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9.2.09

Acreditando nisso

Se sorrimos por ver alguém sorrir
Ou choramos por ver outro sofrer,
Não será talvez por sermos, antes de mais nada,
O mesmo ser?

Se há muito tempo atrás um sábio escreveu
Da conversa admirável entre criador e criatura...
Se outros acreditavam em vários criadores,
Deuses do sol, das chuvas e dos trovões...
Se o profeta da montanha liderou seu povo errante
Para longe das pirâmides e faraós...
Se o rabi da Galiléia veio falar sobre seu Pai
Para os ignorantes no deserto...
Se o príncipe do oriente deserdou a corte
E meditou nas florestas de bambu...
Se o amigo dos pássaros fugiu das cruzadas
Indo encontrar a paz em seu mosteiro perdido...
Ou se há pouco tempo atrás outro sábio sentou,
Esperando pacientemente que os invasores se fossem...
Não será, tudo isso, porque deveríamos amar
Ao ver outros amando tão poderosamente,
Tão maravilhosamente; Amando tanto
Mais do que nós?

Se uns acreditam nisso e outros naquilo,
Ou se matam uns aos outros em nome dessa fé,
Não será por essa fé ser a mais cega dentre nós?
A fé que não vê sorrisos ou lágrimas,
Que não veio da boca dos profetas,
Mas da cegueira dos que vieram depois,
Lutando por riquezas, denegrindo certezas,
Amando tão pouco, sabendo tão pouco,
E querendo tudo... Tudo o que não passa
Dessa vida de ilusões...

Se estamos aqui nesse mundo maravilhoso,
Carregando essa dor por tanta destruição,
Tanta falta de amor, tanto ódio e desilusão,
Não será porque deveríamos aprender
A mais simples das questões?
Que somos uma só família,
Criados pelo mesmo criador,
Que vamos aqui permanecer
Apenas somente enquanto não formos capazes de ver
Com nossos próprios olhos e coração,
Que o amor veio antes de tudo,
Antes dos profetas, dos territórios e das riquezas...
Antes da tristeza e da solidão
Por não conseguirmos mais ter
Descanso em nosso ser...

Se iremos aqui permanecer
Por mais dois mil, dez mil anos,
Será antes por não aceitarmos que somos apenas
Um ser permeado por infinitos seres,
Envoltos pelo universo que continua a girar,
Como sempre o fez,
Indiferente a paz ou a guerra,
Mas que sempre nos desejou a verdadeira fé...
Para os que acreditam nisso ou naquilo
Pudessem enfim acreditar
Em si mesmos.

raph’02

Crédito da foto: Americo Rui Pacheco

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12.8.08

Lógica

Todo efeito tem causa,
E toda causa inteligente vem da inteligência;
E se, inteligente é o sentido de tudo o que existe,
É porque preserva-se na própria existência:
Medita, vegeta, caça, desperta...
Antes sobrevive, para depois viver.

Todo homem tem escolha,
E se, é dada a liberdade de escolha,
É porque existe a liberdade de julgamento
De toda a escolha, todo o fruto, toda a obra...
A capacidade de compreender
O bom e reto julgamento:
A isso chamamos justiça.

Todo ser é criado, todo ser é aniquilado.
Nesse vai e vem, bilhões de orbes giram
Em torno de bilhões de sóis,
Flutuando em meio a bilhões de galáxias...
Quanto tempo terá todo esse tempo?
Tempo suficiente
Para que todo ser evolua.

Do gérmen a planta,
Do mar ao solo,
Do topo da colina, aos céus,
Do topo da animalidade, a consciência;
Todo ser orgânico é anti-entrópico:
Organiza-se, desenvolve-se, e não apenas fisicamente...

Assim como Mozart decerto não nasceu sabendo,
E não se tornou gênio por dom de Deus,
Todos os outros gênios da humanidade
Hão de ter desenvolvido, passo a passo
Toda a cognição, toda moral, toda espiritualidade
Que não achamos em proteínas, na cor dos olhos,
No sistema imunológico, ou em gene algum...

E se, finalmente, na existência existe propósito,
E existe a justiça,
O mero fato de uns nascerem na Suécia, enquanto
Seus irmãos sentem a fome e a secura
Do Quênia, já seria injusto de antemão:
Tudo evolui, mas da mesma forma
Tudo se renova.

Nascer, viver, morrer,
Renascer ainda,
E caminhar sempre à frente,
Essa é a lógica.

