Pular para conteúdo
28.5.13

Ó, asno meu!

Monge sorrindo

Um dia encontrei-me com um antigo mestre
que trilha o Caminho há tanto tempo
que já não sabe se segue para leste ou oeste...

Disse-lhe assim:
“Mestre Chuang, agora já sei da dualidade das coisas;
o Yin passivo e o Yang ativo, como a mulher e o homem,
a terra e a chuva, o caminho da mão esquerda
e o da mão direita, o bem e o mal!”

E ele, que não chamava a si mesmo de mestre,
levantou-se da sombra da macieira onde descansava
e sorriu enquanto me massacrava:
“Ó, asno meu! De onde tirou tamanha imbecilidade?”

Eu, é claro, pedi que me ensinasse de sua maioridade,
e ele me ensinou sem dizer uma palavra...

Trepou de um meio pulo na macieira
e com sua mão esquerda retirou uma maçã da beira;
depois saltou de volta e se acomodou recostado ao tronco
e comeu do fruto meio tonto,
saboreando lentamente cada pequena parte
enquanto me olhava com arte
(seus olhos continuavam a sorrir).

Depois de deixar somente um pálido fiapo de maçã,
retirou com a direita cada uma de suas pequenas sementes
e depois correu até o outro monte
(eu o segui, quase a mostrar os dentes).

Lá, do alto do outro monte, arremessou cada semente numa direção,
e foi como se algum vento houvesse me soprado nos ouvidos:
“Cada semente é um universo; Quando isto tudo começou?
Quando isto tudo termina? Qual nome lhe daremos?
Imensidão!”

Então compreendi que até mesmo a mais frágil macieira
ainda tem suas raízes encravadas na Terra;
no Céu pela vida é capaz de buscar
e uma doce maçã nos ofertar.

***

Antes de ir-me, Mestre Chuang ainda me ensinou assim:
“Olá asno, hoje irei lhe demonstrar o segredo dos dois caminhos,
o da mão direita e o da mão esquerda”.
E ele simplesmente aproximou ambas as mãos,
quase até que encostassem (mas sem encostar) e disse:
“Elas não se encostam, e no entanto uma sabe da outra;
Ó asno meu, é este o segredo do magnetismo dos opostos –
Não há opostos!”

E esta foi uma lição de que me lembro até hoje,
sempre que saboreio uma nova maçã.


raph’13

***

Crédito da foto: Anders Overgaard

Marcadores: , , , ,

24.3.13

Vidas e vidas

Passando pela esquina
Da vida
Deparei-me contigo subitamente –
Alma lamparina

Conversando aqui neste café
Da vida
Me apercebi de quem realmente é –
Apenas uma menina

“Eu me lembro de você”
Não de ontem ou de semana passada,
Mas de vidas e vidas –
Ó alma amada

E se choro,
Choro pela beleza
E pela tristeza
De saber que vidas vêm e vão...
Iguais jamais serão!

“Estarei sonhando acordado?”
Você me diz que não:
“Amar e perder
É melhor que não viver –
Que nunca haver
Sequer amado”


raph’13

***

Crédito da imagem: Mike Chick/Corbis

Marcadores: , , ,

12.3.13

Mãos à obra!

“De que lado é que veio este vento?”
Não há lados.

“De onde é que você me chamou?”
Não há “onde”. Há somente o chamado...

“Porque não me deixa em paz? Tenho sono...”.
Não há sono no mundo!

“Quero ser um fantoche, não um ator”.
Não lhe imaginei como um fantoche;
O imaginei como grande herói,
Grande aventureiro da própria vida,
Argonauta dos sete mares!

“Não quero navegar, não quero ser náufrago...”.
Navegar é preciso!

A vida no medo
É como uma ilha de náufragos no deserto
Tateando atrás duma gota d’água...
Ó herói temerário, aventura-te!
Desperta enfim!
Há água por todos os lados...
Há um Oceano a tua volta!

