Os dias e as letras
Os dias e as letras são tudo que nos restam.
Pronuncie alto as vogais de seu coração,
não se preocupe como ecoam na imensidão
ou como são compreendidas pela multidão;
neste longo caminho dentre mercados barulhentos
e desertos do ser,
decerto haverão andarilhos
capazes de lhe compreender.
Não se aflija se não encontrou papel para suas letras,
que toda poesia surge primeiro na alma;
e lá, desde sempre, ficou anotada
nos Anais dos Arcanjos.
Não se angustie pelos dias perdidos,
que todo o tempo do mundo
é guardado aqui, na ampulheta
deste exato momento.
Os dias e as letras são tudo o que nos restam,
mas nem mesmo eles poderão ser usados na estalagem da montanha,
de onde se contempla a eternidade
no café da manhã.
Não, ó andarilho, a única moeda que teremos então
é a única que fica, a única que passa:
o amor de todos os seus dias,
o amor em todas as letras deixadas.
Não é preciso morrer para ver o Taverneiro.
Em realidade lhes digo
que ele tem lhes acenado pela beira da estrada
desde há muito, e anunciado o menu
das delícias de sua estalagem
pela música dos pássaros,
o baile das brisas,
e a dança dos torvelinhos de poeira.
Iniciados e não iniciados,
poetas e cientistas,
sábios e vagabundos,
foram todos convidados...
Mas quão poucos, quão poucos
tiveram olhos para ver!
raph'17
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