Pular para conteúdo
14.9.14

O lado animal

Nas tradições místicas em geral o que muitos chamam de "desejos do corpo" está associado ao chamado lado animal. Rumi o chamava de Asno. Mas o interessante é que o lado animal não é algo que exista para ser exterminado, pois neste caso o "extermínio" nada mais será do que o "varrer para debaixo do tapete da consciência". E, quanto mais demônios internos pensamos exterminar, mais e mais Inferno se forma em nosso inconsciente... Até o dia da faxina!

O lado animal não existe para ser exterminado, mas para ser domesticado. E é precisamente nesta domesticação que aprendemos a ser angelicais, por pura dualidade: nos tornamos amigos de nossos demônios internos, os compreendemos e perdoamos, e assim nos tornamos anjos... Afinal, se os anjos moram no Céu, é no Inferno que eles trabalham.

Já o pecado nada mais é do que errar o alvo. Pensar no pecado como algo intransponível e sem solução é, muitas vezes, apenas a desculpa daqueles que desistiram de acertar o alvo. "Já estou no Inferno mesmo, qual a diferença?"... Ora, a diferença é que é exatamente por estarmos no Inferno que devemos buscar o Céu.

O Céu é o alvo, mas não chegaremos lá necessariamente após a vida, nem pelo julgamento de algum deus estranho. O Céu já está espalhado por tudo o que há, só nos faltam olhos preparados para o enxergar!

***

Crédito da imagem: Katerina Plotnikova

Marcadores: , , , , ,

17.1.14

Esperando Jesus, parte 1

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

Após algumas horas num ônibus sem ar condicionado, enfrentando o trânsito usual da saída do Rio de Janeiro para a região serrana, a visão daquela enorme piscina com água azul a refletir o sol de quase meio-dia era a imagem do Paraíso naquele exato momento.

Isto foi há cerca de 20 anos, em 1994, quando eu ainda era um adolescente viajando a convite de minha prima católica com o seu grupo da Igreja. Era um retiro católico formado na maior parte por jovens da Zona Sul carioca. Teoricamente não havia perigo algum, e seria uma excelente oportunidade para conhecer mais do catolicismo. Mesmo assim, houve quem dissesse, na minha família, para “ter cuidado com a lavagem cerebral”...

Eu nunca tive educação religiosa, e mesmo assim sempre me interessei muito por religião. Mas é preciso deixar claro que religião não é o mesmo que igreja: religação a Deus é uma coisa bem distinta de “uma comunidade dos eleitos de Deus”. Eu não buscava nenhuma “salvação”, desta forma, tampouco algum “céu prometido”; queria apenas conhecer a Deus, e a melhor forma sempre me pareceu ser a via da contemplação e da observação de todos aqueles que já estavam aqui antes de mim a buscá-lo – afinal, alguém deve ter achado algum atalho que eu ainda não conhecia.

Mas o atalho para o mergulho naquela piscina me foi barrado. Quando perguntei a uma amiga da minha prima se a gente podia colocar roupa de banho para mergulhar ainda antes do almoço, ela respondeu assim:

“Está doido? Isto aqui é um retiro espiritual; aqui ninguém pode ficar com pouca roupa, e daí ninguém pode mergulhar!”

Eu então pensei comigo mesmo, “Tudo bem, tudo bem, só vamos ficar aqui de hoje para amanhã, não pode ser tão ruim assim”...

Após o almoço simples, mas bastante saboroso, houve uma reunião na pequena igrejinha. Ao todo, o sítio em Secretário, cidadezinha próxima de Itaipava, no meio do caminho entre o Rio e Juiz de Fora, devia contar com cerca de 50 a 60 jovens católicos em retiro (além de mim), e uns 5 a 10 padres e/ou coordenadores. Alguns destes últimos também eram palestrantes, e usaram algumas horas daquele início de tarde para falar sobre passagens da Bíblia, a vida de Jesus, o amor, a fé, etc. – enfim, nenhuma novidade até ali.

