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29.6.09

A Carruagem

Existe uma carruagem etérea que tem singrado o universo
Desde que a primeira fagulha surgiu na escuridão
E a sublime canção tem sido cantada em verso
Tanto acima quanto abaixo, em todas as esferas
Como o vento que sopra onde quer na imensidão
Como a inspiração de todo poeta, e a dúvida de todo sábio
Através desse turbilhão de eras

Existe uma linguagem para se referir a tal automóvel
Dizemos que é o símbolo, nossa própria representação
A arrastar a roda pelos velhos sulcos de barro
Pelo mesmo caminho interminável que percorreram nossos irmãos
Sejam jovens ou velhos: não existe idade exata para um carro
Que luta a tantas vidas contra o tempo, ao desgaste das mãos
Sangrando na tentativa de mover o que é imóvel

Existe uma direção para a qual todos empurram sua alma
Mas nem todos souberam encontrar o melhor caminho
E há muitos que encalharam em vielas estreitas
Onde não encontram saída alguma, nem são mais capazes
De enxergar a luz dos anciãos que vêm à margem
Em seus carros confortáveis onde as rodas giram com alinho
No mesmo ritmo das canções vorazes

Existe uma carruagem etérea que tem singrado o universo
Suas rodas giram, e o tempo escorre pelas mãos
Como que num piscar de olhos, galáxias e mundos
E seres infinitos, se formam na imensidão
Mas para quem compreende o verdadeiro motor
A mover o que não se vê através dos dias dos homens
O mistério é desvelado, e a paz da alma se une a razão

Tudo o que somos é poeira estelar, é resto de barro
Levantado por condutores trêmulos em carros sem direção
Com a vista turva, mas com seu coração em comunhão
Querendo sempre retornar,
(tão somente retornar)
Ao seu único e verdadeiro lar...

raph'09

***

A inspiração para esse poema me surgiu subitamente durante a leitura do artigo: "A corrupção moderna da magia", de autoria de "Prophecy" e publicado no blog do Marcelo Del Debbio. Como usual, não faço idéia do que exatamente esse poema tem a ver com o artigo...

***

Crédito da foto: Nei Lima

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27.5.09

Visão

Uma noite, meu Deus, que noite aquela!
Por entre as galas, no fervor da dança,
Vi passar, qual num sonho vaporoso,
O rosto virginal duma criança.

Sorri-me - era o sonho de minh'alma
Esse riso infantil que o lábio tinha:
- Talvez que essa alma dos amores puros
Pudesse um dia conversar co'a minha!

Eu olhei, ela olhou... doce mistério!
Minh'alma despertou-se à luz da vida,
E as vozes duma lira e dum piano
Juntas se uniram na canção querida.

Depois eu indolente descuidei-me
Da planta nova dos gentis amores,
E a criança, correndo pela vida,
Foi colher nos jardins mais lindas flores.

Não voltou; - talvez ela adormecesse
Junto à fonte, deitada na verdura,
E - sonhando - a criança se recorde
Do moço que ela viu e que a procura!

Corri pelas campinas noite e dia
Atrás do berço d'ouro dessa fada;
Rasguei-me nos espinhos do caminho...
Cansei-me a procurar e não vi nada!

Agora como um louco eu fito as turbas
Sempre a ver se descubro a face linda...
- Os outros a sorrir passam cantando,
Só eu a suspirar procuro ainda!...

Onde foste, visão dos meus amores!
Minh'alma sem te ver louca suspira!
- Nunca mais unirás, sombra encantada,
O som do teu piano à voz da lira?!...

Casemiro de Abreu - 1858

***

Ao poeta Casemiro de Abreu

A você que se foi jovem, que viveu sempre jovem, e que amou como quem vislumbra ao mundo pela primeira encarnação, digo-te o que decerto já sabes: nesse imenso oceano de vida, não há espaço para se lamentar; Ah que se abrir os olhos, ver o mar, correr para o mar e o sentir... Sua mãe era quem tinha razão!

***

Crédito da foto: Ju!

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16.5.09

Pensamento

Então aqui estou novamente.
Erguido do pó, ao pó voltarei;
Não há nada que se perca
Nesse turbilhão de poeira estelar.
Mesmo ainda que muito brevemente,
Podemos sentir o infinito
A bailar com os fótons pelo ar.

E do pó se fazem sóis
E astros a rodopiar pelo cosmos:
O que está acima também está abaixo.
Pois tudo que somos é o pensamento
Que constrói nossa capacidade de ser
Algo mais que poeira a cair do firmamento.

