Pular para conteúdo
11.6.18

RPG, Magia e Reencarnação (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo falo sobre como os sólidos platônicos sagrados foram terminar como dados de RPG (Role Playing Game), e como este jogo pode servir de profunda metáfora para a vida. Também veremos como nossas potencialidades podem estar se desenvolvendo ao longo de muitas vidas, ou seriam muitas partidas de RPG?

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


Marcadores: , , , , , ,

20.1.17

Platão e a reencarnação

Texto retirado de As Leis, a última e mais longa obra de Platão, que ele nos deixou inacabada. Tradução de Edson Bini. Os comentários ao final são meus:

No que tange todas essas matérias [de punição por homicídios voluntários, devemos somar] aquela história em que muitos acreditam quando a ouvem dos lábios daqueles que seriamente narram tais coisas em suas celebrações dos mistérios [1] - que a punição para tais atos criminosos (assassinatos) é acertada junto a Hades [2] e que aqueles que retornam novamente à Terra [3] serão constrangidos a saldar a pena natural - cada culpado a mesma, ou seja, o castigo que fez sofrer a sua vítima [4] - e que sua vida sobre a Terra terminará necessariamente num destino semelhante nas mãos de um outro ser humano (trecho da pág. 380, Livro IX, na edição da Edipro) [5].

***

[1] Quando faleceu, aproximadamente em 348 a.C., Platão ainda escrevia este livro. Ao citar "os mistérios", ele se refere sobretudo aos chamados Mistérios de Elêusis e ao Orfismo, que formavam as doutrinas esotéricas mais difundidas na antiga Grécia. É muito provável que Platão tenha participado pessoalmente de tais cultos, e há quem diga que ele chegou a visitar o Egito para estudar a terra de sua origem. Seja como for, o que fica claro é que ele se refere, séculos antes de Cristo, a doutrinas que mesmo para a sua época pareciam ser muito mais antigas.

[2] Hades ("O Invisível"), deus grego que governa o submundo e julga os mortos. Ao contrário do inferno cristão, o equivalente helênico não é eterno, como veremos a seguir.

[3] A doutrina da reencarnação, muito mais antiga do que a da ressurreição, já existia no Oriente há milênios quando Platão nasceu. Os estudiosos de sua obra, no entanto, dizem que essa doutrina penetrou na Grécia através de Pitágoras. Em todo caso, o que fica claro no relato platônico é que a alma de um ser humano vai ao Hades, recebe sua pena, e retorna novamente à Terra necessariamente como um novo ser humano. Ou seja: não somente o inferno helênico não seria eterno, como necessariamente a reencarnação ocorreria somente na mesma espécie.

[4] Por ser uma crença tão antiga, a reencarnação tem muitas interpretações. Há muitos espiritualistas que, como eu, não creem que ela siga necessariamente o sistema do "olho por olho, dente por dente". Eu já falei sobre isso nas minhas Reflexões sobre a reencarnação.

[5] O objetivo deste post não é impor ou evangelizar crença alguma adiante, apenas servir como um "lembrete histórico" de como a doutrina da reencarnação é não somente muito antiga, como era tratada com seriedade por muitos dos maiores pensadores da antiguidade. De fato, foi preciso muito tempo para que parte do Ocidente passasse a "desacreditar" nela. Como sabemos, no Oriente ela é em grande parte aceita até hoje.

Crédito da imagem: Google Image Search

Marcadores: , , , ,

2.9.14

Eu vivia tudo novamente...

Já falamos aqui no blog sobre António Zambujo, um dos músicos e compositores mais genias do fado português moderno. E, se com o seu Fortuna ele criou um fado quase budista, neste Algo estranho acontece ele nos traz uma das letras mais belas da história da música portuguesa, profundamente espiritual e, para aqueles que creem em reencarnação, algo que dificilmente se ouve sem se chorar por dentro (e, as vezes, por fora também).

No vídeo abaixo, temos uma montagem em cima da canção original, por Cristina Cunha Gil:

» Veja António tocando a mesma música, ao vivo.


Marcadores: , , , , , ,

14.11.13

Eu não acredito em idade

Sim, esta é uma frase que sempre digo as pessoas quando o assunto envolve o tema “idade”. A maior parte delas apenas desconversa ou ignora completamente o que foi dito. Algumas ficam admiradas e me olham com uma aparência confusa: “Hmm, isto deve ser algo muito profundo, melhor não perguntar nada”. E somente umas poucas chegam a me perguntar: “O que você quer dizer com isso?”. Penso que está na hora de responder...

Primeiramente, é importante frisar que esta é uma das conclusões puramente intuitivas que trago de minha infância. “Eu não acredito em idade, eu nunca acreditei em idade” – é algo que simplesmente “nasceu comigo”, se é que é possível dizer. Não foi algo que li nalgum lugar, e nem mesmo algo que, somente pelo fato de haver lido em algum lugar, se tornaria parte da minha essência. Eu não acredito em idade, é parte da minha essência, e desde minha infância tenho tentado descobrir o que exatamente isto significa.

Quando pensam em idade, a maioria das pessoas pensa – conscientemente ou não, quer admita ou não – em uma espécie de relógio de areia onde cada grão que escorre pela fresta abaixo é um dia a menos, um dia que ficou para trás. E, da mesma forma, quanto menos grãos de areia restam na parte superior do relógio, menos tempo há para viver. Neste sentido, falar em idade é basicamente falar em morte: quanto maior o número, quanto mais próximo dos 70, 80, 100 anos, mais próxima estará a morte.

Eu ainda vou retornar ao assunto, mas por agora gostaria apenas de deixar claro que o fato de eu não crer em idade não significa que ignore a existência da morte. Da mesma forma que não ignoro que, com o passar das horas do dia, e com o pôr do sol e a chegada da noite, eventualmente irei deitar minha cabeça num travesseiro e dormir (ah não ser que esteja jogando RPG ou numa rave, mas isto têm sido cada vez mais raro em minha vida, para o bem ou para o mal).

Dito isto, após muito refletir cheguei a conclusão de que para mim existem em realidade três tipos distintos de “idades”. Embora eu creia nas três, talvez percebam que nenhuma delas tem relação direta com o que as pessoas usualmente chamam de idade.

A primeira idade em que tenho fé é a idade fisiológica. Ora, seja lá o que seja o “eu” ou a alma, é certo que, ao menos neste mundo, habitamos um corpo humano. E este corpo humano possuí diversas características, físicas e mentais, que são desenvolvidas ao longo da infância e da juventude, até a chamada idade adulta. Diz-se que um adulto é um ser humano que vive numa sociedade onde o texto de algum pedaço de papel afirma que, de acordo com sua idade, ele pode se casar, ter relações sexuais, votar, dirigir um automóvel, etc. O valor numérico destas idades varia de acordo com a região e a cultura do planeta. Na África há muitos adultos com 13 anos, enquanto que na maior parte do globo a idade da maioridade é 18 (19 na Coréia do Sul, 20 no Japão e 21 nos EUA). Como eu sou um sujeito que segue a maior parte das leis, sou obrigado a concordar e botar fé em tais números.

Mesmo o cérebro humano, dizem os neurologistas, têm suas “idades”. Por hora do nascimento, um cérebro humano pesa cerca de 350 gramas e têm ¼ do tamanho de um cérebro adulto.  Com um 1 ano de idade, já têm o dobro do peso, 700 gramas, e metade do peso da versão adulta. Aos 6 anos, já têm 90% do tamanho final. Aos 12 anos, o córtex pré-frontal atinge sua fase final de desenvolvimento, que abrange toda a adolescência. Recentemente, cientistas têm discutido se este desenvolvimento não ultrapassaria em muito a idade dita adulta, geralmente os 18 anos, para terminar ainda muitos anos depois – o que estenderia, teoricamente, o tempo da adolescência, pois somente um “adulto com o córtex pré-frontal plenamente formado” teria condições de pensar com “toda a racionalidade condizente a fase adulta”...

Desta forma, ainda que eu acredite na idade fisiológica, isto por si só não me dá certezas se este ou aquele jovem já é mesmo adulto, se têm sua racionalidade “plena”, ou se ainda está em fase de desenvolvimento. Por via das dúvidas científicas, digamos que alguém na casa dos 30 anos estaria plenamente desenvolvido. Este sou eu: plenamente desenvolvido e, segundo uma amiga minha bem mais jovem, “já meio velhinho”.

E isto me leva para a segunda idade em que acredito, a idade espiritual. Bem sei que muitos aqui não irão concordar, mas fato é que também, desde minha infância, apesar de crer na morte, também creio na existência pós-morte e, da mesma forma, na existência pré-nascimento. Ou seja, não é que eu creia em vida após a morte, mas creio, isto sim, em vida após a vida, e em vida antes da vida. Creio em muitas e muitas vidas, enfim, e isto também está intimamente associado a intuições e lembranças de minha infância.

Quero lembrar que não é minha intenção “evangelizar” esta crença adiante, mas apenas explicar os motivos de minha descrença em idade – motivos, portanto, subjetivos. Dessa forma, para não me alongar muito, basta dizer que, quando lembramos de outras vidas e outras mortes, quem sabe da mesma forma que lembramos de viagens de nossa infância, ou do dia em que desmaiamos durante nosso primeiro porre alcóolico (embora eu não tenha tido tanta sorte, pois tenho uma grande dificuldade em perder a consciência), toda a vida atual é vista por um outro aspecto, um outro ângulo.

