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12.11.18

O mistério

Há muitos poemas aqui
passando a minha frente,
dentre meus dedos,
sobre meus olhos,
através da minha alma;
todos eles escorrem
aqui:
no córrego
que flui da fonte.

No rio de todos nós,
fundador de cidades,
semeador de civilizações,
pai do Nilo e do Ganges;
e, no entanto, o rio
que já não é o mesmo rio:
um rio cujas águas
se renovam e renovam
sempre.

Como nossas vidas
e nossas relações vividas,
que se encenam e reencenam
nesta dança eterna
do tempo do amor
de um pelo outro...

Entre eu e você
não há “eu”
nem “você”:
há corredeira,
há rio desembocando em mar,
e o grande mistério,
eterno e inefável,
do que vem a ser poema,
do que vem a ser amar.


raph'18'S.G.

***

Crédito da imagem: Oleg Oprisco

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6.9.18

Filamentos

Quem saberá dizer qual foi
a primeira semente a brotar nesta terra?
Ela, a semeadora dos verdes mundos,
dos infindáveis filamentos
de caules e galhos e monumentais troncos
a estender suas pontas de dedos
aos céus.
Quem os terá chamado?

Por dentre suas cascas fechadas ou rompidas
há legiões de armadas de pequeninas criaturas
vivendo do mais puro instinto.
Tudo o que elas querem:
"Açúcar! Dai-nos o seu açúcar ó torre celeste!"
Mas quem ofertou todo o açúcar do mundo,
e quem continua sua doação perene,
é o Senhor do Alto, da Luz e do Calor,
o Sol Invisível e Invicto,
que tais insetos ainda nem sonham em conhecer.
E, ainda assim, todos seguem o seu chamado...

Que vida inefável é essa
que os braços de madeira buscam em toda Primavera
desde o início deste mundo?
Seria ela também seduzida, como nós,
pelas infindáveis flores,
nas mais variadas cores e perfumes,
e pelos suculentos frutos,
nos mais saborosos sabores,
que os filamentos estendem ao Alto
como oferenda e sacrifício?

E nós aqui, emaranhados nas raízes,
na escuridão úmida
dos filamentos de Abaixo,
teremos a mais vaga ideia
do que ainda nos espera?

Ó, irmãos da Terra,
não se prendam ao tempo passageiro
do que transita entre estações.
Há filamentos que viram o nascer
e a derrocada de vastos impérios
de homens que quase nada percebiam,
quase nada sabiam ou sentiam
em seus corações terrosos.
Ó, irmãos da Terra,
sorvam esta seiva de Vida,
cresçam e floresçam,
e cantem lá fora
que nós fomos chamados ao Alto;
Sim! Chamados ao Alto!


raph'18

***

Crédito da imagem: raph

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18.6.18

Serhumaninho

Disse o médico que um ser humano já navegava
pequenino como um girino em seu útero,
um genuíno fruto do amor
de dois seres, dois homo sapiens:
um serhumaninho com um rabo,
que virá a nascer, no entanto,
apenas com pernas e braços
e olhos, ouvidos, cérebro e tudo o mais,
tudo menos o rabo,
para cumprir o que Darwin viu em parte,
mas que dia virá, veremos face a face...

Para cumprir a ânsia da Vida por si mesma;
para que eu possa começar a morrer,
e ele possa começar a viver;
para que tudo possa fluir como sempre fluiu,
e as primaveras do mundo
não tenham sido em vão.

Ó serhumaninho, de que estrela caiu?
De que país astral você veio, com quantos carimbos
terá o seu passaporte etéreo sido preenchido
até que chegasse até aqui,
até esse tempo,
até nós?

Saiba, meu amor, meu pequeno girino,
que todos somos viajantes;
então, por favor, não se esqueça de nos trazer notícias
das coisas do Alto,
das estações astrais
e de todos aqueles que um dia
já viajaram conosco.

Aqui por estas paragens as coisas ainda seguem complicadas,
a alma ainda vive anestesiada,
e os homens ainda desejam mais ter do que ser.
Mas aqui em casa tenho o Gita, o Tao Te Ching
e alguma coisa interessante de Platão,
serão somente alguns anos
até que possa reler e relembrar.

Sigo, enfim, curioso pela forma com que a Vida
irá outra vez se manifestar em ser humano.
E também, é claro, fico desde já
ansioso por aprender contigo um pouco mais
sobre a Mansão do Amanhã...

Boa sorte em mais uma gestação.
Assinado: papai.


raph'18

***

Crédito da imagem: Google Image Search

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15.5.18

O limite

Desde que saímos das matas,
lentamente também temos nos desembrenhado
da alma.

Somos cada vez mais como coisas,
coisas racionais, eficientes, deuses artesãos,
técnicos dos átomos.

