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10.12.18

A Ilha do Conhecimento (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo falaremos sobre uma metáfora que, embora diga mais respeito a ciência, também pode ser aplicada a outras áreas do conhecimento humano, como a filosofia e até mesmo a religião: se cada vez que expandimos o nosso horizonte de conhecimento a nossa margem com o Oceano do Desconhecido aumenta, será que algum dia poderemos chegar ao ponto de "conhecer tudo"? Haveria uma teoria final unificada para a Natureza? Também veremos como a própria perfeição (ou nossa perfeita compreensão dela) pode muito bem ser mais um sonho inalcançável.

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16.12.12

Redenção

Era um anjo
E, como anjo, havia sido criado
Assim perfeito: angelical

Mesmo corrompido
Caído no mal
Era perfeito...
Perfeitamente oposto a Deus
Perfeitamente em queda
Não importa:
Tudo isso são apenas palavras

Fato é que era um anjo
Do qual dizem os mitos:
Rebelou-se por inveja da humanidade!

Ocorre-me agora que, talvez,
Não invejasse o amor
Com que Deus ama o homem
Mas sim a imperfeição
A sublime imperfeição humana

Que os homens e mulheres
Não surgiram do nada
Já perfeitos
Evoluíram, enfim, como seres
Não como anjos
Não como autômatos programados
Para uma perfeição alheia

Era, dessa forma, um anjo
Que buscou a corrupção
Como há homens
Que buscam a salvação

Porém, mesmo no andar mais baixo do inferno
Percebeu: jamais poderia navegar para fora de Deus
Pois que não há
Nunca houve
Nem haverá
“Fora de Deus”

Esta compreensão é, portanto, sua pena
Sua angústia infernal
Seu tormento mais profundo
E toda
Toda a redenção do mundo

Ó buscador:
Não há “a perfeição” ou “a salvação”
Há apenas este caminho perfeito
Por onde antigas rodas percorrem os velhos sulcos

raph’12

***

Crédito da imagem: Google Image Search (capa de um livro sueco chamado Fallen angel)

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26.10.12

Em crise no Éden

A origem do termo Éden, em hebraico, parece derivar da palavra acade edinu, que deriva do sumério edin. Em todas estas línguas a palavra significa "planície" ou "estepe". No entanto, o Gênesis nos conta que o Éden era uma espécie de jardim das delícias, com os frutos mais variados e suculentos, onde Adão e Eva viviam em felicidade plena, sem envelhecer, ou trabalhar, ou adoecer. O mito nos conta que Deus havia feito este tal acordo com o primeiro homem e a primeira mulher: poderiam viver indefinidamente em seu jardim, sem conhecer a fome e a morte, contanto que jamais comecem do fruto do conhecimento do bem e do mal.

Mas, estranho de se pensar: seria a ignorância a razão de sua felicidade? Adão e Eva eram imortais, mas todo animal é imortal, na medida em que não desenvolveu a consciência e, dessa forma, não sabe que vai morrer. O mito nos conta que eles foram expulsos do Éden, que "tomaram conhecimento de sua própria nudez", mas não seria este momento exatamente o grandioso despertar da consciência humana? O momento em que souberam que eram um ser a parte, com vontade própria? Quando compreenderam que eram como qualquer outro animal, exceto pelo fato de que sabiam que iriam morrer? Neste sentido, a questão da existência não é a morte em si, que é fato, mas sim o que faremos desta vida, desta angústia quase insustentável de termos uma alma, algo tão infinitamente belo e frágil, sem sabermos ao certo o que fazer dela...

Sigmund Freud certa vez disse que houveram três feridas narcísicas [1] na humanidade que tiveram como consequência uma mudança significativa na forma como o homem vê a si próprio. Os três pensadores responsáveis por elas foram Nicolau Copérnico, Charles Darwin e o próprio Freud. Eu tendo a ver a análise de Freud como a análise de uma crise da alma humana, mas todas as crises geram admiráveis oportunidades para a elevação de nossa consciência, ao menos para aqueles que tem olhos atentos nas leis da Natureza:

Não estamos no centro
Inspirado por ideias de manuscritos antigos, Copérnico foi o primeiro cientista moderno a contrariar a ideia comum de que a Terra estava situada no centro do Cosmos, e que mesmo o Sol girava em seu redor. Com o heliocentrismo, que foi posteriormente comprovado por observações de Galileu Galilei, o homem se viu destituído do centro mítico do universo. Assim como Narciso, que só conseguia admirar sua própria imagem refletida no lago, o homem antigo acreditava que habitava a morada central, algum ponto importante do infinito...

Mas, estranho de se pensar: como pode o infinito ter um centro? Que importa se é a Terra que gira em torno do Sol, ou o contrário, se hoje sabemos que tudo se encontra catapultado em direção a tal imensidão, e que mesmo o nosso Sol é somente um dentre bilhões de outros sóis? Ainda que a Terra gire em seu torno, o Sol não está fixado em centro algum, mas viaja pelo Cosmos como um pedaço de poeira ao vento matinal. No Cosmos, afinal, nada se perde, mas tudo flui, e se metamorfoseia, se transforma. Somos formados por poeira de estrelas, e nossos átomos são emprestados do mesmo conjunto de átomos que forma tudo o que há.

Dessa forma, todos os pontos estão igualados - o centro não existe, mas se encontra espalhado por todos os lugares.

