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9.5.18

Racismo é ignorância (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo falo sobre o único código que não surgiu da mente humana, o mesmo que trouxe a mensagem da Natureza, e ela dizia "que só há uma raça humana". Também veremos como nossos ancestrais migraram da África para todos os demais continentes, e ao final ainda temos uma surpresa especial:

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22.6.15

Olhos Azuis

Foi numa escola da pacata cidade de Riceville, no interior do estado de Iowa, nos Estados Unidos, que um dos experimentos sociológicos mais impactantes e esclarecedores do século passado foi primeiramente implementado em crianças, e nem mesmo Jane Elliott poderia prever a forma como ele moldaria as vidas de todos naquela classe infantil.

Era 5 de abril de 1968, e o célebre ativista dos direitos humanos, Martin Luther King Jr., acabara de ser assassinado no dia anterior. Jane pensou em como poderia ensinar sobre os efeitos devastadores do racismo na sociedade americana da época, e elaborou um experimento que duraria todo o dia de aula, onde as crianças (todas elas brancas, como Jane) seriam obrigadas a sentir na pele, ainda que de forma branda e temporária, o que significava exatamente ser um negro na sociedade da época.

Jane decidiu que as crianças de olhos castanhos seriam "inferiores", e deveriam usar uma espécie de colar pelo resto do dia de aula. Então, a professora passou o resto do dia incentivando os alunos de olhos azuis ou verdes, e descriminando os que usavam os colares... Ela mesma não sabia o que poderia ocorrer, mas aquele dia se tornou ao mesmo tempo traumático e inesquecível para boa parte dos seus alunos.

Desde então Jane teve de conviver com a raiva da maioria dos moradores da cidade, seus filhos foram importunados por boa parte da vida escolar, o restaurante dos seus pais fechou as portas por falta de clientes etc. Mas Jane não se arrependeu, não desistiu, pois ela compreendeu que havia tocado fundo na ferida, e que precisava seguir em frente se quisesse realmente fazer alguma diferença na conscientização das pessoas para este problema que, tantas vezes, é ignorado ou tratado como "algo de menor importância", ao menos pelo grupo dominante.

No documentário Blue Eyed (Olhos Azuis), que podemos assistir abaixo na íntegra, vemos como décadas depois o experimento de Jane ainda continua atual e impactante, mesmo quando aplicado a "adultos brancos de olhos azuis", em plena Nova York... Na cerca de uma hora e meia de filme, vemos como muitos adultos da classe dominante jamais tiveram alguma ideia de como é passar uma tarde sendo tratado como "inferior". Acredito que toda a experiência por que passaram foi muito importante para que passassem a enxergar o racismo pelo que ele realmente é, em essência: uma grandiosa e persistente ignorância.

Mas a grande questão é, "Terá mudado alguma coisa de 1968 para cá?". Sim, mudou, e para melhor, como deve ser... No entanto, como infelizmente costuma ocorrer, se trata de uma mudança lenta, lenta demais. Poderíamos erguer um céu de irmandade e tolerância neste mundo, mas para tal ainda falta nos livrarmos das travas da ignorância, uma reflexão de cada vez. Para você, também pode começar hoje:

Ao final da Segunda Guerra, quando eles limpavam os campos de concentração na Alemanha, um ministro luterano disse: "Quando se voltaram contra os judeus, eu não era judeu e não fiz nada. Quando se voltaram contra os homossexuais, eu não era homossexual e não fiz nada. Voltaram-se conta os ciganos e também não fiz nada. Quando se voltaram contra mim, não havia mais ninguém para me defender." Pensem sobre isso... (Jane Elliott)

***

Crédito da foto: Google Image Search/Divulgação (Jane Elliott)

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8.4.15

Adão e Eva eram negros

É bem provável que a maioria dos cientistas não creia, ao menos literalmente, que Adão e Eva foram os primeiros seres humanos. Mas, fato é que os primeiros seres humanos, sejam quais fossem os seus nomes, eram negros. Neste caso já não é uma questão de crença, a ciência já tinha fortes evidências de que o homo sapiens se originou na África [1], e recentemente, com o estudo do genoma humano, chegou à conclusão que a pele branca, clara ou pálida é resultado de uma mutação relativamente recente em nossa história evolutiva.

O estudo, apresentado na 84ª reunião anual da Associação Americana de Antropologia Física, realizada em março de 2015 nos EUA, oferece fortes evidências que os europeus modernos não se parecem muito com os de 8 mil anos atrás.

Um time internacional de cientistas analisou o genoma dos restos de 83 indivíduos encontrados em sítios arqueológicos espalhados pela Europa. Os resultados apontam que a população europeia moderna é uma mistura de pelo menos três antigas populações que chegaram à Europa em diferentes migrações nos últimos 8 mil anos. Comparando com dados do Projeto 1000 Genomas, os cientistas conseguiram encontrar quatro genes associados com as mudanças na pigmentação da pele que passaram por forte processo de seleção natural.

Os cientistas encontraram dois genes diferentes relacionados com a coloração da pele, além de um outro, ligado aos olhos azuis e que também pode contribuir para a pele clara e o cabelo louro. Os humanos modernos que migraram da África para a Europa há cerca de 40 mil anos tinham a pele escura, o que é uma vantagem para regiões ensolaradas. E o estudo confirma que há 8.500 anos, povos caçadores e coletores na Espanha, Luxemburgo e Hungria também possuíam a pele escura, pois eles não tinham os genes SLC24A5 e SLC45A2, que levaram à despigmentação e à pele pálida dos europeus atuais.

Mas no extremo norte, onde os baixos níveis de luz favorecem a pele branca, os pesquisadores encontraram um panorama diferente entre os povos caçadores e coletores: sete corpos do sítio arqueológico de Motala, no sul da Suécia, datados em 7.700 anos, possuíam ambos os genes ligados à pele clara, assim como um terceiro, o HERC2/OCA2, que causa os olhos azuis [2]. Dessa forma, segundo o estudo, os povos caçadores e coletores do Norte da Europa já possuíam a pele pálida, mas os das regiões centrais e sul tinham a pele escura.

