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13.6.17

Uma infindável sucessão de bandeiras

Texto por Roberto Calasso em O Ardor (Cia. das Letras). Tradução de Federico Carotti. Os comentários [ao longo do texto] e ao final são meus.

As religiões têm dado muito o que falar no início do século XXI. Mas o que subsiste de religioso, em sentido estrito e rigoroso, no mundo é muito pouco. E não tanto nos indivíduos, mas sobretudo nas estruturas coletivas. Quer sejam igrejas, seitas, tribos, etnias, o modelo é o de um superpartido amorfo, que permite fazer ainda mais do que já permitia a ideia de partido, em nome de algo que é amiúde definido como “identidade”. É a vingança da secularidade. Depois de passar séculos e milênios numa condição de sujeição, como serva de poderes que se impunham sem se justificar, agora a secularidade – zombateiramente – oferece a tudo o que ainda se refere ao sacro as modalidades de ação mais eficazes, mais atualizadas, mais incisivas, mais adequadas aos tempos. É esse o novo horror que ainda precisava se cristalizar: todo o século XX foi o seu longo período de incubação.

Para que se possa falar de algo religioso, é preciso que se estabeleça alguma relação com o invisível. É preciso que haja o reconhecimento de potências situadas além e fora da ordem social. É preciso que a própria ordem social almeje estabelecer alguma relação com o invisível. Nada disso parece ser a preocupação primordial das autoridades religiosas no início do século XXI. Nas altas hierarquias da cristandade ou do Islã, ou entre os pandits do hinduísmo, é fácil encontrar engenhosos sociólogos e engenheiros da sociedade, que utilizam os nomes santos das respectivas tradições para impor ou sustentar uma certa ordem dos costumes. Mas seria difícil encontrar alguém que soubesse falar a língua de Meister Eckhart, de Ibn Arabi ou de Yajnavalkya – ou ao menos lembrasse sua entonação [ele se refere aqui ao misticismo].

Diante disso, os Brahmana [comentários aos Vedas hindus] oferecem a imagem de um mundo constituído apenas pelo religioso e aparentemente desprovido de curiosidade e interesse por tudo que não o seja. Do modo como entende os Brahmana, o religioso permeia todo e qualquer ínfimo gesto – e invade também tudo o que é involuntário e acidental. Para os ritualistas védicos, um mundo que não tivesse tais características pareceria insensato, tal como seus textos tão frequentemente parecem para os leitores de hoje. A incompatibilidade entre as duas visões é total. E é incomensurável a disparidade das forças: de um lado, um encadeamento de procedimentos que, pela primeira vez, veio a recobrir a totalidade do planeta com uma rede digital imperceptível; de outro, um aglomerado de textos, em parte acessíveis apenas numa língua morta e perfeita, que fala de gestos e de entidades que parecem não ter mais nenhuma relevância.

Em sua excentricidade por vezes abissal, o pensamento dos ritualistas védicos tinha, porém, a seguinte peculiaridade: colocava sempre questões cruciais, diante das quais o pensamento de linguagem iluminista se mostra canhestro e impotente. Os ritualistas não ofereciam soluções, mas sabiam isolar e contemplar os nós que não se desatam. Não é dito que o pensamento possa fazer mais do que isso.

Seria um pleonasmo utilizar a palavra símbolo num mundo onde qualquer fiapo implicava outros significados. O que, por exemplo, a água nos Vedas poderia simbolizar, senão – quase – tudo? Se aplicássemos a noção ocidental de “símbolo” ao mundo védico, logo chegaríamos a uma condição de insignificância generalizada por excesso de significados. E, de fato, o sânscrito não dispõe de uma palavra que corresponda precisamente a “símbolo”. Bandhu, nidana, sampad: são palavras que indicam uma afinidade, uma ligação, um vínculo, uma correspondência, um nexo, uma equiparação, mas não podem ser remetidas a funções de representação, como ocorreu com o símbolo [isto é, se tudo já seria uma representação por si só, seria inútil distinguir algo como “sendo uma representação, um símbolo”].

Na mentalidade comum ocidental, como veio a se formar durante uma elaboração secular [...], o pressuposto é que a imensa maioria das coisas pode facilmente se eximir da tarefa de ser símbolo de outra coisa, salvo em alguns casos bem circunscritos, nos quais se admite a legitimidade – e também a utilidade – dessa função. A bandeira é um bom exemplo. Mas o mundo védico seria, então, uma infindável sucessão de bandeiras.

Ao mesmo tempo uma mente ocidental atual consegue, mesmo com alguma dificuldade, abrir caminho entre os textos védicos e neles encontrar algo de vital que não o faz em outros lugares. E as dificuldades com que se depara não são maiores do que as que um indiano contemporâneo precisa enfrentar. A distância entre as duas culturas contemporâneas, a indiana e a ocidental, é evidente e notável, mas se torna irrelevante comparada à distância astronômica de ambas em relação ao mundo védico.

[...] Hoje, os deuses gregos e seus ritos falam na Grécia apenas por meio do silêncio das pedras. O mesmo vale para o Egito, a mais idosa das civilizações [embora os hermetistas talvez tenham outra opinião]. Mas os mantras védicos continuam a ser recitados e entoados, incólumes, por vezes nos mesmos locais onde se formaram. E certos gestos rituais, aos quais o pensamento védico dedicara uma obsessiva atenção, continuam a ser realizados nas cerimônias sacramentais que ainda marcam inúmeras existências na Índia.

Os deuses habitam lá onde sempre habitaram. Mas na terra perderam-se algumas indicações que se tinha sobre esses locais. Ou já não se consegue mais encontrá-las em velhas folhas, abandonadas e dispersas. A vida, enquanto isso, continua como se nada fosse. Alguns pensam que algum dia essas folhas serão reencontradas. Outros pensam que elas nunca tiveram nenhum interesse especial. Outros ainda ignoram que elas existiram.


Comentários
Eu acabo de lhes trazer um trecho do epílogo da monumental obra de Roberto Calasso, um intelectual de Florença, na Itália, que além de conhecer diversas línguas e países, é também um estudioso profundo de sua história, literatura e mitologia. No caso dos Vedas e do hinduísmo, no entanto, é talvez onde Calasso tenha de fato ido “até onde nenhum estudioso ocidental jamais esteve”.

Em O Ardor, Calasso esmiúça os primórdios quase insondáveis do “povo dos Vedas”, que se iniciam precisamente no Rigveda, o primeiro e mais antigo. Trata-se dos hinos e rituais de um povo ainda nômade, ainda recém-saído do xamanismo arcaico, que mal havia se estabelecido as margens do Ganges. Talvez fosse algo para ser descartado, não fosse pelo fato deste mesmo povo ter concebido, nos milênios que se seguiram, uma das literaturas espirituais mais profundas e iluminadas, com seus milhares de deuses, e que veio a culminar na grande pérola conhecida como Bhagavad Gita.

Calasso por vezes é criticado por inserir muito da sua própria opinião, da sua própria visão de mundo ocidental, nas análises que faz dos Vedas, mas eu penso que isso seja justamente a sua grande qualidade, e não um defeito: ter a coragem de interpretar os Vedas, e não somente relatá-los, como um arquivista do Céu. Assim, para quem se interessa por hinduísmo ou pelos primórdios da espiritualidade oriental, este livro é altamente recomendado: você pode encontrá-lo à venda na Amazon.

