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18.9.18

Fé e Razão, reeditado (Reflexões no YouTube)

Começo minha carreira no YouTube trazendo uma pergunta muito interessante da época do Orkut, e aproveito para falar um pouco de ceticismo, espiritualidade, médiuns, desmistificadores e, como não poderia faltar, Deus (obs.: esta é uma reedição do vídeo original, feita pelo Colossi Studio Gráfico):

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18.4.18

Fé e Razão (Reflexões no YouTube)

Começo minha carreira no YouTube trazendo uma pergunta muito interessante da época do Orkut, e aproveito para falar um pouco de ceticismo, espiritualidade, médiuns, desmistificadores e, como não poderia faltar, Deus:

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Obs.: Até que para um vídeo inicial ficou bem razoável. Tive problemas com a definição da imagem (que só foram realmente percebidos após o envio do vídeo), mas pelo menos o áudio já ficou ok. Não liguem para a "estante torta" ao fundo; minha casa não está desnivelada, mas talvez ainda leve alguns vídeos para eu deixar tudo mais "horizontal".


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3.4.18

Viviane Mosé fala sobre a sociedade em rede

Ontem tive o privilégio de ver ao vivo, na Câmara Municipal de Campo Grande/MS, a palestra do maior pensador vivo do país, que por acaso é uma mulher, e se chama Viviane Mosé.

Iniciando seu discurso há 100 mil anos, desde o surgimento da consciência humana, passando pela descoberta de nossa mortalidade, pela agricultura e pela invenção de imprensa, Mosé chega enfim a grande revolução de nosso tempo, a internet, com todo o seu potencial maravilhoso e todas as suas revelações monstruosas de nós mesmos: uma sociedade deprimida em busca de algum rumo, em geral dominada pelos discursos fáceis, radicais, mas que tem a sua frente a imensa tarefa de aprender a viver em rede, a educar e ser educada, e a abandonar uma visão excessivamente racional da vida em prol de uma presença emocional, aqui e agora...

Tudo isso tentou falar a filósofa e poetisa de um fôlego só. Estejam preparados, não é vídeo para se ver sem prestar atenção. Se trata de um verdadeiro vendaval filosófico:

Obs.: Ela começa a falar em 00:14:50. Infelizmente o Facebook não permite inserção de tempo inicial num vídeo compartilhado desta forma.


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26.2.18

O problema do niilismo: a reação romântica

Como vimos no texto anterior, o racionalismo apostava que o avanço da razão instrumental e o aprimoramento da técnica tornariam a vida humana mais satisfatória. Os primeiros racionalistas acreditavam – e muitos atuais ainda compartilham a crença – que os problemas da humanidade eram apenas uma questão técnica. O progresso tecnológico e o avanço do conhecimento científico seriam cada vez mais capazes de resolver os problemas humanos, conduzindo-nos a uma vida plena e feliz.

O que vemos na realidade é justamente o contrário. O mundo da razão, embora tenha nos trazido maiores facilidades, conforto e segurança, não foi capaz de solucionar os problemas existenciais da humanidade.  Ao invés disso, o problema do niilismo se tornou mais evidente. Índices de depressão, ansiedade e outras questões de saúde mental são cada vez mais alarmantes na modernidade.

Se, por um lado, o racionalismo avançou na instrumentalidade e no domínio da natureza, por outro apartou o ser humano das condições que dotavam sua vida de sentido. O espírito racionalista desfez-se das antigas tradições, e com elas, o senso de comunidade e o pertencimento do homem a uma história cultural, racial e familiar.

A mudança da vida rural para a urbana também implicou numa profunda transformação na vida social e subjetiva. Primeiramente, pelo contato com as grandes aglomerações. Diferente da vida rural em que o homem vivia em pequenas comunidades cujos membros pensavam mais ou menos de maneira igual, nas grandes cidades o homem passou a estar em contato com uma maior diversidade quanto aos modos de existir. No entanto, nosso funcionamento é mais tribal do que gostaríamos de admitir. Temos o desejo de formar pequenas comunidades de pessoas afins, que pensam como nós e com quem temos alguma identificação. Nossos amigos. O que faz com que nos grandes aglomerados urbanos, grande parte das pessoas seja na realidade indiferente para nós, e que nós sejamos indiferentes para elas.

O fenômeno da solidão urbana tornou-se cada vez mais sensível. Diante de muitas pessoas, o homem passou a se sentir cada vez mais sozinho, já que a presença de muitas pessoas, antes de representar reais companhias, recorda que a maioria delas pouco tem a ver com ele. O homem se sente sozinho numa multidão. Consequentemente, cresce a sensação de indiferença entre as pessoas. Se no mundo rural todos são conhecidos e próximos, na vida urbana cada um deve seguir sua vida sem muita proximidade, pois a aproximação repentina logo é desconfiável quanto às intenções.

A mudança do modo de vida rural para o urbano também alterou a relação do homem com a natureza. Se antes o homem possuía uma conexão com a terra em que nasceu, terra em que trabalhava, com os animais daquela região, a natureza se tornou cada vez mais estranha ao espírito urbano. O homem perdeu o senso de pertencimento a terra, que antes representava o lar histórico para si e seus familiares, e que agora lhe pertence apenas enquanto paga o aluguel. Isto quando não precisa mudar de território em busca de oportunidades de estudo e trabalho. Já aos animais resta viverem confinados a pequenos espaços ou condenados a serem pragas urbanas a ser exterminadas.

Essas transformações criaram no homem a sensação de alienação em relação à natureza, esta que fora tão importante nas sociedades tradicionais. A natureza – em sua magnanimidade – relembra o homem de uma transcendência maior do que si mesmo. Tal é o sentimento de reverência e profundidade que temos ao admirar uma grande montanha, uma bela paisagem litorânea ou uma floresta cheia de vida. Todo o contato do homem com a natureza dá-se hoje, de modo controlado, reduzindo os riscos que a natureza pode representar, lembrando-nos muito pouco de sua magnanimidade.

Assim como a instrumentalidade dominou a relação do homem com a natureza, ela também tem se apoderado das relações entre pessoas. É cada vez maior a queixa de que as relações modernas são excessivamente utilitárias, marcadas por investimentos pessoais pragmáticos e que pouco atendem as necessidades emocionais mais profundas do ser humano.

O homem moderno, alienado do contato humano e da natureza, encontrou no mundo da razão – o mesmo que prometia através do avanço da técnica o fim de tudo que representava dor e sofrimento: doenças, conflitos, mortes desnecessárias – uma angústia tal qual nunca antes havia experimentado.

No mundo tradicional, o homem lidava com a angústia através de uma crença metafísica reconfortante. Os mitos, lendas e narrativas religiosas estabeleciam uma ordem no mundo, um sentido para os acontecimentos, e assim o homem se sentia amparado pelos seus símbolos. O racionalismo científico demonstrou que os mitos não eram reais, e a fé parecia primitiva em relação à potência da razão. O Universo se tornou explicável cientificamente, mas ausente de qualquer sentido ou ordem. O mundo e a vida existem por alguma aleatoriedade, e nada possui um sentido maior do que aquele que nos iludimos em imaginar. No entanto, confrontar-se com este niilismo pode ser muito angustiante.

Se os conservadores condenam o niilismo, fonte do sentimento de angústia e desamparo, buscando retornar a um modelo de vida tradicional, os racionalistas acreditam no uso da razão instrumental para suplantar os problemas da existência. Para um racionalista, em algum momento a ciência alcançará o progresso tecnológico que solucionará as dores humanas. Testemunhamos isso quando as neurociências prometem a cura para os problemas existenciais através da manipulação das transmissões bioquímicas do cérebro. Como se, ironicamente, dissessem: se a vida não pode ser vivida com sentido, ela pode ser dopada com medicamentos psiquiátricos que vão nos anestesiar e provocar uma sensação de felicidade produzida.

Para muitos racionalistas parece uma solução perfeita. No entanto, para a maioria das pessoas isso soa como uma distopia digna de ser retratada num episódio da série Black Mirror. Um mundo desprovido de experiências autênticas, cuja única saída é anestesiarmos nossas angústias.

A ciência foi impotente para resolver os problemas existenciais. E por conta da sua indiferença às questões de valor, ela pouco pode nos auxiliar com questões éticas. Sabemos, por exemplo, que existiu uma intensa atividade científica no regime nazista, e a própria ciência já foi utilizada para justificar as maiores atrocidades. A técnica e a razão instrumental são armas cegas nas mãos de grupos que detém o poder e podem agir a despeito de qualquer compromisso ético.

É como uma reação a esse mundo triste fundado pelo racionalismo que surgiu o movimento artístico-filosófico do romantismo.

Os problemas existenciais, diriam os românticos, são patológicos – isto é, da lógica do pathos, das paixões. Lidar com o ser humano, e todas suas questões existenciais, é lidar com as paixões humanas. Campo no qual a ciência e a razão instrumental são inférteis.

O romantismo questionou a centralidade da razão. O homem moderno criou a ideia de si mesmo como um ser extremamente racional, mas tal racionalidade raramente é encontrada na maioria dos seus comportamentos. Filósofos como Schopenhauer e Nietzsche entendiam que o ser humano é governado por forças, vontades e instintos mais profundos. O homem é movido pela paixão, não pela razão. Os racionalistas, ao promoverem um mundo instrumental, destituíram o lugar das paixões, que foram reprimidas em nome de ideais supostamente racionais.