Então, os primeiros povos agricultores chegaram à Europa, há 7.800 mil anos, vindos do Oriente Próximo, também carregando os dois genes em questão. Eles se misturaram às populações caçadoras e coletoras e espalharam o gene SLC24A5 pelas regiões Central e Sul da Europa. A outra variante, o SLC45A2, se manteve em níveis baixos de penetração até 5.800 atrás, quando começou a se espalhar pelo continente.

O estudo não especifica porque esses genes passaram por tamanho processo de seleção, mas existe a teoria que a despigmentação serviu para maximizar a síntese de vitamina D, conforme afirmou a paleoantropóloga Nina Jablonski, da Unversidade do Estado da Pensilvânia. Pessoas que vivem em altas latitudes não recebem radiação UV suficiente para sintetizar a vitamina, então a seleção natural pode ter favorecido duas soluções genéticas para a questão: evoluir a pele clara para absorver mais radiação e favorecer a tolerância à lactose, para se digerir os açúcares e a vitamina D encontrados no leite.

“O que nós imaginávamos como um entendimento simples sobre o surgimento da pele despigmentada na Europa, é um emocionante trabalho da seleção” — disse Nina, em entrevista à revista Science — “Esses dados são interessantes porque mostram como se deu a evolução recente.”

Enquanto em boa parte de nossa história o racismo teve suporte na cultura geral, em algumas doutrinas de religiosos equivocados, em filosofias empobrecidas, em políticas públicas desconexas, e até mesmo na própria ciência, é um alento perceber como estavam certos todos aqueles que contemplaram a Natureza e perceberam há eras, pelas mais diversas vias, que somos todos uma única raça. E foi a própria Natureza quem nos contou: o estudo do genoma humano deixa muito claro e cristalino que tudo aquilo que um dia foi chamado de “raça humana” se resume a pequenas diferenças de tonalidade da pele, além de características faciais e capilares, que nem de longe são suficientes para delimitar mais de uma raça de homo sapiens no globo.

De fato, a única outra “raça humana” com quem já convivemos já está extinta, mas há resquícios dela em partes de nossos genes. Os neandertais e os homo sapiens tiveram um breve período de coexistência no Oriente Médio, quando chegaram a gerar filhos uns dos outros. Mas, enquanto os homo sapiens partiram para dominar a Ásia, a Oceania e as Américas (através da Ponte Terrestre de Bering, que hoje derreteu), os neandertais preferiram, por alguma razão, continuar no próprio Oriente Médio e na Europa... Nalgum dia histórico da pré-história, os homo sapiens finalmente decidiram adentrar a Europa, e encontraram seus primos entre uma e outra caçada. O que terão pensado uns dos outros? Teria a tradição oral de suas tribos selvagens conservado as histórias de suas origens em comum? É quase certo que não – é quase certo que se entenderam como seres completamente distintos.

Se há uma “raça pura” entre os homo sapiens, ela é composta precisamente pelos raros povos ancestrais africanos que chegaram aos dias atuais sem jamais terem saído do Continente Mãe. Enquanto a lendária “raça ariana” é na realidade uma grande mistura de migrações genéticas, onde se incluí até mesmo parte do DNA neandertal, a única vertente “pura” dos homo sapiens é negra e africana, como Adão e Eva.

E, se a sedução de pertencer a uma suposta “raça superior” é muitas vezes motivo suficiente para que muitos de nós abandonem o bom senso e as lições de boa convivência, talvez seja a hora de levantarmos um alerta: o racismo não é uma questão de ser ou não politicamente correto, de se ter ou não uma boa capacidade de convivência, o racismo é uma questão de profunda, profundíssima ignorância.

Se nos dias atuais nossos irmãos que carregam os genes de nossa pele original já conseguem ser aceitos e amados quando são craques em seus times de futebol, ou até mesmo quando se tornam presidentes de potências mundiais, isso é muito bom, mas ainda não é o bastante...

Pois se mesmo tais craques da bola volta e meia ainda são obrigados a conviver com torcidas de mentalidade pré-histórica, que se aprazem em atirar bananas nos gramados, e mesmo se em países de primeiro mundo, governados por um presidente de pele negra, nossos irmãos ainda são mortos por policiais com tiros pelas costas, é porque ainda há muita ignorância ainda por ser depurada.

E como vencer a ignorância da alma, senão pela educação da alma?

E como perpetuar a ignorância, senão por uma educação corrompida?

Sim, Adão e Eva, e todos nós, somos negros, pois é negra a nossa cor original, e é negro o continente de onde todos nós um dia saímos para conquistar a Terra. Sim, o Éden, afinal, também é africano... Está na hora de começarmos a reconstruí-lo, no mundo inteiro.

***

[1] Embora também existam outras teorias que afirmam que ele pode ter se originado tanto na África quanto na Ásia Central e na Europa. Em todo caso, o que nos importa neste artigo é que há fortes evidências de que os primeiros homo sapiens eram negros, seja onde tenham surgido.

[2] Novos estudos científicos e antropológicos levam a crer que a própria distinção da cor azul é algo recente em nossa história.

Crédito da imagem: Karin Miller

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2.8.14

Racismo é a mais pura ignorância

Em 12/05/2009 publiquei aqui no blog um post despretensioso, que basicamente explica como a ciência já comprovou que o que antes chamávamos de "raça humana" é basicamente somente uma diferenciação mínima entre algumas características físicas dos homo sapiens que vagaram por todo o globo, provavelmente vindos da África. A conclusão do post era a de que racismo é ignorância, principalmente no sentido do conhecimento científico.

