram seus admiradores.

Apesar de haver sido uma das mentes mais brilhantes de seu tempo, Hipátia é mais conhecida pela maneira brutal com que foi assassinada; assim como pela forma com que as lendas em torno do ocorrido alimentaram a curiosidade tanto de pagãos quanto de cristãos, tanto de adeptos da ciência e da racionalidade quanto de homens e mulheres de fé. Antes de sabermos como ela morreu, no entanto, talvez seja mais proveitoso saber como viveu...

Residiu a vida toda em Alexandria, tendo sido descendente de uma família de relativa nobreza e destaque na sociedade da época. Seu pai, Théon, era um cientista muito conhecido, membro do Museu (ou Templo das Musas, onde também residia a célebre Biblioteca da Alexandria [3]), escritor e filósofo com especial interesse no hermetismo. Apesar do que dizem as lendas, era o pai de Hipátia o amante do paganismo (ao menos publicamente), e não ela, que ficou conhecida em seu tempo bem mais pela sua vasta erudição em ciências matemáticas e astronômicas, assim como em filosofia, do que por algum conhecimento particular dos rituais pagãos.

A sua vida privada, no entanto, era bem mais envolta em mistérios... Apesar de não nos restar nenhuma obra escrita de Hipátia que não seja relacionada à ciência [4], felizmente algumas cartas de Sinésio sobreviveram aos séculos, e nos confirmam em parte o que muitos estudiosos da sua vida intuíram.

Hipátia formou um círculo intelectual composto por discípulos que eram como que “alunos particulares”, alguns deles por muitos anos, outros ainda (como o próprio Sinésio) que a trataram como mestra até o fim da vida. Tais alunos vinham da própria Alexandria, de outras regiões do Egito, da Síria, de Cirene e Constantinopla. Pertenciam a famílias ricas e influentes; com o tempo, vieram a ocupar posições de comando na hierarquia do Estado ou na ordem eclesiástica do cristianismo nascente.

Em torno de sua mestra, esses discípulos formavam uma comunidade cujos fundamentos eram o sistema de pensamento platônico e os laços profundos de amizade. Aos conhecimentos transmitidos pelo “espírito divino” de Hipátia, davam o nome de “mistérios”. Tais conhecimentos, estes sim, eram mantidos inteiramente secretos, e jamais transmitidos a qualquer um que não fosse iniciado nos assuntos divinos e cósmicos.

Ainda que pouco saibamos atualmente sobre o que Hipátia e o seu círculo de discípulos estudavam em segredo, é certo que, entre os seus textos sagrados, contavam-se os Oráculos Caldaicos. Esses textos do hermetismo eram caros tanto ao pai de Hipátia, que os lecionou a própria filha em casa, quanto a Sinésio, que em suas obras demonstra estar plenamente familiarizado com a sua temática.

Seja como for, fato é que se Hipátia foi uma pagã no âmbito privado, jamais demonstrou, na esfera pública, nenhum interesse particular por frequentar templos dos deuses gregos ou participar de seus rituais. Ao que tudo indica, Hipátia foi muito mais uma mística do que uma adepta do ritualismo religioso.

Suas lições públicas incluíam, além da filosofia platônica, preciosas instruções da matemática e astronomia. As suas conferências tinham lugar tanto em sua própria casa, quando aberta ao público, como nas salas de leitura alexandrinas. Em ambos os casos, não era incomum ser acompanhada por multidões de admiradores e curiosos.

Ocasionalmente também era chamada a intervir nos assuntos da polis, atuando como conselheira dos assuntos municipais. A filha de Théon detinha uma grande autoridade moral, e todos os historiadores da época concordam em descrevê-la como um modelo de coragem ética, retidão, sinceridade, dedicação cívica e elevação intelectual.

Apesar de provavelmente ter sido belíssima em sua juventude, também sempre foi uma reconhecida adepta da sophrosyne, uma espécie de “estado de espírito” que, de acordo com o conceito grego antigo, incluía o bom senso e a moderação, a sanidade moral, o autocontrole e o autoconhecimento. Isso também se refletiu em sua vida sexual: Hipátia se conservou virgem por toda a vida, e não há sequer um relato consistente de quaisquer casos amorosos que tenha tido, seja com homens ou com mulheres. Aos que a questionavam sobre “quando afinal iria se casar”, ela respondia que “já era casada com a Verdade” [5].

E há quem tenha dito que o brutal assassinato de Hipátia tenha marcado o fim do helenismo e o início da hegemonia cristã. Tais lendas quase sempre mostram uma Hipátia jovem e bela sendo morta por uma multidão de fanáticos... Como ocorre muitas vezes em lendas históricas, o relato em si passa consideravelmente distante da verdade: Hipátia não poderia haver sido uma mestra tão jovem, a lecionar para homens bem mais velhos, e discursar para multidões.

Já sobre a questão entre o helenismo e o cristianismo, como já dissemos, Hipátia tampouco tinha qualquer predileção por um ou por outro – a ela interessava somente a Verdade. Tanto que um dos seus discípulos mais fiéis, e também um dos homens que mais a amou, um dia tornou-se bispo, e o seu nome era Sinésio de Cirene, o Bispo Filósofo.

» Na próxima parte, a triste e trágica morte da mulher mais sábia de Alexandria...

***

[1] Fonte original (em inglês): Livius.org. A tradução é de Rafael Arrais.

[2] Fonte original (em inglês): Wikipedia. A tradução é de Rafael Arrais.

[3] Na Grécia antiga o museu era um templo das musas, divindades que presidiam a poesia, a música, a oratória, a história, a tragédia, a comédia, a dança e a astronomia. Esses templos, bem como os de outras divindades, recebiam muitas oferendas em objetos preciosos ou exóticos, que podiam ser exibidos ao público mediante o pagamento de uma pequena taxa. Dos museus da Antiguidade, o mais famoso foi o criado em Alexandria por Ptolomeu Sóter em torno do século III a.C., que continha estátuas de filósofos, objetos astronômicos e um jardim botânico, embora a instituição fosse primariamente uma academia de filosofia, e mais tarde incorporasse uma enorme coleção de obras escritas, dando origem a célebre Biblioteca de Alexandria.

[4] E mesmo essas são, em teoria, somente edições de célebres matemáticos e astrônomos da época. Devido à dificuldade em se atribuir autoria feminina a quaisquer obras da época, fica impossível confirmar o quanto dessas “edições” não se tratavam, na realidade, de “adições”.

[5] Segundo a enciclopédia bizantina Suda, ela foi esposa de “Isidoro, o Filósofo” (aparentemente Isidoro de Alexandria); porém, Isidoro só nasceu muito depois da morte de Hipátia, e não se conhece nenhum outro filósofo com este nome que seja seu contemporâneo. A Suda também afirmou que “ela permaneceu virgem” e que rejeitou o candidato mostrando lençóis manchados de sangue afirmando que eles demonstravam que não havia “nada de belo” no desejo carnal – um exemplo de fonte cristã fazendo uso de Hipátia como símbolo de virtude.

Bibliografia
Hipátia de Alexandria, Maria Dzielska (Relógio D’Água); Wikipedia; Livius.org

Vídeo
Este artigo serviu de base para o roteiro do vídeo Hipátia de Alexandria, a grande mestra no canal Conhecimentos da Humanidade do YouTube.

Crédito da imagem: Wikipedia (pintura de Charles William Mitchell [1885], provavelmente baseada nas lendas que chegavam a ver Hipátia como espécie de “heroína erótica da razão”).

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29.8.14

Os deuses esquecidos

Trechos do artigo original de Lupa Greenwolf (The Forgotten Gods of Nature) publicado em patheos.com. Tradução de Rafael Arrais.