Segundo os românticos, os racionalistas estavam iludidos por suas crenças supostamente racionais. A razão, embora importante ao homem, não é o principal norteador do comportamento humano, mas está subordinada às paixões. Um racionalista é assim alguém que se crê racional, mas em seu íntimo está motivado por um afeto que o cega de sua própria irracionalidade.

O espírito romântico representou a rebeldia e o inconformismo com a incapacidade do racionalismo em oferecer o progresso que havia prometido. Foi também uma tentativa de entender e aceitar a natureza humana como ela realmente era, sem as idealizações da razão e da fé.

Se os racionalistas estavam, pela ciência, excessivamente interessados na realidade externa, os românticos voltaram para si mesmos. O palco da investigação romântica era o próprio espírito humano, capaz das maiores realizações da sociedade, mas também dos atos mais mesquinhos. Através da arte, demonstrava-se a criatividade, o grotesco e o sublime. A literatura representava o drama humano, seus ideais utópicos e seus desejos paradoxais. O sonho e a fantasia foram valorizados como forças criativas. Os autores românticos foram assim os grandes fomentadores da vida subjetiva, de uma existência de grande profundidade interior.

Num mundo indiferente e solitário, utilitarista e burocrático, os românticos se dedicaram a buscar uma vida autêntica como forma de superação das angústias modernas. Mas o que seria a autenticidade? Para os românticos, somos autênticos quando agimos a partir de nossas verdadeiras paixões, para além das convenções sociais ou ideais racionalistas.

A paixão é um afeto irracional. Ela não pode ser explicada, e pouco se submete a moral ou às tradições. Os desejos humanos podem ser contraditórios e contrários – mas isso não significa que sempre sejam – às demandas que o mundo coloca sobre nós. Encontrar uma vida autêntica pode muitas vezes significar entrar em conflito com a sociedade, pensamentos moralistas e desejos de outras pessoas. Ousar enfrentá-los é visto pelo romantismo como o preço para o homem encontrar a sua felicidade.

Importante situar que paixão assume um significado para além de um relacionamento amoroso-romântico entre duas pessoas. A paixão é todo tipo de afeto que liga o homem a alguma coisa, fazendo-o lutar por ela. Sua paixão pode ser um trabalho, uma ideologia, uma filosofia, uma ética de vida, e por aí vai.

Sabemos da força que o homem adquire quando está apaixonado. Se apaixonado por um homem ou uma mulher, ele desafia as impossibilidades e impedimentos para conquistar seu amor. Se ama sua pátria, ele se atira contra o exercício inimigo, sacrificando sua própria vida em nome da bandeira que carrega. Quando ama uma tarefa, realiza-a por paixão, mesmo quando suas forças lhe esgotam.

Os românticos encontraram na paixão a possibilidade de dotar a vida de sentido e valor, sem necessariamente apelar para explicações metafísicas, como faziam as tradições religiosas. O romantismo encontrou no amor – a possibilidade de encontrarmos uma paixão que nos faça desejar a vida mesmo com suas dificuldades e fracassos – a superação do niilismo.

Nietzsche falava do amor fati, amar a vida que possuímos mesmo com suas imperfeições. Camus dissertou sobre um Sísifo feliz que, mesmo diante do absurdo de uma existência sem sentido, estava satisfeito pela possibilidade de estar vivo realizando alguma coisa. Os românticos desvelaram assim um outro aspecto do niilismo.

Se o niilismo negativo é conhecido pela destruição dos antigos valores, pela falta de sentido para a vida, o niilismo positivo é justamente a criação de novos sentidos para a existência. É porque o sentido da vida não está dado, imposto pelas tradições e os laços simbólicos do passado, que o homem é livre para se apropriar de sua história e criar seu próprio sentido.

Superar o niilismo converte-se assim numa tarefa existencial. No mundo moderno, como nos faltam os referenciais simbólicos do mundo antigo – que, se por um lado eram amparadores, por outro podiam ser grilhões ao devir humano – somos livres para encontrar nossos próprios referenciais e criarmos a nossa vida a partir de nosso desejo. Nasce a ideia de que a vida não está dada, ela precisa ser conquistada. É preciso que o homem enfrente suas angústias, percorra um caminho próprio e autêntico, adquira maturidade, e assim encontre a profundidade do seu ser.

Realizar essa tarefa é o que diferenciaria aqueles que vivem uma vida autêntica daqueles que não tiveram a coragem de dar esses passos. Ainda assim, o sentido é sempre singular. Não se trata mais de um sentido da comunidade, mas cada sujeito deve encontrar os seus próprios valores. E se não há mais uma moral imposta para nos guiar, diria Nietzsche, como encontrar valores autênticos? Segundo o romantismo, através dos sentimentos.

O romantismo entende que os sentimentos são os indicadores da nossa autenticidade. Para o homem ser feliz, ele deve se guiar pelos seus reais sentimentos. O romantismo assume assim uma valorização do mundo interno, da subjetividade e das emoções humanas, colocadas em primeiro plano na questão existencial.

Para nós modernos, profundamente influenciados por essa ideia, parece óbvio pensar assim. Mas é preciso dar um passo atrás e perceber que antes do romantismo essa ideia não fazia tanto sentido como nos parece hoje. Por exemplo, se na Idade Média um homem procurava um padre para saber se deveria se casar ou não com uma mulher, o padre iria orientá-lo a partir das escrituras sagradas. Hoje, se você procurar um psicólogo ou um psicanalista com a mesma questão, ele lhe fará perceber como seus sentimentos lhe orientam em relação a essa pergunta.

Não é mais na tradição que o homem deve encontrar as respostas para sua vida, mas no seu íntimo, em seus desejos, como um verdadeiro romântico. Tal visão se tornou tão popular que é possível que até mesmo um padre mais moderno respondesse como um psicólogo se lhe fosse feita essa pergunta. O romantismo subjetivista da modernidade substituiu a moral das sociedades tradicionais como norteador ético.

Se um homem está insatisfeito com seu casamento, num mundo tradicional ele seria obrigado a se responsabilizar pelos votos simbólicos assumidos. Hoje entendemos que o sentimento deve se sobrepor à moral. Não nos espanta que alguém insatisfeito peça divórcio se o casamento não lhe vai bem. Afinal, o sentimento é mais importante que o código social. Os próprios códigos sociais se tornaram mais flexíveis, refletindo que sim, os sentimentos são mais importantes que as leis simbólicas dos homens, da sociedade e dos deuses.

O romantismo deslocou assim o problema do niilismo para uma questão sentimental, uma questão de amor. Não o amor sexual – embora na maioria das vezes seja dele que se trata – mas do amor enquanto paixão por algo que eleve o homem acima de si mesmo, sendo capaz de dotar sua vida de sentido. O mote de um romântico moderno bem poderia ser “faça o que você ama e sua vida terá sentido”.

Finalmente, a modernidade pode ser definida como o conflito entre racionalistas e românticos, em que ambas vertentes filosóficas coexistem numa complexa síntese. Vivemos numa sociedade cada vez mais técnico-instrumental, apoiada no desenvolvimento tecnológico, ao mesmo tempo em que ansiamos por um refúgio para as angústias do mundo tecnocrata na busca pelo amor, na esperança de uma vida mais autêntica, ideais evidentemente românticos.

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Oleg Oprisco

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26.1.18

O problema do niilismo: o mundo da razão

Desde que o Ocidente começou a questionar os valores e concepções do mundo antigo e tradicional, seja através da ciência, da literatura ou da filosofia, alguns tem anunciado o niilismo como a destruição da moral e a ruína do homem. Depressão, indiferença, suicídio. Mas o que representa verdadeiramente o niilismo?

Para compreender o niilismo, antes precisamos nos remeter ao contexto de sua origem, percebendo como ele se relaciona com dois movimentos filosóficos modernos: o racionalismo e o romantismo. Como o assunto é extenso, dividirei o ensaio em duas partes, cada uma destinada a situar uma visão filosófica.

Sabemos que o ser humano é o único animal que necessita não apenas de abrigo e alimento para viver, como também de sentido. Sentir a sensação de propósito para nossas atividades cotidianas, conexão com algum contexto maior e que nossa existência não seja indiferente ao mundo. Até alguns séculos atrás, as tradições culturais da comunidade em que o homem se inseria compunham narrativas que forneciam o sentido que podíamos ansiar.

O mundo antigo era um mundo regido por tradições. Toda sociedade possui seus costumes, crenças, relações, que, mais do que particularidades culturais, são as ancoragens subjetivas dos membros daquela comunidade. Sabemos quem nós somos – da onde eu vim, para onde eu vou, o que eu devo fazer – a partir das crenças e experiências que compartilhamos com os outros.

As tradições locais e culturais constituem o laço simbólico ao qual nos filiamos para constituir a nossa existência, definindo nossa raça, nossa classe social, nossas expectativas quanto ao mundo. Ser camponês ou nobre representavam perspectivas existenciais muito distintas, assim como ser grego ou chinês, homem ou mulher. Diferentes filiações implicam em diferentes obrigações, ritos e responsabilidades em cada sociedade.

