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24.10.18

Anjos e Devas

Em diversas religiões é comum a existência de seres espirituais de diferentes categorias. Eles podem variar em termos de desenvolvimento espiritual, moral, poderes e entendimento.

No budismo existem muitos reinos espirituais ou planos de existência que fazem parte de sua cosmologia. Nos estados de privação temos, por exemplo, os asuras (demônios), espíritos famintos e os animais. Podemos renascer como demônios como resultado de karma ruim. Há também diferentes categorias de reinos de devas. Quando temos um bom karma podemos renascer como devas ou como humanos.

É verdade que o reino humano (manussa loka) encontra-se abaixo de muitos dos reinos de devas na hierarquia. Porém, ao atingir os estados de jhanas, um ser humano torna-se capaz de atingir os reinos dos devas.

Na cosmologia do budismo, nascer como ser humano é considerado o melhor tipo de nascimento, pois possui um equilíbrio único de prazer e dor, que é ideal para nos libertar dos ciclos de nascimentos e mortes.

Os devas experimentam muito mais prazer que dor e se encontram em reinos mais elevados do que os humanos. Em compensação, por se encontrarem em estados de tanta alegria, eles não sentem a urgência de se libertar e portanto se torna difícil para eles atingir o nirvana. Por sua vez, os demônios experimentam muito mais dores do que prazer, o que se torna um estado que dificulta enormemente o desenvolvimento espiritual.

Nós humanos normalmente buscamos o prazer e fugimos da dor, o que acaba nos gerando um problema similar ao enfrentado pelos devas: nós ficamos tão distraídos com os prazeres e alegrias que nos esquecemos de trilhar o Caminho Nobre, ou não vemos tanta urgência para isso.

As religiões indianas costumam compensar esse problema sugerindo uma vida de mais simplicidade, meditação, leitura das escrituras ou, em alguns casos, a prática de certas penitências. As austeridades não devem ser excessivas, ou cairíamos num estado similar aos demônios: muita dor impede o desenvolvimento espiritual. Devemos seguir, como Buda sugeriu, o Caminho do Meio, que o nascimento humano já proporciona naturalmente. Basta então adotar as práticas corretas.

Disso tudo concluí-se uma coisa: apesar de na hierarquia os devas (similares aos anjos do cristianismo) se encontrarem num estado superior, por possuírem bom karma, nascer como ser humano é melhor do que ser deva. Através dos estados refinados da mente (jhanas) podemos “ser como devas”. Ao atingir os quatro primeiros jhanas materiais alcançamos um estado mental equivalente ao dos devas. Porém, ao atingir os jhanas imateriais atingimos reinos acima daqueles que os devas podem alcançar, até que conquistamos a iluminação, que é, espiritualmente falando, praticamente inacessível a eles. Por isso é comum que devas escutem os discursos de humanos que já conquistaram alguns jhanas imateriais e as primeiras etapas da Iluminação. Ajahn Mun costumava discursar para devas mesmo antes de se iluminar, quando já estava avançado no entendimento.

Pode-se dizer que existe um ensinamento semelhante no cristianismo. Nós costumamos olhar os anjos como se eles estivessem numa categoria muito acima daquela dos humanos, mas não é bem assim.

O Corão nos conta que, no princípio, Deus criou Adão num estágio de desenvolvimento espiritual até mesmo acima dos anjos. Por isso Deus ordenou que os anjos se ajoelhassem diante dele. Porém, Lúcifer teria se recusado e por isso ele foi expulso do paraíso, de acordo com o islamismo.

É dito no cristianismo que os anjos se encontram constantemente na presença de Deus. Por isso, eles não têm dúvidas de sua existência. São Tomás de Aquino nos conta que eles não possuem corpos materiais, mas espirituais. Sendo assim, são capazes de apenas dois pecados principais: orgulho e inveja, tidos como os piores, pois são pecados do espírito e não da carne.

Os humanos, por outro lado, são capazes de realizar os sete pecados capitais. Eles também não são capazes de ver Deus. Num primeiro olhar, consideraríamos isso como uma desvantagem, certo?

Porém, não é bem assim. De forma similar ao budismo, é dito que os humanos se encontram num equilíbrio de dor e prazer ideal para adquirirmos humildade. É verdade que Adão e Eva caíram, porque pecaram. Eles queriam ser como Deuses, assim como Lúcifer. Porém, a “punição” de Lúcifer e de Adão foram diferentes. Na verdade, essa punição tem mais relação com uma condição que nos ensinará a humildade mais facilmente.

Nós humanos nos tornamos mortais. Porque morremos podemos valorizar mais a vida, considerando-a preciosa. Isso irá apressar nossa urgência de nos desenvolvermos espiritualmente. A mesma urgência que os devas não possuem, já que eles vivem muito mais que nós.

Para completar, porque os seres humanos podem cair em mais pecados que os anjos, eles poderão aprender a humildade com rapidez. Irão reconhecer que são fracos. Da mesma forma que no budismo é dito que, porque o ser humano experimenta certo grau de dor, ele irá buscar atingir a iluminação com mais urgência, sem tantas distrações.

E, finalmente, uma questão chave: Deus não se mostra claramente para os seres humanos. É dito que Deus mantém uma distância epistêmica de nós, não deixando sua existência totalmente clara, pelo mesmo motivo que ele respeita nossa liberdade: é superior escolher o bem quando é possível optar pelo bem ou pelo mal do que se não tivéssemos escolha nenhuma. De forma análoga, é superior acreditar em Deus quando ele não se mostra claramente do que caso ele deixasse bem claro que existe.

Os anjos caminham sempre na presença de Deus e não têm dúvidas de sua existência. É muito mais difícil caírem em pecado, por não terem corpos. Sendo assim, a missão deles é diferente. Eles podem, por exemplo, nos guiar, nos ajudar e nos inspirar.

Não é que os anjos sejam inferiores aos humanos no cristianismo. Em muitos aspectos, os anjos são superiores aos humanos, da mesma forma que os devas são superiores: por não terem corpos, possuem muitos poderes especiais que nós humanos não possuímos. E por terem um nível mais elevado de entendimento espiritual (afinal, os anjos sempre estão com Deus e os devas se mantém sempre num estado equivalente aos jhanas materiais), eles são capazes de saber coisas que desconhecemos.

No entanto, a fraqueza humana pode se tornar uma força que nos torna capazes de ir mais longe. No catolicismo é dito com muita clareza que quando um ser humano se torna um santo, o seu desenvolvimento espiritual se torna tão elevado quanto o de um anjo. Da mesma forma que uma pessoa ao atingir jhanas materiais torna-se tão elevado quanto um deva.

Existe essa passagem misteriosa na Bíblia:

“Ousa algum de vós, tendo algum negócio contra outro, ir a juízo perante os injustos, e não perante os santos? Não sabeis vós que os santos hão de julgar o mundo? Ora, se o mundo deve ser julgado por vós, sois porventura indignos de julgar as coisas mínimas? Não sabeis vós que havemos de julgar os anjos? Quanto mais as coisas pertencentes a essa vida?” (1Cor 6:1–3)

Existem diferentes interpretações para essa passagem. Alguns dizem que os humanos que se tornarem santos serão aqueles a julgar os anjos caídos no Juízo Final.

E não podemos nos esquecer que no catolicismo há Maria, mãe de Deus. Ela só está abaixo da Santíssima Trindade. Encontra-se até mesmo acima dos anjos. O que nos sugere que um ser humano possui o potencial de atingir um estágio até mesmo superior ao dos anjos, como é o exemplo de Adão no islamismo, quando estava no Jardim do Éden, e de Maria no catolicismo.

Vejo isso como um teste de Deus para ambos: para anjos e para humanos. Os humanos devem desenvolver humildade lembrando que Deus e os anjos se encontram acima deles na hierarquia. E os anjos devem desenvolver humildade lembrando que Deus está acima deles e os seres humanos possuem um potencial de elevarem-se a alturas que somente Deus sabe, de acordo com o nível de santidade de cada um.

Porém, a isso o catolicismo não coloca nenhuma dúvida: um santo é equivalente a um anjo. Não em natureza, mas em nível espiritual e de entendimento. Por isso eles podem adquirir até o poder de fazer milagres, originalmente apenas pertencente a anjos. E por isso quem atinge jhanas materiais no budismo pode adquirir alguns poderes psíquicos, como os devas.

Que tudo isso nos sirva de reflexão e para recordarmos: nascer como humano é realmente uma bênção extraordinária. Podemos chegar a alturas que nem imaginamos, mas primeiramente é preciso tornar-se digno disso, baixando a cabeça, com humildade, prestando homenagem a todos que são mais sábios que nós e aprendendo com eles.

Wanju Duli é escritora – Contato: facebook.com/WanjuDuIi

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Crédito da imagem: wikimedia (Buddha preaching Abhidhamma in Tavatimsa)

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3.9.18

Chá com Abramelin

Quando a Wanju Duli aceitou meu convite para ser colunista deste blog, ela já estava bem no meio do chamado Ritual da Sagrada Magia de Abramelin, uma das práticas místicas mais minuciosas e demandantes do ocultismo (principalmente da maneira que está sendo conduzida). O texto que trago aqui é a introdução de um de seus blogs (e, acreditem, ela já teve muitos!), chamado Chá com Abramelin, onde ela vem nos trazendo resumos diários do Ritual. Eu raramente trago textos tão longos neste blog sem separá-los em várias partes, mas neste caso abrirei uma exceção. O texto foi originalmente publicado na Páscoa de 2018:


Enfim, o grande dia!

Nessa auspiciosa ocasião, dia da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. A gloriosa Páscoa!