Não fomos criados perfeitos
Diz o mito que uma bela ninfa, chamada Eco, estava perdidamente apaixonada por Narciso. Mas o belíssimo rapaz, embriagado pelo próprio reflexo, se julgava um deus e, dessa forma, indigno da afeição de uma mera ninfa... Talvez tenha sido um pensamento parecido que levou o homem a se julgar um ser superior em meio a natureza e aos demais animais. Havia sido criado perfeito, pelo próprio Deus, ainda no Éden, de onde havia sido expulso por desejar adquirir conhecimentos proibidos. Isto tudo foi questionado pela teoria de Darwin e Wallace, que postulava que o homem não havia sido criado como era hoje, mas que veio evoluindo pela árvore da vida, desde uma simples bactéria, por bilhões de anos, e por milhões de espécies distintas.

Mas, estranho de se pensar: como poderia o homem ser uma criação perfeita se, ainda no Éden, havia muitas coisas que desconhecia? Veja bem: o fruto que comeu, e que causou sua expulsão do jardim das delícias, trazia não somente o conhecimento do mal, como do bem. Se o homem não conhecia o mal, tampouco conhecia o bem. Era, dessa forma, um perfeito ignorante - como vimos, nem mesmo conhecia sua própria mortalidade.

Hoje sabemos, através da biologia, que o homem não surgiu do nada, nem tampouco é perfeito, mas que evoluiu através das adversidades, de sua relação com o meio ambiente a volta. Darwin disse que através da "guerra da fome e da morte", a evolução das espécies "tendia a perfeição". Mas a perfeição a que ele se referia não era uma perfeição final, derradeira, mas um eterno "vir a ser", um aprendizado sem fim. Não há nada mais sinistro do que a perfeição, se o próprio universo fosse perfeitamente simétrico desde o início do espaço-tempo, matéria e anti-matéria teriam se aniquilado mutuamente, e nada mais haveria do que vácuo e vazio - nenhum lampejo de luz numa escuridão fria, simétrica. Para nossa sorte, a Natureza nunca foi totalmente perfeita. E, quem somos nós, senão crianças em constante aprendizado?

Dessa forma, todos temos de seguir nesta trilha ancestral - a perfeição está no caminho, e não na chegada.

Não conhecemos sequer nossa casa
Coube ao próprio Freud redescobrir o inconsciente humano, aquele mesmo que se mostrava, antigamente, nos mais variados mitos. Pois que mitos nada mais são do que os fatos da mente encenados em ficções, histórias que eram passadas adiante pelos contadores e menestréis... Diz ainda o mito de Narciso que Némesis, a deusa da vingança e da ética, condenou-o por haver ignorado solenemente o amor da ninfa, que terminou por definhar em desilusão. Mesmo o próprio Narciso, condenado a contemplar sua bela face no lago, terminou por definhar e morrer, assim como Eco. Mas, quando foram buscar seu corpo, encontraram apenas uma flor, a flor da alma que havia morrido para a beleza do ego, e agora contemplava uma beleza ainda mais profunda.

Se antes Narciso andava distraído por sua própria beleza, e não observava o mundo a volta, agora havia morrido, e renascido. Um belo mito, que demonstra que nem todas as punições divinas são aquilo que imaginamos a primeira vista. Némesis teve sim compaixão, mas sobretudo senso de justiça: todos, afinal, precisam reavaliar seus atos, até que se conheçam verdadeiramente, até que compreendam os meandros e os monstros de seu próprio inconsciente.

Se Freud encontrou tantos traumas e tanta escuridão nas mentes mais comuns, é porque a era moderna carece de seus mitos, de modo que somente alguns poucos conseguem ser, ainda, psicólogos de si mesmos. Toda a filosofia se encontra aí: autoconhecimento. A filosofia é a verdadeira autoajuda, e conhecer aos próprios pensamentos, sem medo, sem culpa, é a única forma de lapidar a alma, transformar chumbo em ouro, e renascer, como a lótus, em meio ao charco dos desejos desenfreados - agora, devidamente controlados pela vontade.

Dessa forma, foi preciso que uma grande crise se abatesse sobre a alma para que percebêssemos o que somos - hóspedes em nossa própria mente, mas sempre a procura do Anfitrião.

O despertar
Assim como Narciso, Adão e Eva despertaram para uma existência própria, e deixaram de contemplar a Deus - seja indiretamente, pelo amor a própria beleza, seja diretamente, pelo espanto ante tal imenso jardim. Estavam em crise em meio ao próprio Éden, mas tal crise lhes trouxe a oportunidade de serem, enfim, seres que possuem vontade. E assim que puderam, finalmente, escolher por conta própria, escolheram caminhar a frente, em Sua direção, para não somente contemplar, mas compreender... E, em compreendendo, tornarem-se nesta Criação, cocriadores!

***

[1] Referência ao mito de Narciso, que ainda é revisitado ao longo do artigo.

Crédito da imagem: Robert Recker/Corbis

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1.11.10

Uma imagem, uma reflexão (7)

"Eu vi a perfeição da Natureza, e também vi sua imperfeição. Me perdoem, pois não sei qual é a mais bonita..."