Dessa forma, se alguém me diz que estou “meio velhinho”, isto para mim faz tanto sentido quanto dizer que eu estou “a muito tempo nesta viagem de trem”. Não importa se os outros cismam em contar as horas até a próxima estação, eu não preciso mais me preocupar com isso, pois sei que a próxima estação é somente isso: mais uma estação nesta viagem infinita pelo Cosmos. Estação Terra, estação anos-luz da Terra – tanto faz, são todas estações.

Eu não sei se consegui me fazer compreender, pois isto é difícil de explicar com palavras fora de poemas, mas em todo caso acredito que a próxima idade ainda será esclarecedora...

Finalmente, creio na idade das montanhas.

Cícero dizia que “filosofar é aprender a morrer”. Há muitos que se admiram até hoje com Sócrates mais por sua serenidade ante a morte do que propriamente com suas ideias (“Mas eis a hora de partir: eu para morte, vós para a vida. Quem de nós segue o melhor rumo ninguém o sabe, exceto os deuses” [1]).

Já Schopenhauer, influenciado pelas ideias religiosas do Oriente, afirmava que “para seu enorme espanto, um homem se vê de repente existindo, após milhares de anos de não existência; vive por algum tempo, e então transcorre de novo um período igualmente longo em que ele não existe mais. O coração rebela-se contra isso, sentindo que não pode ser verdade.” [2]

Há muitos pensadores modernos, como Jim Holt, que não têm tanta fé na existência pós-morte, e admitem a plenos pulmões o seu grande medo do Nada: “O medo da morte vai além da ideia de que o fluxo da vida continuará sem nós [...] É a perspectiva do Nada que provoca em mim certa náusea – senão puro e simples terror. Como encarar esse Nada?”. [3]

Epicuro, apesar de tampouco crer na existência após a morte do corpo, lidava com o tema de forma muito natural: “Quando a morte está, eu não estou. Quando eu estou, ela não está. A morte, o dito mais terrível dos males, não significa nada para mim”. [4]

Dessa forma, não é bem a crença em existências anteriores e posteriores a esta vida, a esta estação, que nos alivia do peso da morte, do peso do Nada. Este peso não tem propriamente a ver com um medo paralisante de algo que um dia chegará, e que está neste momento sendo contado no relógio de areia que chamamos idade; este peso tem a ver com uma falta de sentido existencial, um vácuo aberto dentro do peito, um grande tédio, um Nada que pela lógica jamais pode haver existido, mas que não obstante pode nos atormentar por cada momento da vida.

Filosofar pode, de fato, ser aprender a morrer. Tanto quanto aprender a morrer é aprender a subir montanhas...

Uma outra coisa que trago da minha infância é a Serra da Mantiqueira, ao sul de Minas Gerais. Isto já não tem nada ver com lembranças de outras estações, mas com a suprema sorte de haver, nesta mesma estação, tido a oportunidade de passar proveitosos períodos de férias em um hotel fazenda de minha família.

Foi na Mantiqueira que aprendi a subir e subir, por entre florestas antigas que estão por lá há centenas de estações, pisando em rochas que sobrevivem há milhares, há milhões!

Foi na Mantiqueira que aprendi a olhar para baixo do topo do mundo, e observar (mesmo antes de voar de avião) como há tantos e tantos homens e mulheres e crianças brincando em seus terrenos pequeninos, em suas fazendas pequeninas, em suas casas de brinquedo, em suas caixas de areia.

Eles juntam montes de areia, colocam seus enfeites e um telhado para proteger das chuvas. Eles vivem lá boa parte de suas vidas. Eles guardam por lá boa parte do que amontoaram em suas viagens. Eles mal sabem quantas montanhas e estações existem pelo Cosmos...

O que a idade das montanhas me ensinou, e têm até este momento me ensinado, é que não devemos por certo entrar em pânico ante ao Nada. Se iremos dormir para não mais acordar, ou se iremos sonhar com outras viagens e outras estações, fato é que nada do que somos, nem mesmo do que nos forma, pode de fato ser aniquilado, arremessado ao Nada.

Pois as montanhas são a prova de que o Nada não existe. Elas estão lá, imponentes, acima de todos nós, nos lembrando de que há coisas maiores, bem maiores, cósmicas, que existiram e continuarão a existir muito após esta nossa pequena viagem.

E se vamos acordar para um novo sonho ou não, pouco importa. O que importa é não deixar o entusiasmo escapar por entre os dedos da alma. Que se vamos ou não deixar de existir um dia, isto não é algo que seja definido, de forma alguma, por nossa idade. E eu não acredito em idade.

***

[1] Platão. Fédon.

[2] Arthur Schopenhauer, O vazio da existência.

[3] Jim Holt. Por que o mundo existe? (Intrínseca).

[4] Epicuro. Carta a Meneceu (UNESP).

Crédito da foto: raph + instagram (Serra da Mantiqueira)

Marcadores: , , , , , , , , , , ,

15.2.13

Ad infinitum: Amala e Kamala são uma farsa?

Este é um comentário adicional acerca do meu livro: Ad infinitum.

Um leitor me alertou para estudos recentes, de 2007 [1], que afirmam que o caso das crianças selvagens indianas, Amala e Kamala [2], seria na realidade uma farsa elaborada pelo reverendo cristão (Singh) que as mantinha em seu orfanato em Midnapore. Eis o que tenho a dizer sobre isto, já que este caso é citado em meu livro:

Segundo estudos recentes, a história das meninas Amala e Kamala, "criadas por lobos" na Índia, pode ser uma farsa.
Apesar de não haver lido o estudo (se encontra num livro publicado apenas em francês), fontes da Wikipedia trazem informações que parecem apontar para um estudo realmente aprofundado. Parecem indicar, enfim, que o caso de Amala e Kamala se trata mesmo de uma farsa. Ainda que o objetivo do Reverendo Singh talvez tenha sido puramente altruísta (trazer recursos para seu orfanato, embora eu mesmo duvide que tenha sido apenas para caridade), isto não invalida a fraude em si.

Ainda que seja, não significa que não tenham ocorrido casos do tipo no mundo, ou que todos os relatos de "crianças selvagens" sejam falsos.
De fato, apesar de o caso de Amala e Kamala ser um dos mais famosos, ele está distante de ser o único. Provavelmente, os casos reais serão menos fantásticos e mais deprimentes, como pais alcoólatras do leste europeu que abandonam seus filhos, literalmente, na casinha do cachorro, e outras histórias ainda mais lamentáveis...

Mas mesmo que TODOS os relatos sejam falsos, isto não anula a lógica que pretendia ser demonstrada com a história.
Felizmente, no que tange a lógica e a filosofia do meu livro, ainda que todos os casos de crianças selvagens relatados na história sejam fraudes, isto não invalida a tese que pretendia ser demonstrada quanto citei o caso de Amala e Kamala.

Isto é: que nós somos seres de potencialidades que precisam ser despertadas na juventude, do contrário perderemos a oportunidade de despertá-las nesta vida.
Isto é algo que todo educador sabe: as crianças vêm a este mundo com plenas capacidades de desenvolvimento, mas são extremamente dependentes dos pais e de uma boa educação para que consigam desenvolver suas potencialidades. Conforme o exemplo de Mozart, citado também em meu livro: se seu pai não houvesse lhe apresentado um piano quando ele ainda era bem jovem, ele certamente não teria sido um menino prodígio, e talvez nem sequer fosse músico. Isto não significaria, no entanto, que Mozart não houvesse nascido com a potencialidade latente para a música – ela apenas não haveria sido desperta há tempo.

"Um ser humano criado por lobos será pouco mais que um lobo. Mas um lobo, ainda que criado por nossos melhores educadores, não tem a potencialidade de ser, cognitivamente, como nós".
Esta é a associação da potencialidade com a cognição de cada espécie. O lobo, que é inferior ao ser humano na capacidade de cognição, jamais poderia alcançar a cognição do ser humano mais ignorante, ainda que fosse o mais “genial” dos lobos, e ainda que fosse educado por nossos melhores adestradores. Apesar de todo animal ser um ser de potencialidades, as potencialidades da cognição humana só podem ser despertas na espécie humana [3].

***

[1] Um cirurgião francês, Serge Aroles, publicou em 2007 um livro onde analisa em profundidade diversos casos de crianças selvagens relatados na história. Seu livro se chama L'Enigme des enfants-loup (algo como O enigma das crianças selvagens, sem versão em português).

[2] O caso de Amala e Kamala é descrito neste artigo do meu blog: Os pequenos selvagens.

[3] Apesar de eu não citar isto no livro, poderíamos usar esta lógica como uma crítica a algumas ideias superficiais no âmbito da reencarnação: se um ser humano pudesse reencarnar num lobo, ou num cachorro, algum adestrador já haveria conseguido ensinar algum desses animais a se comunicar de forma avançada. Entenda-se como uma anedota.

***

Crédito da imagem: Ayon/Raph.

Marcadores: , , , , , ,

20.11.12

Tudo está conectado...

"- É essa. A música dos meus sonhos."