Então aqui estou novamente.
Isso é tudo que eu sei.
Não sei de algum plano divino,
Não sei equacionar a geometria da natureza,
Nem o que diabos iniciou seu movimento.
Sei apenas que nesse momento
Tenho a vontade e tenho o tempo
Para buscar lá dentro, com ardor,
O que quer que seja o amor.

O que quer que seja a vida.
O que quer que seja toda essa leveza
Incerta, que sopra como o vento,
E não sabemos por onde passou;
Pois quase não a percebemos:
Apenas o pensamento vê o mundo
Em toda sua beleza.

raph’09

***

Crédito da foto: Mr. Bond

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13.5.09

Alguém constrói a Deus na penumbra

Falando de Espinosa, encontrei (e traduzi) este lindo poema em sua homenagem, do grandioso mestre das palavras - Jorge Luis Borges:

Benedito Espinosa

Bruma de Ouro, o Ocidente ilumina
A janela. O assíduo manuscrito
Aguarda, já carregado de infinito.
Alguém constrói a Deus na penumbra.
Um homem engendra a Deus. É um judeu
De olhos tristes e pele pálida;
O tempo o leva como leva o rio
Uma folha que desce pelas águas.
Não importa. O feiticeiro insiste em esculpir
A Deus com geometria delicada;
De sua enfermidade, de seu nada,
Segue erigindo a Deus com a palavra.
O amor mais pródigo lhe foi outorgado,
O amor que não espera ser amado.

Jorge Luis Borges (tradução de Rafael Arrais)


Baruch Spinoza

Bruma de Oro, el Occidente alumbra
La ventana. El asiduo manuscrito
Aguarda, ya cargado de infinito.
Alguien construye a Dios em la penumbra.
Um homem engendra a Dios. Es un judio
De tristes ojos y de piel cetrina;
Lo lleva el tiempo como lleva el rio
Una hoja en el agua que declina.
No importa. El hechichero insiste y labra
A Dios con geometria delicada;
Desde su enfermedad, desde su nada,
Sigue erigiendo a Dios com la palabra.
El más pródigo amor le fue ortogado,
El amor que no espera ser amado.

Jorge Luis Borges

***

Crédito da foto: roel1943

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8.5.09

Tudo Vem de Você

Mais uma canção plena de espiritualidade. Cabe somente o comentário pertinente: "Ninguém mudará o mundo se não mudar a si mesmo" (baseado em frase de Tolstói).

Tudo Vem de Você
por Joji Hirota e Sinead O’Connor
Título original: Everything Comes from You
Album: Big Blue Ball

Introdução:
Um
Dois
Três
Quatro
Cinco Azul
Seis Indigo
Sete Violeta
Oito Vermelho
Nove Laranja
Dez Amarelo
Onze Verde
Doze Azul

Verso:
Eu sou sua filha
Sua mãe é minha mãe
E minha voz é elevada
Concedendo-lhe agradecimento e louvor
Eu apelo a você Pai
A parar a guerra
A parar o terror
A parar a guerra

Coral:
Tudo vem de você
Tudo também vai até você
Tudo vem de você
Tudo também vai até você

Tudo vem de você
Tudo também vai até você
Tudo vem de você
Tudo também vai até você

[Repetição da Introdução, Coral e Verso]

Concedendo-lhe agradecimento e louvor
Concedendo-lhe agradecimento e louvor
Concedendo-lhe agradecimento e louvor

***

Tradução por Rafael Arrais à partir da transcrição em inglês

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6.5.09

Canção da pirâmide

Uma música impregnada de espiritualidade (para quem tem ouvidos para ouvir):

Eu pulei no rio e o que eu vi?
Anjos de olhos negros nadando comigo
Uma lua cheia de estrelas e carros astrais
Todas as figuras que eu costumava ver
Todas os meus amores estavam lá comigo
Todo o meu passado e futuro
E todos nós fomos para o paraíso num pequeno barco

Não havia nada a temer e nada do que se duvidar

Eu pulei no rio (...)
Anjos de olhos negros nadando comigo
Uma lua cheia de estrelas e carros astrais
Todas as figuras que eu costumava ver
Todas os meus amores estavam lá comigo
Todo o meu passado e futuro
E todos nós fomos para o paraíso num pequeno barco

