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6.12.12

A idade do ser, parte final

« continuando da parte 2

“Acorde! Recorde que você é um ser, que veio de uma estrela, que está em uma estrela, que irá para outra estrela. Pouse suave. Os mensageiros orientam” (Hermes Trimegisto)

A resposta de Buda

Em fevereiro de 1990, tendo completado sua missão primordial, foi enviado um comando a sonda espacial Voyager 1 para se virar e tirar fotografias dos planetas que havia visitado. A NASA havia feito uma compilação de cerca de 60 imagens, criando neste evento único um mosaico do Sistema Solar. Uma imagem que retornou da Voyager mostrava nosso planeta, a Terra, a 6,4 bilhões de quilômetros de distância, como um “pálido ponto azul” no meio da imensidão cósmica.

Foi precisamente tal imagem que inspirou Carl Sagan a nos trazer mais uma reflexão: “Olhem de novo para esse ponto. Isso é a nossa casa, isso somos nós. Nele, todos a quem ama, todos a quem conhece, qualquer um dos que escutamos falar, cada ser humano que existiu, viveu a sua vida aqui. O agregado da nossa alegria e nosso sofrimento, milhares de religiões autênticas, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e colheitador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor de civilização, cada rei e camponês, cada casal de namorados, cada mãe e pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, cada mestre de ética, cada político corrupto, cada superestrela, cada líder supremo, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu aí, num grão de pó suspenso num raio de sol”.

Perto do infinito do Cosmos, é difícil não nos sentirmos estranhamente humildes e espantados quando seguimos a luz de pensamentos como este. É difícil não contemplar o céu noturno, que ainda com toda a poluição ainda nos permite ver incontáveis estrelas, e não se indagar: “por que tudo isso?”.

Porque vir até este pálido ponto azul, tantas e tantas vezes, e a cada vez, reencenar alguma peça, escolher mais um tanto de máscaras, e com elas sermos novamente um ser, humano, vivendo uma vez mais uma vida humana, na idade humana. Para que?

A mesma mentalidade científica e racionalista que nos ajudou a criar de nossas mentes a tecnologia necessária para que fosse possível lançarmos sondas na imensidão espacial, e tirar fotos de nossa casa conforme vista a bilhões de quilômetros, esta mesma mentalidade não parece conviver muito bem com o “porque”, e então se foca no “como”. Para todos aqueles que têm asco da espiritualidade, a ideia de que tenhamos sido criados por alguma superinteligência é absurda, assim como a noção de que temos, por detrás das máscaras que formam nossa personalidade, alguma coisa oculta, preciosa, e que precisa ser mantida pura...

Conforme os antigos mitos foram mal interpretados e esquecidos, a sociedade moderna passou a reinventá-los noutro contexto. Dessa forma, o que já foi um espírito da natureza, um gnomo, um anjo ou arcanjo, hoje é um ser alienígena, algum santo sábio de outras eras, um bioengenheiro mágico que inseminou a espécie humana na Terra, e de vez em quando volta para fazer anotações científicas. Como se não bastasse tudo isso, há aqueles que esperam por uma nova Arca de Noé, desta vez uma nave espacial que virá salvar alguns escolhidos do final dos tempos terrenos.

Mas, estranho de pensar: e quem seriam os alienígenas, afinal, senão nós mesmos? A ciência atual ainda não chegou numa teoria consistente de como uma mistura de aminoácidos subitamente formou a primeira bactéria na Terra. Segundo muitos biólogos e astrobiólogos, ir do aminoácido inorgânico a bactéria orgânica é um passo consideravelmente mais complexo e misterioso do que ir da bactéria ao chimpanzé. Para muitos cientistas, a teoria da panspermia é a melhor teoria para explicar o surgimento da vida na Terra.

Segundo ela, boa parte ou mesmo a totalidade do tipo de matéria que possibilitou o surgimento das primeiras células vivas chegou a nós incrustada em asteroides que se chocaram com a Terra no período de centenas de milhões de anos após sua formação. Nós buscamos pelos alienígenas lá fora, mas de certa forma sempre fomos, nós mesmos, os próprios alienígenas: filhos das estrelas, parte dos elementos pesados que são somente formados, no universo conhecido, nas reações nucleares do núcleo dos sóis.