A religião tinha um papel fundamental no mundo antigo. Através dos códigos morais, a religião estabelecia quais comportamentos deviam ser encorajados ou punidos, explicavam a razão da existência dos seres humanos no mundo, e oferecia às pessoas – geralmente através de uma explicação metafísica – um sentido para viverem e realizarem algo durante a vida.

Tomemos a Idade Média como exemplo. Ser homem ou mulher representavam diferentes obrigações sociais. Assim como se nobre ou camponês. A religião cristã afirmava que a nobreza era uma missão divina, de modo que o nobre deveria defender e expandir os valores cristãos, uma tarefa pela qual era valoroso inclusive morrer. Já um camponês deveria saber que Jesus amava os humildes, e que sua vida de dificuldades seria recompensada após a morte, caso obedecesse a moral cristã. A religião oferecia um lugar e um sentido à vida, mantendo também a sociedade em funcionamento na medida do possível.

Para nós ocidentais, talvez seja mais fácil imaginar a sociedade medieval por conta da proximidade cultural, mas toda sociedade tradicional – chinesa, indígena, africana, romana etc. – funcionou do mesmo modo. Através de mitos, lendas e narrativas, símbolos sociais funcionaram como norteadores de sentido para cada ser humano que viveu neste mundo.

Cada ser humano acreditou fielmente na tradição de sua comunidade, e morreu acreditando nela. Muitas vezes, morreu em nome dela, defendendo-a até que uma espada cruzasse sua garganta. As crenças não apenas nos dão um sentido para viver, mas um sentido para morrer. O homem que vive com sentido alcança também uma “boa morte”, seja ao morrer em nome de sua pátria, comunidade ou mesmo de sua filosofia.

As crenças das sociedades tradicionais também ofereciam algum reconforto nas dificuldades. Quando se perdia um ente querido ou a terra era assolada por uma alguma peste, os homens encontravam nas narrativas metafísicas um sentido, e a esperança de que os deuses um dia recompensassem os homens que permanecessem fortes.

Porém, tudo isso começou a mudar quando surgiu a ciência moderna no Ocidente. Transformações culturais ocorridas no fim da Idade Média fizeram surgir um particular modo de pensar, conhecido como racionalismo.

O racionalismo não é exclusividade da modernidade ocidental. Na Grécia Antiga já existiam filósofos que defendiam uma visão racional de mundo. Também na China Antiga e em outras civilizações existiram pensadores igualmente racionais, se podemos dizer assim. Mas, em nenhuma dessas sociedades, este modo de pensar foi capaz de suplantar o modelo tradicional. Existiram apenas enquanto pensadores marginais. Somente na sociedade ocidental que o racionalismo difundiu-se ao ponto de transformar a própria forma como existimos em sociedade.

O racionalismo – também conhecido por movimento iluminista, embora não seja indicado usar este termo por nos dar a falsa noção de que a Idade Média foi um período de obscurantismo, sem nenhum valor filosófico – representou um período em que ideias centradas na razão começaram a se difundir. A ciência questionava os conceitos e valores difundidos pela Igreja e pela fé. O interesse científico era a realidade. Entender como as coisas funcionavam: os astros, o corpo humano, o pensamento.

A ciência se difere da religião na medida em que enquanto a primeira se preocupa com os fatos, a partir de uma ideia de realismo, a religião é uma ferramenta de valor. A ciência busca entender como o mundo funciona, enquanto a religião tenta explicar o porquê de existir um mundo, e qual valor podemos atribuir aos acontecimentos dele.

O método científico não é mais do que um método de investigação da realidade. A ciência pode dizer como os planetas giram ao redor do Sol, qual solo é mais produtivo para determinado plantio ou que forma de energia é mais rentável. Mas não pode dizer por que os planetas giram, por que devemos plantar um alimento e não outro, e qual o objetivo em se acumular mais energia.

Certamente poderíamos responder, através da ciência, que o movimento astronômico tornou a vida humana possível, que precisamos do alimento para viver, e que energia é necessária para as atividades humanas. Mas isso é mera questão técnica. Pragmática. Nada disso diz respeito ao sentido da existência, apenas às necessidades da manutenção da existência em si. A religião pode fornecer um sentido para a existência, e por isso religião é mais do que uma mera estrutura institucional. A própria etimologia da palavra (religare) está relacionada com “religação”, a conexão do homem com um propósito maior.

A emergência da ciência teve um efeito corrosivo ao modo de vida tradicional. A ciência, interessada pela verdade dos fenômenos, entrou em choque com o modelo tradicional de pensamento. O método científico, apoiado no ceticismo, questionou as verdades estabelecidas pela fé e a autoridade. Os valores e sentidos atribuídos pela religião e o pensamento tradicional.

Num mundo marcado pela ordem tradicional, em que ser homem ou mulher, nobre ou camponês, cristão ou judeu, representavam perspectivas existenciais muito bem definidas do seu nascimento à morte, o racionalismo começou a difundir valores como liberdade individual e tolerância à diferença. O liberalismo entendia o indivíduo como livre e responsável pelo seu destino, destituindo assim os laços simbólicos e tradicionais que o situavam enquanto raça, classe ou mesmo gênero.

O mundo racional dependia também da liberdade de expressão e da diversidade de pensamento. As ideias deveriam se mostrar verdadeiras através da demonstração científica e do debate, não pela autoridade. Isto, por exemplo, destitui o lugar de um velho pajé ou xamã de uma aldeia indígena. Numa sociedade racionalista, o saber do pajé não possui valor por ele ser o pajé, mas apenas se este saber puder ser verificável num método confiável.

A ciência questionava os valores tradicionais, concebidos como verdadeiros, para adotar uma verdade meramente pragmática, sempre parcial. O único critério que importa à ciência é a capacidade de um fenômeno ser explicado, previsto e, portanto, controlável.

O racionalismo deu assim início à era da técnica, em que os problemas humanos são vistos como questões operacionais. Cabe à ciência entendê-los adequadamente para encontrar sua solução. Doenças podem ser curadas se a medicina descobrir qual a sua causa. A fome pode ser reduzida se empregarmos sistemas mais eficazes de agricultura e pecuária. A miséria pode acabar se a política adotar sistemas econômicos eficientes em distribuir a riqueza. Distâncias podem ser encurtadas com a melhoria dos meios de transportes e comunicação.

Vivemos tempos de uma grande corrida tecno-lógica. Na crença de que o desenvolvimento técnico-científico poderá resolver nossos problemas, estamos sempre atrás de novos computadores, carros, ferramentas, aplicativos que facilitem nossas vidas. A corrida, porém, parece interminável. A cada ano surgem novidades sem precedentes.

O mundo antigo era um mundo de estabilidade. As pessoas nasciam, cresciam e morriam num mundo muito parecido. Ideias, costumes e ferramentas permaneciam praticamente intactos no transcorrer desse tempo. Já o mundo moderno assumiu um ritmo de transformações cada vez mais crescente. Não sabemos se nos próximos meses surgirá uma nova tecnologia que revolucionará novamente nosso modo de viver. Diante de tamanha imprevisibilidade, não há espaço para a transmissão de qualquer tradição. O homem deve estar sempre se adaptando ao novo, seja em seu trabalho, nas suas relações, ou em suas crenças.

Se os primeiros racionalistas tinham a ilusão de que a ciência iria um dia desvelar o funcionamento do Universo, prescindindo completamente da religião, alcançando um saber absoluto da realidade, essa posição hoje parece infundada. Como método, a ciência não alcança verdades definitivas, mas entendimentos parciais da realidade. A possibilidade de descobrir algo novo está sempre aí, não apenas porque a realidade pode ser mais profunda do que julgamos previamente, mas a própria ciência é sempre limitada pelo seu meio de investigação. Teorias científicas não simplesmente descrevem a realidade, como também as criam na medida em que selecionam evidências a favor, descartam índices contrários e dão privilégio a determinado modo de conceber o mundo. Não há uma teoria absoluta, mas diferentes teorias podem coexistir por tratarem do mesmo fenômeno por perspectivas diferentes, sem que um precise ser reduzido ao outro. O mundo em si permanece como absurdo e muito mais incompreensível do que nossas técnicas antropocêntricas poderiam alcançar.

A ciência também pode se tornar um pensamento religioso quando se acredita que ela é mais do que apenas um método para entender o funcionamento da realidade. Chamamos de cientificismo a crença de que a ciência, assim como a religião, pode dotar de sentido e valor a realidade que investiga. Um cientificista é alguém que acredita que a ciência – ou seu determinado modo de conceber a ciência – é uma visão de mundo onipotente para explicar todos os fenômenos, mesmo àqueles que extrapolam seu escopo, e qualquer outra forma de pensamento seja irrelevante. A mais alta demonstração da arrogância racionalista.

Porém, se levarmos a ciência e o pensamento racional a sério, não são às certezas que eles podem nos levar. A ciência questiona aquilo que pensamos ser verdadeiro – demonstrando que crenças religiosas sobre o céu e o inferno transmitidas por séculos parecem pouco prováveis, ou que classe social, casta ou gênero não definem quem eu realmente sou, pois não há qualquer destino divino para o que eu posso ser. Em resumo, a ciência libertou o homem dos grilhões do pensamento tradicional. No entanto, ela descartou algo junto com isso.