Não havia nada a temer e nada do que se duvidar

***

Tradução da lyricstime.com (título da música em inglês: "Pyramid Song"; banda: Radiohead)

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1.4.09

Poemas de amigos

Estive de férias (inclusive do blog) e andei pensando em retornar a aventura de se escrever um livro. Porisso talvez não consiga manter o mesmo ritmo de postagens dos últimos meses... No entanto, sempre posso contar com pérolas que andei guardando em meu caminho, estas vieram de amigos meus, uns desencarnados, outros ainda encarnados:

Ilusionismo

O sol deita-se
sobre o cimento frio,
e a calçada,
aos poucos,
consome-se e arde,
em invisíveis chamas
de silêncios roucos.

Há uma luz coberta
de lírios mortos,
e línguas secas.
Há um profundo
rumor de ventos e almas.

Levante-se.
Que há neste teu sono
corroído por mortes
anunciadas?
O que encontra-se
neste vazio calmo,
que calcina tua alma?

E esta tenda
de sombras,
que insiste
em manter-se estática.
E estas mãos,
estas mãos sem toque.

O que existe
entre tu e teu sonho?
Que mórbida insânia
te conduz,
por entre restos
de ossos e mágoas?

Ah, e este caminho,
este caminho eterno,
em que seguem
meus pés cansados.

- este profundo rumor,
de ventos e almas.

Flavia Lopes, 1999

Ao Amigo, Nosso Trabalho

Se um dia me perguntares se a vida
É uma jornada válida pelas trevas,
Perguntaria se, nessa tragetória sofrida,
o homem é esperto suficiente, dentre as rélvas,
Para, no amor, aprender o que aprende na dor?

Todos nós choramos e depois sorrimos,
E choramos por mais um vez,
Dentro dessa nave louca, onde vimos
A morte nos sorrir, como um Cortéz,
no derradeiro dia, no Cabo da Boa Esperança.

Lutemos pela paz entre os irmãozinhos.
E se viver é morrer a cada instante,
Entregamo-nos, então, à eternidade.
Mas se viver é sofrer na escuridão,
Entregamo-nos de corpo e alma à caridade.

Otávio Fossá

***

Crédito da foto: Luca Vezzoni

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26.2.09

Uma rima rápida

Uma rima rápida é como um trovão de poesia:
O retoar atordoa, e a luz se propaga com maestria.

Há quem leia as duas frases acima e passe adiante, desapercebido - "hmm tá bem, e o que tem isso?" - e há quem reconheça ali, ainda que de modo superficial, uma "fragância" de poesia. Não cabe a nós julgar o que tange a percepção de cada um: cada qual percebe aquilo que pode, aquilo que tem interesse e, sobretudo, aquilo em que mantém o foco mental.

Decerto poesias não enchem a barriga de ninguém. Pode-se dizer, de modo mesmo prático: e que adianta a poesia? Por acaso a poesia vai resolver a miséria do mundo? As guerras? A ignorância? - A poesia é uma forma de arte, uma simbologia do sentido do ser e do "estar vivo", a poesia não está aqui para resolver o problema do mundo, nem mesmo o problema de ninguém em especial. Somos nós que resolveremos nossos problemas, no meio do caminho talvez a poesia nos ajude, talvez não, mas fato é que há quem ame poesia e há quem nunca tenha sequer compreendido seu significado mais básico. Porque afinal somos assim tão distintos? Será possível que se aprenda a compreender poesia?

Não sei ao certo se aprende-se a compreender poesia. Mas tenho quase certeza que aprende-se a sentir o mundo, e não apenas racionaliza-lo - Será que o mundo é apenas aquilo que foi descoberto pela ciência? Nesse caso, será que antes da ciência descobrir que a Terra girava em torno do Sol, esta preferia seguir a crença comum de que era exatamente o inverso, de que era o Sol que girava em torno da Terra? Está óbvio que não: ainda que o mundo se limitasse ao que nossa razão é capaz de compreender, ainda assim teríamos uma infinidade de coisas desconhecidas a bailar pelo Universo a nossa volta.

Fazer, entoar, participar da poesia é celebrar todo esse "desconhecido" a nossa volta. É exatamente não racionaliza-lo, apenas, mas também tentar compreendê-lo pelo sentir, como quem tenta compreender uma fragância de perfume por seu cheiro, e não pelo logotipo da embalagem, ou pela lista dos produtos químicos em sua composição. Entoar poesia é estar aqui e agora, tão somente vivendo, em certo sentido, dentro da simbologia que aquelas palavras nos despertam em nosso íntimo.