Quando as palestras encerraram, entretanto, ocorreu algo curioso: os jovens se reuniram em pequenos grupos de 5 ou 6 pessoas e começaram a conversar entre si sobre a vida de cada um. Isto eu achei bem interessante, pois como era muito tímido, me dava uma oportunidade de “quebrar o gelo” com aquele pessoal na maioria desconhecido até então.

O problema foi quando apareceu um dos padres no nosso grupo, e começou a perguntar sobre “o problema de cada um”. O que se seguiu foi uma espécie de terapia em grupo, onde cada um falava sobre suas inseguranças e angústias, etc. Foi quando finalmente chegou a minha vez:

“Mas, seu padre, eu não tenho problema nenhum, ou pelo menos não me lembro de nenhum em especial para falar agora”.

“Tem certeza, meu filho?” – respondeu o padre com um olhar inquisitivo – “Você não sabe que todos somos pecadores? Confesse-nos um dos seus pecados; confie em mim, vai ser melhor resolver isso logo, e com as bênçãos de Deus!”

Mas a minha prima não me disse de nada daquilo, eu não estava preparado para aquela espécie de terapia – na verdade praticamente um confessionário. Eu nunca havia ido à igreja alguma me confessar e sinceramente não prestava atenção especial a nenhum dos meus pecados...

Assim, como insisti em não me “confessar”, passei a ser malvisto pelo padre e pelos outros jovens do grupo. Achei aquilo tudo péssimo, pois como era bem tímido na época, já começava a imaginar os comentários que se seguiriam, “Sabe o Rafael, primo da Alessandra [1]? Pois é, veio até aqui e não teve coragem de se confessar!”

Muito tempo depois, relembrando o ocorrido, refleti sobre como o ato de confessar, e a certa obsessão com os pecados, é parte tão importante do dia a dia espiritual da maioria dos católicos (eu quero dizer, católicos praticantes). Nunca me pareceu lógica, filosófica ou espiritualmente, a ideia de que Jesus veio a Terra para pagar por nossos pecados na cruz. Ainda que fizesse sentido que alguém pudesse redimir os pecados de outro alguém (e eu não acho que faz sentido algum), o que seria dos novos pecados? Ou será que Jesus teria de retornar a Terra, de tempos em tempos, para ser novamente crucificado e nos redimir? A ideia sempre me pareceu estranha, realmente estranha!

Mas me agradava a ideia de que poderíamos nos redimir de nosso pecados nos confessando. Na verdade a origem etimológica da palavra “pecado” vem de um conceito de “errar o alvo”. E, quem erra o alvo, pode sempre tentar de novo, contanto que não desista deste alvo. O problema não é bem errar, mas insistir no erro, e fingir que está tentando acertar apenas se confessando como quem conversa com um poste (ou um bode [2]), e recitando orações decoradas para “se redimir”.

Ora, sem a alma não dá, não há espiritualidade genuína sem que a alma esteja presente em cada desejo, em cada vontade, até que elas se tornem a boa ação. E a maior das boas ações é a reforma de si mesmo, a alquimia interna, a construção do Céu em nossa própria consciência: um pensamento de cada vez. Acertar um alvo, para então mirar o próximo, ad infinitum!

Em todo caso, na época eu não tinha esta maturidade toda, e optei por me afastar um pouco do grupo e ir caminhar pelos montes em volta da área do sítio, contando vacas e bois nos outros montes próximos, ouvindo o piar dos passarinhos e o som do vento a escorar pelos ombros e pelo gramado que insistia bravamente em crescer em cada palmo de terra... Até que veio o pôr do sol, e eu achei por bem retornar para o quarto onde iria dormir naquela noite.

Foi quando botei os pés no quarto de duas beliches, onde dormiria com três outros jovens (todos homens, é claro), que me deparei com a pergunta mais insólita de todo o retiro:

“Oi, aí está você fujão! Não pense que vai se safar da vigília hoje hein? Me diga aí, você prefere esperar Jesus das 3h até às 3:30h, ou das 4:30h às 5h?”