Este post, entretanto, se tornou com o tempo um dos mais acessados do blog, certamente devido aos resultados de pesquisas no Google. Em homenagem a este fato, achei por bem trazer este complemento que nos demonstra, num vídeo de cerca de 5 minutos, como o racismo é, além de ignorância científica, também uma ignorância sociocultural. Em suma, a mais pura ignorância:

A apresentadora

Mo Asumang é filha de pai ganês de pele escura, e mãe alemã de pele clara. Como uma reconhecida apresentadora da TV germânica, ela se tornou o alvo de neonazistas e outros partidários de extrema direita anti-imigrantes, que basearam seus ataques no fato de Asumang não ter uma "descendência puramente ariana".

Hoje ela está filmando um documentário onde vai a redutos neonazis na Alemanha e do Ku Klux Klan na América para perguntar o que eles têm contra os negros e quais os seus planos. Os 5 minutos acima são uma breve apresentação do que tem ocorrido nestas tentativas de diálogo; uma produção da BBC News.

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Crédito da foto: Divulgação/BBC (Mo Asamung ao lado de um membro da Ku Klux Klan)

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10.12.12

Madiba!

Quando Nelson Rolihlahla Mandela chegou a Joanesburgo, aos 23 anos, não trazia muito mais do que a roupa do corpo e sua alma nobre, também por nascimento: Rolihlahla era da nobreza do clã dos Madiba, do povo Thembu, e veio ao mundo numa pequena aldeia do interior da África do Sul, onde se vivia do mesmo jeito há centenas de anos. Rolihlahla queria mudança, queria novos ares, queria conhecer o mundo e os seres a sua volta. No fim, foi à alma de Mandela que prevaleceu.

Foi ainda criança que ganhou seu primeiro nome, Nelson. Estudava numa escola primária com um único cômodo, teto de zinco e chão e terra. Uma de suas professoras seguiu o costume de dar nomes ingleses a todas as crianças de etnias locais que frequentavam a escola. Mandela não se importou: não havia nada de errado em usar um nome inglês, acreditou que aquilo serviria para facilitar seu convívio com eles...

Mas não foi o que viu na cidade grande. Tornou-se advogado e um dos líderes da juventude negra que protestava de forma não violenta contra o apartheid, um vergonhoso sistema oficial de segregação racial implementado pelo governo sul-africano, que veio a ser abolido somente muito tardiamente (se comparado com outros países onde havia segregação amparada pela lei), já em 1994. Como devem saber, Mandela foi vital neste processo.

No entanto, nada ocorre da noite para o dia, e concepções arraigadas em sociedades, particularmente nas elites dominantes das sociedades, demoram muito tempo para desaparecer. Na realidade, não fosse pela pressão do resto do mundo, Mandela dificilmente teria saído ainda vivo da cadeia onde passou 27 anos. Tampouco foi algum santo: caiu na tentação de descambar para uma espécie de guerrilha armada contra o apartheid, embora a princípio houvesse participado apenas em alguns planos terroristas de ataques com bombas a alvos não humanos, como antenas de rádio e TV, e torres transmissoras de energia elétrica. No fim, talvez a prisão o tenha salvado de haver morrido bem mais jovem, quem sabe com uma arma na mão...

Mas 27 anos tampouco passam da noite para o dia. Enquanto permaneceu enclausurado numa pequena cela, sem acesso a informações do mundo exterior, teve todo o tempo do mundo para avaliar qual seria a melhor forma de continuar em sua luta contra a segregação. Do lado de fora, por todos os cantos da África do Sul, a juventude negra, pobre em quase sua totalidade, continuava a se revoltar cada vez mais. Elegeram Winnie, então esposa de Mandela, como sua representante direta – “Madiba! Madiba!” era seu grito de guerra... Muitos morreram em conflitos com a polícia, mas Mandela continuava encarcerado, e a violência só aumentava.

Com o passar das décadas, o governo segregacionista começou a temer por sua própria segurança. No fundo, o apartheid foi implementado como forma de manter a cultura dos colonizadores europeus viva numa terra estranha, conquistada pela força das armas, e não da diplomacia. Agora, eles temiam não somente pelo fim de sua cultura, mas pelo fim de toda a sua sociedade, pois que sempre existiriam mais negros do que brancos naquela terra: eles viveram ali por muitos milhares de anos, os brancos eram recém-chegados.

Dizem que, mesmo preso, Mandela sempre manteve sua “aura” de nobreza. Uma nobreza antiga, tribal, ancestral, do tipo que nem mesmo décadas de prisão é capaz de apagar. Quando Mandela era escoltado para o pátio fora da cela, eram os guardas que seguiam seu ritmo de caminhada, e não o contrário. Uma vez, disse a um jornalista que o visitara por lá: “Bom dia, esta é a minha guarda pessoal”. O chefe carcerário confessou que seu maior medo era ter de dar a notícia ao governo de que Mandela havia falecido na prisão. Aquilo seria o fim da África do Sul, disto ninguém tinha dúvidas, ao menos entre os brancos...

Mas Mandela venceu pela força de sua alma, e sua habilidosa diplomacia. Através de anos de negociações diretas com os governantes do apartheid, inclusive tendo encontrado presidentes pessoalmente, em escoltas secretas para fora de sua prisão, um dia finalmente aconteceu: em 11 de fevereiro de 1990 Mandela é solto. Caminhou pela porta da frente da prisão, de mãos dadas com Winnie. Do lado de fora, não somente negros, como uma boa parcela de brancos, o saudavam entusiasmados. Aquela altura, Mandela era um cidadão do mundo.

Em 1994, Mandela é eleito presidente da África do Sul com 62% dos votos. Como seu vice-presidente, de Klerk, o último presidente do apartheid, e uma espécie de “garantia” de que Mandela não queria “usurpar o poder dos brancos”. Mas foi somente cerca de um ano depois de assumir a presidência, em 1995, já com quase 80 anos, que Mandela finalmente sacramenta sua missão...