Quando você pensa nos deuses da natureza, quem você imagina? Você imagina o Lorde Wicca ou a Dama (também amada por muitos pagãos não-wicanos), ela uma mulher de cabelos longos entrecruzados com videiras, frutas e grãos, ele um homem peludo e corpulento, acompanhado por grandes mamíferos selvagens? Você imagina Artémis ou Diana, caçadoras e donzelas e portadoras da lua? Ou talvez Gaia, grávida da própria Terra? Eu aposto que em nove de cada dez tentativas, a primeira divindade que pensou tomou uma forma humana, feminina ou masculina ou andrógina, mas quase certamente refletindo a sua própria imagem.

Mas eu quero lhe contar sobre os deuses esquecidos da natureza, aqueles cujas histórias nunca foram postas em papel porque os seus seguidores jamais escreveram sequer uma palavra ao longo da vida. Eu quero lhe contar sobre os deuses que se recusaram a abandonar suas formas naturais e juraram nunca se curvar ao macaco humano arrogante. Eu quero lhe contar sobre os deuses abaixo de seus pés, escondidos nas árvores, aninhados nas pedras dentre córregos ligeiros, assim como daqueles que cavalgam as brisas acima das nuvens e nunca se enraizaram na terra. Deixe-me lhe cantar algumas canções sobre divindades sem nome, todas apagadas pela ascensão das mulheres e dos homens e dos deuses humanos que eles nos trouxeram.

[...] Eu canto para você sobre o deus ventania da família do Pinheiro, cujas gerações dependem da sua brisa calma e agradável, mas que também podem ser arrancados do solo e tombados pela sua terrível tempestade. Eu canto para você sobre as orações sussurradas através das agulhas entrelaçadas e soltas em gentis redemoinhos de ar, clamando para que o deus dos ventos possa ser clemente nas tempestades primaveris e nas nevascas do inverno, nas noites frias do outono e nas chuvas repentinas do verão. Pois é ele o deus quem decide quais linhagens de árvores seguirão para o futuro, e é o seu vento caprichoso que transporta o pólen em segurança até a pinha – ou até o solo estéril, para que morra. E é também ele o deus quem carrega os troncos para longe em terrível cólera, deixando um de pé, e arrancando o seu companheiro de floresta num instante.

Eu canto para você sobre os panteões dos micetozoários e das amebas, estranhos e sem sexo, ao mesmo tempo mil vozes e somente um eco unificado. Eu canto para você sobre os tempos difíceis quando a madeira do mundo-tronco já apodreceu e o sol cozinha o solo, e enquanto morrem individualmente, conjuntamente perduram. As divindades requerem sacrifícios, as mil vozes em coro bradam por morte. Alguns morrem para dar luz aos demais, que fomentam a próxima geração para que possam se espalhar cada vez mais longe – estes se tornam uma parte de sua lista de santos, com vozes imortalizadas não em células, mas em espírito.

[...] Eu canto para você sobre o Criador dos peixes-palhaço, que pela manhã é um deus, e ao meio-dia brilha incandescente do mundo do alto, e que pela tardinha é uma deusa, que lança suas ovas ao aproximar da noite, e morre, apenas para renascer novamente como um deus na manhã vindoura. Eu canto para você sobre os seres submarinos que guardam vigília a cada noite, ansiosamente aguardando o retorno de seu Criador junto a luz, e acalmando os aflitos que se amontoam nas cavernas coraladas, em sua pouca fé.

[...] Eu canto para você sobre as incontáveis hostes divinas das formigas. Eu canto para você da grande deusa guerreira, e dos vigaristas que ambicionam tomar o seu poder. Todas as formigas conhecem a história da Grande Deusa Rainha, que arrancou as asas de seu rei quando ele ameaçou usurpar seu trono, e o arremessou a terra para morrer, para que ela pudesse reinar solitária em meio a sua hoste de devotos.

Eu canto para você sobre o Um e Muitos da família dos bambus, que é ao mesmo tempo todos os bambus e cada bambu. Eu canto para você sobre a dança do Um e Muitos, que cresce e cresce e cresce, e sempre se torna cada vez mais, e nunca se torna mais. Apenas uma vez a cada século, quando as estrelas se alinham nos lugares certos, é que o Um e Muitos se torna a Flor que Mata, e é dito que todos deverão morrer quando ela florescer, pois quem está vivo ainda hoje que se lembra disso de alguma outra forma? Mas dos restos mortais nos bambuzais, Um e Muitos crescerá novamente, e ressuscitará os mortos, que serão livres da memória de suas vidas passadas, para que possam crescer novos e sadios.

[...] Eu canto para você os cânticos de vitória dos deuses que reinam ainda hoje, os deuses dos lobos e dos cogumelos, dos carvalhos e das abelhas, e da corajosa e solitária deusa dos celacantos. Eu deixo para os que virão após mim a tarefa de cantar as canções dos deuses que ainda estão para nascer neste mundo – longo seja o seu reinado e o seu cuidado sobre o seu séquito.

Mas eu ainda canto para você sobre muitos outros deuses, deuses dos ventos e da água, deuses de cada mineral e dos eventos que os criaram. Eu canto para você sobre os deuses dos prótons, dos quarks, das forças atômicas que mantém os elétrons em suas órbitas. Eu canto para você sobre o deus da poeira cujas mensagens podem ser vistas nos cometas gelados a cruzar o espaço – e o próprio espaço é ainda um outro deus. Eu canto para você sobre o deus que serpenteia ao centro de cada sol, e que é visto novamente fundido em cada átomo. Eu canto para você acerca do vasto deus que coleciona asteroides para zombar dos sistemas solares de sua irmã mais velha, invejoso do seu poder. Eu canto para você de todos estes deuses, e de muitos, muitos mais...

São estes, portanto, os deuses sem nome, os deuses esquecidos, estes que se assentam na sombra dos panteões dos deuses humanos. Quando falar acerca dos deuses da natureza, não se esqueça deles. Quando falar acerca dos deuses da natureza, lembre-se de que a natureza não existe apenas em formas humanas – tampouco o Divino. Pois estes são deuses que residem muito além da imaginação daqueles que tingiram as paredes das cavernas ou escreveram em pergaminhos, deuses cujos nomes jamais foram pronunciados por vozes humanas, e cujas canções jamais alcançaram o ouvido de nenhuma mulher e de nenhum homem.

***

Crédito da foto: Tula Ben Ari

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9.5.13

Lançamento: Toda poesia de Alberto Caeiro

As Edições Textos para Reflexão voltam a publicar Fernando Pessoa, ou melhor, Mestre Caeiro. Em Toda poesia de Alberto Caeiro temos ao todo 3 livros – O Guardador de Rebanhos, O Pastor Amoroso e Poemas Inconjuntos –, além de diversos textos adicionais.

Um livro digital já disponível para o Amazon Kindle e o Kobo:

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***

Abaixo, segue um trecho da introdução do livro:

“A fonte da vida temporal é a eternidade. A eternidade se derrama a si mesma no mundo. É a ideia mítica, básica, do deus que se torna múltiplo em nós. Na índia, o deus que repousa em mim é chamado o habitante do corpo. Identificar-se com esse aspecto divino, imortal, de você mesmo é identificar-se com a divindade.

Ora, a eternidade está além de todas as categorias de pensamento. Este é um ponto fundamental em todas as grandes religiões do Oriente. Nosso desejo é pensar a respeito de Deus. Deus é um pensamento. Deus é um nome. Deus é uma ideia. Mas sua referência é a algo que transcende a todo pensamento. O supremo mistério de ser está além de todas as categorias de pensamento. Como disse Immanuel Kant, o filósofo alemão: a coisa em si é não coisa. Transcende a coisidade e vai além de tudo o que poderia ser pensado.