Raph’08

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29.7.08

Dentre selvageria e compaixão

After telling you so much,
What do I have,
For my own sake?
For my own cries?
What have I touched,
What have I felt?
Amidst your many faces?
Hidden in thousand lies?

After wondering so much,
What have I seen,
With my own eyes?
By my own words?
What have I learned,
What have I found?
Trapped in years of waiting,
Drowned in phrases and rhymes?

After searching for so long,
What have I cried,
What have I broken?
Unless my troubled self,
Unless my vanity tides?
Surrounded by poems and books,
Amongst savageness and kind.

Untitled poem by Flávia Lopes

***

Depois de ter-lhe revelado tanto,
O que eu tenho,
Para minha causa?
Para meus prantos?
O que eu toquei,
O que eu senti?
Entre suas muitas faces?
Escondidas dentre mil mentiras?

Depois de refletir tanto,
O que eu vi,
Com meus próprios olhos?
Por minhas palavras?
O que eu aprendi,
O que eu encontrei?
Trancafiado em anos de espera,
Afogado em frases e rimas?

Depois de procurar todo esse tempo,
O que eu chorei,
O que eu quebrei?
A não ser meu ser incomodado,
A não ser minhas marés de vaidade?
Envoltas por poemas e livros,
Dentre selvageria e compaixão.

Poema sem título por Flávia Lopes, tradução de Rafael Arrais

***

A conversa (que não houve)

Já se perguntou, amiga, o que aqui fazemos?
Nesse telhado, de frente para o luar,
E os espaços infinitos entre as estrelas,
E os espaços finitos entre todos nós...
Já se perguntou, alguma vez,
O que será que estamos a observar?

Se dias e noites de transeuntes da cidade,
Ou noites e dias de gatos a pular, telha a telha,
Nos lençóis da madrugada.
Onde não existe tempo, não existe idade,
Mas somente a brisa noturna
A acalentar toda alma soturna...

Será que importa o preço do barril?
A nova tendência da moda praia?
O novo artilheiro da varsea?
Será que tudo não passa de uma grande brincadeira?
Ardil de anjos arteiros
Que mesmo nas noites de luar
Gargalham, incontroláveis, até a alegria findar?

E quem cai na armadilha de acreditar
Que somos apenas cidadãos de tal nação,
Trabalhadores orgulhosos de tal corporação,
Fiéis de alguma ou qualquer religião...
Espera sempre pelo céu que há no porvir,
Mas nunca, nunca se prepara,
Para qualquer frustração que há de vir...

Será que existe o telhado?
Será que existe essa conversa?
Será que existem gatos a pular?
Ou, antes de tudo isso,
Existem amigos, e amizades,
Existem seres conscientes de si,
E consciências etéreas, esvoaçantes...
Indetectáveis senão pelo amor, e pela dor,
De observar ao mais belo luar
Sem ter minha amiga para conversar?

raph'08

***

Para Flávia.

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3.7.08

Respeitar as diferenças

Existem aqueles que crêem em um Criador
Que seguem a um dogma, uma doutrina;
Existem os que crêem em diversos pontos de vista
E os que seguem apenas um único manual
Da Verdade Absoluta

De certo existem os que não crêem em nada
Ou pelo menos gostam de pensar assim;
E os que esperam pelos Observadores da Natureza
A desvendar para eles uma realidade
Que se sentem incapazes de desvendar por si mesmos

Existem os que atacam a crença alheia
Para reafirmar a sua própria descrença,
E antecipam o Julgamento que era marcado
Para o Fim dos Tempos;
E existem os que respeitam toda crença,
Por estarem seguros da sua própria
E não crerem nessa tal Infabilidade Derradeira

De certo, o que existe, são seres humanos
Que convergem e divergem, observam e rejeitam
São compassivos, violentos, sábios, ignorantes...
Mas a História tratou de nos mostrar
Os bons exemplos

Será que não seria melhor segui-los?
Reunindo-nos todos no Jardim de Epicuro,
Acomodados numa mesquita de Al-Andalus,
Ou em algum salão de Alexandria;
Não para resolver, mas antes, para dialogar...
E dialogando, dias e noites,
E noites e dias, quem sabe...
Talvez aprender enfim
A respeitar as diferenças?

