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11.2.19

Espíritos são coisa da nossa cabeça? (Reflexões no YouTube)

Bem-vindos ao primeiro vídeo resposta do canal! Neste vídeo respondo a uma pergunta do Douglas Pinnheiro sobre entidades espirituais e outras coisas mais... Lembrando que por enquanto estarei criando vídeos resposta somente para as perguntas nos comentários do vídeo comemorativo de 1.000 inscritos no canal.

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14.8.18

Amigo de Mago (Reflexões no YouTube)

Nesta primeira edição especial (Special Edition - SE) do Colossi Estúdio Gráfico em parceria com o nosso canal, iremos falar de dragões-fada imaginários, de sistemas modernos de espátulas e de servidores astrais, não necessariamente nessa ordem. Eu gostaria de poder falar mais, mas não quero dar maiores spoilers... Assistam por sua conta e risco!

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6.8.18

A psicanálise ainda é necessária?

O mundo moderno nos faz questionar a necessidade de terapia. Afinal, com os avanços da biologia do comportamento, a descoberta das influências químicas sobre o nosso humor, poderíamos trocar anos de análise por um medicamento receitado pelo psiquiatra.

Os tempos modernos exigem também agilidade na solução dos problemas. Não temos tempo para investigar suas causas. Precisamos de uma técnica eficiente, rápida e barata, para logo nos sentirmos funcionando bem.

Será que a psicanálise ainda é necessária nesse mundo? A resposta é sim, mais do que nunca. Há um engano perverso em acreditar que se pode curar-se de um envenenamento ingerindo mais veneno, mas assim agem aqueles que esperam da racionalidade moderna a saída para sofrimentos que são eminentemente modernos.

Por trás da demanda de solução rápida está a própria ansiedade, que sem repensá-la nunca se poderá estar em paz com nada.

Dos comprimidos de felicidade esperam-se mudanças sem responsabilização, como se o destino sempre dependesse de alguém ou algo que não si próprio.

Sócrates havia dito que uma vida sem reflexão é uma vida que não merece ser vivida. Pois parece que aceitamos que, na demanda de praticidade do mundo moderno, em que cada app do seu celular faz o trabalho duro de cem homens, não temos mais por que refletir. Sobretudo refletir sobre nós mesmos.

É preciso reconhecer que o padecimento nos diz outra coisa. Há mais da vida que uma existência irreconhecível, arrastada por um tempo cotidiano incontrolado, em que o contentamento se resume a ansiedade de qual será nosso próximo consumo.

Se alguns pensam monótono, deitar-se no divã do psicanalista resiste hoje como uma oportunidade de aventura para aqueles que ainda ousam desbravar a vida.

Resta algo de místico da psicanálise: o psicanalista como iniciado em sua própria análise sobre os segredos e paradoxos do desejo, e que agora está disposto a receber um neófito para auxiliá-lo em sua jornada pessoal. Há uma sabedoria que se transmite na experiência, que está para além de cursos e livros.

Contra todas as demandas modernas que nos dizem “não pense, apenas faça”, a psicanálise nos convida a refletir sobre a nossa estética existencial. Nosso lugar, escolhas, gozos e perspectivas. Fazendo valer o discurso socrático, é tomar o caminho de uma vida que vale a pena a ser vivida.

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Nine Köpfer/Unsplash

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26.12.17

Como me tornei terapeuta

Sendo um psicanalista, as pessoas costumam me perguntar o que é necessário para se tornar um também. Neste texto pretendo responder a essa pergunta, compartilhar um pouco do meu próprio trajeto, e dizer por que a psicanálise pode ser interessante para você caso também queira ser um terapeuta.

Primeiramente, a profissão de psicanalista não é regulamentada pelo governo. Não há um diploma ou uma instituição que possa garantir este título, embora existam cursos e sociedades que ofereçam uma formação profissional ao aspirante a terapeuta. Eu diria que, para ser um bom psicanalista, cursos e diplomas são tão necessários quanto para um bom jardineiro. Obviamente, seu aprimoramento técnico e criativo irá lhe auxiliar na arte da jardinagem, mas o que lhe faz um verdadeiro jardineiro é o quão belo você consegue manter o seu jardim. Na psicanálise não é diferente.

Sigmund Freud propôs a formação do psicanalista baseada no tripé análise pessoal, supervisão e estudo teórico. Como vocês podem perceber, não há uma grade curricular obrigatória, estipulação de carga horária mínima ou qual instituição está apta a conceder o título. Pelo contrário, como Jacques Lacan dizia, “o analista só se autoriza por si mesmo”. O caráter – digamos – anárquico de nossa formação nos confere um interessante diferencial.

Considerando que um percurso é sempre singular a cada sujeito, a psicanálise entende que não há normativas quanto ao que seria um “verdadeiro percurso analítico”. Cada analista deve inventar o seu próprio caminho, a sua própria formação, respeitando apenas os critérios básicos de legitimidade do tripé proposto por Freud.

Certamente esse modelo mais liberal de formação, em que cada um deve buscar por si próprio construir uma trajetória de vida que lhe torne apto a ser um bom analista, parece à primeira vista propício aos charlatães. É por isso que o analista deve se colocar à prova na sociedade. Se sua autorização é uma auto-rização, o reconhecimento do psicanalista não deve se resumir às quatro paredes do seu consultório, mas ele deve estar na pólis.

Se você procura um terapeuta, não vá a qualquer um apenas porque você recebeu seu cartãozinho. Procure profissionais que você já tem algum nível de conhecimento para confiar o importante trabalho que vocês irão desenvolver. Afinal, é de sua vida que estamos tratando. Mesmo quando for uma indicação, procure conhecer esse profissional através de artigos ou vídeos que ele produziu, qual sua formação acadêmica, o que ele tem feito. Ou seja, o que seu terapeuta pode transmitir de sua trajetória pessoal.

E como funciona o tripé psicanalítico?

1. Estudo teórico: Todo analista deve estudar a psicanálise. Obviamente. A partir de Lacan surgiram as escolas de psicanálise. Uma escola não oferece um curso ou um diploma de psicanalista. Estar numa escola não autoriza ninguém a ser analista. A escola é uma instituição em que analistas e estudantes de psicanálise podem se reunir para discutir o seu campo, trocar ensinamentos e avançar as investigações psicanalíticas.

Porém, a formação teórica não se resume ao estudo realizado na escola. Um analista não deve conhecer apenas a psicanálise, mas também a sua interlocução com outros campos. Contam aqui graduações acadêmicas, seminários de filosofia, conhecimentos de religião, atividade política, e por aí vai. Não são propriamente os diplomas que contam, mas a maestria particular que cada um desenvolve a partir de seus variados estudos. Não há uma receita universal, mas cada analista terá suas próprias particularidades e afeições.

Podemos apenas universalizar que o analista tem uma formação contínua: ele jamais deve parar seus estudos, como se os tivesse concluído, mas deve estar sempre avançando em suas investigações, mantendo-se atualizado quanto às transformações do mundo, esteja filiado a uma instituição ou de maneira independente.

2. Supervisão: Durante os primeiros anos da formação, é importante que o aspirante a analista esteja amparado por outro analista mais experiente. Pode-se encontrar um supervisor numa escola, mas não necessariamente. Com seu supervisor, o estudante poderá discutir seus primeiros casos clínicos, esclarecer dúvidas, tornar-se ciente de suas dificuldades pessoais, até que com o passar do tempo possa prescindir dele. Porém, mesmo analistas mais antigos e experientes jamais prescindem de eventualmente reunirem-se com outros analistas para discutir as questões clínicas, ainda que com menor frequência por terem adquirido maior autonomia.

3. Análise pessoal: Chegamos finalmente ao mais importante do tripé. Estudo contínuo e supervisão são fundamentais, mas é a análise pessoal que torna alguém propriamente um analista. Um terapeuta jamais se resumirá a uma função técnica, alguém que coleciona métodos para simplesmente aplicá-los. Trata-se de uma arte. De uma maestria adquirida com o tempo. O analista é, antes de qualquer coisa, analista de si mesmo.

É preciso que se atravesse a própria análise, que seja capaz de mergulhar em sua própria intimidade com sinceridade, para poder se tornar analista de outra pessoa. Só assim nos tornamos capazes de suportar as angústias de um outro ser humano, quando conhecemos suficientemente as nossas próprias. Como eu disse antes, não importam os diplomas e conhecimentos de um jardineiro se ele não é capaz de cuidar de um belo jardim. Quem não enfrentou a própria análise ainda não está apto a analisar outras pessoas.

Não existe autoanálise. Esse é o fracasso da autoajuda. Sozinho consigo mesmo, o sujeito é capaz de criar as mais diferentes racionalizações, fugas, mentiras para não se haver com aquilo que lhe é mais verdadeiro. Pois a verdade geralmente é incômoda demais ao ego. É preciso que a análise seja um discurso dirigido a um outro, e que esse outro esteja ali para pontuar o que não se deve ignorar. Só existe análise com um psicanalista. Terapia com um terapeuta.

