Texto de Rose-Marie e Rainer Hagen em "Egipto: Pessoas – Deuses – Faraós” (Ed. Taschen [Portugal]), tradução de Maria da Graça Crespo – Trechos das pgs. 218 a 221. Os comentários ao final são meus.
O incêndio da biblioteca de Alexandria teria destruído 700.000 documentos referentes à civilização faraônica; aí se encontrava, entre outros, o único exemplar completo da lista dos reis, redigido pelo sacerdote Manétho. Considera-se que esta catástrofe pôs termo ao legado do Antigo Egito, ainda que dela se ignore a data precisa. Em 48 a.C., quando César mandou incendiar os seus arsenais, ter-se-ia propagado o fogo ao célebre templo-biblioteca? Teria sido em 391, quando o imperador romano Teodósis I, querendo impor o cristianismo como religião oficial, mandou saquear os templos pagãos? Segundo uma terceira visão, os manuscritos – ou o que deles restava – foram queimados por ordem do califa Omar.
Talvez que a biblioteca tenha sido por três vezes presa das chamas. Os manuscritos são material tão combustível que não é difícil admiti-lo. Mas nada proíbe considerar também que este incêndio tenha sido mais fictício que real [1]. As gerações seguintes se recusaram a aceitar o fim de uma grande e misteriosa tradição que [...] havia se arrastado através dos séculos.
Com efeito, as ideias religiosas dos Antigos Egípcios estavam em vias de desaparecer, e a expansão agressiva do cristianismo, e depois do Islã, aceleraram este processo. No Antigo Egito, a vida espiritual estava ligada ao templo. Assim que o clero deixou de ser legitimado ou mantido pelos soberanos locais ou pela população, a base material desapareceu.
Os sacerdotes desapareceram e o conhecimento dos hieróglifos e de outras escritas egípcias extinguiram-se com eles [2]. Foi o declínio da religião, e não as chamas, a causa do termo deste universo.
Uma herança misteriosa
Na Itália, particularmente em Roma, o culto de Ísis, originário do Egito, popularizou-se durante muito tempo, e os monumentos egípcios continuaram a fascinar os viajantes. [...] O imperador Augusto, no ano de 10 a.C., mandou que pela primeira vez se transportasse um obelisco para Roma, que hoje se encontra na Piazza de Popolo. Ergue-se em frente a São Pedro, e a cruz que lhe ornamenta o cimo assinala, de longe, que o cristianismo domina todas as outras religiões, ainda que podendo considerar-se outra interpretação, visto que os ensinamentos cristãos se apoiam na sabedoria egípcia: numerosas imagens e histórias bíblicas são provenientes do Nilo [3].
Os Egípcios pensavam que Deus tinha formado o homem com barro, concepção esta que se encontra no Antigo Testamento. O inferno cristão lembra o submundo egípcio, com os perigos e os castigos que espreitam os defuntos, e os faraós subiram ao céu anteriormente a Cristo [4]. O príncipe da Ressurreição era bem conhecido dos Egípcios, graças ao exemplo de Osíris despedaçado, cujos bocados foram reunidos por Isís, a grande Mãe, tal como Maria, venerada pelos católicos. As similaridades na concepção de Deus são notáveis: o Cristo, cordeiro pascal; a pomba do Espírito Santo correspondente à tradição egípcia, segundo o que os deuses se oferecem sob a forma animal. Quanto à Santíssima Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo – toda ela é simples e tipicamente egípcia – as divindades manifestam-se sob diferentes formas, são conteúdo de uma e de outra e reagrupam-se preferencialmente em tríades [5].
Os Egípcios já contavam histórias que nos parecem inseparáveis da Natividade bíblica, como por exemplo a deusa Ísis, que prestes a ser mãe, procura um albergue, e, rejeitada por várias grandes damas, deu à luz ao seu filho no pobre abrigo de uma filha de lameiros. Ou como a de Quéops, que, como Herodes, quis mandar matar três dos seus filhos porque uma predição anunciou que eles se disputariam. No que diz respeito aos símbolos visuais, a cruz copta, a dos cristãos egípcios, é descendente direta da cruz alada, a chave da vida dos Egípcios [6].
Seria possível prosseguir indefinidamente por esta via. Estes exemplos não questionam a essência dos ensinamentos cristãos, mas abalam a concepção da Igreja, segundo a qual os textos bíblicos teriam sido, por assim dizer, ditados por Deus. Os historiadores da região sabem desde há muito que nesses textos se encontra algo do legado egípcio, e sem que os crentes tenham consciência disso, as ideias herdadas da civilização faraônica mantêm-se vivas.