"- Eu a chamo de Sexteto Cloud Atlas. São movimentos que eu escrevo imaginando a nós... Nos encontrando repetidas vezes em vidas diferentes, épocas diferentes..."


Dia 25 de Dezembro de 2012 estréia no Brasil o filme A Viagem, dos criadores de Matrix, e do diretor de Corra Lola, Corra... Qualquer semelhança com teorias espiritualistas milenares talvez não seja, afinal, mera coincidência. Tudo está, de fato, conectado:

Agora é aguardar a estréia, e a futura análise do Acid0 :)

Marcadores: , , , ,

5.10.12

A descoberta do carma

Texto de Mircea Eliade em "História das crenças e das ideias religiosas, vol. I” (Ed. Zahar) – trechos das pgs. 229 a 231. Tradução de Roberto Cortes de Lacerda. As notas ao final são minhas.

Nos Bramanas [1], os deuses védicos foram radicalmente desvalorizados em benefício de Prajapati [2]. Os autores dos Upanixades prolongaram e encerraram esse processo [3]. Vão, porém, mais longe: não hesitam em desvalorizar o todo-poderoso sacrifício. [...] Segundo a Maitri Up [4], aqueles que nutrem ilusões sobre a importância dos sacrifício são dignos de lástima; porque, depois de terem desfrutado no Céu o lugar de destaque conquistado com suas boas ações, voltarão à Terra ou descerão a um mundo inferior. Nem os deuses nem os ritos contam mais para um verdadeiro rishi [5]. Seu ideal está admiravelmente formulado na prece transmitida pelo mais antigo Upanixade, o Brhadaranyaka: “Do não ser (asat) conduz-me ao ser (sat), da escuridão conduz-me à luz, da morte conduz-me à imortalidade!”

A crise espiritual que explode nos Upanixades parece ter sido provocada pela meditação sobre os “poderes” do sacrifício. [...] Nos Bramanas, o termo karman (karma, carma) denota a atividade ritual e suas consequências benéficas (já que, depois da morte, o sacrificante alcançava o mundo dos deuses). Mas, refletindo sobre o processo ritual de “causa e efeito”, era inevitável que se descobrisse que toda ação, pelo simples fato de obter um resultado, integrava-se numa série ilimitada de causas e efeitos. Uma vez reconhecida a lei da causalidade universal no karman, desfazia-se a certeza fundamentada nos efeitos salutares do sacrifício [6].

Porque a pós-existência da “alma” no Céu era a meta da atividade ritual do sacrificante; mas onde se “realizavam” os produtos de todos os seus outros atos, efetuados durante sua vida inteira? A pós-existência beatífica, recompensa de uma atividade ritual correta, devia portanto ter um fim. Mas, então, o que acontecia com a “alma” (atman) desencarnada? Em hipótese alguma ela poderia desaparecer definitivamente. Restava um número ilimitado de atos efetuados durante a vida, e estes constituíam outras tantas “causas” que deviam ter “efeitos”; em outras palavras, deviam “realizar-se” numa nova existência, aqui na Terra, ou num outro mundo. A conclusão impunha-se por si mesma: depois de haver desfrutado uma pós-existência beatífica ou infeliz num mundo extraterrestre, a alma era obrigada a reencarnar-se. Foi a lei da transmigração, samsara, que, uma vez descoberta, dominou o pensamento religioso e filosófico indiano, não só “ortodoxo” como também heterodoxo (o budismo e o jainismo) [7].

O termo samsara aparece somente nos Upanixades. Quanto à doutrina, ignora-se a sua “origem”. Tentou-se inutilmente explicar a crença na transmigração de alma pela influência de elementos não arianos [8]. Seja como for, essa descoberta impôs uma visão pessimista da existência. O ideal do homem védico – viver 100 anos, etc. – mostra-se ultrapassado. Em si mesma, a vida não representa necessariamente o “mal”, desde que a utilize como meio de livrar-se dos laços do karman. O único objetivo digno de um sábio é a obtenção da libertação, moksha – outro termo que se alinha entre as palavras-chave do pensamento indiano [9].

Uma vez que todo o ato (karman), religioso ou profano, revigora e perpetua a transmigração (samsara), a libertação não pode ser alcançada pelo sacrifício nem por meio de íntimos relacionamentos com os deueses, nem através da ascese ou da caridade [10]. Em seus ermitérios, os rishis procuravam outros meios para se libertar. Uma descoberta importante foi realizada ao se meditar sobre o valor soteriológico (soteriologia – “estudo da salvação”) do conhecimento, já exaltado nos Vedas e nos Bramanas. Evidentemente, os autores dos Bramanas referiam-se ao conhecimento (esotérico) das homologias implícitas na operação ritual. Era a ignorância dos mistérios sacrificais que, segundo os Bramanas, condenava os homens a uma “segunda morte”.

Mas os rishis foram mais longe; dissociaram o “conhecimento esotérico” do seu contexto ritual e teológico; a gnose é agora tida como capaz de apreender a verdade absoluta, revelando as estruturas profundas do real. Tal “ciência” acaba por eliminar literalmente a “ignorância” (avidya), que parece ser o quinhão dos seres humanos (os “não iniciados” dos Bramanas). Trata-se, certamente, de uma “ignorância” de ordem metafísica, pois ela se refere à realidade última, e não às realidades empíricas da experiência cotidiana [11].

[...] Depois de apaixonantes pesquisas e de hesitações, por vezes desfeitas por repentinas iluminações, os rishis identificaram na avidaya (ignorância de ordem metafísica) a “causa primeira” do karman, e por conseguinte a origem e o dinamismo da transmigração. O círculo estava completo: a ignorância (avidaya) “criava” ou reforçava a lei de “causa e efeito” (karman) que, por sua vez, infligia a série ininterrupta de reencarnações (samsara). Felizmente, a libertação (moksha) desse círculo infernal era possível graças à gnose (jñana, vidya) [12].

[...] O pensamento indiano cedo se dedicou a ratificar os diferentes “caminhos” (marga) que conduzem à libertação. O esforço resultou, alguns séculos mais tarde, na famosa síntese proclamada no Bhagavad Gita (séc. IV a.C.). Mas é importante assinalar que desde já [...] a descoberta efetuada, ainda que imperfeitamente sistematizada, nos tempos dos Upanixades, constitui o essencial da filosofia indiana posterior.

Quando Brahman perguntar ao recém-chegado: “Quem és tu?”; Que ele responda: “Eu sou o que tu és”; E quando Brahman perguntar: “Quem sou eu?”; Que ele responda: “A Verdade”; Dessa forma, Brahman lhe dirá: “Aquilo que foi o meu domínio é doravante o teu” (Kausitaki Up, Upanixades)

***

[1] Comentários em prosa, costumeiramente anexados aos Vedas (obras mais antigas do hinduísmo).

[2] Citando o próprio autor, algumas páginas antes: “Tal como é apresentado pelos Bramanas, Prajapati parece ser uma criação da especulação erudita, mas a sua estrutura é arcaica. Esse ‘senhor das criaturas’ aproxima-se dos grandes deuses cósmicos. Ele se assemelha de certa forma ao ‘Um’ do Rig Veda”.
Ou seja, conforme o Rig Veda é o texto mais antigo dos Vedas (c. 1500 a.C.), foi ainda nesta época que os sábios hindus chegaram a concepção do Uno, ideia que também encontrou ressonância no hermetismo (embora provavelmente muitos séculos mais tarde), em Parmênides, em Plotino, em Espinosa, etc.

[3] Os Upanixades também são comentários posteriores acerca dos Vedas. O Bhagavad Gita, o texto mais celebrado do hinduísmo, faz parte deles.

[4] Um dos livros dos Upanixades.

[5] Termo que denota um dos autores dos Vedas ou dos Upanixades. Também pode ser entendido simplesmente como “um sábio”.

[6] Ou, em outras palavras, os sábios hindus reconheceram que a barganha com os deuses (“eu te ofereço isto em troca disto”) não poderia ser uma solução para as questões da alma. Somente o ser em si poderia melhorar a si mesmo. Ser transportado ao Céu após a morte, para depois renascer de novo neste mesmo mundo (ou nalgum inferior a este), não solucionava a questão. Quero dizer é isto: apenas o próprio ser pode cuidar de sua gnosis dei, do conhecimento do Uno. Os deuses aos quais eram ofertados “sacrifícios” não podem lhes auxiliar neste caminho (ou, ainda que possam, não necessitariam de oferendas para tal).

[7] Se vamos considerar que a “descoberta do carma” se deu a partir dos Upanixades, podemos datá-la no início do chamado período bramânico (entre 900 e 500 a.C.). No entanto, a crença na existência de espíritos desencarnados, ou mesmo dos “espíritos dos ancestrais”, é pré-histórica, e surgiu junto com a religião primal e o xamanismo. Me parece que a ideia da reencarnação possa ser ainda mais antiga do que a ideia do carma, e que o carma surgiu como uma espécie de “desenvolvimento filosófico” acerca do tema da reencarnação. Segundo a visão do autor, entretanto, é possível que a ideia da reencarnação tenha surgido do “problema do carma” (portanto, o oposto). Em todo caso, ambas são ideias arcaicas que só encontraram um antagonismo claro na crença da ressurreição, surgida do zoroastrismo e judaísmo (em épocas posteriores).