As melhores coisas não podem ser ditas porque transcendem o pensamento. As coisas um pouco piores são mal compreendidas, porque são os pensamentos que supostamente se referem àquilo a respeito de que não se pode pensar. Logo abaixo dessas, vêm as coisas das quais falamos. E o mito é aquele campo de referência àquilo que é absolutamente transcendente”.

O poder do mito (trecho), Joseph Campbell

Mestre Caeiro foi além da linguagem, e exatamente por isso, descascou a casca da metafísica, e demonstrou como toda poesia é sensação, sentimento e intuição, os frutos por detrás das cascas das palavras.

Segundo Pessoa, “a obra de Alberto Caeiro representa uma reconstrução integral do paganismo, na sua essência absoluta, tal como nem os gregos nem os romanos que viveram nele e por isso o não pensaram, o puderam fazer”.

Neopagão por excelência, mito de si mesmo, Mestre Caeiro, o único heterônimo de Pessoa que era reconhecido pelos outros heterônimos como mestre, nos traduz em seus poemas tudo aquilo que não pode ser traduzido... Isto tampouco é um paradoxo: é que se trata de uma linguagem para ser percebida pela alma, e não pelo cérebro.

De fato, “há metafísica suficiente em não pensar em nada”, ou seja, em simplesmente existir, e contemplar tudo isto que está a nossa volta. Toda a Eternidade apaixonada pela produção do tempo. Toda a Transcendência a velejar pelo horizonte. Toda a Natureza a bailar com a brisa que escora pelos ombros...

Seria inútil prosseguir nessa descrição do indescritível. Portanto, antes de lhes deixar na companhia de Caeiro, trago uma poesia ainda mais antiga e inefável, vinda da Pérsia (séc. XIII):

Além das ideias de certo e errado,
há um campo. Eu lhe encontrarei lá.

Quando a alma se deita naquela grama,
o mundo está preenchido demais para que falemos dele.
Ideias, linguagem, e mesmo a frase “cada um”
não fazem mais nenhum sentido.

Jalal ud-Din Rumi (poeta sufi)


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22.2.13

Frases (13)

Mais frases que vieram com o vento, geralmente primeiro aparecem no meu twitter, depois aqui:


"Somente em silêncio podemos ouvir o que não foi dito, nem escrito."

"Onde estarão os anjos? No céu não se viu... Anjos arteiros, estavam cá embaixo, distribuindo convites de amor aos que faltaram a cerimônia."

"Assim são os anjos: vivem no Céu, trabalham no Inferno."

"As vezes nossos esforços para melhorar a vizinhança podem ser vistos como 'nada mais que uma gota no oceano'. Mas o oceano é feito de gotas."


"O monoteísmo é uma vogal, o paganismo um alfabeto. Os ateus creem que ele serve apenas para se escrever palavras." (após Moore)

"Na antiga Grécia, em nenhum deus faltava a humanidade inteira. Desde que fossem muitos. A humanidade não caberia apenas num deus." (após Schiller)

"Os deuses são como as letras de um alfabeto da alma humana. Mas ninguém sabe quem criou essa linguagem, ela parece ser anterior ao Pai do Céu."

"A luz branca é decomposta num prisma. Não há branco: só luz. Assim é com os santos, deuses e orixás: a luz de um só Deus em cores infinitas."


"A prova de que existe a alma? Fernando Pessoa a navegar..."

"A alma que se reconhece jamais será consumida ou consumidora."

"'Causa aleatória': somente um outro nome que dão para o Grande Desconhecido."

"Nem todo religioso é dogmático. O dogma é uma represa, mas a religião precisa ser um rio, já que precisa chegar ao Oceano, seja o que ele for."


"A depressão é um dos negócios mais lucrativos da modernidade."

"Não há punição maior do que o trauma da culpa."

"Eis o que é a Alquimia: a depuração da alma, a transformação de sentimentos de Chumbo em sentimentos de Ouro."


"Ah! Os amantes e seus conflitos... Em último caso, tornam-se bons amigos. Num dia afortunado, podem se amar perdidamente, se acharem em si, e amar por amar, e viver para amar."

"'Trago a pessoa amada', dizem por aí... As vezes leva 3 dias, as vezes leva 3 vidas, ou mais..."

"Eu não acredito em idade, só lembro da minha porque fica chato não saber quando perguntam (não que acredite nela, para mim é só um número)."

"O maior clássico do futebol mundial: nem Brasil x Argentina, nem Barça x Real, mas Com Camisa x Sem Camisa."


"Os satanismos da vida, tanto os ingênuos de metaleiros quanto o satírico de LaVey, por vezes são espelho invertido do que se opõem." (Thuin)

"Como alguém pode ser si mesma enquanto estiver aceitando que os outros a digam para ser si mesma?" (Igor Teo)

"Um livro é a prova de que os homens são capazes de fazer magia." (Sagan)

"Now and Here = Nowhere; Éden is now and here, Éden is nowhere." (Campbell)

"Se você não me achar em você, nunca me achará. Pois, tenho estado contigo, desde o começo de mim." (Rumi)

***

Crédito da foto: Gideon Mendel/Corbis (protestantes contra o sistema financeiro europeu fantasiados, abril de 2009)

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2.2.13

Citações (11)

Algumas citações minhas e de outros autores. Elas geralmente já terão aparecido anteriormente na página do Textos para Reflexão no Facebook...


Neste mundo há espaço, e há tempo, tanto para que o mais sábio dos mestres evolua, quanto para o mais ignorante dos discípulos. Quando a sabedoria chega, enfim, não há mais discípulos na ignorância. E, de fato, nem mestres... Em cima do Pé de Feijão mágico há um Céu, e em cima do Céu há uma festa onde todos, mestres e discípulos, entrarão de mãos dadas.

Os convites estão chegando...

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Paganismo: Vem do latim paganus, que significava "camponês", "rústico", "alguém que mora em aldeias". Desde muito cedo, nas primeiras cidades, houveram elites sacerdotais que tentaram ditar qual doutrina religiosa seria dominante, e desde esta época todos aqueles "vindos de fora" eram geralmente considerados inferiores, rústicos, camponeses, seres da periferia - pagãos. Na origem, nenhum pagão chamava a si mesmo de pagão, assim como nenhum gnóstico chamava a si mesmo de gnóstico, mas geralmente de cristão.

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Igreja: O termo grego ekklesia originalmente se referia a principal assembleia da democracia ateniense, na Grécia antiga. Já a palavra latina, ecclesia, de etimologia muito próxima, originalmente significava “um curral, ou abrigo de ovelhas”. Em sua origem etimológica, portanto, a palavra que hoje chamamos “igreja” não necessariamente tinha cunho religioso algum. Mas é a partir do cristianismo que é feita esta associação de “abrigo de ovelhas” com uma comunidade onde os fiéis são as ovelhas e os eclesiásticos, os pastores. O que os pastores têm prometido, é que mediante a fé (fidelidade a Deus), aquele grupo comunitário alcançará, eventualmente, a salvação. Daí a ideia, para muitos de nós equivocada, de que possa existir “uma comunidade dos escolhidos de Deus”, que se salvam, enquanto todos os demais são condenados a arder num lago de enxofre por toda a eternidade.

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Não há como não haver uma festa celestial para cada um de nós quando, finalmente, alcança o Céu.

Isto é, dentro de nós mesmos...

Joseph Campbell, grande estudioso de mitologia do século passado, uma vez concluiu que "o Éden não foi nem será, o Éden é".

É assim que vejo este mito universal... Primeiro foi preciso que comecemos o fruto do conhecimento do bem e do mal, que fossemos expulsos do estágio animal e ignorante, para então retornar aquele estágio de pureza, só que desta vez conscientemente... Não por intervenção divina, mas por mérito próprio.