A Terra negra
Os Egípcios também inventaram o calendário, dividindo o dia em 24 horas e o ano em 365 dias. Resolveram alguns problemas matemáticos e redigiram listas de doenças com as respectivas terapias. Os seus conhecimentos foram transmitidos e evoluíram por intermédio dos Gregos e dos Romanos. Mas o seu ideal de equidade e retidão, exemplar no plano da vida social, é pelo menos igualmente importante. Maât simboliza a justiça à qual todos os homens estão sujeitos – particularmente os reis – e ensina que a justiça deve ser exercida independentemente do poder. Na Europa, a deusa continua a existir sob os traços da Justiça. Nas democracias ocidentais a justiça é devida, a par do governo e do parlamento, como a terceira potência independente no centro do Estado.
Os Egípcios mostraram-nos o caminho de uma outra herança do Egito faraônico que é a alquimia que visa entre outros objetivos, fabricar o elixir da imortalidade. Este desejo de imortalidade explica a concepção egípcia da preservação do corpo defunto, que será reanimado pela alma no Além.
Vários símbolos da alquimia são também egípcios: a serpente ouroboros que morde a cauda simboliza a eternidade, e a fênix que renasce das próprias cinzas representa a ressurreição. Alexandria foi considerada o berço da alquimia. Seu pai era o deus Hermes Trimegisto, que se identifica com Toth, deus egípcio da Sabedoria e da Escrita, aquele que guia as almas no submundo. A química, tal como nós a consideramos, desenvolveu-se a partir das experiências e das técnicas dos alquimistas. Aliás, o seu nome evoca a sua origem. Kemet significa em egípcio arcaico, Terra negra; Kemet é lodo negro dos campos do Nilo, e o nome que seus habitantes deram ao Egito [7].
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Comentários
Este livro que faz parte das comemorações de 25 anos da Taschen (1980-2005) foi concebido para ser um belo livro de arte repleto de fotos espetaculares da arte e arquitetura egípcias, mas o estilo do texto dos autores combinado com sua minuciosa pesquisa história, particularmente sobre detalhes da vida cotidiana dos Egípcios (o que bebiam, o que comiam, para quem rezavam, etc.), fez com que acabasse se tornando ao mesmo tempo um surpreendente conjunto de belos textos e imagens.
[1] Independente do legado faraônico ter ou não sido extinto por conta da destruição da grande biblioteca, fato é que sua destruição ocorreu (mesmo que em vários incêndios em separado), e que com ela se perderam grandes escritos não só dos egípcios, como dos gregos – por exemplo, Aristarco de Samos já previa na época que os planetas giravam em torno do Sol, a perda de sua obra atrasou em muito o desenvolvimento da astronomia.
[2] Somente em 1822 o jovem e genial linguista francês Jean-François Champollion decifrou a escrita em hieróglifos a partir de comparação com um mesmo texto em grego, na famosa Pedra de Roseta. Estava então fundada a egiptologia. Segundo alguns reencarnacionistas de renome, Champollion fora ele próprio um sacerdote egípcio em vidas passadas...
[3] Como ficará bem demonstrado no texto que se segue, em realidade as guerras religiosas conseguem que uma igreja seja vitoriosa sobre um território (e isso, obviamente, quase nada tem a ver com religião), mas raramente os mitos antigos são suprimidos, na verdade são incorporados as novas doutrinas dominantes, sem jamais desaparecer por completo. Considerar que o cristianismo se baseia numa doutrina que teoricamente condena o paganismo é de uma ironia monumental...
[4] A grande diferença entre o Hades e o Inferno, é que no primeiro os sofrimentos são proporcionais aos pecados, enquanto que no último ladrões de galinha e assassinos aparentemente sofrem igualmente a mesma punição (algo como queimar eternamente num lago de fogo, sem jamais perecer).
[5] Aqui foram citados Osíris e Ísis, que geram um filho: Hórus. No hinduísmo temos a trindade de Brahma, Vishnu e Shiva. Em mitologias antigas pelo mundo todo veremos diversos agrupamentos parecidos.
[6] É de uma infelicidade tremenda que sejamos obrigados a ver a chave da vida manchada pelo sangue de um grande sábio ainda crucificado nela própria. E mais triste ainda vermos a glorificação dessa imagem de sofrimento.
[7] E eis que mesmo na mitologia sagrada, tanto quanto na alquimia e na química, nada se perde, mas tudo se renova e se transforma.
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Crédito das imagens: [topo] Corbis Art (escultura do deus Osíris); [ao longo] Kenneth Garrett/National Geographic Society/Corbis
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