Obviamente que a poesia acima é somente um exemplo auto-referente, que quando muito pode despertar certa simpatia em alguns admiradores de poesia, porém ainda assim serve como exemplo para que nos indaguemos acerca de certos símbolos em nossas mentes: o que será um trovão de poesia? Imaginamos um trovão no céu chuvoso, ou uma chuva de palavras descoordenadas? Será que o trovão se refere apenas ao sentimendo de medo e deslumbramento perante a Natureza quando esta nos envia uma tempestade? Porque será que o retoar de um trovão atordoa? Será pelo som que faz, ou pelo sentimento ancestral que nos desperta? Será que entoar tem a ver com retoar? Será que se entoa poesia como a Naturza nos envia trovões? Será que a Natureza é um poeta impessoal? Será que Natureza é poesia em estado bruto? Será que, como a luz, os sentimentos se propagam em meio aos céus revoltos das tempestades? Será que essas indagações fazem parte desta poesia tão simples? Onde será que termina uma poesia?

Poderíamos ficar assim indeterminadamente. Difícil dizer se isso é racionalizar ou sentir. Talvez a mera tentativa de classificar um sentimento seja racionaliza-lo. Porisso o homem não se comunica somente por sons ou gestos, mas também por algo de misterioso e poético, um relance de olhar, uma expressão indeterminada, algo que chamamos "empatia", o dedilhar do violão de um bardo, o entoar de uma oração sacra, ou apócrifa, ou uma oração que se faz na hora, e nunca mais se repete, um eterno celebrar da vida e do desconhecido. O viver aqui e agora, sem medo, nem dó, nem pena, nem nenhuma expectativa além daquela que a Natureza já nos promete a todo momento: a expectativa de ser realmente real tudo aquilo que sentimos ou racionalizamos.

Como atordoa,
Como atordoa...
Entoar poesia.

***

Crédito do desenho (com alteração digital): Albrecht Durer

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11.2.09

Children of life

Hey you, child of life
Where did you come from?
From you and for you
What myths, histories and tales have been told?
What mysteries wait to be unfold?

Where exactly you are now?
Here or nowhere?
From where come that feeling
That feels like waves of unknown material
Like something so familiar
Yet so unreal?

Hey you, son of nature’s will
Aren’t the kingdom of God everywhere?
Inside and outside?
Aren’t the road that leads to ignorance
A dead end?
Aren’t the road that leads to nowhere,
(or somewhere)
A narrow path in the beginning
Although a broad path in the middle
And where nobody saw an ending?

From you and for you
Came the code for all there’s natural
Came the will and the love
To walk into that narrow path
To fade into that ending light
To unfold all the answers and all the questions
That men asked to the shines of night…

Hey you, child of life
Aren’t you so certain now
If you live to survive
Or only to be alive?

raph’09 (aka. Rafael Arrais, this blog's author)

***

Trata-se provavelmente do primeiro poema do qual a inspiração me chegou em inglês. A tradução para o português ficou assim...

Filhos da vida

Ei você, filho da vida
De onde veio?
Através de ti e para ti
Quais mitos e histórias foram contados?
Quais mistérios esperam por ser desvelados?

Onde exatamente está agora?
Aqui ou em lugar algum?
Por onde vem essa sensação
Que se sente como ondas de material desconhecido
Como algo tão familiar
Ainda que tão irreal?

Ei você, filho da vontade da natureza
Não está o reino de Deus em toda parte?
Dentro e fora?
Não é a estrada que leva a ignorância
Uma rua sem saída?
Não é a estrada que leva a lugar algum,
(ou algum lugar)
Uma rua estreita no início
Porém um caminho largo no meio
De onde ninguém vislumbrou o final?

Através de ti e para ti
Veio o código para tudo que é natural
Veio à vontade e o amor
Para andar por esta rua estreita
Para desaparecer na luz desse final
Para desvelar todas as respostas e todas as perguntas
Que os homens fizeram as luzes da noite...