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Crédito da imagem: Google Image Search

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9.3.15

Os significados ocultos no Yin-Yang

Oh, como é puro e tranquilo o Caminho,
pode ser que continue para além do Céu!
Não sei de quem possa ser filho,
pode ser anterior ao próprio Imperador de Jade
(Tao Te Ching, IV)

O Imperador de Jade, na mitologia chinesa, governa o céu e toda a existência abaixo dele, sendo o equivalente de um "deus criador primordial" das mitologias ocidentais, como Gaia [1] ou Javé. Quando o Tao Te Ching afirma que o Tao, ou o Caminho, pode ser anterior a tal divindade, ele estabelece com grande propriedade o quão misterioso e oculto é o Tao.

O Tao, conceito central do taoismo, não é só um caminho físico e espiritual; ele também é identificado com o Absoluto que, por divisão, gerou os opostos/complementares yin e yang, a partir dos quais todas "as dez mil coisas" que existem no universo foram criadas. Isto quer dizer exatamente o que parece: o Tao é o Tudo, pois é precisamente este o significado de "as dez mil coisas" no taoismo, isto é, Tudo o que existe.

Há muitos filósofos ocidentais que tentaram abordar este conceito de Tudo. Espinosa, talvez o mais bem sucedido, o chamou de "a substância que não poderia haver criado a si mesma". No taoismo usualmente o Tao/Tudo é abordado de forma indireta, precisamente através dos conceitos de yin e de yang.

Segundo a ideia que engloba tanto yin quanto yang, cada ser, objeto ou pensamento possui um complemento do qual depende para a sua existência, e esse complemento também existe dentro de si. Dessa forma se deduz que nada existe no estado puro: nem na atividade absoluta, nem na passividade absoluta, mas sim em transformação contínua. Além disso, qualquer ideia pode ser vista como seu oposto quando visualizada a partir de outro ponto de vista. Neste sentido, toda a categorização seria apenas uma conveniência da lógica.

Em suma, yin e yang seriam a fase seguinte do Tao, princípio gerador de todas as coisas, de onde surgem e para onde se destinam... Parece complexo abordar tal assunto de forma puramente racional não? Em realidade todos estes conceitos, Tao, yin e yang, costumam ser melhor compreendidos por nossa intuição do que por nossa razão. Eles dizem respeito a alma de todas as coisas, e não as coisas em si.

No vídeo abaixo, uma animação retirada da palestra do educador John Bellaimey para o TED, temos mais uma tentativa de explicar os significados ocultos de yin e yang. Se possível, assista esses 4 minutos com a mente relaxada, para que sua intuição possa aflorar:

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[1] Há uma correlação possível entre o Caos da mitologia grega e o Tao. Gaia é filha de Caos, assim como yin ou yang são "filhos" do Tao.

Crédito da imagem: Google Image Search

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8.1.13

O Ouroboros e a Árvore da Vida

Trecho do meu livro, Ad infinitum, que será lançado em 2013. Esta é uma nota acerca do símbolo representado na capa do livro...

Penso que os símbolos expostos na capa merecem alguma explicação:

A serpente formando um círculo quase perfeito, mordendo a própria cauda, representa o ouroboros. O nome vem do grego antigo, uma junção de oura (cauda) com boros (devora, devorar). Este símbolo antigo está relacionado à ideia de eternidade, e dos ciclos ininterruptos da existência: a serpente morde a própria cauda e forma um novo ser, assim como pode se livrar da pele antiga, e formar uma nova, embora sempre continue a ser, em essência, serpente. É possível que o símbolo matemático do infinito (∞) tenha se originado a partir da representação de dois ouroboros lado a lado. Finalmente, conforme o círculo formado pela serpente nunca será um círculo perfeito, isto nos remete a ideia de que a busca pelo conhecimento é um eterno “vir a ser”, sem que necessariamente devamos nos preocupar com a ideia opressora de “chegarmos à perfeição final”, pois talvez algo assim sequer exista. Agostinho de Hipona resumiu melhor: “Crer para compreender, compreender para crer; Buscar para encontrar, e então continuar buscando”.

Já a árvore no interior do círculo formado pela serpente pode remeter a pelo menos três simbologias distintas:

(a) A Árvore da Vida na Cabala, que representa um sistema hierárquico que pode ser lido de duas formas: De cima para baixo, se inicia na centelha divina (Kether), e vai se tornando mais “densa”, até atingir o mundo físico (Malkuth). De baixo para cima, se inicia na consciência “mundana”, que vai se elevando, esfera por esfera, até que se abra inteiramente para a comunhão com a divindade do Cosmos. Estes dois caminhos representam tanto a criação de tudo que há a partir desta substância primeira, como o caminho de religação que a consciência humana precisa galgar para que consiga se reunir novamente com sua origem divina;

(b) A Árvore da Ciência do Bem e do Mal, que no mito bíblico representa ao mesmo tempo o perigo e a benção de se tomar conhecimento da própria mortalidade. Afinal, os animais irracionais são imortais, na medida em que não têm a ciência da própria morte. O ser humano se torna mortal a partir do momento em que começa a desenvolver a própria racionalidade, o próprio conhecimento, o próprio sentimento, a própria intuição. Este é o caminho que todos precisamos percorrer – “sair do Éden” para, depois de muito esforço, descobrir finalmente que o Éden não foi nem será, mas é, e sempre esteve em nossa própria consciência, a ciência do nosso ser;

(c) A árvore filogenética, que na biologia representa as relações evolutivas entre várias espécies ou outras entidades que possam ter um ancestral comum. Na árvore de todas as espécies de vida que existem ou já existiram na Terra, o ser humano é apenas um pequeno galho, bem lá no topo, um recém-chegado no teatro ancestral da vida...

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Crédito da imagem: Ayon (o símbolo referido na nota acima)

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20.5.12

Os corvos de Wotan, parte 1

A chamada tradição oral é a preservação de histórias, lendas, usos e costumes através da fala. Origina-se do primórdio da história humana, quando ainda não havia a escrita e os materiais que pudessem manter e circular os registros históricos. Na atualidade própria das classes iletradas, a tradição oral tem sido, contudo, muito valorizada pelos eruditos que se dedicam ao seu estudo e compilação (as baladas da Edda Poética, por exemplo), ao considerarem que é na tradição oral que se fundamenta a identidade cultural mais profunda de um povo. Supõe-se, por exemplo, que a Ilíada e a Odisseia de Homero foram inicialmente, assim como as Eddas, longos poemas recitados de memória.

Joseph Campbell gostava de dizer que “o mito é algo que nunca existiu, mas que existe sempre”. Esse aparente paradoxo pode ser reconciliado se entendermos a tradição oral, mãe da mitologia, como a melhor forma com a qual o espírito humano pôde passar adiante suas experiências no contato com a essência das coisas, com o que há de eterno no mundo. Dessa forma, todas as variantes de um mesmo mito são, no fundo, uma mesma história. E toda mitologia é, no fundo, uma mesma mitologia, uma mitologia do espírito humano.

Mas hoje não vivemos mais em tribos e aldeias, e nem todos necessitam decorar tais histórias antigas. Além disso, não são os xamãs nem os anciãos quem nos passam os mitos, mas alguns poucos textos sagrados de outrora, que até hoje inspiram inúmeras variações na mente dos contadores de histórias modernos – a quem conhecemos, principalmente, como artistas. Existem mitos sendo recontados em todos os cantos: nos livros de vampiros adolescentes, nos filmes de Hollywood, nas séries de TV de fantasia, e até mesmo num gibi.