“Quero viver, não morrer. Tenho medo”.
Viver não é preciso
Nem mesmo necessário...
Isto que chama “vida”
É somente um entreato entre gloriosas aventuras
E viagens inimagináveis
Senão em sonhos.

Ó herói sonolento, aventura-te!
Viver não é preciso
Criar é preciso.

Estou lhe chamando para uma aventura
Pelos caminhos tortuosos para dentro de ti mesmo
Que escondem, por detrás da cordilheira dos dragões famintos
Um Reino de Liberdade!

Estou lhe convidando:
Desperta, enfim, em meu Reino...

Mãos à obra, a Grande Obra!


raph’13’A.’.A.’.

***

Crédito da imagem: one2one

Marcadores: , , , , , ,

5.2.13

O Reino

I.
“Que é a vida?”
Um desconhecido me perguntou
Há muitas vidas, quando lhe disse:
“A vida é o que me foi revelado
Por um profeta cheio de segredos
Falando aos brados”

“Tudo é pecado, tudo é pecado!”
Gritava aquele homem santo
Que sabia ver a sombra do Demônio
Debaixo de cada pedra e galho seco...

Com ele aprendi a orar para me salvar
Do grande Fim de Tudo
E do Julgamento do Pai Justo:
Aquele quem diria quem de nós iria ao Céu
E quem iria arder abaixo da Terra

Mas, foi nalguma vida que pensei...
“Ó Pai Justo e Onisciente, se Tu a tudo criou
Mesmo o Inferno é Tua obra
E mesmo do que lá ocorre, Tu bem sabes:
Sabes de cada gemido e ranger de dentes
De cada filho Teu a arder no enxofre
Sabes perfeitamente!”

Foi nesta vida que tornei-me ateu...

II.
“Que é a vida?”
Perguntei a um rabi que andava pela Galileia
E parecia estar cheio de vida
No olhar
E em todos os poros do corpo...

“A vida é uma festa que se dá no Reino”
“Mas onde está o Reino, é alguma ilha além do mar?”
“Se o fosse, os peixes teriam nos precedido...”
“Então, estaria acima das nuvens?”
“Se estivesse, os pássaros seriam já como anjos...”
“Onde está tal Reino? Diga-me, ó rabi!”

“Primeiro é preciso que você aprenda a dançar;
Pois que, do contrário, não será convidado para a festa”

III.
Foi então que me dediquei a essa tal dança
De corpo e alma
E, em cada vida que fosse
Se houvesse aprendido mais um passo
Um movimento sequer...

Não teria vivido em vão

IV.
“Que é a vida?”
Me perguntará outro desconhecido
Nalguma vida que virá;
E eu citarei o rabi:
“Uma dança. Uma dança belíssima”

E mostrarei seus passos
E o desconhecido ficará espantado
E achará que sou um homem santo
Ou profeta...

“Não há santos nem profetas”
“Mas como se pode dançar tão perfeitamente?”
“Nenhuma dança nunca será perfeita”
“Mas quero dançar como tu, ó dançarino!”
“Digo-te o que me disse uma vez um rabi, há muitas vidas:
Tudo que tenho feito, dia virá que farão o mesmo
Mesmo a minha dança, dia virá que a dançarão com ainda mais vida
E ainda mais entusiasmo
Pois que são deuses
E é dançando
Que os deuses alcançam ao Céu”

“Mas, onde está o Céu?”
“Onde sempre esteve: na alma do dançarino...
Hoje danço e apenas danço
E sei que nada precisa ser revelado
Além do que já percebo em meu coração
Ouça, ouça o ritmo!”
“Nada ouço, ó dançarino”
“Como pode?
Como pode não ouvir o ritmo da vida
Na ânsia por si mesma
Tempestuosa e caudalosa
Preenchendo todos os espaços?”