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Existem muitos caminhos terapêuticos. Dentro da psicologia mesmo existem diferentes abordagens. Por que então a psicanálise?

Não há uma resposta absoluta para essa pergunta. Cada pessoa terá suas diferentes preferências e filiações teórico-políticas. Posso responder apenas porque a psicanálise fez mais sentido para mim. Talvez outro caminho possa fazer mais sentido para a sua história.

Meu primeiro contato com a psicanálise foi ainda criança, por volta dos 10 anos, quando fui levado a um analista por meus pais. Anos depois, quando entrei na faculdade de psicologia, eu já sabia que a psicanálise, embora também ensinada nos cursos de psicologia, não se reduz a última. Psicologia e psicanálise são campos diferentes, com profissionalidades diferentes, ambas aptas ao exercício terapêutico.

O psicólogo é uma profissão regulamentada, adquirida apenas através de um curso de graduação. Existem muitas atuações para um psicólogo, a depender de suas variadas especializações. O psicanalista, por sua vez, é uma função a qual exercemos. Particularmente, eu adquiri as duas formações. Mas nem todo psicanalista vem da psicologia. Alguns se tornam psicanalistas após um curso de medicina, filosofia ou, comumente, outras ciências humanas.

Minha escolha pela psicologia se deu por considerá-la uma ciência abrangente para conhecer as diferentes interseccionalidades que lidam com o ser humano, tema que sempre me intrigou bastante. Mas desde o primeiro período da graduação jamais abandonei outros estudos. Para falar a verdade, muitas vezes passava mais tempo na seção de filosofia das livrarias que propriamente na seção de psicologia.

Foi por volta da metade da graduação que comecei a estagiar com um professor que era psicólogo e psicanalista. Com ele iniciei na clínica, recebendo pacientes, e desde então nunca mais parei. Quanto ao estudo teórico, dediquei-me a uma intensa atividade acadêmica durante e após a graduação. Mas minha formação analítica ocorreu, como era de se esperar, em minha própria análise.

Foi durante a faculdade que retomei também a minha análise pessoal, pausada após uma significativa melhora daquelas questões que me levaram a um analista quando ainda era criança. Dando prosseguimento quando mais velho, foi ouvindo a mim mesmo, minhas incongruências, divisões, conflitos, paradoxos, angústias, que comecei a desenvolver um saber que não está nos livros ou nas teorias. Trata-se de um saber de si, um saber da vida, algo que os franceses chamam de savoir-faire, um saber-fazer. Isto é, saber fazer com a própria vida.

Porque não existem regras prontas para a vida. Há muitas teorias, técnicas e filosofias que podemos tomar conhecimento por livros, por aulas ou pela internet. Mas nenhum saber externo pode dizer a verdade sobre nós. É preciso conhecê-la aos poucos, ouvir a si próprio numa escuta aberta, numa paixão pela verdade, ainda que muitas vezes ela possa ser dolorosa ao ego. Se você tem essa coragem, a psicanálise é para você.

Entrar numa análise é desejar conhecer as profundezas daquilo que a maioria decide apenas ignorar. As saídas superficiais podem parecer mais simples. Antidepressivos, ansiolíticos e toda uma gama de drogas que, ainda que em muitos casos sejam necessárias, estão longe do uso banalizado que se adquiriu atualmente. Ou prazeres superficiais, fugazes, que, mesmo com eles, ainda sentimos a vida vazia de sentido, valor ou desejo.

Imagine que você possa ter uma vida satisfeita que independa do uso de drogas psiquiátricas, que sabemos trazer restrições à vida e efeitos colaterais. Que você possa encontrar algo que lhe faça vibrar. Valorizar o que é importante para você e desprender-se do que lhe faz mal. Viver sem estar limitado por medos incompreensíveis ou restrições absurdas.

Eu diria que os ganhos de uma análise são incomparáveis. Não por propaganda, mas por minha própria experiência. Se eu não tivesse feito análise, certamente teria uma vida muito diferente da que tenho hoje. Talvez precisasse de drogas psiquiátricas para viver e funcionar socialmente, estaria atormentado por fantasmas familiares, medos e inseguranças quanto a vida, diante de questões que pude trabalhar de um outro modo na análise.

Estamos acostumados a esperar soluções muito fantásticas para nossos problemas. Encontramos por aí propagandas de mudanças radicais para a vida: largar o emprego e viajar o mundo, ter uma experiência sexual muito perigosa, encontrar o amor da sua vida e tudo se tornar perfeito a partir de então, iniciar uma nova dieta revolucionária que mudará o seu corpo. Tudo muito espetacular. Também muito ideológico.

Mas às vezes você não precisa de muita coisa. E a psicanálise está aí para demonstrar isso. Só colocar umas palavras no lugar que fica tudo bem. É falar, escutar-se e também se calar. Porque a vida é muitas vezes inconsistente, absurda, frustrante. Mas acompanhada por amores, sonhos, realizações e alegrias. Basta encontrar a sua medida.

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Gerome Viavant/unsplash (arte de Alexander Milov para o Burning Man)

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24.6.16

Lançamento: Desperte para uma vida melhor

As Edições Textos para Reflexão publicam novamente um livro de Igor Teo, colunista do portal Teoria da Conspiração:

"A dificuldade em lidar com certos aspectos de si mesmo é uma questão frequente na atualidade. Muitas vezes precisamos procurar ajuda porque nos sentimos sucumbidos à tristeza, não controlamos a nossa raiva, não conseguimos sentir alegria ou entusiasmo pela vida, estamos excessivamente ansiosos com certos eventos, entre outros problemas de foro emocional. Por outro lado, muitas pessoas têm encontrado também na meditação um alívio para seus conflitos.

Apesar da meditação ser comumente associada a um contexto espiritual, Igor Teo explora neste livro o aspecto científico da prática, apoiado nos estudos das neurociências. Através de um método sistemático, este livro oferece aos seus leitores, além da compreensão teórica, um conjunto de exercícios para aqueles que desejam trilhar um caminho em busca de uma melhor qualidade de vida para si."

Um livro digital disponível para download gratuito, ou em versão impressa, no formato "pocket book":

Baixar grátis (pdf) Comprar versão impressa

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Abaixo, segue um trecho do capítulo "Ser Humano"...


Do que somos feitos?

Talvez você já tenha se feito essa pergunta. Segundo os cientistas, somos feitos da poeira das estrelas. A combinação aleatória de uma matéria originada bilhões de anos no passado no big bang, e que ao longo do tempo, devido a sucessivas transformações e ao processo evolução da espécie, fez de nós o que somos hoje. Isto é, somos matéria. Somos corpos que andam, cheiram, tocam, são tocados e interagem entre si. Mas não somos apenas isso. Também falamos, pensamos, refletimos... sentimos! Em algum momento da história da espécie, essa matéria começou a agir e reagir mais do que por simples respostas a estímulos externos do ambiente. Esse momento se deu quando adquirimos a linguagem.

Linguagem é diferente de comunicação. Muitos mamíferos superiores, como os golfinhos e abelhas, possuem um sistema de comunicação muito bem elaborado e eficiente. Mas a linguagem propriamente dita é a capacidade de utilizar meios simbólicos para se expressar, podendo um mesmo símbolo/significante ser usado em contextos diferentes. Por exemplo, dizemos que está calor quando está quente e a temperatura está alta. Mas também falamos em calor quando queremos comunicar que uma pessoa é calorosa, demonstrando um calor humano. A linguagem, deste modo, é a capacidade da utilização de símbolos como mediação entre pensamentos, emoções e seres humanos. Como ela não é fechada e unívoca constantemente está passível a “mal entendidos”. O que faz das relações humanas serem tão complexas.


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24.2.16

A arte da magia, uma entrevista com Alan Moore (parte 1)

Trechos da entrevista de Alan Moore para a revista Pagan Dawn, originalmente em inglês, com tradução de Rafael Arrais.

A lenda dos quadrinhos, Alan Moore, é o autor de diversos títulos memoráveis, tais quais Watchmen, A Liga Extraordinária, V de Vingança e Do Inferno. Ele também é um praticante de magia cerimonial e cofundador do Moon and Serpent Grand Egyptian Theatre of Marvels [O Grande Teatro Egípcio de Maravilhas da Lua e da Serpente]. Alan vê uma conexão íntima entre a magia e a criatividade artística, o que foi explorado na sua série Promethea. Sam Proctor resolveu lhe perguntar mais sobre este assunto...

Sam: Você disse que o seu interesse pela magia foi despertado enquanto pesquisava sobre a história da Maçonaria para compor Do Inferno, e que você anunciou publicamente a sua intenção de se tornar um mago em seu aniversário de 40 anos. Diga-nos mais sobre o que o levou a dar uma guinada tão radical em sua vida.

Alan: Como era de ser esperado, inúmeros fatores entraram na equação para tal decisão. Um deles, que por acaso não teve nenhuma relação com a minha pesquisa sobre a Maçonaria, foi uma linha de diálogo que eu já havia dado ao personagem principal de Do Inferno, afirmando que o lugar em que os deuses indubitavelmente existiam era a mente humana, onde eles eram reais em toda a sua "grandeza e monstruosidade".