Raph'08

*

Eu creio que, apesar da diversidade de crenças, todos defendem uma conduta ética, uma moral equilibrada, e um sentimento de amor harmonioso, para todos os que aqui estão vivendo... Todos vizinhos, todos irmãos, todos sagrados, independentemente da crença de cada um: existir é sagrado, conviver é sagrado, pensar é sagrado. E, se existe um Deus, ele não poderia desejar outra conduta de nós que aqui estamos.

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6.6.08

Mundos de carne e de luz

Eu vi o mundo dos homens,
E vi também o mundo espiritual.
Me perdoa Pai,
Pois não sei qual o mais bonito.

Andei pelas cavernas com fome,
Singrei mares e continentes,
Viajei sem saber até o infinito...
Cavalguei pelas batalhas sangrentas,
E nas diligências do velho oeste...
Hoje sigo sob edifícios e sinais,
Vendo o que sempre vi...

A beria das estradas
Estão os homens.
A beira das estrelas
Estão os seres de luz.
A beira da ilusão e da ignorânica,
Vão-se os seres perdidos
Do amor que clama desesperado
Por sua volta...
Ah Pai, como tu há de ser amado!

Como os passáros enjaulados
Esquecem de cantar,
Muitos de nós
Esquecem de viver...
Esquecem da coisa mais preciosa
De todo esse universo
De mundos de carne e de luz:
Aquele que lá do alto,
Do centro de cada coração,
Pai de todo amor,
Toda essa energia conduz...

raph'01

*

Quando escrevi essa poesia não achei-a nada demais, foi só com o tempo que passei a gostar dela, e a entendê-la melhor... De fato, nesse caso, fica sempre a dúvida se fui somente eu mesmo quem escrevi... Não quero com isso dizer que psicografo poesias, nada disso, quero dizer que é um mistério muito grande o processo, a forma como elas surgem, e a compreensão de onde elas realmente vêm.

As primeiras estrofes, no entanto, são de uma fala de Jesus em "A Última Tentação de Cristo", filme baseado no romance de Nikos Kazantzakis.

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28.5.08

Céu de Liberdade

Onde a mente encontra-se sem medo e a cabeça é mantida erguida
Onde o conhecimento é livre
Onde o mundo não foi quebrado em fragmentos
Por estreitos muros domésticos
Onde as palavras vêm da verdade profunda
Onde laboriosas lutas esticam seus braços em direção à perfeição
Onde o riacho límpido da razão não perdeu o seu rumo
Afluindo ao triste deserto dos hábitos moribundos
Onde a mente é direcionada adiante por você
A pensamentos e ações sempre em constante afloramento
Nesse céu de liberdade, Pai, deixe meu país acordar

Rabindranath Tagore (tradução de Rafael Arrais)

*

Heaven of Freedom

Where the mind is without fear and the head is held high
Where knowledge is free
Where the world has not been broken up into fragments
By narrow domestic walls
Where words come out from the depth of truth
Where tireless striving stretches its arms towards perfection
Where the clear stream of reason has not lost its way
Into the dreary desert sand of dead habit
Where the mind is led forward by thee
Into ever-widening thought and action
Into that heaven of freedom, my Father, let my country awake

Rabindranath Tagore

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13.5.08

Sobre deixar de existir

O meu problema não é com deixar de existir, mas com existir;
Existir, com um sentido para a existência.

Para mim, a justiça divina só pode ser compreendida pela reencarnação;
Do contrário, o mero fato de uns nascerem no Quênia e outros na Suécia
Já seria injusto de antemão:
Em Deus não existindo ou não sendo infinitamente justo,
Não há realmente muito sentido para a existência
Que não observar o baile em descompasso
De poeira de estrelas
Em turbilhão.

Se eu realmente acreditasse que a existência não segue uma lei
De causa e efeito, de “a cada um segundo suas obras”,
De que tudo o que fizer, de bom e de mal,
Não fará para mim diferença alguma em meros 100 anos,
Eu não teria medo de morrer...
Teria medo de viver.

Pois não encontraria, onde quer que vá,
Bases que sustentassem qualquer conduta moral;
Ou sequer motivo para estudar, adquirir conhecimento,
Conhecer pessoas e amá-las.
Seria tudo aleatório, como um tsunami na Ásia,
Um tiroteio da linha vermelha,
Um acidente a beira da estrada...

