Pular para conteúdo
30.11.12

Abrindo portas na mente, parte final

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

« continuando da parte 2

Uma semana depois, retornava ao consultório de Kátia. Naquela altura, já tinha elaborado boa parte do que havia relembrado uma semana antes, e me considerava praticamente “curado”. Não sabia exatamente o porque, mas uma intuição me dizia que “já estava bom”, que não seria mais necessário, nem recomendável, insistir em abrir mais portas da mente, em adentrar ainda outras vidas antigas... Mas Kátia não concordou, achava que era necessário prosseguir com o tratamento [1]:

Ao abrir a mesma porta imaginária, estranhamente vi um castelo, cercado por uma cidade medieval, mas em vista aérea... O que depois vim a perceber que se tratava de minha chegada a Terra, o renascimento!
Logo após vi água, mar, e um imenso casco de navio cortando a imensidão azul e provocando pequenas ondas que surgiam para logo depois desaparecerem. Estava observando o barco no qual eu era encarregado por cortar o Mediterrâneo. Tinha por volta de 30 anos, bigodinhos pontudos e ridículos (que vira no espelho), uma roupa aparentemente típica da época do renascimento europeu. E tinha um longo chapéu também, apenas evitava usa-lo quando na proa para não voar para longe...
Era empregado de uma companhia de comércio marítimo, e após algum tempo como marujo me tornei encarregado de um barco inteiro. Eu adorava velejar, ver aquelas velas imensas e decoradas com símbolos serem acariciadas pelo vento... E o mar, sobretudo amava o mar!

A impressão que tive é que passei toda uma vida a observar o mar, a navegar dentre pequenas cidades do Mediterrâneo, vivendo do comércio de alimentos e especiarias variadas. Parecia um conto de fadas a primeira vista, mas como sempre, as aparências enganam...

Infelizmente não era uma vida só de alegria. Eu havia me casado moço, e pouco antes de ganhar aquela função importante, já havia gerado seis filhos, e outros dois nasceriam depois... Mas eu usava todo meu tempo no trabalho, nas viagens, no comércio... Nunca tive muita disposição para amparar minha esposa e assistir meus filhos crescerem de perto, aquilo não me atraía, apenas o mar era meu refúgio naquele tempo.
Então minha esposa morreu doente. Eu a havia amado bastante, principalmente no início de nossa relação. Dessa vez ao menos eu soube dar valor a esse tipo de amor... Mas não fui exatamente um bom pai. Após sua morte, deixei as crianças numa espécie de orfanato, e as mantinha muito bem com o dinheiro que ganhava no comércio, apenas não lhes dava amor e atenção, exatamente o que uma criança mais precisa...
E o tempo passou, e chegava a hora de me aposentar, mas isso aconteceu antes do que eu esperava, fui simplesmente demitido de um dia para o outro. Não me faltava dinheiro, mas sentia muitas saudades do mar... E meus filhos não eram mais do que amigos distantes, já crescidos e com suas próprias vidas, e eu os entendia muito bem, claro, não tinha o que exigir deles.

Na hora da morte, constatei mais uma vez o valor do amor:

Graças a Deus, minha única filha, e ao que parece a que mais me amara, me aceitou em sua casa, e passei o final da vida aos seus cuidados. Eu aprendi a gostar dela, é claro, e a partir daí passei a lamentar meu egoísmo em relação as minhas crianças... Mas ainda havia tempo para me reabilitar: nesses anos passei a me aproximar dos meus filhos com cautela, e eles de certa forma me aceitaram. Poderia ter sido bem melhor, é claro, mas pelo menos ainda houve tempo para uma reavaliação das minhas escolhas.
E quando morri de complicações intestinais, lá estavam minha filha e mais dois filhos que puderam comparecer a sua casa no dia final. Eu morri sem tanta dor assim, pois na passagem já estava sendo auxiliado por um grupo de espíritos amigos. Minha filha, principalmente, chorou muito minha morte, ela realmente sempre me amou, e eu só lamentava por essa falha por tantos anos de minha vida, e o desperdício da oportunidade de ter criado meus filhos mais próximos de mim.

Embora não soubesse exatamente quem eram, sentia em minha alma que aqueles que vieram me buscar eram conhecidos, e não desconhecidos como os que me visitaram na vida ateniense. Isso parecia fazer toda a diferença do mundo: um ser que lamentava minha morte na Terra, que se lembraria de mim, e que deu sentido a uma vida inteira; e amigos do outro lado, amigos de outras épocas, outras vidas... O que mais eu poderia desejar? Estava começando a achar que valeria a pena continuar visitando minhas vidas passadas.