Eu sei que nem todos creem nisso, mas para mim é uma crença libertadora.

A existência pode ser uma festa. O Éden pode ser aqui e agora; e, as vezes, até mesmo eu consigo dançar no ritmo de sua música...

***

É muito difícil que as pessoas entendam que um milagre (conforme a maioria das pessoas compreende um milagre, pelo menos) seria uma injustiça de Deus para com os seres que vivem em igualdade dentro das leis naturais. Interceder por um ou outro em detrimento dos demais é injusto.

Mas isso não significa que a oração seja inútil, imagino. Penso que a oração serve para que o próprio ser que ora solidifique sua fé, e doe de si mesmo para o outro ser pelo qual está orando. Não que nossa própria energia seja maior que a de Deus, mas as vezes as pessoas "se fecham" para a energia que preenche todo o Cosmos, e orando por alguém, quem sabe não a ajudemos a "se abrir".

Acho que a maior oração que podemos fazer por alguém é amar alguém. E, neste caso, nenhuma palavra (decorada ou não) sequer precisa ser dita para que nossa oração de amor funcione...

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Seria a "escalada do crime" um efeito da "escalada do ateísmo"? Tem gente que gosta de dizer isso a tarde na TV aberta...

Mas, vamos refletir um pouco:
Se os cristãos dizem que os ateus são uma grande minoria, significa que a maioria dos criminosos é cristã. Ora, na verdade, o que faz um criminoso não é sua orientação religiosa ou não religiosa, mas sua moral. Se todo cristão fosse automaticamente um ser de "elevada moral", o paraíso já haveria chegado há tempos.

Eu, que também me considero cristão, não acredito que isto seja a garantia para que eu seja uma pessoa boa. Eu serei uma pessoa boa se for, enfim, uma pessoa boa.

***

Chico dizia que "o telefone só toca de lá para cá". E há muitos espiritualistas que condenam a possibilidade de "ligarmos de cá para lá". Só que Kardec, por exemplo, cansou de fazer ligações assim. Chico decerto teve suas razões para dizer o que disse. Lembrem da quantidade de gente que ia visitá-lo somente pelas mensagens que chegavam, imaginem se ainda se achassem no direito de pedir ao Chico para "ligar para os parentes do lado de lá". Ou seja, há que se analisar o contexto em que Chico se manifestou. Mas, sobretudo, há que se tomar cuidado com a conta das ligações que pretendemos fazer.

(escrito com o auxílio de uma arara)

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"Não digo: eu descobri essa terra porquê meus olhos caíram sobre ela, portanto a possuo. Ela existe desde sempre, antes de mim." 
(Davi Yanomami ; pajé e líder do povo Yanomami)

"Para nós indígenas, a palavra é de grande valor. É através das histórias contadas pelos mais velhos que mantemos viva a nossa identidade e firme a memória da nossa história, o uso e o cuidado com a nossa terra sagrada. Mas, descobrimos nesses 500 anos de colonização que para os não-índios a palavra não vale nada." 
(Carta do Ororubá; IV Assembléia Geral do povo Xukuru do Ororubá)

"Eu não fico deitado sem pensar." 
(Rupawê; velho sábio do povo Xavante, do Mato Grosso)

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Fábio de Melo, católico, dá uma lição sobre como "descrer sem desmerecer"...

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Crédito da imagem: Berndnaut Smilde

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29.1.13

O software angélico que roda no eixo do mundo, parte final

« continuando da parte 2

Eu tendo a pensar o Paganismo como um tipo de alfabeto, de linguagem. É como se todos os deuses fossem letras dessa linguagem. Elas expressam nuances, sombras de uma espécie de significado ou certa sutileza de ideias, enquanto o Monoteísmo é só uma vogal, onde tudo está reduzido a uma simples nota, e quem a emite nem sequer a entende (Alan Moore).

“Watson derrota a humanidade”
Essa foi uma das manchetes para a vitória de Watson, um computador que ganhou dos melhores competidores que a raça humana tinha disponível no Jeopardy!, um jogo de perguntas e respostas da TV americana. Como seus concorrentes humanos, Watson não estava ligado à internet. Tudo o que ele tinha à disposição era uma memória de 15 mil gigabytes com alguns milhões de textos arquivados e uma capacidade de processamento equivalente à de 2.800 micros caseiros. Um computadorzão bem programado, só isso.
Os cérebros humanos por trás são tão importantes que o próprio Watson errou questões por bobeira de programação. Um dos deslizes: perguntaram qual categoria da elite do automobilismo tem o nome de uma tecla de computador. "F-1" era a resposta. Qualquer batedeira tem capacidade de processamento para cruzar uma lista de nomes de teclas com uma de categorias de corridas. Mas a coisa mais próxima que Watson tinha para dizer era "Nascar". Falha dele? Não, dos programadores - a Fórmula 1 é solenemente ignorada nos EUA.
O erro nessas horas é imaginar que as máquinas são uma espécie à parte. Computadores são só alicates e martelos mais complexos. E quando você marreta o dedo não é culpa da natureza do martelo, mas sua, que não soube "programar" a martelada. A vida é melhor com martelos. Com supercomputadores também [1].
O que os bons observadores constatam, portanto, é que não existe nem existirá exatamente uma inteligência artificial, mas apenas uma ferramenta que é a extensão de alguma inteligência natural, que a programou. Computadores somente computam informação, mas são os seres que as interpretam, são os seres que as moldam em suas mentes, e as passam adiante, com uma nova forma e uma nova luz. E quem sabe disso, torna-se, nesta Criação, um cocriador.

Os muwakkals
Os sufis, místicos do Islã, dizem que assim como no corpo físico de um indivíduo muitos germes nascem e se desenvolvem como seres vivos, de forma análoga, existem também muitos seres no plano mental, chamados muwakkals ou elementais. Estes são entidades ainda mais etéreas nascidas do pensamento humano, e assim como os germes vivem no corpo humano, tais elementais sobrevivem de seus pensamentos. Segundo os místicos do Islã, o homem muitas vezes imagina que seus pensamentos não têm vida; ele não percebe que eles são mais vivos do que os germes físicos, e que eles também passam por nascimento, infância, juventude, velhice e morte. Eles trabalham contra ou a favor dos homens de acordo com sua natureza. Os sufis afirmam que os criam, elaboram e controlam. Um sufi os repete e os educa através de sua vida; ele forma seu exército e subjuga seus desejos.
Para os descrentes, a possibilidade de que nossa mente possa criar “pensamentos vivos”, e os educar para que sigam adiante com vidas próprias, pode parecer algo mais próximo do pensamento mágico do que da ciência. Mas, se procurarem saber o que Richard Dawkins, apóstolo do ateísmo, descreveu tão bem em sua obra prima, O gene egoísta, chegarão a um conceito muito próximo dos muwakkals sufi – apenas Dawkins os chamou de memes.
Sejam o que for, entretanto, estamos aqui analisando a possibilidade lógica de que seres possam ser criados “com algum grau de perfeição” do nada, sem passar por evolução alguma. Sejam robôs com inteligência artificial, sejam memes, sejam muwakkals, todos estes são candidatos, mas absolutamente nenhum deles é realmente capaz de se enquadrar no que buscamos. Pois o que buscamos, de fato, não existe: uma ferramenta, um computador, um algoritmo, um pensamento vivo – todos são tão somente extensões da mente que os criou em primeiro lugar, e não seres que evoluem por conta própria. No fim, um robô será sempre um robô.