***

Dizem que o príncipe nepalês, Siddharta Gautama, alcançou a iluminação interior suprema, o nirvana, após meditar por 49 dias ao lado de uma árvore. Tinha então cerca de 35 anos, e após haver renascido em vida, dedicou o restante de seus dias a tentar ensinar aos outros em sua volta sobre aquilo que descobriu, a refletir a luz que havia descoberto dentro de si mesmo.

O que o Buda descobriu é algo que a ciência moderna já sabe há algum tempo: nada se cria [1], nada se perde, tudo se transforma. Assim sendo, não somente as coisas, como a própria matéria orgânica que forma nosso corpo, tudo que há é formado por substâncias impermanentes, não duradouras, em constante metamorfose e mutação. Mesmo o sofrimento e a alegria são impermanetes: a compreensão da impermanência está no cerne da doutrina budista.

Dizem também que o príncipe nepalês decidiu tornar-se um asceta após passear no entorno de seu palácio e ter encontrado um homem velho, outro doente, um corpo já em decomposição, e um asceta meditando. Por muito tempo tentou chegar à iluminação pelo ascetismo extremo, pela dissociação do mundo impermanente, mas por fim, após quase morrer de inanição, desistiu desta dissociação extrema [2] – e foi assim, no caminho do meio, que finalmente compreendeu. Todas aquelas máscaras que apertavam sua cabeça e coçavam seu nariz, todas elas nada mais eram do que poeira e fumaça, como o restante do mundo impermanente. Somente após retirar todas essas máscaras, após descascar todas as suas personalidades, ele encontrou algo lá dentro...

Mas o que o Buda encontrou, e compreendeu, dentro de si mesmo, talvez esteja além da linguagem, além da capacidade de se explicar por símbolos gramaticais. Tudo o que ele fez desde então, até o fim de sua vida, foi tentar servir como exemplo para os que estavam a sua volta. Não existia um manual de natação infalível, era preciso que cada um mergulhasse em si mesmo, e descobrisse. “Confiem em si mesmos, não dependam de mais ninguém. Fazei de vós mesmos uma luz” – Siddharta sabia!

***

Detrás de todas essas máscaras que usamos numa mesma vida, ou em vidas a fio, há o Jogador Mais Precioso. Tal Jogador pode ter, conosco, se aventurado no “mundo real”, ou no mundo de Azeroth. Mas, no fim, por mais que lhe digam que este é um mundo de ofícios de guerra, o Jogador sabe, sempre soube, que em realidade estamos aqui para um ofício de amor [3]: para desenvolver nossa potencialidade de amar, de nos conectar, de compreender, de nos religar a este Cosmos que nos abarca por todos os lados, desde sempre.

Para tal, devemos então deixar de sermos alienígenas em nossa própria terra, e explorar, com sondas mentais, o planeta da alma. E lá descobriremos o Mistério, o Monolito Posto de Pé, o Jogador, o Eu Sou. E então atingiremos o nirvana, e calaremos sobre ele – nosso amor será todo exemplo, todo incentivo, para que outros também mergulhem, para que outros também deixem de ser desconhecidos de si mesmos. E isto basta: terão chegado na idade do ser, a eterna idade.

Assim foi que, no fim do experimento, apenas o Buda soube da resposta certa: Sally, a garota que quer brincar, deve buscar sua bola em si mesma – fora, nada realmente permanece de pé.


“Se você não me achar em você, nunca me achará. Pois, tenho estado contigo, desde o começo de mim” (Rumi)

***

[1] Ver nota de Huberto Rohden sobre Crear e criar.

[2] Seja o que for que forme a nossa alma, também é parte da Substância Primeira.

[3] World of Lovecraft (mas não estou falando do Chutulhu, nem de algum provável filme ou game erótico).