O deus que usarei como exemplo de referência neste artigo é hoje um conhecido personagem de histórias em quadrinhos da Marvel. Se você já leu algum gibi, ou viu algum filme recente, de seu filho, certamente o conhece: Odin (ou Wotan, ou Wôdan, variantes hoje menos conhecidas, mas que vieram do original germânico), é o Senhor de Asgard e pai de Thor, o heroico deus do trovão. Você pode achar que não há nada de muito profundo a se falar sobre um velho deus-herói-caçador aposentado que hoje se limita a governar uma cidade mítica, e talvez tivesse razão se considerarmos apenas a forma extremamente diluída deste mito que nos chegou aos dias atuais como um mero personagem de quadrinhos... Mas, não que eu esteja condenando Stan Lee e Jack Kirby, pelo contrário: apesar de terem “diluído” o mito, eles fizeram por ele bem mais do que o cristianismo, que por muitos séculos demonizou o grande deus dos povos nórdicos europeus, a fim de substituí-lo por sua versão bíblica.

Mas, o que exatamente eu quero dizer pelo mito de Odin, será que me refiro a uma entidade sobrenatural real? Bem, com todo o respeito à Freternidade de Odin [1], não é exatamente isso que quero dizer... É óbvio que não existe, na natureza terrestre pelo menos, um homem caolho a cavalgar os céus montado num cavalo de oito patas; mas, por outro lado, a iconografia de Odin é toda ela um imenso conjunto de símbolos, símbolos estes que existem e sempre existirão, ao menos enquanto existirem mentes com vontade de pensar sobre eles.

Os símbolos nada mais são do que imensas quantidades de informação reduzidas a uma única imagem ou história fantástica ou ícone que funcionam como uma chave mental para o acesso dessas informações e sensações, desde que a pessoa saiba, em seu pensamento, como usar esta chave de uma forma consciente. Você pode perfeitamente substituir a imagem (o símbolo) de Odin por uma série de palavras (formadas por conjuntos de símbolos – as letras do alfabeto) a formar uma extensa lista: sabedoria, fúria, excitação, guerra, caçada, mente, magia, poesia, escrita rúnica, etc. É claro que, dependendo da interpretação de cada pessoa, e de cada tradição folclórica, essa lista pode variar imensamente, mas não absolutamente. Odin é um conjunto de símbolos, ele serve para que acessemos tais ideias em nosso pensamento, sentimento e intuição, de forma simplificada e cada vez mais potente (o hábito faz o monge).

O grande problema do “uso dos mitos” é quando os entendemos como seres literais (e não metáforas), dispostos a barganhar conosco em troca de “favores espirituais”, “boa sorte”, “boa saúde”, etc. Isso é um problema porque, exatamente, a grande vantagem dos mitos é poder ativar a nossa vontade para que nós mesmos busquemos tais objetivos, que nós mesmos nos tornemos heróis a vivenciar a grande aventura da vida, que nós mesmos nos tornemos, enfim, deuses (“sois deuses, farão tudo o que faço e ainda muito mais” – disse o grande rabi da Galileia [2]).

Mas, retornando a Odin: é verdade que o que sabemos hoje sobre o seu mito é extensivamente baseado na Edda Poética, um grandioso conjunto de poemas vindos diretamente dos mitos dos povos nórdicos antigos da Europa, e que foi preservado no Codex Regius (“Livro Real”), um códice islandês que provavelmente foi escrito em cerca de 1270 d.C., mas que só se tornou “conhecido na modernidade” quando um bispo o encontrou na Islândia e o enviou como presente ao então rei da Dinamarca, em 1662. A Edda então permaneceu na Biblioteca Real de Copenhagen até 1971, quando foi escoltada por militares por terra e mar (um acidente aéreo poderia a danificar permanentemente), de volta a capital da Islândia, Reykjavík. Lá ela permanece até hoje, como uma legítima relíquia que guardou praticamente sozinha aos séculos da cultura de um povo, e impediu que seus mitos de diluíssem até não mais existirem.

O que os versos da Edda nos trazem, entretanto, são baladas e cânticos bardos de épocas ainda muito mais remotas... Diz-se que Odin já era conhecido desde os primórdios da língua protogermânica, que durou de 500 a.C. há 500 d.C., e que formou a base de diversos idiomas atuais, como o inglês, o escocês, o alemão, o dinamarquês, o norueguês e o islandês, dentre outras. De fato, Odin é tido como o grande responsável por trazer aos homens o conhecimento das runas, a base da escrita germânica antiga, do mundo espiritual (falaremos mais sobre isso na sequência). Ora, como as runas mais antigas encontradas datam dos séculos I e II d.C., podemos dizer que o mito de Odin era tão antigo quanto elas... Mas, talvez seja ainda muito mais antigo do que isso. Porém, como teremos certeza?

Certeza nós jamais teremos, pois a história não é somente uma mera reconstrução moderna dos tempos de outrora: mas uma reconstrução criada primordialmente pelos povos e países vencedores das guerras e dos embates dentre crenças religiosas... O Odin que conhecemos hoje é um Odin sobrevivente aos séculos de domínio romano e cristão, e é mesmo quase um milagre que ele tenha sobrevivido. Apesar das extensivas campanhas de demonização feitas pelos ditos cristãos, o mito mostrou-se persistente: Odin ainda cavalga pelos céus, pelas películas de cinema e pelas histórias em quadrinhos.

Dito isso, é preciso deixar claro que a própria natureza do mito é a de se transformar continuamente, preservando-se apenas sua essência, aquilo que está fora do tempo, e sobrevive exatamente por nos tocar a alma, por ser eterno... Portanto, e interpretação que mais conta é a atual; e, além disso: é a nossa interpretação. Porque os mitos que nos são despejados como dogmas pré-estabelecidos por pretensas figuras de autoridade não são muito mais do que propaganda enganosa. O que nos importa, o que sempre importou, é identificar a essência, a verdade guardada em inúmeras metáforas, percebida sabe-se lá por qual ancestral selvagem em meio ao inverno europeu, e que, espantosamente, ainda está aqui, ainda nos toca a alma, ainda é capaz de nos elevar a estados de consciência que nem sabíamos que existiam.

O que falarei a seguir, portanto, é da minha interpretação do mito de Odin. Baseada num estudo das inúmeras histórias que ainda se contam dele, é claro; mas, não obstante, minha interpretação. Sinta-se a vontade para questioná-la, interpretá-la, vivenciá-la, pois é isso o que os mitos nos pedem...

» Na próxima parte: Odin, seus lobos e seus disfarces...

***

[1] Sociedade secreta neopagã que até os dias atuais celebra os ritos antigos relacionados à Odin e a outros elementos da mitologia nórdica. Segundo eles, “Odin não é um arquétipo psicológico ou uma metáfora para referência as forças naturais, mas uma entidade real”. Eles também são “politeístas a fundo”, e ao contrário de outros politeístas que na realidade compreendem aos deuses como emanações de um único Deus Primordial (o que no caso faria de Odin o Deus, e Thor, por exemplo, um de seus Arcanjos ou Profetas, se formos fazer uma [má] comparação com o catolicismo), para eles não há nenhuma lógica em crer que uma única entidade emana toda a realidade conhecida de si própria. Bem, provavelmente eles nunca leram Espinosa... Por outro lado, existe sempre a possibilidade de terem inventado essa história com o propósito de afastar curiosos indesejados.

[2] João 10:34; João 14:12 (NT).