Mitos e lendas não são formas primitivas de explicar o mundo e transmitir conhecimento. As narrativas tradicionais compunham os alicerces simbólicos de uma comunidade. Através delas, os indivíduos identificavam-se com seus deuses, heróis ou antepassados, encontrando sentido para suas existências, dando continuidade a uma tradição maior do que eles mesmos.

O mundo da razão desprivilegiou as narrativas em favor das explicações lógico-matemáticas, fisicalistas e bioquímicas sobre o homem, esvaziando a vida humana de um sentido simbólico. Se o mundo moderno se tornou um lugar mais seguro e confortável para viver, amparado pelo avanço tecnológico crescente, parece ter se tornando também um mundo menos empolgante. Os altos níveis de depressão e suicídio dos países desenvolvidos indicam isso.

O niilismo, o sentimento de ausência de sentido para a vida, surgiu quando a razão moderna dissolveu a tradição como princípio norteador para a vida humana. A ciência destruiu as certezas do mundo antigo, mas foi incapaz de afirmar qualquer novo valor, já que isso não é de seu escopo.

A relação do homem moderno como o mundo foi precisamente descrita pelo personagem Morty num episódio da série Rick e Morty: “ninguém existe por um motivo, ninguém pertence a algum lugar, todos vamos morrer”.

Se a frase lhe parece desanimadora, essa foi exatamente a crítica dos conservadores ao mundo moderno. Tristeza, banalidade e indiferença. Os conservadores defendem que precisamos retomar as antigas tradições, inibir a razão, além de incentivar experiências simbólicas de transcendência através da fé.

Porém, o relógio da História não anda para trás. Não há retorno para as mudanças operadas pela ciência. Não por acaso, geralmente tratamos os conservadores como fundamentalistas loucos, que devem ser ridicularizados ou temidos. Ao mundo moderno, parece que há algo mesmo de loucura em se ter uma grande certeza sobre alguma coisa.

Coube ao movimento romântico dar uma resposta muito mais interessante ao problema do niilismo do que puderam fazer o conservadorismo e o racionalismo. Trataremos disso no próximo texto.

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito das imagens: [topo] Google Image Search; [ao longo] Rick and Morty

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2.8.12

O senhor do destino

Tudo o que temos de decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado (Gandalf em O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien).


Um dos maiores sábios da Antiguidade nasceu escravo, mas isso não o impediu de ter sido uma das almas mais livres do mundo. Epicteto nasceu em Hierápolis – na atual Turquia – em cerca de 55 d.C., e provavelmente foi levado ainda jovem para Roma, onde teve como mestre Epafródito, que por sua vez servia ao então imperador Nero. Tendo reconhecido a sabedoria e o potencial de seu escravo, Epafródito o declarou homem livre para seguir os ensinamentos de Musônio Rufo, filósofo estoico que o tomou como discípulo.

Epicteto foi manco desde a juventude, provavelmente devido ao reumatismo, mas foi com a razão e as ideias que caminhou muito além de seu professor no estoicismo, uma escola de filosofia helenística fundada em Atenas por Zenão de Cítio, no início do século III a.C. Os estoicos ensinavam que as emoções destrutivas resultavam de erros de julgamento, e que um sábio não deveria “se deixar abalar” por tais emoções.

Os estoicos se debruçavam na relação dinâmica entre o determinismo cósmico e a liberdade humana, defendendo a crença de que é virtuoso manter uma vontade que esteja de acordo com a natureza. Por causa disso, os estoicos apresentaram a sua filosofia como um modo de vida, e pensavam que a melhor indicação da filosofia de uma pessoa não era o que teria dito, mas sim como teria se comportado em vida.

Epicteto foi, junto com Sêneca, um dos estoicos tardios que defendiam que a virtude é suficiente para a felicidade. O sábio que nasceu escravo, entretanto, teve uma existência muito mais dura do que Sêneca, um intelectual nascido entre uma família nobre romana [1]. Sua fama, no entanto, se deveu sobretudo ao seu exemplo de vida. Como Sócrates e outros sábios antigos, jamais deixou nada escrito; foi graças a Ariano, um de seus discípulos, que nos chegou a modernidade as anotações de seus cursos: os Discursos (Diatribes) e o Manual (Enchiridion) de Epicteto, sendo o último apenas um resumo do primeiro.

Ao longo do tempo, a despeito de terem influenciado inúmeros grandes filósofos e religiosos posteriores, os estoicos também foram alvo de muitas críticas, usualmente por quem mal conheceu sua obra, ou a interpretou de forma apressada, ou ainda, como no caso de Nietzsche, que a transportou para um contexto inadequado, dentro do cristianismo...

Quando Epicteto falava em Zeus, o deus dos deuses, ou nos deuses como “um todo, um conjunto divino”, não se referia a Divindade da mesma forma que muitos religiosos de sua época, nem da mesma forma que a grande maioria dos cristãos que lhe foram posteriores. Sim, de fato Epicteto compreendia na Divindade uma substância, uma força única, mas daí a imaginar que ele via a Divindade como os cristãos veem a Deus é um passo muito grande, que talvez não se sustente:

“Este mundo é uma única cidade, a substância da qual ele é feito é una e, necessariamente, existe uma revolução periódica, os seres cedem lugar uns aos outros, uns se dissolvem enquanto outros aparecem, uns estão fixos e outros em movimento. Tudo está repleto de amigos, antes de tudo os deuses, em seguida os homens que a natureza uniu intimamente uns aos outros. Uns são dados a viver juntos, outros a se separar; é preciso regozijar-se por estar juntos, e não se afligir por dever se separar. O homem, além de sua grandeza natural e de sua faculdade de desprezar o que não depende da sua escolha, possui ainda esta propriedade de não criar raízes e de não estar amarrado à terra, mas de ir de um lugar a outro, seja pressionado pelas necessidades, seja simplesmente para poder contemplar.” (Discursos, III, 24)

O sábio estoico defendia o uso da razão acima das emoções destrutivas, que poderiam levar ao desespero e a angústia permanentes, mas não se deve imaginar que ele era contrário as emoções em geral, tanto pelo contrário! Para Epicteto, a existência era uma grande festa, uma grande oportunidade de se contemplar a grandiosidade da natureza, e de se caminhar, passo a passo, para cada vez mais próximo da Divindade. A razão na Antiguidade grega era muito mais o logos, uma razão conectada ao Cosmos, aos desígnios da natureza, a intuição e a experiência mística e religiosa, do que propriamente a razão fria e demasiadamente científica, conforme a maioria de nós a tem interpretado nos tempos modernos. O que os estoicos procuravam suprimir através de sua “medicina mental” eram as emoções destrutivas, e jamais as prazerosas.

De fato, a felicidade e o contentamento com a existência, a paz de espírito, eram os grandes objetivos a serem alcançados pelos estoicos – e isso não tinha nada a ver com “ir para o céu”. Para tais sábios, o céu se construiria no espírito de cada ser, quando devidamente conectado ao Cosmos. Mas, se por um lado alcançar tal conexão com a Divindade era o grande objetivo da vida, também era necessário compreender que a festa não deveria durar para sempre:

“A vida é como uma navegação. Quando o barco está atracado, e vais em busca de água, no teu caminho poderás também encontrar uma concha ou uma cebola, mas é preciso guardar o espírito direcionado para o barco e mirá-lo constantemente para ver se acaso o piloto não te chama, e se te chama, deixar tudo isso, para não ser arrastado a bordo como um animal. Assim, na vida, se no lugar da concha ou da cebola está uma mulher e um filho que te foram dados, nada te impeça. Mas, ao apelo do piloto, corre para o barco, deixando tudo para trás, sem retornar. E se és velho não te distancies muito do barco para não correres o risco de faltar à chamada.” (Manual, VII)

Longe de ser uma atitude covarde e passiva, como muitos têm interpretado apressadamente, a calma estoica perante os infortúnios da vida, e até mesmo perante o fim da vida, é antes de tudo uma grande lição de coragem. Epicteto não ignorava os infortúnios, a escravidão, e nem mesmo a morte, e viveu sempre com o espírito atento para a possibilidade do barco vir lhe buscar a qualquer momento (como de fato pode o ser para cada um de nós); mas foi exatamente por saber pesar os infortúnios e os benefícios, os prós e os contras da existência, e por ter percebido que os benefícios (mesmo há 2 mil anos atrás) ainda excediam em muito os infortúnios, que viveu sua vida em paz e tão feliz quanto era possível.

A maior lição dos estoicos sempre será esta que está muito bem descrita no início do seu Manual:

“As coisas se dividem em duas: as que dependem de nós e as que não dependem de nós. Dependem de nós o que se pensa de alguma coisa, a inclinação, o desejo, a aversão e, em uma palavra, tudo o que é obra nossa. Não dependem de nós o corpo, a posse, a opinião dos outros, as funções públicas, e, numa palavra, tudo o que não é obra nossa. O que depende de nós é, por natureza, livre, sem impedimento, sem contrariedade, enquanto o que não depende de nós é fraco, escravo, sujeito a impedimento, estranho.” (Manual, I)

Não deve ter sido a toa que Ariano iniciou suas anotações exatamente por esta – parece-me que esta foi à primeira lição que Epicteto aprendeu com seu professor, Musônio, e provavelmente a primeira que também passava adiante, ele mesmo, para seus discípulos. Mas o sábio que nasceu escravo não era apenas um teórico: sua própria vida foi sua maior obra, seu grande exemplo para posteridade. O desconhecido que nasceu escravo e, não obstante, através do logos, tornou-se senhor de si mesmo, e por consequência, senhor do próprio destino – um genuíno livre-pensador.