Eis que Abraão, o Judeu, recomenda que se inicie a Sagrada Magia de Abramelin no primeiro dia após a Páscoa cristã ou judaica. Optei por iniciá-la após a Páscoa cristã, uma vez que estou mais conectada ao cristianismo.

Mas o que é a Magia de Abramelin? Por que resolvi iniciá-la? E quem sou eu, afinal?

São perguntas que merecem respostas consideravelmente longas, mas irei me esforçar para ir direto ao ponto. Raramente consigo fazer isso, uma vez que sou mais conhecida por minhas digressões. Ainda assim, me proponho a tentar.

Sempre gostei de religiões. Talvez meu problema seja amá-las demais. Na adolescência li muitos livros religiosos, como a Bíblia, Alcorão, Bhagavad Gita, Dhammapada, Tao Te Ching, dentre outros.

Por que eu precisava ter apenas uma religião? Eu amava todas, queria mergulhar em todas, até me afogar.

Aparentemente meu tempo aqui nesse mundo (meu Kronos), nesse plano, seria finito, teria um limite. Poderia ser uma boa coisa optar por uma direção de acordo com minhas inclinações.

Acabei me envolvendo mais com o budismo Theravada e com o catolicismo. Isso não me impediu de continuar admirando todas as outras religiões. Particularmente o hinduísmo e o judaísmo, que seria como uma mãe dessas outras duas.

Aos 13 anos me envolvi com leituras e práticas de ocultismo. Li e reli muitas das obras de Eliphas Levi. Foi ele que me ensinou a admirar o cristianismo, já que ele foi seminarista e teve muito contato com a teologia e a filosofia dessa religião.

Eventualmente ouvi falar da Operação de Abramelin e dos rumores do quanto ela era perigosa e difícil de realizar.

O que uma adolescente de 14 ou 15 anos faria com essa informação? Na época eu já havia lido algumas dezenas de famosos livros de filosofia, literatura, ocultismo e religião. Já havia testado algumas práticas e estava ansiosa por algo mais profundo, que não tocasse apenas a mente ou a carne, mas o espírito.

A perspectiva de essa magia ser árdua e um desafio à sanidade era imensamente atraente. Era um bônus que me tentava e me convidava.

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19.7.18

Há uma religião verdadeira?

Hoje estreia em nosso blog mais uma colunista. Com vocês, Wanju Duli:


“A grande diversidade de religiões que existe no mundo dá origem ao que, na filosofia da religião, costuma ser chamado de problema do pluralismo religioso. A existência de ampla diversidade religiosa em várias culturas inevitavelmente nos obriga a perguntar quais são as implicações dessa diversidade para a verdade da religião em geral. Será que o fato de haver uma variedade de religiões no mundo significa que, de alguma forma, uma religião é tão legítima quanto qualquer outra? Ou significa que nenhuma delas pode pretender ser a detentora da verdade?”

(Religião. Conceitos-chave em filosofia, por Brendan Sweetman)

Nessa postagem eu irei me basear essencialmente no referido livro. Algumas vezes eu irei resumir conceitos apresentados nele. Porém, em boa parte das vezes irei reproduzir parágrafos inteiros da obra (entre aspas), tendo como finalidade que o argumento seja apresentado de forma mais detalhada, uma vez que o autor é um filósofo que conhece o tema em profundidade.

Brendan Sweetman apresenta três visões possíveis para responder a pergunta “Há uma religião verdadeira?”. São elas: exclusivismo religioso, pluralismo religioso e inclusivismo religioso. Iremos analisar cada uma delas.

Exclusivismo Religioso

Essa é a visão de que o caminho correto para a salvação só pode ser encontrado em uma religião. A posição estreita sustenta que só uma determinada denominação pode alcançar a salvação. A posição ampla aponta que membros de uma religião específica (digamos, cristã, independente do tipo de cristianismo) será salva.

Os exclusivistas religiosos de hoje se opõem ao termo “exclusivismo”, sugerindo em vez disso o termo “particularismo” (mais neutro).

Os exclusivistas defendem que pode haver verdades profundas em outras religiões, mas que não se pode alcançar a salvação seguindo a religião errada.

Para eles, o trabalho missionário é muito importante. Afinal, estaria em jogo a alma eterna das pessoas.

Quais são os argumentos dos exclusivistas? Primeiro, eles defendem que é razoável acreditar em Deus, usando argumentos da teologia natural. Uma vez que Deus existe, seria razoável esperar que ele revele seus planos aos seres humanos. Assim, seria preciso investigar, na história, evidências dessa revelação. Seria feita a análise das várias candidatas à verdadeira revelação e a argumentação que uma delas seria superior às outras (incluindo análise textual, teologia moral, argumentos filosóficos, etc).

Eles defendem que, por uma simples questão de lógica, nem todas as religiões do mundo podem ser verdadeiras. Mesmo que exista alguma verdade em todas elas, ainda há contradições diretas, de modo que algumas dessas religiões devem estar erradas em determinadas questões. Poderia ser o caso de que todas estivessem erradas, mas mesmo assim uma delas poderia muito bem estar mais próxima da verdade do que as outras.

O exclusivista muitas vezes rejeita as críticas modernas ao exclusivismo, alegando que muitos estão intimidados pelo multiculturalismo e pelo politicamente correto, evitando fazer perguntas difíceis sobre pontos de vista diferentes, com medo de ofender os outros. Dessa forma, os críticos do exclusivismo evitariam uma exploração mais profunda sobre a questão.

Quais são os argumentos contra os exclusivistas? Uma objeção é que, embora a lógica por trás da posição exclusivista tenha sentido, não seria possível fazer um julgamento preciso e razoável sobre qual seria a religião mundial verdadeira. Há muitos aspectos obscuros sobre evidências históricas, datação de textos, relatos de testemunhas, etc.

Outra objeção é a de que muitos não veem dificuldade lógica nem teológica na visão de que Deus pode ter se revelado de diferentes maneiras em diferentes religiões. Os exclusivistas rejeitam essa visão porque não veem dificuldade para um Deus poderoso se revelar substancialmente da mesma maneira para culturas diferentes. Por que ele chegaria ao ponto de revelar mensagens diferentes?

Uma das razões mais fortes para se rejeitar o exclusivismo segundo seus críticos é que ele parece muito injusto para os membros das religiões equivocadas. E sobre os que não seguem a religião correta por nunca terem ouvido falar dela?

A isso os exclusivistas respondem com o argumento do “conhecimento intermediário de Deus” , conhecido como “molinismo”. Segundo essa visão, além do conhecimento passado, presente e futuro, Deus também tem um conhecimento intermediário e sabe o que você teria feito se tivessem sido apresentadas às opções certas em sua vida. Para muitos, essa é uma doutrina especulativa, incompatível com o livre-arbítrio humano.

Pluralismo Religioso

É a visão de que há muitos caminhos diferentes à salvação nas várias religiões e todas têm certa legitimidade. Um forte defensor dessa visão é John Hick, que foi fortemente influenciado pela metafísica de Kant.

Kant distinguiu o mundo numênico e o fenomênico, que é o mundo como ele é e como aparece a nós. Ele afirmou que só conhecemos o mundo fenomênico, que, embora se baseie no mundo numênico, é modificado de forma significativa no ato do conhecimento. A mente humana não poderia escapar a esses atos de alteração com o objetivo de conhecer o mundo tal como ele é.

Hick argumenta que a natureza da realidade de Deus ou Realidade Última equivale ao mundo numênico. Em sua perspectiva limitada, os humanos tentam descrever o numênico, o que daria origem às diferentes religiões. De acordo com Hick, nenhuma delas detém toda a verdade sobre o Real, porque isso é impossível, mas cada uma delas tem uma perspectiva legítima sobre o Real, e por isso nenhuma religião pode pretender ser mais verdadeira ou alegar ter o caminho verdadeiro para a salvação. Isso é verdade, Hick argumenta, mesmo quando as religiões se contradizem, pois cada religião estaria tão distante de uma descrição correta do Real que as diferenças seriam irrelevantes. Elas seriam mais bem descritas como “distorções”, já que representam uma verdade que estaria muito além da compreensão humana.

Para mostrar como isso funciona, Hick e muitos pluralistas apelam para a história dos cegos e do elefante. Sua visão se tornou atrativa a muitos e é motivada por várias ideias atrativas à mente moderna: a liberdade de cada um de escolher sua própria visão de mundo, a rejeição da verdade literal das reivindicações religiosas, o aumento do relativismo moral e o desejo de não ter uma postura de julgamento em relação aos outros.

No entanto, é uma visão que vem com sérios problemas. Ela recorre a uma epistemologia antirrealista, como a de Kant, ou a um ceticismo em relação à possibilidade de os seres humanos conseguirem conhecer a verdade sobre qualquer coisa em sua experiência. Embora tenha popularidade hoje, em várias disciplinas acadêmicas (e tenha penetrado na cultura popular), devido aos problemas dessa posição epistemológica muitos relutam em se comprometer com ela.