***

Texto de Marcelo Gleiser em "Criação Imperfeita" (Ed. Record) - Trechos das páginas 206, 209 e 210. Os comentários entre chaves são meus:

A água e o gelo tem propriedades espaciais bem diferentes. Enquanto a água é homogênea, isto é, em média aparenta ser a mesma em todos os pontos do volume que ocupa, o gelo não tem essa simetria: ao congelarem, as moléculas de água adquirem um arranjo espacial bem específico, formando uma rede cristalina hexagonal, parecida com uma colméia de abelhas. Átomos de oxigênio ocupam cada um dos seis vértices dos hexágonos, enquanto os dois átomos de hidrogênio alinham-se ao longo das conexões entre os vértices. Essa simetria em seis lados das redes cristalinas de gelo determina a belíssima simetria hexagonal dos flocos de neve, que são manifestações macroscópicas de uma simetria microscópica. Mesmo que os cristais tenham uma alto grau de simetria, a água líquida é ainda mais simétrica, pois é a mesma em todas as direções [considerando apenas a simetria, uma poça d'água é "mais perfeita" do que um cristal de gelo como o acima].

[...] Inicialmente, a temperaturas acima de zero grau, a água é homogênea e não vemos qualquer sinal de cristais de gelo se formando. Quando a temperatura cai, começamos a perceber pequenas regiões onde a água começa a congelar. Os minúsculos cristais de gelo são as sementes, ou "pontos de necleação", da transição de fase [estado líquido para estado sólido]. Na prática, essas sementes surgem devido à presença de impurezas. É isso que ocorre quando chove ou neva. O vapor d'água do ar resfriado vira uma gotícula líquida (se condensa) em torno de um grão de poeira. Se a condensação ocorre próxima ao solo, vamos gotas de orvalho próximas ao solo ou no chão. Se ocorre na atmosfera, a condensação forma nuvens. Quando a temperatura cai o suficiente, uma gotícula pode congelar, induzindo as gotículas vizinhas a fazer o mesmo. Como gelo é mais frio do que água, esse processo libera calor, ocorrendo fora de equilíbrio térmico. O equilíbrio só é restaurado quando todo o sistema é convertido para uma única fase. Como observamos nos nossos congeladores, uma vez que a água congela, nada de muito interessante ocorre; equilíbrio é a ausência de mudança [sem as imperfeições e desequilíbrios dos primeiros minutos do universo, nós não estaríamos aqui para admirar sua beleza - na perfeição e na imperfeição].

***

(clique na imagem para abrir em tamanho maior)

Crédito: Foto de cristal de gelo tirada através de microscópio especial, por Kenneth G. Libbrecht.

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21.7.10

Reflexões sobre a perfeição, parte 4

Continuando da parte 3

O caminho do pólen

Se há algo de comum em todas as doutrinas religiosas, é a idéia do retorno, de re-conexão com Deus, o Cosmos, um Éden perdido nos confins de nossas origens... Alguns de nós podem sentir a fornalha cósmica que arde em nosso ser, e vislumbram a perfeição na totalidade da obra divina, em eterna vibração, em eterna construção, em belas simetrias e assimetrias, em leis imutáveis... Entretanto, onde estará o Éden. Onde se encontra o Reino de Deus?

Esse sentimento, entretanto, não é exclusividade dos religiosos. Aqueles que não conheceram pouca ciência também o expressam. Carl Sagan, apesar de ter sido agnóstico, foi uma dos autores com maior espiritualidade expressa e evidente em seus textos:

"Recentemente, aventuramo-nos um pouco pelo raso (do Cosmos), talvez com água a cobrir-nos o tornozelo, e essa água nos pareceu convidativa. Alguma parte de nosso ser nos diz que essa é a nossa origem. Desejamos muito retornar, e podemos fazê-lo, pois o Cosmos também está dentro de nós. Somos feitos de matéria estelar, somos uma forma do próprio Cosmos conhecer a si mesmo."

Sim, existem seres que não conheceram pouca religião, e buscam o Reino de Deus em todas as formas e todos os campos, pois que sabem que em nenhum lugar estaremos nalguma dia fora dele... Mas decerto também existem seres que não conheceram pouca ciência, e O buscam nos limites dos átomos e nas ondas luminosas mais antigas do Cosmos. Buscam-No mesmo sem acreditar Nele? Que seja – como julgar? Deixem que busquem o próprio Cosmos!

Mas então, como se religar? Como retornar ao Éden perdido? Talvez o primeiro passo seja reconhecer que o julgamento da perfeição, a reconciliação com tal paradoxo, esteja ainda além de nossa compreensão atual...

Existe um conto espiritualista, de autoria desconhecida, que fala da importância da espontaneidade:

“Agora, eu lhe pergunto, quão longe você acha que uma flor chegaria se de manhã ela virasse sua face para o céu e dissesse:

"Eu exijo o Sol. E agora eu preciso de chuva. Então eu a exijo. E exijo que as abelhas venham e tomem meu pólen. Eu exijo, portanto, que o Sol deva brilhar por certo número de horas, e que a chuva deva verter-se por certo número de horas... E que as abelhas venham – as abelhas A, B, C, D e E, pois não aceito que nenhuma outra abelha venha.

Eu exijo que a disciplina opere, e que o solo deva seguir meu comando. Mas eu não permito ao solo qualquer espontaneidade própria. E não permito ao Sol nenhuma espontaneidade própria. E não concordo em que o Sol saiba o que está fazendo. E exijo que todas estas coisas sigam minha idéia de disciplina"

E quem, eu lhe pergunto, iria ouvir? Pois, na espontaneidade milagrosa do Sol, há uma disciplina que lhe escapa totalmente, e um conhecimento além de qualquer um que você conheça.