No campeonato mundial de rúgbi de 1995, realizado na África do Sul, o time nacional tinha poucas chances de avançar na competição. O rúgbi era um esporte herdado da cultura branca, colonizadora, e nunca havia tido popularidade alguma entre os negros... Mas o time avançou, e Mandela viu ali uma oportunidade de ouro. Viu ali uma chance de, finalmente, promover uma união de culturas, algo que iria tornar a África do Sul uma nação de verdade, pois que toda a verdadeira nação é feita de irmãos, de cultura em comum.

Seu time chegou a final e, quando Madela entrou, uniformizado, para os saudar no estádio antes do início da partida, foi uma grande maioria branca que gritou nas arquibancadas: “Nelson! Nelson!” era seu grito de guerra... O time da África do Sul venceu aquele campeonato. Pelas ruas de boa parte do país, negros e brancos comemoravam. Não comemoravam juntos, quem sabe, mas este era apenas o início... O início de uma nova era. “Madiba” ou “Nelson”, tanto faz: ele cumpriu sua missão [1].

***

Morgan Freeman é um excelente e conhecido ator americano que se parece muito com Mandela fisicamente. Foi ele quem o representou no filme Invictus, que conta esta extraordinária história do campeonato mundial de rúgbi de 1995. Em entrevistas, Morgan é às vezes polêmico, por exemplo, ao defender que “o dia da consciência negra é uma ideia ridícula”. Segundo ele, não existe um dia da consciência branca, e, portanto, não faz sentido haver um dia reservado para a consciência negra. Para Morgan, todos os dias são dias da consciência: a consciência humana.

Polêmicas a parte [2], hoje sabemos, pela ciência, que não existem brancos e negros, ou índios e japoneses, etc. Todos temos o mesmo sangue e a mesma raça, o que varia são apenas pequenas características físicas que nunca seriam capazes de determinar que “esta raça tem alma, aquela não tem”, nem que “esta raça tem mais inteligência, aquela tem menos”. Também sabemos, por teorias científicas bastante contundentes, que o homo sapiens surgiu na África, que Adão e Eva habitaram alguma região selvagem do sul ou da região central deste continente, e que, portanto, todos somos os ancestrais das antigos tribos africanas.

No fim, todos somos da mesma tribo de Rolihlahla. Uma só tribo, um só mundo. É hora de compreendermos este fato, pois que não há mais muito tempo para essas brigas idiotas entre nós. A Natureza dá o alarme, os mensageiros orientam. Obrigado, Madiba, pela orientação. Obrigado por tudo!

***

[1] Recomendo o excelente documentário The long walk of Nelson Madela, sobre sua história de vida (infelizmente, apenas em inglês).

[2] É claro que aqueles que lutaram pela instauração de “dias da consciência negra” tinham a melhor das intenções. Mas fato é que, pela lógica, é estranho que exista um “dia da consciência” apenas para negros, e não para os demais seres humanos com outros níveis de melanina na pele. Tanto quanto é estranho que haja um “dia da mulher”, enquanto não existe um “dia do homem”, etc.

Crédito das imagens: [topo] MAISANT Ludovic/Hemis/Corbis (cerâmica do rosto de Madela jovem, no Soweto Hotel, Joanesburgo); [ao longo] Divulgação (Invictus)

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7.3.12

Ainda há ignorância...

Difícil dizer o que pensavam os publicitários que criaram esta propaganda onde supostamente se exaltaria a diplomacia, a integração e união entre os membros da União Européia e o restante do mundo, mas onde, na prática, o resultado foi outro, absolutamente lamentável...

Entre acusações de racismo e imperialismo, o vídeo foi retirado do ar (passou na TV aberta na Europa) em menos de 24h, com um pedido de desculpas aos que "se sentiram ofendidos".

Racismo talvez não seja o problema primário aqui, mas apenas secundário. O imperialismo, este sim, nos faz lembrar da época negra medieval, das cruzadas e tudo o mais... Será que uma crise econômica é motivo suficiente para que as mentes da Europa voltem a se fechar, e a retroceder a tal ignorância tão antiga, tão fora de moda? Esperamos que esses publicitários não representem a opinião comum dos europeus:


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11.10.11

Allan Kardec: racista? (parte 2)

« continuando da parte 1

Segunda e última parte de um artigo que pretende analisar a costumeira crítica a Allan Kardec, codificador da doutrina espírita, onde se afirma que ele era racista, baseando-se principalmente em trechos de A Gênese, a quinta e última obra fundamental do espiritismo. Não deixe de ler a primeira parte antes de prosseguir (link acima).

Podemos afirmar que o espiritismo é uma doutrina racista?
Certamente que não, pois essa seria uma grande generalização apressada.

Primeiro, porque o espiritismo não é criação de Kardec, e ele foi apenas seu codificador e organizador. Apesar dos 5 livros fundamentais da doutrina possuírem inúmeros comentários do próprio Kardec, foi baseado nas respostas dos espíritos as suas perguntas que Kardec organizou a doutrina espírita. Desse modo, ainda que se seja cético em relação a existência de espíritos, ou da possibilidade de que possamos nos comunicar de forma plenamente inteligível com eles, o máximo que se pode dizer é que as respostas dos espíritos são fruto do imaginário monumental de 3 jovens médiuns (de 14, 16 e 18 anos, respectivamente), as quais ditaram praticamente a totalidade das respostas.

Em todo caso, não é culpa dos espíritos (ou das 3 médiuns) que Kardec tenha interpretado suas respostas dessa forma. É muito comum ao ser humano interpretar de forma incompleta, errônea ou até distorcida as informações que lhe chegam de um, digamos, plano mais elevado. Kardec não foi o primeiro a interpretar a luz de uma forma difusa, e os textos sagrados da humanidade nos trazem inúmeros exemplos até mesmo muito piores (ex: o livro do Levítico, do Antigo Testamento).