Segundo Brendan Sweetman:

“Um problema enfrentado pela visão kantiana é que ela parece contraditória, pois está dizendo, por um lado, que, como ilustra claramente o exemplo do elefante, não há perspectiva final a partir da qual possamos julgar qual religião mundial possa ser verdadeira. Por outro lado, o próprio Hick está assumindo uma perspectiva maior, pois nos apresenta uma descrição de como as coisas realmente são! Em outras palavras, Hick está dizendo que a mente humana não consegue escapar do mundo fenomenal para descrever o mundo numênico e, ainda assim, é capaz de nos apresentar uma descrição supostamente verdadeira da realidade (e não uma descrição modificada pela mente): a de que ela consiste dos mundos numênico e fenomênico e de uma relação específica entre eles. Isso é uma contradição no âmago de todas as teorias antirrealistas: a pessoa que propõe a teoria sempre consegue escapar das estruturas relativizantes e da mente cognoscente, das quais o autor defende que ninguém pode escapar! O pluralismo também flerta abertamente com o ceticismo em relação ao conhecimento, porque se baseia na visão de que não é possível examinar as religiões do mundo da forma defendida pelo exclusivista — para ver qual delas tem mais probabilidade de ser verdadeira. Vai mais longe, argumentando que as afirmações factuais diretas nas religiões mundiais são todas falsas, como a de que Jesus ressuscitou dos mortos ou de que o anjo apareceu a Maomé, e são mais bem entendidas como metáforas para expressar o Real. Portanto, a literalidade da maioria das afirmações religiosas — que está no centro de quase todas as religiões — teria de ser abandonada. Então, para um cristão pensar que Jesus era Deus e realmente ressuscitou dos mortos para salvar a humanidade e que devemos, portanto, orar a Deus, essas crenças não devem ser consideradas literalmente verdadeiras, de acordo com Hick, e sim ‘perspectivas’ sobre o Real, que é, em si, incognoscível. E o mesmo acontece com todas as religiões. É fácil ver como essa visão convida ao relativismo e ao ceticismo sobre a religião em geral, e seria difícil distinguir do ateísmo”.

“Os pluralistas, muitas vezes, respondem a essas críticas dizendo que, na religião, o que importa não é tanto em que você acredita, mas como vive, ou, nas palavras de Hick, o que importa é que a religião possa transformar a vida de uma pessoa, de autocentrada a centrada em Deus. Se você seguir o código moral correto em sua vida, vai encontrar a graça aos olhos de Deus, independentemente de suas crenças metafísicas, teológicas e doutrinárias (e por isso essa abordagem pluralista também teria espaço para secularistas e ateus). Essa é uma visão pela qual mesmo quem não é pluralista tem alguma simpatia, mas parece que seria necessário que soubéssemos qual é a maneira certa de viver (isto é, que saibamos o que significa ter uma vida centrada em Deus). Contudo, parece que para isso teríamos que ser capazes de fazer duas coisas que os pluralistas acreditam não poder ser feitas. Primeiro, teríamos que conseguir julgar as várias religiões de acordo com seus códigos morais, mas, se pudermos fazer isso com os códigos morais delas, por que não poderíamos fazer o mesmo com suas características teológicas, sociológicas e históricas? Em segundo lugar, de modo mais geral, teria de ser possível saber qual é a verdade objetiva na moralidade e, se pudermos conhecer a verdade objetiva na moralidade, por que não podemos conhecê-la em outras áreas do conhecimento, como história, teologia e descrições da revelação?”

“O pluralismo, em suma, é ‘exclusivista’ à sua maneira, no sentido de que o pluralista quer que o exclusivista e o inclusivista aceitem a sua visão como verdadeira, e não apenas em geral, mas também em relação ao que está envolvido em viver uma vida centrada em Deus. O pluralista acredita que tem a resposta correta a isso e que as outras respostas estão incorretas. Em outras palavras, na história do elefante, o pluralista é o homem com visão, que consegue ver o quadro inteiro, incluindo a natureza do Real (o elefante), mas todos os outros são cegos! Se não fosse esse o caso, o pluralista não poderia saber que as descrições do Real apresentadas pelos cegos eram distorções inadequadas. Esses problemas são graves para o pluralismo e tem levado muitos a propor um meio-termo entre exclusivismo e pluralismo”

Inclusivismo Religioso

“Muitos consideram graves os problemas identificados tanto no exclusivismo quanto no pluralismo e, assim, gravitam em torno de uma visão que nos permita dizer tanto que a salvação pode ser alcançada em muitas religiões diferentes, mas que, no entanto, nem todas as religiões podem ser verdadeiras. Ainda pode haver apenas uma religião verdadeira. Essa visão é conhecida como inclusivismo religioso. Os inclusivistas afirmam que há apenas uma visão verdadeira de como a salvação pode ser alcançada, mas que pessoas de diferentes religiões podem ser salvas por causa da natureza dessa visão da salvação. Por exemplo, um inclusivista cristão acreditaria que a morte e ressurreição de Jesus Cristo tornam a salvação possível, não apenas para os cristãos, mas também para os membros de outras religiões. Isso é verdadeiro mesmo se os membros das outras religiões não reconhecerem Jesus ou o cristianismo: é verdade mesmo se eles acharem que Jesus não foi Deus ou que as principais afirmações do cristianismo são falsas. O teólogo católico Karl Rahner (1904–1984) e o filósofo católico Jacques Maritain (1882–1973) tinham, ambos, essa concepção”.

“O inclusivismo é atrativo para a mente moderna, porque parece preservar os pontos fortes das outras visões, evitando as suas fragilidades, mas não está isento de críticas”.

Os exclusivistas rejeitam a ideia de que não podemos investigar quais religiões do mundo provavelmente sejam verdadeiras. Também não concordam em afirmar que não há necessidade de conexão real ou essencial entre a doutrina e as crenças teológicas da religião e as suas crenças morais (como se as crenças teológicas e doutrinárias fossem falsas, mas as morais não fossem afetadas). Essa posição seria negativa para o ponto de vista lógico e enfraqueceria a posição geral da religião no debate com o secularismo, principalmente na política.

Os pluralistas, por outro lado, também não são entusiastas do inclusivismo, porque têm problemas com a ideia de que podemos descobrir qual religião é verdadeira, o que é preciso fazer para quem quer ser inclusivista. Mas reconhecem seu valor pragmático, tornando o debate de qual religião é verdadeira menos premente e menos polêmico.

Conforme Brendan Sweetman:

“Outra dificuldade para o inclusivita é que, para dizer que as pessoas de outras religiões podem ser salvas, deve-se apresentar alguma visão do que é a salvação para que a visão inclusivista tenha qualquer conteúdo e não continue a ser uma abstração vaga e impraticável. Isso vai envolver tanto uma visão teológica de salvação quanto alguma visão da vida moral correta que é necessário para a salvação. Também exigirá um argumento de que não é preciso acreditar na visão teológica para ser salvo, que viver moralmente é o suficiente, e que Deus é revelado de forma imperfeita em várias tradições religiosas. Mesmo se não pudermos chegar a um acordo sobre a visão teológica, a visão sobre a maneira correta de viver parece ser urgente, ou cairíamos rapidamente no relativismo moral”

“Concluindo, não nos esqueçamos de que todas as visões que abordamos exigem algum trabalho missionário, porque os seus defensores precisam converter os outros ao que consideram a posição correta sobre a questão da diversidade religiosa, e, como vimos, essa tarefa parece exigir que se saiba o que é verdade em matéria religiosa, pelo menos em algum nível. Essa última questão ilustra mais uma vez porque o problema do pluralismo religioso é um assunto fascinante, mas complexo, para as várias religiões do mundo moderno”.

Wanju Duli é escritora – Contato: facebook.com/WanjuDuIi

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Crédito das imagens: [topo] Android Jones; [ao longo] wikimedia.org

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5.6.18

Xamanismo, Arte e Magia (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo falo sobre como a religião, a filosofia, a ciêcia e todas as formas de arte tiveram sua origem no xamanismo ancestral. Também veremos como o hermetismo foi essencial para o advento da chamada ciência moderna, como estamos a todo momento navegando num oceano de informação, e como podemos estar fazendo magia mesmo sem saber:

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15.5.18

O que é a filosofia chinesa?

A expressão filosofia chinesa é bastante controversa, sobretudo porque o termo em chinês que denota filosofia (zhexue) foi cunhado apenas no século XIX. Se estivermos com ele nos referindo ao Confucionismo, ao Taoismo, ao Budismo, e outras correntes de pensamentos presentes na China, devemos estar cientes que estamos usando um conceito historicamente posterior para representar algo muito mais antigo. Utilizamos um conceito ocidental para representar retrospectivamente uma série de investigações, reflexões e debates de pensadores que sequer conheciam o termo.

Os pensadores chineses da antiguidade discutiram questões sobre ética, governabilidade, sociedade, metafísica, natureza e linguagem, as quais entendemos hoje serem do escopo da filosofia. Porém, eles não as entendiam como parte de uma disciplina específica de conhecimento. Tratava-se do conhecimento de maneira geral.

As principais discussões filosóficas da China Antiga iniciaram em torno do problema político. Pensadores como Confúcio buscaram definir o que é a moralidade e o bom governo do povo. O propósito do conhecimento era o desenvolvimento da virtude.

A filosofia chinesa, no entanto, não possui um posicionamento único. Diversos pensadores discordaram entre si e criaram diferentes escolas de pensamento. Neste texto, pretendemos caracterizar brevemente as principais correntes, sinalizando a pluralidade do pensamento oriental.

1. Confucionismo
Perturbado pelas inquietações políticas, Confúcio propôs uma reforma ética da sociedade de seu tempo. Confúcio desejava eliminar a corrupção dos comportamentos daqueles que estavam no poder. Tal processo devia iniciar com a educação dos líderes da sociedade.
No confucionismo, a educação possui um alto valor. O objetivo da educação é o cultivo de uma vida ética e disciplinada. A grande ênfase a tais aspectos deu um retrato ao confucionismo como uma filosofia rígida e conservadora, baseada em estritas regras morais.
Essencialmente, a visão de Confúcio consistia em desenvolver uma moralidade para que os líderes fossem capazes de governar a sociedade de forma ética. O bom governo deveria atender às necessidades do povo de uma forma humanista, valorizando a amabilidade e a cortesia.