[8] Os árias são um subgrupo étnico dos indo-europeus. Eles se estabeleceram no planalto iraniano no fim do terceiro milênio a.C., e a partir de 1.500 a.C. colonizaram a península indiana. Os árias foram o povo responsável pela composição dos Vedas. Note que, caso a ideia de reencarnação seja “não ariana”, isso significa que ela seria ainda mais arcaica que os Vedas (conforme eu postulo no comentário acima).

[9] O budismo chamou-o nirvana.

[10] No espiritismo se diz que “fora da caridade não há salvação”, mas segundo os rishis, nem mesmo a caridade garantiria a “salvação”.

[11] Porém, se estamos falando do Uno, todo o conhecimento, seja empírico (ciência) ou mental (religião) ou metafísico (filosofia), é um conhecimento do Cosmos – de seu Mecanismo ou de seu Sentido. É assim que todo conhecimento, esotérico ou exotérico, sempre irá nos auxiliar no samsara, ainda que tenhamos de voltar a este mundo muitas vezes.

[12] E o que aqueles que “se libertaram” fazem após a libertação? Buda foi um excelente exemplo: sua peregrinação e “evangelização” se iniciou após (e não antes) ele ter atingido o nirvana.

***

Crédito da imagem: The Bhaktivedanta Book Trust International

Marcadores: , , , , , , ,

22.9.11

Filhos da eternidade, parte 2

« continuando da parte 1

Texto de Arthur Schopenhauer em “Da morte, metafísica do amor, do sofrimento do mundo” (Ed. Martin Claret), tradução de Pietro Nassetti – Trechos das pgs. 67 a 72. Os comentários ao final são meus.

É verdade que não podemos levar a cabo a representação de tudo o que foi dito acima sem recorrer a noções de tempo; e todavia, essas noções deveriam ser excluídas quando se trata de coisas-em-si. Entretanto, pertence aos limites insuperáveis de nosso intelecto que ele não possa libertar-se inteiramente dessa forma primeira e mais imediata de todas as suas representações, para depois operar sem ela [1]. Assim, somos conduzidos aqui a uma espécie de metempsicose, porém com a diferença importante de que a nossa metempsicose não concerne à psique, isto é, ao ser que conhece, mas apenas à vontade, que, com isso, suprime muitos absurdos ligados à doutrina da transmigração de almas [2]; e com a consciência de que a forma do tempo intervém aqui apenas como acomodação inevitável à natureza limitada de nosso intelecto.

[...] [O novo ser nascido] agora, conforme a sua natureza e as modificações que sofrer guiado pelo curso necessário das coisas, sempre em harmonia com sua natureza, recebe agora, por um novo nascimento, um novo intelecto, com o qual seria um novo ser, que não teria recordação de uma existência anterior, pois o intelecto, único capaz de memória, é a parte mortal, ou a forma; a vontade é o elemento eterno, a substância do nosso eu: disso resulta que a palavra palingenesia é mais adequada para designar essa doutrina, que metempsicose [3]. Esses renascimentos perpétuos constituiriam então a série dos sonhos de vida de uma vontade em si indestrutível, até que ela, instruída e aperfeiçoada por tantos e tão diversos conhecimentos sucessivamente obtidos, sempre em novas formas, viesse a se suprimir a si mesma [4].

[...] A verdade aqui expressa não era totalmente desconhecida, embora jamais tenha sido remetida ao seu sentido real e exato, como o permite fazer nossa teoria da essência superior e metafísica da vontade, e da natureza secundária e apenas orgânica do intelecto. Com efeito, encontramos a doutrina da metempsicose, dos tempos mais antigos e mais nobres da humanidade, sempre espalhada sobre a terra, como a crença da grande maioria do gênero humano, e mesmo, na verdade, como doutrina de todas as religiões, com exceção da judaica e das duas religiões que surgiram desta [5]; todavia, no budismo, como já disse, nós a encontramos na sua expressão mais sutil e próxima da verdade. Enquanto os cristãos se consolam pela esperança de se reverem em um outro mundo, onde se reencontra, ao mesmo tempo, a individualidade completa, para as outras religiões, pelo contrário, aquele reconhecimento começa a se operar desde já, embora incógnito.

Isto é, no círculo de nascimentos e em virtude da metempsicose, ou palingenesia, as pessoas que hoje estão em contato ou relação íntima conosco também nascerão, ao mesmo tempo que nós, na próxima geração, e terão relações e disposições idênticas, ou pelo menos análogas, sejam estas amigáveis ou hostis.

[...] Sobre a universalidade da crença na metempsicose, Obry nos diz, com razão, no seu excelente livro Du Nirvana indien, p.13: “Esta velha crença fez a volta ao mundo, e estava de tal modo expandida na alta antiguidade, que um douto anglicano a julgou sem pai, sem mãe, e sem genealogia”. Já ensinada nos Vedas, como em todos os livros sagrados da Índia, a metempsicose é, como se sabe, o núcleo do bramanismo e do budismo, e reina até hoje por toda a Ásia não conquistada pelo islamismo, isto é, em mais da metade do gênero humano, como a crença mais sólida, e como influência prática de uma força inimaginável. Ela foi também um elemento de fé dos egípcios (Heródoto, II, 123); Orfeu, Pitágoras e Platão a adotaram com entusiasmo, e os pitagóricos, sobretudo, a mantiveram firmemente. [...] Ela era também o fundamento das religiões dos druidas. Existe até uma seita maometana no Hindustão, os bohrahs [6]. [...] Mesmo entre os americanos (índios) e povos negros, a até mesmo entre os australianos (aborígenes), encontram-se traços dela.

[...] Essa doutrina disseminada por todo o gênero humano, e tão evidente para os sábios como para o povo, encontra uma obstáculo no judaísmo e nas duas religiões que dele se originaram, cuja teoria da criação a partir do nada tem a difícil tarefa de estabelecer conexão com a crença de uma permanência eterna de seu ser a parte post. Se é verdade que, a ferro e fogo, essas religiões conseguiram expulsar da Europa e de uma parte da Ásia aquela crença originária e consoladora da humanidade, resta saber por quanto tempo. Conseguir isso sempre foi difícil: atesta-o a história dos primeiros tempos da igreja; a maior parte dos heréticos, por exemplo, os simonistas, basilidianos, valentinianos, marcionistas, gnósticos e maniqueus, admitiam aquela crença antiga [7]. Os próprios judeus, em parte, a incorporaram, como testemunham Tertuliano e Justino (em seus diálogos). O Talmud relata que a alma de Abel passou para o corpo de Seth, e depois para o de Moisés. Até mesmo a passagem da Bíblia, em Mateus 16, 13-15, só adquire um sentido razoável dentro da hipótese do dogma da metempsicose. Lucas, que certamente também a admite (9, 18-20), acrescenta que um dos antigos profetas ressuscitou, insinuando aos judeus a suposição de que um antigo profeta possa ter ressuscitado em carne e osso: mas, como eles sabiam, tal profeta já estava enterrado no túmulo havia seiscentos ou setecentos anos, portanto era pó havia muito tempo, e isso seria uma absurdo manifesto.

A transmigração de almas e expiação por meio desta de todas as faltas cometidas em uma vida anterior, o cristianismo substituiu pela doutrina do pecado original, isto é, pela expiação pelo pecado de um outro indivíduo. As duas doutrina identificam, e por certo com uma intenção moral, o homem existente com um outro que existiu anteriormente: a transmigração de almas por uma assimilação imediata, o dogma do pecado original por uma aproximação indireta [8].

***

[1] Não conseguimos representar a eternidade em nosso próprio pensamento, pois o próprio ato de representação é temporal. Desse modo, é preciso filosofar acerca da eternidade de uma forma “aproximada”.

[2] Schopenhauer entendia a reencarnação como um mecanismo pelo qual sua “força da vida” fazia com que as potencialidades dos seres (a espécie, a vontade) se desenvolvessem ao infinito. Ele certamente não acreditava que as personalidades (o indivíduo, o intelecto) permaneciam intactas de geração em geração – estas eram aniquiladas, pois que surgiam com o nascimento e “eram esquecidas” com a morte.

[3] E outros a chamam reencarnação, mas termos são apenas termos: o importante é o que cada um compreende de seus conceitos.

[4] Apesar de não ficar muito claro o que o filósofo alemão quis dizer, podemos tirar daí a curiosa concepção de que a “força da vida” também pode evoluir, e que todos somos partes de sua evolução. Me lembrei da famosa frase de Carl Sagan: “Nós somos uma forma do Cosmos conhecer a si mesmo”.

[5] Em realidade, mesmo na forma mais profunda do judaísmo, a cabala, existia a crença arraigada na reencarnação – e que persiste até os dias atuais entre inúmeros judeus. “Não é possível entender a cabala sem acreditar na eternidade da alma e suas reencarnações” (Rabi Arieh Kaplan). Entre os essênios e gnósticos, que muitos compreendem como “os verdadeiros cristãos primitivos” (antes de Constantino inaugurar sua Igreja), a reencarnação e o evolucionismo também sempre foram pontos chave de sua doutrina espiritualista. Mesmo na Bíblia “editada” por Constantino “sobraram” algumas passagens que remetem a tal conceito, conforme o próprio Schopenhauer descreve a seguir.

