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5.6.17

Os dias e as letras

Os dias e as letras são tudo que nos restam.
Pronuncie alto as vogais de seu coração,
não se preocupe como ecoam na imensidão
ou como são compreendidas pela multidão;
neste longo caminho dentre mercados barulhentos
e desertos do ser,
decerto haverão andarilhos
capazes de lhe compreender.

Não se aflija se não encontrou papel para suas letras,
que toda poesia surge primeiro na alma;
e lá, desde sempre, ficou anotada
nos Anais dos Arcanjos.
Não se angustie pelos dias perdidos,
que todo o tempo do mundo
é guardado aqui, na ampulheta
deste exato momento.

Os dias e as letras são tudo o que nos restam,
mas nem mesmo eles poderão ser usados na estalagem da montanha,
de onde se contempla a eternidade
no café da manhã.
Não, ó andarilho, a única moeda que teremos então
é a única que fica, a única que passa:
o amor de todos os seus dias,
o amor em todas as letras deixadas.

Não é preciso morrer para ver o Taverneiro.
Em realidade lhes digo
que ele tem lhes acenado pela beira da estrada
desde há muito, e anunciado o menu
das delícias de sua estalagem
pela música dos pássaros,
o baile das brisas,
e a dança dos torvelinhos de poeira.
Iniciados e não iniciados,
poetas e cientistas,
sábios e vagabundos,
foram todos convidados...

Mas quão poucos, quão poucos
tiveram olhos para ver!


raph'17

***

Crédito da imagem: Google Image Search/alphacoders.com

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18.3.17

Ante tamanha beleza

E antes de tudo o mais
olhou ao redor,
e não tendo visto
nada além de si,
proclamou: "Eu sou";
e este foi o primeiro nome.

No princípio não era o verbo,
era o inefável, o inominável,
o infinito que o antecede,
a eternidade,
o que é, foi e será:
"Eu sou"

Depois, vieram muitos outros nomes,
e deuses e titãs
e anjos e demônios
e homens e animais...
mas, até este dia, e todos os dias,
não há noite em que não se lembrem
daquele que antes de tudo os imaginou
(isto ocorre pouco antes de fecharem os olhos);
e então tudo é sonho,
tudo bruma e escuridão.

Até que surge a manhã seguinte,
e quando eles despertam
e olham ao redor,
ante tamanha beleza,
todos brevemente se esquecem
da angústia da separação;
e então tudo ainda é sonho,
tudo luz difusa sob um véu
de ilusão.

Sim, é justamente assim que tem sido,
e será para sempre!

Eu gostaria de poder explicar melhor,
mas tudo isso por aqui, todas as palavras,
ainda que impressas em sangue,
são tão somente as cascas que restaram
dos frutos que só podem ser colhidos
das árvores proibidas...
para saber mais é preciso queimar,
é preciso arder sob o véu,
é preciso morrer para si,
e renascer
na imensidão.


raph'17

***

» Parte da série "Mito da criação"

Crédito da imagem: Katerina Plotnikova

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7.11.16

10 anos

Dez anos de nossas conversas
sob a luz do luar carioca,
num telhado de prédio,
soberanos sobre a noite tijucana.

Saudade.
Dizem que é palavra exclusiva de nossa língua,
difícil de definir...

Então lá vai, amiga:
se somos o sal da terra,
é a saudade o sal do amor.
Bonita, enigmática, como você,
e seus gatinhos, e a Lua.

Não sei se este poema está ficando bom.
Afinal, são dez anos,
dez anos sem nossas conversas,
sem trocarmos poemas e confissões
sobre coisas que somente os poetas veem e sentem:
dores e hemorragias profundas da alma,
e também as rimas, as canções,
e os feitiços de cura...

E você se foi assim, sem aviso;
ficaram só os gatos e os poemas.
Mas seus felinos moram longe, na Tijuca,
e os seus versos, embora belos como sempre,
embora eternos como nossas noitinhas,
nada me respondem
acerca do seu paradeiro.

Amiga! Eu continuo contemplando a Lua,
na esperança de que onde quer que esteja,
possamos por um momento estar encarando o mesmo céu,
a mesma luz.

Nós: poetas desamparados num telhado de prédio,
alheios as superficialidades da vida,
trovadores da essência.
Ainda de mãos dadas,
ainda em nossa Tijuca
que é todo o mundo...

As vezes fecho os olhos, e ainda estou lá,
naquelas noites contigo,
além das ideias de certo e errado,
além do sangramento das almas,
além do julgamento final.
Mas então os abro e estou aqui.
E o que me resta, amiga?