Segundo, o espiritismo não é um “kardecismo”, e o próprio Kardec incentivou que esta doutrina, da qual ele foi mero codificador, fosse constantemente reavaliada e reinterpretada a luz de novas descobertas e compreensões mais elaboradas não somente no campo da ciência, como no da filosofia e da moral. Portanto, se Kardec era racista, e se hoje como espíritas ou espiritualistas nos damos conta disso, tanto melhor: identificamos então uma falha na doutrina, e cabe a nós corrigi-la, passo a passo, sempre em frente. Kardec não era infalível, nem nunca pretendeu ser... Era antes, como todos nós, humano.

Seriam os “povos selvagens” intelectualmente inferiores?
Tudo indica que não, e é esse o grande erro na interpretação de Kardec. Ora, não podemos confundir adiantamento tecnológico, econômico ou político com adiantamento intelectual ou moral a um nível “racial”. Sabemos que crianças selvagens, que se perderam nas selvas e foram criadas por animais como lobos (conforme o famoso exemplo de Amala e Kamala), quando “recuperadas” e inseridas de volta ao convívio com seres humanos, jamais deixam de se comportar como animais, sendo que na grande maioria das vezes sequer foram capazes de aprender a se comunicar (muito menos a ler e escrever). Da mesma forma que tanto crianças brancas quanto negras se parecerão muito quando criadas por animais em meio a selva, se forem criadas por pais amorosos e responsáveis, e educadas em grandes centros de ensino, não há absolutamente nenhuma teoria científica ou estudo estatístico que nos afirme que as negras, por exemplo, não se desenvolverão intelectualmente tanto quanto as brancas.

Dessa forma, por mais que nas ciências ocultas devamos considerar que em sua maioria os povos são formados por grandes egrégoras espirituais, nada impede que um espírito em grau moral e intelectual adiantadíssimo não encarne dentre os povos ditos “selvagens” [4] . De fato, teremos muitos exemplos de grandes sábios que encarnaram em meio a tais povos. Um deles, inclusive, nos deixou por escrito um registro histórico de seu grau de sabedoria. Vejamos o que o Chefe Seattle tinha a dizer ao então presidente americano, quando este lhe ofereceu uma oferta em dinheiro pela compra de suas terras (apenas um trecho):

“O Presidente em Washington diz que deseja comprar a nossa terra. Mas como pode comprar ou vender o céu, a terra? Essa ideia é estranha para nós. Cada parte dessa terra é sagrada para o meu povo. Cada agulha de pinheiro brilhante. Cada grão de areia da praia, cada névoa na floresta escura. Cada característica é sagrada na memória e na experiência do meu povo.

Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores são nossas irmãs. O urso, o veado, a grande águia são nossos irmãos. Cada reflexo na água cristalina dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. O murmúrio das águas é a voz do meu pai. Os rios são nossos irmãos. Eles levam nossas canoas e alimentam nossos filhos [5].”

Conclusão
Kardec era um homem de seu tempo, mas isso não deve ser usado como desculpa para que levemos em menor consideração alguns dos seus erros de interpretação. De fato, quando o criticarmos diretamente neste ponto, estamos somente agindo de acordo com o que ele mesmo defendia como filósofo, cético e cientista – o que muitos detratores corriqueiramente se esquecem.

Se esta crítica, muitas vezes acompanhada de julgamentos ferozes e generalizações apressadas, é o máximo que os detratores do espiritismo conseguiram encontrar de errado na doutrina (ao menos no campo moral e humanista, pois se espíritos existem ou não, é uma outra história...), deveremos como espíritas ou simpatizantes nos sentir agraciados por seguirmos uma filosofia tão abrangente e extensiva, e com tão poucas falhas... E mesmo as falhas existentes, estas poderemos também reavaliar, reconsiderar, reformar!

O espiritismo não foi criado ou divulgado para se ancorar em textos seculares, pois esta seria a origem do dogma, e como cientista e livre-pensador, Kardec era claramente contrário a quaisquer espécies de dogma... Kardec fez centenas de perguntas aos espíritos, mas houveram perguntas com respostas mal interpretadas tanto quanto outras tantas que nem os espíritos souberam responder. Isso significa, obviamente, que o espiritismo não está pronto e acabado, e que cabe a nós continuarmos a codificá-lo, quebrando preconceitos e nos livrando da ignorância, um passo de cada vez [6].

O Espiritismo não teme a luz; ele a chama sobre suas doutrinas, porque quer ser aceito livremente pela razão. Longe de temer, pela fé dos Espíritas, a leitura das obras que o combatem, diz: Lede tudo; o pró e o contra, e fazei a escolha com o conhecimento de causa (Allan Kardec).

O Espiritismo, restituindo ao Espírito o seu verdadeiro papel na criação, constatando a superioridade da inteligência sobre a matéria, apaga naturalmente todas as distinções estabelecidas entre os homens segundo as vantagens corpóreas e mundanas, sobre as quais o orgulho fundou castas e os estúpidos preconceitos de cor. O Espiritismo, alargando o círculo da família pela pluralidade das existências, estabelece entre os homens uma fraternidade mais racional do que aquela que não tem por base senão os frágeis laços da matéria, porque esses laços são perecíveis, ao passo que os do Espírito são eternos (Revista Espírita 1861, pág. 297-298).

***

[4] Apesar de raro, não é impossível que um espírito de uma determinada cultura e etnia (e suas egrégoras) reencarne na vida seguinte numa cultura diversa. Em seus estudos de crianças que lembram vidas passadas, Ian Stevensson encontrou um ou outro caso do tipo, e a "simpatia" do espírito por sua cultura anterior era geralmente tão evidente que eles faziam de tudo para "retornar" a região de sua etnia na vida anterior. Também há casos mais dramáticos, infelizmente, quando todo um povo é dizimado, e os espíritos reencarnantes são obrigados a se "deslocar" para outros povos.