Mas isto durou pouco. Pouco antes das memórias se encerrarem, tive um pequeno vislumbre do motivo de ter vivido toda aquela vida velejando pelo Mediterrâneo... Lembrei-me, num breve relance, da vida imediatamente anterior, de ter sido um dos guerreiros cruzados, que acreditava piamente que estava seguindo aos desígnios de Cristo e da Igreja Católica ao invadir, pilhar e assassinar nas terras árabes, na dita “terra santa”. Este relance foi o suficiente para que eu desistisse de prosseguir adiante na investigação de minhas memórias.

Uma vida inteira de contemplação no mar, porque? Para que? Ora, porque, ao contrário do que os filmes de Hollywood podem fazer crer, espadas não cortavam homens como se corta manteiga, e não se mata com a mesma facilidade que um herói do cinema. Lutar nas guerras medievais mais parecia um açougue do inferno, com sangue por todo lado, gemidos de dor aterrorizantes, e cenas surreais – como procurar por amigos feridos ou mortos em meio a pilhas de corpos apodrecendo dentro de metal. Hoje, apesar de tudo, ainda se mata a distância; mas matar ao lado, isto sim, era o terror [2].

E, este sim, foi motivo suficiente para que eu interrompesse o tratamento com a Kátia, o que não me arrependo nem um pouco; embora também não me arrependa de ter iniciado o tratamento, pois acredito que tenha me auxiliado, nesta vida, de muitas formas:

Provavelmente não farei mais regressões, mas eu sabia que seria assim. Havia curiosidade, havia medo, hoje só há mesmo uma profunda fé, uma fé renovada, de que não existe nada melhor do que existir, de que não estou sozinho, e nada pode ferir aquele que ama, pois o amor é uma energia poderosíssima, escudo contra todo o mal, e combustível para qualquer realização verdadeira nessa esteira temporal, onde vidas não passam de momentos, e onde a luz irradiada dos confins do Cosmos nos aponta o caminho, sempre...

***

[1] Se por um lado, é óbvio que seria do interesse dela prosseguir com o tratamento – afinal, nenhuma terapeuta sobrevive de uma seção única por paciente –, por outro ela tinha razão no sentido de que meu tratamento psicológico ainda deveria prosseguir. O caso é que não necessariamente deveria prosseguir com mais regressões, pois elas nem sempre são somente benéficas, como veremos na sequencia do texto.

[2] É preciso explicar que tais lembranças hoje são totalmente indiretas, isto é: já as imagino como se fossem a história de uma outra pessoa, e não de mim mesmo. Isto é bem diferente do que senti no rápido vislumbre emocional, já no fim da regressão – é deste tipo de trauma que procurei me afastar. É este também boa parte do motivo do meu grande temor em me aproximar do meu Eu Superior, pois é exatamente Ele quem comporta todas as lembranças – as boas, e as ruins. Felizmente ainda O encontrei em outras oportunidades, quando estava mais preparado para encará-Lo... Mas isso é uma outra história.

***

Crédito da imagem: Paul Edmondson/Corbis

Marcadores: , , , , , ,

27.11.12

Abrindo portas na mente, parte 2

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

« continuando da parte 1

Eu era criança e tinha a visão de uma criança. A mesa a minha frente era enorme, exatamente como seria para uma criança. Eu mesmo, nesta vida, me lembro bem de como a pia do banheiro da minha casa era tão alta que, quando eu tinha de escovar os dentes, precisava subir num banquinho. Foi uma associação direta, visual, com esse tipo de lembrança...

Em torno da grande mesa, via as pernas das pessoas andando para cá e para lá. Parece que havia um bolo, ou coisa parecida, sendo feito pelas serviçais da minha casa. Minha família era nobre, e era um dia tradicional, haveria uma festa à tarde em minha casa. Podia ver que tinha muitos irmãos.

Pois bem, há muitos que desejariam ter sido grandes reis ou nobres em suas vidas passadas, como se isto fosse indicativo de alguma espécie de “superioridade”... Ledo engano, são exatamente estes que, muitas vezes, se enveredaram pelas vidas mais corruptas e distantes do amor, não muito diferente de como ocorre ainda hoje com todas as famílias que possuem muitos bens materiais – muitas coisas com que se preocupar, e se esquecer do amor. Quando o amor, ou melhor, a potencialidade de amar, esta sim, é tudo o que viemos aqui desenvolver, passo a passo, vida após vida.