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Crédito da imagem: Action figure por Randy Bowen (para a Marvel Comics)

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23.4.12

Jorge Play

» Parte da série: Play a myth

Se houveram aqueles que souberam falar diretamente ao reino da alma, caminharam no mundo também alguns raros seres que adentraram o reino do mito, e dissolveram seus egos num oceano de bem-aventurança. Embora fossem ainda eles mesmos, eram também um portal vivo para o Infinito, habitados pelos mais belos deuses que a mente humana foi capaz de identificar. Estes são os que falam em nome do amor: os santos...

Jogue, represente, interprete, brinque: play a myth.

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Muitos podem se questionar se um guerreiro pode falar em nome do amor, se pode efetivamente ser santo... Acredito que antes de mais nada nos vale a reflexão acerca da santidade ser real ou mitológica, neste sentido: existiram mesmo homens totalmente santos, ou foi a grandiosidade de sua vida que os tornou mitos? É óbvio que o mito de São Jorge não corresponde exatamente a vida do conde da Capadócia, soldado romano, a despeito dos atos de caridade e de sua resiliência ante as torturas - fica óbvio que Jorge nunca matou nenhuma dragão de verdade... Porém, se o consideramos simbolicamente como a força da coragem contra a ignorância, representada pelo dragão, temos uma poderosa lição espiritual, lição esta que resistiu aos séculos, e ainda hoje é muito mais do que um feriado em algumas regiões do Brasil.

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(clique na imagem para abrir em tamanho maior)

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» Saiba mais sobre Jorge

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Crédito da imagem: Rafael Arrais + logIcon

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18.4.12

Comentário: os memes existem?

Comentário das respostas da pergunta “os memes existem?”, parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori responderam a 7 perguntas sobre o tema. Para saber mais, leia a premissa da série.

[Raph] Muito já foi dito em meu blog sobre os memes de Dawkins (ver, por exemplo, a série Onde estarão os memes?), e, do ponto de vista espiritualista, eu tenho sempre me indagado se os memes diferem tanto assim dos muwakkals dos sufis, ou das teorias ocultistas acerca do “nascimento, vida e morte dos pensamentos”, ou seja: seriam os memes os genes místicos ou metafísicos?

Para não me repetir sobre assuntos já abordados no blog, eu gostaria aqui de falar exatamente sobre a natureza do pensamento. Sabemos que o pensamento sem dúvida passa pela mente, independentemente de ter se originado apenas no cérebro, ou de ter vindo de algum outro centro oculto, de alguma usina espiritual. Isto pois, com os eletroencéfalogramas (EEGs) e outras tecnologias de observação objetiva das fagulhas elétricas a navegar pelo espaço neuronal do cérebro, tudo o que vemos é o resultado da vontade de agir, dos comandos cerebrais; Ou pelo menos nada que temos visto na neurociência de ponta indica que tal fagulha se originou apenas no cérebro, e não está somente trafegando por ele, ativando as teclas do piano que controla nosso corpo. Observamos, portanto, luzes a passar por extensos e intrincados postes de luz, que iluminam toda a metrópole cerebral, e fazem a cidade funcionar – porém, jamais encontramos algo no cérebro que possamos indicar, com boa convicção, como sendo a usina elétrica dessas luzes, o centro da vontade.

Portanto, ainda que hoje saibamos que a consciência é um processo que simula e elabora realidades para que nosso eu possa decidir o que fazer a seguir; E ainda que a atividade consciente na verdade seja apenas reflexo de inputs de informação sensorial e decisões muitas vezes inconscientes que ocorreram a até meio segundo atrás, antes de terem sido percebidas conscientemente [1]; Ainda assim, a despeito de todo o ceticismo envolvido com as questões espirituais, podemos dizer pelo menos isto aqui: enquanto vivos, encarnados, todos nós concordamos que somos um ser que tem uma mente e é capaz de elaborar e interagir com pensamentos, ainda que tão somente dentro de nossa própria mente [2].

Ora, se postulamos que memes são as unidades fundamentais do registro de informações de nossas ideias e pensamentos, e que da interação entre pensamentos, eles podem se desenvolver e replicar, conforme os mecanismos de evolução e seleção natural da teoria da Darwin-Wallace, ainda que eles jamais tenham sido detectados em experimentos, podemos os considerar também como uma teoria puramente lógica e filosófica de eventos observados na natureza. Dessa forma, conforme os antigos filósofos naturalistas, que não estavam tão distantes dos sufis (que conceberam os muwakkals), poderemos examinar de que forma, exatamente, tais memes adentram em nossa mente, e se desenvolvem, até que se repliquem para outras mentes, geralmente através da linguagem [3].

Conforme vínhamos dizendo no comentário da segunda pergunta (que é, afinal, a vida?), John Wheeler e outras físicos postulam que as unidades fundamentais da realidade, tanto quanto ocorre com os memes, também são puramente informação. Bits de informação: “0s” ou “1s” que, repetidos ad infinitum, estruturam tudo o que há no Cosmos, do neutrino aos maiores agrupamentos de galáxias. Crendo ou não nessa teoria científica, muitos neurocientistas, ainda assim, creem que o registro de informações no cérebro é computacional e que, em essência, somos mais como uma máquina celular. Ainda que fosse este o caso, não sabemos exatamente como o cérebro gera a subjetividade, como nos permite interpretar – e não apenas computar – informações, de modo que falamos em “vermelhidão” do vermelho, e podemos apreciar as mais belas metáforas poéticas.

Sir Charles Scott Sherrington, neurofisiologista britânico, talvez tenha sido um dos pensadores que mais profundamente adentrou neste problema do registro de informações subjetivas em nossa mente, ao compará-la, metaforicamente [4], a um tear encantado, sempre tecendo padrões de sentido, através da simbologia: “Esses padrões de sentido transcenderiam programas ou padrões puramente formais ou computistas e dariam margem à qualidade essencialmente pessoal que é inerente a reminiscência, inerente a toda mnesis, gnosis e práxis. [...] Padrões pessoais, padrões para o indivíduo, teriam de possuir a forma de scripts ou partituras – assim como padrões abstratos, padrões para computador, têm de estar na forma de esquemas ou programas. Portanto, acima do nível de programas cerebrais, precisamos conceber um nível de scripts e partituras cerebrais. [...] A experiência não é possível antes de ser organizada iconicamente; a ação não é possível se não for organizada iconicamente. ‘O registro cerebral’ de tudo – tudo o que é vivo tem de ser icônico. Essa é a forma final do registro cerebral, muito embora o feitio preliminar possa ser moldado como cômputo ou programa. A forma final de representação cerebral tem de ser, ou admitir, a ‘arte’ – o cenário e a melodia artística da experiência e da ação [5]”.

Dessa forma, surpreendentemente, quando falamos em pensamento, embora o conceito de “informação” ainda faça sentido (pois no fundo tudo é informação, até mesmo o próprio pensamento [4]), provavelmente o conceito de “símbolo” traga um sentido mais prático se queremos abordar a questão de forma lógica. Ora, apesar de mesmo os símbolos não serem de todo capazes de encerrar o que se dá na experiência subjetiva, na sensação, na intuição, no sentimento, eles pelo menos são as melhores cascas de sentimento que encontramos até hoje, as melhores palavras e imagens capazes de indicar o que é exatamente um pensamento: não somente um conjunto “frio” de “0s” e “1s”, mas toda uma rede intrincada de sentidos que, efetivamente, podem ter seu nascimento, sua vida, e sua morte. E, mais do que isso: podem se replicar, se desenvolver, tal qual a teia da vida.