Crédito das imagens: [topo] Voyager1/NASA (O pálido ponto azul: onde estamos hoje); [ao longo] Ram Bahadur Bomjon ("Buddha Boy")

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5.12.12

A idade do ser, parte 2

« continuando da parte 1

"A pior das loucuras é, sem dúvida, pretender ser sensato num mundo de doidos." (Erasmo de Rotterdam)

A ilha errante de Azeroth

Aos 19 anos, estava terminando a faculdade, gostava de assistir basquete americano na TV, e jogar Role Playing Games [1] na casa de amigos até a alta madrugada. Teve uma ou outra paixão, mas naquele ano não conseguiu engatar um namoro duradouro. “Que bom, assim não preciso faltar o RPG” – pensou, mas a verdade é que sangrava por dentro (da alma).

15 anos depois, aos 34, estava casado, morando noutra cidade, e trabalhando com algo que não tinha muito a ver com a faculdade que fez, embora gostasse mesmo assim. Ainda jogava basquete, e voltou a acompanhar o campeonato americano assim que seu time conseguiu retornar aos playoffs finais após quase uma década de vacas magras. As paixões antigas viraram amizades duradouras (quando foi possível).

Não podia mais jogar RPG na casa dos amigos, mas passou muitos anos jogando num mundo virtual, com milhares de outros jogadores do mundo todo, alguns deles seus amigos da “vida real”. E, dessa forma, ainda era o mesmo de antes, poderia pensar: ainda arremessava bolas ao cesto nas tardes de sábado, e ainda poderia jogar RPG com os amigos no mundo de Warcraft [2], caso assim desejassem... Tudo era exatamente como antes, a mesma vidinha de sempre. Será?

Muitas vezes reencontramos paixões antigas, ex-namoradas ou ex-namorados, antigas amizades da época de colégio, e alguma coisa dentro de nossa alma percebe: mudou, o mundo mudou, os convívios e amizades mudaram, a personalidade mudou, a alma mudou... Pretendemos, em nossa inocência no paraíso ilusório que criamos para nós mesmos, sermos sempre os mesmos, imortais, ancorados no que já somos. “Não mudarei!” – brada alguém em nossa alma: “Serei sempre eu mesmo, com estes mesmos defeitos, estas mesmas qualidades, estes mesmos amigos, estas mesmas crenças e descrenças!”.

No entanto, conforme já disse um sábio antigo: tudo vibra, tudo tem seu ritmo, nada está parado. A maior parte das células de nosso corpo não tem mais do que uma década de idade. Ao longo da vida, todas as células que nos formavam ao nascermos terão morrido, e sido substituídas... O que permanece? Um fluxo, um teatro mental, uma encenação cerebral? E, ainda assim, quem nos garante que este teatro têm nos apresentado a mesma peça, a exata mesma peça, de 15 anos atrás? Quem nos garante que as máscaras que usávamos então, ainda são as mesmas?

Muitas vezes o folião não percebe como suas máscaras têm mudado, carnaval a carnaval... E não é preciso se converter a Nosso Senhor Jesus Cristo ou a Nosso Doutor Richard Dawkins para efetivamente mudarmos. Para mudar, basta viver!

Da mesma forma que cada novo dia recebe fótons inteiramente novos do sol matinal, em nosso cérebro algumas células estão morrendo, e outras nascendo. Em nossa personalidade, ideias, símbolos, crenças, informações, pensamentos, estão em constante mutação e afloramento. Não as represemos! É de nossa natureza mudar, e todo questionamento é divino... Foi da dúvida, e não do dogma ou da certeza infalível, que surgiram à religião, a filosofia, a ciência, a arte e a mitologia. Foi para reencenar este turbilhão de ideias internas, quem sabe, que Deus nos deu a imaginação. Mas então, para que tudo isso? Para que imaginar, ou vivenciar, todos esses bailes sem fim?

***

Na primeira vez que adentrou Azeroth, o mundo de RPG virtual, veio a convite de seus amigos em sua cidade natal. Nasceu novamente como humano, mas um humano feito de pixels, que habitava a capital Stormwind, e soltava raios de gelo pelas mãos! Ganhou muita experiência e níveis de poder ao se agrupar com seus amigos virtuais, e enfrentar a horda inimiga, seus orcs e trolls, ao longo de toda a Azeroth. Quando chegou ao nível máximo, adentrou Molten Core e matou o Demônio em pessoa (ou pixels), ganhando poderosos tesouros... Mas depois, com o tempo e as repetições, após matar o Demônio pela 42º vez, enjoou.