E esta criança, que havia nascido nalguma região da atual França, nalgum tempo entre 120 a.C. e 105 a.C., pelos meus cálculos [1], podia perceber claramente esta falta de afeto numa grande família nobre. Preferiu migrar em direção à península grega, mesmo contra a recomendação dos pais (isto provavelmente nunca muda), e se estabelecer, como escriba, na grande Atenas, o centro da cultura mundial – ou, pelo menos, o mundo conforme a visão de um jovem europeu da época:

Cheguei lá após as vidas de Sócrates e Platão, daí eu ter ido também por causa da fama da cidade. Primeiramente fui a um templo bem tradicional onde uma mulher, o oráculo, me disse que só eu posso seguir meu próprio caminho, não adiantava tentar achar a um sábio, um guia, ou mestre, pois ninguém poderia trilhar meu próprio caminho além de mim. Depois me vi conseguindo trabalho como escriba, e talvez com a ajuda de uma carta de meu pai, que por certo era um homem influente.

Se depois, ao relembrar tais memórias com a razão da vida atual, fiquei feliz em saber que já era um “sujeito letrado” desde esta época, na prática isto não me ajudou muito, pois me faltava ainda a sabedoria que as letras não ensinam... Quando Atenas foi “finalmente anexada” pelos romanos, não houve guerra nem destruição na cidade em si; mas nas imediações, nas pequenas zonas rurais em seu entorno, houve morte e carnificina, estupros e todo tipo de horror que acompanha a sina dos inocentes que tiveram o azar de estar no caminho das hordas de soldados.

Pois é, ocorre que o tal sujeito letrado tinha um grande amor nos arredores de Atenas – que poderia ter sido salva, quem sabe, se tivesse sido “assumida” e trazida para residir em sua casa, na segurança da cidade:

Depois me vi já mais velho, provavelmente acima dos 30 ou 40, e percebi que havia me apaixonado por uma camponesa... Até o dia em que vi Atenas sendo invadida por soldados, e eram romanos, com certeza. Eles passaram a controlar a cidade, era o período da tutela romana... Mas eu nem me importava, pois ao que parecia eles atacaram antes os campos, e eu sabia que aquela camponesa havia sido morta. Então eu pensei que se eu tivesse assumido meu amor por ela talvez ela estivesse ainda viva, e isso doeu demais. Daí eu comecei a frequentar festas e me relacionar com diversas mulheres. Passei a me autocastigar, e não tomar mais conta da minha própria saúde como deveria. Comecei a beber bastante...

De que me valia haver “nascido nobre” agora? Provavelmente, foi à prepotência adquirida através desta “nobreza” que me impediu de assumir um amor “não tão nobre”. Os preconceitos que temos hoje, o desejo de ser “superior”, é algo tão antigo, tão antigo... E mais antiga ainda é a cerveja, e o vinho, e os inúmeros entorpecentes que nos têm servido como “rotas de fuga da realidade”. Quantas vidas teremos desperdiçado assim?

Me vi morrendo com 50 para 60 anos [2], num quarto com minhas serviçais e meus amigos. Então eu lamentei profundamente por não ter amado nessa vida tanto quando poderia ter amado. Aprendi muitas coisas, mas não pude aprender a ser sábio sobre mim mesmo, e não pude amar como gostaria. Vi duas luzes chegando, os seres que me levariam de volta. Não os conhecia, e isso me deixava muito apreensivo. Mas fiquei mais tranquilo ao saber que iria para um lugar onde poderia tentar aprender tudo aquilo que ficou faltando dessa vida... Então, eu subi...

Somente muitos anos depois, ao ver documentários e estudar sobre as experiências de quase morte (EQMs [3]), é que pude reparar que os relatos de “pontos de vista flutuando no teto, vendo o corpo abaixo, numa cama” eram surpreendentemente parecidos com tais “visões de morte” que tive na regressão. De fato, não existe vida após a morte, mas vida após a vida, por tudo o que estudei e “vivenciei”, provavelmente exista.

