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20.10.15

Mantiqueira

Eu venho neste lago desde pequenino
contemplar a tranquilidade das águas
a receber as lágrimas da Mantiqueira
e, como divino conselheiro,
responder com este silêncio,
um silêncio ensurdecedor!

Eu também já vim chorar ao seu lado
as desilusões da adolescência
neste mundo carregado de chumbo;
então, como grandes amigas,
as araucárias à margem me consolaram:
me falaram de sua dança de brisas e sementes
e de como flertam umas com as outras
há tanto, tanto tempo,
que aqueles meus momentos de angústia
eram como o breve piar dos pássaros
que enchiam o mundo de música...

Ó, as araucárias me ensinaram
a enxergar a sinfonia inteira!

E hoje, aqui, sou o testemunho
de que tinham razão:
vejo a mulher que amo,
a futura mãe dos meus pequeninos,
contemplar o mesmo lago
sob a sombra das mesmas araucárias...

É então que, subitamente, penso nas montanhas
que sempre abraçaram o horizonte daqui,
e em como, para elas, o tempo do amor das araucárias
é tão breve quanto o tempo da minha própria vida
em relação as árvores.

E ainda, que este lago em si
carrega em seu leito
as testemunhas liquefeitas
do início dos tempos!

E assim, inundado de poesia,
eu lembro que esqueci o celular no chalé,
e corro morro acima
para colocar logo em papel
este meu pequeno testemunho
do piscar dos olhos
da serra que chora...


raph'15

Amantikir é um termo indígena que deu origem à palavra Mantiqueira, cujo significado é “Serra que Chora”. A Serra da Mantiqueira é uma cadeia montanhosa que se estende por três estados brasileiros: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

***

Crédito da foto: raph

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4.7.15

A linguagem divina

No início, era o silêncio...

Então, quando as primeiras nuvens de poeira
se encontraram, colidiram e formaram sóis,
não havia ninguém espreitando à beira,
ninguém para ouvir, nenhum de nós...

Desde o tempo ancestral
ao primeiro despertar da consciência,
desde o início até o longínquo final
deste inefável Dia Divinal,
o que a tudo permeia e abraça,
que não o silêncio?

Todos somos como breves sibilos,
o leve tilintar de notas musicais
que pontuam o intervalo das vidas
e das eras e civilizações humanas;
ó Sadhu, observa bem:
todos somos ancestrais!

E o que permite que todas as melodias,
todos os acordes e pontos de tambor
tornem este tempo que escorre pelas vias
uma única e grandiosa canção de amor?

Ora, já lhe chamaram de El,
Brâman, Olorun, Nhanderuvuçu,
e de Supremo Senhor do Céu.
Mesmo Parmênides e Espinosa
lhe deram o mesmo nome...
Já eu, eu lhe chamo “silêncio”.

E há aqueles que ainda seguem angustiados,
sem ter respostas para suas orações;
sem ouvir sua voz, vivem exilados
do mundo, dos seres, e dos próprios corações...

Ó Sadhu, ó Sadhu,
vai e lhes ensina
que o silêncio é a linguagem divina!
Vai e lhes diz
que nunca houve nem haverá
um momento sequer
em que Deus não esteja a lhes abarcar
e a lhes sussurrar, bem baixinho,
tudo o que nunca pôde ser dito
nem ouvido... 

“...”


raph'15

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Crédito da foto: Petr Horálek

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30.5.15

O país do futuro

No país do futuro
há muitas criancinhas
que brincam pelas ruas
de catar balas de fuzil
dos tiroteios das madrugadas;
enquanto outras, mais grandinhas,
que já aprenderam a correr e pular,
brincam de subir o morro e gritar:
Vem aí os alemão!

No país do futuro
há jovens sem pai nem mãe
nem escola nem sociedade...
O que eles querem?
O tênis da moda,
a camisa do shopping,
o celular novo do comercial...
Mas, como já disse o poeta,
o seu cartão de crédito
é uma navalha.

No país do futuro
os homens de bem se trancam
em suas vilas, condomínios,
e malls maravilhosos,
cheios de grades, câmeras
e sentinelas...
Mas, quando se arriscam a sair
e apreciar a paisagem,
muito cuidado!
Eis que podem ser perfurados
pela realidade!