Uma reflexão mais aprofundada das implicações desta linha de diálogo que surgiu casualmente na obra me deixou com aparentemente nenhuma forma de refutar tal afirmação, e assim fui obrigado a reajustar toda a minha racionalidade, que anteriormente vivia num ponto de vista muito estreito.

O território até então virgem e inexplorado da magia me pareceu ser a única área do conhecimento humano que poderia me oferecer alguma forma de tentar resolver tais ideias tão novas e intrigantes. Me autodeclarar um mago, com todo o risco de cair em ridículo e perder minha reputação, me pareceu um primeiro passo necessário para ingressar nesta nova identidade de visão radicalmente estendida, e até hoje mantenho a mesma opinião.

É claro que a coragem para dar este salto potencialmente desastroso nas trevas do intelecto foi grandemente facilitado pelo fato de eu estar num pub celebrando o meu aniversário, apreciando um bom jazz, e consideravelmente bêbado.

Sam: Você acredita que a magia pode nos oferecer uma forma de ver, compreender e nos relacionar com o mundo e com nós mesmos que a ciência e a psicologia não podem?

Alan: Em nosso livro por ser publicado, Moon & Serpent Bumper Book of Magic [autoria de Alan Moore e Steve Moore; eles não são parentes], nós consideramos que a consciência (interior), precedida pela linguagem, precedida pela representação (e a arte), eram todos fenômenos que surgiram mais ou menos no mesmo momento da história humana, e todos eles poderiam ser então percebidos como magia, um termo abrangente que abraçava todos os novos conceitos radicais nascidos do descobrimento do nosso mundo interior.

Isso nos permite dar uma definição para a magia como "um noivado com a consciência, uma busca dos significados dos seus fenômenos e possibilidades" [1]. Nós então prosseguimos para arguir que, originalmente, toda a cultura e todo pensamento humano se encontravam submergidos na visão mágica do mundo, e que com o advento das sociedades urbanas e a ascensão das profissões especializadas a magia foi lentamente dissociada das suas funções sociais.

Primeiramente as religiões organizadas a demoveram de sua profundidade espiritual, e então um crescente surgimento de autores, artesãos e artistas a demoveram de seu papel como fonte principal de visão imaginativa. Logo após, vizires e ministros tomaram o papel do xamã como principal conselheiro político da comunidade. Tudo isso deixou a magia com suas funções restantes, embora ainda vitais e frutíferas, de pesquisa alquímica, cura e investigação do mundo interior, até que a Renascença e o advento da Era da Razão delegaram os dois primeiros para os campos emergentes da ciência e da medicina, e finalmente, em torno de 1910, o terceiro foi capturado pela "nova ciência" de Freud e Jung, a psiquiatria.

Nós sugerimos que a totalidade da cultura na qual hoje residimos é nada menos que o cadáver desmembrado da magia (apesar dele ainda ter, de alguma forma, uma aparente capacidade de se comunicar), e que esse processo indubitavelmente necessário é exemplificado pelo princípio alquímico do solve, ou decomposição.

Nossa tese é a de que hoje se faz necessário o processo complementar de coagula, ou síntese, de forma a completarmos tal fórmula tão essencial. Para este fim, nós propomos que a arte e a magia devem ser intimamente reconectadas para o enorme benefício de ambas, conforme já foi dito em meu ensaio Fossil Angels, e o próximo passo deveria ser aprimorarmos o elo já existente entre as artes e as ciências, incluindo a psiquiatria, que eu já chamei um dia, sem nenhuma intenção de desrespeito, de "ocultismo num jaleco".

O passo final, mais importante e problemático, seria o de nutrir a conexão entre a ciência e a política, assegurando que as decisões políticas sejam feitas sob a luz do atual conhecimento científico, se valendo de todos os avanços científicos conquistados em, por exemplo, resoluções de conflitos armados, para o aprimoramento da humanidade como um todo.

Para finalmente responder a sua questão, um dos muitos benefícios que a magia oferece é uma visão de mundo plausível e, acredito eu, racional, onde tanto a ciência quanto a psicologia e todos os demais campos já mencionados podem coexistir conectados novamente a antiga ciência da existência, plena de significado, da qual eles um dia emergiram (Paracelso, praticamente o pai de quase todos os procedimentos modernos da medicina, também foi o primeiro a usar o termo "inconsciente", aproximadamente 400 anos antes da sua subsequente apropriação pela psicologia).

Com a magia, ao menos como nós a definimos, a principal vantagem em termos de relacionamento com o mundo é que ela nos oferece um ponto de vista coerente e sensivelmente integrado para nos relacionarmos com tudo a nossa volta. Da mesma forma, ao contrário de todos os campos e empreendimentos já mencionados, exceto a criatividade artística, a magia é inteiramente centrada nos princípios do êxtase e da transformação, coisas que cremos ser o alicerce das experiências humanas, e que se encontram totalmente deficientes na sociedade contemporânea.

Sam: Você disse um dia que ouviu falar que Einstein mantinha uma cópia de A Doutrina Secreta, de H. P. Blavatsky, aberta em sua escrivaninha. Ele trabalhou de forma bastante imaginativa e já afirmou que alcançou suas teorias primeiramente através da visualização (mental). Por acaso há uma barreira entre a ciência material e a oculta que precisa cair para o benefício da corrente principal da ciência [mainstream science]?

Alan: Einstein nós dá um bom exemplo. Ele afirmava que recebeu a inspiração para o seu trabalho com a relatividade durante uma espécie de sonho lúcido [daydream] onde ele imaginou a si mesmo correndo lado a lado com um faixo de luz. James Watson, que descobriu a molécula do DNA juntamente com Francis Crick, dizia que deduziu a sua estrutura através da lembrança de um sonho com escadas espiraladas.

Sir Isaac Newton foi um alquimista que incluiu o índigo no espectro de cores em acordo com a simpatia alquímica pelo número sete.

Nós poderíamos dizer que quando a ciência e a magia foram primeiramente separadas, cada uma delas perdeu algo vital: a ciência abandonou a sua capacidade de se relatar com qualquer espécie de mundo interior, enquanto a magia de certa forma pareceu haver perdido muito da sua capacidade de discriminação e análise intelectual. Conforme já foi dito, a reintegração dessas áreas divorciadas da cultura humana poderia ser, eu intuo, um imenso ganho para todas as partes envolvidas.

» continua na parte 2

***

[1] Este trecho traz diversas possibilidades de tradução, e eu optei provavelmente pela mais poética e arriscada. No original, "magic as a purposeful engagement with the phenomena and possibilities of consciousness", temos o termo "engagement" que pode significar "compromisso", "engajamento", "noivado", e até mesmo "batalha". Portanto, uma tradução mais sóbria desta definição tão essencial para a compreensão do pensamento de Moore seria algo como "magia como um engajamento intencional com o fenômeno e as possibilidades da consciência".

Crédito da foto: Joe Brown (Alan Moore)

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8.1.16

A morte é um dia que vale a pena viver

Um dia perguntaram a Ana Claudia Quintana Arantes, "O que você aprendeu lidando com a morte?"

E na entrevista concedida a revista Vida simples, a médica geriatra, especializada em cuidados paliativos para pacientes que têm pouquíssimo tempo restante de vida, respondeu assim:

"Aprendi a viver. Eu vejo muita gente, todos os dias, no final da vida. E, nesse instante, as pessoas ficam muito lúcidas sobre o que importa. A morte tira o véu da mentira sobre a vida. E a pessoa deixa de lado o que é bobagem ou ilusório. Você quer dizer que ama, então expressa isso e não fica preocupado com o que os outros vão pensar a respeito. Afinal aquela é a sua vida – e ela está acabando. Então você demonstra mais afeto, você reconhece seus erros."

Ana é uma genuína médica de almas, que trata não somente doenças ou corpos, mas vai direto ao coração, onde cada momento restante de vida pode ser um momento mágico, um momento eterno... É sempre muito belo, e muito triste e profundo, conhecer mais sobre as histórias de gente como ela. Nesta palestra do TEDxFMUSP, A morte é um dia que vale a pena viver, ela conta algumas delas:

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Crédito da foto: Namu

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16.11.15

Como perdoar um adultério

Há uma belíssima história do Novo Testamento que fala sobre a manhã em que Jesus foi apresentado a uma mulher que havia supostamente traído o seu marido. Quem a trouxe foram os judeus escribas e fariseus, isto é, que estudavam e aplicavam as leis da época. Segundo a legislação, ela deveria ser apedrejada até a morte.

No entanto, o texto diz, em João 8:6, que os fariseus o tentavam a dar o seu próprio julgamento, a fim de que o pudessem acusar... Ora, se Jesus concordasse com as leis judaicas, estaria contrariando as leis romanas, que não consentiam com punição tão severa. Se, no entanto, defendesse uma punição mais branda, estaria contrariando, supostamente, as leis estabelecidas por Moisés.