Não é ruim ter pisado na lua,
ou desvendado a fissão nuclear,
porém nesse meio tempo,
neste piscar de olhos
entre os xamãs da África
e os burocratas da Suíça,
também acabamos padecendo
de um grande esquecimento...

Não será com pílulas nem com bolsas de grife,
nem mesmo com heróis a serviço de um algoritmo de lucro
que conseguiremos anestesiar a alma:
a grande verdade
é que ela não pode ser anestesiada,
nem mesmo quando cortamos os pulsos
ou nos arremessamos do topo de arranha-céus...

Quisemos viver como coisas,
quisemos comprovar nossas teorias
de que tudo o que há são átomos a bailar
em máquinas biológicas
a serviço de estranhos códigos
que geraram a si mesmos...
falhamos!

Há um limite para nosso conhecimento
puramente racional.
Há um limite para a linguagem, para as palavras,
até mesmo para a poesia.
O que se sente quando se ama,
quando se está verdadeiramente aqui,
em meio a mata, em meio a alma,
é indizível, é inefável, é indestrutível,
e jamais nos deixará relaxar.

Sim, há angústia e sofrimento no mundo,
e principalmente em nós:
as máquinas que interpretam.
Mas ante a alma, face a face,
tal dor desvanece no ar,
se espalha como a brisa da mata,
como se nunca tivesse sequer existido...

Neófito: nós não somos máquinas,
não somos coisas, nós somos
como um reflexo de uma luz bem maior,
como a fragrância das flores de um outro continente,
como a semente que brota a margem
do córrego que flui da fonte.

Está em tempo de relembrar...


raph'18

***

Crédito da imagem: raph

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15.3.18

Chamamento

Até quando vai ficar aí
fascinado com o brilho que não vem de si,
indo e vindo nessa faixa estreita,
isolado nessa câmara obscura
e inteiramente segura?

O chamamento vem do alto,
a mensagem não vem de nenhum súdito de rei algum;
a luz vem das estrelas, das estrelas!

E ela quer ser refletida,
ela quer achar espelhos...
ela vai incinerar monstruosos dragões
em seu próprio fogo;
ela vai petrificar as górgonas
com seu próprio reflexo;
ela vai despertar princesas
e coroar príncipes...

Até quando vai ficar aí
iludido pelas formas passageiras,
imaginando que o tempo se gasta nas esteiras,
vivendo como se fosse realmente possível
jamais perder as estribeiras?

Deixa o Pégaso voar,
não tema nem perigo nem abismo
nem monstro algum –
ó cavaleiro, ó herói, ó ser estelar!

O chamamento vem do alto,
a luz vem do Infinito
e a Eternidade lhe espera
aqui e agora.

Vai! Voa! Ama! Conquista!
Vai cavaleiro,
vai mensageiro,
vai amante,
vai irmão,
vai e brada:

“A luz não pode ser ancorada;
a luz foi criada
para ser refletida!”


raph'18

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Crédito da imagem: Elliott Brown/Flickr (National Memorial Arboretum - Pégaso e Belerofonte)

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12.2.18

A nossa temperatura

Houve época em que vivia em meu próprio casulo,
como um astronauta sem contato com a Terra,
perdido no universo de si mesmo,
dono de tudo, e só.

Em meu casulo espacial eu achei conhecer Deus:
ele era onipotente, onipresente, onisciente,
ele era muito muito grande, maior que o infinito,
e por isso não aparecia,
tinha coisa mais importante para fazer...

Até que chorei tanto de solidão,
que meu cosmo pessoal se incendiou de dor,
e foi assim que meu casulo se rompeu.
Sim, ó caminhantes das inúmeras vidas:
foi através da ferida que a luz adentrou meu ser,
foi batendo por dentro
que o portão se abriu...

Então vi o mundo lá fora, e pousei de volta
aqui em nossa Terra.
Em minhas andanças pelas planícies e montanhas,
busquei saber quem eu era,
com quem poderia me relacionar,
e tudo o que seria bom ou mal,
claro ou escuro, certo ou errado,
moral ou imoral, louco ou são...

Mas eis que lhes digo, caminhantes,
por fim acabei sentindo,
e sentindo percebendo,
e percebendo compreendendo,
que além de todas essas ideias
há um campo
onde não há homem nem mulher,
nem quente nem frio;
há um campo
onde toda a nossa temperatura
se mede pela alma.

Foi justamente lá
que Deus apareceu para mim,
e todo o seu ser era a imagem e a semelhança
do nosso amor...


raph'18 (após dialogar com a Lua)

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Este poema também se encontra na página Poetas do Caos: facebook.com/caospoetas/

Crédito da imagem: Sam Manns/unsplash

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5.2.18

O fogareiro

Quantas vezes vim aqui?
Quantas vidas passei por tal jardim
sem nada ver nem perceber
de suas flores e caules e raízes,
de seu suave e eterno
perfume de jasmim?

Que sabia eu de mim?
Quantas vidas de projetos inacabados,
e amores perdidos e achados,
e ilusões em desencanto,
e dor e angústia e falta de sentido
por todo canto?