E na espontaneidade da atuação das abelhas, de flor em flor, colhendo ao pólen mesmo sem saber, há uma disciplina além de qualquer uma que você conheça, e leis que seguem o conhecimento delas, e contentamento que está além de seu comando.

Pois a verdadeira disciplina, veja, é encontrada apenas na espontaneidade. E a espontaneidade conhece sua própria ordem.”

Viver o aqui e agora – esta é a condição para que possamos visualizar os portais do Éden... Mas como adentrá-lo finalmente?

Epicteto e os estóicos diziam que não devemos nos preocupar com aquilo que não nos é dado escolher. No entanto, ao que nos é dado escolher, devemos nos portar da melhor forma possível. Devemos reconhecer nossa imperfeição, mas devemos também ter sempre em nossos horizontes a perfeição do “vir a ser”...

E nesse momento, admirando a perfeição estendida pelo horizonte, poderemos dar os primeiros passos no caminho do pólen – apenas um dentre tantos outros cantos sagrados dos indígenas (ou de qualquer outro povo) que servirá para nos guiar nessa trilha:

Na casa da vida eu me aventuro
No caminho do pólen
Com um deus enevoado eu me aventuro
No caminho do pólen
Para uma dimensão sagrada
Com um deus à frente eu me aventuro
E um deus atrás de mim
Na casa da vida eu me aventuro
No caminho do pólen

Ah! A beleza à minha frente
A beleza atrás de mim
A beleza a minha direita, e a minha esquerda
A beleza acima e a beleza abaixo
Eu estou no caminho do pólen!

O Éden não foi, nem será, mas o Éden é este momento – o único momento que sempre existiu. A eternidade irradia-se por todos os cantos do espaço e do tempo, todos os pontos estão igualados – eis a bela simetria que a ciência vislumbra...

Mas o caminho para o centro, para a essência, para a divina flor que espalhou todo esse pólen pelo infinito – este está e sempre esteve em nossa própria consciência. Quando adentramos esse caminho, pouco importa quanto tempo resta para chegar ao céu, pois que compreendemos que a perfeição se encontra no caminhar, e não no chegar. Eis que mesmo este paradoxo pode ser reconciliado. Eis que todas essas meias-verdades apontam para uma única verdade – que infelizmente não pode ser descrita por cascas de sentimento...

É preciso se aventurar no caminho!

***

Crédito das imagens: [topo] Lauren Bishop, [ao longo] Joel Nakamura (ilustração baseada no mito do caminho do pólen, dos índios navajo)

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20.7.10

Reflexões sobre a perfeição, parte 3

Continuando da parte 2

Em busca da Teoria do Tudo

Tenho um amigo matemático – Guilherme Tomishiyo – que ousa afirmar que a matemática é mais arte do que ciência. Vejamos seu pensamento acerca do assunto:

“O motivo pra mim da matemática não ser uma ciência, ao menos uma ciência natural – que estuda a natureza –, é que ela não parte de observações da mesma.

Um matemático não analisa um aspecto do mundo natural e tenta traduzir aquilo. Ele parte de axiomas e constrói daí um sistema lógico. Eu diria que ela é o estudo dos padrões. Quem estuda matemática sabe que números são apenas uma parte, a grande maioria dela não está nem um pouco relacionada com isso.

Uma coisa que eu acho estupidamente bela na matemática é o seu aspecto ontológico. Daqui a mil anos, podemos descobrir que Einstein esteve errado, e a sua teoria inteira não passava de um caso particular de uma teoria mais geral (como foi com Newton), mas daqui a 10 mil anos, o Teorema de Pitágoras continuará sendo verdadeiro, assim como todos os teoremas já demonstrados até o momento.

O teor artístico da matemática é inegável. A criatividade – mesmo para conjecturar alguns fatores – é sublime.”

Por muitos e muitos anos a física experimental esteve sempre à frente da física teórica – primeiro a natureza era observada, experimentada, e somente após os cientistas tentavam explicar o mecanismo natural através de suas equações e teorias... Ultimamente, entretanto, isto se inverteu...

Desde a formulação das teorias da relatividade e da mecânica quântica, os físicos vêm tentando unir todas as forças da natureza em uma espécie de Teoria do Tudo. Assim como Maxwell conseguiu unificar a eletricidade e o magnetismo em uma elegante matemática, Einstein e muitos outros gênios científicos vêm tentando unir o eletromagnetismo as forças nucleares (forte e fraca) e a gravidade. Até agora, a única teoria que obteve sucesso considerável foi à teoria das supercordas ou Teoria-M (não me pergunte sobre o que significa o “M”).

Essa teoria postula que os elementos mais fundamentais da matéria não são pontos e/ou partículas, e sim cordas muito, muito pequenas, em eterna vibração... Da amplitude de suas vibrações partículas de maior ou menor massa são criadas, e o universo se trona uma elegante sinfonia cósmica.

O grande problema da Teoria-M, entretanto, é que ela não pode ser testada! Não dispomos da tecnologia necessária para chegar sequer próximo da energia necessária para detectarmos uma supercorda (ou p-brana). Entretanto, físicos de toda a parte do mundo a estudam a décadas, simplesmente porque sua matemática lhes parece bela e simétrica, com a vantagem de que a gravidade se adequou as suas equações desde os primeiros esboços da teoria. Mas, seria esse sentimento de beleza suficiente para garantir a veracidade de uma teoria?