[5] Veja aqui um resumo mais extenso da Carta do Chefe Seattle, um dos grandes textos espiritualistas da humanidade...

[6] Se você é espírita, talvez se entusiasme mais por essa extensiva e detalhada defesa que Paulo da Silva Neto Sobrinho faz a Kardec em relação a acusação de racismo. No entanto, não posso afirmar que se trate de um texto totalmente imparcial, como espero que tenha sido o meu - na medida em que espero, igualmente, um julgamento imparcial de cada leitor.

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Crédito da imagem: Reed Kaestner/Corbis

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10.10.11

Allan Kardec: racista? (parte 1)

Este artigo pretende analisar a costumeira crítica a Allan Kardec, codificador da doutrina espírita, onde se afirma que ele era racista, baseando-se principalmente em trechos de A Gênese, a quinta e última obra fundamental do espiritismo. A análise pretende ser imparcial (apesar de eu ser um espiritualista), se não acredita, leia até o fim antes de julgar. Se você ainda não conhece o espiritismo a fundo, recomendo primeiramente que leia esta série de artigos onde resumo a essência da doutrina, e depois retorne...

A crítica quanto à tendência racista de Allan Kardec se baseia principalmente em trechos do Capítulo XI de “A Gênese”, mais precisamente onde ele analisa a hipótese sobre a origem dos corpos humanos, e sobre como o espírito poderia, hipoteticamente, exercer influência em sua formação de acordo com sua “antiguidade ou adiantamento espiritual”.

A primeira análise que devemos fazer é em relação à validade desse tipo de crítica, e para tal nada melhor que primeiramente ler o trecho citado (Cap. IX, 30 a 32, os grifos em negrito são do texto original):

“Se bem que os primeiros homens devessem ser pouco adiantados, pela mesma razão que os fazia encarnarem-se em corpos muito imperfeitos, devia haver entre eles diferenças sensíveis, nos seus caracteres e aptidões. Os Espíritos semelhantes naturalmente se agruparam pela analogia e pela simpatia. A Terra achou-se assim povoada por diferentes categorias de Espíritos, mais ou menos aptos ou rebeldes no progresso. Os corpos recebem a característica do Espírito, e esses corpos se procriam segundo seu tipo respectivo; daí resultam diferentes raças, no físico como no moral [1]. Os Espíritos semelhantes, continuando a se encarnar de preferência no meio de seus semelhantes, perpetuam o caráter distintivo físico e moral das raças e dos povos, o qual não se perde após muito tempo, pela sua fusão e pelo progresso dos Espíritos.

Podem-se comparar os Espíritos que vieram povoar a Terra a grupos de imigrantes de origens diversas, que vão se estabelecer numa terra virgem [2]. Ali encontram a madeira e a pedra para fazer suas habitações, e cada uma dá à sua um feitio diferente, conforme seu grau de saber, e seu gênio particular. Ali se agrupam pela analogia de origens e de gostos; esses grupos acabam por formar tribos, depois povos, cada um com seus costumes e caráter próprio.

O progresso não foi, pois, uniforme em toda a espécie humana; as raças mais inteligentes naturalmente progrediram mais que as outras, sem contar que os Espíritos, recentemente nascidos na vida espiritual, vindo a se encarnar sobre a Terra desde que chegaram em primeiro lugar, tornam mais sensíveis a diferença do progresso. Com efeito, seria impossível atribuir a mesma antiguidade de criação aos selvagens que mal se distinguem dos macacos, que aos chineses, e ainda menos aos europeus civilizados.

Esses Espíritos de selvagens, entretanto, pertencem também à humanidade; atingirão um dia o nível de seus irmãos mais velhos, mas certamente isso não se dará no corpo da mesma raça física, impróprio a um certo desenvolvimento intelectual e moral. Quando o instrumento não estiver mais em relação ao desenvolvimento, emigrarão de tal ambiente para se encarnar num grau superior, e assim por diante até que hajam conquistado todos os graus terrestres, depois do que deixarão a Terra para passar a mundos mais e mais adiantados.”

Agora passemos a análise do trecho citado tendo em mente a crítica mencionada:

Podemos afirmar que Kardec era racista?
Sim, sem dúvida. Inclusive pelo trecho que consta grafado em negrito desde o original. Está muito claro que, apesar de Kardec não ser nem de longe racista no sentido espiritual – pois que considerava que todos os espíritos, desde bactérias e animais irracionais, até os primatas e “selvagens”, poderiam eventualmente alcançar o estágio de “adiantamento moral e intelectual” do “ser humano moderno” –, no sentido corpóreo (físico), que é afinal de contas onde se efetua a crítica, ele era claramente racista a partir do pressuposto de que existiam “raças físicas” diversas, o que fica muito claro tanto no texto em geral quanto na frase grafada.

Hoje sabemos que racismo é ignorância. A ciência comprovou que não existem raças humanas (derradeiramente através do Projeto Genoma). O que chamamos de “raça” se resume a uma diferença da tonalidade da cor de nossa pele: em comparação com a pele de outros primatas, a pele humana possui menor pelagem. A cor do pelo e da pele é determinada pela presença de pigmentos, chamados melaninas. A maioria dos autores acredita que o escurecimento da pele foi uma adaptação que evoluiu como uma defesa contra a radiação solar ultravioleta (UV); a melanina é uma substância eficaz contra esta radiação. A cor da pele, em humanos atuais, pode variar desde o castanho escuro até ao rosa pálido [3].