2. Taoismo
O taoismo surgiu como uma crítica ao confucionismo, considerado como excessivamente moralista. Entretanto, o taoismo é mais do que uma mera oposição a Confúcio, pois desenvolveu uma metafísica própria que marcou profundamente o pensamento chinês.
O conceito chave do taoismo é o Tao, comumente traduzido por caminho. Marcado por mutabilidades, o caminho não pode ser compreendido, apenas vivenciado. Seguir o Tao, ao contrário das disciplinas morais desenvolvidas por Confúcio, é agir de acordo com sua própria naturalidade, muitas vezes de modo pouco antropocêntrico.
Segundo os taoistas, quando as pessoas são ensinadas a se comportarem de uma determinada maneira, elas se conformam àquela forma específica de agir. Tornam-se obedientes e infelizes. Enquanto os confucionistas valorizavam o poder dessa educação moral, os taoistas diziam que ela tinha um aspecto limitador.  O objetivo do taoismo era, portanto, recuperar a espontaneidade para além das formas criadas pelo homem. Agir livre de coerções indevidas.
Por reciprocidade, o taoismo valorizava não apenas a liberdade pessoal, mas também a apreciação da espontaneidade do outro. Neste sentido, o taoismo possui uma ética de não-interferência. O que significa evitar ideias absolutas, inflexíveis ou metodologias unilaterais.

3. Chuang-Tzu
Chuang-Tzu foi um filósofo taoista de um período mais tardio desta escola. Tornou-se conhecido pelo seu ceticismo em relação à ideia de existir um observador privilegiado ou um juiz imparcial sobre qualquer assunto. Para Chuang-Tzu, não existe teoria correta. Cada julgamento carrega consigo os valores pessoais de quem a defende.
Toda perspectiva filosófica parte de uma determinada forma de compreender o mundo. Cada indivíduo só pode compreender o mundo a partir do próprio lugar em que está inserido. O conhecimento, portanto, é sempre um tipo de interpretação, e não a representação fidedigna da realidade.
Tal compreensão teve grande influência no modo em que os pensadores chineses lidavam com as divergências. Ao invés de buscarem eliminá-las através de uma verdade única que demonstrasse a falsidade das demais, eles valorizavam os diferentes aspectos de um pensamento, procurando estabelecer uma posição conciliadora.

4. O sincretismo e o pensamento correlativo
Diante de uma grande divergência de perspectivas que não adentraremos aqui além do confucionismo e o taoismo (poderia se falar ainda sobre escolas menores, como o moismo, o legalismo etc.), os pensadores posteriores da filosofia chinesa passaram a sintetizar elementos de diferentes doutrinas em sua própria abordagem.
Ao contrário de como fazemos no Ocidente, não é difícil encontrarmos um taoista, por exemplo, que possuísse uma leitura de Confúcio e tentasse aproveitar seus ensinamentos. Para um pensador chinês, mais importante do que a escola específica de onde surgiu uma ideia, ou quem defendeu uma ideia, está o valor daquela ideia, se ela é aplicável ou não.
A prática sincrética do Oriente teve uma consequência ambígua. Se por um lado vemos uma maior liberdade para lidar com as ideias, podendo os pensadores se servir de múltiplas contribuições; por outro, a falta de rigor metodológico fez com que muitas escolas perdessem sua raiz original, abandonando a especificidade do que caracterizava o seu discurso.
As discussões da filosofia chinesa, a princípio voltadas para a ação e o comportamento, absorveram gradualmente concepções e práticas já existentes na religião popular chinesa. Embora não fosse o objetivo inicial de pensadores como Confúcio e Lao-Tzu (taoismo), suas filosofias não foram indiferentes às práticas populares, como a adivinhação, a astrologia, a medicina e o culto aos ancestrais.
Ao mesmo tempo em que essas filosofias transformaram a religiosidade chinesa, foram também transformadas a partir do contato e do sincretismo com as crenças e costumes populares, sendo que hoje é comum termos acesso a elas muito mais pelo seu viés religioso do que filosófico.
Deste modo, por exemplo, se originalmente o conceito de Tao não envolvia um aspecto cosmológico, com o passar do tempo se tornou uma forma de representar os fenômenos e as correlações entre o céu, a terra, o clima e até seres espirituais na medida em que as preocupações filosóficas chinesas foram se deslocando da ética ao misticismo.
O neoconfucionismo, por sua vez, passou a absorver elementos de outras doutrinas, ampliando sua visão humanista – inicialmente focada na política e no desenvolvimento de virtudes – para incorporar as correlações entre as esferas humana e natural através do pensamento correlativo.
O pensamento correlativo da cultura tradicional chinesa traça correspondências sistemáticas entre várias ordens da realidade, tais como o corpo humano, a política e os astros. Ele presume que essas ordens são homólogas e relacionadas entre si. Por exemplo, desastres naturais podiam representar maus presságios em assuntos políticos, ou as ações do governo estavam ligadas aos fenômenos da ordem natural, como estrelas, plantas, ventos, chuvas, pássaros e insetos.
O pensamento correlativo influenciou profundamente a filosofia, e ainda hoje, nas abordagens medicinais, o corpo humano é entendido como um microcosmo em que saúde e doença precisam ser compreendidas de maneira holística. A arquitetura chinesa, outro exemplo, leva em consideração aspectos psicológicos, fisiológicos, geográficos e até mesmo astrológicos.
Hoje é muito difícil separarmos o holismo místico da filosofia chinesa de suas primeiras preocupações sobre ética e política. A compreensão correlativa e holista dos fenômenos se tornou uma característica essencial da filosofia chinesa como a conhecemos e de suas diversas práticas derivadas.

5. Budismo chinês
Apesar da origem do budismo não ser chinesa, a sua introdução na China teve grandes influências sobre a filosofia. Diversos pensadores buscaram articular o budismo com conceitos já existentes, sobretudo com o taoismo.
A origem do budismo é indiana, e aspectos de sua filosofia, como o ascetismo, a meditação, a crença numa percepção extrassensorial e ideias sobre continuidade da consciência, já faziam parte do pensamento indiano. A novidade introduzida pelo seu fundador, o Buda Siddartha Gautama, foi a concepção de uma consciência não individual.
O budismo rejeita uma concepção individualizada e permanente de Eu característica do pensamento indiano. Em seu lugar, propõe o Eu como um fenômeno impermanente, em constante mudança, em que nossa individualidade não passa de uma ilusão causada por uma conjunção de impressões. A filosofia budista entende que o indivíduo deve aceitar a impermanência para alcançar a iluminação, distanciando-se do apego aos desejos que conduzem ao sofrimento.
Um aspecto bastante valorizado no budismo chinês foi, diante de oposições e diferenças de pensamento, a adoção do caminho do meio como solução para a questão da dualidade, o que remete a mais uma modalidade de síntese, estratégia característica do pensamento chinês diante das divergências filosóficas.

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Para concluir...
Vemos como o pensamento chinês é marcado por uma diversidade. Existe e existiram diferentes escolas que divergiram em uma variedade de questões. Os debates promovidos por essas diferenças fizeram com que a filosofia chinesa se transformasse ao longo dos séculos, e através de inúmeras sínteses, essas compreensões foram se entrelaçando com o passar da história.

Além disso, as preocupações iniciais sobre o comportamento humano virtuoso ou autêntico e a construção de uma sociedade ideal foram dando lugar e sendo reinterpretados à metafísica e ao misticismo. Hoje, uma das principais influências da filosofia chinesa ao Ocidente é a concepção de uma visão holista sobre saúde e espiritualidade, conhecida através de práticas medicinais (como a acupuntura) e religiosas (como a meditação).

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Diem Nhi Nguyen/unsplash

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26.1.18

O problema do niilismo: o mundo da razão

Desde que o Ocidente começou a questionar os valores e concepções do mundo antigo e tradicional, seja através da ciência, da literatura ou da filosofia, alguns tem anunciado o niilismo como a destruição da moral e a ruína do homem. Depressão, indiferença, suicídio. Mas o que representa verdadeiramente o niilismo?

Para compreender o niilismo, antes precisamos nos remeter ao contexto de sua origem, percebendo como ele se relaciona com dois movimentos filosóficos modernos: o racionalismo e o romantismo. Como o assunto é extenso, dividirei o ensaio em duas partes, cada uma destinada a situar uma visão filosófica.

Sabemos que o ser humano é o único animal que necessita não apenas de abrigo e alimento para viver, como também de sentido. Sentir a sensação de propósito para nossas atividades cotidianas, conexão com algum contexto maior e que nossa existência não seja indiferente ao mundo. Até alguns séculos atrás, as tradições culturais da comunidade em que o homem se inseria compunham narrativas que forneciam o sentido que podíamos ansiar.

O mundo antigo era um mundo regido por tradições. Toda sociedade possui seus costumes, crenças, relações, que, mais do que particularidades culturais, são as ancoragens subjetivas dos membros daquela comunidade. Sabemos quem nós somos – da onde eu vim, para onde eu vou, o que eu devo fazer – a partir das crenças e experiências que compartilhamos com os outros.

As tradições locais e culturais constituem o laço simbólico ao qual nos filiamos para constituir a nossa existência, definindo nossa raça, nossa classe social, nossas expectativas quanto ao mundo. Ser camponês ou nobre representavam perspectivas existenciais muito distintas, assim como ser grego ou chinês, homem ou mulher. Diferentes filiações implicam em diferentes obrigações, ritos e responsabilidades em cada sociedade.

A religião tinha um papel fundamental no mundo antigo. Através dos códigos morais, a religião estabelecia quais comportamentos deviam ser encorajados ou punidos, explicavam a razão da existência dos seres humanos no mundo, e oferecia às pessoas – geralmente através de uma explicação metafísica – um sentido para viverem e realizarem algo durante a vida.