O Grande Desconhecido
Conforme já dissemos, muitas mitos de criação das mais diversas e antigas culturas humanas falam de um “deus obscuro e ocioso”, que criou tudo o que há, inclusive os demais deuses, e depois se retirou. Olorun, afinal, não aceita oferendas, pois já possuí todas as oferendas do Cosmos, pois que é o próprio Cosmos, e estamos neste momento, como em todos os outros, encharcados por sua substância divina. No Evangelho de Tomé, Jesus também diz que o Reino de Deus se encontra espalhado pela Terra, mas os homens não o veem. No taoismo, o Tao é aquela substância “anterior ao Soberano do Céu”, um “vazio” que a tudo preenche, profundo e inesgotável. Benedito Espinosa a chamou de “a substância que não poderia haver criado a si mesma”. Mesmo o cristão de religiosidade mais superficial a conhece como algum elemento estranho chamado de Espírito Santo...
Mas e qual é o santo, iogue, rabi ou guru, que pode bater no peito e bradar: “Eu sei o que é Deus”? E, ainda que saiba, será mesmo que qualquer outra mente, qualquer outra máquina de interpretar a realidade, poderá chegar exatamente a mesma concepção? Como saber de que forma seu amante lhe ama? Como saber de que forma uma pessoa sente dor?
Para criar uma torta de maçã a partir do nada, antes seria preciso criar todo o universo... Para compreender exatamente como outro ser sente, ama ou sofre, antes seria preciso ser todo o universo.
Seria preciso conhecer o Grande Desconhecido, o Inefável, o Inalcançável, como ele mesmo se conhece. E esta é a aventura, a jornada, o prazer de todo verdadeiro religioso: religar-se a Deus.

O software angélico que roda no eixo do mundo
Tendemos a ver o xamanismo, o politeísmo e o paganismo em geral com certa desconfiança, particularmente no Ocidente. O que o monoteísmo sempre nos ensinou é que os pagãos são incapazes de perceber a mais básica das ideias: que tudo o que existe necessariamente surgiu de algo eterno e incriado, um Deus antes dos deuses... Entretanto, como já vimos, sempre existiram pagãos que sabiam perfeitamente disso, e devemos antes nos sentir orgulhosos destes sábios ancestrais, que muito antes dos hebreus já haviam chegado a tal concepção maravilhosa: a ideia de que há um Deus, uma substância ou ser incriado, anterior a tudo, causa primeira de tudo, o que se opõe ao nada... Aquele quem primeiro disse, quem sabe, “Eu sou”.
Como podemos ter alguma esperança de conhecer este Infinito? Ora, da mesma forma que temos esperança de um dia conhecer todas as leis da Natureza... A ciência nos ensinou, na verdade, uma lição que lhe era ainda muito anterior: separar o Infinito em pequenas partes, em aspectos e reflexos, para quem sabe um dia, estudando e compreendendo, amando e sentindo, uma a uma, cheguemos a uma compreensão melhor e mais profunda daquele Ser que tanto incomodou a Nietzsche: “Eu quero Te conhecer, Desconhecido” – disse o alemão quando ainda jovem, para uma plateia de jovens.
Assim como a ciência elaborou a Biologia, a Física, a Química ou a Neurologia, a mitologia elaborou o Soberano do Céu, Palas Atena, Hermes, Odin, Oxalá, e tantos outros deuses (e orixás) que são tão somente pequenas partes do Uno, aspectos do Infinito... Os deuses são o alfabeto com o qual a mente humana é capaz de reencenar, neste mundo objetivo, os fatos subjetivos de sua própria alma. Toda a mitologia é uma encenação da alma humana, toda a mitologia diz respeito a você: “Você venceu o seu monstro interior? Você morreu para seu lado animal, para renascer, três dias depois, como um novo ser?”.
Mas, seja este Grande Desconhecido quem for, talvez tenha tanta necessidade de nos amar, e reconhecer a si mesmo, através de nós, quanto nós temos esta necessidade ancestral de caminhar em sua direção – cada vez mais adentro. Nesta grande aventura, talvez também sejamos como o João no Pé de Feijão, que precisa escalar o axis mundi, e retornar com a galinha dos ovos de ouro... Ou talvez sejam precisas várias tarefas de Hércules, muitas e muitas aventuras, e inúmeras vidas.
Podemos então precisar de aliados, pois a longa jornada por vezes vai além de nossas capacidades humanas... E se o Grande Desconhecido não pode se revelar ainda, se é ainda muito arriscado que o vejamos face a face, sem estarmos amadurecidos para tal momento, quem sabe ele não nos ajude de outra forma?
Um software é uma sequência de instruções a serem seguidas e/ou executadas, na manipulação, redirecionamento ou modificação de uma informação ou acontecimento. Na mente divina existe tudo o que há, o Todo é mental. Na própria engenharia da realidade, ou mesmo no eixo que liga a Terra ao Céu, e o consciente ao inconsciente, pode sim haver um software rodando sem que o percebamos. Não fomos nós os programadores – os anjos podem ser robôs, portanto, mas robôs programados pelo Grande Arquiteto, o Programador dos programadores, o Deus dos deuses.
Eles são o Seu presente para esta grande aventura, e dizem que existem 72 deles a bailar pelo axis mundi. De vez em quando, um poeta vê uma de suas asas no céu, e de alguma forma sabe que não se trata apenas de um pássaro...

***

[1] O texto dos últimos 3 parágrafos foi retirado de um artigo de Pedro Burgos e Alexandre Versignassi para a revista Superinteressante, edição 290.

Crédito da imagem: Latajace

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11.12.12

Questões infernais

A palavra inferno, que hoje conhecemos, origina-se da palavra latina pré-cristã inferus, que significava "lugares baixos"; foi dela que surgiu o termo infernus. Na Bíblia latina, a palavra é usada para representar o termo hebraico Seol e os termos gregos Hades e Geena, sem distinção. A maioria das traduções ao português seguem o latim, e elas não fazem distinção do original hebraico ou grego.

Geena, do grego, se refere a um lago de fogo. Já o Seol hebraico e o grego Hades parecem se referir a uma mesma ideia, muito anterior à própria Bíblia: um reino dos mortos (que ficava abaixo da terra, daí a conexão com infernus).

Segundo a mitologia grega, os deuses olímpicos saíram vitoriosos da batalha travada contra os titãs (a titanomaquia), e Zeus, Poseidon e Hades partilharam entre si o universo; Zeus ficou com os céus, Poseidon ficou com os oceanos e Hades ficou com o mundo dos mortos, que leva o nome deste deus (além disso, todos eles partilharam a terra igualmente, daí a ideia de que poderiam influenciar os vivos).

A influência de Hades no reino dos vivos é quase que estritamente negativa e maléfica, vinculada à pragas, doenças, destruições e guerras, mas também é tida como influência de desafios, afinal nas tradições antigas, para seguirem o "caminho do herói", testes e provações físicas e psicológicas eram necessárias... Da mesma forma, o reino de Hades, o reino dos mortos, não é um conceito que poderia ser associado somente ao que o cristianismo passou a compreender por inferno.

No Hades as almas eram julgadas por três juízes [1], com responsabilidades específicas: Minos tinha o voto decisivo; Éaco julgava as almas europeias; e Radamanto julgava as almas asiáticas. Nem mesmo Hades interferia no julgamento deles, a não ser em raras ocasiões. Este tipo de julgamento moral se assemelha a concepção cristã do julgamento do final dos tempos, mas o que ocorre com as almas boas? Elas saem do Hades?

Aí é que está: não saem, pois o próprio Hades é um reino com o seu céu e o seu inferno. O céu é conhecido na mitologia grega como Campos Elíseos; o inferno, como Tártaro. Ambos ficam no reino dos mortos, no Hades. Dessa forma, apesar de a mitologia bíblica haver bebido da fonte da mitologia antiga, há algumas contradições importantes... O exegeta bíblico poderá dizer que o cristianismo é uma espécie de refinamento das ideias pagãs anteriores, mas será que isto se sustenta?