Saudade.
Dez anos
de saudade...


(este poema é dedicado aos dez anos do blog Textos para Reflexão, que por sua vez é dedicado a minha amiga, Flávia Lopes)


raph'16

***

Crédito da foto: Google Image Search

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14.10.16

Vera Cruz

Há um canto sussurrante
nesta terra ancestral,
algum som de pura angústia errante
de almas presas ao varal;
sibilo de ideias que não seguem adiante,
e dor, dor imemorial...

Desde a Mantiqueira a chorar sangue,
ao grande mercado da Central,
desde o sertão até o mangue
há este antigo canto marginal
que voa e volta como bumerangue,
e não vê final.

Assim somos todos aprendizes
nesta nação sem igual:
os pandeiros e macumbas vibram as matizes
dos seres que se elevam além do mal...

Vocês podem ouvi-los?

Das aldeias, dos terreiros,
ecoa este canto de guerreiros,
a unir aqueles que vieram acorrentados
aos que foram, em casa, massacrados...

Sim, ouçam!

As almas cantam a pouca luz,
vivas ou mortas, elas cantam por todos os lados...
Vozes belas e profundas de Vera Cruz,
a terra de todos os refugiados.


raph'16

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Crédito da imagem: Alfredo Roque Gameiro (O desembarque dos portugueses no Brasil ao ser descoberto por Pedro Alvares Cabral em 1500)

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27.9.16

Existem os anjos?

Não sei se os anjos existem,
mas sei que há mundos sem fim,
estrelas incontestáveis
a salpicar a noite –
não desejariam tantas e tão belas
serem admiradas por nós
aqui embaixo?

Não foi sua luz criada
para ser contemplada?
Para guiar os girassóis,
aquecer os corações
e reger as primaveras?

E estes pássaros
que vêm bailar pelo bosque,
e anunciar a nova manhã
em pios melodiosos,
seriam eles tão belos,
seriam eles tão pássaros,
seria, enfim, a natureza tão natureza
sem nós aqui
a observar tamanha imensidão?

Não sei se os anjos existem,
mas sei que mesmo aqui embaixo,
nesse mundo de chumbo,
ainda estamos ao alcance das estrelas,
e sua luz ainda nos acaricia,
e sussurra em nossos ouvidos
canções mudas e eternas
na linguagem da alma...

E, se tal idioma existe,
é provável que os anjos filólogos
estejam somente esperando
que nós nos tornemos
literatos do coração:

“Olá meu irmão, minha irmã,
olá andarilhos dos reinos de baixo,
hoje vocês já sabem nossa língua,
hoje já posso lhes falar sobre os mistérios
e as maravilhas infindáveis
que nós voadores catalogamos
nos mundos de cima”


raph'16

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Crédito da imagem: Google Image Search/Den Belitsky

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30.8.16

Flor do céu

Oh! Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura!
Nascestes neste fétido canteiro
Mas seu destino reside na Grande Altura:
Cada alma é a alma do universo inteiro!

Oh! Divina e verdadeira flor
Teu perfume é êxtase sem idade
Teu semblante é a face do Amor
Porém, lhe possuir é grandiosa responsabilidade!

Para que, portanto, lhe encarar?
Para que ver o ser face a face?
O que há para se ganhar?

Oh! Flor mística e assustadora
Há muitos que preferem lhe envolver numa mortalha:
Ganha-se a vida, perde-se a batalha!


raph 2016 (após Dom Casmurro)

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Crédito da foto: Google Image Search

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10.7.16

Minha raça

Há aqueles que me olham e dizem
que sou branco, escandinavo, de olhos claros;
mas não há quem possa me tirar da mente
a ideia e a lembrança de que há tempos
eu também saí da África com minha tribo,
e assim, juntos, percorremos o Oriente
e o mundo todo.

Há aqueles que me olham e dizem
que neste mundo há raças que não se misturam,
irmãos e irmãs condenados a serem refugiados
uns dos outros.
“Desde que o mundo é mundo é assim”,
dizem eles, os ignorantes...

Mas esta é uma ideia que sempre me foi estranha:
o meu mundo é maior, e bem mais antigo.
Minha família não se iniciou entre os hebreus,
ou nalguma China imperial idealizada,
mas é ainda muito mais antiga que a Odisseia
e os mitos egípcios e mesopotâmicos.

Meu bisavô pintava cavernas europeias
para iniciar novos xamãs,
e o bisavô dele trouxe esta arte do Sul,
e do espírito de todos nós...

