Comentário das respostas da pergunta “sem Deus, tudo é permitido?”, parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori responderam a 7 perguntas sobre o tema. Para saber mais, leia a premissa da série.
[Raph] Estamos mais acostumados a presenciar casos de preconceito dos religiosos para com os ateus. Normalmente as explicações incluem “ora, mas ele não tem Deus no coração” e coisas do tipo; acho que todos aqui já sabem do que estou falando...
Pois bem, comigo ocorreu algo como o oposto disso, de certa forma: durante os meses em que esta série se estendeu, eu tive a felicidade de ler o mais novo livro do filósofo suíço Alain de Botton, Religião para ateus [1]. Ora, eu sempre adorei os livros de Botton, e nunca me preocupei em saber se ele era ou não ateu... Da mesma forma, nunca me preocupei em saber se o funcionário de uma livraria que frequento era ou não ateu. Ele sempre me atendeu bem, mas era impossível não notar a forma meio “distante” com a qual ele lidava comigo, particularmente quanto estava folheando livros das estantes de espiritismo e ocultismo. Eu pensava que ele era evangélico ou coisa do tipo, sabe como é: nós espiritualistas estamos mais do que acostumados com esse tipo de preconceito. Normal.
Pois é, tal funcionário por acaso era agnóstico, e seu “distanciamento” não tinha nada a ver com o preconceito por eu ser espiritualista, mas sim por uma pura pressuposição de que era eu quem devia ter preconceito para com ele... Engraçado como são as relações humanas: bastaram cinco minutos de conversa sobre o livro de Botton, e ambos percebemos que nenhum dos dois tinha a menor necessidade de “temer” o preconceito do outro. Na verdade, nenhum dos dois tinha preconceito algum, pelo contrário: tinham certo cuidado, certo “distanciamento”, exatamente por considerar a possibilidade do outro ser preconceituoso. Cinco minutos de conversa: quem dera fosse tão simples resolver o preconceito do mundo assim...
O problema é que a maior parte das pessoas infelizmente não costuma frequentar muito a livraria, elas preferem que alguma autoridade leia os livros para elas, e resuma o que achou. Mas livros são apenas conjuntos de palavras, o que importa é o que conseguem fazer com aqueles que os leem. Livros não mudam o mundo, as pessoas que os leem é que mudam o mundo.
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Você pode achar que um espiritualista ou ocultista não tem muito sobre o que conversar com um cientista ou cético. Pior ainda seria ambos dialogarem sobre Deus: “perda de tempo total”... Se este é o seu pensamento sobre a questão, permita-me trazer-lhe aqui um diálogo meu com um amigo que foi professor universitário de física e matemática (hoje está aposentado, mas é vice-diretor de um colégio de Viçosa/MG). Este amigo se autointitula “livre pensador, cético, racionalista, humanista, estóico, epicurista, anarquista e ateísta” – você acha que eu não teria nada a falar com ele sobre Deus?
O diálogo começou quando eu comentei sobe um post seu numa rede social. No post ele mostrava parte da resposta para uma pergunta de uma provável jovem estudante: “Acho que estou apaixonada de novo, o quão estou fodida?”. Para essa pergunta, tão corriqueira da juventude (com fodida e tudo), meu amigo me trouxe uma belíssima resposta do qual destaco apenas um trecho: “Você ganhou o prêmio de estar experimentando a sensação mais maravilhosa que a vida pode propiciar. Você já está no céu sem ter morrido. O resto não importa”.
Foi a partir daí que comecei a dialogar com meu amigo, que vou chamar aqui de Wolf:
Raph – Se Deus for o nosso amor, não será preciso esperar a morte para chegar ao céu, nem temer inferno algum.
Wolf – O amor a Deus é um amor platônico. O amor completo, além dos aspectos agape e philia, também envolve o eros, que, em geral, não se devota a Deus. Além disso, o amor a Deus não é sensivelmente correspondido. Você pode ter a intelecção de que Deus o ama, mas você não tem essa sensação, como você pode ter do amor de outra pessoa. Assim, o céu que o amor de Deus pode propiciar é um céu intelectual. O céu que uma paixão amorosa humana propicia, além de intelectual, é também sensorial.
Raph – Pois é eu quis dizer literalmente isso: se Deus for o nosso amor, se tudo o que associamos ao amor, ao amor puro, mesmo que sexual, seja Deus. É mais um jogo de palavras, cada um entende a palavra "Deus" do seu modo, para o bem ou para o mal (poderia dizer, talvez, "se o Sagrado for nosso amor")... Mas eu toquei nisso porque achei bonito o que disse: "Você já está no céu sem ter morrido".
Wolf – Sim, se considerarmos que Deus significa, simplesmente, "amor", então quem está apaixonado está com Deus no coração. Nesse caso, Deus não é um ser. Essa é uma concepção que me agrada. Quando alguém diz "fica com Deus" ou "vai com Deus", está dizendo "fica com amor" ou "vai com amor". Realmente, é disso que a humanidade precisa. Para tal vale ler o "Tao Te Ching" de Lao Tsé.
Raph – Exato, quem sabe o Tao não seja o Amor: Deus em movimento... Mas vamos aprofundar um pouco mais: quem sabe se o motivo de tantos terem medo de se apaixonar não tenha algo a ver com esse entendimento de Deus como agente de barganha: "eu Te amo, Pai, e em troca ganho isto ou aquilo" (por ex: "a salvação").