[6] Os Drusos e algumas outras seitas islâmicas crêem na reencarnação, embora muitas delas não creiam. As seitas islâmicas que aceitam a reencarnação sustentam suas controvérsias citando passagens do Alcorão, as quais prestam-se a uma interpretação a favor de tal crença. Por exemplo; “Como deixais de acreditar em Alá se estivestes mortos e Ele vos deu a vida. Depois Ele vos dará a morte, e novamente a vida, e depois para Ele voltareis”. (Surah. 2 versículo 28); e “E Alá vos fez com que nascesseis da terra, fazendo-vos depois voltar a ela, e Ele vos dará a luz novamente, um nascimento.” (Surah. 71, versículos 17-18). M. M. Picktall. The Meaningof the Glorious Koran: An Explanatory Translation. New York: The New American Library, 1953.

[7] Vê-se que Schopenhauer estudou a fundo inúmeras religiões e suas histórias, antes de falar do assunto – provavelmente muito, muito mais do que a grande parte dos eclesiásticos que resume todo seu conhecimento apenas a sua própria doutrina (a qual, muitas vezes, creem ser “infalível”).

[8] Que cada um julgue, por si só, por toda a lógica e toda a justiça que é capaz de conceber, qual faz mais sentido, qual está mais próxima da realidade que a Natureza nos exibe em todos os dias e todas as noites.

***

Crédito da imagem: Bobaumicheduw

Marcadores: , , , , , , , , , , ,

17.8.11

A descoberta do Cosmos, parte 2

« continuando da parte 1

Texto de Werner Jaeger em "Paidéia: a formação do homem grego” (Ed. Martins Fontes), tradução de Artur M. Parreira – Trechos das pgs. 204, 205, e 208 a 210. Os comentários ao final são meus.

Pitágoras é um homem universal, que abrange de fato muitas coisas heterogêneas: a doutrina dos números e os elementos da Geometria, os primeiros fundamentos da acústica, a teoria da música e o conhecimento dos tempos dos movimentos das estrelas; a partir daí pode-se atribuir também a Pitágoras o conhecimento da filosofia natural milesiana. Além disso, e sem qualquer conexão com tudo aquilo, a doutrina da transmigração de almas, vinculada à seita religiosa dos Órficos, está vinculada com certeza à pessoa de Pitágoras, e Heródoto considera-a típica dos mais antigos pitagóricos [1]. Relacionam-se com ela os preceitos morais atribuídos ao fundador. Heródoto afirma o caráter religioso da comunidade que ele fundou. Assim subsistiu na Itália meridional durante mais de um século, até a sua destruição, por motivos políticos, nos fins do séc. V.

A concepção pitagórica do número como princípio das coisas está prefigurada na simetria geométrica rigorosa do cosmos, de Anaximandro. Como concepção puramente aritmética, é incompreensível [2]. Segundo a tradição, deve a sua origem à descoberta de uma nova legalidade da natureza, a da relação entre o número de vibrações e o comprimento das cordas da lira. Mas, para estender o domínio do número a todo o cosmos e à ordem da vida humana, foi necessária uma audaciosa generalização das observações, baseada, sem dúvida alguma, na simbologia matemática da filosofia milesiana da natureza.

A doutrina pitagórica nada tem a ver com a ciência matemática natural, no sentido atual. Os números têm nela um significado muito mais vasto. Não significa a redução dos fenômenos naturais a relações quantitativa calculáveis. A diversidade dos números representa a essência qualitativa de coisas completamente heterogêneas: o céu, o casamento, a justiça, o kairos, etc. Por outro lado, quando Aristóteles nos diz que os pitagóricos faziam consistir as coisas em números, no sentido de matéria, refere-se indiscutivelmente a uma materialização indevida desta identificação abstrata do número com o ser. Não devia estar longe da verdade quando considerava as semelhanças dos números com as coisas um princípio não menos grosseiro que o fogo, a água, a terra, de que as especulações anteriores derivavam todas as coisas [3].

[...] Não sabemos que íntima ligação havia entre a especulação matemática e musical e a doutrina pitagórica da transmigração das almas [4]. O pensamento filosófico daqueles tempos era essencialmente metafísico. Assim, o mito irracional da origem das almas devia proceder do campo das crenças religiosas. A doutrina análoga dos órficos foi provavelmente a fonte da representação pitagórica da alma. Os filósofos posteriores também estão mais ou menos influenciados por ela.

O séc. VI, que, após o naturalismo dissolvente do séc. VII, é uma luta decisiva em prol de uma nova estruturação espiritual da vida, não representa só um vigoroso esforço filosófico, mas também uma pujante expressão religiosa. O movimento órfico é um dos mais significativos testemunhos desta nova intimidade que penetra até o mais profundo da alma popular. No seu anseio por um sentido novo e elevado da vida, está em contato com o esforço do pensamento racional das concepções filosóficas para atingirem uma “norma” objetiva no ser cósmico.

[...] Só por uma profunda necessidade dos homens daquele tempo, aos quais a religião cultural já não satisfazia, se explica a rápida difusão do movimento órfico nas metrópoles e nas colônias. Os outros movimentos religiosos desse tempo, a prodigiosa força do culto de Dionisios e a doutrina apolínea de Delfos, revelam também o crescimento das necessidades religiosas pessoais. É para a história das religiões um mistério a estreita vizinhança que no culto délfico une Apolo e Dionisios [5]. É evidente que os gregos sentiram que havia algo de comum na contraposição de um ao outro.

[...] Mas a religião grega alcançou em Delfos a influência mais profunda como força educativa, e ampliou-a para além das fronteiras da Grécia. As máximas mais célebres dos sábios da terra eram votadas a Apolo e apareciam como um simples eco da sabedoria divina. E quem entrava no templo via à porta as palavras “conhece-te a ti mesmo” [6], a doutrina da sophrosyne, a exortação a não perder de vista os limites do Homem, gravada com o laconismo legislativo próprio do espírito da época.

O sentido da sophrosyne grega seria mal compreendido se interpretado como expressão de uma natureza inata, de uma índole harmônica e jamais perturbada. Para compreendê-la, basta perguntar por que foi justamente naquele tempo que ela irrompeu de forma tão imperativa, de modo a penetrar subitamente, nas profundezas mais inesperadas da existência e, principalmente, da intimidade humana. A medida apolínea não é a excrescência da tranquilidade e do conformismo burguês. A autolimitação individualista é um dique para a atividade humana. A maior ofensa aos deuses é “não pensar humanamente” e aspirar à elevação exclusiva.

[...] A felicidade dos mortais é mutável como os dias. O Homem não deve, portanto, aspirar ao que está alto demais. No entanto, a necessidade humana de felicidade acha um remédio para este trágico saber, no mundo da sua intimidade, quer no alheamento da embriaguez dionisíaca, que aparece como o complemento da medida e rigor apolíneos, quer na crença órfica de que a “alma” é a parte melhor do Homem e está orientada para um destino mais alto e mais puro [7]. O sóbrio relancear do espírito de investigação pela profundidade da natureza oferece ao Homem o espetáculo da geração e da corrupção incessantes, governado por uma legalidade universal indiferente ao Homem e ao seu insignificante destino, e que transcende com a sua férrea “justiça” a nossa breve felicidade.

Daí surge no coração humano, como força interior que se opõe a esta dura verdade, a crença no seu destino divino. A alma, inacessível ao conhecimento natural, aparece nesse mundo inóspito como um estrangeiro que anseia pela sua pátria eterna. A fantasia dos simples pinta a imagem de uma vida futura no além, como uma vida de gozos sensíveis; o espírito dos nobres luta pela própria afirmação no meio da voragem do mundo, com a esperança de uma redenção pela consumação do seu caminho [8]. Ambos, porém, coincidem na certeza do seu destino superior.

E o fiel que chega aos umbrais do outro mundo pronunciará, como santo e senha da fé em que baseou a sua vida, a intrépida máxima: Também eu sou da raça dos deuses. Estas palavras estão gravadas, como passaporte para a viagem para o outro mundo, nas pequenas tábuas órficas de ouro, achadas nos sepulcros do sul da Itália.

***

[1] Em realidade, para qualquer espiritualista com certo conhecimento é até mesmo óbvio que existia uma conexão entre “tudo aquilo” o que Pitágoras estudava e ensinava – em suma: conhecimento naturalista, poesia, arte, padrões musicais e geométricos, filosofia e espiritualidade. No orfismo já tínhamos as bases religiosas presentes em religiões tão antigas e separadas umas das outras quanto o hinduísmo e as crenças do Egito antigo – e, no cerne de tudo, o conceito de reencarnação e vida espiritual.

[2] Tome muito cuidado com pretensas “ciências ocultas” como a Numerologia Pitagórica, e tantas outras, que como esta quase nada tem a ver com o que Pitágoras ensinava – se quiser compreender o sentido religioso dos ensinamentos pitagóricos, o melhor caminho é estudar diretamente o próprio orfismo, que era a sua fonte. Segundo o ocultista Marcelo Del Debbio, a “numerologia que funciona” é a Gematria, ligada diretamente a Kabbalah.