A reação do Rabi da Galileia foi, como sabemos, de uma sabedoria profunda. Após se inclinar sobre a terra e escrever algumas palavras com o dedo, sem dúvida deixando todos em sua volta confusos, mas também fazendo com que tivessem tempo de refletir, ele simplesmente respondeu:

“Aquele entre vocês que esteja sem pecado, que atire a primeira pedra”.

A análise literal deste trecho já é bela por si só, mas será possível alcançar uma compreensão mais profunda desta história?

Surpreendentemente, eu fui encontrar esta interpretação aprofundada não no cristianismo, mas no sufismo, a vertente mística do Islã, e que considera Jesus um de seus profetas. Foi da boca de um mestre sufi que eu conheci esta história:

Na doutrina sufi, há sete níveis de consciência, como que gradações que marcam o caminho da animalidade até a união mística com Deus. Quatro desses níveis são tão avançados que pertencem basicamente aqueles que já estão em seu caminho de iluminação espiritual. Os três demais, no entanto, são comuns no mundo todo, e são exatamente estes que são retratados na história de Jesus e da mulher adúltera.

“Mas, espera aí, quer dizer que essa história é só uma metáfora, que nunca ocorreu de verdade?” – você pode perguntar, e a realidade é que, para muitos sufis, assim como para muitos místicos, não faz tanta diferença se a história “ocorreu de verdade”, há cerca de dois mil anos, exatamente como descrita nos textos sagrados; o que mais importa, no final das contas, é o que esta história, assim como tantas outras narrativas esotéricas, podem nos ensinar hoje, neste momento, nesta vida. Em outras palavras, os místicos não querem provar nada a ninguém, exceto a eles mesmos...

Voltando a explicação sufi, os três níveis de consciência, ou três “eus”, que são retratados neste trecho de João são:

Nafs ammara (o eu animal, ou que induz ao mal)
Esta é a condição básica de todo ser humano ainda desconectado de sua própria essência e, dessa forma, da essência divina da própria realidade. Sem condições de controlar sua própria animalidade, é “arrastado” por ela para aqui e acolá, de modo que a satisfação dos desejos do ego se torna o principal objetivo da sua existência.

Porém, como o ego jamais pode realmente ser satisfeito, neste nível de consciência os seres passam por grandes conflitos e angústias, e raramente conhecem reais momentos de paz.

Na história bíblica, este “eu” é representado pela mulher adúltera, que “vive no pecado”. No entanto, como veremos em seguida, é exatamente este nosso aspecto mais obscuro o que tem o maior potencial de elevação, de reforma, de depuração, de melhora.

Vale lembrar, é claro, que todos os personagens da história se referem a aspectos de nós mesmos, o que significa que nós somos ao mesmo tempo tanto a mulher adúltera quanto os demais “eus” presentes na narrativa.

Nafs lawwama (o eu acusador)
Neste nível, a consciência alcança um entendimento intuitivo profundo do que é “certo” e “errado”. Porém, é preciso destacar que esta noção vai além da mera legislação humana, e se encontra arraigada no próprio coração de cada ser.

Há uma passagem belíssima da poesia de Jalal ud-Din Rumi, um grandioso poeta sufi, que diz assim:

Além das ideias de certo e errado existe um campo, eu lhe encontrarei lá”.

Quem nos encontrará lá é o Amado, isto é, Deus, ou o alvo final de toda esta milenar caminhada espiritual. Não é da noite para o dia, obviamente, que conseguiremos nos elevar “além das ideias de certo e errado”, e viver no bem naturalmente, sem que precisemos de leis para nos colocar nos trilhos...

Até lá, corremos o risco de nos tornarmos acusadores tenazes, a focar nosso julgamento inteiramente nos outros, e não em nós mesmos. É daí que nasce o fanatismo religioso, que absolutamente nada tem a ver com o misticismo ou com a verdadeira religião; enfim, que afasta, e jamais aproxima do Amado.

Dito isso, é fácil identificar como os fariseus representam este estado de consciência. Estão inteiramente dentro da lei, é verdade, mas ainda não conseguirem ir além dela. Ainda não conseguiram chegar ao real conceito de perdão, e por isso acusam os demais, pois são incapazes de perdoar a si mesmos.

Assim, todos nós que carregamos todas essas culpas nos sótãos da consciência somos também como os fariseus, incapazes de perdoar nossos pensamentos adúlteros.

Nafs mulhima (o eu inspirado)
Aqui a consciência finalmente abre sua janela para a luz eterna que banha a tudo o que há desde o início dos tempos. E, ainda que a fresta aberta ainda seja tão pequena, e ainda que os ventos volta e meia façam a janela voltar a se fechar, fato é que a visão de tal luz é inesquecível, e não há caminhante que não se lembre deste momento, para sempre.

A resposta de Jesus, “atire a primeira pedra quem estiver sem pecado”, é ao mesmo tempo um exemplo da inspiração que chega de algum outro mundo, uma ideia genuinamente nova, e um testemunho de que o caminho de ascensão da consciência é árduo e muito, muito longo...

Nós, que trafegamos ao mesmo tempo por esses três níveis de consciência, certamente temos de levar em consideração que por muito tempo ainda viveremos no pecado. Mas isso não deveria ser motivo para cairmos no pessimismo ou na falta de ânimo.

Pois se foi o próprio Rabi quem disse que dia virá que faremos tudo o que ele mesmo fez, e ainda muito mais, isto significa que nós também poderemos um dia chegar aonde ele chegou, e assim, olhar para nossa pobre mulher adúltera e lhe dizer, conectados a luz que cintila em tudo que existe:

“Ninguém lhe condenou, e eu também não lhe condeno. Vá, e não peques mais”.

É assim que nos perdoamos, que domesticamos nossa animalidade, e que nos tornamos aptos a um dia, finalmente, encontrarmos aquele tal campo onde veremos o Amado, face a face.

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Crédito da imagem: Cena de A última tentação de Cristo

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2.9.15

Sapiens

Nesta contundente palestra para o TED Talks, Yuval Noah Harari, um proeminente professor de história israelense, tenta responder a pergunta: “Como nos transformamos de primatas insignificantes, que cuidavam de sua vidinha em algum canto da África, em soberanos do planeta Terra?”.

Antes de assistirem o vídeo abaixo, no entanto, é preciso tentar compreender como um historiador jovem (39 anos) conseguiu escrever um dos melhores livros do século 21, Sapiens, no qual se baseia sua palestra.

Ora, para início de conversa, já é revelador o fato de Harari começar a explicar a história humana, o mote de seu livro do início ao fim, pela parte em que ela sequer era registrada, isto é, antes do advento da escrita. Harari é afinal um pensador que se interessa pelas “grandes questões” do pensamento humano, e “como conquistamos o planeta?” é somente uma delas...

Dentre algumas outras, poderíamos citar: “Por que nossos ancestrais se reuniram para criar cidades, reinos e impérios?”; “Como passamos a acreditar em deuses, nações e direitos humanos?”; “Como aprendemos a confiar no dinheiro, em livros e em leis?”; ou ainda, “Como fomos escravizados pela burocracia, pelo consumismo e pela incessante busca da felicidade?”.

É tentando responder a tais questões que Harari vai muito além do âmbito “ortodoxo” do estudo histórico, e trata de biologia, psicologia, filosofia, mitologia, economia, política e sociologia com a mesma naturalidade com a qual o seu antigo professor falava de Revolução Francesa.

Além de ser extraordinariamente bem escrito, Sapiens não se limita apenas a descrever a história, como nos leva a refletir sobre o que ocorreu no passado, sobre como isso influencia o presente e o futuro e, sobretudo, sobre como as “narrativas tradicionais” muitas vezes são falhas, ou por contarem somente “a história dos vencedores”, ou pelo fato de ignorarem solenemente o nosso mundo interno, subjetivo, e a enorme importância que a linguagem e as ficções humanas exercem e exerceram sobre os eventos históricos.

A única fronteira que Harari se recusa a ultrapassar é o limite da ortodoxia acadêmica em relação às crenças. Apesar de elogiar o budismo, a sua postura para com as religiões é por vezes excessivamente ácida e superficial, pois apesar de ele basear boa parte de sua tese sobre a evolução humana em torno das mitologias da mente, em nenhum momento ele chega a tentar analisar o tema do ponto de vista místico. Mas se além de tudo o que já sabe, Harari ainda fosse um místico, seria talvez pedir demais para uma única mente.

Felizmente, existem outras mentes que podem complementar as reflexões de Sapiens; mas tal livro se encontra num patamar tão elevado que só me vem à cabeça gente como Joseph Campbell, Mircea Eliade e Alan Moore...