Não temo a morte. Peço a Deus que não me dê um dia a mais de vida se eu não puder me orgulhar desse dia (José Alencar, ex-vice-presidente do Brasil, que travou uma luta de 13 anos contra o câncer, sempre atento ao chamado do piloto).

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[1] Mas Sêneca, por sua vez, teve um final bem mais dramático, condenado injustamente ao suicídio (sem julgamento), pela acusação de ter tramado para o assassinato do imperador Nero – na morte, porém, provou que uma vida de filosofia não foi em vão, foi-se “de modo muito sereno”.

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Vídeo
Este artigo serviu de base para o roteiro do vídeo Epicteto e os Estoicos no canal Conhecimentos da Humanidade do YouTube.

Crédito das imagens: [topo] Macduff Everton/Science Faction/Corbis; [ao longo] Paul Edmondson/Corbis

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10.4.12

Comentário: que é a fé?

Comentário das respostas da pergunta “que é a fé?”, parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori responderam a 7 perguntas sobre o tema. Para saber mais, leia a premissa da série.

[Raph] Estamos em alguma parte relativamente gélida do globo, e existe um lago aquecido pelo calor que brota do solo, para onde alguns se dirigem e mergulham durante as tardes de vento mais frio. Lá, os nadadores dizem que são mais felizes do que aqueles que estão de fora, pois não são obrigados a suportar todo o rigor do inverno... Os que ficam de fora, porém, alegam ter uma excelente razão para tal: dizem que os vapores que brotam das águas do lago também são psicoativos, e provocam alucinações que, com o tempo, terminam por minar a racionalidade dos nadadores. Já os nadadores se defendem: na realidade, é o frio intenso que acabou por congelar o coração daqueles que se abstiveram do mergulho, e por isso mesmo não foram escolhidos pelo “espírito do lago” para essa tal benção consoladora.

É assim que muitos dos que se alistaram em guerras entre a fé e a razão, o ceticismo e a crença, a espiritualidade e a ciência, gostariam que você imaginasse tal cenário... E por acaso alguém não poderia simplesmente mergulhar no lago dia sim e dia não, para que não se acostumasse demasiadamente nem com o calor da fé, nem com o frio da razão, ao ponto de se esquecer de uma dessas potencialidades do ser? Não, é óbvio que não, dirão os radicais, os dogmáticos: ou você crê, e é salvo, ou estará condenado ao inferno gelado; ou você se abstém por completo de mergulhar, ou estará infectado pelo veneno dos vapores da fé... São apenas dois lados de uma mesma moeda. O caminho do meio, apesar de ser talvez o mais árduo de se seguir, é de longe o mais recompensador – ou, pelo menos, foi seguindo o caminho do meio que muitos de nossos grandes cientistas e espiritualistas entraram para nossa história como alicerces do nosso conhecimento.

Em seu curto e demolidor A vontade de crer [1], o filósofo americano William James, um dos fundadores da psicologia e do pragmatismo, nos traz uma explicação um tanto quanto “vulgar” para o real motivo de nossas crenças, mas que, não obstante, parece ser o caso na grande maioria das vezes: “Nossa razão estará perfeitamente satisfeita, em 999 em cada 1.000 de nós, se puder encontrar alguns argumentos para apresentar no caso de nossa credulidade ser criticada por alguém. Nossa fé é a fé na fé de outro e, nas maiores questões, esse é quase sempre o caso. Nossa crença na própria verdade, por exemplo, de que existe uma verdade e de que nossa mente e essa verdade são feitas uma para a outra – o que é isso senão uma afirmação apaixonada de desejo, em que nosso sistema social nos dá suporte? Queremos ter uma verdade; queremos acreditar que nossas experiências, nossos estudos e nossas discussões devem nos colocar numa posição continuamente melhor para isso [...] Mas, se um cético pirrônico [2] nos perguntar como sabemos tudo isso, será que nossa lógica poderá encontrar uma resposta? Não! Certamente não poderá. É apenas uma volição [vontade] contra a outra – nós, dispostos a encarar a vida com base em uma confiança ou pressuposição que ele, por seu lado, não acha importante adotar”.

Para os primeiros céticos, seguidores do pirronismo na antiga Grécia, o “caminho do sábio” consistia em refletirmos sobre três questões fundamentais: Primeiro devemos perguntar o que são as coisas e de que são constituídas. Segundo, como estamos relacionados a estas. Terceiro, perguntar qual deve ser nossa atitude em relação a elas. Os próprios pirrônicos respondiam: Sobre o que as coisas são, podemos apenas responder que não sabemos nada. Sabemos apenas de sua aparência, mas somos ignorantes de sua substância íntima. A mesma coisa aparece diferentemente a diferentes pessoas, e assim é impossível saber qual opinião é a correta. A diversidade de opiniões entre os sábios, como entre os leigos, prova isso. Podemos ter opiniões, mas certeza e conhecimento são impossíveis. Daí nossa atitude frente às coisas (a terceira pergunta) deve ser a completa suspensão do julgamento. Não podemos ter certeza de nada, mesmo as afirmações mais triviais.

Dessa conclusão radical, enraizada nos primórdios da própria filosofia, podemos retirar que a única certeza de que temos é a certeza de que existimos, de que somos um ser pensante, e assim o sendo, de que podemos tão somente refletir e filosofar acerca do mundo sem, no entanto, jamais termos certeza de qualquer outra coisa... Os empiristas, grandes entusiastas do método científico, jamais chegaram a um ceticismo tão radical: para eles, o fato de algo poder ser detectado por nossos sentidos já é alguma boa indicação de que efetivamente exista. E este algo, se puder ser visto por muitos outros de nós, e em todos concordando em que ele realmente é deste ou daquele jeito, podemos talvez afirmar, enfim: sim, isto existe!

Mas pode não ser tão simples. Digamos que os nadadores do lago tenham visto muitos cisnes nadando de uma margem à outra, até que saíssem para outros cantos. Ora, ao longo dos anos, centenas de cisnes passaram pelo lago, e todos eram brancos. Aqueles que estão fora do lago prontamente chegaram a uma conclusão inteiramente baseada na observação: “Interessante, cisnes existem, e todos os cisnes são brancos”. Mas uma criança que mergulhava no lago sempre insistia: “Não, uma vez eu vi um cisne negro, mas ele passou sorrateiro na margem oposta e ninguém mais o viu”. Ora, ocorre que apenas alguns poucos nadadores tinham fé na afirmação do menino, aqueles racionais encasacados do lado de fora somente davam de ombros, irônicos: “É, pode ser, quem vai saber? Ah, as crianças e a sua imaginação!”... Até o dia em que um cisne negro nadou em meio a todos no lago, e foram forçados a mudar de opinião, e de crença (ou descrença).

Karl Popper, um filósofo austríaco do século XX, tentou resolver tal problema através do falsificacionismo. Segundo ele, o que existem são teorias que podem ou não ser confirmadas em experimentação, e não conclusões finais e derradeiras. Por exemplo, no caso dos cisnes: para Popper o fato de todos os cisnes serem brancos seria tão somente uma teoria, incompleta no que tange aos cisnes, como sabemos... A partir do momento em que um único cisne negro é descoberto, a teoria se ajusta e adapta, e passa a afirmar: “A grande maioria dos cisnes é branca, mas existem alguns cisnes negros”. Se acaso um dia viessem centenas de cisnes negros, ou amarelos e azuis, nadando pelo lago, a teoria teria de ser novamente revista [3].

Ora, se estendermos essa ferramenta do pensar elaborada por Popper para a região da crença, e não somente da ciência, teremos algo muito parecido com um caminho do meio, um certo equilíbrio entre a fé e a razão: Podemos, sim, crer em muitas coisas que jamais foram detectadas, porém, na medida em que muitos de nós experienciam tais coisas subjetivamente, e trocam ideias entre si acerca delas, e muitas dessas ideias se assemelham umas com as outras, podemos dizer que chegamos a hipóteses, teorias lógicas acerca de tais experiências. E, naturalmente, umas serão mais embasadas do que outras, embora todas estejam ainda além da experimentação científica, além da “prova cabal” de que efetivamente existam nalgum lugar. No fundo, tudo o que existe é o que nossa própria mente é capaz de detectar, conceber, elaborar, interpretar, imaginar, e crer... Não há como realmente escapar do risco de crermos em algo que, no fim, jamais existiu. Decerto, na verdade, fazemos isso o tempo todo. A grande questão é que devemos sempre considerar que podemos estar errados, e que dogmas e textos infalíveis nunca foram saudáveis, nem para a espiritualidade, nem para a ciência.

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[1] Publicado no Brasil pelas Edições Loyola (coleção Leituras Filosóficas).

[2] Pirro de Élis foi um filósofo grego da antiguidade (360 - 270 a.C.), fundador do pirronismo, e considerado por muitos como o primeiro cético. Sim, o ceticismo nasceu da filosofia, e não da ciência.