Antes de prosseguirmos, gostaria de tecer duas considerações finais acerca desta experiência de morte: (a) Me parece ser muito, muito importante, ter familiares, amigos e conhecidos, no momento da morte. Isto é uma pena, pois em nossa era morremos sozinhos, em hospitais, entubados e ligados a máquinas. Naquela época, e durante muitos séculos, a morte não era assim tão assustadora [4], e as famílias compareciam aos momentos finais do moribundo, que muitas vezes morria em casa, na mesma cama em que dormia todas as noites; e (b) Se tem uma coisa que parece ser intransponível, é o acesso as memórias que ocorreram entre vidas, no chamado plano espiritual. Mesmo nas centenas de casos de crianças que lembram vidas passadas, estudados minuciosamente por Ian Stevensson [5], que eu saiba não se viu um único relato do período entre vidas. Um mistério, um mistério!

» Na continuação, guerras e navegações...

***

[1] Baseados na época em que, segundo a História, Atenas foi invadida pelos romanos (após uma revolta contra o domínio do Império, cerca de 88 a.C.). Eu não me lembro de ter estado atento a estes eventos em específico antes de ter realizado a regressão, mas é possível que tenha estudado isto, por alto, muitos anos antes, nas aulas de história do colégio. Em todo caso, já conhecia Atenas (e Sócrates, Platão, etc.) nesta época, de modo que certamente fiquei em dúvida se tais memórias não poderiam ser produção de uma “imaginação que tentava reconstruir uma Atenas antiga”. Por fim, considerando outras vidas relembradas (estas sim, que nada tinham a ver com qualquer assunto que estivesse lendo ou estudando na época), acabei considerando que mesmo esta vida, em que estive em Atenas (conforme será explicado na sequencia do texto), foi uma “vida real”.

[2] É preciso considerar que a minha tentativa de “conferir uma idade” as fases desta vida foi baseada na razão desta vida atual, moderna, onde uma pessoa que aparenta ter de 50 para 60 anos muitas vezes pode ser até mais velha. Naquela época antiga, pelo contrário, talvez alguém com 40 anos já aparentasse ter mais de 50 (por nossa visão atual).

[3] Sobre o assunto, recomendo a série Quase morte.

[4] Ver o artigo O sexo e a morte.

[5] Ver a série Caso Parmod.

***

Crédito da foto: SOPA RF/SOPA/Corbis

Marcadores: , , , , , , , ,

21.11.12

Abrindo portas na mente, parte 1

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

Até hoje me lembro de quando finalmente me dei conta do que havia se passado realmente. Estava então no meio da viagem entre Copacabana e a Gávea, onde morava, no Rio de Janeiro, e meditando sobre aquilo tudo. Até aquele momento, tudo o que se passou na minha primeira regressão a vidas passadas, nesta vida, havia sido assimilado como algo corriqueiro – não havia nada para se temer, nem duvidar, ou causar qualquer espanto... Foi ali, naquele ônibus, que minha razão finalmente alcançou e abarcou toda aquela experiência, tentando racionalizar o que talvez estivesse para sempre além da racionalização, e da linguagem.

Regredir, viajar pelos portais do tempo e do espaço, certamente foi minha maior experiência espiritual, e a mais estranha das festas estranhas. Até então, havia relutado em aborda-la aqui, mas acredito que esta série não estaria completa sem este relato [1].

Não é mesmo recomendado regredir sem ter uma excelente razão, e eu talvez tivesse as minhas... Havia finalmente concordado em fazer terapia, pela insistência de meu pai, que sempre me conheceu muito bem. Estava há cerca de um mês gripado, e não me lembro de ter ficado doente por tanto tempo em outra fase desta vida [2]. Alguma coisa, de fato, estava errada comigo, mas nem eu mesmo sabia o que. Aceitei, dessa forma, iniciar uma terapia com a Kátia, uma terapeuta holística e espiritualista, que se não me engano me foi indicada por alguém da minha família. Eu só não imaginava que já iria passar por uma experiência de regressão de memória a vidas passadas já na primeira sessão [3]...