Podemos condenar Kardec por ser racista?
Talvez... Tanto quanto poderíamos condenar um filósofo da Grécia antiga por não se revoltar contra a escravatura, tanto quanto poderíamos condenar o grande pensador alemão, Schopenhauer, por ser um machista convicto que relegava o papel das mulheres na sociedade a um “segundo plano”, tanto quanto poderíamos condenar praticamente qualquer francês de sua época por ser igualmente racista, visto que ainda durante sua geração a escravidão ainda era legal em inúmeros países e colônias. E, de fato, era ainda muito comum que as crianças europeias da época fossem educadas para pensar que os escravos (em sua maioria negros descendentes de partes “supostamente selvagens” da África) possuíam intelecto notadamente inferior.

Em suma, Kardec parecia realmente convicto que povos selvagens do continente africano, da China e da Austrália, dentre outros, possuíam capacidade intelectual e moral inferior a dos europeus e suas colônias mais ricas, mas isso era não obstante um pensamento difundido em toda a França e Europa, mesmo entre os intelectuais, como era o caso de Kardec. Prova de que nem sempre, ou quase nunca, podemos nos colocar em posição de julgar qual povo é mais ou menos adiantado.

» Na segunda e última parte, analisaremos se o espiritismo pode ser considerado uma doutrina racista, e também se os povos "selvagens" seriam realmente intelectualmente inferiores...

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[1] Aqui Kardec faz referência ao item #11 do mesmo capítulo, que resumidamente afirma que são os próprios espíritos quem auxiliam na fabricação de seus corpos, de acordo com o adiantamento de seu intelecto para tal. De modo que, segundo a hipótese de Kardec, espíritos de elevado intelecto tendem a conceber (ou auxiliar na concepção) corpos mais “aperfeiçoados e belos”.

[2] Muitos não sabem, mas o espiritismo não fala apenas da reencarnação de homo sapiens na Terra, como da evolução espiritual de bactérias até espécies hipoteticamente muito mais avançadas que o homo sapiens, assim como em transmigrações de espíritos entre planetas, de modo que o ciclo de reencarnação não está limitado a uma única espécie, e tampouco a um mesmo planeta. Nota-se, entretanto, que a transmigração entre planetas é espiritual e não corpórea (física).

[3] Os zoólogos geralmente consideram a raça um sinônimo das subespécies, caracterizada pela comprovada existência de linhagens distintas dentro das espécies, portanto, para a delimitação de subespécies ou raças a diferenciação genética é uma condição essencial, ainda que não suficiente. Na espécie homo sapiens - a espécie humana - a variabilidade genética representa 3 a 5% da variabilidade total, nos sub-grupos continentais, o que caracteriza, definitivamente, a ausência de diferenciação genética. Portanto, inexistem raças humanas do ponto de vista biopolítico matematicamente convencionado pela maioria.

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Crédito da imagem: Divulgação (FEB/Domínio público)

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1.4.11

White Pride

Texto de Tiago de Thuin, autor do blog "Samba do Avião" e também meu amigo de longa data. O comentário ao final é meu.

Volta e meia alguém, mesmo sem ser particularmente racista (numa sociedade que é racista, não dá pra dizer que alguém seja inteiramente livre disso), repete aquela pergunta de white power, "se você pode ter orgulho negro, por que não orgulho branco, ein, ein?" A resposta que eu dou normalmente é a tradicional: porque orgulho negro se trata de orgulho de ter sobrevivido, e ainda sobreviver, a uma sociedade que lhe oprime, assim como o orgulho gay; nessa dicotomia, orgulho branco ou orgulho hétero ou bem são uma besteira sem sentido ou bem são orgulho de fazer parte dos opressores. E sinceramente, a não ser que você seja uma dominatrix, acho que ninguém acha tão legal ou virtuoso oprimir os outros quanto manter a cabeça erguida diante da opressão. O orgulho negro, ou gay, explícito, se dá justamente para afirmar o valor frente a um orgulho implícito branco ou hetero fortíssimo. É como a piada do dia internacional da mulher; agora que acabou voltamos ao ano internacional do homem.

Hoje, vendo a wikipédia sobre os bairros do Rio, achei algo que atenta para uma das facetas desse orgulho, que se mistura com a noção dos EUA como modelo de civilização. É que o brasileiro - ou pelo menos, e principalmente, a classe média brasileira, que é afinal de contas principalmente branca e poderia concordar com a frase infeliz de Gilberto Freyre quando este diz que o brasileiro se misturou com o negro e com o índio - tem, muitas vezes, um orgulho desmesurado de suas raízes imigrantes. Você tem um único imigrante na família? Basta para se proclamar "italiano," "alemão," ou "espanhol." A importância da imigração é ensinada na escola, mesmo em livros radicais de esquerda, de forma epocal; no fim do século XIX, saem as lutas dos escravos, exceto por uma nota de rodapé dizendo que não foram devidamente apoiados após a abolição, e entram os imigrantes. O povo brasileiro do século XX, nessa visão, é imigrante.

E ora, o Brasil não chega a ser exatamente um país de imigrantes, não na escala dos EUA ou da Argentina. A maior leva imigratória brasileira, de muito longe, foi mesmo a africana, forçada; 4,4 milhões de escravos, versus 3,3 de todos os imigrantes não-escravos juntos. E esses 3,3 milhões de imigrantes, ao longo da maior parte de um século, se somaram a um país que tinha, em 1872, quase dez milhões de habitantes, dos quais seis milhões de pretos e pardos. A imensa maioria do Brasil (e não da classe média) é mesmo descendente, não de imigrantes, mas de pretos, ibéricos da época da colônia, e índios; os imigrantes não chegam a ser um prato principal nessa mistura. Como foram trazidos justamente, em parte, por se acreditar na sua "superioridade racial," e se beneficiaram tanto de leis de imigração que em alguns momentos foram ridiculamente generosas quanto do racismo em geral, os imigrantes rapidamente viraram a nova classe média, expulsando dela a maior parte dos mulatos.