Quantas vezes vim aqui?
Quantas vidas em meio ao caos?
Quanto tempo até enfim aprender
a abrir os olhos de adentro
e ver o ser,
e vendo perceber
que o reflexo de tanta dor,
e tanta confusão,
foi justamente o que fez brotar
tal ardor em meu coração?

Que queime, que arda por inteiro!
Que faça renascer todo amor do mundo
neste pequenino e singelo
fogareiro...


raph'18

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Este poema também se encontra na página Poetas do Caos: facebook.com/caospoetas/

Crédito da imagem: David Uzochukwu

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28.11.17

No jardim

No jardim os bambuzais
envergam e dançam com os ventos,
até se aquietarem com as brisas
que vão soprando fraquinho,
cada vez mais devagar,
devagarinho
até parar,
e aí, tudo é paz.

Fora do jardim os carros passam a mil por hora,
e buzinam para quem vai a frente,
e caçoam de quem fica muito para trás.
Lá tudo tem um tempo cronometrado,
tudo passa depressa e vale alguma comissão;
tudo, tudo, menos a morte, é claro,
pois que lá ninguém é educado
para a dor e a tristeza;
lá fora ninguém pode jamais
simplesmente se deixar levar
pela correnteza.

Enquanto isso, aqui no jardim,
o espírito já declarou o óbito do ego,
tudo que havia para doer já doeu,
e todas as coisas que existem no tempo
são tão relevantes quanto o início e o fim
de mais uma dança de bambuzais...

O vento passou, e voltou uma vez mais;
nesse eterno e ligeiro vai e vem
toda a mata segue a bailar.
No fundo, todos somos iguais;
mal sabemos quem é quem,
quiçá aonde tudo isso vai dar...


raph'17

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Crédito da imagem: raph (Jardim Botânico do Rio de Janeiro)

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16.10.17

Reencontro

Onde fica o ponto de encontro
comigo mesmo?

“Nas montanhas!”, diz o ser das planícies;
“Na floresta!”, diz o ser dos desertos;
“No fundo do mar!”, diz o ser celestial...

Mas em que tempo é isso?
Como pode haver tanta guerra,
tanto ódio e escuridão?

“É aqui e agora”, diz o sábio;
e então, ele continua:
“Sabemos da luz porque há sombra no mundo;
buscamos amor porque já odiamos demais,
e estamos cansados desta guerra
na qual jamais nos alistamos.

No fim do caminho,
no fim de todos os tempos, do tempo em si,
o amor já venceu,
o ser já respira a plenitude
do sentido de todas as coisas.
Ele observa este grande escoamento
e percebe a sua direção:
aqui e agora, na eternidade
desta breve iluminação,
tudo que há
é amor e canção.”

(ouçamos...
a música se inicia com os versos
mais belos e antigos da Criação...)

Embriagado em tais cascas de conhecimento
do ser em si,
eu retiro todas as barreiras que me impediam
de estar aqui, neste momento:

Quando minha alma se deita nesta grama
nem eu já me interesso mais de mim;
dissolvido, me deixo levar pelo vento...

(os trovadores continuam dedilhando
suas violas mágicas...
tudo ressoa o eco da canção...)

Ó, Jalal ud-Din, eu vejo as faces
tristes e risonhas de todos os seres,
de todos os bêbados cambaleantes,
de todos os poetas e cancioneiros,
de todos os anjos e forasteiros;
e é nelas que me reencontro,
nelas que sinto:
eu sou você.


raph'17

***

Crédito da imagem: Lucas SankeyUnsplash

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8.8.17

O sangue eterno

Quantos poetas sangraram
para lhe fazer ouvir?
Quantos loucos captaram
seus versos de ventania,
e preencheram de vermelho
suas almas em branco?

Há uma marcha imemorial
por entre bosques e jardins,
que segue rios e corredeiras,
vence abismos e precipícios
e deságua em êxtase,
no oceano de corações frios
deste reino de chumbo...

Sim, ó senhor, ninguém sabe
de onde surgiu a fonte da poesia;
sabe-se apenas que jorra até hoje,
e que se olharmos com atenção
veremos: o mundo nunca esteve seco!

Como soldados que jamais se alistaram
para guerra alguma,
seguimos pé ante pé
com nossos fuzis de tintas,
de olhos e espíritos bem abertos,
sangrando de livre e sofrida vontade.

E este sangue que cai
salpica de cor rubra
mesmo aos bairros mais cinzentos da cidade:
cada gota marca para sempre um ponto
no tempo e no espaço.

Sim, ó senhor, seja em Konya,
Bsharri, Lisboa, Calcutá,
ou mesmo aqui, no Real Jardim Botânico
do Rio de Janeiro,
este sangue eterno
jamais secará.


raph'17

***

Crédito da imagem: Google Image Search

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