Portanto, se pensamentos nada mais são do que informações vivas a trafegar pelas mentes, ainda que antigamente fosse difícil crer que alguém poderia influenciar o pensamento de outro alguém a distância, através de algum plano mental, hoje nem é preciso considerarmos se isto é ou não uma possibilidade real. Pois que hoje a transmissão de pensamentos se dá também quase a velocidade da luz, através do hipertexto da internet, das redes sociais, e de um mundo cada vez mais globalizado. Estamos sim, cada vez mais, formando uma teia de pensamento através do mundo todo. Cuidado, portanto, como a informação, com os símbolos que saem, e também com os que entram: eles serão a sua realidade.

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[1] Exceto em ações puramente reflexivas, como proteger os olhos com as mãos de algum objeto arremessado em sua direção, que não passam por esse intervalo de meio segundo, e são efetivamente “automáticas”, ou pelo menos na grande maioria dos casos não teremos escolha entre proteger os olhos ou não: nós os protegeremos.

[2] Bem, os materialistas eliminativos (dentre os quais, ironicamente talvez pudéssemos incluir o próprio Dawkins) não creem que exista uma mente, pois eles tampouco creem que exista uma subjetividade, ou a liberdade, mesmo uma liberdade parcial e limitada, da vontade. A subjetividade seria uma ilusão persistente do cérebro, e todas as nossas escolhas (veja bem: todas) na verdade se reduziriam ao tilintar neuronal de partículas já descobertas pela ciência (veja bem: apenas 4% da matéria e energia do universo, segundo a teoria da Matéria Escura).

[3] Ou seja, da interação humana, também conhecida como fofoca, notícia, moda, etc. Muitos espiritualistas postulam que o pensamento pode, por si só, se projetar e habitar um plano mental, um inconsciente coletivo, etc., mas nem será preciso considerarmos esta hipótese aqui.

[4] Ah, a ironia...

[5] Trecho de Man on his nature, conforme citado num dos livros de Oliver Sacks.


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Crédito das imagens: [topo] Mario Martinez (representando uma tulpa, a forma-pensamento para os budistas tibetanos); [ao longo] neurosupply.com (na verdade isto é apenas um EEG, apesar de trazer o mesmo título que o neurocientista Miguel Nicolelis deu para o que ele acredita ser a internet do futuro, onde os cérebros estarão conectados entre si: a Brainet)

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13.3.12

Xamãs ancestrais, parte 3

« continuando da parte 2

Xamã é um termo de origem tungúsica, que nessa língua siberiana quer dizer, na tradução literal, "aquele que enxerga no escuro". Os xamãs são os portadores da função religiosa na tribo, que podem entrar em um estado extático, “voar” para outros mundos e ter acesso e contato com seus aliados (animais, vegetais e minerais), seres de outras dimensões e os espíritos ancestrais. Apesar de ter surgido na Sibéria, o termo “xamanismo” se aplica atualmente a práticas espiritualistas em vários pontos do mundo, tanto no espaço quanto no tempo.

Isso tudo está apenas na sua mente

Sigmund Freud, quase todos no Ocidente o sabem, foi o fundador da psicanálise. O que talvez muitos não saibam é que a própria psicanálise talvez deva sua origem a uma droga que nos dias atuais é ilegal em quase todo o mundo...

Entre as idades de 28 e 39, por onze anos, Freud utilizou regularmente a cocaína em sua forma de alcaloide, em pó (diluída em água). Como jovem neurologista, essa foi sua primeira tentativa experimental fora da prática médica tradicional. Ele estava buscando o reconhecimento público capaz de gerar a clientela que lhe traria fama e recursos financeiros permitindo, assim, que se casasse com sua noiva, de quem estava separado havia dois anos. Durante esse período, Freud publicou três artigos importantes e fez uma apresentação para a Sociedade Psiquiátrica de Viena sobre os usos terapêuticos da cocaína. Embora esse experimento não tenha atingido suas expectativas, e seus artigos sobre a cocaína nunca tivessem aparecido em seus escritos publicados, esses estudos fizeram de Freud, na verdade, um fundador da psicofarmacologia e, provavelmente, influenciaram seu trabalho com os sonhos e o inconsciente.

Freud acreditava que a cocaína era fundamental para curar as “doenças da alma”, mas com o tempo se apercebeu de seu seus perigos, quando verificou que seus pacientes, e ele mesmo, estavam ficando viciados na substância. Foi a partir dessa experiência, entretanto, que Freud se concentrou em alcançar novamente algumas daquelas reflexões e pensamentos de quando era influenciado pela cocaína, porém apenas com a própria mente, e a linguagem correta: a droga não era mais necessária, estava fundada a psicanálise.

Nos dias atuais, após meio século de uma Guerra as Drogas que parece ter gerado apenas mais e mais violência em todo o mundo, substâncias como a cocaína são demonizadas: não são tratadas apenas como um psicotrópico perigoso, mas como uma espécie de “pó do inferno”, algo que, uma vez consumido, nos condenará eternamente a carregar a alcunha de “drogados”, sem jamais, jamais, sermos capazes de dia sequer retornar ao que éramos antes. No fundo, sabemos que não é bem assim, mas, não obstante, essa é a crença generalizada, embutida em nossa mente pela mídia mundial, particularmente a americana, e da qual é realmente difícil escapar.

Longe de mim querer aqui relativizar o perigo da cocaína e outras drogas (já a cannabis, poderia muito bem ser legalizada). Na verdade, eu nem posso falar com tanta propriedade do assunto: nunca usei droga alguma além do álcool, ao menos nessa vida... Mas, talvez estejamos pegando pesado demais com a cocaína e outros psicotrópicos. Afinal, quem somos nós para julgar o que mesmo um papa recomendou com grande entusiasmo?

O Vin Tonique Mariani, ou Vin Mariani, era um vinho misturado com cocaína (também diluída em água), criação do químico francês Angelo Mariani, que era uma bebida bastante popular no fim do séc. XIX. Popular ao ponto de ter sido regularmente consumida por pelo menos dois papas da Igreja de Roma... O Papa Leo XIII chegou ao ponto de participar de uma campanha de publicidade da época, como “garoto propaganda” do grande Vin Mariani. Será que, por ser o papa, ele estaria livre do inferno ao consumir cocaína?

Gostemos ou não, o ser humano sempre teve, ao longo de toda a história, uma relação muito íntima com as drogas e todo o tipo de substância psicoativa... Como vimos anteriormente na série, é bem capaz de a própria pré-história, antes das civilizações e da escrita, já ter registrado práticas de consumo de drogas. Práticas essas que, bem controladas e devidamente classificadas como “sagradas”, podem mesmo ter dado origem a boa parte de nossa mitologia, magia, arte e religião.

Não eram, de fato, absolutamente todos os xamãs que usavam dessas substâncias. Na verdade, sabemos que muitos deles desenvolveram outros tipos de técnicas para alcançar seus estados de transe e consciência alterada, sua experiência mística. A lógica parece nos dizer que, entretanto, existe aqui uma proporção inversa em jogo: quanto mais consumimos substâncias psicoativas, mais facilmente conseguiremos alcançar os estados extáticos, porém mais árdua e complexa será nossa compreensão acerca do que efetivamente ocorre neles, na viagem para dentro de nós mesmos. Da mesma forma, quanto menos nos valemos de substâncias psicoativas, mais árdua e desgastante será nossa prática mental até que consigamos alcançar tais estados místicos “por nós mesmos”, apenas pelo uso da própria mente, mas por outro lado, tanto mais simples será nossa compreensão acerca do que ocorre dentro da mente. Freud parece, portanto, ter começado pelo primeiro método, e depois ter preferido o segundo. Talvez seja só isso mesmo: questão de preferência. Eu estou com Freud.