No caso dos bairros da wikipédia, chega a ser hilário. Alguém realmente acha que um componente importante da população de Botafogo é inglês? (No caso, como o modo de valorizar a imigração segundo o modelo americano já foi estabelecido, somaram ali uma igualmente enigmática Angola.)

Outro caso em que esse orgulho, essa ânsia de ser imigrante (e não-negro ou se mestiço só o bastante pra ter bunda, de preferência) fica engraçado é nos números anunciados da população "x" do Brasil. Fora os portugueses e os italianos, cujo número no Brasil é mesmo substancial (se bem menor, no caso dos segundos, que na Argentina), com efeito, os números propagandeados significariam que todo japonês, árabe, e alemão que veio pro Brasil teve mais filhos que o Genghis Khan. Assim, São Paulo sozinha teria mais de seis milhões de libaneses, apesar de haver, nos censos de 1920 e 1940, uns cinquenta mil imigrantes daquelas bandas. Os 250.000 alemães que chegaram até 1970 representariam a maior parte da população do Sul - uma multiplicação de 1 pra cada 50, pelo menos, o que significa que o Gobineau estaria certo e a fertilidade ariana era mesmo maior, já que se os pobres bugres brasileiros da mesma época tivessem se multiplicado do mesmo jeito, o Brasil seria mais ou menos do tamanho da Índia.

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Comentário
Existem realmente muitos racistas assumidos no país, pelo menos assumem "em família", qual a família que não conta pelo menos um? Mas a grande maioria é racista mesmo sem perceber, por isso que é sempre válido refletir sobre isso...

Para mim, o racismo é sobretudo um fardo. O que eu tenho de racista, tento sempre me livrar, pois em última instância é apenas ignorância, uma ignorância que pode me afastar de conhecer boas pessoas.

Não custa lembrar: não afirmo que o racismo seja ignorância por mera opnião, mas porque já foi comprovado cientificamente que não existem raças humanas, e todos os homo sapiens compartilham um único genoma.

"A palavra raça não identifica nenhuma realidade biológica reconhecível no DNA de nossa espécie, e portanto não há nada de inevitável ou genético nas identidades étnicas e culturais, tais como as conhecemos hoje em dia. Sobre isso, a ciência tem idéias bem claras." - Guido Barbujani em "A Invenção das Raças" (Editora Contexto).

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Crédito da foto: Leonardo Martins (Quilombolas no estado do Rio, aprox. 1940)

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15.1.10

O Haiti é aqui

O cônsul geral do Haiti em São Paulo, Gerge Samuel Antoine, apareceu em reportagem exibida na noite desta quarta-feira no programa "SBT Brasil" dizendo que o terremoto está "sendo bom" para seu trabalho e que a tragédia pode ter ocorrido por causa da religião praticada por boa parte dos haitianos, descendentes de africanos. O vodu é uma delas.

Sem saber que estava sendo gravado pela equipe da repórter Elaine Cortez, o cônsul diz um interlocutor: "A desgraça de lá está sendo uma boa pra gente aqui, fica conhecido. Acho que de, tanto mexer com macumba, não sei o que é aquilo... O africano em si tem maldição. Todo lugar que tem africano lá tá f#$&@*"

O pior é saber que, longe de ser o preconceito de uma minoria, esse tipo de idéia está presente nas mentes cegas de muitos religiosos, ditos "cultos", e que têm cargos importantes, seja aqui no Brasil ou em outros países, como este "evangelista" dos EUA. É duro perceber até que ponto vai a ignorância humana (como se terremotos só ocorressem no Haiti ou na África), mas a esperança de melhora é, ainda assim, a última que morre...

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Quanto ao aparente "azar" do Haiti, creio que ele é melhor explicado por razões políticas, e não religiosas, conforme o artigo do meu amigo Tiago de Thuin explica.

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25.10.09

Somos apenas macacos?

Talvez fosse mais correto perguntar: "Somos apenas uma espécie animal que evoluiu na terra a partir de um ancestral em comum com os símios ainda não-extintos, dentre eles os bonobos e os chimpanzés?" - veja o vídeo abaixo, de Ernest Cline, e reflita sobre a resposta:

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12.5.09

Racismo é ignorância

O Projeto Genoma Humano comprovou o que quase todos os estudiosos já sabiam: só existe na Terra uma única espécie humana, chamada homo sapiens. O que chamávamos de "raça" se resume a cor da pele.

Em comparação com a pele de outros primatas, a pele humana possui menor pelagem. A cor do pêlo e da pele é determinada pela presença de pigmentos, chamados melaninas. A maioria dos autores acredita que o escurecimento da pele foi uma adaptação que evoluiu como uma defesa contra a radiação solar ultravioleta (UV); a melanina é uma substância eficaz contra esta radiação. A cor da pele, em humanos atuais, pode variar desde o castanho escuro até ao rosa pálido. A distribuição geográfica da cor da pele correlaciona com os níveis ambientais de raios UV. A cor do pêlo e da pele humana é controlada, em parte, pelo gene MC1R. Por exemplo, o cabelo ruivo e pele pálida de alguns europeus é o resultado de mutações no gene MC1R. A pele humana tem a capacidade de escurecer (bronzeamento) em resposta à exposição a raios UV. A variação na capacidade de bronzeamento também é parcialmente controlado pelo gene MC1R. (parágrafo retirado da Wikipedia)

Portanto, se nossas crianças continuarem sendo educadas na ignorância, não poderemos reclamar dos resultados desse tipo de teste:

Me parece que as pessoas muitas vezes, ao demonstrar certo racismo, não se importam de serem alertadas para o fato: levam na brincadeira. Tudo bem que a maioria felizmente não chega aos exageros de nosso passado sombrio, mas enquanto levarem "na brincadeira", a ignorância se perpetuará... Talvez seja melhor não chama-las mais de racistas, mas de IGNORANTES. Assim talvez prestem maior atenção a própria ignorância, e procurem melhorar.

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