Brian Greene, um dos grandes defensores da Teoria-M, admite que a simetria da natureza atraí certos cientistas:

“Os cientistas descrevem duas propriedades das leis físicas - o fato de que elas não dependem da ocasião (tempo) ou do lugar (espaço) em que foram invocadas - como simetrias da natureza. Com isso eles querem referir-se ao fato de que a natureza trata todos os momentos do tempo e todos os lugares do espaço de forma idêntica - simétrica -, fazendo com que as mesmas leis estejam em operação em todas as partes. O efeito causado por essas simetrias é o mesmo que exercem na música e na arte em geral - o de uma profunda satisfação; eles revelam ordem e coerência no funcionamento da natureza. A elegância, a riqueza, a complexidade e a diversidade dos fenômenos naturais que decorrem de um conjunto simples de leis universais é parte integrante do que os cientistas querem dizer quando empregam o termo "beleza".”

Já o físico brasileiro Marcelo Gleiser recentemente passou a criticar ferozmente esse tipo de “utopia estética” na ciência:

“A noção de que a natureza é perfeita e pode ser decifrada pela aplicação sistemática do método reducionista precisa ser abolida. Muito mais de acordo com as descobertas da ciência moderna é que devemos adotar uma abordagem múltipla, e que junto ao reducionismo precisamos utilizar outros métodos para lidar com sistemas mais complexos. Claro, tudo ainda dentro dos parâmetros das ciências naturais, mas aceitando que a natureza é imperfeita e que a ordem que tanto procuramos é, na verdade, uma expressão da ordem que buscamos em nós mesmos.
 
É bom lembrar que a ciência cria modelos que descrevem a realidade; esses modelos não são a realidade, só nossas representações dela. As "verdades" que tanto admiramos são aproximações do que de fato ocorre. As simetrias jamais são exatas. O surpreendente na natureza não é a sua perfeição, mas o fato de a matéria, após bilhões de anos, ter evoluído a ponto de criar entidades capazes de se questionarem sobre a sua existência.”

Espinosa concluiu que o conceito de perfeição só pode ser aplicado às obras humanas, pois que essas podem já ter terminado... Como os quadros e as esculturas dos grandes artistas da Renascença. Talvez o mesmo possa ser dito dos teoremas matemáticos – que são perfeitos porque já foram terminados... Mas, e o que isso tem a ver com a natureza, com a imensidão cósmica a nossa volta?

Eu disse que muita ciência e/ou muita religião nos aproximam e desvelam a Deus... Mas não seria então um “deus imperfeito”? Um “deus ausente” que irradiou o Cosmos à partir de si mesmo somente para deixar-nos a mercê desse eterno baile de partículas e poeira? Existe algum sentido em todo esse infinito a nossa volta? Onde estará à perfeição prometida pelos profetas, o céu que aguardamos para descansar?

Isso nós descobriremos a seguir, seguindo pelo caminho do pólen (dentre outros)...

***

Crédito da imagem: mib_hr

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Reflexões sobre a perfeição, parte 2

Continuando da parte 1

O paradoxo da perfeição

Espinosa nos será de valioso auxílio na definição mais aprofundada da perfeição:

“Quem decidiu fazer alguma coisa e a concluiu, dirá que ela está perfeita, e não apenas ele, mas também qualquer um que soubesse o que o autor tinha em mente e qual era o objetivo de sua obra ou que acreditasse sabê-lo. Por exemplo, se alguém observa uma obra (que suponho estar inconclusa) e sabe que o objetivo de seu autor é o de edificar uma casa, dirá que a casa é imperfeita e, contrariamente, dirá que é perfeita se perceber que a obra atingiu o fim que seu autor havia decidido atribuir-lhe. Mas se alguém observa uma obra que não se parece com nada que tenha visto e, além disso, não está ciente da idéia do artífice, não saberá, certamente, se a obra é perfeita ou imperfeita. Este parece ter sido o significado original desses vocábulos. Mas, desde que os homens começaram a formar idéias universais e a inventar modelos de casas, edifícios, torres, etc., e a dar preferência a certos modelos em detrimento de outros, o que resultou foi que cada um chamou de perfeito aquilo que via estar de acordo com a idéia universal que tinha formado das coisas do mesmo gênero, e chamou de imperfeito aquilo que via estar menos de acordo com o modelo que tinha concebido, ainda que na opinião do artífice, a obra estivesse plenamente concluída. E não aprece haver outra razão para chamar, vulgarmente, de perfeitas ou imperfeitas também as coisas da natureza, isto é, as que não são feitas pela mão humana.”

De acordo com Espinosa, somente as obras humanas podem ser – talvez – perfeitas, porque somente essas estarão algum dia concluídas... Observamos os quadros de Da Vinci ou as esculturas de Michelangelo e somos praticamente obrigados a admitir que ali não falta nenhuma pincelada, nenhuma lasca a ser lapidada. Essas obras são perfeitas não pela sua utilidade prática e/ou física, mas pela impressão que provocam na alma dos admiradores.

Já as obras naturais estão em constante afloramento. Tudo vibra, tudo se movimenta e se influencia mutuamente, tudo evoluí – a matéria rumo a desordem, e a vida rumo a alguma espécie de perfeição... Foi o próprio Darwin que afirmou que o desenvolvimento das espécies tendia a perfeição, e disse mais:

“Há grandeza nesta concepção de que a vida, com suas diferentes forças, foi alentada pelo Criador num curto número de formas ou numa só e que, enquanto este planeta foi girando segundo a constante lei da gravitação, desenvolveram-se e se estão desenvolvendo, a partir de um princípio tão singelo, infinidades de formas as mais belas e portentosas.”