“Onde está a vida? Está aqui, no presente?”
“O presente é como um rio a escaldar
Uma chuva torrencial
De vida ancestral

Não há mais medo
Não há mais dúvida ou certeza
Não há mais profecias
Nem Deus ou o Demônio
Há apenas esta dança na chuva
Há apenas esta vida, gota de inúmeras outras
Que encharcam há tudo que há...

Agora vejo:
Debaixo da cada pedra e galho seco
Além do mar e das nuvens
E ainda dentro da alma que dança:
Tudo foi Céu
Tudo será Céu
Tudo é Céu!”

Bem vindo, tu que não é mais desconhecido
Meu semelhante...
Bem vindo ao Reino

raph'13'A.'.A.'.

***

Crédito da foto: favim.com (Anônimo)

Marcadores: , , , , , ,

31.1.13

Declama-te

Tu que me lês...

Tu não és corpo
Sombra de vestes que lhe encobrem
Onde és profundo

Tu não és mente
Posta secretamente ao fundo
De um rio que corre eternamente

Tu não és sequer ser
Ou és?

Não me importa...
O que sei é que és assim infinito
Flutuando a margem da linguagem:
És ser
E não és ser

Ser é apenas uma palavra
Que só deve ser declamada
No silêncio da lavra

E o que cultivou dentro de ti?
O que descobriu, ó literato?
Diga-me se sabes dizer quem és...

Diga-me teu nome
Que eu lhe digo quem és tu!

Diga-me neste silêncio
Que em silêncio lhe responderei:

Tu és poema, ó questionador...
Finda dessa forma toda esta separação
Esqueça-te do esquecimento
Lembra-te do teu eu mais profundo:
Declama-te!

raph’13

Crédito da imagem: raph

Marcadores: , ,

24.1.13

In my soul I know

poema que chegou em inglês, a tradução segue abaixo...


In my soul
I think I know…
Should I think so?

Or should I think:
At least I’m on the way;
If I do look back
I see all my footsteps
Right beside the ruts
Of your chariot, Jalal ud-Din…

It’s silent in the way
And, sometimes
It’s also silent in my soul

When I come to this coffee shop
And ask for one
The attendant smiles
Cause she already know me
For quite some time…
But then, I suddenly think:
Does she know that I’m a poet?
Should I think so?

Or should I think:
At least I say “thank you”
When the coffee arrives…

Look at all the lovely people
And look at all those blind ones;
Someday they will see, Jalal ud-Din…
And, in that day
Let’s hope they do not blink their eyes
Because in that blinking
In that moment
Eternity could pass away!

I’m, I try to be, an attendant
An attendant for eternity;
And, when the attendant brings me my cup
I say, from the deep of my soul:
“Thank you”;
But, shouldn’t I say:
“I’m you”?

In my soul, I know


***

Em minha alma
Eu acho que sei...
Deveria pensar assim?

Ou deveria pensar:
Pelo menos estou no caminho;
Se olho para trás
Vejo todas as minhas pegadas
Bem ao lado dos sulcos
De sua carroça, Jalal ud-Din...

É silencioso no caminho
E, às vezes,
É silencioso também em minha alma

Quando venho neste café
E peço por um
A atendente sorri
Porque já me conhece
Há um bom tempo...
Mas então, subitamente, eu penso:
Ela sabe que sou um poeta?
Deveria pensar assim?

Ou deveria pensar:
Pelo menos eu digo “obrigado”
Quando o café chega...

Olhe para todas essas pessoas amáveis
E para todas estas ainda cegas;
Um dia elas verão, Jalal ud-Din...
E, neste dia,
Tenhamos esperança que não pisquem os olhos
Porque ao piscar
Neste momento
A eternidade pode passar desapercebida!

Eu sou, tento ser, um atendente
Um atendente para a eternidade;
E, quando a atendente me trás minha xícara
Eu digo, do fundo da minha alma:
“Agradeço a você”;
Mas, não deveria dizer:
“Eu sou você”?