Ainda assim, há muitas questões que permanecem em aberto: porque, afinal, nossos ancestrais gastavam tanto tempo e energia nessas tentativas de adentrar “dimensões ocultas” dentro de suas próprias mentes? No que exatamente isso auxiliava em sua sobrevivência? Porque, afinal, tal prática estranha parece um dia ter sido comum em todas as partes do globo onde houvessem caçadores-coletores a caminhar pela terra, os pais e as mães de todos nós, os humanos...

Os signos da arte rupestre, com similaridades encontradas em sítios na Europa e na África, distantes não apenas no espaço, mas em milhares de anos no tempo, talvez nos deem alguma pista do que nossos xamãs ancestrais buscavam. Em seu extensivo estudo [1], Graham Hancock lista alguns dos pontos em comum: (a) As pessoas ou seres podem ser parte animal, parte homem, e podem se transformar plenamente em animais; (b) Certas pessoas ou seres são, às vezes, empaladas por lanças, flechas ou arpões quando estão se transformando em animais (os “homens feridos”); (c) Animais podem se transformar em outros animais ou aparecer como híbridos de duas ou mais espécies, e alguns podem ter a aparência distorcida, “fantástica”, inteiramente desconhecida do mundo natural (de qualquer época do planeta); (d) Há padrões geométricos, pontos, grades e zigue-zagues de linhas e “linhas-serpentes”, por toda parte; (e) A face da rocha onde a arte rupestre é encontrada é dinâmica e permeável, não como uma tela em branco, plana, a espera de ser decorada, mas muito mais como uma mescla em três dimensões entre a rocha e a arte, como se a arte também fosse, ali, um portal para uma outra dimensão, acessível apenas na contemplação daquele “local sagrado”.

Após ter encontrado tantas similaridades, Hancock partiu para uma tentativa ousada de explicar aquilo tudo, o que preenche boa parte de seu livro, e da qual não entraremos em maiores detalhes aqui [2]. Porém, talvez seja uma boa hora para refletirmos acerca do que os próprios xamãs afirmam que fazem em seu xamanismo, ou pelo menos daqueles xamãs que sobreviveram ao tempo. O importante é que seu relato é bastante similar ao que os xamãs san do século XIX disseram a Bleek e Lloyd [3]: (a) Entrar em contato com uma “realidade primordial”, espiritual, acessível através de alguma espécie de “sintonia mental” alcançada em certos estados extáticos; (b) Entrar em contato direto com ancestrais (já “mortos”, mas que vivem neste outro plano de existência), entidades, deuses, semi-deuses e seres “sobrenaturais” cujo conselho é informação inestimável para a sobrevivência da tribo; (c) Influência sobre o clima, particularmente na tentativa de produzir chuvas; (d) Influência e/ou identificação da movimentação de agrupamentos de animais que são caçados pela tribo nas redondezas; (e) Conhecimento de propriedades farmacológicas de ervas e plantas; e finalmente, talvez a mais importante: (f) Conhecimento e capacidade de cura de enfermidades físicas, psicológicas e/ou espirituais que afligem os membros da tribo.

Estariam os xamãs ancestrais totalmente certos, ou absolutamente equivocados, em todas essas práticas? Disso não temos como saber sem experimentar os mesmos estados extáticos... Mas, a lógica e o bom senso nos dizem: estavam mais certos que errados; Do contrário não estaríamos aqui para contar a história, não seríamos nós mesmos os seus descendentes, o seu presente para o mundo.

O Chefe Seattle, outro grande xamã, uma vez disse em sua carta ao presidente em Washington: “Sabemos que a terra não pertence ao homem. O homem pertence à terra. Todas as coisas são interligadas, como o sangue que nos une. O homem não tece a teia da vida - ele é apenas um fio dela. O que fizer à teia, fará a si mesmo”. Mas, o que é afinal essa teia, esse tecido de realidade que parece habitar tanto o mundo lá fora quanto a nossa própria mente? É possível, afinal, influenciar e interagir com o mundo lá fora, através de alguma ponta de teia que puxamos ainda dentro de nossa mente?

O cético escandalizado com tal possibilidade vai prontamente nos responder: “Isso tudo está apenas na sua mente!”... Mas, afinal de contas, e o que não está?


Nossa consciência desperta, normal, a qual chamamos de racional, nada mais é do que um tipo especial de consciência. Ao redor e sobre ela, separada pela mais fina das telas, há formas potenciais de consciências muito diferentes. Podemos atravessar a vida sem nem sequer desconfiarmos de sua existência. Mas, aplique o estímulo necessário e, ao menor toque, elas estão lá, em toda a sua inteireza... Nenhum relato do universo em sua totalidade pode ser tão definitivo que deixe essas outras formas de consciência inteiramente menosprezadas... De qualquer maneira, elas proíbem um encerramento prematuro de nosso acerto de contas com a realidade (William James, Variedades da Experiência Religiosa)

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Leitura recomendada: Sobrenatural, de Graham Hancock (Nova Era).

[1] Maiores detalhes no livro recomendado acima.

[2] Hancock prossegue em um longo, extensivamente detalhado e devidamente documentado relato de similaridades entre as experiências do xamanismo, os relatos de abdução por OVNIs (inclusive muitos séculos antes do século XX) e os relatos de encontros com seres mitológicos e do “reino das fadas”... Trata-se, talvez, de um “passo maior do que as pernas”, mas nada disso invalida o que vinha sido demonstrado desde o início do livro, particularmente o que foi resumido nas duas primeiras partes desta série.

[3] Ver parte 2 desta série de artigos.

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Crédito das imagens: [topo] Wikipedia (Papa Leo XIII recomenda o Vin Mariani); [ao longo] Imagem criada a partir de imagem compartilhada no Facebook

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28.2.12

Da mitologia a psicologia, parte 2

« continuando da parte 1

Texto de Joseph Campbell em "O herói de mil faces” (Ed. Cultrix/Pensamento) – pgs. 255 a 257. Tradução de Adail Ubirajara Sobral. As notas ao final são minhas.

A apreensão da fonte desse substrato do ser, indiferenciado e, não obstante, particularizado nos quatro cantos do mundo, é frustrada pelos próprios órgãos por meio das quais deve ser realizada. As formas de sensibilidade e as categorias do pensamento humano, elas mesmas manifestações dessa força, limitam a mente num grau tão considerável, que normalmente é impossível, não apenas ver, como também conceber, além do colorido, fluido, infinitamente variado e deslumbrante espetáculo fenomênico. A função do ritual e do mito consiste em possibilitar e, por conseguinte, em facilitar, o salto – por analogia [1].

Formas e conceitos que a mente e seus sentidos podem compreender são apresentados e organizados de um modo capaz de sugerir uma verdade ou uma abertura que se encontram mais além. Tendo sido criadas as condições para a meditação, o indivíduo é deixado consigo mesmo, sozinho. O mito não é senão o penúltimo nível; o nível último é a abertura – o vazio, ou ser, que se acha além das categorias –, na qual a mente deve mergulhar sozinha e ser dissolvida [2]. Portanto, Deus e os deuses são apenas meios convenientes [3] – eles mesmos compartilham da natureza do mundo de nomes e formas, embora sejam eloquentes referências do inefável a que, em última análise, levam. São meros símbolos destinados a despertar e pôr a mente em movimento, bem como chamá-la a ir ao seu encontro.