No país do futuro
há muitos que parecem temer
que todos esses que vivem nas encostas
subitamente resolvam descer ao asfalto,
juntos, e revoltados...
Porém, há muitos que se entreolham
nas praias, nos parques, nos estádios,
e nas vias comuns,
e indagam a si mesmos:
Mas não disse o rabi
que éramos todos irmãos?

No país do futuro,
que importa, afinal,
quem sobe
e quem desce?

No entanto, no país do hoje,
é preferível ainda
enviar todas essas criancinhas,
e jovens, e seres
condenados a viver a margem
para os morros
e as masmorras,
a depender, é claro,
do merecimento de cada um!

Depois ainda não sabem
porque diabos esse tal futuro
não chega nunca...


raph'15

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Crédito da foto: Wilton Júnior/AE

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24.4.15

A gravidade, a eletricidade e o magnetismo

Neste momento
partículas do todo
bailam junto a gravidade,
a eletricidade e o magnetismo:
elas estão à sua volta,
elas são o seu corpo,
a divina imaginação da vida
tornada ser!

Meus irmãos e irmãs,
andarilhos e exploradores do cosmos,
nós também somos parte de tais ciclos:
o ciclo da luz,
o ciclo do carbono,
o ciclo das infinitas formas,
das mais belas espécies,
das mais belas almas,
que dançam junto a gravidade,
a eletricidade e o magnetismo...

Viemos da poeira
espalhada pelas fornalhas
que ainda salpicam, até hoje, a noitinha:
uma festa antiga,
um cosmos ancestral,
uma incomensurável procissão de sóis
rumo a sabe-se lá onde!

E, se as estrelas são deusas,
nós também somos da raça dos deuses,
e cada relva a nascer
dentre pequenas rachaduras no concreto,
e cada abelha a sugar o néctar
e polinizar o mundo,
e cada ave migratória no céu,
e cada golfinho brincalhão no mar,
e cada felino a correr
atrás de torvelinhos pelo campo:
tudo é da raça dos deuses,
todos são filhos de Gaia
e deste baile eterno da gravidade,
da eletricidade e do magnetismo...

Ó andarilhos, ó exploradores, ó sábios,
nós já compreendemos tanto...
Mas ainda falta saber
como um punhado de poeira,
de rochas e barro e água fervente
deu origem a deuses,
a deuses!

raph'15

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Crédito da imagem: BordomBeThyName

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14.4.15

A campanha

As estrelas são testemunha
do meu desejo de menino:
ser um grande herói,
quem sabe um sábio,
ou até mesmo um mago...
Aquele, enfim, que poderia consertar
todos os males do mundo
de um só golpe.

As estrelas são testemunha
do quanto sofri ante olhares
incapazes de ver ou sentir
ou sequer perceber, de relance,
todos os milagres atômicos
a eclodir e dançar junto a poeira cósmica,
a rodopiar pela brisa sideral,
desde a eternidade.

Mas que mago que nada!
Um sábio sabe apenas de si,
e o maior dos heróis
é aquele que vence a si mesmo,
o grande conquistador
dos reinos de adentro...

Hoje já iniciamos a nossa campanha:
os bons aventureiros foram convocados,
as provisões, estocadas nas mochilas,
as orações, guardadas no coração,
e, na mesa da taverna, o mapa aberto,
a cartografia da alma,
onde marcamos todo o percurso
desde aqui até a Grande Montanha.

Assim, na noite em que chegarmos ao cume,
lendas antigas serão cantadas,
e novas histórias serão escritas,
e todos nós celebraremos juntos,
e todas as estrelas serão testemunha
de que deixei de lado as artes mágicas
em busca de um ofício deveras mais importante:
a arte de se posicionar espelhos.

raph'15

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Crédito da imagem: Chris Rose

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6.2.15

Não há pressa

Eu sigo dentre pedras portuguesas
de calçadas em desalinho.
As pessoas passam, meio que presas,
meio que desnorteadas do caminho.

Há os que estudaram para passar
e os que buscam tão somente amar.
Um bom emprego é uma sorte,
mas não há como vencer a morte.

Alguns galgam uma vaga no céu,
e temem o olhar de Deus.
Outros dançam ao léo,
jamais julgam os seus.