Por “refinamento”, quero dizer “interpretação mais espiritualmente aprofundada”. Porém, ocorre que, apesar de tanto a mitologia bíblica quanto a grega concordarem que os mortos são julgados pelas suas obras, o julgamento do deus bíblico me parece mais autoritário e implacável. Dependendo da interpretação, mesmo um ladrão de galinhas pode ser condenado ao inferno. Outro problema é a gradação de penas: na mitologia bíblica, o ladrão de galinhas e o assassino parecem destinados a receber a mesma pena (arder eternamente num lago de fogo); na mitologia pagã, pelo contrário, as penas são dadas de acordo com as faltas, como ocorre num tribunal de justiça terrena. Eu, sinceramente, não vejo refinamento algum nesta exegese bíblica.

Há, em todo caso, uma primeira questão infernal que se aplica ao inferno bíblico: Os bons, aqueles que chegarão ao céu, não ficariam tristes por saber que boa parte de seus familiares e amigos estarão condenados a arder num lago de fogo por toda a eternidade?

Ora, segundo a mitologia grega, no Hades os julgamentos ocorrem após a morte, e não após um juízo final. Ainda assim, a questão persiste... Mas no caso pagão, há muitas interpretações alternativas que dizem que o condenado ao Tártaro pode eventualmente cumprir sua pena e assim se elevar aos Elíseos; Ainda outras teorias, mais antigas, simplesmente afirmam que após o cumprimento da pena no Tártaro o condenado estaria apto a reencarnar na terra. Enfim, no paganismo não haviam dogmas infalíveis, e os mitos eram constantemente reinterpretados.

Mas no mito bíblico nada disso ocorre. Há um julgamento final, e depois cada grupo irá para o seu canto, por toda a eternidade... Ora, de fato, ainda que o inferno cristão não fosse um local de sofrimento eterno, o simples fato de familiares e amigos serem separados pela eternidade inteira seria um motivo de sofrimento... Eterno?

Como se não bastasse esta, há uma segunda questão infernal ainda mais complexa. Segundo a bíblia, o governante do inferno é um anjo que, por haver se corrompido e escolhido o caminho do mal, tornou-se ele próprio o supremo representante do mal – o anjo caído. Eis a questão: Seria este anjo incapaz de arrepender-se, por toda a eternidade? Um anjo, quando cai, e se corrompe, não tem nenhuma, nenhuma oportunidade de se arrepender, de remediar sua situação? Haveria justiça divina nesta ideia?

Se não houvesse o livre-arbítrio, todos seríamos fantoches nas mãos de Deus. Portanto, é preciso a liberdade para que um ser exista enquanto ser, e não enquanto autômato [2]. Dessa forma, se o anjo caído, Lúcifer, não tiver a liberdade para decidir se arrepender, isto significa que ele é mero fantoche nas mãos do deus bíblico – o que equivale a dizer que tudo o que Lúcifer faz seria, no fundo, decidido pelo Mestre dos Fantoches. Eu não sei quanto a vocês, mas acho esta uma ideia absurda.

O exegeta bíblico poderá responder a tais questões infernais de forma superficial, quem sabe: (a) Ao chegar no céu, Deus apaga da memória dos escolhidos todas as lembranças daqueles que foram para o inferno, e dessa forma não sentirão saudades nem sofrerão pelo que ocorre a eles; e (b) Lúcifer simplesmente não se arrependeu, e talvez jamais se arrependa, por isso ainda existe o mal no mundo. Pois bem, vocês acham, honestamente, que tais respostas vagas resolvem essas questões?

Os pensadores contemporâneos têm concepções bem mais profundas e interessantes do mito do céu e inferno. Sejam cristãos, não cristãos, agnósticos, existencialistas, espiritualistas, estudiosos de mitologia, não importa muito, pois este é um mito que toca a humanidade inteira [3]: Não poderíamos interpretar o céu e o inferno como estados da consciência humana?

Seguindo esta bela reflexão, devemos considerar que cada um constrói o seu próprio céu e inferno em sua própria consciência. Portanto, aquele que encontrou Deus dentro de si [4], mesmo no deserto mais árido e seco, estará ainda num Oceano de Amor em sua própria consciência, dentro da alma, que carrega consigo para todo lugar.

E, assim, chegando neste céu, não titubeará nem por um segundo em descer ao inferno [5] para convidar quem lá está a se aventurar neste vasto Oceano. A questão, no entanto, é que apenas um convite não basta: é preciso mergulhar. Somente o ser em si poderá decidir por abandonar os dogmas antigos, e dar este verdadeiro salto de fé no desconhecido, na imensidão da própria alma... Então, quem sabe, alcance o céu. Então, quem sabe, seja salvo – salvo da ignorância.

Mergulhe suave. Os mensageiros orientam!

***

[1] Os juízes não são deuses e sim mortos que devido à sua forte personalidade e seu senso de justiça tornaram-se juízes. Em algumas versões Hades seria o presidente do tribunal dos mortos.

[2] Fôssemos criados “já perfeitos”, não somente não haveria mérito algum de nossa parte em “sermos perfeitos”, como na prática seríamos autômatos, robôs “programados para a perfeição” por algum deus estranho. Isto é, seja lá o que for esta “perfeição”...

[3] A concepção de alguns ditos cristãos que afirma que somente aqueles que aceitam Nosso Senhor Jesus Cristo serão salvos é tão absurda que nem a incluí neste artigo. Para início de conversa, isto seria condenar todos que viveram antes do Cristo, e todos que jamais ouviram falar do Cristo, automaticamente ao inferno. Isto dá um montão de inocentes condenados!

[4] Ou “o amor”, ou “a iluminação”, ou “a vida”, ou “o Cosmos”, ou “o Verdadeiro Eu”, etc.

[5] Como Sartre já disse: “o inferno são os outros”.

Crédito da imagem: John Springer Collection/CORBIS (cena do filme Dante's Inferno)

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26.9.12

A roda dos deuses, parte 1

Há uma lenda bastante difundida entre as religiões ocidentais que afirma, basicamente, que o monoteísmo, a “descoberta” do Deus Único, foi uma concepção originária do judaísmo. Segundo esta lenda, existem no mundo algumas poucas religiões monoteístas, derivadas da crença hebraica, e outras tantas que creem na existência de vários deuses de origem paralela – o chamado politeísmo.

A verdade, no entanto, pode ser mais profunda... Joseph Campbell foi um estudioso de mitos e religiões em todo o globo, e em O poder do mito ele deixa muito claro o que acredita ser a principal diferença entre as grandes religiões ocidentais, e as orientais: Enquanto a oeste do canal de Suez, a maioria das pessoas identifica Deus com a fonte da Alma do Mundo, a leste de Suez, a associação que se faz é a da divindade como o veículo desta energia transcendente.

Por isso as religiões ocidentais tendem a identificar a Deus como um Grande Senhor que, sabe-se lá de onde, mantém a fonte da vida em constante afluência, enquanto que as religiões orientais tendem a ver esta divindade por toda a volta – ela seria o próprio fluido em movimento, a habitar a essência de todos os seres e de todas as coisas.