Compre Sapiens na Amazon, através do link abaixo, e contribua com este blog:

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Crédito da imagem: Google Image Search/Divulgação (Y. N. Harari)

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18.8.15

Lançamento: A fórmula do ateísmo

As Edições Textos para Reflexão publicam novamente um livro de Igor Teo, colunista do portal Teoria da Conspiração:

"Este livro não é apenas sobre religião. Numa sociedade marcada cada vez mais pelo espírito cético e pós-tradicional, Igor Teo demonstra como o fundamento da crença é o que temos de mais básico em nossa relação com o mundo. Estamos a todo o momento acreditando em algo, e agindo no mundo segundo uma crença. Acreditamos não apenas que Deus exista ou não, mas também na ordem econômica, na ordem social, na nossa identidade, na forma que nossas relações com as outras pessoas supostamente devem acontecer.

Nossas crenças sobre nós mesmos e o funcionamento do mundo constituem a fantasia subjetiva que herdamos da sociedade e da relação com o Outro. É com nossas próprias fantasias sobre o mundo que temos que viver e lidar inevitavelmente. Através da psicanálise, o autor busca entender a instituição da crença na nossa vida, discutindo a questão levantada por Jacques Lacan como a “verdadeira fórmula do ateísmo”, em que se entende que tal fórmula não seria de que Deus está morto, mas que na verdade Deus é inconsciente."

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Abaixo, segue o prefácio do livro, por Rafael Arrais:

Sócrates foi acusado de ateísmo, e condenado à morte pela ingestão de veneno.

Jesus de Nazaré foi acusado de ateísmo, e condenado à morte pela crucificação.

Benedito Espinosa foi acusado de ateísmo, e excomungado do judaísmo por sua comunidade.

Já Albert Einstein, a despeito de ser um grande simpatizante do deus da filosofia de Espinosa, certamente foi acusado de ateísmo por tantos outros. Para a sorte do cientista alemão, no entanto, em sua época o ateísmo já não era mais um crime passível de excomunhão de comunidades, ou de penas de morte.

Em sua origem na Grécia antiga, pouco antes dos tempos socráticos, o termo atheos significava “sem Deus”, ou “aquele que cortou seus laços com os deuses”. Ele era aplicado a todos aqueles que abandonavam, ou tentavam deturpar, as crenças oficiais de suas respectivas comunidades.

Hoje em dia, no entanto, há muitos autoproclamados ateus que efetivamente não creem em seres sobrenaturais de qualquer espécie. Eles costumam dizer que a sua única diferença para com os crentes é o fato de eles “crerem num deus a menos”. Mas, será mesmo?

O que este livro vem nos mostrar, através da sua análise didática do pensamento de Sigmund Freud, Jacques Lacan, Slavoj Žižek e alguns outros pensadores da psicologia humana, é que os antigos estavam certos: de fato, é mesmo impossível sermos “totalmente ateus”, pois é impossível sermos “100% céticos” – acreditamos num deus a menos, está bem, mas quem disse que isso nos faz descrentes de todos os deuses?

Afinal, se não cremos em Javé, Allah, Krishna, ou nem mesmo no deus de Espinosa, isso não significa que sejamos ateus para o deus do consumo, o deus do comunismo, ou o deus do liberalismo. Se todos os deuses são ficções, coisas que se passam na mente humana, e não na realidade objetiva, então a Declaração dos Direitos Humanos, o Manifesto Comunista e a Bíblia Sagrada estão todos no mesmo barco, e ele se chama linguagem.

Dessa forma, talvez o melhor caminho para compreendermos a inefável natureza da Natureza seja voltar nosso olhar para aquele deus que é capaz de contemplar, elaborar e interpretar o que há no tempo e no espaço: nós mesmos.

Pois, seja sobrenatural ou não, fato é que ele reside num mar profundo e pouco navegado. Este livro, como tantos outros, não lhe servirá de muito auxílio se você mesmo não se resolver a arriscar um mergulho dentro de si.

Na filosofia, a única certeza que temos é de que existe algo, e não nada. Ironicamente, o que muitos místicos navegantes descobriram a duras penas é que, no fim das contas, não necessitamos realmente de nenhuma outra.


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10.2.15

É a minha metafísica, é a minha física

Trechos de Michel de Montaigne em Os Ensaios (Livro III, cap. XIII) (Cia. Das Letras/Penguin). Tradução de Rosa Freire D’Aguiar. Os comentários ao final são meus.

Seja qual for o fruto que podemos tirar da experiência, o que tiramos dos exemplos estrangeiros mal servirá para nossas instituições se não tirarmos proveito da experiência que temos de nós mesmos, que nos é mais familiar: e decerto suficiente para nos instruir no que precisamos. Estudo a mim mesmo mais que a outro assunto. É a minha metafísica, é a minha física.

Por qual arte Deus governa a nossa morada, o mundo;
de onde vem a lua quando se levanta, onde ela desaparece;
e de onde, reunindo todo mês seus crescentes, torna a ser cheia;
de onde vêm os ventos que comandam o mar com o que o Eurus leva com seu sopro;
e de onde vem que, sem cessar, a água retorna às nuvens?
quando vier o dia que derrubar as alturas do mundo, procurai, vós que vos atormentais com os labores do mundo.
(Propécio, e Lucano no último verso)

Nesse universo, deixo-me manejar com ignorância e negligência pela lei geral do mundo. Hei de conhecê-la o suficiente quando a sentir. Minha ciência não pode fazê-la mudar de caminho.

[...] Os filósofos, com muita razão, remetem-nos às regras da natureza: mas elas pouco se importam com tão sublime conhecimento. Eles as falsificam e apresentam-nos da natureza um rosto pintado, colorido demais e sofisticado demais: donde nascem retratos tão diversos de um objeto tão uniforme.

Assim como a natureza nos forneceu pés para andar, assim tem sabedoria para guiar-nos na vida. Sabedoria não tão engenhosa, robusta e pomposa como a que os filósofos inventam: mas afável, fácil, sossegada e salutar. E a quem tem a felicidade de saber empregá-la simples e ordenadamente, isto é, naturalmente, ela faz muito bem o que outra diz que faz. Entregar-se o mais simplesmente à natureza é entregar-se o mais sabiamente.

Oh! como a ignorância e a desocupação são um suave, macio e saudável travesseiro para repousar uma cabeça bem formada. Eu preferiria compreender bem a mim mesmo a compreender a Cícero [filósofo romano]. Se eu fosse um bom aluno, na experiência que tenho de mim encontraria o suficiente para me tornar sábio.

Quem conserva na memória o excesso de sua cólera passada, e até onde essa febre o arrasou, vê a feiura dessa paixão melhor que em Aristóteles e nutre por ela um ódio mais justo. Quem se lembra dos males que sofreu, dos que o ameaçaram, das ocasiões irrelevantes que o fizeram passar de um estado a outro, prepara-se com isso para as mutações futuras e para o reconhecimento da sua condição.

A vida de César não é mais exemplo para nós do que a nossa. Tanto de um imperador como de um homem do povo, é sempre uma vida, à qual todos os acontecimentos humanos dizem respeito. Nós nos dizemos tudo de que mais precisamos: basta escutarmos.

Quem se lembra de ter se enganado tantas e tantas vezes sobre seu próprio julgamento não é um tolo se não adotar para sempre a desconfiança? Quando vejo que me convenci, pela razão de outro, de uma ideia falsa, o que aprendo não é tanto o que ela me disse de novo, nem é de grande proveito a minha ignorância especial, mas em geral aprendo a minha debilidade e a traição de meu entendimento, e com isso posso melhorar todo o conjunto.

Com todos os meus outros erros faço o mesmo: e sinto nessa regra grande utilidade para a vida. Não olho para a espécie de erro nem para o erro individual como uma pedra em que tropecei. Aprendo a temer meu comportamento em qualquer lugar e trato de melhorá-lo. Saber que dissemos ou fizemos uma tolice é apenas isso; precisamos aprender que não passamos de um tolo, ensinamento bem mais amplo e importante.

[...] Se cada um de nós observasse de perto os efeitos e circunstâncias das paixões que o animam, como fiz com a que me coube como quinhão, ele as veria chegarem e lhes retardaria um pouco a impetuosidade e a corrida. Nem sempre elas nos saltam ao pescoço na primeira investida, há ameaças e graus.

O julgamento ocupa em mim uma cátedra magistral, pelo menos se esforça cuidadosamente para isso. Deixa meus sentimentos seguirem seu curso: tanto o ódio como a amizade, e até a que sinto por mim mesmo, sem se alterar nem se corromper. Se não consegue melhorar a seu jeito as outras partes, ao menos não se deixa deformar por elas: faz seu jogo à parte.

O preceito para que cada um conheça a si mesmo deve ser de grande importância, posto que aquele deus da ciência e da luz mandou colocá-lo no frontispício de seu tempo [Templo de Apolo, em Delfos], como que contendo tudo o que tinha para nos aconselhar. Platão diz também que a sabedoria não é outra coisa senão a execução dessa ordem: e Sócrates a verifica detalhadamente em Xenofonte.

Só os que tiveram acesso a cada ciência percebem suas dificuldades e sua obscuridade. Pois ainda é preciso certo grau de inteligência para poder observar o que ignoramos, e é preciso empurrar uma porta para saber que ela nos está fechada.