Esse reconhecimento da natureza secundária da personalidade de toda divindade cultuada é característico da maioria das tradições do mundo. No cristianismo, no islamismo e no judaísmo, todavia, ensina-se que a personalidade da divindade é final – o que torna completamente difícil, para os membros dessas crenças, a compreensão do modo pelo qual é possível ir além das limitações de suas próprias divindades antropomorfas. O resultado tem sido, de um lado, um obscurecimento geral dos símbolos e, de outro, um fanatismo, voltado para os deuses, sem precedentes na história da religião [4].

O céu, o inferno, a era mitológica, o Olimpo, bem como as outras moradas dos deuses, são interpretados, pela psicanálise, como símbolos do inconsciente. [...] Como diz Jesus: “Porque eis que o reino de Deus está dentro de vós” [5]. Com efeito, o sentido de que se reveste a imagem bíblica da Queda é precisamente a passagem da supraconsciência para o estado de inconsciência. A constrição da consciência, à qual devemos o fato de não vermos a fonte da força universal mas, tão somente, as formas fenomênicas que ela reflete [6], transforma a supraconsciência em inconsciência e, no mesmo instante, precisamente ao fazê-lo, cria o mundo. A redenção consiste em retornar a supraconsciência e, por intermédio desse retorno, a dissolução do mundo.

Aí temos o grande tema, bem como a fórmula, do ciclo cosmogônico, a imagem mítica do processo de manifestação do mundo e do subsequente retorno à condição imanifesta [7]. Do mesmo modo, o nascimento, e vida e a morte do indivíduo podem ser considerados como uma descida à inconsciência, seguida de um retorno [8]. O herói é aquele que, embora ainda se encontre vivo, conhece e representa os apelos da supraconsciência – que é, ao longo da criação, mais ou menos inconsciente. A aventura do herói marca o momento em que este, embora ainda esteja vivo, descobriu e abriu o caminho da luz, para além dos sombrios limites de nossa morte em vida [9].

Assim é que os símbolos cósmicos são apresentados num espírito de sublime paradoxo, que põe o pensamento em polvorosa. O reino de Deus está dentro de nós e, não obstante, também está fora de nós; Deus, todavia, não é senão um meio conveniente de despertar a bela adormecida, a alma. A vida é o seu sono; a morte, o despertar [10]. O herói, aquele que desperta a própria alma, não é mais do que o meio conveniente de sua própria dissolução. Deus, aquele que desperta a alma, é, nesse sentido, sua própria morte imediata.

Provavelmente o símbolo mais eloquente possível deste mistério seja o do deus crucificado, o deus oferecido “ele mesmo a si mesmo”. Entendido numa das direções, o sentido é a passagem do herói fenomênico para a supraconsciência: o corpo, com os cinco sentidos – semelhante ao do Príncipe Cinco Armas grudado a Cabelo Pegajoso –, fica pendendo da cruz do conhecimento da vida e da morte. [...] Mas é igualmente verdadeiro que Deus desceu voluntariamente e colocou sobre si mesmo a carga de sua agonia fenomênica. Deus assume a vida do homem, que liberta o Deus que se acha em seu interior no ponto médio do cruzamento das hastes da mesma “coincidência de opostos”, a mesma porta do sol pela qual Deus desce e o homem sobe – Deus e o homem se alimentam mutuamente [11].

O estudioso moderno certamente pode examinar esses símbolos como lhe aprouver, quer como sintoma da ignorância do outro, ou como algo que lhe assinala a própria ignorância; quer em termos de uma redução da metafísica à psicologia, ou em sentido inverso. A forma tradicional consistia em meditar sobre os símbolos em ambos os sentidos. De qualquer maneira, os símbolos são metáforas reveladoras do destino do homem, bem como de sua esperança, fé e obscuro mistério.

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[1] Muitos compreendem os mitos de forma superficial, como se todos os que utilizam os mitos acreditassem literalmente que seres de pele azulada com enormes cabeçorras de elefante realmente andam pelos montes da Índia. Para estes o salto seria um “salto de fé”. Mas, para os que conhecem os mitos, e os sabem utilizar, tal salto é nada mais que um salto de compreensão ou, talvez, se poderia igualmente dizer: um salto da imaginação, da intuição e da consciência.

[2] Há uma longa discussão acerca de se a mente é aniquilada, ou apenas o “eu”, a personalidade desta vida. Quando místicos dizem “eu já não vivo, mas Deus vive em mim”, obviamente ainda preservam resquícios de sua antiga personalidade, porém, de agora em diante, vivem segundo os desígnios do Cosmos (ver, por exemplo, a parte final da Ética de Espinosa, para uma abordagem filosófica deste mesmo conceito). Como reencarnacionista, eu obviamente creio que apenas as personalidades se vão (como não somos, de fato, os mesmos de 15 anos atrás), enquanto que as potencialidades, as essências, caminham sempre à frente.

[3] Há que se separar aqui o conceito de “Deus” do conceito da “existência”, ou do antigo problema: “porque existe algo, e não nada?”.

[4] No livro, este parágrafo em realidade era uma nota ao final do parágrafo anterior. Devido à importância da nota, decidi trazê-la para cá.

[5] Lucas 17:21. O que não é tão frequentemente lembrado no Novo Testamento, por outro lado, é repetido inúmeras vezes no Evangelho de Tomé e outros textos gnósticos.

[6] Voltando a Espinosa: vemos as infinitas irradiações e divisões da Substância, mas não vemos a Substância em si – ou, pelo menos, não com os olhos.

[7] Somos irradiados de Deus, de uma ancestral condição de supraconsciência, e somos obrigados a viver no mundo manifesto, com uma consciência nublada de nossa origem que, não obstante, ainda paira nos arcabouços do inconsciente. O caminho de retorno, de religação ao Cosmos de onde viemos um dia, nada mais é do que a origem (inclusive etimológica) do conceito de religião, religare, religação, reconexão: Eis o ciclo cosmogônico presente em toda mitologia.

[8] Considerando a imensidade de vidas por que passamos, devemos igualmente considerar que este ciclo de nascimento, vida e morte, não é único e, portanto, serão ainda muitos mundos deixados para trás, e muitos mundos ainda por se manifestar.

[9] A única certeza que temos todos é a de que a morte não existe: o máximo que pode existir é vida após a vida. E, em não existindo uma continuidade, a morte também é nada. No entanto, há muitos de nós que vivem como se estivessem mortos, sem o pleno domínio de sua vontade, imaginação, intuição, liberdade, etc. A esta “morte” poderíamos chamar estagnação – e a Natureza detesta estagnação, daí que a dor é o melhor remédio para aqueles que temem simplesmente amar.

[10] A essa altura você já deve ter percebido que esta “morte” significa um renascimento em vida, um despertar da consciência, da bela adormecida, da alma. Vide nota acima.

[11] “Nós somos uma forma do Cosmos conhecer a si mesmo”, já intuiu alguém pleno de espiritualidade.

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Crédito da foto: Roy McMahon/Corbis

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26.2.12

Da mitologia a psicologia, parte 1

Texto de Joseph Campbell em "O herói de mil faces” (Ed. Cultrix/Pensamento) – pgs. 251 a 255. Tradução de Adail Ubirajara Sobral. As notas ao final são minhas.

O intelectual moderno não encontra dificuldades em admitir que o simbolismo da mitologia se reveste de um significado psicológico. [...] Com a descoberta de que os padrões e a lógica do conto de fadas e do mito correspondem aos do sonho, feita pelos grandes psicanalistas [1], as quimeras há muito desacreditadas do homem arcaico voltaram, de modo dramático, ao plano principal da consciência moderna [2].