Com as pedras que catei no caminho
construí castelos em desalinho.
Amar é tão somente uma sorte,
o amor vive muito além da morte.

Há santos que dançam com Deus,
os mais belos pensamentos do mundo são seus.
Há seres que abandonaram seus egos ao léo
e que caminham, com muito alinho, pela via do céu.

Não há pressa:
tudo o que há é este momento
que também desaguará no mar...


raph'15

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Crédito da foto: Marcos Issa/Argosfoto

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22.10.14

Um convite para a eternidade

São rostos de todo tipo,
faces e olhares a alhures,
e restos de passados,
angústias de futuros,
e presentes aprisionados
num vagão lotado
e na tela cristalina
de um smartphone...

Não obstante, neste instante,
por entre meios fios
e rachaduras em concretos frios,
flores desabrocham,
relvas tingem o cinza,
e verdejam as plantas mais comuns,
enquanto as montanhas cochicham umas as outras
(por milênios a fio)
sobre os seres apressados
que elas viram nascer
e passar e morrer...

Cada pedra portuguesa desta calçada,
cada pequeno jardim,
cada loja de rua e padaria,
cada igreja e banca de jornal daqui
são para mim os símbolos e os emblemas
da minha breve história...

Lá do alto, porém,
de braços abertos,
e um olhar convidativo ao horizonte sem fim deste grande mar,
vela por nós o Cristo,
e nos redime de nossa brevidade,
e nos estende a mão –
um convite para a eternidade.


raph'14

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Crédito da foto: Ladyce West

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15.7.14

Um breve interlúdio da eternidade

É precisamente aqui
no topo destas montanhas
que fecho meus olhos e imagino,
e viajo com o vento
e observo do alto
a tudo o que corre e caminha
e ara e caça e assobia e dança
e, pelas vastas campinas, vive.

Eu vejo as fileiras de berberes em seus antigos camelos
a cruzar uma tempestade de areia.
No norte da África, este povo sobreviveu a aridez do Saara,
e ao surgimento e morte de civilizações.
Ninguém conseguiu represar seu pensamento
que, livre como o vento,
canta com certa tristeza
e também com imemorial alegria
o destino de todos aqueles que cruzaram
para o Norte, o Oriente e o Ocidente.

Eu vejo os templos de Veranasi semi encobertos pelas águas
do rio mais sagrado de seu povo.
No coração da Índia, corre o Ganges,
com suas águas a fluir das grandes alturas;
e assim, batizando a todos,
curando a todos,
embalsamando a todos,
desce o Ganges, desde o Himalaia,
e junto com ele também
vai toda uma procissão fluvial de deuses.

Eu vejo as ciganas a dançar numa praça de Skopje,
ao som dos antigos pandeiros.
Seus tecidos são como criaturas a bailar pelo ar,
e os seus corpos sensuais
nada mais são do que uma extensão de sua alma.
Ninguém sabe de onde vieram, nem para onde vão:
Macedônia, Romênia, Itália, Espanha, Portugal...
Vejo um povo que gosta de perder países
e que jamais encontrou qualquer fronteira
ou muro em seu caminho.

Eu vejo uma roda de samba nos Arcos da Lapa,
e ouço o murmúrio dos escravos vindos da África
tornado amarga alegria.
A sua volta, representantes de diversos povos do globo
arriscam passos desengonçados
numa tentativa de dançar como os negros brasileiros;
mas somente um povo que tanto sofreu
e que guardou todos os seus mitos lá no fundo do coração
pode dançar este samba.

Eu vejo uma grande festa
num bar na cobertura de um dos arranha-céus
da cidade no centro do mundo – ó Nova York!
Vejo uma grande reunião de povos,
viajantes genéticos dos confins da Terra,
que celebram ali
toda a vã alegria da pós-modernidade.
Vejo seres abatidos por um grande esquecimento
das celebrações ancestrais
ao redor de fogueiras
e debaixo de uma vastidão de tribos estelares.

Vejo, enfim, um grande comboio de almas
a singrar em ziguezague pelo mundo,
a ir e voltar e ainda assim
jamais sair do lugar.
E vejo também
a beira das estradas
e a beira das estrelas
os instrutores desconhecidos
a cuidar e amar
cada uma delas,
sem exceção!