[3] Acaso Aristóteles tivesse vivido no século passado, quando os físicos teóricos conceberam a Teoria das Cordas, ou Teoria-M – que resumidamente afirma que toda a matéria e todas as coisas são formadas pela ondulação de minúsculas cordas (e não partículas), de cuja vibração são produzidas partículas de maior ou menor massa –, talvez não estivesse tão certo de sua crítica ao que os pitagóricos propuseram auxiliados pela pura intuição.

[4] Praticamente nenhuma. É tão simples: basta voltar o olhar para o que os hindus especulavam no oeste, e os antigos egípcios especulavam séculos antes, no sul. Assim como no orfismo, todos observavam uma mesma lei natural, e não poderia ser de outra forma – estavam todos no mesmo Cosmos.

[5] Nietzsche dedica um livro ao assunto (“O nascimento da tragédia”): do antagonismo existente entre Apolo, deus das artes plásticas, e Dionisios, deus da arte não-figurada – como, por exemplo, a música – surge a tragédia grega em seu pleno vigor, e se caracteriza por ser uma tragédia sem a total moderação apolínea ou o total desregramento dionisíaco.

[6] Complementada, em inscrição na parte interna do templo: “e conhecerás o universo e os deuses”... Porque a segunda parte é hoje, “oculta”, deixo que cada um julgue por si mesmo.

[7] Que deveria ser compreendido como um destino que se constrói desde hoje, e não num céu distante, conforme o cristianismo limitou tal conceito.

[8] Ou, em outras palavras, os simples querem se ver livres deste mundo o quanto antes, a fim de poder desfrutar de uma vida de gozos no além; Enquanto o nobre procura fazer deste mundo uma terra, senão de gozos eternos, ao menos de justiça e fraternidade. Esta é a essência da Paidéia.

***

Crédito da foto: Rosario Miranda.

Marcadores: , , , , , , , , , ,

24.6.11

Rolando poliedros

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

A chamada tradição oral é a preservação de histórias, lendas, usos e costumes através da fala. Origina-se do primórdio da história humana, quando ainda não havia a escrita e os materiais que pudessem manter e circular os registros históricos. Na atualidade própria das classes iletradas, a tradição oral tem sido, contudo, muito valorizada pelos eruditos que se dedicam ao seu estudo e compilação (os contos dos Irmãos Grimm, por exemplo), ao considerarem que é na tradição oral que se fundamenta a identidade cultural mais profunda de um povo. Supõe-se, por exemplo, que a Ilíada e a Odisseia de Homero foram, inicialmente, longos poemas recitados de memória.

Joseph Campbell gostava de dizer que “o mito é algo que nunca existiu, mas que existe sempre”. Esse aparente paradoxo pode ser reconciliado se entendermos a tradição oral, mãe da mitologia, como a melhor forma com a qual o espírito humano pôde passar adiante suas experiências no contato com a essência das coisas, com o que há de eterno no mundo. Dessa forma, todas as variantes de um mesmo mito são, no fundo, uma mesma história. E toda mitologia é, no fundo, uma mesma mitologia, uma mitologia do espírito humano.

Mas hoje não vivemos mais em tribos e aldeias, e nem todos necessitam decorar tais histórias antigas. Além disso, não são os xamãs nem os anciãos quem nos passam os mitos, mas alguns poucos textos sagrados de outrora, que até hoje inspiram inúmeras variações na mente dos contadores de histórias modernos – a quem conhecemos, principalmente, como artistas. Existem mitos sendo recontados em todos os cantos: nos livros de vampiros adolescentes, nos filmes de Hollywood, nas séries de TV de fantasia, e até mesmo num gibi.

Desde pequeno eu fui imediatamente atraído pela mitologia dos super-heróis do século passado. E o meu predileto é Steve Rogers, o Capitão América, que era fisicamente fraco, mas ao passar pelo processo “mágico” do projeto do supersoldado, tornou-se um ser sobre-humano. No entanto, a maior força de Steve sempre foi sua honra e sua ética, sua compaixão pelos fracos – tão fracos e indefesos como ele fora um dia. Ora, essa história é um mito, e esse mito nada tem a ver com os Estados Unidos da América. Steve calhou de ter sido criado durante a Segunda Guerra, por quadrinistas americanos, e por isso serviu como um elemento patriótico na luta contra o nazismo. Mas a guerra acabou. As guerras passam, os mitos permanecem.

Por isso os heróis das histórias precisam continuar lutando suas guerras, e vivenciando suas aventuras e jornadas de heróis – tais histórias podem hoje terem se tornado superficiais, mitos “diluídos” em uma sociedade que em sua maior parte se esqueceu da espiritualidade antiga... Mas ainda continuam narrando, em essência, aquilo que está fora do tempo. Continuam se tratando de jornadas espirituais. Mesmo que não saibamos, estamos até os dias de hoje vivenciando a mitologia, apenas uma mitologia moderna, que nos chega através de gibis e filmes 3D, e não pela boca de um contador de histórias, próximo à fogueira no centro da aldeia, numa noite de céu estrelado – salpicado de super-heróis.

Essa festa pode não ter nada de aparentemente estranha, mas isso é porque poucos interagem com os mitos. As histórias contadas da maneira antiga serviam principalmente para que cada homem e cada mulher se imaginassem como o herói ou heroína através de sua jornada. Não era algo para se ouvir e simplesmente decorar. Era algo para se ouvir, imaginar, experimentar, modificar, e só então passar adiante... Obviamente que as histórias foram alteradas, e seria estranho que não fossem. Mas, ainda mais estranho, é que tenham chegado aos dias atuais com sua essência inalterada – eis que são diversos modos de se abordar um mesmo mito, e o mito não se altera, pois sua essência reside fora deste mundo.

J. R. R. Tolkien foi um filólogo e escritor britânico que desde cedo se ressentiu do fato da maior parte da mitologia inglesa ter se perdido com o tempo. Ele decidiu resolver o problema criando uma nova mitologia inglesa. Claro que de nova ela não tinha nada, pois que todos os mitos são tão antigos quanto à humanidade, mas era uma mitologia moderna, uma mitologia que cativou seguidores em todo o mundo... Só para terem uma ideia, existem grupos que se reúnem para falar em quenya, um idioma fictício que existe apenas nas obras de Tolkien. Esses estão literalmente “entrando na história”, vivenciando o mito.

Mas foi através de Gary Gygax que encontramos uma forma totalmente inesperada de vivenciar mitos. Em 1974 ele adaptou, junto com seu amigo Dave Arneson, um jogo de guerra baseado no movimento de miniaturas em um tabuleiro. O tabuleiro passou a ser irrelevante, as partidas passaram a ocorrer principalmente na imaginação dos jogadores, e todos se tornaram contadores de histórias – novamente. No jogo de Gygax, o primeiro Role Playing Game da história (“Jogo de Interpretação de Personagens”), heróis enfrentavam jornadas épicas e aventuras sem fim, adentrando masmorras obscuras como labirintos de minotauros, e digladiando-se com dragões e outros seres mitológicos... Cabia ao jogador designado como mestre do jogo, um novo xamã da tribo, determinar o desenrolar da história – mas todas as escolhas dos heróis eram feitas por eles próprios, os jogadores. Todos estavam vivenciando a jornada.

Os resultados se suas ações eram determinados pelo resultado obtido em se arremessar poliedros regulares na mesa. Os famosos sólidos de Platão e Pitágoras continuavam a ser sagrados – são os rolamentos dos dados de 4, 6, 8, 12 e 20 faces que decidem o destino dos heróis (bem, existe também o dado de 10 faces, embora este não seja um poliedro regular). Todo jogo de RPG tem alguma coisa de experiência religiosa, mas foi só muito tempo depois de ter jogado a primeira vez, com cerca de 11 anos de idade, que me apercebi disso.

Cheguei a criar meu próprio mundo de fantasia e cenário de RPG. A mitologia moderna me atraiu, e não poderia ter sido de outra forma. Hoje compreendo: aquele jogo tão distinto, onde o tabuleiro existia principalmente em nossa mente, foi talvez a minha primeira festa estranha.

E, se não lhes pareceu suficientemente estranha, gostaria de lembrar brevemente que quando um personagem com o qual jogamos RPG eventualmente morre na história, podemos ser ressuscitados por feitiços, mas também podemos ter de criar um novo personagem. E, não importa se este novo é um guerreiro ou ladrão, enquanto o antigo era um clérigo ou mago, nosso entendimento do jogo se desenvolveu, nosso potencial para jogar e interpretar cada vez melhor é hoje maior do que ontem. E, se tivermos de começar uma vez mais do nível 1, não significa que tenhamos perdido a experiência de um dia termos chegado, quem sabe, a um nível 13 ou 14... Um dia chegaremos finalmente ao nível 20, e depois quem sabe a semi-deuses, e depois a algum nível que nem mesmo Gygax descreveu nas regras. E teremos de criar novas regras nós mesmos.

Assim também ocorre com o espírito. Esta vida é meu mais novo personagem, e sinceramente não sei mais em que nível eu estou...