» Na continuação, Jesus pela madrugada, belas músicas, e orações intensas!

***

[1] Todos os nomes, afora o meu, são fictícios.

[2] Nas cerimônias hebraicas do Yom Kipur, dois bodes eram levados, juntamente a um touro, ao lugar de sacrifício. No templo os sacerdotes sorteavam um dos bodes. Um era queimado em holocausto no altar de sacrifício com o touro. O segundo tornava-se o bode expiatório, pois o sacerdote punha suas mãos sobre a cabeça do animal e confessava os pecados do povo de Israel. Posteriormente, o bode era deixado ao relento na natureza selvagem, levando consigo os pecados de toda a gente.
Na teologia cristã, a história do bode expiatório é interpretada como uma prefiguração simbólica do autossacrifício de Jesus, que chama a si os pecados da humanidade, tendo sido expulso da cidade por ordem dos sacerdotes.

***

Crédito da imagem: William Holman Hunt ("O Bode Expiatório")

Marcadores: , , , , , , ,

16.6.09

Pérolas de Espinosa

Textos de Benedito Espinosa em "Ética" (Editora Autêntica, tradução de Tomaz Tadeu)

Impossível enumerar os grande momentos de pura lógica e razão demonstrados através de uma delicada geometria contidos nas páginas da Ética. Aqui, porém, escolhi algumas pérolas da Quarta Parte - A Servidão Humana ou a Força dos Afetos:

Da perfeição (Prefácio)
Quem decidiu fazer alguma coisa e a concluiu, dirá que ela está perfeita, e não apenas ele, mas também qualquer um que soubesse o que o autor tinha em mente e qual era o objetivo de sua obra ou que acreditasse sabê-lo. Por exemplo, se alguém observa uma obra (que suponho estar inconclusa) e sabe que o objetivo de seu autor é o de edificar uma casa, dirá que a casa é imperfeita e, contrariamente, dirá que é perfeita se perceber que a obra atingiu o fim que seu autor havia decidido atribuir-lhe. Mas se alguém observa uma obra que não se parece com nada que tenha visto e, além disso, não está ciente da idéia do artífice, não saberá, certamente, se a obra é perfeita ou imperfeita. Este parece ter sido o significado original desses vocábulos. Mas, desde que os homens começaram a formar idéias universais e a inventar modelos de casas, edifícios, torres, etc., e a dar preferência a certos modelos em detrimento de outros, o que resultou foi que cada um chamou de perfeito aquilo que via estar de acordo com a idéia universal que tinha formado das coisas do mesmo gênero, e chamou de imperfeito aquilo que via estar menos de acordo com o modelo que tinha concebido, ainda que na opinião do artífice, a obra estivesse plenamente concluída. E não aprece haver outra razão para chamar, vulgarmente, de perfeitas ou imperfeitas também as coisas da natureza, isto é, as que não são feitas pela mão humana.

Da razão (Escólio da Preposição 18, e também mais de acordo com o logos do estoicismo)
Como a razão não exige nada que seja contra a natureza, ela exige que cada um ame a si próprio; que busque o que lhe seja útil, mas efetivamente útil; que deseje tudo aquilo que, efetivamente, conduza o homem a uma maior perfeição; e, mais geralmente, que cada qual se esforce por conservar, tanto quanto está em si, o seu ser. Tudo isso é tão necessariamente verdadeiro quanto é verdadeiro que o todo é maior que qualquer uma de suas partes. Além disso, uma vez que a virtude não consiste senão em agir pelas leis da própria natureza, e que ninguém se esforça por conservar o seu ser senão pelas leis da natureza, segue-se: 1. Que o fundamento da virtude é esse esforço por conservar o próprio ser e que a felicidade consiste em o homem poder conservá-lo. 2. Que a virtude deve ser apetecida por si mesma, não existindo nenhuma outra coisa que lhe seja preferível ou que nos seja mais útil e por cuja causa ela deveria ser apetecida. 3. Finalmente, que aqueles que se suicidam têm o ânimo impotente e estão inteiramente dominados por causas exteriores e contrárias à sua natureza. Segue-se, ainda, que é totalmente impossível que não precisemos de nada que nos seja exterior para conservar o nosso ser, e que vivamos de maneira que não tenhamos nenhuma troca com as coisas que estão fora de nós. (...) Portanto, nada é mais útil ao homem do que o próprio homem. Quero dizer com isso que os homens não podem aspirar nada que seja mais vantajoso para conservar o seu ser do que estarem, todos, em concordância em tudo, de maneira que as mentes e os corpos de todos componham como que uma só mente e um só corpo, e que todos, em conjunto, se esforcem, tanto quanto possam, para conservar o seu ser, e que busquem, juntos, o que é de utilidade comum para todos.