A natureza é, portanto, um eterno “vir a ser”... Uma obra inacabada, sendo esculpida e imaginada pelas leis naturais desde que algo surgiu da substância primeira... A substância que não poderia ter criado a si mesma, e que por isso mesmo – como nos explica tão bem Espinosa em sua “Ética” – há de ter irradiado tudo o que há de si própria, como o pólen exalado pelas flores.

Quando se pensa sobre o início do universo, os primeiros momentos após o Big Bang, e se percebe que se não fosse por uma assimetria entre a matéria e a anti-matéria, além de várias outras assimetrias e/ou “ajustes” mais ocultos, não existiriam estrelas, nem planetas, e muito menos vida biológica, chegamos à conclusão de que nossas utopias acerca da perfeição talvez tenham sido um pouco apressadas...

Afinal, o que há de mais perfeito do que o vácuo, o vazio? Tudo ordenado. Nenhum som. Nenhum movimento brusco. Nenhum pensamento desordenado. Nenhuma luz... Apenas a perfeita escuridão do Grande Nada. Em realidade, nada seria mais terrível e assombroso do que esta perfeição.

Porém, por alguma razão, a substância primeira não irradiou a tudo de forma perfeita, absolutamente simétrica, ordenada... Assim como até hoje podemos perceber – através dos instrumentos que possibilitaram os experimentos da física quântica – que no seu estado mais fundamental a realidade é um baile frenético e caótico de partículas, nada nos diz que essa idéia de perfeição absoluta seja realmente perfeita!

A perfeição é um conceito humano. Como tal, talvez possa ser aplicado as grandes obras de arte, as mais belas músicas e poesias, a mais sofisticada literatura... Mas, no campo natural, tal conceito torna-se um paradoxo. O paradoxo da perfeição: quando o imperfeito é perfeito, e vice-versa.

Afinal, se Deus houvesse criado seres perfeitos, não seriam seres e sim máquinas, robôs programados para uma perfeição artificial... A perfeição da “benção divina”, e não da conquista própria, da edificação de nossa própria obra. O Cosmos é uma obra de arte, sim, não há duvidas... Mas não é humana, é divina – e como tal, ainda está sendo edificada (ao menos dentro do tempo dos homens).

Carl Sagan dizia que nós somos uma forma do Cosmos conhecer a si mesmo... Ao alcançarmos a consciência, chegamos ao estágio em que podemos caminhar com as próprias pernas, pensar por nós mesmos, e não mais apenas participar da criação como figurantes, mas como verdadeiros agentes criativos.

Aqueles que conheceram pouco da ciência talvez tenham se afastado de um deus humanizado, incompatível com a imensidão cósmica. Da mesma forma, aqueles que conheceram pouco da religião talvez tenham sido ludibriados por um deus que opera por barganhas – prometendo o céu a alguns de seus escolhidos –, incompatível com a infinita diversidade da vida.

Entretanto, aqueles que arriscaram olhar um pouco mais profundamente na noite de sua própria alma talvez tenham achado mais estrelas do que escuridão e vazio... Talvez tenham, como Espinosa, encontrado a evidência da substância primeira, aquela que não pode ter criado a si mesma. Aquela substância que, desde os primórdios do Cosmos, vêm tecendo uma bela teia imperfeita, mas que tende a perfeição...

A seguir, a busca da perfeição na ciência – seria a matemática uma arte?

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Crédito da foto: Kenneth Libbrecht/Visuals Unlimited/Corbis (cristal de gelo - não absolutamente simétrico, ademais belo)

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19.7.10

Reflexões sobre a perfeição, parte 1

A perfeição é um estado de completude e ausência de falhas. Normalmente atribuímos a perfeição a um Criador, um Ser Perfeito ou as Leis da Natureza.

Natureza imperfeita

Ante a grandiosa perplexidade que a observação profunda da natureza nos imprime a alma, somos inexoravelmente levados a crer que o Cosmos – tudo o que há, que foi ou que será – é perfeito. Apesar de ser muitas vezes complexo para nós definir tal perfeição, quase sempre a associamos com a beleza, a simetria, a homogeneidade das formas naturais.

Na geometria a perfeição parece estar associada ao círculo: um espaço onde todos os pontos estão à mesma distância do centro, e conseqüentemente não temos nenhum ponto em posição privilegiada em relação aos demais. Essa igualdade nos parece sublime, e muitas vezes a tentamos traduzir para a realidade, tanto que muitos símbolos e signos da geometria sagrada se baseiam ou contém o círculo... Entretanto, ainda temos o ponto central do círculo – este está em posição privilegiada, na medida em que está a mesma distância de todos os demais. O centro é necessário para que os outros pontos se sintam em igualdade. Retire o centro e teremos novamente uma guerra em busca do ponto de superioridade. É mais simples supor que Deus está no centro. A mente de Deus, o motor inicial do Cosmos, a essência da natureza – aí está a perfeição!

Porém, quando aplicamos essa noção ao espaço-tempo, não temos o resultado que esperaríamos. Segundo a cosmologia, é impossível definir um “centro espacial” do universo. Certamente segundo a teoria do Big Bang, toda a matéria e energia cósmica foi catapultada de um mesmo “ponto inicial”, mas o espaço-tempo cresceu por igual em todas as direções. É como se o próprio centro crescesse ele mesmo, e não os pontos que estavam a sua volta... Nenhum ponto do universo está “em torno de algum centro”, pois que todo o espaço-tempo é ele mesmo um único ponto original que simplesmente cresceu rumo ao infinito. Não há nada fora nem além do universo – e, se é que há, haverá de ser o que o criou.