Antes de prosseguir, gostaria de passar brevemente sobre o problema psicológico que eu acreditava estar tratando, e o problema que eu tinha realmente. Não irei entrar em maiores detalhes, pois este relato não é sobre mim, e sim sobre a experiência em si:

Muito bem, em suma, eu tinha um problema que hoje costumo chamar de “complexo de santo”. Acreditava que devia me sacrificar para ser um “menino santinho”, sem namorar, sem muita vida boêmia (em pleno Rio de Janeiro!), e me dedicando com afinco a espiritualidade (foi pouco antes desta época que comecei a escrever sobe o tema [4]). No final das contas, e após as regressões, descobri duas coisas que guardei fundo na memória e na alma, até hoje: (a) Que na verdade meu “problema” com namoros advinha de traumas antigos, de outras vidas, com certas falhas minhas na formação de famílias e cuidado com meus filhos; e (b) Que em realidade toda aquela história de “ser santinho” era somente o meu ego tentando construir para si mesmo um “patamar de santidade” – em outras palavras, estava querendo “ser santinho” por mim, e não pelos outros. Essas lições foram (espero) assimiladas, mas são problemas que, decerto, ainda permearão esta e muitas outras vidas.

Agora podemos voltar à terapia em si. O consultório da Dra. Kátia parecia bastante comum, com um sofá para ela, um sofá maior, ou divã, para o paciente se deitar confortavelmente, um tapete felpudo, e baixa luminosidade. Devo dizer que a experiência em si foi tão impactante, que hoje mal me lembro das feições da Kátia, e por isso nem vou descrevê-las aqui [5].

O procedimento padrão do início da regressão era uma espécie de meditação “guiada” pela terapeuta, que me dava indicações sobre o que procurar imaginar, tentando “destravar” minha mente e alça-la em estados alterados de consciência. Uma das coisas extraordinárias da experiência é que eu permaneci consciente o tempo todo, embora certamente não num estado normal, desses do dia a dia. Somente muitos anos depois dessa experiência que fui chegar a estados similares, quando comecei a desenvolver minha mediunidade. Infelizmente, não tenho mais contato com a Kátia, e não faço ideia de qual “ramo” ou “técnica” terapêutica ela utilizou.

Mas fato é que funcionou muito bem... Após me imaginar voando pelos céus num grande balão, e deixando o solo cada vez mais distante de mim, entrei nalgum estado estranho, onde meu corpo inteiro parecia “ondular”, quase como se fosse feito de luz, e não mais de átomos com massa. Foi então que as lembranças iniciaram. Isto aqui faz parte de algumas anotações que fiz na época, dias depois das regressões:

Assim que ela indicou a idealização de um longo corredor de diversas portas, e me mandou abrir uma delas, eu comecei a regredir... Após um certo clarão de luz, me vi num monte, a grama era bem verde e a frente havia uma depressão que revelava uma extenso rio e algumas árvores. Sempre sendo guiado pelas perguntas da terapeuta, vi perto do rio uma pessoa, provavelmente um guia espiritual, que me esperava. Eu sabia que ele tinha a resposta que eu procurava, mas eu não podia andar até lá porque alguma coisa no meu peito me impedia, uma dor física mesmo, um mal estar tremendo que me fixava onde estava. Mesmo assim pude ver que usava sandálias de couro amarradas até a canela e uma túnica de cinza bem claro. Meu cabelo era castanho e dava até os ombros. Devia ter por volta de 30 anos... De resto não consegui ver mais nada.

O que acho interessante complementar aqui, sobre esta experiência inicial: (a) As lembranças eram lembranças mesmo, e não visões, ou algo como vídeo ou trechos de cinema. O que conseguia observar, era através dos meus próprios olhos (na época, sabe-se lá qual), e isto significa que não podia me ver realmente, ou seja: via apenas parte do meu vestuário, as mechas de cabelo que caiam sobre a face, meus pés e mãos, etc; (b) O registro desse tipo de memória é icônico, simbólico [6], e me parece que as lembranças mais profundas e facilmente acessáveis são aquelas revestidas de alta carga emocional – sejam lembranças boas, felizes, ou traumáticas; (c) Aquele que achei ser meu guia espiritual era, em realidade, eu mesmo, ou melhor, o meu Eu Superior, aquela entidade que parece ser capaz de lembrar perfeitamente de todas as minhas vidas e, portanto, de todas as minhas escolhas, boas ou ruins. Até hoje, se me lembro bem, esta “sensação” que me impedia de me aproximar desta entidade foi, em realidade, o maior medo que já senti nesta vida. Mas só fui compreender isso tudo anos depois, quando consegui me aproximar um pouco mais deste Eu divino [7].

Então “pulei” a uma época em que devia ter uns 8 para 10 anos...

» Na continuação, um escriba na antiga Atenas...