Ei você, filho da vida
Não está tão certo agora
Se você vive para sobreviver
Ou apenas para estar vivo?

raph’09

***

Crédito da foto: Ibu

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1.2.09

À Natureza

Estava escrito em teu olhar
Que me amara desesperadamente
Desde a primeira vez que me vira
Desde o primeiro suspiro em tua mente...
Mas eu não li

Nosso amor ecoou
Pelos ares e ventos que nos rodeiam
Desde a primeira vez que nos abraçamos
Desde que dançamos a valsa que nunca mais tocou...
Mas eu não ouvi

Em cada mecha de teus cabelos
Exalava o perfume dos amores
Que por ousarem desejar o Céu
Tingiam ao mundo todo de fel...
Mas eu não percebi

Que desde o início de nossa história
Apenas sei que amei-te...
Não sei por que portas adentras-te meu ser
E com quais sentidos sempre pude lhe ver:
Bela, como o orvalho da manhã
Inevitável, como a noite enluarada
Acolhedora, como a gruta em meio a tempestade
Frágil, como uma amapoula em meio ao campo.

Desde essa tal idade
Em que te detectei finalmente em meu ser
Abri os olhos ancestrais, que estiveram cerrados por toda uma era,
E finalmente descobri todo prazer
Que há em viver...

raph’08

Crédito da foto: Rafael Arrais.

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21.1.09

Praise song for the day

Provavelmente a primeira vez que uma poetisa foi chamada para uma cerimônia de posse presidencial norte-americana, e criou um poema especialmente em homenagem ao evento (e tudo o que ele significa). A poetisa Elizabeth Alexander recita o poema, em inglês (sem legendas):

Leia a transcrição do poema em inglês.

"E se Amor fosse a palavra mais poderosa?(...) Uma canção de louvor ao ato de se caminhar em direção a esta luz."

Se uma imagem transmite mil palavras, muitas vezes poesias transmitem o que imagens nem palavras, sejam quantas forem, poderiam transmitir...

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18.1.09

O louco

Então sou louco
E quando vejo a vida passar
Percebo que tudo que vejo
É sagrado;
E tudo que ainda não vejo
Mas dia virá que verei
É apenas a saudade que sinto
De tudo de sagrado...
Tudo isso que ainda não amei

Então sou louco
E quando vejo formigas a marchar
Andorinhas a voar
E homens ignorantes a se exterminar
Percebo que tudo segue a lei;
Nascer e morrer
Renascer e, lentamente, compreender:
A lei é a vontade
O amor é a lei...
E devemos tão somente amar-nos
Na idade em que nos é dado escolher

Então sou louco
Se me lembro de quem fui
Se percebo de relance
Quem sou: mais uma partícula de poeira
A girar no turbilhão universal;
Então compreendo o longo caminho
Que eu mesmo tracei para mim:
Vejo mundos, vejo a força que os conduz
Pelo Cosmos sem fim...

Então sou louco
E minha loucura é feita de luz

raph’09

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13.1.09

Rezas Inúteis II

Guerra santa
Santa guerra
Nada planta
Nada altera

Na Terra Santa
Ainda entoam
A lei do talião
Ainda tingem de sangue
Cada canteiro sagrado
E cada verso em oração...

Na Terra Santa

O que tem de santa essa terra?
O que tem de luz nessa guerra?
Além do Sol que vem aliviar
Da escuridão, aqueles que sofrem:
Os inocentes em meio à loucura
Que veem cegos a lutar;
Olho por olho
Só os inocentes ainda podem enxergar

Na Terra Santa
Ainda guardam Barrabás
E deixam o cordeiro de Deus sangrar
É que gostam de lutar
Por cada palmo de chão
E por cada gota de sangue no chão...

Na Terra Santa

raph’09

***

» Ver também: Rezas inúteis I

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19.12.08

Dias de alegria

Foram dias de alegria, e o mundo parou

Para nos ver passar pelos bosques debaixo do céu,
No topo das colinas e montanhas...
Éramos apenas um casal de amantes,
Mas as rosas nos receberam na ponta dos pés.
As brisas afagaram seus cabelos, e pude sentir seu cheiro;
A luz matutina iluminou sua face, e pude ver seu rosto;
Você sorriu brevemente, seus olhos cintilavam,
E sua boca era a mais doce das alfazemas...

Foram dias de amor, e o mundo admirou

Quando nos viu jantar a luz de velas
Na beirada do lago e da floresta...
Éramos apenas um casal de amantes,
Mas as estrelas brilhavam para nos satisfazer.
A lua refletiu sua alma, e a noite ficou mais bela;
Os sapos e grilos cantavam, e era uma canção de amor;
Você se virou brevemente, temendo a escuridão,
E seu pescoço era a dádiva mais preciosa...

Foram dias de paz, agora isso tudo passou...