Acredito que passaria então, o resto da vida, viajando o mundo,
Conhecendo lugares que nunca mais terei a chance de ver;
Ou observando estrelas, galáxias e quasares,
Percebendo toda a imensidão que nunca, nunca,
Terei chance de conceber.

No entanto, crendo na reencarnação, eu sei
De tantos e tantos lugares que já morei
De tantas e tantas pessoas que já me apaixonei
De tantas crueldades que já pratiquei
De tantos degraus que subi pé a pé;
E serão muitos mais...
Uma eternidade para sempre viajar,
Estudar, me depurar, e amar.

Cada ação que cometer: moral ou imoral,
Me retornará uma resposta futura
De maior sofrimento ou felicidade,
Sem, no entanto, nunca ser injusta:
O sofrimento será sempre o remédio amargo
Que tomarei de bom grado
Para findar a dor,
E iniciar o amor.

E todas as pessoas que conheci,
Todos os lugares por que passei,
Todos os mares que me banhei,
Todo o tronco de árvore em que adormeci,
E também minha sabedoria, moral,
Minha individualidade:
Estarão sempre comigo,
Por toda e qualquer idade,
Como num casamento ancestral.

Acaso lá no fim, na morte,
Eu retornar ao Grande Nada,
Pelo menos saberei que pautei a vida
Por decisões morais:
Responsabilidade perante a mim,
Ao próximo,
E a divina Natureza do mundo.

Se, no entanto, eu aqui continuar,
Talvez toda essa crença,
Que muitos dizem ser absurda,
Venha a me servir de alguma coisa, em algum lugar...

raph'08

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22.2.08

Homenagem aos Instrutores Desconhecidos

O que eles incumbiram-se de fazer
Eles trouxeram para ensinar;
Todas as coisas sustentam-se como uma gota de orvalho
Sobre uma folha de grama no ar.

William Butler Yeats (tradução de Rafael Arrais)

*

Gratitude To The Unknown Instructors

What they undertook to do
They brought to pass;
All things hang like a drop of dew
Upon a blade of grass.

William Butler Yeats from The Winding Stair (1933)

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19.2.08

A mesa no céu

Dizem que no fim dos tempos
O tabernáculo de Deus estará com os homens
E Ele enxugará toda lágrima,
E não haverá mais morte,
E não haverá mais pranto nem dor,
Pois todas as coisas terão passado...

Dizem que os bons estarão ao seu lado
No bendito céu que é eterno.
Mas, o que dizer dos outros?
Os covardes, os incrédulos, os assassinos,
Os impuros, os feiticeiros e mentirosos...
Estarão condenados ao lago que arde
Com fogo e enxofre
E que também é eterno!

Ora, quem quer que tenha dito isso
Contou uma história muito mal contada,
Muito diferente da história
Que um anjo me contou:

- Ao chegarmos no céu, percebemos que havia uma mesa,
E que ela tinha um número imenso de cadeiras,
Uma cadeira para cada homem e mulher,
E comida e bebida farta, que não findaria nunca...

- No entanto, quando iríamos começar o jantar
Para celebrar nossa chegada aos céus (depois de tanto tempo),
Nosso líder que era Jesus nos disse
Que era cedo para começar o jantar,
Pois que a mesa não estava posta para todos os seus convidados.

- Desde esse dia, saímos do céu
E retornamos a terra
Para distribuir os convites de Deus
Para todos aqueles que ainda faltaram à mesa.

raph'08

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28.1.08

3 Poemas

Amor sem Fim

Eu pareço ter amado você em inúmeras formas, inúmeras vezes,
Em vida após vida, idade após idade, sempre.
Meu coração enfeitiçado fez e refez o colar de canções
Que você aceita como presente, usa à volta do pescoço em suas muitas formas
Em vida após vida, idade após idade, sempre.

Quando eu escuto crônicas antigas de amor, é sofrimento amadurecido,
É o conto ancestral de se estar junto ou separado,
Assim que eu encaro mais e mais fundo o passado, no final você emerge
Envolto na luz de uma estrela-cadente cortando a escuridão do tempo:
Você se torna uma imagem do que é lembrado para sempre.

Eu e você temos flutuado aqui no córrego que flui da fonte
No coração do tempo do amor de um pelo outro.
Nós temos brincado ao lado de milhões de amantes, partilhado a mesma
Doce timidez do encontro, as mesmas dolorosas lágrimas de despedida -
Amor antigo, mas em formas que se renovam e renovam, sempre.