Tomemos a Idade Média como exemplo. Ser homem ou mulher representavam diferentes obrigações sociais. Assim como se nobre ou camponês. A religião cristã afirmava que a nobreza era uma missão divina, de modo que o nobre deveria defender e expandir os valores cristãos, uma tarefa pela qual era valoroso inclusive morrer. Já um camponês deveria saber que Jesus amava os humildes, e que sua vida de dificuldades seria recompensada após a morte, caso obedecesse a moral cristã. A religião oferecia um lugar e um sentido à vida, mantendo também a sociedade em funcionamento na medida do possível.

Para nós ocidentais, talvez seja mais fácil imaginar a sociedade medieval por conta da proximidade cultural, mas toda sociedade tradicional – chinesa, indígena, africana, romana etc. – funcionou do mesmo modo. Através de mitos, lendas e narrativas, símbolos sociais funcionaram como norteadores de sentido para cada ser humano que viveu neste mundo.

Cada ser humano acreditou fielmente na tradição de sua comunidade, e morreu acreditando nela. Muitas vezes, morreu em nome dela, defendendo-a até que uma espada cruzasse sua garganta. As crenças não apenas nos dão um sentido para viver, mas um sentido para morrer. O homem que vive com sentido alcança também uma “boa morte”, seja ao morrer em nome de sua pátria, comunidade ou mesmo de sua filosofia.

As crenças das sociedades tradicionais também ofereciam algum reconforto nas dificuldades. Quando se perdia um ente querido ou a terra era assolada por uma alguma peste, os homens encontravam nas narrativas metafísicas um sentido, e a esperança de que os deuses um dia recompensassem os homens que permanecessem fortes.

Porém, tudo isso começou a mudar quando surgiu a ciência moderna no Ocidente. Transformações culturais ocorridas no fim da Idade Média fizeram surgir um particular modo de pensar, conhecido como racionalismo.

O racionalismo não é exclusividade da modernidade ocidental. Na Grécia Antiga já existiam filósofos que defendiam uma visão racional de mundo. Também na China Antiga e em outras civilizações existiram pensadores igualmente racionais, se podemos dizer assim. Mas, em nenhuma dessas sociedades, este modo de pensar foi capaz de suplantar o modelo tradicional. Existiram apenas enquanto pensadores marginais. Somente na sociedade ocidental que o racionalismo difundiu-se ao ponto de transformar a própria forma como existimos em sociedade.

O racionalismo – também conhecido por movimento iluminista, embora não seja indicado usar este termo por nos dar a falsa noção de que a Idade Média foi um período de obscurantismo, sem nenhum valor filosófico – representou um período em que ideias centradas na razão começaram a se difundir. A ciência questionava os conceitos e valores difundidos pela Igreja e pela fé. O interesse científico era a realidade. Entender como as coisas funcionavam: os astros, o corpo humano, o pensamento.

A ciência se difere da religião na medida em que enquanto a primeira se preocupa com os fatos, a partir de uma ideia de realismo, a religião é uma ferramenta de valor. A ciência busca entender como o mundo funciona, enquanto a religião tenta explicar o porquê de existir um mundo, e qual valor podemos atribuir aos acontecimentos dele.

O método científico não é mais do que um método de investigação da realidade. A ciência pode dizer como os planetas giram ao redor do Sol, qual solo é mais produtivo para determinado plantio ou que forma de energia é mais rentável. Mas não pode dizer por que os planetas giram, por que devemos plantar um alimento e não outro, e qual o objetivo em se acumular mais energia.

Certamente poderíamos responder, através da ciência, que o movimento astronômico tornou a vida humana possível, que precisamos do alimento para viver, e que energia é necessária para as atividades humanas. Mas isso é mera questão técnica. Pragmática. Nada disso diz respeito ao sentido da existência, apenas às necessidades da manutenção da existência em si. A religião pode fornecer um sentido para a existência, e por isso religião é mais do que uma mera estrutura institucional. A própria etimologia da palavra (religare) está relacionada com “religação”, a conexão do homem com um propósito maior.

A emergência da ciência teve um efeito corrosivo ao modo de vida tradicional. A ciência, interessada pela verdade dos fenômenos, entrou em choque com o modelo tradicional de pensamento. O método científico, apoiado no ceticismo, questionou as verdades estabelecidas pela fé e a autoridade. Os valores e sentidos atribuídos pela religião e o pensamento tradicional.

Num mundo marcado pela ordem tradicional, em que ser homem ou mulher, nobre ou camponês, cristão ou judeu, representavam perspectivas existenciais muito bem definidas do seu nascimento à morte, o racionalismo começou a difundir valores como liberdade individual e tolerância à diferença. O liberalismo entendia o indivíduo como livre e responsável pelo seu destino, destituindo assim os laços simbólicos e tradicionais que o situavam enquanto raça, classe ou mesmo gênero.

O mundo racional dependia também da liberdade de expressão e da diversidade de pensamento. As ideias deveriam se mostrar verdadeiras através da demonstração científica e do debate, não pela autoridade. Isto, por exemplo, destitui o lugar de um velho pajé ou xamã de uma aldeia indígena. Numa sociedade racionalista, o saber do pajé não possui valor por ele ser o pajé, mas apenas se este saber puder ser verificável num método confiável.

A ciência questionava os valores tradicionais, concebidos como verdadeiros, para adotar uma verdade meramente pragmática, sempre parcial. O único critério que importa à ciência é a capacidade de um fenômeno ser explicado, previsto e, portanto, controlável.

O racionalismo deu assim início à era da técnica, em que os problemas humanos são vistos como questões operacionais. Cabe à ciência entendê-los adequadamente para encontrar sua solução. Doenças podem ser curadas se a medicina descobrir qual a sua causa. A fome pode ser reduzida se empregarmos sistemas mais eficazes de agricultura e pecuária. A miséria pode acabar se a política adotar sistemas econômicos eficientes em distribuir a riqueza. Distâncias podem ser encurtadas com a melhoria dos meios de transportes e comunicação.

Vivemos tempos de uma grande corrida tecno-lógica. Na crença de que o desenvolvimento técnico-científico poderá resolver nossos problemas, estamos sempre atrás de novos computadores, carros, ferramentas, aplicativos que facilitem nossas vidas. A corrida, porém, parece interminável. A cada ano surgem novidades sem precedentes.

O mundo antigo era um mundo de estabilidade. As pessoas nasciam, cresciam e morriam num mundo muito parecido. Ideias, costumes e ferramentas permaneciam praticamente intactos no transcorrer desse tempo. Já o mundo moderno assumiu um ritmo de transformações cada vez mais crescente. Não sabemos se nos próximos meses surgirá uma nova tecnologia que revolucionará novamente nosso modo de viver. Diante de tamanha imprevisibilidade, não há espaço para a transmissão de qualquer tradição. O homem deve estar sempre se adaptando ao novo, seja em seu trabalho, nas suas relações, ou em suas crenças.

Se os primeiros racionalistas tinham a ilusão de que a ciência iria um dia desvelar o funcionamento do Universo, prescindindo completamente da religião, alcançando um saber absoluto da realidade, essa posição hoje parece infundada. Como método, a ciência não alcança verdades definitivas, mas entendimentos parciais da realidade. A possibilidade de descobrir algo novo está sempre aí, não apenas porque a realidade pode ser mais profunda do que julgamos previamente, mas a própria ciência é sempre limitada pelo seu meio de investigação. Teorias científicas não simplesmente descrevem a realidade, como também as criam na medida em que selecionam evidências a favor, descartam índices contrários e dão privilégio a determinado modo de conceber o mundo. Não há uma teoria absoluta, mas diferentes teorias podem coexistir por tratarem do mesmo fenômeno por perspectivas diferentes, sem que um precise ser reduzido ao outro. O mundo em si permanece como absurdo e muito mais incompreensível do que nossas técnicas antropocêntricas poderiam alcançar.

A ciência também pode se tornar um pensamento religioso quando se acredita que ela é mais do que apenas um método para entender o funcionamento da realidade. Chamamos de cientificismo a crença de que a ciência, assim como a religião, pode dotar de sentido e valor a realidade que investiga. Um cientificista é alguém que acredita que a ciência – ou seu determinado modo de conceber a ciência – é uma visão de mundo onipotente para explicar todos os fenômenos, mesmo àqueles que extrapolam seu escopo, e qualquer outra forma de pensamento seja irrelevante. A mais alta demonstração da arrogância racionalista.

Porém, se levarmos a ciência e o pensamento racional a sério, não são às certezas que eles podem nos levar. A ciência questiona aquilo que pensamos ser verdadeiro – demonstrando que crenças religiosas sobre o céu e o inferno transmitidas por séculos parecem pouco prováveis, ou que classe social, casta ou gênero não definem quem eu realmente sou, pois não há qualquer destino divino para o que eu posso ser. Em resumo, a ciência libertou o homem dos grilhões do pensamento tradicional. No entanto, ela descartou algo junto com isso.

Mitos e lendas não são formas primitivas de explicar o mundo e transmitir conhecimento. As narrativas tradicionais compunham os alicerces simbólicos de uma comunidade. Através delas, os indivíduos identificavam-se com seus deuses, heróis ou antepassados, encontrando sentido para suas existências, dando continuidade a uma tradição maior do que eles mesmos.

O mundo da razão desprivilegiou as narrativas em favor das explicações lógico-matemáticas, fisicalistas e bioquímicas sobre o homem, esvaziando a vida humana de um sentido simbólico. Se o mundo moderno se tornou um lugar mais seguro e confortável para viver, amparado pelo avanço tecnológico crescente, parece ter se tornando também um mundo menos empolgante. Os altos níveis de depressão e suicídio dos países desenvolvidos indicam isso.