Será que quando o mundo nos chamar novamente
Nós iremos?
Será que se a vida nos der a chance de amar de novo
Nosso coração ainda irá lembrar daqueles dias
Além do tempo, além da ilusão,
Além de qualquer desejo?

Ah querida, se o mundo novamente nos chamar,
Nós iremos?
Diga que sim, por favor...

raph’02

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17.12.08

Velas

Velas que se acendem
Queimam e ardem
Dissolvem-se
Em aquarelas de luz

Velas de toda cor
De toda cera
Em casa ou no altar
Conduzem o fogo
Conduzem à fé
Singrando o mar

Velas que se apagam
Último resquício de chama
Último grito do eu:
“Sou o fogo que ama!”

Velas que se vão
Velas que se foram
Diga-se: “o que morre é a cera.”
Toda chama é guardada
Na casa da eternidade
Até que novo fogo se acenda
Até que se inicie
Uma nova idade

raph’08

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18.11.08

Canção universal

Submerso
No longo sonho habitual
Penso subitamente
Que o inverso do visível
E tudo o que há
No longínquo horizonte da mente
Foi sempre o que tornou a vida
Deliciosamente imprevisível...

A longa teia que interliga
Todo ser
E toda semente de luz
Numa canção magistral

O sublime verso
Que ecoa
Do universo
Ao universal

raph'08

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6.11.08

Akiane

Amor

O amor nunca está só
O amor está sempre acompanhado
O amor é o eu compartilhado

Nós não podemos possuir nosso amor
Nós não podemos ensinar nosso amor

O maior suspiro de amor
é o caminho mais curto para os céus

A vida mais profunda é o amor
O amor mais profundo é um abraço

O amor não é descanso
O amor é paz
O amor é o sentido

Akiane Kramarik (escrito aos 11 anos de idade), tradução de Rafael Arrais.

*

Love

Love is never alone
Love is always crowded
Love is the shared self

We cannot own our love
And we cannot teach our love

The longest breath of love
is the shortest distance to heaven

The deepest life is love
The deepest love is an embrace

Love is not rest
Love is peace
Love is the purpose

Akiane Kramarik, age 11

*

Não nos lembramos mais de como era do outro lado do véu, mas por vezes nos enviam alguém que ainda se lembra. Literalmente, graças a Deus...

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29.10.08

Filosofia barata

Sabem por que uma filosofia é barata?
Porque não exige esforço
Nem saber.

Não o esforço do estudo árduo,
Da maratona mental
Ou do raciocínio meticuloso,
Mas antes o esforço de filosofar para si
E não para os outros;
De compreender que não se impõe opiniões,
Não se humilha pessoas,
Apenas discutem-se conceitos:
Muitos deles falhos,
Porém grandiosamente perfeitos
Enquanto idéias.

Não o saber de quem quer a tudo entender,
E encontrar a tal sonhada
Verdade absoluta.
Mas, tanto distante disso,
O saber de quem finalmente compreendeu
Que no mundo busca-se a verdade,
E esta exatamente nos diz:
Não há verdades derradeiras
Ou sábios infalíveis,
Tudo de real que há na existência
Resume-se ao que nossa percepção,
Falha e humana,
Nos paga por nossa sabedoria.

Por isso se vendem no mundo tantas filosofias baratas...
Ocorre que as caras
Nunca estiveram à venda.

Raph’08

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15.8.08

O ciclo da hipocrisia a beira-mar

Não me incomoda o barulho do tiro
Mas pensar que ele pode ter um alvo potencial
Não me incomoda o alvo que morre
Mas a matéria escancarada na seção policial
Não me incomoda o medo que a mídia gera
Mas lembrar que tudo isso podia ter tido solução
Não me incomoda a espera pela boa política
Mas o imenso atraso em nossa educação
Não me incomoda a criança carente
Mas o que ela poderá fazer contratada pelo tráfico
Não me incomoda o estado paralelo
Mas a insegurança das ruas da zona sul
Não me incomoda a violência
Mas a classe que a financia e consome a droga
Não me incomoda o rico viciado
Mas os pobres que se amontoam nas encostas
Não me incomoda a favela
Mas os tiroteios sasonais
Não me incomoda o armamento do bandido
Mas saber que foi comprado de policiais

Não me incomoda o barulho do tiro
Quase nada me incomoda
Exceto quando não faz sol
Nem dá praia
Na cidade maravilhosa

raph’08

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