Da sociedade e do pecado (Segundo Escólio da Preposição 37)
Por qual razão (...) os homens, que estão necessariamente submetidos aos afetos e são inconstantes e volúveis, possam dar-se essas garantias recípocras e terem uma confiança mútua. Mais especificamente, é porque nenhum afeto pode ser refreado a não ser por um afeto mais forte e contrário ao afeto a ser refreado, e porque cada um se abstém de causar prejuízo a outro por medo de um prejuízo maior. É, pois, com base nessa lei que se poderá estabelecer uma sociedade, sob a condição de que esta avoque para si própria o direito que cada um tem de se vingar e de julgar sobre o bem e o mal. E que ela tenha, portanto, o poder de prescrever uma norma de vida comum e de elaborar leis, fazendo-as cumprir não pela razão, que não pode refrear os afetos, mas por ameaças. Uma tal sociedade, baseada nas leis e no poder de se conservar, chama-se sociedade civil e aqueles que são protegidos pelos direitos dessa sociedade chamam-se cidadãos. Com isso, compreendemos facilmente que, no estado natural, não há nada que seja bom ou mau pelo consenso de todos, pois quem se encontra no estado natural preocupa-se apenas com o que lhe é de utilidade, considerada segundo a sua própria inclinação. (...) Não se pode, por isso, no estado natural, conceber-se o pecado, mas pode-se, certamente, concebê-lo no estado civil, no qual o que é bom e o que é mau é decidido por consenso, e cada um está obrigado a obedecer à sociedade civil. (...) Por essas razões é evidente que o justo e o injusto, o pecado e o mérito são noções extrínsecas e não atributos que expliquem a natureza da mente [1].

Fazer o bem por temor do mal (Demonstração, Escólio e Corolário da Preposição 63)
Todos os afetos que estão referidos à mente, à medida que ela age, isto é, que estão referidos à razão, só podem ser afetos de alegria e de desejo. Por isso, quem se deixa levar pelo medo e faz o bem por temor do mal não se conduz pela razão.
Os supersticiosos, que, mais do que ensinar as virtudes, aprenderam a censurar os vícios, e que se aplicam a conduzir os homens não segundo a razão, mas a contê-los pelo medo, de maneira que, mais do que amar as virtudes, fujam do mal, não pretendem senão tornar os demais tão infelizes quanto eles próprios. Por isso, não é de admirar que sejam, em geral, importunos e odiosos para os homens.
Pelo desejo que surge da razão buscamos diretamente o bem e evitamos indiretamente o mal.

***

[1] Mas vale lembar que Espinosa defendia que toda a ação dentro das leis da natureza é uma ação boa e útil. Não no sentido egocêntrico, mas no sentido de que, ao seguir a natureza, o ser segue sua potência natural e estará alegre. As ações más não serão más porque a sociedade (ou certas concepções de Deus, por exemplo) às pune, mas porque vão contra a nossa própria natureza, antes de mais nada.

***

Crédito da foto: Laura Cammarata (série sobre os pecados)

Marcadores: , , , , , , , , ,