Hoje ele está guardado à seus pés, ele achou o seu fim em você,
O amor de todos os dias dos homens, tanto passados quanto eternos:
Alegria universal, tristeza universal, vida universal,
As memórias de todos os amores mesclando-se com esse nosso amor único -
E as canções de cada poeta, tanto passados quanto eternos.

-- Rabindranath Tagore (traduzido do inglês por Rafael Arrais)

A Oração ao Deus Desconhecido

Antes de prosseguir em meu caminho
e lançar o meu olhar para frente uma vez mais,
elevo, só, minhas mãos a Ti na direção de quem eu fujo.
A Ti, das profundezas de meu coração,
tenho dedicado altares festivos para que, em
Cada momento, Tua voz me pudesse chamar.
Sobre esses altares estão gravadas em fogo estas palavras:
“Ao Deus desconhecido”.
Seu, sou eu, embora até o presente tenha me associado aos sacrílegos.
Seu, sou eu, não obstante os laços que me puxam para o abismo.
Mesmo querendo fugir, sinto-me forçado a servi-lo.
Eu quero Te conhecer, desconhecido.
Tu, que me penetras a alma e, qual turbilhão, invades a minha vida.
Tu, o incompreensível, mas meu semelhante,
quero Te conhecer, quero servir só a Ti.

-- Friedrich Nietzche (traduzido do alemão por Leonardo Boff, no livro Tempo de Transcendência)

O pequeno rochedo

O que Deus faz? O que fazia?
Há quem acredite que Ele intercede em cada dia
Realizando milagres ou punindo pecadores...
Há quem diga que Ele não existe
Pois nunca O viram, nunca O sentiram...

Ora, talvez Deus tenha estado todo esse tempo
Sentado no mesmo pequeno rochedo
Do qual criou todos os universos
E todos os mundos

Talvez, tenha ficado de tal maneira extasiado
Com a beleza de Sua própria criação
Que até hoje Nos observa na mesma posição
Sentado no mesmo pequeno rochedo
Onde fica a eternidade

Ali, onde o tempo não é indefinido
Mas antes, onde o tempo simplesmente não existe,
Ele nos ama...
Com o mesmo amor que criou o tudo...

E quem sente esse amor, acha que Ele intercede
E quem não sente, acha que Ele não existe
E finalmente, quem procura viver nesse amor
Sabe que mesmo não intercedendo, Ele se movimenta
E, mesmo não existindo dentro do tempo,
Ele existe na eternidade

-- Rafael Arrais (2008)

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17.1.08

Eu aqui

A música lá e eu aqui.
As estações me passaram a muito.
As pedras, os fungos e outros seres.
As plantas e os insetos.
Os animais, até mesmo o homem.
Tudo passou...
E eu fiquei aqui nesse silêncio.
Afinal para onde eu vou?

A música lá e eu aqui.
Todos do outro lado da cerca.
Brincando, vivendo.
Enquanto eu fico aqui adoecendo.
Cercado de seres desprezíveis.
Nunca houve luz para mim.
E aqui nesse lugar, ela só mesmo chega
pelas asas do serafim.

Venha comigo, ele me diz.
Não há castigo.
Todo ser é um aprendiz.
Tu já erraste bastante.
Não há sentido
em ser tão arrogante.
Venha, aceite minha ajuda,
peque minha mão...
Vamos retornar enfim.
Ouvir uma vez mais a canção,
a música tão querida.

Não! Vá embora...
Deixe-me com minha vergonha.
Eu quis ter poder.
Achei que o mal iria vencer.
Tanto caos e sofrimento.
Como eu poderia acreditar na luz?
O mal teria de vencer...
Teria, como não?
Ao menos, é claro,
que o mal fosse aliado da canção...

A música lá e eu aqui.
Fui enganado, ludibriado.
O mais medíocre dos seres veio a mim.
Me disse de sua guerra.
Convenceu-me que o mundo
não tinha salvação.
Fez o que sempre fez.
Eu fui o iludido da vez.

Agora eu sei, serafim.
Não há guerra não.
E tudo, tudo mesmo,
segue a sublime canção.
Ainda não posso ouvi-la...
Estou surdo, doente.
Mas aguarde-me meu caro.
Eu não pedi para ser assim,
e mesmo eu posso escapar.
Não custa esperar.
Pois aposto que lá no fim,
mesmo eu,
mesmo eu estarei lá.