E após contemplar a tudo isso,
e após meditar acerca disso,
e refletir adentro
este breve interlúdio da eternidade,
é que posso ver
o que Deus vê
ao olhar para si mesmo
a cada momento,
desde que decidiu imaginar a Tudo,
a Tudo!


raph’14

***

Crédito da foto: APOD

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26.5.14

Yesod shebe Yesod

Então, ainda há este cheiro de azedume,
este pântano onde muitos se debatem
e poucos encontram em si
a vontade para sair.

Então, você ainda pode ver esta multidão
que caminha sem direção,
e morre aos poucos
enclausurada em suas próprias gaiolas.

Ante olhares curiosos, que em realidade
nada veem e nada sentem,
você continua batendo suas asas
e planando junto aos ventos do leste.

“Que outro mundo é este?” – você pode perguntar...
Ora, é o mesmo!
Não é o mundo que muda, ó andarilho dos ares,
mas o seu ponto de observação...

Afinal, foi você quem rompeu seus grilhões;
você quem se arremessou sobre o abismo profundo
que havia além da sua antiga gaiola;
e foi você, ó ser alado,
quem criou estas asas de amor,
e renasceu nesta nova forma,
e aprendeu a ver todas as coisas do alto!


Mas ainda é cedo para celebrar.
Este sonho é apenas um breve deslumbre
da Grande Colheita na Alvorada.

Sim, eu sei o quanto é difícil
voar tão alto,
e contemplar a luz nascendo além do horizonte,
apenas para acordar novamente lá embaixo.

Mas é esta, precisamente, a sua tarefa,
o compromisso que assumiu com seus irmãos –
vir buscar as sementes que nascem aqui,
no alto do Sinai,
e então, descer
para semear todo o mundo.

Vá! Vá, pequeno pássaro!
Suas asas ainda são frágeis
e o seu bico aguenta somente uma semente...

Mas vá!
Voe de volta aos vales de abaixo
e escolha com todo cuidado e sabedoria
onde plantá-la.

Voa! Voa!
Voa para bem longe daqui...
Deixe que a manhã do mundo
venha novamente lhe buscar,
mas lembra,
lembra deste sonho
no Dia da Colheita!


raph’25.05.14

***

Nota: Este é o último poema do Sefirat ha Ômer que eu devo publicar no blog. Mas, se tudo correr bem até o Dia da Colheita, isso tudo ainda deve se transformar num livro de poesia mística...

Crédito da foto: Hazel Erikson

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23.5.14

Tiferet shebe Yesod

Neste caminho há um abismo
aparentemente intransponível.

Até a sua escarpa
a via foi dura e sofrida,
mas ao menos os livros ainda nos aconselhavam
sobre a melhor forma
de desviar deste ou daquele obstáculo,
e de evitar este ou aquele perigo.
Depois desta passagem, no entanto,
não há nada que as palavras possam fazer,
e nem mesmo os nosso instrutores mais sábios
poderão nos ajudar...

Ó, desbravadores de novas terras,
aventureiros de adentro,
não há quem possa erguer a ponte
e dar o primeiro passo desta travessia –
ninguém, além de nós mesmos!


Neste caminho há um abismo
vasto e profundo.

Até a sua beira
a jornada ocorreu em nossa própria margem;
mas do outro lado,
onde a música ecoa sem cessar,
iremos transbordar
e inundar o mundo inteiro!

Ó, construtores de pontes,
engenheiros da Alvorada,
certifiquem-se de que a sua corda
esteja bem fincada do outro lado;
e, ao dar o primeiro passo nesta travessia,
não se voltem para o que deixaram para trás
e nem olhem para baixo,
mas se concentrem, isto sim,
nos passos que ainda têm pela frente.


Neste caminho há um abismo
a separar os dois mundos.

Até este lado
a vida seguiu fria e sem sentido,
mas na outra margem
os sol já aquece as campinas,
a música já nos convida para a festa,
os deuses já se vão a dançar embriagados
e as cornucópias já estão postas à mesa...


raph’22.05.14

***

A cornucópia (imagem que ilustra o poema) é um símbolo representativo de fertilidade, riqueza e abundância. Na mitologia greco-romana era representada por um vaso em forma de chifre, com uma abundância de frutas e flores fluindo de seu interior.

Crédito da imagem: Wonderpolis.org/Google Image Search

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