***

[1] Em todo caso, devo revelar muito pouco acerca de minhas vidas passadas, já que devem (ou deveriam) interessar somente a mim. Este relato está totalmente focado na experiência de regressão em si.

[2] E nunca mais fiquei mais do que alguns dias gripado, após a regressão.

[3] Decerto não seria algo indicado, mas talvez a Kátia tenha “sentido” que seria algo seguro naquele momento, e no contexto do meu tipo de problema psicológico (falo dele na sequencia do texto).

[4] Ver o conto O mensageiro dos céus, para ter uma ideia de como tudo começou...

[5] Muito do que experienciei nas regressões foi lembrado perfeitamente por muitos anos, mas nalgum momento comecei a esquecer, aos poucos, de fatos e imagens isoladas. Hoje este relato só é possível por que deixei algumas coisas anotadas na época, em 1999 (alguns trechos do texto acima foram retirados diretamente dessas anotações, geralmente estarão em itálico).

[6] Sir Charles Scott Sherrington traz uma definição muito precisa dessa questão, em seu livro Man on his nature, onde ele imagina a mente como um “tear encantado” a tecer padrões mutáveis porém sempre significativos – tecendo padrões de sentido: “Esses padrões de sentido transcenderiam programas ou padrões puramente formais ou computistas e dariam margem à qualidade essencialmente pessoal que é inerente a reminiscência, inerente a toda mnesis, gnosis e práxis. [...] Padrões pessoais, padrões para o indivíduo, teriam de possuir a forma de scripts ou partituras – assim como padrões abstratos, padrões para computador, têm de estar na forma de esquemas ou programas. Portanto, acima do nível de programas cerebrais, precisamos conceber um nível de scripts e partituras cerebrais. [...] A experiência não é possível antes de ser organizada iconicamente; a ação não é possível se não for organizada iconicamente. ‘O registro cerebral’ de tudo – tudo o que é vivo – tem de ser icônico. Essa é a forma final do registro cerebral, muito embora o feitio preliminar possa ser moldado como cômputo ou programa. A forma final de representação cerebral tem de ser, ou admitir, a ‘arte’ – o cenário e a melodia artística da experiência e da ação.”

[7] Alguns ocultistas chamam a isto de S.A.G.

***

Crédito da imagem: Paul Anderson/Images.com/Corbis

Marcadores: , , , , , ,

12.11.12

O voo da arara

Alguns sonhos parecem como que deslocados no tempo... E algumas vidas, também...

Era uma vida cheia de trabalho nos portos, e cheia de contemplação no mar. Cuidava de um grande barco de uma companhia espanhola, saia de Málaga e perambulava pelo Mediterrâneo, algumas vezes alcançando a Turquia, antes de retornar. Seu barco estava quase sempre estocado de alimentos ou moedas, mas pouquíssimos livros – se conseguisse ler durante os solavancos das ondas sem enjoar, já teria terminado toda a obra de Platão.

Mas o que mais fazia era sentar na proa, nas horas vagas, e contemplar... Todo aquele mar, a separar civilizações tão antigas, lhe transmitia imensa paz. Sentia-se triste por ver tão pouco os filhos e a mulher em Málaga, mas prometera a si mesmo que iria se aposentar alguns anos antes, para que pudesse conviver ao menos com sua filha caçula, a sétima, a primeira mulher.

Ainda assim, os sonhos sempre lhe atormentavam. Eram como uma lembrança antiga, de grandes batalhas entoadas em nome de Deus, mas que mais pareciam um açougue no Inferno. Seria ele mesmo um desses cruzados que foram derramar sangue árabe muito longe de casa? Como poderia ser, se desde que se entendia por gente havia sido um legítimo espanhol? Se nunca havia pego uma espada, mas apenas o leme de um barco? O que seriam afinal tais sonhos, se perguntava enquanto contemplava o sol se pôr por detrás de Creta.

Naquela noite sonhou um sonho bem diferente. Ouviu centenas de piares de pássaros e, ao subir na proa, viu que se tratava de pequenos pássaros azuis rechonchudos, de uma espécie que nunca havia visto antes. Alguns deles seguravam com as patas, em conjunto, um livro estranho. Ao abri-lo, viu que se tratava de uma coleção de pinturas de rostos e bustos, muito familiares por sinal... De alguma forma, neste sonho, soube que se tratava dele mesmo, em outras épocas. Antes da sua própria imagem em Málaga, vinha o guerreiro cruzado; mas se interessou mais pela imagem à direita e, quando olhou para ela, desmaiou.