[3] Mas mesmo o falsificacionismo de Popper não está imune a erros graves. Se considerarmos, por exemplo, a teoria copernicana de que a Terra gira em torno do Sol, temos que quando ela foi inicialmente elaborada, críticos indicaram duas observações que poderiam falsificá-la:
Primeiro, se a Terra se move, um objeto derrubado de uma torre alta deveria cair em ângulo, não na vertical. Pois se a Terra se move um pouco enquanto o objeto está caindo, ele deveria cair a certa distância do ponto diretamente abaixo daquele em que foi solto. Mas, claro, quando objetos são soltos de torres, caem sempre na vertical. Essa observação parece falsificar a teoria de imediato.
Segundo, se a Terra gira em torno do Sol, as estrelas fixas deveriam parecer se mover de um lado para o outro do nosso campo de visão ao longo de um ano. No entanto, nenhum movimento aparente como esse, ou “paralaxe”, era observado. Alguns tentaram defender Copérnico insistindo que as estrelas deviam estar distantes demais para que a paralaxe fosse detectável pelos instrumentos da época (o que de fato é verdade). Mas essa era, é claro, uma resposta ad hoc (assim como ocorre atualmente com a Teoria das Cordas).
Ainda assim, apesar dessas e outras objeções, a teoria de Copérnico não foi rejeitada, e mais tarde cientistas provaram que estava correta. Se, entretanto, todos os cientistas seguissem a risca o falsificacionismo, a evolução da ciência se atrasaria por muitos e muitos anos, ao ignorar a teoria copernicana.

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Crédito da foto: Peter Johnson/Corbis

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20.3.12

Citações (3)

Algumas citações minhas e de outros autores. Elas geralmente já terão aparecido anteriormente na página do Textos para Reflexão no Facebook...


Eles tentam te convencer que existem apenas os "08" e os "80":

Os crentes fervorosos, os "08", que acreditam que tudo que há, e todas as espécies de vida, surgiu de uma só vez há alguns milhares de anos, que Adão e Eva foram expulsos do Paraíso, que Deus é um velho de barba muito branca, senhor dos exércitos, que necessita que o aceitemos para que possamos sentar junto dele em um Céu de ócio eterno...

Os ateus "altamente racionais", os "80", que sabem (ou tem convicção, ou qualquer coisa, menos fé) que todas as espécies de vida surgiram de um ser unicelular primordial, que se desenvolveram através de uma seleção "aleatória" ao longo de bilhões de anos, que não existe Deus nem alma nem mente, que tudo é matéria, e somos tão somente máquinas celulares complexas...

Muita calma nessa hora! Entre 8 e 80 existem pelos menos mais uns 72 caminhos e, quem sabe, exista até mesmo o caminho "81". É chato ter de admitir que não podemos classificar todas as pessoas e todas as crenças (ou convicções, ou sabe-se lá o que) em apenas dois grupos, mas é assim que a Natureza opera. 

Quem está no meio do caminho, também pode estar em todos os caminhos ao mesmo tempo, e em nenhum deles.

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Hoje em dia é muito simples armazenar e divulgar informações, mas na pré-história nossos sábios ancestrais eram obrigados a confiar apenas na memória, na tradição oral e em alguns parcos registros pictóricos em cavernas guardadas aos iniciados. Não porque se tratasse de uma “elite” que queria guardar o conhecimento para si, mas exatamente o oposto: por se tratar de seres que tanto valorizavam o conhecimento, que os “inseriam” na mitologia, pois que sabiam que apenas a mitologia iria sobreviver àqueles tempos inóspitos (inclusive antes da invenção da escrita).

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Primeiro o racionalismo relegou toda mitologia arcaica há mera superstição, porém, ao se deparar com os mistérios da mente humana, foi obrigado a elaborar teorias acerca não somente da origem dos mitos na pré-história, como da razão de eles permanecerem “vivos” até os dias atuais. Enquanto o próprio Joseph Campbell, com sua teoria do Monomito, teoriza que toda a mitologia humana se concentra em ideias universais da psique, Carl Jung fala em um Inconsciente Coletivo, e mesmo Richard Dawkins elaborou o conceito dos Memes. Nenhuma dessas teorias é “comprovada”, mas alguns dos materialistas eliminativos, a despeito de sequer acreditarem na existência de uma mente humana, curiosamente adotaram os Memes como uma “teoria quente”.

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Embora os conhecimentos gerais, assim como as regras básicas de convívio em sociedade, possam e devam ser ensinados a todos, é inútil pretender que pessoas são como computadores de informação, e não como seres sensíveis, capazes de interpretar o mundo a sua volta, capazes de uma vontade própria, particular. Enquanto o sistema educacional continuar tratando seres como máquinas, a arte e a filosofia terão grande dificuldade em aflorar, e a ciência se reduzirá aos “mandamentos da Academia”.

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Dogmáticos podem pensar que o sentido da vida já está muito bem descrito em seus manuais de verdade absoluta ou códices de ciência infalível. Porém, na medida em que o sentido da vida é pessoal e intransferível, o sentido da sua vida, e de ninguém mais, o dogma é apenas uma represa para um rio que busca, eternamente, desaguar no oceano da liberdade.

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Charles Russell, o primeiro presidente das Testemunhas de Jeová, "profetizou" que o mundo acabaria em 1914. Você pode achar que ele se equivocou, mas há algumas Testemunhas que creem que o mundo já acabou, e que temos desde então vivido uma ilusão em alguma espécie de inferno, ou purgatório, ou algo parecido... Tais Testemunhas creem que o mundo é uma ilusão, e somente nossas almas existem.

Os materialistas eliminativos são filósofos da mente que creem piamente numa ideia radical: a de que a própria mente, nosso senso de um "eu", a consciência e tudo mais, nada disso existe realmente. Tudo se reduz, em realidade, ao tilintar neuronal do cérebro humano, segundo esta crença "peculiar"... Tais materialistas creem que o "eu" é uma ilusão, e somente a matéria existe.

Penso eu que tais interpretações do mundo são igualmente radicais, e igualmente equivocadas... Mas pelo menos as Testemunhas admitem que se baseiam inteiramente na fé, enquanto alguns dos materialistas eliminativos creem piamente que são absolutamente racionais, que não possuem fé alguma.

Para uns, o que existe são apenas as almas de Deus. Para outros, o que existe são apenas as partículas do Acaso.

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Crédito da imagem: Erika Koch/Corbis

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16.2.12

O homem que sabe

Eduardo Marinho nasceu em família rica, serviu o exército e tentou cursar Belas Artes, mas devido a pressão da família resolveu tentar o Direito. Um dia, desistiu de fingir que seguia algum caminho, e decidiu viver o próprio caminho. Trancou a faculdade, virou artista de rua e amigo de mendigos, rodou o país e se tornou um grande antropólogo do mundo atual. Eduardo, sim, é o homem que sabe. Nesta palestra no TEDx DaLuz ele nos passa um pouco desta sabedoria adquirida:

» Veja também este vídeo onde ele expõe opiniões um pouco mais radicais

» Veja também o seu blog, Observar e Absorver, com trechos de livros publicados pela Navilouca


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15.2.12

Schiller e a dimensão estética

Texto de Viviane Mosé em "O homem que sabe” (Ed. Civilização Brasileira) – pgs. 147 a 150. As notas ao final são minhas.


Somente através da beleza da manhã é possível penetrar a terra do conhecimento (Schiller)


Para Anatol Rosenfeld [1], a concretização de muitas ideias kantianas apenas esboçadas coube a Schiller, especialmente no domínio da estética.

O homem, pensa Schiller, é determinado pelas forças da natureza e, na grande maioria das vezes, perde para ela. A única liberdade humana consiste em não se deixar escravizar, o que implica exercer o senso moral por meio da linguagem e do pensamento [2]. A capacidade humana de criar valores representa o domínio próprio do homem; eles são o modo humano de se contrapor à natureza, por isso não derivam da necessidade, mas da liberdade. É por “claro saber e livre decisão” que o homem troca o estatuto de independência, no estado natural, pelo do contrato, no estado moral. [3]

No entanto, esta contraposição entre a natureza de um lado e o homem de outro se compõe com um combate que pode aniquilar o homem, porque gera uma luta sem fim [4]. Somente o senso estático, ele diz, como um terceiro caráter, pode fazer a ponte entre estes dois domínios [5]; é ele que desfaz esta polaridade, porque aproxima o que a razão afasta. Se a razão teórica precisa decompor, separar, o senso estético se caracteriza por compor, aproximar. O senso estético existe para reunir o que a razão teve de separar.

Enquanto apenas luta contra a natureza, por meio do conhecimento que fragmenta o mundo tentando conhecê-lo ou dominá-lo, o homem perde, porque, em última instância, é sempre finito, mortal [6]. Mas ele pode, auxiliado pelo senso estético, não lutar contra o mundo, o que implica em não fragmentá-lo, mas se ver inserido nele e, fortalecido pelo sentimento de pertencimento, tornar-se capaz de lidar com as perdas. A faculdade do juízo, diz Kant, é a capacidade de pensar o particular contido no universal, por isso somente ela é capaz de desfazer a unidade fictícia e provisória do sujeito particular, reinserindo-o na totalidade que o sustenta e alimenta [7]. É a sua consciência individual, ou seja, é o saber de si como provisório que o faz sofrer. Quando o homem se sente inserido no todo, o sofrimento particular perde importância e ele, então, não sucumbe, e vence a natureza não pela força, mas pelo puro exercício da liberdade moral, que fortalece, amplia, alarga a alma.