***

Crédito da foto: Jason Thompson

Marcadores: , , , , , , , , , , ,

2.5.11

Caso Parmod, parte 5

« continuando da parte 4

A primeira coisa que se lê no livro de Ian Stevenson (publicado pela Editora Vida e Consciência) é uma citação atribuída a ele – que não sei se consta da edição original americana, mas não deixa de ser pertinente –, que diz assim:

“Se os hereges pudessem ser queimados vivos nos dias de hoje, os cientistas – sucessores dos teólogos, que queimavam qualquer um que negasse a existência das almas no século XVI – hoje queimariam aqueles que afirmam que elas existem”.

Exagero? Provavelmente que sim, mas nem tanto... A vantagem dos cientistas radicais sobre os eclesiásticos radicais é que, apesar de tudo, eles ainda são mais racionais, e não se esqueceram dos seus precursores que morreram na fogueira – embora estes não fossem tão radicais e tampouco apenas cientistas, muitos eram também religiosos e até mesmo frades, como o dominicano Giordano Bruno.

Ainda assim, a neutralidade da ciência Ocidental é um mito. A começar pelo fato de ser primordialmente a ciência de uma cultura. Não há espaço para trazer muitos detalhes, mas apenas gostaria de lembrar que Alfred Russel Wallace é tão autor da teoria da evolução quanto Darwin, mas a Academia optou por relegá-lo a um rodapé da história, pois que era um espiritualista com “ideias heterodoxas”; Também vale a pena citar a acupuntura, parte da ciência Oriental, largamente utilizada na medicina dita complementar e mesmo na veterinária, que é muito pouco estudada pela Academia, apesar de que admitem seus resultados – todos, sem exceção, caindo na conta do “misterioso” efeito placebo...

A Academia parece até abrir um certo precedente para doutrinas como a do catolicismo, onde todos os milagres ocorreram a muito tempo atrás, e os pouquíssimos admitidos pelo Vaticano atualmente servem muito mais para beatificações e santificações do que para qualquer espécie de estudo científico do assunto. Se almas existem, pouco importa cientificamente falando, pois só teremos contato com elas após a morte. A presença de um Espírito Santo imaterial em tudo que há tampouco pode ser detectada. E, se orações funcionam ou não, não parece aborrecer a Academia no sentido em que o Vaticano tampouco conduz experimentos sobre isso.

Porém, quando surge um sujeito sério como Ian Stevenson, pesquisando temas ditos esotéricos e místicos de forma científica e extremamente meticulosa, daí é um grande absurdo! Talvez não décadas atrás, quando ele iniciou os estudos com o patrocínio de Carlson, mas nos dias atuais vemos várias publicações científicas atacando seus métodos. Interessante como justamente Carl Sagan endossou sua seriedade... Ah, quantos céticos de negação a priori não devem se incomodar: “porque diabos o Sagan foi falar disso?”.

Há que se exaltar, finalmente, a coragem de Stevenson. Em nenhum momento ele diz ter certeza da reencarnação, mas a hipótese surge como uma explicação mais plausível e menos absurda para os fenômenos que ocorrem a crianças em todo mundo, embora relativamente raros. Alguns materialistas podem preferir a teoria dos Memes de Dawkins, outros parapsicólogos podem atribuir tudo ao Inconsciente Coletivo de Jung, mas apesar de serem mais bem aceitas pelos asseclas da Academia, tais teorias são consideravelmente mais místicas do que a da reencarnação, pelo menos vista pela visão científica de Stevenson.


Para terminar este estudo, gostaria de comentar sobre alguns dos padrões mais interessantes e relevantes observados no livro:

Da morte traumática
Muitos dos casos estudados relatam lembranças de uma morte traumática na vida anterior. Acidentes, assassinatos, suicídios, brigas, doenças fatais... Nesse sentido, o mecanismo da memória não parece ser muito diferente do que ocorre numa mesma vida. Ora, não é preciso nem se aprofundar muito na neurologia ou na psicologia para sabermos que são as memórias de maior carga emocional as mais duradouras, as que mantemos mais detalhes, muitas vezes as que nos traumatizam e se recusam a ir embora.
Muitas vezes é necessária uma imagem ou situação catalisadora dessas memórias “perdidas”... Uma garotinha da Europa medieval pode ter fugido da invasão de uma tribo de bárbaros a sua vila, apenas para morrer de fome em meio à área selvagem, sendo devorada por urubus ainda agonizante. Se a última imagem da vida anterior foi de um pássaro negro te devorando, não será de surpreender que numa outra vida esta mesma alma desenvolva uma estranha fobia a pássaros, sobretudo pássaros grandes.
Então muitos espiritualistas ficarão buscando um sentido para tais experiências, como se pudessem realmente compreender a consciência alheia, e seus “débitos” em relação ao Cosmos. Não podem: só o ser saberá dizer, quem sabe um dia, o porque de ter passado por tudo o que passou.
Mas fato é que, se a reencarnação existe, todos nós havemos de ter passado por alguma morte traumática, sendo que o importante é compreender que foi algo que já passou. Conforme Parmod ao reencontrar sua esposa da vida anterior – ele não se lamentou nem amaldiçoou a Deus por seu destino, apenas disse: “eu vim”.

Do esquecimento das vidas passadas
Interessante como o estudo de crianças que se lembram de vidas passadas também passe pelo seu esquecimento. É realmente quase que um padrão fixo: mais ou menos entre 1 a 3 anos as memórias se iniciam, mais ou menos entre 4 a 10 anos começam a desaparecer, mais ou menos na idade adulta foram completamente esquecidas, ou assimiladas e compreendidas, corretamente, como uma personalidade que já não está mais aqui.
Pois que drama há nisso tudo? Não é verdade que nenhum de nós sequer faz ideia de como éramos antes dos 3 a 4 anos (exceto alguns autistas, mas isso é uma outra história)? Ora, da mesma forma que as células de nosso corpo morrem e se renovam, de modo que ao morrermos não possuímos mais praticamente nenhuma célula daquelas que nasceram conosco, as memórias são muitas vezes apenas bruma e espuma, sustentáculos de nossas breves personalidades que estão em constante renovação e afloramento.
Você saberia dizer quem era você há 15, 20 anos atrás? E, mesmo que saiba dizer, tem mesmo certeza de que todo o seu relato é fiel a uma realidade que não existe mais? Pois, dessa forma, você já morreu – e continuará morrendo...
Apenas a potencialidade persiste. A capacidade de amar, o dom para as letras ou para a música, a lógica matemática, a intuição do caçador, a divina criatividade do poeta... Se é que existe mesmo uma alma primordial por detrás dessas máscaras de personalidade que usamos e trocamos inúmeras vezes, mesmo que em uma única vida, ela ainda parece estar muito distante de nossa compreensão. Portanto, quem acha que a reencarnação é apenas uma teoria para aplacar a angústia perante a morte, pense novamente – muitas vezes, esquecer é morrer. Mas será que esquecemos para sempre?

Da mudança de sexo
Segundo Stevenson, os relatos de vidas passadas com sexo diverso comportam menos de 10% de todos os casos estudados. Entretanto, essas ocorrências raras (dentro das já raras crianças que podem ser estudadas), apontam para um outro aspecto muito pertinente destes casos: o comportamental.
Ora, se é verdade que muitos casos são investigados do ponto de vista das informações passadas adiante pelas crianças – como nome de familiares, endereços, descrições de eventos, identificação de objetos, etc. –, há ainda muitos outros que caem no campo do comportamento, e que são muitas vezes mais sutis. Por exemplo: se uma criança do gênero masculino tem um comportamento afeminado, isso pode ser fruto de uma vida passada no gênero feminino? Essa seria a resposta mais superficial, mas nos estudos de Stevenson muitas vezes a vida passada era a de uma mulher com comportamento dito masculino. É difícil julgar, pois as almas insistem em serem apenas almas: nem homens, nem mulheres.
Muitas vezes, um modo de caminhar, um modo de dirigir o olhar durante uma conversa, um modo de observar a natureza ao redor, são muito mais pertinentes do que uma mera tendência a este ou aquele gênero sexual. A reencarnação pode nos ensinar que ainda antes de sermos heterossexuais ou homossexuais, somos almas, ou, porque não dizer, apenas seres sexuais.

Do tempo “entre-vidas”
Deste assunto Stevenson praticamente não trata, pois é até curioso de se notar: não há nada mais raro do que uma criança que afirme se lembrar de um tempo entre encarnações. E mesmo dentre as que lembram, os relatos não fazem muito mais sentido do que um sonho. Parece que, particularmente neste caso, o estudo genuinamente científico ainda precisará transpor muitas barreiras técnicas...
Entretanto, vale a pena notar como na maioria dos casos do livro, talvez por se tratarem de casos de mortes por acidente, violência ou doenças, e não por idade avançada, resultem em tempos entre vida bastante curtos – desde reencarnações “automáticas”, quando uma alma reencarna imediatamente após a morte (se quiserem saber mais, comprem o livro, não é minha intenção prejudicar o mercado editorial, e sim auxiliar!), até períodos de não muito mais do que alguns poucos anos.
Nesse aspecto as observações de Stevenson parecem diferir bastante de inúmeros casos relatados na literatura espírita, particularmente em livros como “O Céu e o Inferno” (de Kardec) e “Nosso Lar” (psicografia de Chico Xavier). Há a possibilidade dos relatos espíritas serem feitos por espíritos desencarnados, e não por crianças encarnadas, e, portanto, incluírem a memória do tempo entre-vidas: este tempo pode ser semelhante ao tempo que percebemos nos sonhos, e que muitas vezes é bastante mais longo do que o tempo “normal”. Quantas vezes não acordamos 15 minutos antes do despertador, e ao voltamos a dormir, experienciamos toda uma epopeia narrativa em apenas 15 minutos, até sermos interrompidos pelo despertador?
Enfim, o mundo dos espíritos pode mesmo ainda estar fora do alcance de uma análise objetiva e racional. Mas, o mundo das crianças que afirmam se lembrar de vidas passadas ainda promete nos ensinar muito sobre o mecanismo da existência e, principalmente, sobre os mecanismos de nossa mente.