O curioso é que ambas as visões são complementares, e parecem ser apenas formas diferentes de se observar este grande mistério: “porque existe algo, e não nada?” Para resolver tal questão ancestral, a mente humana tem se aventurado a observar os recônditos mais distantes do Cosmos, e a mergulhar cada vez mais profundamente dentro de si mesma... Este grande conjunto de dualidades, de opostos, emanados de uma única fonte, mas que preenchem a tudo o que há, é precisamente isto a roda dos deuses. Reflitamos:

O Uno
Conta-nos o estudioso de mitologia e religiões, Mircea Eliade [1], que os poetas criadores do Rig Veda hindu já se questionavam, provavelmente muito tempo antes dos hebreus, acerca do problema do ser, ou do incrível fato de, afinal, algo existir: “O Uno respirava por impulso próprio, sem que houvesse inspiração ou expiração (...) Afora isso, nada mais existia”. Depois, segundo eles, através de um ato de desejo e vontade, a “semente primeira” dividiu-se em “alto” e em “baixo”, num princípio masculino e noutro feminino, e depois irradiou ou emanou de si mesma, como um pensamento, tudo o que há.
Desta forma, os milhares de deuses hindus são, eles mesmos, uma “criação secundária”. Daí nasce o grande questionamento de um desses poetas hindus anônimos e ancestrais: “Será que aquele que zela por este (mundo) no lugar mais alto do firmamento é o único a saber (da origem da “criação secundária”) – ou nem mesmo ele sabe?”.
Se é verdade que nem todas as interpretações dos Vedas chegaram a tal profundidade, não é verdade que nenhum sábio hindu tenha chegado a conclusões muito próximas dos hebreus – tudo o que há haveria de ter sido criado ou irradiado de uma só fonte, de um só Deus. Dessa forma, a ideia básica do monoteísmo está longe de ser uma criação do judaísmo, ou pelo menos, apenas do judaísmo.
Esta mesma conclusão está presente no Antigo Egito (particularmente no hermetismo), na filosofia de Parmênides (e alguns filósofos pré-socráticos que não a desenvolveram com a mesma profundidade), no estoicismo, no pensamento de Plotino e, mais recentemente, na monumental obra de Espinosa, a Ética.
Mas, e seria este Uno um ser pessoal, ou alguma espécie de energia inefável, de força ou lei oculta da Natureza? Disto não podemos saber, apenas apostar... Mas, ainda que apostemos na hipótese da energia inefável, ainda aqui teremos sido precedidos por Lao Tsé em muitos séculos: “O Caminho é vazio e inesgotável, profundo como um abismo. Não sei de quem possa ser filho, pois parece ser anterior ao Soberano do Céu” (Tao Te Ching, verso 4).

A Deusa Mãe
A adoração do aspecto feminino, fértil e vivificador da divindade data da pré-história (o que pode ser comprovado pelas inúmeras estatuetas de uma “grande mãe” encontradas pelos arqueólogos em vários pontos do mundo).
Quase 3 mil anos antes de Cristo, na grandiosa cidade de Uruk, na Suméria, o templo de Ishtar dominava a civilização da primeira grande cidade. Ishtar, entretanto, era apenas mais um nome dado a Grande Deusa, que era adorada então por muitas outras culturas na Terra. Nada se comparava ao poder da mulher. Toda a vida provinha dela e sem seu alimento nenhuma vida sobreviveria. A Mãe era a vida. A Terra era a Mãe. Deus era Mulher. O matriarcado dominou grande parte do período em que se cultuou a Deusa Mãe.
Certamente o advento da agricultura contribuiu ainda mais para que o mistério do nascimento ocupasse um ponto central das religiões antigas. A Terra era associada ao ventre e, como os vegetais, os homens nasciam do solo, e voltavam ao solo durante a morte. Provavelmente tais mitos tenham sido a fonte primária dos mitos de criação do homem a partir do solo, presentes não somente na mitologia hebraica como em alguns mitos africanos bastante similares.
Mas com o tempo, e o advento das primeiras cidades (com estoques de grãos), dos saqueadores de cidades, e dos exércitos que guardavam as cidades dos saqueadores, o mundo tornou-se mais bruto e violento, e o matriarcado foi sendo suprimido pelo patriarcado. A Deusa Mãe saía de cena...

O “deus do pai”
Ainda nos conta Mircea Eliade que a religião dos patriarcas hebreus, já desde Abraão, era muito próxima ao culto dos antepassados, prática comum tanto do paganismo como de doutrinas orientais, como o budismo e o xintoísmo. O “deus do pai” é primitivamente o deus do antepassado imediato, que os filhos reconhecem. É um deus dos nômades e pastores, que não está ligado a santuários fixos, mas acompanha e protege um grupo de homens. Ele “se compromete diante de seus fiéis por meio de promessas” – o que fica muito claro nas barganhas relatadas no Antigo Testamento (“faça isto por mim, que farei isto por você”) [2].
Mas ao penetrarem em Canaã, os patriarcas são confrontados com o culto do deus El (o Deus Criador nas culturas suméria e babilônica), e o “deus do pai” acaba por lhe ser identificado [3]. Dessa forma, obtém a dimensão cósmica que não podia ter como uma divindade de famílias e clãs.
O “deus do pai”, o deus dos patriarcas hebreus, torna-se o Deus Criador e, dessa forma, é também associado ao Uno, ao “único Deus”. Mas isto não foi “a origem do monoteísmo”, como dizem as lendas, mas tão somente um dentre muitos sincretismos religiosos similares, que ocorreram não somente em Canaã, como em diversas outras partes do mundo...

» Em seguida, a roda continua a girar com as entidades divinas e os avatares...

***

[1] Alguns dos trechos de livros sagrados nesta série de artigos foram retirados de seu livro, História das crenças e das ideias religiosas, vol I (Zahar).

[2] As barganhas religiosas, onde "se cobra a Deus por sua parte do trato", existem até os dias de hoje. É surpreendente que certas igrejas, que teoricamente são protestantes, ainda hoje colaborem para esta prática de uma espiritualidade tão superficial.

[3] É por isso que o Deus hebreu ora é chamado de Javé, ora de Elohim. Javé seria o “deus do pai”, e Elohim seria sua associação a El.

Crédito da foto: Frederic Soltan/Corbis (O Templo do Sol de Konark, Orissa/Índia)

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25.8.12

Serpentes

As serpentes são nossas velhas conhecidas dos mitos de criação...

Diz-nos o Gênesis que a serpente era a mais astuta de todos os animais do Éden. Javé havia alertado ao primeiro homem e a primeira mulher, Adão e Eva, que jamais comessem do fruto proibido da árvore que estava no meio do jardim, pois que tal ato causaria a morte. Mas a astuta serpente disse a Eva: “Se o comer, certamente não morrerás. Porém, Javé sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Javé, sabendo do bem e do mal”.

Então Eva percebeu que o fruto daquela tal árvore era agradável aos olhos e desejável para o entendimento. Comeu o seu fruto, a depois ofereceu a iguaria também ao primeiro homem. E diz-nos o Gênesis que “então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus”. Eis uma excelente estratégia de Javé e da serpente...

Agora vejam esse trecho de um mito do povo Bassari da África Ocidental [1]: Unumbotte fez um ser humano e seu nome era Homem. Em seguida criou um antílope e o chamou Antílope. Também fez uma serpente chamada Serpente. E disse a eles: “A terra ainda não foi trabalhada. Vocês precisam amaciar a terra onde estão sentados”; e tendo lhes entregado sementes de todos os tipos, prosseguiu: “Plantem todas essas sementes”. Tendo obedecido às ordens de Unumbotte, perceberam que haviam criado um jardim sobre a terra, cheio de frutos os mais variados. Havia um tipo de fruto, entretanto, para o qual Unumbotte alertou que não comessem.

Um dia, porém, Serpente disse: “Nós também devemos comer esses frutos. Porque passar fome?”. Antílope então disse: “Mas não sabemos nada sobre esse fruto”. Então Homem e sua Mulher tomaram o fruto e o comeram. Unumbotte prontamente desceu do céu e perguntou: “Quem comeu o fruto?”. Homem e Mulher foram sinceros: “Fomos nós”. Unumbotte indagou-os: “Quem disse que vocês podiam comer desse fruto?”. Homem e Mulher foram um pouco mais maliciosos: “Foi Serpente quem disse”.