Voltou ao “mundo real”, e só se lembrava de suas aventuras em Azeroth num ou noutro sonho... Mas então, o mundo de Warcraft se expandiu, e agora seus amigos lhe chamavam para renascer novamente neste baile de pixels. Entretanto, ele estava relutante: “Não vai dar, fazem muitos anos que parei, eu mal lembro como era o jogo, e as regras mudaram muito, vou ter de subir de nível com um outro personagem, tudo de novo”.

Ao que seu amigo respondeu: “E eu também. Mas quem disse que jogamos este jogo para estarmos sempre no nível máximo, e sempre com os mesmos personagens? Jogamos porque somos amigos, e gostamos de nos aventurar juntos, ora bolas!”.

Estranho de se pensar, seu amigo tinha toda razão... Desta vez, criou um monge panda [3] que nasceu numa ilha formada no casco de uma gigantesca tartaruga, a navegar por Azeroth. Depois escolheu defender a horda, e fez muitos amigos entre os orcs e trolls que, da outra vez, eram seus inimigos mortais. Uma nova vida, uma nova encenação, uma nova personalidade virtual – não importa, o importante é que estava ali para se divertir com os amigos, reais ou virtuais [4].

Assim também é este dito “mundo real”, e se aqui não podemos soltar bolas de fogo ou voar nas costas de dragões, podemos ainda imaginar tudo isto, pois que tudo, no fim do dia, surgiu da imaginação. Em nossa mente, nada nos impede de nos reunirmos com aqueles que amamos, ainda que seja no casco de uma tartaruga gigante, numa ilha errante.

Vivemos nesta idade humana, nesta humanidade, que por vezes nos acusa de sermos loucos por imaginarmos que, nalgum dia, adentramos masmorras obscuras dentro de nós mesmos, e por lá enfrentamos terríveis dragões, e conquistamos tesouros fantásticos. Se lhe acusam de tudo isto, não faz mal, minta para eles: “Sou são, e não comungo com tais loucuras”.

Porém, entre seus amigos, entre todos os iniciados, continue batalhando para que sua loucura seja feita de luz. Cada vez mais luz...

» Em seguida, alienígenas entre nós...

***

[1] Jogo de interpretação de personagens, criado por Gary Gygax e Dave Arneson no século passado, a partir de jogos de tabuleiro com miniaturas.

[2] World of Warcraft, ambientado no mundo imaginário de Azeroth, foi o primeiro RPG online a alcançar a marca de 10 milhões de assinantes mensais no mundo, e até hoje domina boa parte deste mercado.

[3] Aos iniciados: um pandaren, nova raça da expansão Mists of Pandaria.

[4] Boa parte disto é uma narrativa fictícia, se eu realmente estivesse voltando a jogar World of Warcraft, este blog estaria seriamente ameaçado :)

Crédito das imagens: [topo] Elmore; [ao longo] Divulgação (World of Warcraft: Mists of Pandaria)

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A idade do ser, parte 1

Personalidade é o conjunto de características psicológicas que determinam os padrões de pensar, sentir e agir, ou seja, nossa individualidade pessoal e social.

Bem vindo ao baile

Numa sala há três crianças e dois adultos a observá-las. Duas dessas crianças, Sally e Ann, são atrizes mirins, contratadas para o experimento. A outra criança se chama Sarah, e é o objeto do experimento em si – ou, mais precisamente, sua mente.

Na sala, a frente de onde Sarah está sentada (apenas observando, conforme instruída pelos cientistas), há três objetos: uma bola de plástico, um cesto e uma caixa de papelão... Inicia-se o experimento: Sally caminha até a bola, a pega e coloca dentro do cesto. Enquanto a outra garota, Ann, apenas observa, Sally sai da sala. Neste momento, Ann se levanta rapidamente e vai até o cesto, pega a bola e a coloca dentro da caixa, logo voltando para a mesma posição onde estava. Então, cerca de um minuto após, Sally retorna a sala. Ela diz em voz alta: “Quero brincar com a bola!”; e então uma voz de desenho animado ressoa nos alto falantes da sala: “Sarah, onde Sally vai procurar pela bola, no cesto ou na caixa?”. Os cientistas anotam a resposta.