[...] Assim, nessa ciência de conhecer a si mesmo o fato de cada um se ver tão seguro de si e satisfeito, de cada um pensar ser entendido o suficiente no assunto significa que ninguém entende nada disso, como Sócrates ensina a Eutidemo. Eu, que não professo outra coisa, nisso encontro uma profundidade e uma variedade tão infinitas que meu aprendizado não tem outro fruto além de me fazer sentir tudo quanto me resta a aprender.

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Comentário
Herdeiro da fortuna do avô, um rico comerciante de peixes da região de Bordeaux (na França), Michel se recolhe à vida privada com cerca de 38 anos, o que naquela época já era considerado uma idade relativamente avançada. Nos pouco mais de 20 anos que o separavam da morte, Michel dedicou-se inteiramente a contemplação do mundo e do tempo na vizinhança do seu castelo em Montaigne, tendo produzido as cerca de mil páginas dos seus Ensaios, que inauguraram um novo formato literário.
Conforme discorreu sobre quase tudo, sem ser um especialista em nada, Michel é quase um Sócrates renascido que, na falta de um séquito de jovens questionadores, optou por se recolher a uma vida literária. Não que houvesse se tornado um ermitão, pelo contrário: foi exatamente da sua própria vida e das suas próprias amizades e experiências que retirou a matéria prima dos seus Ensaios.
De certa forma, Michel também foi o primeiro blogueiro da história. E, na medida em que procurou escrever antes para si mesmo, sem jamais imaginar a fama que seus escritos alcançariam, particularmente séculos após sua vida, Michel também nos dá uma lição profunda acerca dos reais motivos pelos quais os verdadeiros filósofos tingem as suas folhas em branco, ou os campos vazios das postagens dos seus blogs... Buscar compreender a si mesmo é a melhor forma, afinal, de compreender o pouco que seja deste mundo tão, tão vasto.

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Crédito da imagem: Google Image Search (Montaigne)

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6.11.14

Lançamento: Conhecendo a Psicanálise

As Edições Textos para Reflexão publicam novamente um livro de Igor Teo, colunista do portal Teoria da Conspiração e autor do blog Artigo 19:

"Conhecendo a Psicanálise é um livro introdutório que visa proporcionar ao leitor um entendimento dos fundamentos da psicanálise. Ao longo da obra são discutidos temas como inconsciente, sintoma, psicoterapia, interpretação, complexo de Édipo, dentre outros, através de uma visão que busca unir os aspectos psicodinâmicos do sujeito com as características sociais que marcam nosso tempo. Numa linguagem acessível, são transmitidas ideias de autores como Freud e Lacan, principais expoentes deste campo."

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Abaixo, segue o prefácio do livro, pelo próprio autor...

A modernidade é marcada pela massiva racionalização da relação do homem com a natureza e a vida. A ciência moderna cada vez mais calcula, mede, quantificada, experimenta. Este modelo de racionalidade tem um caráter totalitário, uma vez que não admite que outros modos de produção de conhecimento – não orientados pelos mesmos princípios epistemológicos e metodológicos – sejam considerados racionais. Assim, o modo de produção de conhecimento que marca a modernidade pretende-se hegemônico. O valor e a consequente validade da ciência moderna estão na possibilidade que ela oferece de manipulação, controle, e dominação da natureza e da vida através do conhecimento das leis que regem os fenômenos.

A segunda metade do século XX foi marcada pelo desenvolvimento de novas e de antigas ciências, muitas das quais influenciaram a história da psicologia. A invenção do computador, um dispositivo técnico capaz de memorizar, calcular e resolver problemas trouxe a tona o questionamento sobre o que fundamenta a inteligência humana e o que a diferencia do animal.
O computador foi considerado um sistema equivalente à mente humana, pois pode desenvolver as mesmas operações e chegar aos mesmos resultados.
O computador, no entanto, é uma mente sem reflexão. Ele processa informações,
mas é incapaz de pensar sobre o que faz.

A psicanálise (e este livro) vai tratar do humano, que justamente é diferente do maquínico. Um ser humano que, a partir de sua subjetividade, produz um sentido para sua experiência, sendo capaz de refletir e criar modelos alternativos a simples repetição de padrões instituídos. Esta é uma perspectiva que vai à contramão da modernidade e todo seu império técnico-utilitarista. Não são poucas as dificuldades que encontramos numa prática psicológica que vise à singularidade e os diversos modos de existência do sujeito, dificuldades estas associadas, sobretudo, a interesses capitalistas ligados à produtividade e consumo (afinal, precisa-se apenas de indivíduos sadios para trabalhar e adaptados à sociedade para consumir).

Neste sentido, espero que esta obra seja uma fonte de reflexão e questionamentos ao leitor. Mas que vá além de uma racionalidade prática, envolvendo afetos e, digamos, um espírito revolucionário, pois este nos coloca num perpétuo questionamento acerca de nossas ideias, sempre ponderando sobre nosso conhecimento. É a subjetividade humana na produção de conhecimento em oposição à falsa objetividade.


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15.8.14

Lançamento: A vontade de crer

As Edições Textos para Reflexão tem o orgulho de lhes trazer A vontade de crer, um dos livros mais conhecidos de William James, traduzido do original em inglês pela nova integrante de nossa equipe, Kamila Pereira (Hipátia).

William James, um dos fundadores da psicologia moderna, foi um daqueles raros homens que soube transitar com igual destreza entre a Academia e o Templo, entre a racionalidade e a espiritualidade, entre o empirismo e a subjetividade. James estava, de fato, em casa no universo. Mas o seu universo não se resumia ao que residia lá fora. Ele sabia, pois também contemplou tal caminho, que haviam espaços infinitos, ou quase infinitos, também dentro de nós. 

Um livro digital já disponível para o Amazon Kindle:

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Abaixo, o Prefácio da nossa edição, escrito por Kamila:

William James (1842-1910) nasceu em Nova York, em uma família rica e influente. Os membros de sua família foram conhecidos pelo interesse intelectual em história, biografias e críticas; inclusive seu pai, Henry James Sr., foi um teólogo do cristianismo de Swedenborg. Esse contexto intelectual gerou frutos em James e seus irmãos: seu irmão, Henry James, tornou-se um importante romancista, enquanto sua irmã, Alice James, ficou famosa como cronista.

William James se aproveitou da educação cosmopolita que recebeu e se formou em Medicina, mas nunca a exerceu. Porém, seu interesse e estudos em filosofia e psicologia o levaram a se tornar professor de Harvard. Nesse posto, tornou-se o primeiro professor a ministrar um curso de psicologia nos Estados Unidos, como também foi considerado um influente pensador do século XIX, notável por seus trabalhos com a filosofia do pragmatismo. Entre seus mais notáveis livros, encontram-se The Principles of Psychology e Essays in Radical Empiricism. Além disso, James também se interessou pela filosofia da religião. Como importante obras escritas pelo autor nessa área existem The Varieties of Religious Experience e The Will To Believe. Esta última obra está aqui apresentada com uma nova tradução e novos comentários, sendo intitulada como A Vontade de Crer.

A Vontade de Crer é uma palestra realizada por William James e, posteriormente, publicada como livro. Nessa argumentação, o autor discute criticamente o pensamento científico e a adoção da fé. James inicia a obra apresentando a definição de hipótese e opção e segue argumentando como as nossas escolhas, mesmo aquelas feitas por cientistas, não são apenas pautadas na razão e em nossa vontade, mas também podem ser influenciadas por medos, esperanças, preconceitos e paixões. O autor continua seu discurso argumentando que a crença em alcançar certos resultados, por parte dos cientistas, é uma das principais alavancas da ciência, levando-a a alcançar muito de seus avanços. Entretanto, a ciência também está preocupada em evitar erros ao longo de seu percurso na busca da verdade. Para o autor, esse medo pode gerar um afastamento e/ou indiferença em relação a algumas questões, gerando uma dessincronização de ideias: por um lado, cientistas procuram ser cautelosos com o estudo de algumas áreas, por outro lado, eles se utilizam da crença em obter certas verdades como estímulo para alcançar respostas.

Enfim, esta obra apresenta uma bela crítica ao modo imparcial que muitos de nós agimos. Se lido com uma disposição em acompanhar à discussão de William James e em refletir profundamente quanto às suas conclusões, este livro pode gerar no leitor reflexões quanto às nossas crenças e modos de pensar e agir, assim como trazer novos paradigmas à nossa vida. Portanto, sugiro que iniciam essa leitura com a mente aberta à novas possiblidades e aproveitem as futuras reflexões geradas pela obra.

Kamila J. Pereira


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13.8.14

Conectados, parte 5

« continuando da parte 4

Avatar, no mundo online, é uma figura digital, um alter ego de uma pessoa real, que pode ser representado em duas ou três dimensões, e ter praticamente qualquer forma permitida pela plataforma onde foi criado – ao limite da imaginação de cada um.