Despertou numa imensa carruagem de vários cômodos que estava, por alguma estranhíssima magia, a correr por debaixo da terra... Surpreendentemente, achou aquilo tudo normal, e desceu com os outros quando a carruagem parou. Todos tinham vestes estranhas, e embora parecessem arrumados para alguma grande ocasião, nenhum homem usava peruca... Deu de ombros e os seguiu pelo que pareceram escadarias de um imenso templo subterrâneo. Ao chegar no alto, olhou para o portal que dizia: “Ave Paulista”. Seria um imperador romano desconhecido?

Estava num imenso pavimento onde carruagens estranhas, grandes e pequenas, rápidas e barulhentas, se moviam para cá e para lá. E, na via em que estava, todas as pessoas também se moviam, para cá e para lá... Achou aquilo tudo tão cômico que mal reparou nas grandes torres que cercavam a paisagem e, de tão altas, impediam que visse o sol. “Será que estou no céu? Mas as pessoas aqui parecem tão atarefadas, e não vejo nenhum pomar”, pensou consigo mesmo.

Decidiu seguir duas meninas que passavam por perto, pois elas pareciam menos atarefadas. Conseguia ouvir seus pensamentos antes das palavras familiares que pronunciavam, mas que não conseguia entender inteiramente – parecia espanhol ou português, e ao mesmo tempo nem tanto... Mesmo assim, entre um e outro pensamento, percebeu que falavam de sexo e afins. Isto não era estranho, estanho era o fato de ambas falarem em ter relações com homens e com mulheres! “Estranho, se me lembro bem, o padre disse que esse tipo de gente não estaria no céu”...

Seguiu-as até a entrada de uma imensa biblioteca. Nunca havia visto tantos livros juntos, nem com tantas cores diferentes. Procurou por “Filosofia” e achou as obras de Platão que ainda não havia lido. Decididamente estavam escritas em português, mas pegou de uma, Fedro, e começou a tentar ler. Foi então que viu: um imenso pássaro de penas vermelhas e bico encurvado, belíssimo, empoleirado no alto da estante ao seu lado. Era um pássaro falante ou, pelo menos, pensante:

“Crá! Crá! O que está fazendo aqui, meu rapaz? Esta não é a sua época!”

“Isto aqui não é o céu?” – estava começando a pensar que poderia ser, pois o céu certamente teria bibliotecas como aquela.

“Crá! Isto aqui é o seu próprio mundo, mas no futuro!”

“Futuro? Mas, e o que diabos eu estou fazendo aqui?”

“Ora, sendo você mesmo, no futuro... Crá!”

“Mas, eu já estou morto? Então isto não é o céu, mas o purgatório?” – decididamente, se o purgatório tinha uma biblioteca daquelas, o céu seria realmente maravilhoso!

“Crá! Crá! Meu rapaz, é hora de ir, é hora de voar de volta. Você está somente sonhando um sonho inadequado, onde já se viu!”

E o imenso pássaro o agarrou pelos ombros com as patas e, sem machucá-lo nem um pouquinho, voou por entre as prateleiras de livros lustrosos, através da entrada, e para o céu azul... Foi então que olhou para baixo e viu que estava na maior cidade do mundo! Antes de desmaiar novamente, ainda encontrou forças para um último diálogo:

“Espere! Me diga ao menos que tipo de pássaro é você?

“Crá! A’rara! A’rara’pyrang! Mas você vai me conhecer como arara vermelha...”

“Mas, e onde você vive? É perto de Málaga?”

“Não, meu rapaz, é muito distante de Málaga. Um oceano distante! Crá! Crá!”

“E que terra é essa? A Atlântida?”

“Quem sabe, quem sabe? Crá! Crá! Esta é a terra que iremos, eu e você, morar um dia...”

Foi então que percebeu que aquele pássaro era uma amiga... Mas, antes que pudesse perguntar de onde exatamente a conhecia, o voo da arara se fez completo, e ele mergulhou de volta, dentro de si mesmo, de volta para seu velho barco, e contemplação.

Acordou com um sorriso nos lábios, só não se lembrava exatamente porque...


para A’rara Brasil.


raph’12

***

Crédito da foto: Edu Fortes

Marcadores: , , , , ,