O niilismo, o sentimento de ausência de sentido para a vida, surgiu quando a razão moderna dissolveu a tradição como princípio norteador para a vida humana. A ciência destruiu as certezas do mundo antigo, mas foi incapaz de afirmar qualquer novo valor, já que isso não é de seu escopo.

A relação do homem moderno como o mundo foi precisamente descrita pelo personagem Morty num episódio da série Rick e Morty: “ninguém existe por um motivo, ninguém pertence a algum lugar, todos vamos morrer”.

Se a frase lhe parece desanimadora, essa foi exatamente a crítica dos conservadores ao mundo moderno. Tristeza, banalidade e indiferença. Os conservadores defendem que precisamos retomar as antigas tradições, inibir a razão, além de incentivar experiências simbólicas de transcendência através da fé.

Porém, o relógio da História não anda para trás. Não há retorno para as mudanças operadas pela ciência. Não por acaso, geralmente tratamos os conservadores como fundamentalistas loucos, que devem ser ridicularizados ou temidos. Ao mundo moderno, parece que há algo mesmo de loucura em se ter uma grande certeza sobre alguma coisa.

Coube ao movimento romântico dar uma resposta muito mais interessante ao problema do niilismo do que puderam fazer o conservadorismo e o racionalismo. Trataremos disso no próximo texto.

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito das imagens: [topo] Google Image Search; [ao longo] Rick and Morty

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27.11.17

Minha impressão sobre o Simpósio de Hermetismo

Texto de Danilo Kiss, um grande entusiasta da Ciência, que a meu pedido gentilmente falou da sua experiência em seu primeiro Simpósio de Hermetismo.

Antes falar sobre minha impressão em relação ao Simpósio, vou tentar ser breve em relação a minha história, até para que as pessoas entendam o motivo desse texto estar aqui. Minha  família de uma certa forma é bem religiosa, onde como a maioria dos Brasileiros se voltou ao Cristianismo. Cresci vendo minha avó materna a rezar terço, escutando orações na rádio pontualmente às 18:00hs, via quando pessoas pediam para que as benzessem quando não estavam se sentindo bem. Com um prato fundo cheio de água e pingando gostas de óleo que banhava em seus dedos, ela fazia sua oração e com sinal da cruz – pingando o óleo na água via a situação da pessoa no momento – se as gotas se justassem ou cresciam, era sinal de quebranto ou mal olhado, se as gotas se mantivessem no lugar estava tudo bem. De fato as pessoas ligavam para agradecê-la, reportando estarem melhores.  Seu enorme santuário com as mais diversas imagens de santos, anjos , de Cristo e Buda, além de ser devota de Nossa Senhora de Aparecida. Minha mãe também não foge a esse ritual. Acordo às 05:30hs para ir trabalhar, e quando saio ela esta ligada em um canal de orações, com seu terço nas mãos, onde o mesmo processo se repete da parte da noite.  Pessoas ligam para serem  benzidas por ela também. Meu pai é agnóstico e tenho três irmãos: um umbandista, outro espírita kardecista e o mais novo maçom, e eu cético em relação a tudo isso que descrevi até agora.

Meus questionamentos em relação a divindades e na crença de um deus criador, que olha por tudo, que sabe o que faz, e que não posso questioná-lo, começou quando tinha por volta de nove anos de idade. Lembro-me  olhando para uma folha em branco, tentando entender como algo pudesse amassá-la sem alguma interferência externa. Era assim que via toda aquela história de um deus que veio do nada, para criar e ser dono de tudo. Em meio às conversas que tinha com meus pais em relação ao meu ceticismo, resolveram me colocar para fazer a primeira comunhão quando tinha quatorze anos de idade, e na segunda aula o Padre (Fernandes) responsável pelas aulas de catecismo, disse a minha a mãe de forma serena que meu lugar não era ali, e que logo entenderiam – talvez fosse pelos meus questionamentos. Ao completar dezoito anos fizeram com que começasse crisma, e confesso que só fiz por causa da minha avó. Nessa época já estudava a história das religiões, bem como Astronomia. Como não encontrava algo que me fizesse acreditar de fato em tudo que via dentro da religião e em relação a um criador onipotente, onisciente e onipresente, resolvi estudar o macro, o começo de tudo.

Comecei a me dedicar a Física e hoje com trinta e oito anos curso Universidade de Astronomia. Nesses quase vinte anos de tudo, tudo (ou quase tudo) das dúvidas que eu tinha em relação aos mistérios não revelados (ou revelados) de forma incoerente pela religião, encontrei na Ciência – Física e Biologia são os ramos da Ciência que mais estudo atualmente, além claro da Astronomia, em que descobri que tudo não foi feito em sete dias, pois para ser gerada a primeira estrela foi necessário milhões de anos. Ao contrário do que muitos conseguem fazer, ainda não consegui traçar um paralelo ou um denominador comum entre Religião e Ciência. Religiosos, místicos, benzedeiros, padres, pastores e líderes de qualquer religião acham que a comunhão entre Ciência e Religião é dizer apenas sobre as bênçãos das divindades, com a tão falada e nebulosa Física Quântica, ou ainda pior: tudo aquilo que a Ciência não explica a Religião consegue – ambas situações tornaram-se clichê. É fato que existem pessoas espiritualizadas e da Área Científica, que conseguem traçar um relacionamento entre as duas coisas. Tenho um grande amigo assim. Físico e que acredita nessa cumplicidade entre a espiritualidade e as partículas subatômicas, o que pra mim ainda é extremamente utópico. Por mais que eu acredite (e tenha provas) que a energia que emitimos apenas pelo nosso pensamento seja algo extraordinariamente forte, me limito apenas àquilo que eu realmente consegui provar. Provar não para outros, mas para mim mesmo! Sabe aquela história de cada coisa no seu lugar? Sigo mais ou menos dessa forma. Mas aí você pode me perguntar se a Ciência explica tudo... E eu digo que para quase tudo que questionei até hoje, sim! Mas esta longe de explicar tudo tudo, afinal nada explica a totalidade do que existe.

Em meus estudos em relação às religiões, frequentei todos os principais cultos para entender o que se passava em cada uma delas, onde cheguei a uma conclusão. A espiritualidade como fonte de saber e de harmonia interna é ótima ferramenta para aqueles que precisam, mas o ser humano que tem por trás dos passes e das incorporações não! Já vi de tudo: desde “reze cem ave marias e cem pais nossos” pelo dízimo que não consegui dar, até que “deus não quer suas moedas, pois ele precisa de notas para terminar suas obras na eternidade”, até aqueles que davam passe em você no centro espírita e lá fora batiam na mulher e ignoravam os filhos. Que tipo de vibração um mamífero desses vai reportar a uma pessoa?  

Enfim, foi nesse estudo sobre as religiões, que em meados de 2015 encontrei uma página no youtube chamada Conhecimentos da Humanidade, com um vídeo sobre a introdução as Religiões. Dali pra frente me tornei um espectador e fã da página, pois tratavam do assunto religioso de forma imparcial, e principalmente com cunho histórico, que era exatamente o que gosto de estudar. Assistindo alguns vídeos tomei conhecimento de um Simpósio que seria realizado no início de Novembro (2017) – o Simpósio de Hermetismo e Ciências Ocultas. Confesso que dez anos atrás acharia um absurdo o fato de pensar em participar de algo relacionado a Ciências Ocultas, afinal pra mim não existe nada mais transparente que a Ciência natural. Me permiti ir a esse Simpósio e ver o que os participantes tinham a dizer, além de conhecer as pessoas que fazem parte de um grupo fechado de discussão referente ao canal Conhecimentos da Humanidade [grupo de apoiadores do canal no Padrim]. São pessoas extraordinárias, cada uma na sua percepção de fé e espiritualidade, onde não entendo de onde tiram tanta paciência para escutar as chatices de um cético :)

Finalmente chegou o grande dia! Na verdade foram dois dias seguidos: sábado e domingo. Um dia antes ainda pensava se deveria mesmo participar, mas posso dizer que foi uma experiência um tanto diferente na minha vida. Já ao chegar ao local onde teriam as palestras, me deparei com um cartaz do lado de cima da porta: “Simpósio de Hermetismo e Ciências Ocultas”. Respirei fundo! Logo vi uma pessoa com uma longa capa preta e capuz, outra vestida como uma bruxa. Tenso! Já estava na companhia de uma pessoa do grupo (Gidy Sampaio), e alguns minutos depois fui recepcionado pelo Léo Lousada, um dos organizadores do Simpósio e responsável pelos conteúdos no canal Conhecimentos da Humanidade.  Ele me  levou ao encontro de outro idealizador do canal, Bruno Lanaro, onde mais uma vez fui extremamente bem recepcionado. Entrei no local e pude ver todos aqueles meus amigos virtuais, inclusive Raph Arrais (você o conhece bem :), que tranquilamente e humildemente  veio se apresentar, além da Karina, Diego, Daniela e Rodrigo. Fiquei muito feliz em conhecê-los pessoalmente. São todos do bem, cada um no seu estilo. Tive conversas riquíssimas com cada uma delas, e agradeço muito por isso! Minutos depois me sentia totalmente fora de contexto, pois era muita gente espiritualizada, cada um de sua maneira, em seu entendimento diferente. Mas fui forte, e logo começaram as palestras. Uma a uma fui observando, divagando, pensando, fazendo paralelos com minhas crenças, mas me permiti deixar todo meu ceticismo e meu pensamento científico da porta pra fora.