Nas relações amorosas, às vezes as pessoas parecem pensar assim, só que quando percebem que nem sempre recebem "amor de volta", ficam com medo de amar. Mas, se o amor for sua própria recompensa, não deveriam se preocupar com barganhas, mas simplesmente com o exercício do amor.
Lao Tsé não espera nada em troca, o simples fato de refletir sobre o Tao o faz feliz. É como contemplar as estrelas: ninguém espera uma estrela cadente de presente, para guardar em casa - apenas as admira.
Wolf – Gosto dessa linha. A questão é a seguinte: o esquema da natureza fez com que a vida tenha surgido e, para que ela continue, desenvolveu-se o sexo, do qual o amor, qualquer amor, é uma sublimação. Então o amor é, assim considerando, o supremo objetivo da natureza. Ele é o caminho para que o esquema funcione e a evolução progrida, pois não há evolução sem reprodução. Note que não falo "projeto" e sim "esquema", pois não há plano nenhum nisso, por parte de ninguém. É o que aconteceu de acontecer. E se o que podemos chamar de "Deus" seja, simplesmente, uma personalização abstrata desse esquema, como o concebia Einstein e Espinosa, que não viam em Deus uma pessoa, e, nem mesmo, um ser, então crer em Deus e amá-lo nada mais é do que se amoldar a esse esquema. Como portadores do livre arbítrio, que nos retirou, em parte, do esquema cego e nos concedeu a liberdade de escolha, podemos escolher a salvação, que é, justamente, aderir ao amor, ou a perdição, que é negá-lo. Esse tipo de exegese eu aceito.
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Claro que isso não quer dizer que estamos totalmente de acordo acerca do que seja Deus, ou o Amor, mas pelo menos deixou de haver este “distanciamento”, este “deus-barreira”, entre nós. Mas, talvez ainda falte uma explicação mais profunda acerca do que quero dizer aqui:
Se Deus é pensado como um Ser, ou apenas como um Ser, racionalmente e intuitivamente chegaremos a dilemas sem volta, a paradoxos irreconciliáveis, e invariavelmente dia chegaremos numa certa descrença. Mas, então, será o início, e não o fim... Pois quando finalmente percebermos que Deus é Substância, a Substância que não pode criar a si mesma [2], o Uno que formou tudo o que há através do Movimento, então teremos a genuína experiência de estarmos encharcados por seu Oceano onde quer que cheguemos, em todos os momentos da existência...
Então começaremos a compreender que todos somos parte dele, e todos estamos conectados numa longa teia de luz. E saberemos que é o Amor, só o Amor, a essência de seu Movimento. Então passaremos a amar, pelo prazer de amar, pois o Amor é sua própria recompensa, e quanto mais arde em nossa alma, mais combustível há para que o fogo cresça ainda mais, cada vez mais...
E não teremos nada pelo que crer ou descrer, nem nada a temer. Teremos dado o primeiro passo no caminho, e depois do primeiro já saberemos que a época da escuridão da alma ficou para trás. Será o início da vida, e o fim da sobrevivência.
Mas nada disso se aprende lendo palavras - o Amor não é uma palavra, tampouco Deus.
Se esse conhecimento pudesse ser obtido simplesmente pelo que dizem outros homens, não seria necessário entregar-se a tanto trabalho e esforço, e ninguém se sacrificaria tanto nessa busca. Alguém vai à beira do mar e só vê água salgada, tubarões e peixes. Ele diz: "onde está essa pérola de que falam? Talvez não haja pérola alguma". Como seria possível obter a pérola simplesmente olhando o mar? Mesmo que tivesse de esvaziar o mar cem mil vezes com uma taça, a pérola jamais seria encontrada.
É preciso um mergulhador para encontrá-la...
(...)
Vem,
Te direi em segredo
Aonde leva esta dança.
Vê como as partículas do ar
E os grãos de areia do deserto
Giram desnorteados.
Cada átomo
Feliz ou miserável,
Gira apaixonado
Em torno do sol.
(Jalal ad-Din Rumi)
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[1] Neste livro provocativo (e muito corajoso), Botton defende que à sociedade secular têm muito o quê aprender com os aspectos positivos das grandes instituições religiosas. Ele praticamente inaugura o ateísmo 2.0: uma forma mais tolerante, mais filosófica que eclesiástica (ou antieclesiástica, o que no fundo não é tão diferente, tal como o ódio não é o oposto do amor), de ateísmo.
[2] Espinosa foi quem melhor elaborou a questão para a modernidade, em sua monumental Ética. Porém, tais ideias acerca do Uno, da Substância-Primeira, datam de épocas muito mais antigas, tendo aparecido no hermetismo, na filosofia pré-socrática (particularmente em Parmênides), nos estoicismo e no neoplatonismo. Mesmo no taoismo, não é possível ignorar a abordagem da questão, ainda que de forma poética.
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E aqui terminam, finalmente, as reflexões sobre a espiritualidade e a ciência. Não esqueçam: a luz que reflete numa alma jamais será a mesma luz, por isso é tão importante que sejamos como uma teia de luz. Para que nenhuma ideia de amor, nem mesmo a mais pequenina, se perca...
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Crédito das imagens: todas foram vistas nas redes sociais, portanto não sei dos autores (será que algum deles ficaria chateado?)
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