A faculdade de julgar, ao se construir como uma livre combinação entre as faculdades, sem a necessidade de emitir um juízo sobre o objeto, mas sobre si mesma, termina por entrar em uma relação de harmonia com a natureza, dando esta sensação de pertencimento, de entendimento sem conceito, de participação [8]. A dimensão estética, o lugar por excelência do sentir, que elabora os afetos, é também aquilo que nos alimenta e fortalece [9]. Em vez de apenas buscar vencer objetivamente o mundo, o homem pode, ainda e fundamentalmente, fortalecer a si mesmo para ser capaz de lidar com o mundo. A elaboração do sentir, que acontece no juízo de gosto, resulta neste fortalecimento do homem, especialmente porque se dá no próprio homem, não está em relação de causalidade com nada exterior a ele, com nenhum objeto. O senso estético diz respeito a como nos sentimos em relação ao mundo, não diz respeito ao mundo, por isso se dá no domínio da liberdade e não da necessidade.

Mas a elaboração da faculdade de sentir também interfere no domínio teórico da razão, quer dizer, em nossa inteligência argumentativa, filosófica e científica. Nossa capacidade estética é uma das três dimensões essenciais da razão pura, que, para exercer o seu domínio, como razão teórica, prática ou estética, precisa da integração destas três faculdades: sensibilidade, imaginação, entendimento [10]. A cultura deve, por isso, cuidar para que a razão se institua pelo desdobramento integrado dos diferentes domínios que a compõe, o que exige uma mobilização integral das potencialidades do humano. Um caráter pleno é aquele no qual a saúde da cabeça, do pensamento, e a pureza da vontade, do corpo, formam um todo [11].

Esta totalidade dos diferentes domínios do humano, que Schiller percebe fragmentados e isolados em seu tempo, no entanto, estava harmoniosamente integrada na cultura grega arcaica:

“Naqueles dias do belo acordar das forças espirituais, os sentidos e o espírito não tinham, com rigor, domínios separados. [...] Por mais alto que a razão subisse, arrastava sempre consigo, amorosa, a matéria, e por finas e nítidas que fossem as suas distinções, nada ela mutilava. Embora decompusesse a natureza humana para projetá-la, aumentada em suas partes, no maravilhoso círculo dos deuses, não o fazia rasgando-a em pedaços, mas sim compondo-a de maneiras diversas, já que em deus algum faltava a humanidade inteira. Quão outra é a situação entre nós mais novos. [...] Eternamente acorrentado a uma pequena partícula do todo, o homem só pode formar-se enquanto partícula.” [12]

***

[1] Crítico e teórico de teatro germano-brasileiro que escreveu a introdução de Cartas sobre a educação estética da humanidade, de Friedrich Schiller. O texto de Mosé é centrado nesta obra específica do filósofo alemão.

[2] Por isso todo livre-pensador, religioso ou não, irá defender que só é verdadeiramente livre quem exercita seu próprio pensamento.

[3] O contrato da vida em sociedade pede que respeitemos a liberdade dos outros e, consequentemente, por vezes limitemos a nossa. Mas é de bom grado que o sábio limita a própria liberdade, pois no fundo sabe que dessa “limitação”, virá liberdade ainda maior – o amor.

[4] Darwin a chamou de “a guerra da fome e da morte”. Obviamente no estágio humano nossa questão com a natureza não é mais exatamente a sobrevivência através da caça e coleta, mas a busca pela vivência em um mundo infestado por ideias em conflito.

[5] A ponte entre um território de morte e um território de vida – o amor. Como podem ver este remédio-pensamento tem mesmo inúmeras utilidades.

[6] E, se fosse infinito e imortal, não haveria necessidade de lutar contra a natureza, em todo caso. O homem, como aliás todo ser vivo tendendo a consciência, é um ciclo de existências frágeis e finitas, mas que se renovam e renovam, tendendo a uma consciência cada vez mais apurada. Sem a morte não haveria vida cíclica, nem evolução alguma.

[7] O Chefe Seattle já dizia que o homem não tece a teia da vida: é apenas um fio dela. O que fizer a teia, fará a si próprio. Nesse jogo cíclico de personalidades que vem e vão, sábio é aquele que mira na potencialidade, no particular conectado ao universal, assim como todos estamos, em última instância, conectados pelos átomos a formar o Cosmos detectável.

[8] Julgar os outros considerando não o que um indivíduo fez ao outro, mas o que um grande conjunto de seres fazem e são levados a fazer, em suas relações uns com os outros, e com a Natureza à volta – e, finalmente, guardar o julgamento apenas para si. Que melhor receita para a sabedoria?

[9] Agora vocês já sabem: o amor alimenta, o amor fortalece.

[10] Poderíamos substituir “entendimento” por “tolerância”, para nos adequarmos melhor à linguagem atual.

[11] Poderíamos usar apenas esta última frase isolada, e diriam se tratar de um texto místico oriental, e não filosófico ocidental. A grande diferença entre as abordagens, entretanto, fica restrita ao campo da linguagem – em essência, falam sobre uma mesma coisa.

[12] Schiller, Cartas sobre a educação estética da humanidade, carta VI. Reparem como Schiller não tem pudores em usar a palavra “espírito”, enquanto Mosé parece fugir da menção a todo custo. É o “preconceito velado da palavra”, ou algo assim, muito comum nos dias fragmentados de hoje.

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Crédito da foto: Wikipedia (monuemnto em Weimar com estátuas de Goethe e Schiller, os grandes poetas alemães, lado a lado - eles eram bons amigos em vida)

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16.6.09

Pérolas de Espinosa

Textos de Benedito Espinosa em "Ética" (Editora Autêntica, tradução de Tomaz Tadeu)

Impossível enumerar os grande momentos de pura lógica e razão demonstrados através de uma delicada geometria contidos nas páginas da Ética. Aqui, porém, escolhi algumas pérolas da Quarta Parte - A Servidão Humana ou a Força dos Afetos:

Da perfeição (Prefácio)
Quem decidiu fazer alguma coisa e a concluiu, dirá que ela está perfeita, e não apenas ele, mas também qualquer um que soubesse o que o autor tinha em mente e qual era o objetivo de sua obra ou que acreditasse sabê-lo. Por exemplo, se alguém observa uma obra (que suponho estar inconclusa) e sabe que o objetivo de seu autor é o de edificar uma casa, dirá que a casa é imperfeita e, contrariamente, dirá que é perfeita se perceber que a obra atingiu o fim que seu autor havia decidido atribuir-lhe. Mas se alguém observa uma obra que não se parece com nada que tenha visto e, além disso, não está ciente da idéia do artífice, não saberá, certamente, se a obra é perfeita ou imperfeita. Este parece ter sido o significado original desses vocábulos. Mas, desde que os homens começaram a formar idéias universais e a inventar modelos de casas, edifícios, torres, etc., e a dar preferência a certos modelos em detrimento de outros, o que resultou foi que cada um chamou de perfeito aquilo que via estar de acordo com a idéia universal que tinha formado das coisas do mesmo gênero, e chamou de imperfeito aquilo que via estar menos de acordo com o modelo que tinha concebido, ainda que na opinião do artífice, a obra estivesse plenamente concluída. E não aprece haver outra razão para chamar, vulgarmente, de perfeitas ou imperfeitas também as coisas da natureza, isto é, as que não são feitas pela mão humana.

Da razão (Escólio da Preposição 18, e também mais de acordo com o logos do estoicismo)
Como a razão não exige nada que seja contra a natureza, ela exige que cada um ame a si próprio; que busque o que lhe seja útil, mas efetivamente útil; que deseje tudo aquilo que, efetivamente, conduza o homem a uma maior perfeição; e, mais geralmente, que cada qual se esforce por conservar, tanto quanto está em si, o seu ser. Tudo isso é tão necessariamente verdadeiro quanto é verdadeiro que o todo é maior que qualquer uma de suas partes. Além disso, uma vez que a virtude não consiste senão em agir pelas leis da própria natureza, e que ninguém se esforça por conservar o seu ser senão pelas leis da natureza, segue-se: 1. Que o fundamento da virtude é esse esforço por conservar o próprio ser e que a felicidade consiste em o homem poder conservá-lo. 2. Que a virtude deve ser apetecida por si mesma, não existindo nenhuma outra coisa que lhe seja preferível ou que nos seja mais útil e por cuja causa ela deveria ser apetecida. 3. Finalmente, que aqueles que se suicidam têm o ânimo impotente e estão inteiramente dominados por causas exteriores e contrárias à sua natureza. Segue-se, ainda, que é totalmente impossível que não precisemos de nada que nos seja exterior para conservar o nosso ser, e que vivamos de maneira que não tenhamos nenhuma troca com as coisas que estão fora de nós. (...) Portanto, nada é mais útil ao homem do que o próprio homem. Quero dizer com isso que os homens não podem aspirar nada que seja mais vantajoso para conservar o seu ser do que estarem, todos, em concordância em tudo, de maneira que as mentes e os corpos de todos componham como que uma só mente e um só corpo, e que todos, em conjunto, se esforcem, tanto quanto possam, para conservar o seu ser, e que busquem, juntos, o que é de utilidade comum para todos.