***

Crédito das imagens: [topo] Wikipedia (Ian Stevenson); [ao longo] Tim Pannell/Corbis.

Marcadores: , , , , , , , , ,

25.4.11

Caso Parmod, parte 4

« continuando da parte 3

Texto de Ian Stevenson em "Reencarnação, 20 casos” (Ed. Vida e Consciência) – Trechos das pgs. 163 a 185. Tradução de Carolina Coelho Lima. Os comentários ao final são meus.

Reconhecimentos mais relevantes feitos por Parmod
Abaixo listarei os 6 reconhecimentos mais relevantes de uma lista original com 36 itens. Também optei por ignorar alguns que já foram citados ao longo do meu resumo do texto completo deste caso.

1. Ele “morreu em uma banheira” (Informantes: M. L. Sharma; Verificação: M. L. Mehra, J.D. Mehra, segundo irmão de Parmod)
Comentários: De acordo com Sri M. L. Sharma, Parmod disse que “morreu em uma banheira”. As testemunhas da família Mehra afirmaram que Parmanand tentou uma série de tratamentos com banhos naturopáticos, quando teve apendicite. Ele fez alguns desses tratamentos dias antes de morrer, mas não morreu na banheira. Em uma carta de 6 de setembro de 1949, Sri B. L. Sharma afirmou que Parmod tinha dito que morreu “por ter sido molhado com água” e que ele (Sharma) soubera (supostamente por meio da família Mehra) que alguém dera um banho nele imediatamente antes de sua morte.

2. Ele tinha um cinema em Saharampur (Informantes: B. L. Sharma; Verificação: M. L. Mehra)
Comentários: A família possuía um cinema em Saharampur [1].

3. Seu nome era Parmanand (Informantes: B. L. Sharma; Verificação: M. L. Mehra)
Comentários: Parmod não havia dito o nome Parmanand até o momento em que cumprimentou Sri Karam Chand Mehra, na estação de Moradabad. Ele disse: “Olá, Karam Chand. Eu sou Parmanand”.

4. Explicação de como mexer na máquina de refresco na loja dos irmãos Mohan, em Moradabad. (Informantes: M. L. Mehra, B. L. Sharma, N. K. Mehra)
Comentários: Quando Parmod entrou na loja, um de seus primeiros comentários foi: “Quem está cuidando da panificadora e da fábrica de refrescos?” (Essas eram as funções de Parmanand nos negócios da família.) Ao ser levado até a máquina de refrescos, Parmod sabia exatamente como fazê-la funcionar. A água tinha sido desligada para enganá-lo, mas ele percebeu sem que ninguém lhe dissesse, como aquela máquina complicada tivesse condição de funcionar.

5. Reconhecimento da esposa de Parmanand. (Informantes: Nandrani Mehra, B. L. Sharma, M. L. Sharma)
Comentários: Sugestão não intencional pode ter entrado neste reconhecimento, uma vez que Parmod foi levado entre um grupo de moças e perguntaram a ele se conseguia reconhecer “sua” esposa. Ele ficou tímido e olhou para a viúva de Parmanand. Ela desviou o olhar. Mais tarde, ela disse a outros que Parmod havia dito: “Eu vim, mas você não colocou o bindi”. Essa afirmação referia-se à marca redonda de pigmento vermelho usada na testa das esposas, mas não por viúvas na Índia. O comentário teria sido muito incomum para um menino fazer a uma mulher mais velha, mas totalmente apropriado na relação entre marido e mulher. Ele indica como Parmod acreditava que a senhora era “sua” esposa [2]. Ele também a reprovou por estar usando um sári branco, como as viúvas hindus costumam fazer, em vez de um colorido, como é próprio às esposas.

6. Reconhecimento de Yasmin, um cobrador muçulmano de Parmanand. Parmod disse a ele: “Preciso receber um dinheiro de você”. (Informantes: B. L. Sharma, Raj. K. Mehra)
Comentários: Yasmin, a princípio, ficou relutante em assumir a dívida, mas quando membros da família Mehra afirmaram que não pediriam o dinheiro de volta, ele disse que, de fato, existia uma dívida. As testemunhas disseram valores diferentes [3].

O desenvolvimento posterior de Parmod
Não encontrei Parmod entre agosto de 1964 e novembro de 1971. Mas, durante esses anos, fiquei sabendo notícias dele por meio do Dr. Jamuna Prasad, que havia incluído o caso de Parmod entre aqueles nos quais uma equipe liderada por ele vinha estudando correspondências dos traços comportamentais entre indivíduos e personalidades anteriores relacionadas de casos de reencarnação. Durante esses anos, também recebi algumas cartas de Parmod ou de seu pai com notícias sobre suas atividades atuais.

Em novembro de 1971, pude conversar longamente com Parmod em Pilibhit. Nós nos reunimos no escritório do Soil Conservation Service, no qual ele trabalhava na época. Parmod tinha um pouco mais de 27 anos.

(...) Parmod continuava mantendo amizade com os membros da família de Parmanand, e os encontrava com frequência. Às vezes passava alguns dias com eles em Moradabad, apesar de não ter vivido com eles no período em que estava trabalhando em Moradabad. Com preferências condizentes com as de Parmanand, Parmod via mais os filhos de Parmanand do que a esposa dele em Moradabad.

Parmod disse que às vezes pensava na vida como sannyasi ou homem sagrado (anterior àquela de Parmanand) de que ele havia-se lembrado antes. Ele se lembrava dessa vida de vez em quando, em ocasiões em que se encontrava com pessoas com interesses filosóficos. Das três vidas das quais tinha lembranças, a do sannyasi, a de Parmanand e a de Parmod, ele preferia a de Parmanand. Não conseguia explicar essa preferência.

(...) Discutimos o valor de ele ter se lembrado de uma vida anterior. Parmod respondeu que a experiência não tinha sido útil nem prejudicial, mas imediatamente continuou dando exemplos que sugeriam que a experiência tinha sido as duas coisas.

Por um lado, ele concordava com a mãe em relação ao fato de sua lembrança da vida anterior ter interferido em seus estudos; e se isso fosse verdade, ele não havia se recuperado totalmente dessa deficiência, uma vez que seu avanço futuro dependia em grande parte do fato de completar os estudos e ter um diploma. Por outro lado, ele acreditava que suas lembranças de uma vida anterior também haviam trazido vantagens. No nível prático, ele acreditava que sua perspicácia nos negócios vinha do que ele havia aprendido da vocação da Parmanand [4].

E de modo mais geral, a certeza da continuação da vida depois da morte que suas lembranças lhe davam fazia com que tivesse equilíbrio, o que o ajudava muito em seus relacionamentos pessoais [5].

» Na continuação, minhas considerações finais acerca do caso Parmod.

***

Comentários sobre esta parte. Ao final da série trarei comentários gerais:

[1] É preciso considerar que naquela época (e até mesmo ainda nos dias atuais, em muitas regiões da Índia) os cinemas eram pequenos e administrados como um negócio de família. Mesmo assim, pouquíssimas famílias indianas tinham um cinema, o que aumenta consideravelmente a relevância da informação. É o tipo de coisa que parece a primeira vista uma fantasia, mas que termina por se tornar uma verificação relevante.

[2] É curioso ler nas entrelinhas. Percebam como o menino não se virou para a “esposa” e apontou: “é aquela ali”. Ao invés disso, comportou-se como se apenas houvessem se separado por algum tempo. A relação tempestuosa entre os dois também fica evidente: mesmo após terem sido separados pela “morte”, a primeira declaração de Parmod é uma represaria.

[3] Em todo caso, melhor assumir uma dívida menor do que a real...

[4] Em realidade, sua vocação para negócios era uma de suas potencialidades bem desenvolvidas ao longo de inúmeras vidas, enquanto a personalidade anterior era tão somente a última de uma série onde teve a oportunidade de aprimorar esta potencialidade em específico... Ou, em outras palavras, ninguém nasce gênio por bênção divina ou uma graça aleatória da combinação genética, mas tão somente reflete a potencialidade (ou a “genialidade”) que vem sendo desenvolvida, passo a passo, vida a vida, pelas eras pregressas.

[5] Talvez ninguém tenha mais “certeza” disso do que uma criança que “já nasceu sabendo”. Há muitos que creem em vida após a morte, mas são pouquíssimos os que compreendem ao menos uma parte do mecanismo pelo qual isso ocorre. Crianças que lembram vidas passadas são especiais no sentido de que trazem uma crença que está por si só além de qualquer sistema religioso, científico, ou filosófico, pré-estabelecido pela sociedade.

***

Crédito da foto: Doug Pearson/JAI/Corbis.

Marcadores: , , , , , ,