Costuma-se imaginar que a natureza é perfeita. Perfeita, simplesmente porque é o que havia já aqui muito antes de nós chegarmos (ou pelo menos, muito antes de nossa lembrança de estarmos conscientes da chegada). Como imaginar uma natureza imperfeita? Como imaginar falhas no projeto da criação? A ciência tem descoberto algumas...

Por exemplo: a grama é verde por causa do pigmento clorofila, que absorve as regiões azuis e vermelhas do espectro eletromagnético da luz solar. Por causa dessas absorções a luz que a grama reflete nos parece verde. Entretanto, as regiões verdes e amarelas do espectro da luz solar são as mais energéticas. Portanto, se formos pensar em perfeição no sentido de funcionalidade, a fotossíntese das plantas traria muito mais energia química caso a clorofila absorve-se as regiões verdes e amarelas do espectro, ao invés de absorver as regiões azuis e vermelhas. Seria isso um “erro de design” da natureza?

Não paremos por aqui. Se a grama parece ter “escolhido a cor errada”, mesmo o tão aclamado “projeto homo sapiens” parece ter os seus erros... Soluços, por exemplo, que variam de um aborrecimento passageiro a uma doença que pode durar meses ou, em raríssimos casos, anos. O soluço é provocado por um espasmo de músculos na garganta e no peito. O som característico é produzido quando inspiramos ar repentinamente enquanto a epiglote, uma aba de tecido macio localizada no fundo da garganta, se fecha. Todos esses movimentos são involuntários; soluçamos sem nem pensar no assunto. Os soluços revelam pelo menos duas camadas da nossa história evolutiva: uma parte compartilhada com os peixes e outra com os anfíbios, de acordo com uma teoria bem fundamentada [1].

Herdamos dos peixes os nervos principais usados na respiração. Um desses conjuntos de nervos (frênico) estende-se da base do crânio ao tórax e ao diafragma. Esse caminho sinuoso cria alguns problemas; qualquer coisa que interrompa o trajeto desses nervos pode interferir na respiração. Uma simples irritação pode deflagrar os soluços. Um projeto arquitetônico mais radical do homo sapiens teria colocado o início dos nervos frênicos em local mais próximo do diafragma e não do pescoço.

Já o soluço em si parece ter vindo do passado em comum com os anfíbios. Quando usam a respiração braquial, eles enfrentam um grande problema – precisam bombear água para a boca e garganta e depois para as brânquias, mas essa água não pode entrar nos pulmões. Como conseguem isso? Enquanto inspiram, eles fecham a glote, impedindo que a água escoe pelas vias respiratórias. Pode-se dizer que eles respiram com as brânquias usando uma forma estendida de soluço. Remexendo em nossa história evolutiva, vemos que uma boa parte dela se deu em oceanos, córregos e savanas – e não em cidades, igrejas ou academias.

Para muitos religiosos, essa “ousadia” em se criticar a natureza suscita um senso de ingratidão, de falta de respeito... Provavelmente são os mesmos que criticam qualquer tentativa dos biólogos e geneticistas de “intervir” na natureza – clonando, modificando, até mesmo adicionando informações a obra divina.

Louis Pasteur dizia que “uma pouco de ciência nos afasta de Deus. Muito, nos aproxima”. Eu gostaria de estender essa citação a religião: “um pouco de religião nos esconde a Deus. Muito, nos mostra-O em todo o Seu esplendor”... Para tentar lhes demonstrar o que eu quero dizer com isso, é preciso primeiro falar sobre o paradoxo da perfeição...

Na continuação, as imperfeições que geraram o Cosmos, e uma visão mais aprofundada do que é realmente a perfeição.

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[1] Para saber mais consultar “A história de quando éramos peixes”, de Neil Shubin (Ed. Campus).

Crédito da foto: James L. Amos/Corbis

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16.6.09

Pérolas de Espinosa

Textos de Benedito Espinosa em "Ética" (Editora Autêntica, tradução de Tomaz Tadeu)

Impossível enumerar os grande momentos de pura lógica e razão demonstrados através de uma delicada geometria contidos nas páginas da Ética. Aqui, porém, escolhi algumas pérolas da Quarta Parte - A Servidão Humana ou a Força dos Afetos:

Da perfeição (Prefácio)
Quem decidiu fazer alguma coisa e a concluiu, dirá que ela está perfeita, e não apenas ele, mas também qualquer um que soubesse o que o autor tinha em mente e qual era o objetivo de sua obra ou que acreditasse sabê-lo. Por exemplo, se alguém observa uma obra (que suponho estar inconclusa) e sabe que o objetivo de seu autor é o de edificar uma casa, dirá que a casa é imperfeita e, contrariamente, dirá que é perfeita se perceber que a obra atingiu o fim que seu autor havia decidido atribuir-lhe. Mas se alguém observa uma obra que não se parece com nada que tenha visto e, além disso, não está ciente da idéia do artífice, não saberá, certamente, se a obra é perfeita ou imperfeita. Este parece ter sido o significado original desses vocábulos. Mas, desde que os homens começaram a formar idéias universais e a inventar modelos de casas, edifícios, torres, etc., e a dar preferência a certos modelos em detrimento de outros, o que resultou foi que cada um chamou de perfeito aquilo que via estar de acordo com a idéia universal que tinha formado das coisas do mesmo gênero, e chamou de imperfeito aquilo que via estar menos de acordo com o modelo que tinha concebido, ainda que na opinião do artífice, a obra estivesse plenamente concluída. E não aprece haver outra razão para chamar, vulgarmente, de perfeitas ou imperfeitas também as coisas da natureza, isto é, as que não são feitas pela mão humana.