Ó, aldeões das tribos perdidas,
como podem ter se confundido tanto?
Como podem ter contado os dias de sua família
com um olhar tão pequeno, tão mesquinho,
tão provinciano?
Quantos xamãs ancestrais serão necessários
para lhes fazer voltar novamente sua face para o céu,
e não mais contar os dias dos homens
pela escala de países e continentes,
mas antes pelas estrelas
e constelações?

Digam assim, portanto:
eu também singrei por mundos e mundos,
eu também naveguei mares eternos,
eu também sou da raça dos deuses!


raph'16

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Crédito da foto: Google Image Search

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24.1.16

Além do olhar

Quando olho além do seu olhar,
já não vejo face ou cor ou etnia;
tão somente me deixo levar pelo mar
e assim, sem rumo nesta sinfonia,
sou enfeitiçado pelo aroma da essência
da realidade que surge desta calmaria:
esta música de acordes mudos;
este êxtase
que já não percebe
nem espaço nem tempo,
nem a angústia pelo futuro,
nem a ilusão que a antecede.

Quando olho além do seu olhar,
vejo o longo caminho
que nós trilhamos sem alinho
dentre florestas, vales e montanhas,
cruzando rios, mares e planícies,
até que nossa casa fosse, enfim,
todo o mundo.

E aqui, face a face, além do olhar,
eu também percebo
que a doce esperança de continuar nossa andança
nesta pedra rodopiante em meio ao Grande Vazio
passa pelo reconhecimento
daquilo que vai adiante, nos transcende e abarca:
aquilo que não se pode ver,
mas que não obstante
é a única força,
portal e ponte
capaz de atravessar nosso olhar
e assim, ultrapassar
o abismo do ser.


raph'16

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Crédito da foto: David Uzochukwu

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21.12.15

Estudos

Hoje eu estudo,
sobretudo,
essa tal eterialidade
da luz da cidade
que atravessa a janela
e ilumina os seios dela,
sem no entanto nada tocar,
nada encostar,
exatamente como se dá
com o meu olhar...

E ainda que eu fosse até seu leito
me encostar em seu peito,
e assim, corpo a corpo,
sentir sua respiração,
e escutar o ritmo de seu coração,
ainda não haveria um átomo sequer
a se chocar,
nenhuma explosão,
nenhum incidente nuclear...

Hoje eu estudo,
sobretudo,
essa fantasmagoria
de tudo que há;
tudo o que foi ou seria,
o que é ou poderia,
tudo o que baila pelo ar,
e como um perfume perene
nos incita a voar,
a subir, nos elevar,
e flutuar e dançar
junto a todos os momentos
e pensamentos da imensidão:
tudo que existe é imaginação,
o todo é mente,
e tudo o que vemos
é informação.


raph'15

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Crédito da imagem: Serge Marshennikov

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10.11.15

Brisas

Foi através de tais olhares e carícias,
em meio as brisas da Primavera,
que o ser ensaiou sua arte:
uma dança ancestral
de falos e orifícios,
de oferendas e primícias,
e da ânsia da Natureza
por si mesma...

E caminhamos sós
em meio a uma multidão
de seres e vidas e pequenos redemoinhos
flutuando pela escuridão,
cultivando sem saber
a todos os mundos e sóis
desta imensa vastidão...

A nossa grande angústia
é perceber a essência da realidade
a escorar pelos ombros
vinda sabe lá de onde,
ventando e ventando e ventando,
invisível, inefável, incompreensível
senão por alguma parte oculta,
alguma antessala além de toda idade,
algum tesouro guardado há muito
em cada coração...

Mas caminhamos, caminhamos!
E, neste rio sem fim,
as eras escoam
para muito além de tudo que sabemos
ou saberemos:
ondas e tribos e civilizações
escoando
eternamente
além do tempo...

E é então que aqui, nesse momento,
nesta vida ao vento,
vemos em parte,
tocamos, acariciamos em parte,
somos os coadjuvantes de tal arte...

Mas dia virá,
vida virá,
que dançaremos, viveremos,
e veremos face a face!

E lá, já não piscaremos os olhos,
já não veremos dois,
profano e sagrado,
"eu" e "você",
mas a coisa em si, o ser em si,
o par de nossas danças,
o norte de nossas andanças;
e assim, nesse êxtase, sentiremos
a fragrância que sempre esteve em tudo,
e tudo abarcou,
e sempre viajou
junto as brisas que sopram
em tudo o que pulsa,
tudo o que vive, morre
e revive;
em tudo o que fomos,
o que somos
e ainda seremos...


raph'15

***

Crédito da imagem: Google Image Search/thenewfamilyfarm

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