Em minha alma, eu sei

raph’13

***

Crédito da foto: Kunal Kalro (um café sufi)

Marcadores: , , , ,

16.12.12

Redenção

Era um anjo
E, como anjo, havia sido criado
Assim perfeito: angelical

Mesmo corrompido
Caído no mal
Era perfeito...
Perfeitamente oposto a Deus
Perfeitamente em queda
Não importa:
Tudo isso são apenas palavras

Fato é que era um anjo
Do qual dizem os mitos:
Rebelou-se por inveja da humanidade!

Ocorre-me agora que, talvez,
Não invejasse o amor
Com que Deus ama o homem
Mas sim a imperfeição
A sublime imperfeição humana

Que os homens e mulheres
Não surgiram do nada
Já perfeitos
Evoluíram, enfim, como seres
Não como anjos
Não como autômatos programados
Para uma perfeição alheia

Era, dessa forma, um anjo
Que buscou a corrupção
Como há homens
Que buscam a salvação

Porém, mesmo no andar mais baixo do inferno
Percebeu: jamais poderia navegar para fora de Deus
Pois que não há
Nunca houve
Nem haverá
“Fora de Deus”

Esta compreensão é, portanto, sua pena
Sua angústia infernal
Seu tormento mais profundo
E toda
Toda a redenção do mundo

Ó buscador:
Não há “a perfeição” ou “a salvação”
Há apenas este caminho perfeito
Por onde antigas rodas percorrem os velhos sulcos

raph’12

***

Crédito da imagem: Google Image Search (capa de um livro sueco chamado Fallen angel)

Marcadores: , , , , ,

24.11.12

A náufraga

Na superfície
Existe a dor

O amor é mais profundo
O amor é todo
Um oceano

Vivemos neste mundo
Como barcos a deriva
Temerosos em se chocar
Em naufragar

Quando era criança
Vi uma náufraga que vivia no mar
E nadava junto aos peixes
E dançava com as ondas
E cantava antigos cânticos de sereias...

Quando perguntei qual era sua magia
Ela me respondeu:
“A Natureza não está interessada
em nosso orgulho;
Todo o vasto oceano esteve sempre à espera
do nosso primeiro mergulho.”

raph’12

***

Crédito da ilistração: Caroline Jamhour (Fada Mariposa)

Marcadores: , , ,

17.10.12

Almas a brotar

De um mito antigo, tirado de contexto
Criaram um novo, bem mais sedutor
Mas as almas giram pelo mundo fora de eixo
E ninguém ainda viu seu condutor

As almas, enfim, estão gêmeas
Mas não são
Que as almas não estão paradas
Fluem e dançam na imensidão

Os mitos, afinal, dizem respeito a nós
Se existe uma metade que foi perdida
Nós que a perdemos, na dor da lida

Se queremos amar, de toda alma, ao que está separado
Trabalhemos com afinco no arado
Até que brote, em flor, o Uno Amado

raph'12

***

Crédito da foto: Google Image Search

Marcadores: , , , , ,

3.10.12

Pé ante pé

Nesta dança em plena imensidão
Existe um momento
Em que pensamos no próximo passo
Que daremos em devoção

Neste distinto momento
Não mais sabemos
Se é o ritmo que nos faz dar o passo
Ou nosso passo que determina o ritmo

Então acontece:
O flautista divino, e o dançarino embriagado...
Eles se encontram
Se reconhecem
Se alimentam mutuamente
E dançam juntos
Pé ante pé

Neste momento há uma dança de Amor
Seus ecos ressoam em todas as almas
Que bailam junto a cada ventania
E cada pequena brisa

Como bem disse Shams:
Cada átomo
Gira apaixonado
Em torno do Sol

Mas e o que diabos
Tudo isso é?
Só a alma o sabe
Pé ante pé

Vem, dancemos então...
Dancemos em silêncio

raph’12

***

Crédito da foto: Retirado da página em homenagem a Rumi, no Facebook

Marcadores: , , , ,