Pobres serpentes que levam a culpa pela suposta corrupção do homem e da mulher, a despeito de conhecimento prévio de Javé e Unumbotte acerca do que viria a ocorrer... Nem era preciso ser onisciente para saber: ofereça a possibilidade de conhecimento oculto, proibido, aos seres ávidos por conhecer, e eles arriscarão tudo por eles, tal qual Prometeu arriscou despertar a ira dos deuses (e de fato a despertou) para entregar aos homens os segredos do seu fogo. Seriam as serpentes e os titãs, seres tão astutos e conhecedores, o “grande mal” personificado, ou antes, meros atores a colaborar com o ainda mais astuto plano divino?

Diversos autores discutem sobre diversas religiões do Oriente Próximo, muitas das quais representavam a Deusa Mãe por uma serpente, e outras por uma simbologia de comunhão realizada pelo ato de comer uma fruta de uma árvore que crescesse perto do altar dedicado à Deusa. Estas deusas também representavam o conhecimento, a criatividade, a sexualidade, a reprodução, os novos ciclos naturais, e o destino [2].

De fato, não foi à toa que Eva levou a culpa do tal Pecado Original, juntamente com a serpente. Há aqui que se considerar que diversas sociedades matriarcais ancestrais foram sendo suprimidas pelo patriarcado. Por muito tempo após o advento da agricultura, as mulheres passaram a organizar a colheita, tornando-se, talvez, mais importantes para a sobrevivência da tribo do que os próprios homens, os caçadores. Tal sucesso, no entanto, fez com que o ser humano prosperasse e se espalhasse pelo mundo. Nalgum dia alguma tribo tornou-se próspera o suficiente para que despertasse uma antiga ideia brutal dos caçadores: “Porque arriscar caçar no campo selvagem, se podemos saquear os grãos e a colheita dessas tribos de ovelhas?”.

Então surgiram os lobos a assustar as ovelhas. Alguns dos lobos se ofereceram para proteger as ovelhas dos outros lobos, em troca de comida. Surgiu o primeiro exército. Os homens voltaram a dominar pela força, e a sabedoria das mulheres no lido com as colheitas e a natureza não era mais tão primordial. Com o tempo os mitos alcançaram tal história. Seguem alguns exemplos sugestivos...

Na mitologia babilônica: A morte da serpente-dragão Tiamat pelo deus Marduk, que divide seu corpo em dois, é considerada um grande exemplo de como ocorreu a mudança de poder do matriarcado ao patriarcado. Na mitologia grega: Na juventude, Apolo matou a serpente Píton, que vivia em Delfos e tomava conta do oráculo de Têmis, e tomou o oráculo para si. Depois foi punido, pois Píton era a filha de Gaia, a Mãe Terra. Ah sim, Apolo também tomou o cuidado de dividir o corpo da serpente em dois.

Finalmente, retornando a Bíblia: Diversos autores modernos analisam a história da criação do Gênesis como uma narrativa alegórica sobre a divindade Javé suplantando a Deusa Mãe, representada pela árvore da vida, e a religião hebraica suplantando este culto. Isto é demonstrado na passagem sobre a origem do pecado em que o conhecimento proibido relaciona-se a sexualidade e a reprodução, especialmente o conhecimento de que os homens participam da reprodução [3].

Eis que achamos à culpada por nosso conhecimento da sexualidade e dos mistérios naturais: a serpente-dragão, a Deus Mãe. Mas, se no Ocidente tais mitos carregaram as serpentes com características supostamente negativas, no Oriente foi algo diferente... Abaixo da Árvore da Iluminação, está o Buda sentado em posição de meditação. Quando uma grande tempestade se aproximou, uma enorme serpente levantou-se acima da caverna subterrânea e envolveu o Buda em sete espirais por sete dias, para não interromper o estado de meditação. Para os orientais, o conhecimento da natureza, não somente científico, mas sobretudo espiritual, pode levar a paz de espírito duradoura e, quem sabe, a grande iluminação interior.

Sim, há grande sofrimento no mundo, e os místicos orientais não negam isso, mas o reafirmam: nada pode ser mais prazeroso do que enfrentar esse sofrimento, e prosseguir no caminho de retorno ao Éden. A diferença é que o Éden não foi nem será – o Éden está aqui neste momento, dentro de nós, e fora de nós, espalhado sobre a terra, e os homens não o veem. Buda o viu, e esta visão o fez caminhar por milhares de quilômetros da Ásia, trazendo a “boa nova” para os desavisados, iluminando o caminho daqueles que combatiam incessantemente a natureza, sem perceber que estavam conectados a ela. Era preciso saber encarar o sofrimento face e face, e se renovar, se reinventar, à todo momento, para que os traumas e as cicatrizes fossem parte de nossa antiga história, de nossa antiga pele, e não mais do momento atual. Deste momento.

A serpente que abraça a terra e os galhos das árvores sagradas sabe: ela já provou do fruto proibido, e amargou, quem sabe, um conhecimento indesejado, o conhecimento do sofrimento e do mal; Porém, foi assim também que obteve o conhecimento da felicidade e do bem, e percebeu que o caminho para a luz da felicidade era infinito, enquanto que o sofrimento se acumulava apenas em sua pele, em sua casca. A serpente aprendeu a trocar de pele, e deixar seus antigos traumas para trás. Todo este veneno antigo não era mais necessário: fez do próprio veneno um antídoto para a vida. Serpenteia sempre renovada, pelos mesmos sulcos de terra criados por suas irmãs. A serpente sabe.

Até quando os seres de pouca visão permanecerão crendo que todo impulso natural é pecado, que a natureza deve ser subjugada, e que o sofrimento deste mundo de nada nos serve que não para esperarmos com ainda mais afinco, com as ancas ainda mais fincadas no solo do dogma, pelo suposto retorno ao antigo estado de ignorância do Éden, quando nada sabíamos e nada conhecíamos, nem éramos conscientes de nós mesmos, mas caminhávamos junto ao Pai Bondoso?

Pois saibam que este foi o grande esquema, a grande lição arquitetada por Javé e Unumbotte, com a ajuda de todas as serpentes do mundo, e com o aval da Deusa Mãe: tirar seus filhos de casa, para que sobrevivam e evoluam por si mesmos, e paguem suas próprias contas.

Está na hora de tornar-se adulto.


Então Ele percebeu, “na verdade Eu Sou essa criação, pois Eu a expeli de mim mesmo”; Dessa forma, Ele se tornou essa criação, e aquele que sabe disso torna-se, na criação, um criador (Upanishads)

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[1] Todas as citações do povo Bassari foram retiradas de O poder do mito, a célebre entrevista de Joseph Campbell para Bill Moyers.

[2] Ver, por exemplo, este artigo de Ana Maria Mendes Moreira: A mulher, o divino e a criação.

[3] Acho proveitoso citar aqui uma das respostas de Chico Xavier no célebre Pinga-Fogo da TV Tupi (1971): “Nós temos um problema em matéria de sexualidade na humanidade, que precisamos considerar com bastante respeito recíproco: se as potências do homem na visão, na audição, na tatilidade das mãos, foram dadas ao homem para a educação e o rendimento no bem, seria então o sexo, em suas várias manifestações, sentenciado às trevas? A criatura humana não é só chamada à fecundidade física, mas também à fecundidade espiritual, transmitindo aos nossos filhos os valores do espírito de que sejamos portadores.”

Crédito das imagens: [topo] Robert Recker/Corbis; [ao longo] Guido Mocafico (Serpens)

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