Da razão (Escólio da Preposição 18, e também mais de acordo com o logos do estoicismo)
Como a razão não exige nada que seja contra a natureza, ela exige que cada um ame a si próprio; que busque o que lhe seja útil, mas efetivamente útil; que deseje tudo aquilo que, efetivamente, conduza o homem a uma maior perfeição; e, mais geralmente, que cada qual se esforce por conservar, tanto quanto está em si, o seu ser. Tudo isso é tão necessariamente verdadeiro quanto é verdadeiro que o todo é maior que qualquer uma de suas partes. Além disso, uma vez que a virtude não consiste senão em agir pelas leis da própria natureza, e que ninguém se esforça por conservar o seu ser senão pelas leis da natureza, segue-se: 1. Que o fundamento da virtude é esse esforço por conservar o próprio ser e que a felicidade consiste em o homem poder conservá-lo. 2. Que a virtude deve ser apetecida por si mesma, não existindo nenhuma outra coisa que lhe seja preferível ou que nos seja mais útil e por cuja causa ela deveria ser apetecida. 3. Finalmente, que aqueles que se suicidam têm o ânimo impotente e estão inteiramente dominados por causas exteriores e contrárias à sua natureza. Segue-se, ainda, que é totalmente impossível que não precisemos de nada que nos seja exterior para conservar o nosso ser, e que vivamos de maneira que não tenhamos nenhuma troca com as coisas que estão fora de nós. (...) Portanto, nada é mais útil ao homem do que o próprio homem. Quero dizer com isso que os homens não podem aspirar nada que seja mais vantajoso para conservar o seu ser do que estarem, todos, em concordância em tudo, de maneira que as mentes e os corpos de todos componham como que uma só mente e um só corpo, e que todos, em conjunto, se esforcem, tanto quanto possam, para conservar o seu ser, e que busquem, juntos, o que é de utilidade comum para todos.

Da sociedade e do pecado (Segundo Escólio da Preposição 37)
Por qual razão (...) os homens, que estão necessariamente submetidos aos afetos e são inconstantes e volúveis, possam dar-se essas garantias recípocras e terem uma confiança mútua. Mais especificamente, é porque nenhum afeto pode ser refreado a não ser por um afeto mais forte e contrário ao afeto a ser refreado, e porque cada um se abstém de causar prejuízo a outro por medo de um prejuízo maior. É, pois, com base nessa lei que se poderá estabelecer uma sociedade, sob a condição de que esta avoque para si própria o direito que cada um tem de se vingar e de julgar sobre o bem e o mal. E que ela tenha, portanto, o poder de prescrever uma norma de vida comum e de elaborar leis, fazendo-as cumprir não pela razão, que não pode refrear os afetos, mas por ameaças. Uma tal sociedade, baseada nas leis e no poder de se conservar, chama-se sociedade civil e aqueles que são protegidos pelos direitos dessa sociedade chamam-se cidadãos. Com isso, compreendemos facilmente que, no estado natural, não há nada que seja bom ou mau pelo consenso de todos, pois quem se encontra no estado natural preocupa-se apenas com o que lhe é de utilidade, considerada segundo a sua própria inclinação. (...) Não se pode, por isso, no estado natural, conceber-se o pecado, mas pode-se, certamente, concebê-lo no estado civil, no qual o que é bom e o que é mau é decidido por consenso, e cada um está obrigado a obedecer à sociedade civil. (...) Por essas razões é evidente que o justo e o injusto, o pecado e o mérito são noções extrínsecas e não atributos que expliquem a natureza da mente [1].

Fazer o bem por temor do mal (Demonstração, Escólio e Corolário da Preposição 63)
Todos os afetos que estão referidos à mente, à medida que ela age, isto é, que estão referidos à razão, só podem ser afetos de alegria e de desejo. Por isso, quem se deixa levar pelo medo e faz o bem por temor do mal não se conduz pela razão.
Os supersticiosos, que, mais do que ensinar as virtudes, aprenderam a censurar os vícios, e que se aplicam a conduzir os homens não segundo a razão, mas a contê-los pelo medo, de maneira que, mais do que amar as virtudes, fujam do mal, não pretendem senão tornar os demais tão infelizes quanto eles próprios. Por isso, não é de admirar que sejam, em geral, importunos e odiosos para os homens.
Pelo desejo que surge da razão buscamos diretamente o bem e evitamos indiretamente o mal.

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[1] Mas vale lembar que Espinosa defendia que toda a ação dentro das leis da natureza é uma ação boa e útil. Não no sentido egocêntrico, mas no sentido de que, ao seguir a natureza, o ser segue sua potência natural e estará alegre. As ações más não serão más porque a sociedade (ou certas concepções de Deus, por exemplo) às pune, mas porque vão contra a nossa própria natureza, antes de mais nada.

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Crédito da foto: Laura Cammarata (série sobre os pecados)

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