Nos dois dias de Simpósio percebi que cada Ordem e Religião tendem a puxar o que mais se adequa a crença de cada um em um determinado grupo. A verdade, a magia, os deuses, as energias etc. Todos possuem uma comunhão dentro das determinadas crenças. Penso que poderia existir apenas uma para englobar tudo, seria mais coerente não? Mas talvez o ser humano precise dessas diversas possibilidades, pois nós somos assim. Queremos pertencer a um grupo específico, e a maneira mais fácil de se organizarem é a separação pelos ideais. Percebi também que mesmo com tantos pontos diferentes, o intuito é lavar ao mesmo lugar. Observei que sempre que abordavam o assunto Religião vs. Ciência cometiam algum deslize, e percebi também que a preocupação em querer linkar as duas coisas é muito grande, mas acredito que seja mais uma forma de se falar aleatoriamente sobre o assunto.  Hoje me parece que o créme de la créme da Religião em conjunto com a Ciência é a Física Quântica. O fato é que nem a Ciência sabe exatamente como empregá-la dentro do próprio meio científico, que é onde se abre brechas para oportunistas. Vejo que a parte mística ou ocultista começa onde a ciência deixa de explicar – e é aí que para mim começa o grande problema. A Ciência em cem anos veio para desmistificar milênios de mitos e/ou interpretações de livros sagrados e profetas.  Tenho que dizer que não presenciei muitos paralelos em relação a Ciência e Religião, a não ser quando uma espectadora disse que a Bíblia era “quântica”, mas até aí absorvi bem essa questão :) Bom, não estava em um Simpósio de Ciências, então de uma certa forma relevei o que foi dito, sem problema algum.

Cada palestrante representando a diversidade de Ordens e Religiões deixava sempre a entender que o bem comum para uma vida melhor, e consequentemente construir uma harmonia entre todos os seres – seja ela animal, vegetal ou mineral –, é o respeito, a bondade e o amor, dessa forma alcançando a espiritualidade de forma mais tênue. Senti isso também nas pessoas que lá estavam. Cada um da sua forma buscava o conhecimento e principalmente uma forma de elevação espiritual para se tornarem pessoas melhores. Não que com meu ceticismo também não busque tais atributos, mas a diferença que vi em relação a essa busca são os meios.  Procuro ser uma pessoa boa, ter atitudes condizentes com o amor, respeitar a Natureza não para agradar divindade ou ter uma vida eterna, mas ser feliz enquanto a vida aqui no Planeta Terra durar. Não peço nada a nenhuma divindade, apenas agradeço todos os dias. Para quem? Para minha mente! Se existe uma energia onisciente, onipotente e onipresente ela sabe exatamente o que estou passando, o porquê e do que preciso, logo não tenho necessidade de pedir nada. Se tiver algo além da morte do corpo, ótimo, se não tiver nada, tudo bem também. Apesar de saber que nosso corpo de fato é só energia, e não existe a morte de energia e sim a sua transformação, não me arrisco a dizer o que acontece depois que ela se livra da matéria densa que é o nosso corpo. Isso deixo para meus amigos com mais elevação espiritual que eu :)

Quanto a minha impressão final em relação ao Simpósio, posso dizer que foi muito boa, na verdade muito melhor do que esperava! Me arrisco a dizer que esse encontro sirva mais para pessoas como eu. Para os demais acredito que seja mais um complementando de sua busca. Escutar o que o outro lado tem a dizer é muito importante, é respeitar a fé e suas crenças, afinal é isso o que nos faz ser uma pessoa melhor dia após dia. Ouvi magos, bruxas e benzedeiros falarem sobre a forma com que enxergam a vida, e posso dizer que foi muito rico. Por mais que isso não faça parte do meu dia a dia, é bonito saber que há pessoas que através de sua magia se preocupam em ajudar o próximo. Senti muita cumplicidade, harmonia, respeito e principalmente o amor de todos!

Amor – um nome curto, com um significado enorme e tão difícil de ser empregado verdadeiramente em nosso dia a dia, mas quando é feito tudo de forma sincera percebemos a diferença que faz. O amor quando empregado de forma verdadeira, e aí não importa a Religião, a Ordem , ou apenas a percepção intrínseca: ele mudará sua casa, seu bairro, sua cidade, seu país... ele mudará o mundo! E foi exatamente isso que aprendi no Simpósio – não importa os meios, mas sim o final de tudo! E talvez o deus, as divindades, os santos, os guias, os anjos sejam apenas a forma de amor materializada da qual eles tanto falam. Talvez tudo isso seja apenas o amor! Pretendo voltar nas próximas edições e entender esse enorme mundo. E que dessa forma amemos mais, todos os dias!

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Crédito da imagem: Martin Satler/unsplash

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13.6.17

Uma infindável sucessão de bandeiras

Texto por Roberto Calasso em O Ardor (Cia. das Letras). Tradução de Federico Carotti. Os comentários [ao longo do texto] e ao final são meus.

As religiões têm dado muito o que falar no início do século XXI. Mas o que subsiste de religioso, em sentido estrito e rigoroso, no mundo é muito pouco. E não tanto nos indivíduos, mas sobretudo nas estruturas coletivas. Quer sejam igrejas, seitas, tribos, etnias, o modelo é o de um superpartido amorfo, que permite fazer ainda mais do que já permitia a ideia de partido, em nome de algo que é amiúde definido como “identidade”. É a vingança da secularidade. Depois de passar séculos e milênios numa condição de sujeição, como serva de poderes que se impunham sem se justificar, agora a secularidade – zombateiramente – oferece a tudo o que ainda se refere ao sacro as modalidades de ação mais eficazes, mais atualizadas, mais incisivas, mais adequadas aos tempos. É esse o novo horror que ainda precisava se cristalizar: todo o século XX foi o seu longo período de incubação.

Para que se possa falar de algo religioso, é preciso que se estabeleça alguma relação com o invisível. É preciso que haja o reconhecimento de potências situadas além e fora da ordem social. É preciso que a própria ordem social almeje estabelecer alguma relação com o invisível. Nada disso parece ser a preocupação primordial das autoridades religiosas no início do século XXI. Nas altas hierarquias da cristandade ou do Islã, ou entre os pandits do hinduísmo, é fácil encontrar engenhosos sociólogos e engenheiros da sociedade, que utilizam os nomes santos das respectivas tradições para impor ou sustentar uma certa ordem dos costumes. Mas seria difícil encontrar alguém que soubesse falar a língua de Meister Eckhart, de Ibn Arabi ou de Yajnavalkya – ou ao menos lembrasse sua entonação [ele se refere aqui ao misticismo].

Diante disso, os Brahmana [comentários aos Vedas hindus] oferecem a imagem de um mundo constituído apenas pelo religioso e aparentemente desprovido de curiosidade e interesse por tudo que não o seja. Do modo como entende os Brahmana, o religioso permeia todo e qualquer ínfimo gesto – e invade também tudo o que é involuntário e acidental. Para os ritualistas védicos, um mundo que não tivesse tais características pareceria insensato, tal como seus textos tão frequentemente parecem para os leitores de hoje. A incompatibilidade entre as duas visões é total. E é incomensurável a disparidade das forças: de um lado, um encadeamento de procedimentos que, pela primeira vez, veio a recobrir a totalidade do planeta com uma rede digital imperceptível; de outro, um aglomerado de textos, em parte acessíveis apenas numa língua morta e perfeita, que fala de gestos e de entidades que parecem não ter mais nenhuma relevância.

Em sua excentricidade por vezes abissal, o pensamento dos ritualistas védicos tinha, porém, a seguinte peculiaridade: colocava sempre questões cruciais, diante das quais o pensamento de linguagem iluminista se mostra canhestro e impotente. Os ritualistas não ofereciam soluções, mas sabiam isolar e contemplar os nós que não se desatam. Não é dito que o pensamento possa fazer mais do que isso.

Seria um pleonasmo utilizar a palavra símbolo num mundo onde qualquer fiapo implicava outros significados. O que, por exemplo, a água nos Vedas poderia simbolizar, senão – quase – tudo? Se aplicássemos a noção ocidental de “símbolo” ao mundo védico, logo chegaríamos a uma condição de insignificância generalizada por excesso de significados. E, de fato, o sânscrito não dispõe de uma palavra que corresponda precisamente a “símbolo”. Bandhu, nidana, sampad: são palavras que indicam uma afinidade, uma ligação, um vínculo, uma correspondência, um nexo, uma equiparação, mas não podem ser remetidas a funções de representação, como ocorreu com o símbolo [isto é, se tudo já seria uma representação por si só, seria inútil distinguir algo como “sendo uma representação, um símbolo”].

Na mentalidade comum ocidental, como veio a se formar durante uma elaboração secular [...], o pressuposto é que a imensa maioria das coisas pode facilmente se eximir da tarefa de ser símbolo de outra coisa, salvo em alguns casos bem circunscritos, nos quais se admite a legitimidade – e também a utilidade – dessa função. A bandeira é um bom exemplo. Mas o mundo védico seria, então, uma infindável sucessão de bandeiras.

Ao mesmo tempo uma mente ocidental atual consegue, mesmo com alguma dificuldade, abrir caminho entre os textos védicos e neles encontrar algo de vital que não o faz em outros lugares. E as dificuldades com que se depara não são maiores do que as que um indiano contemporâneo precisa enfrentar. A distância entre as duas culturas contemporâneas, a indiana e a ocidental, é evidente e notável, mas se torna irrelevante comparada à distância astronômica de ambas em relação ao mundo védico.