Sem pausas

Como vimos, o ser humano tem sido muito hábil em fazer uso de todo o tipo de tecnologia disponível para aprimorar sua forma de comunicação com os demais. Quando tudo o que tínhamos eram sinais de fumaça, ainda assim eles foram preciosos para que tribos se comunicassem a quilômetros de distância umas das outras. Após a invenção da escrita, passamos a deixar mensagens e discursos para a posteridade, de modo que até hoje podemos nos comunicar, de alguma forma, com a Atenas de Sócrates, assim como com a vida de tantos outros pensadores e escritores da antiguidade.

Mas foi somente com o advento da telefonia móvel e, particularmente, da Web, que tivemos acesso a uma outra magnitude em nossas comunicações. A interação online foi um dos grandes trunfos da internet desde a sua criação, e o que antes era usado para troca de informações entre militares e pesquisadores acadêmicos, acabou por se tornar uma imensa rede que hoje conecta, direta ou indiretamente, a maior parte da humanidade.

Porém, como vínhamos dizendo, a avassaladora quantidade de informação disponível no mundo online requer que nos tornemos, cada vez mais, exímios pescadores, com o bom senso e a sabedoria para podermos filtrar as informações relevantes das irrelevantes. E, se isto vale para as notícias, as revistas, os livros e os filmes em geral, da mesma forma, vale também para a nossa vida social na rede.

Zygmunt Bauman é um célebre sociólogo polonês que vive e leciona há décadas na Inglaterra. Perto dos seus 90 anos, ele não parece, a primeira vista, o tipo de pensador que teria muito a dizer sobre o Facebook... No entanto, as aparências enganam:

“Um entusiasta do Facebook gabou-se para mim de que havia feito 500 amigos em um dia. Minha resposta foi que eu vivi por quase 90 anos, mas não tenho 500 amigos. Eu não consegui isso. Então, provavelmente, quando ele diz “amigo”, e eu digo “amigo”, não queremos dizer a mesma coisa. São coisas diferentes.

Quando eu era jovem, eu nunca tive o conceito de “redes”. Eu tinha o conceito de laços humanos, de comunidades, esse tipo de coisa, mas não redes. Qual é a diferença entre comunidade e rede? A comunidade precede você. Você nasce numa comunidade. Por outro lado, temos a rede. O que é uma rede? Ao contrário da comunidade, a rede é feita e mantida viva por duas atividades diferentes. Uma é conectar e a outra é desconectar.

E eu acho que a atratividade do novo tipo de amizade, o tipo de amizade do Facebook, como eu a chamo, está exatamente aí. Que é tão fácil de desconectar. É fácil conectar, fazer amigos. Mas o maior atrativo é a facilidade de se desconectar. Imagine que o que você tem não são amigos online, conexões online, compartilhamento online, mas conexões off-line, conexões de verdade, face a face, corpo a corpo, olho no olho.

Então, romper relações é sempre um evento muito traumático. Você tem que encontrar desculpas, você tem que explicar, você tem que mentir com frequência e, mesmo assim, você não se sente seguro porque seu parceiro diz que você não tem direitos, que você é um porco, etc. É difícil, mas na internet é tão fácil, você só pressiona delete e pronto.

Em vez de 500 amigos, você terá 499, mas isso será apenas temporário, porque amanhã você terá outros 500... E isso mina os laços humanos.” [1]

A maior armadilha em que podemos cair na era digital é crer que o mundo virtual é aquele construído somente pelos pixels e os dados dos computadores em rede. Não, o mundo virtual é e sempre foi aquele que roda bem em nossa cabeça. O mundo é aquilo que imaginamos dele, e neste caso não importa tanto quantas interfaces, cenários virtuais e avatares digitais há na Web, pois que no fundo estamos conectados não somente a internet, mas a todo o mundo, a toda a Vida.

Querer viver somente no mundo online é tão somente abdicar de um mundo virtual complexo para um mundo virtual com a promessa de maior simplicidade. No entanto, isto é um tanto quanto ilusório, e no fim das contas a grande verdade é que há somente um único mundo – o mundo que você interpreta dentro de si mesmo.

Para além da superficialidade das amizades que se limitam ao mundo digital, e que nunca são transpostas para a complexidade do dito “mundo real”, uma das grandes iscas para aqueles que anseiam por “vidas mais simples” são os games.

Em um livro de título sugestivo, Como viver na era digital [2], Tom Chatfield aborda melhor o assunto:

“Tanto num game simples como Angry Birds, como num mundo virtual imersivo como World of Warcraft, temos exemplos de problemas tame (domesticado). Analisados pela primeira vez em 1973, pelos sociólogos Horst Rittel e Melvin Webber, os problemas tame incluem jogos como o xadrez e a maior parte dos problemas de matemática. São problemas nos quais a pessoa que está tentando resolvê-los tem todos os dados necessários à disposição e sabe desde o início que existe uma solução final ou alternativa vencedora.

Isto é o oposto dos problemas wicked (terríveis), que são problemas nos quais não existe uma maneira de expressar de forma clara a questão que está em jogo, nem algo como uma solução única ou definitiva. Cada problemas wicked é uma combinação única de circunstâncias, elas mesmas entrelaçadas a outros conjuntos de problemas, como por exemplo, a saúde financeira de uma grande empresa ou de um país, ou alguém tentando decidir qual a melhor maneira de administrar sua vida pessoal.

Deste ponto de vista, a vida em si é um problema wicked. Numa das piadas mais geniais da ficção científica, o escritor inglês Douglas Adams imaginou, em seu livro O guia do mochileiro das galáxias, um supercomputador capaz de responder à “Questão Fundamental da Vida, o Universo e Tudo o Mais”: um simples número, 42.

A piada reside na incoerência absurda entre o tipo de problema que pode ser respondido por um simples número e o tipo bem diferente de “problema” que a vida representa. A própria ideia de que a vida possui uma solução, da mesma forma que um jogo de xadrez, ou uma fase de Angry Birds, ou uma quest ou uma raid de World of Warcraft, é um divertido absurdo.”

De fato, mundo virtuais imersivos como o caso de World of Warcraft, onde milhões de jogadores interagem e se aventuram juntos há quase uma década, podem ser tão sedutores que a falta de um componente vital, o botão de pausa [3], pode ser letal... Em 2007, um chinês deitou sua cabeça no teclado de seu computador e morreu, após haver jogado Warcraft por três dias seguidos, sem dormir e, provavelmente, sem comer ou se hidratar adequadamente. E este não foi nem o primeiro nem o último caso de “jogar até a morte” [4]...

Talvez sejam necessários tais exemplos extremos para que nos demos conta de que, embora em muitos games online não exista um botão de pausa, há sempre a possibilidade de simplesmente largar o teclado ou o controle e, quem sabe, simplesmente ir até aquele café perto de casa, para tomar um expresso, ver pessoas em movimento, ouvir passarinhos cantando e contemplar o baile das nuvens.

Pode não haver, afinal, um botão de pausa para a vida. Mas, por outro lado, somos nós, e somente nós, os grandes responsáveis por determinar com que velocidade, com que qualidade, com que nível de angústia, ela é vivida. De nada adianta se esconder dos problemas complexos da vida, mesmo que sejamos os melhores estilingadores de pássaros do nosso grupo de amigos virtuais, e ainda que todo um servidor de World of Warcraft nos idolatre como “o grande mestre da arena”, isto por si só jamais irá afastar os problemas terríveis da existência; eles ainda o encontrarão, pois estão, essencialmente, dentro de você mesmo...

Devemos aprender a olhar para dentro, e conhecer a grande imensidão de nosso mundo virtual interior; e então, quem sabe, encarar a toda a complexidade da vida de frente, face a face, como grandes aventureiros de nós mesmos. E com isto não quero dizer que exista a esperança de transformar os problemas wicked em tame – pelo contrário, o que devemos é compreender e aceitar o quão terrivelmente vasta, complexa, profunda e interconectada pode ser a Vida, sem pausas!

» Em seguida, a grande rede de pensamentos libertos...

***

[1] Transcrito de uma entrevista concedida em sua casa para o programa Café Filosófico (TV Cultura).

[2] Parte do projeto The School of Life de Alain de Botton. Lançado no Brasil pela Editora Objetiva. A transcrição do texto do livro foi ligeiramente adaptada para facilitar a compreensão do trecho em questão.

[3] Games online não podem ser pausados, já que em sua simulação há inúmeros jogadores simultâneos. Seria o mesmo que pausarmos uma sessão de cinema para dar um pulo no banheiro –os demais cinéfilos da sessão certamente não ficariam muito satisfeitos.

[4] Ver, por exemplo, Jovem morre após jogar Diablo 3 durante 40 horas seguidas.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Zygmunt Buman); [ao longo] Divulgação/Rovio (Angry Birds)

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29.7.14

Em casa no universo

O melhor que podemos fazer de nossa vida é empregá-la em alguma coisa mais duradoura que a própria vida.


A primeira vez em que ouvi falar do autor desta frase, William James, foi num livro póstumo de Carl Sagan, famoso astrofísico e divulgador de ciência do século XX. Ao organizar o livro com a transcrição de algumas palestras do marido já falecido, Ann Druyan o intitulou Variedades da experiência científica; segundo ela, como forma de homenagem a obra prima de James, Variedades da experiência religiosa.