O que este experimento aparentemente bobo (chamado “Teste Sally-Ann”) pode demonstrar é algo extraordinariamente importante para o convívio do ser humano no mundo: a capacidade de compreender o outro como um ente em separado, uma mente que pensa por si mesma.

Caso Sarah responda que Sally vai procurar pela bola na caixa (onde Ann a colocou), ela não demonstrará a capacidade de formular uma teoria da mente, ou seja, de considerar que a mente de Sally está dissociada da sua, e opera por si mesma, portanto não teria como saber que a bola havia sido retirada do cesto no minuto em que se ausentou da sala. No entanto, quando crianças como Sarah respondem que Sally vai procurar pela bola no cesto, e que não irá encontrá-la, demonstram que sua mente já é suficientemente desenvolvida para compreender duas coisas: (a) Que cada mente opera por si mesma, e tem sua própria personalidade; (b) Que exatamente por isso, uma mente pode enganar a outra, mentir.

Estudos recentes [1] mostraram que crianças tão jovens quanto 10 meses de idade já conseguem “passar” neste teste. Algumas crianças autistas terão muito mais dificuldades para chegar a este estado de compreensão “do outro”... Ao que tudo indica, esta capacidade de conviver com outras mentes, e as compreender como dissociadas de nós mesmos, está no cerne de nossas potencialidades sociais, estas que vêm se desenvolvendo desde os primórdios dos hominídeos.

Não é a toa que a mentira e a falsidade são amplamente repudiadas em qualquer grupo ou sociedade: desde a época em que convivíamos em pequenas tribos espalhadas por ermos inóspitos e desconhecidos, precisávamos confiar um no outro – esta era a essência da sobrevivência em grupo. Por mais paradoxal que seja, no entanto, sempre houveram aqueles dentre nós que souberam usar da falsidade para obter vantagens pessoais. Afinal, se podemos enganar as pessoas sem sermos pegos, ou acreditando que não seremos pegos, porque não ir em frente?

Mas ainda assim é preciso tomar muito cuidado. Não muito tempo atrás, quando um marido era traído por sua esposa, estava em seu direito puni-la, às vezes até com a morte. Esta “defesa da honra” pode hoje parecer barbárie (e, de fato, o era [2]), mas diz muito sobre o quanto o ser humano odeia ser passado para trás, principalmente quando acredita estar num certo patamar social, quando crê piamente ser “o dono da situação”.

O que muitos não sabem, no entanto, é que foi o próprio ato mental de reconhecer uma “vontade alheia” no outro que fez com que criássemos nossa própria personalidade. O termo vem do latim persona ou personare, que significa “máscara”, mas há alguns que também o ligam etimologicamente ao latim per se esse, “ser por si”... E, como num baile de máscaras, só entram aqueles que trazem a sua.

Não houvessem outros seres humanos no mundo, ninguém com quem pudéssemos conversar, confiar ou enganar, amar ou odiar, provavelmente não estaríamos aqui pois não teríamos nascido. Mas, se por alguma razão algum deus estranho nos houvesse criado já humanos, a partir do nada, e estivéssemos por aqui sós, não teríamos personalidade alguma: seríamos a mais pura e inocente das pessoas e, provavelmente, a mais ignorante. Talvez por isso os mitos sempre afirmem que fomos criados aos pares: é preciso conviver, é preciso enganar e ser enganado, confiar e ser confiado, odiar e ser odiado, amar e ser amado.

Mas, será que teremos apenas uma única personalidade? E, mesmo que seja apenas uma, será que ela tem se mantido a mesma, exatamente a mesma, ao longo dos anos?

» Em seguida, 15 anos depois...

***

[1] Ver O livro do cérebro (Ed. Duetto).

[2] Inclusive porque, quando ocorria o contrário – o marido trair a esposa –, a esposa traída não tinha, na prática, nenhum direito legal a uma “defesa da honra”.

Crédito da foto: Heide Benser/Corbis

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