[...] Hoje, os deuses gregos e seus ritos falam na Grécia apenas por meio do silêncio das pedras. O mesmo vale para o Egito, a mais idosa das civilizações [embora os hermetistas talvez tenham outra opinião]. Mas os mantras védicos continuam a ser recitados e entoados, incólumes, por vezes nos mesmos locais onde se formaram. E certos gestos rituais, aos quais o pensamento védico dedicara uma obsessiva atenção, continuam a ser realizados nas cerimônias sacramentais que ainda marcam inúmeras existências na Índia.

Os deuses habitam lá onde sempre habitaram. Mas na terra perderam-se algumas indicações que se tinha sobre esses locais. Ou já não se consegue mais encontrá-las em velhas folhas, abandonadas e dispersas. A vida, enquanto isso, continua como se nada fosse. Alguns pensam que algum dia essas folhas serão reencontradas. Outros pensam que elas nunca tiveram nenhum interesse especial. Outros ainda ignoram que elas existiram.


Comentários
Eu acabo de lhes trazer um trecho do epílogo da monumental obra de Roberto Calasso, um intelectual de Florença, na Itália, que além de conhecer diversas línguas e países, é também um estudioso profundo de sua história, literatura e mitologia. No caso dos Vedas e do hinduísmo, no entanto, é talvez onde Calasso tenha de fato ido “até onde nenhum estudioso ocidental jamais esteve”.

Em O Ardor, Calasso esmiúça os primórdios quase insondáveis do “povo dos Vedas”, que se iniciam precisamente no Rigveda, o primeiro e mais antigo. Trata-se dos hinos e rituais de um povo ainda nômade, ainda recém-saído do xamanismo arcaico, que mal havia se estabelecido as margens do Ganges. Talvez fosse algo para ser descartado, não fosse pelo fato deste mesmo povo ter concebido, nos milênios que se seguiram, uma das literaturas espirituais mais profundas e iluminadas, com seus milhares de deuses, e que veio a culminar na grande pérola conhecida como Bhagavad Gita.

Calasso por vezes é criticado por inserir muito da sua própria opinião, da sua própria visão de mundo ocidental, nas análises que faz dos Vedas, mas eu penso que isso seja justamente a sua grande qualidade, e não um defeito: ter a coragem de interpretar os Vedas, e não somente relatá-los, como um arquivista do Céu. Assim, para quem se interessa por hinduísmo ou pelos primórdios da espiritualidade oriental, este livro é altamente recomendado: você pode encontrá-lo à venda na Amazon.

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9.2.17

O templo dentro de mim

O texto abaixo foi retirado de uma de minhas respostas dentro de um debate entre pensadores e espiritualistas.

Esta questão do universalismo espiritual é interessante.

Muitos grandes estudiosos de mitologia do século passado, e mais especificamente Joseph Campbell, acabaram por estudar inúmeros mitos nas mais diversas regiões e culturas do globo, assim chegando aqueles "pontos em comum" entre as mitologias (como os mitos de Origem ou do Dilúvio), o que o Campbell depois chamou de Monomito. No entanto, estudar mitologia é uma coisa, se iniciar nas ordens e religiões é outra muito diferente, até mesmo porque a maior parte delas requer uma dedicação exclusiva, do contrário você acaba ficando só na superfície.

Eu mesmo me considero um turista de egrégoras e doutrinas religiosas. Já fui médium em casa espírita, já dancei com ciganos incorporados e gurus indianos, já cantei mantras com uma mestra em ascensão, já "meio que me iniciei" no sufismo, já fui em alguns simpósios de hermetismo, já fiz a Contagem do Ômer (meditação da cabala judaica) etc. A maior parte disso transparece num canto ou noutro do meu blog, mas nem contar tudo eu contei.

Apesar de fazer amigos em muitas estradas, eu sei bem que não posso seguir profundamente em nenhuma delas, pois teria necessariamente de abandonar parte dos meus passeios pelas demais. Assim, eu visito algumas estalagens em diversas estradas que rumam para os grandes templos, mas não chego em templo algum.

É por isso que tive de criar o meu próprio templo. Não a toa o símbolo do meu blog é um torii japonês. Os toriis, no xintoísmo, são portais que demarcam a entrada ou a proximidade de um local sagrado. Ora, ocorre que eles estão espalhados pelo Japão todo, pois no xintoísmo se acredita que tudo o que é vivo é animado e habitado por espíritos, e para eles toda a Natureza é viva. Assim, o meu templo também é tudo o que está a minha volta, acima e abaixo, a esquerda e a direita, a frente e atrás. Esta foi a maneira com que consegui chegar a um templo: o carregando dentro de mim.

Por isso que digo, "minha religião é meu pensamento", pois se religião é religação a Deus ou ao Cosmos, e se pensamento é a forma com que a mente se aventura pelos caminhos e estalagens e templos, então é com esta carruagem, este veículo, que eu poderei um dia chegar lá.

E, se o fato de parar em tantas estalagens pelo caminho por ventura me atrasar um bocado, eu sinceramente não ligo. Pois ainda que eu chegasse lá antes dos demais, em todo caso eu teria de voltar para convidar os que ainda se arrastam pela estrada.

Em todo caso, no Céu continuaremos trabalhando.

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Crédito da imagem: Joel "Boy Wonder" Robinson

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12.1.17

A civilização e a barbárie

O texto abaixo foi retirado de uma de minhas respostas dentro de um debate entre pensadores e espiritualistas.

Em nosso debate, foi citado um historiador espanhol que afirmou que todas as civilizações partem da barbárie, passam por um período religioso e depois entram numa espécie de "decadência espiritual", pela falta da prática do autoconhecimento [1]. Eu associei isso ao estágio atual da nossa própria civilização, e nesse contexto é que elaborei o meu complemento:

Acho que todas as culturas de fato partem da barbárie, mas isso se dá desde o advento das cidades. Antes delas, provavelmente em boa parte do mundo humano não havia a barbárie, tampouco bárbaros, já que pela etimologia do termo "bárbaro" chegamos ao grego antigo, "não-civilizado", "estrangeiro", "estranho". Antes das cidades, todos eram não-civilizados, estrangeiros, estranhos, mas como não sabiam disso, se tratavam apenas como seres humanos mesmo.

As cidades surgiram com a agricultura, pois antes dela éramos todos nômades basicamente todo o tempo, e os únicos "locais fixos" da pré-civilização eram justamente os templos religiosos da religiosidade arcaica, as cavernas com arte rupestre, os círculos de pedras elevadas, e provavelmente locais específicos nas florestas, dos quais praticamente não restaram registros.

Com a agricultura e o excedente de alimentos, grãos e cereais que podiam ser estocados nos primeiros silos, houve a possibilidade de se cercar e delimitar pedaços de terra e dizer: "Aqui é nosso território". Daí logo vieram os primeiros conflitos e guerras organizadas. No início, não creio que quisessem conquistar a terra do outro, mas sim somente roubar seus alimentos. Depois, quando o outro montou seu primeiro exército para proteger seus grãos, os invasores precisaram também formar exércitos, e assim foi até que a maior parte das grandes cidades tiveram seus exércitos permanentes, e muita guerra e muito sangue correu desde então...

A grande ironia é que talvez tenhamos nos tornado bárbaros justamente quando nos tornamos civilizados. Nesse sentido, toda a civilização tem de lidar com a sua própria barbárie, contê-la, administrá-la na medida do possível e, acima de tudo, sempre acusar os outros de serem bárbaros, pois assim se parece decerto mais civilizado.

Claro que, com o passar dos séculos, muitas civilizações de fato avançaram muito na contenção de sua barbárie, e criaram as primeiras legislações, as primeiras religiões organizadas, as primeiras mitologias que vieram a ser registradas em palavras, as primeiras ideias filosóficas extensivamente debatidas, as primeiras ciências baseadas na observação do mundo natural etc. Mas, será que alguma delas foi totalmente bem-sucedida nisso? Eu creio que não.

Assim como nas tribos ancestrais eram somente alguns poucos xamãs e pajés quem detinham de fato o dom ou a capacidade de se conectar com o sagrado, mesmo nas grandes culturas tais homens e mulheres continuaram sendo uma grande minoria, infelizmente. Mas existe um alento nesta análise: não é que as civilizações tenham caído em decadência moral ou espiritual (pelo contrário, eu sempre gosto de lembrar que hoje vamos ao Maracanã ver e aplaudir partidas de futebol, e não a um Coliseu romano ver homens se matando ou sendo devorados por feras), mas é que este ápice moral e espiritual nunca chegou a ser de fato alcançado, nem mesmo na antiga Atenas, ou em Florença em pleno Renascimento, tampouco nas cidades de maior índice de desenvolvimento humano da Escandinávia de hoje em dia.

Desde as primeiras tribos, nós não estamos em decadência, mas em ascensão. E, se parece ao contrário, é justamente porque simplesmente há muito mais gente viva hoje do que há milênios atrás. No meio dessa gente toda, ainda há muito mais xamãs e pajés genuínos do que jamais houve na história deste planetinha. Basicamente, toda a gente que não se esqueceu da Alma. Se queremos caminhar mais rápido em sua direção, é bom ouvirmos o que eles têm a nos dizer. Mas não será fácil encontrá-los, pois (salvo raras exceções) eles não estão na Grande Mídia ou nos Bestsellers, tampouco nos Grandes Templos. Muitos deles podem estar convivendo ao seu lado, sem terem sido percebidos.

Quem ama de fato e profundamente, quem volta a sua lupa mais para dentro do que para fora, quem busca julgar mais a si mesmo do que aos "bárbaros", este conhece alguma coisa do tema!

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[1] Alejandro Deulofeo em Matemática da História

Crédito da imagem: Google Image Search/Canal History

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