(Do outro lado da cerca.
Onde há música...)

raph'99

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11.1.08

Saudades

Saudades
Do roçar das sandálias
Ao solo lamacento
Do jeito de caminhar
E a maneira de ensinar
Nos dando alento

Saudades
Do olhar distinto
Que nos dissecava
Via em nossa consciência
Quem se julgava alguém
E quem alguém amava

Saudades
Da determinação
A palavra doce
O gesto firme
E os lábios proféticos
Apontando a direção

Pois que foi aquele
Sozinho em meio ao deserto
Que encarou ao fogo sem medo
Pois que via-se nele
Entendera toda lição
E abrira todo coração

Saudades
Do rei
Que se fazia rei
Por demais saber
E demais amar

(volta logo, volta logo...)

raph

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4.12.07

Do avião

Eu estive ausente por uns tempos devido a projetos do trabalho (eu ajudo a construir portais web), mas pelo menos no meu retorno tive como trazer um poema do avião...

***

Da janela do avião

À noite, da janela do avião
Acima e abaixo, é tudo igual
Chão e céu são escuridão
E mesmo as luzes das cidades
São como pequenas estrelas
Que juntas, formam galáxias
Naquela imensidão...

E o avião é uma embarcação
Uma nave espacial
A cruzar o espaço, como uma estrela cadente
Que nunca atinge o solo...

Que o Universo é como a noite
Vista da janela do avião
Tem muitas moradas
Mas não tem chão.

raph'07

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24.7.07

Matéria

Nada voltará a ser como antes.
Nada, nem mesmo os rios,
mantém o seu curso constante
em direção ao mar.
As estrelas nunca brilham
no mesmo lugar no céu
e a lua sempre se renova,
como as estações do ano.

Nada, nunca, será como antes.
Assim como as pessoas que declinam
jamais são as mesmas que se levantam,
a terra seca, calcinada
jamais voltará a ser fértil,
e o sonho desfeito
nunca será transformado em realidade.

Assim como a juventude
dá lugar à velhice;
assim como a beleza
transforma-se em espiritualidade,
também a alma se renova.
E sempre,
na mesma inconstância,
a vida se transforma.

Flávia Lopes (entre 1998 e 2001 aproximadamente)

***

Em homenagem a minha amiga que anda se renovando numa casa agora distante. Força e luz para você. Saiba que, assim que possível, gostaria de passar um sonho a conversar contigo, como nos agora velhos tempos...

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2.5.07

Pegadas

Você pisou em meu coração
De maneira doce e suave, como quem caminha entre pombos
Sem no entanto fazê-los debandar em revoada
Você marcou minha alma com pegadas
De amor e carinho, como quem sempre deseja o bem
Sem nunca exigir algum bem de troca

E após seus pés vieram as flores
Rosas, hortências, girassóis e gérberas
Vindas da semente da paixão verdadeira
Que ilumina e iluminou o mundo, desde o início...
Como o sol brilhante ou a noite mais estrelada
A anunciar o verão de nossas vidas

Você pisou em meu coração
Mas depois veio o longo inverno, e você se foi
De volta a um dos Sete Céus de onde viera
Você marcou minha alma com pegadas
Essas estão ainda hoje lá, fossilizadas
A espera do arqueólogo que descobrirá nosso amor

raph'03

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28.1.07

Punição Exemplar

A cidade foi dividida por grades
Os que ficavam de um lado se achavam seguros
Daquilo que ficava de fora
Mas as grades não foram à solução
E hoje há aqueles que esperam o crime
Entrincheirados nas próprias casas
Enquanto outros preferem sair
E se arriscar no lado de lá

A cidade foi dividida em turnos
Os que ficavam ao sol seguiam em paz
Os que ficavam sob a lua contavam suas estrelas
Mas os turnos já se foram
E hoje o medo se espalha pelo dia e pela noite
Sendo que uns preferem morrer à luz
Enquanto outros contam as vítimas da madrugada
E abraçam a escuridão

A cidade foi dividida em áreas
Para que a polícia pudesse assim atuar
Mas os policiais não tiverem a quem seguir
Já que a moral dos burgueses hipócritas
A financiar o crime do qual diziam fugir
Beirava a ignorância do menor abandonado
Contratado pelo Barão da Droga
E esquecido pela escola

A solução então foi essa
O caos para aqueles que fingiam não ver
Que a cidade e suas crianças
Caminhavam pelo fio da navalha havia muito
A cidade foi dividida
Pelo corte da cegueira e do egoísmo
O corte foi profundo e fez sangrar
E a punição é exemplar

raph'03

***

Dizem que é das situações mais precárias que nasce o verdadeiro desejo de mudança. Quem sabe a Cidade Maravilhosa não dê a volta por cima, quem sabe?