Sagan admirava a definição de religião de James, “um sentimento de estar em casa no universo”, e a citou na conclusão de um de seus livros mais conhecidos, Pálido ponto azul. Mas as conexões entre Sagan e James não param por aí, ambos foram seres plenos de espiritualidade, e grandes investigadores do Cosmos. Talvez a diferença primordial entre o cientista e o psicólogo seja a de que o primeiro olhou, sobretudo, para as estrelas mais distantes, enquanto que o último tratou de desbravar os astros internos da mente e da alma humanas. Há espiritualidade suficiente em ambos os casos.

Apesar de ser considerado “um dos pais da psicologia moderna”, James costumava se sentir mais a vontade referindo-se a si mesmo como um filósofo. Embora a Academia se esforce para esquecer, foi também um grande estudioso da parapsicologia (de fato, pode-se dizer que foi um de seus fundadores) e, particularmente, do misticismo.

O seu Variedades da experiência religiosa é um estudo denso e profundo da mente e da alma de diversos místicos que passaram pelo seu olhar cuidadoso. Apesar de se encontrar muito longe dos costumeiros extremismos religiosos, focava suas pesquisas exatamente naqueles que passaram pelas experiências mais “radicais” no campo religioso, citando casos como os de São João da Cruz e Santa Teresa D’Ávila.

Mas, embora tratando dos astros internos, o seu método de estudo se aproximava tanto de um método científico, e suas análises eram tão profusas em racionalidade e lógica, que não é mesmo surpresa que Sagan tenha sido um de seus entusiastas, assim como alguns dos grandes intelectuais do século XX, entre eles Émile Durkheim, Edmund Husserl, Bertrand Russell e Ludwig Wittgenstein.

Já em sua época, na transição dos séculos XIX e XX, James se esforçava para combater o materialismo científico, não num sentido de menosprezar a ciência e o empirismo, mas antes num sentido de reconhecer que a experiência mística e religiosa é de fato algo real e profundamente impactante na vida dos seres, particularmente daqueles que realmente praticam a religião. Também em sua época, James já esboçava as bases do conceito de inconsciente, que ainda seriam aprofundadas por grandes sucessores, como Sigmund Freud e Carl Gustav Jung.

Em A Vontade de Crer, também a transcrição de uma de seus conferências, dirigida aos grêmios filosóficos de duas universidades americanas (Yale e Brown), James foca exclusivamente na defesa da importância da fé religiosa, e da crença em geral, como ferramentas vitais da mente para galgar grandes conquistas. De certa forma, se nunca ninguém houvesse acreditado em nada sem antes obter comprovação empírica, e se diante de grandes desafios todos os homens e mulheres se resignassem ante as perspectivas de fracasso, talvez nem houvesse uma civilização de pé.

É óbvio que a capacidade de crer, e mais profundamente, a vontade de crer, desempenham papéis vitais em nossas vidas, ainda que muitos não queiram admitir. Nem sempre, é claro, todas as crenças serão racionais. E quase sempre, igualmente, encontraremos aqueles que exploram as crenças alheias. Mas nada disto impede que existam seres que conseguem se observar, se compreender, e viajar dentro de si, e encontrar tesouros e mistérios grandiosos, imateriais, e além de qualquer descrição que possa ser dada somente por palavras.

James foi, afinal, um daqueles raros homens que soube transitar com igual destreza entre a Academia e o Templo, entre a racionalidade e a espiritualidade, entre o empirismo e a subjetividade. James estava, de fato, em casa no universo. Mas o seu universo não se resumia ao que residia lá fora. Ele sabia, pois também contemplou tal caminho, que haviam espaços infinitos, ou quase infinitos, também dentro de nós.

***

Texto escrito para o Epílogo de A Vontade de Crer, de William James, o próximo lançamento das Edições Textos para Reflexão. Este muito especial, por se tratar da primeira tradução da mais nova integrante de nossa equipe: Hipátia (pseudônimo de Kamila Janaina Pereira), também colaboradora do blog Queremos Querer.

Crédito da imagem: Google Image Search (William James)

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29.5.14

Projeto William James

Há mais um projeto atualmente em andamento nas Edições Textos para Reflexão. Este muito especial, por se tratar da primeira tradução da mais nova integrante de nossa equipe: Hipátia (pseudônimo de Kamila Janaina Pereira), também colaboradora do blog Queremos Querer.

O livro em questão é The Will to Believe (A Vontade de Crer), de William Janes, e trata de uma discussão quanto às filosofias e crenças presentes no mundo acadêmico e científico. Como Kamila trabalha na área de psicologia, pensamos que seria uma boa ideia ela estrear por aqui traduzindo um dos fundadores da psicologia moderna.

Abaixo, segue um trecho da sua tradução (lembramos que os direitos da tradução pertencem inteiramente a tradutora, estaremos somente a editando e publicando)...

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Vamos dar o nome de hipótese a qualquer coisa que seja proposta a nossa crença; e, assim como os eletricistas tratam de fios vivos e mortos, vamos tratar qualquer hipótese como viva ou morta. Uma hipótese viva é aquela que se mostra como uma possibilidade real àquele a quem ela é proposta. Se eu lhes pedir para acreditar em Mahdi [1], essa ideia não faz qualquer conexão elétrica com sua natureza – ela se recusa a cintilar com qualquer credibilidade. Como uma hipótese, está completamente morta. Para um árabe, todavia (mesmo que ele não seja um dos seguidores de Mahdi), a hipótese está entre as possibilidades da mente: ela está viva. Isto mostra que a morte e a vida em uma hipótese não são propriedades intrínsecas, mas se relacionam ao pensador individual. Elas são medidas pela disposição do indivíduo em agir.

O máximo de vivacidade em uma hipótese significa disposição em agir de forma irrevogável. Na prática, isto significa fé; mas há alguma tendência em crer em qualquer lugar que haja disposição em agir.

Em seguida, vamos nomear qualquer decisão entre duas hipóteses como opção. Opções podem ser de vários tipos. Elas podem ser: 1) vivas ou mortas; 2) forçadas ou evitáveis; 3) momentosas ou triviais; e, para nossos propósitos, podemos chamar uma opção como genuína, quando ela for do tipo forçado, viva e momentosa.

1. Uma opção viva é aquela em que ambas as hipóteses estão vivas. Se eu lhes digo: “Sejam teosofistas ou sejam muçulmanos”, essa é provavelmente uma opção morta, porque para vocês nenhuma das hipóteses tem probabilidade de estar viva. Mas se eu digo: “Sejam agnósticos ou sejam cristãos”, acontece o contrário: dada a sua formação, cada hipótese tem seu apelo, ainda que pequeno, à sua crença.

2. Em seguida, se eu lhes digo: “Escolham entre sair com ou sem guarda-chuva”, eu não lhes ofereço uma opção genuína, pois não é forçada. Vocês podem facilmente evitá-la ao não sair. Da mesma forma, se eu disser “Amem-me ou me odeiem”, “Chamem minha teoria de verdadeira ou a chamem de falsa”, sua opção é evitável. Vocês podem permanecer indiferentes a mim, nem me amando nem me odiando, e vocês podem se recusar a fazer qualquer julgamento a respeito da minha teoria. Porém, se eu digo “Aceitem esta verdade ou a deixem para trás”, eu lhes dei uma opção forçada, pois não existe escolha além das alternativas. Todo dilema baseado em uma disjunção lógica completa, sem a possibilidade de não se escolher, é uma opção do tipo forçado.

3. Finalmente, se eu fosse o Dr. Nansen e lhes propusesse se juntar a minha expedição ao Polo Norte, sua opção seria momentosa; pois esta seria provavelmente sua única oportunidade semelhante e sua escolha presente iria excluí-lo totalmente do grupo imortal do Polo Norte ou dar-lhes-ia alguma chance disso ocorrer. Aquele que se recusa a aceitar uma oportunidade única perde o prêmio tão certamente como se ele tivesse tentado e falhado. Ao contrário, a opção é trivial quando a oportunidade não é única, quando a aposta é insignificante ou quando a decisão é reversível se ela se mostrar imprudente posteriormente. Tais opções triviais abundam na vida científica. Um químico considera uma hipótese viva o suficiente para gastar um ano em sua comprovação: ele acredita nela a esse ponto. Mas se seus experimentos se mostrarem inconclusivos de qualquer maneira, ele está redimido de sua perda de tempo, sem qualquer dano vital.

Facilitará a nossa discussão se mantivermos todas as distinções em mente.

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[1] Nota da tradutora: Mahdi, de acordo com as versões xiitas e sunitas da escatologia islâmica, é o redentor profetizado do Islã, que chegará a Terra alguns anos antes da chegada do juízo final, o Yawm al-Qiyamah (“Dia da Ressurreição”). Os muçulmanos acreditam que o Mahdi, juntamente com Jesus, livrará o mundo do erro, da injustiça e da tirania.


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