Da sociedade e do pecado (Segundo Escólio da Preposição 37)
Por qual razão (...) os homens, que estão necessariamente submetidos aos afetos e são inconstantes e volúveis, possam dar-se essas garantias recípocras e terem uma confiança mútua. Mais especificamente, é porque nenhum afeto pode ser refreado a não ser por um afeto mais forte e contrário ao afeto a ser refreado, e porque cada um se abstém de causar prejuízo a outro por medo de um prejuízo maior. É, pois, com base nessa lei que se poderá estabelecer uma sociedade, sob a condição de que esta avoque para si própria o direito que cada um tem de se vingar e de julgar sobre o bem e o mal. E que ela tenha, portanto, o poder de prescrever uma norma de vida comum e de elaborar leis, fazendo-as cumprir não pela razão, que não pode refrear os afetos, mas por ameaças. Uma tal sociedade, baseada nas leis e no poder de se conservar, chama-se sociedade civil e aqueles que são protegidos pelos direitos dessa sociedade chamam-se cidadãos. Com isso, compreendemos facilmente que, no estado natural, não há nada que seja bom ou mau pelo consenso de todos, pois quem se encontra no estado natural preocupa-se apenas com o que lhe é de utilidade, considerada segundo a sua própria inclinação. (...) Não se pode, por isso, no estado natural, conceber-se o pecado, mas pode-se, certamente, concebê-lo no estado civil, no qual o que é bom e o que é mau é decidido por consenso, e cada um está obrigado a obedecer à sociedade civil. (...) Por essas razões é evidente que o justo e o injusto, o pecado e o mérito são noções extrínsecas e não atributos que expliquem a natureza da mente [1].

Fazer o bem por temor do mal (Demonstração, Escólio e Corolário da Preposição 63)
Todos os afetos que estão referidos à mente, à medida que ela age, isto é, que estão referidos à razão, só podem ser afetos de alegria e de desejo. Por isso, quem se deixa levar pelo medo e faz o bem por temor do mal não se conduz pela razão.
Os supersticiosos, que, mais do que ensinar as virtudes, aprenderam a censurar os vícios, e que se aplicam a conduzir os homens não segundo a razão, mas a contê-los pelo medo, de maneira que, mais do que amar as virtudes, fujam do mal, não pretendem senão tornar os demais tão infelizes quanto eles próprios. Por isso, não é de admirar que sejam, em geral, importunos e odiosos para os homens.
Pelo desejo que surge da razão buscamos diretamente o bem e evitamos indiretamente o mal.

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[1] Mas vale lembar que Espinosa defendia que toda a ação dentro das leis da natureza é uma ação boa e útil. Não no sentido egocêntrico, mas no sentido de que, ao seguir a natureza, o ser segue sua potência natural e estará alegre. As ações más não serão más porque a sociedade (ou certas concepções de Deus, por exemplo) às pune, mas porque vão contra a nossa própria natureza, antes de mais nada.

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Crédito da foto: Laura Cammarata (série sobre os pecados)

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28.5.09

Pedras no caminho

"Crer para compreender e compreender para crer" - pode-se dizer que esse era mesmo o lema de Sto. Agostinho. Há muitos que irão discordar, dizer ser algo impossível, mas fato é que a fé racional, ou fé raciocinada, é não somente algo possível e plausível, como o grande objetivo de todo sábio - a harmonia do caminho entre aquilo que já compreendemos e aquilo que nos falta compreender, entre o que já sabemos e nos falta saber, entre nossa doce convicção e o amargo desconhecido.

Dirão os que discordam, enfurecidos em si próprios: "mas e qual homem conseguiu tal objetivo?" - Nenhum! Nenhum conseguiu e talvez nenhum consiga, pelo menos no estágio em que é conhecido por "homem". Mas da mesma forma a bactéria não se tornou peixe, e depois réptil, e depois mamífero, e depois homem, da noite para o dia. O caminho! É isso o que importa... Importa chegar para depois partir, e partir com o horizonte em nossa mente. Importa amar a possibilidade de caminhar sempre à frente, até o infinito, ao invés de resmungar e dizer "que todos os que pensam em tais mistérios são tolos". Ora, os maiores tolos são exatamente aqueles que creem que mistérios não existem, que são falsos de antemão. Como se o seu próprio pensamento fosse o mero agitar aleatório de partículas no cérebro, como se as leis naturais tenham permanecido simétricas e precisas por bilhões de anos apenas porque "é assim que as coisas são".

Entretanto, é preciso controlar a imaginação, e não permitir que gere por si mesma as imagens mentais, que explique o mundo sem interagir com o mundo. Não é somente meditando no topo da colina que o sábio se fez sábio, mas sim conhecendo a si próprio, a seus próprios pensamentos, para que ao lidar com o mundo não fosse contaminado pelo dogma alheio. O dogma é como um rio represado: enquanto não arrebentarmos a represa ele pode permanecer estático, satisfeito em sua própria ignorância, acomodado na mais falsa das suposições - a de que já descobriu todas as verdades do mundo... Ora, e o dogma existe tanto para o crente quanto para o descrente. A paralisia do pensamento não é exclusividade daqueles que creem sem raciocinar, pois há também aqueles que descreem sem raciocinar - e igualmente, ambos estão paralisados.

Mas o sábio atira a pedra e ela rompe as represas: não é o sábio quem muda o ignorante, mas o ignorante que muda a si próprio, entusiasmado pela doce leveza da sabedoria quando essa lhe aparece sem os diversos véus e as diversas máscaras em que as doutrinas dogmáticas lhe desfarçaram! E mesmo o próprio sábio percebe o perigo de cair nas viagens intermináveis da imaginação que gera a si mesma, alheia ao mundo; ou da negação a priori do pseudo-cético que, por medo do que lhe é desconhecido, prefere negar a tudo que lhe incomode as idéias. Por isso também o sábio segue a natureza: quando está aprendendo a nadar, permanece no raso da praia, e ainda não se arrisca no oceano profundo; e quando está aprendendo a voar, primeiro plana com a brisa, e somente depois arrisca vôos mais altos e cansativos.

Pois é assim que se constrói o conhecimento humano. Muito diferente do que os adeptos da negação defendem, não é somente a ciência que explica o mundo. De fato, a ciência antiga não era muito diferente da religião: que o digam Hermes, Sócrates, Pitágoras, ou mesmo o Pórtico de Atenas, a biblioteca de Alexandria ou a meca da ciência islâmica - Al-Andalus! Mas hoje tudo isso foi destruído pelos homens ignorantes que, seja no lado da crença ou do ceticismo, sempre pretenderam ser os únicos detentores da verdade. É porisso que uns queimaram mártires e papiros, e outros mais elegantes, se comprazeram em relegar ao ostracismo histórico todo dito cientista que se opunha a um materialismo dogmático. Mas não nos delonguemos na ignorância humana: fato é que a ciência nunca pretendeu explicar sozinha o mundo, nunca pretendeu sair do estudo do Mecanismo da natureza para o estudo de seu Sentido. Porisso mesmo temos ainda duas lentes que precisam ser usadas em conjunto para regular o grau de visão da natureza: ciência e religião. Uma descreverá o Mecanismo. A outra descreverá o Sentido.

Ou será que somos todos como pedras no caminho de um deus ausente, que se comporta como uma entidade que ignora a sua própria criação, e mesmo sem querer chuta-nos enquanto se move de um lado para o outro, em algum lugar, sabe-se lá pensando no que! Então a terra surgiu por aglomeração de pedras-partículas, e a vida surgiu na terra porque uma pedra-asteróide aqui adentrou... E toda a evolução da vida foi decorrente de um descuido aleatório do grande deus ausente, o chutador de pedras.

Mas o que é o aleatório? Onde na natureza esse mecanismo se encontra? Onde, dentre simetrias espaciais e temporais, dentre mecanismos sutis e elegantes, encontra-se uma única pedra que se moveu sem ter tido causa? E se teve causa, ela não poderia ser aleatória... Ou seria absolutamente tudo aleatório, mesmo nossos pensamentos e vontade? Se assim for, de nada adianta nos delongarmos nessa ou em qualquer outra discussão. Mas, se as leis, as delicadas geometrias da natureza, seguirem alguma verdade misteriosa que se encontra atrás do próximo horizonte, então é para lá que o sábio deve seguir!

Nossos ancestrais descobriram a muito custo que certas pedras, ao se chocarem, apenas tiravam lascas umas das outras. Mas havia outras que produziam faíscas! E assim se fez o fogo... Nós somos as pedras, e o que está em cima é como o que está embaixo: não percamos nosso tempo em tirar lascas um dos outros, em denegrir um a "verdade" do outro. Mas construamos juntos uma mesma fogueira divina, e talvez flutuando em sua fumaça possamos um dia ser levados pelas brisas, atravéz do oceano, ao reino da verdade e do conhecimento de todos os belos mecanismos da natureza. Levantai uma pedra, e lá estará o reino de Deus.

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Crédito da foto: Shadi Samawi

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