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18.12.06

Gotas

Gotas
que caem
no oceano.

Gotas…
Límpidas, porém cálidas.
Caem…
Em infinitos oceanos.

Muitas gotas.
Gotas sem rumo.
Caem ao acaso
em um lindo vaso
que guarda o ser humano.

Quantas gotas
hão de cair
para ante a verdade,
evaporarem de volta aos céus,
e finalmente encontrarem
um caminho a seguir?

(Tantas quantas lágrimas
o Criador puder chorar…)

raph'99

***

As gotas são as almas dos homens.
Límpidas por nascerem puras, cálidas por procurarem arduamente a evolução.
Cada oceano é uma terra de homens, pois cada planeta tem seu oceano.
A princípio as almas parecem estar sem rumo, e a ilusão de que existe o acaso parece bem real.
O "lindo vaso" é o próprio ser humano, sua máquina perfeita, seu corpo terreno.
Evaporam de volta aos céus quando desencarnam, não uma mas muitas vezes.
Porisso o "quantas gotas hão de cair"...
Após várias encarnações as almas finalmente encontram um caminho à seguir.
Então a ilusão de que existe o acaso desaparece.
E finalmente,
O Criador só poderia estar chorando de alegria.

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5.12.06

A grande Galera Etérea

As vezes me pego assim...
Meio que solto no tempo...
Meio ontem... Meio amanhã.
Meio no início... Meio no fim.

Então sou pura solidão.
Pura poeira cósmica.
Que pulsa e vibra
no centro dessa explosão...

Mas sós não estamos.
E toda essa imensidão percebemos.
E mesmo aqui em presente vivemos.
Nunca fomos... Nada seremos.

Que afinal fazemos?
Pergunto-me quando traço
essas linhas sem compasso
no espaço sem espaço...

Energia... Transcende a matéria.
Antares, Capela, Terra...
Tantas foram... Tantas mais
esperando pela Galera Etérea.

E não sou rápido o bastante
Para ser o antes do depois...
Ou depois... Ou antes
desse ciclo constante...

Portanto se o tempo intervêm,
aceito-o trânquilo...
Pois já vi lá do alto do mastro
quanto tempo ele tem.

raph'99

***

Acho sempre interessante como o que escrevemos no futuro pode complementar o que escrevemos no passado, e vice-versa. Enfim, talvez a inspiração para o ato de escrever em si esteja ela totalmente fora do tempo...

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28.11.06

Olhos de gato

Estaria tua beleza perdida, minha amiga?
Ou antes espalhada pelas telhas e parapeitos da madrugada
A bailar para a lua, e cantarolar para a noite?
Seriam os cânticos e miados que ouço despercebidamente
A prova de que nas cidades etéreas
Já estais com tua pena a escrever doces poemas?

E quanto a esses felinos maravilhosos?
A cor de seu pelo brilha ainda mais com a aurora,
Seus movimentos precisos lembram as passadas de Hermes,
E em verdade não há nesse mundo nada mais enigmático que seus olhos!
Será que, como a rainha egípcia,
Você também agora os cria em seu templo de amor?

Mesmo essa saudade, que arde como um corte ainda aberto
Não poderia ser amenizada pela lembrança
De que em cada moita, telhado ou degrau
Há pegadas de teus filhos tão amados?

Pois tudo que hoje almejo
É olhar bem profundo
No próximo par de olhos de gato que encontrar
E fitando-os, tentar achar a porta
Que leva as escadarias de tua torre, minha amiga
Pois que ainda sinto essa falta tão amarga
De nossas conversas, nossas brincadeiras
E de gatos a pular

raph'06

***

Escrevi essa poesia em homenagem a minha melhor amiga, Flávia, que desencarnou nesse ano, e também a minha gata Xica, que sumiu de casa pouco depois. Muito embora tenho certeza de que ambas estão bem, já estamos com outra gata (Júlia), e uma das razões que pensei em começar esse blog foi para preencher o vazio de não ter mais uma poeta para conversar... E vamos em frente!

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