Nos termos dessa concepção, há razões para crer que, através dos contos maravilhosos – cuja pretensão é descrever a vida dos heróis lendários, os poderes das divindades da natureza, os espíritos dos mortos e os ancestrais totêmicos do grupo –, é dada uma expressão simbólica dos desejos, temores e tensões inconscientes que se acham subjacentes aos padrões conscientes do comportamento humano. Em outras palavras, a mitologia é psicologia confundida com biografia, história e cosmologia [3]. O psicólogo moderno tem condições de retraduzi-la em suas denotações próprias e, desse modo, recuperar para o mundo contemporâneo um rico e eloquente documento das camadas mais profundas do caráter humano.

[...] Devemos notar que os mitos não são passíveis de uma comparação exata com os sonhos. As figuras dos mitos dos sonhos têm as mesmas fontes de origem – os poções inconscientes da fantasia –, assim como a mesma gramática; contudo, os mitos não são produtos espontâneos do sono. Pelo contrário, seus padrões são conscientemente controlados. E sua função conhecida consiste em servir como poderosa linguagem pictorial para fins de comunicação da sabedoria tradicional. Isso já se aplica, inclusive, às chamadas mitologias folclóricas primitivas. O xamã suscetível ao transe e o sacerdote-antílope iniciado não carecem de sofisticação em seu conhecimento do mundo, nem são inábeis na utilização dos princípios da comunicação por meio a analogia [4]. As metáforas pelas quais vivem e por meio das quais operam foram objeto de longa meditação, de pesquisas e de discussão ao longo de séculos – ou mesmo milênios [5]; além disso, serviram a sociedades inteiras como as principais bases do pensamento e da vida.

Os padrões culturais foram moldados a elas. Os jovens foram educados, e os anciãos se tornaram sábios, por intermédio do estudo, da experiência e da compreensão de suas efetivas formas iniciatórias [6]. Pois essas metáforas na realidade tocam e põem em jogo as energias vitais de toda a psique humana. [...] Onde os símbolos herdados receberam o toque de um Lao-tsé, de um Buda, de um Zoroastro, de um Cristo ou de um Maomé – empregados, por um mestre consumado do espírito, como veículo da mais profunda instrução moral e metafísica –, estamos, evidentemente, na presença de uma imensa consciência, e não diante das trevas.

Por conseguinte, para perceber o pleno valor de que se revestem as figuras mitológicas que chegaram até nós, faz-se necessário compreender que elas não são, tão somente, sintomas do inconsciente (como o são efetivamente todos os pensamentos e atos humanos), mas também declarações controladas e intencionais de determinados princípios de cunho espiritual, que permaneceram constantes ao longo do curso da história humana, como a forma e a estrutura nevrálgica da própria psique humana.

Em termos sucintos: a doutrina universal ensina que todas as estruturas visíveis do mundo – todas as coisas e seres – são o efeito de uma força ubíqua de que emergem, força essa que os sustenta e preenche no decorrer do período de sua manifestação e para qual eles devem retornar quando de sua dissolução última. Trata-se da força que a ciência conhece como energia [7], os melanésios como mana, os índios sioux como wakonda, os hindus como shakti e os cristãos como o poder de Deus. Sua manifestação na psique é denominada, na psicanálise, libido. E sua manifestação no cosmo constitui a estrutura e o fluxo do próprio universo.

» A seguir, a fórmula do ciclo cosmogônico...

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[1] Campbell cita alguns: Sigmund Freud, Carl G. Jung, Wilhelm Stekel, Otto Rank e Karl Abraham.

[2] Primeiro o racionalismo relegou toda mitologia arcaica há mera superstição, porém, ao se deparar com os mistérios da mente humana, foi obrigado a elaborar teorias acerca não somente da origem dos mitos na pré-história, como da razão de eles permanecerem “vivos” até os dias atuais. Enquanto o próprio Campbell, com sua teoria do Monomito, teoriza que toda a mitologia humana se concentra em ideias universais da psique, Jung fala em um Inconsciente Coletivo, e mesmo Dawkins elaborou o conceito dos Memes. Nenhuma dessas teorias é “comprovada”, mas alguns dos materialistas eliminativos, a despeito de sequer acreditarem na existência de uma mente humana, curiosamente adotaram os Memes como uma “teoria quente”.

[3] Os heróis lendários de outrora hoje nada mais são do que os super-heróis e “jovens bruxos” da mitologia moderna, que embora movimente muito dinheiro na indústria do entretenimento mundial, nada mais são do que mitos “diluídos”, para que a sociedade “racionalista” os possa “apreciar” sem pensar muito acerca da própria existência – ou, talvez fosse possível resumir: sem pensar quase nada, sem refletir.

[4] Por serem incapazes de compreender metáforas, alguns ditos “racionalistas” prontamente classificaram as pinturas rupestres como “arte primitiva, sem grande significado”. Mas, como alguns antropólogos modernos têm descoberto, em realidade as pinturas nas cavernas eram plenas de significados que, a despeito de terem permanecido ocultos para nós por praticamente um século (desde a descoberta das cavernas), não significa, obviamente, que eram incompreensíveis para nossos ancestrais. Sobre o assunto, recomendo o monumental Sobrenatural, de Graham Hancock (Nova Era).

[5] Existem registros de pinturas rupestres com pelo menos 32 mil anos de idade (vide nota acima).

[6] Hoje em dia é muito simples armazenar e divulgar informações, mas na pré-história nossos sábios ancestrais eram obrigados a confiar apenas na memória, na tradição oral e em alguns parcos registros pictóricos em cavernas guardadas aos iniciados. Não porque se tratasse de uma “elite” que queria guardar o conhecimento para si, mas exatamente o oposto: por se tratar de seres que tanto valorizavam o conhecimento, que os “inseriam” na mitologia, pois que sabiam que apenas a mitologia iria sobreviver àqueles tempos inóspitos (inclusive antes da invenção da escrita).

[7] No princípio era tudo energia, se existe um conceito em que tanto a cosmologia moderna quanto a religião concordam é que tudo o que há surgiu nalgum tempo muito longínquo de uma singularidade misteriosa – de fato, fez-se a luz!

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Crédito da imagem: PoodlesRock/Corbis (Hércules enfrenta o monstro enviado pelo Rei Minos, mitologia grega)

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11.2.12

Play a myth: uma explicação

Faz alguns dias que o blog tem sido infestado por mitos, numa série de imagens que chamei de Play a myth, e que não pareciam ter muita conexão umas com as outras – um mito com o outro –, exceto pelo fato de todas mostrarem, claro, seres mitológicos.

Se eu não comecei a série com um texto introdutório ou explicativo, foi porque simplesmente dessa vez a inspiração chegou de forma bem mais estranha do que o normal. Como alguns devem saber, eu participo de estudos de desenvolvimento mediúnico em um centro espírita ecumênico (ou seja, “aceita” manifestações de incorporação total, umbanda, um pouco de doutrinas orientais, etc.) e, apesar de eu mesmo não incorporar e nem pretender isso algum dia, a minha “fonte de inspiração”, por assim dizer, tem se tornado cada vez mais abrangente e atuante. Há alguns anos, eu precisava buscar ativamente, em meu pensamento e estudos espiritualistas, filosóficos e científicos, sobre o que escrever a seguir neste blog. Mas hoje em dia, pelo contrário, eu preciso é filtrar todas as inspirações que batem minha porta, e busco publicar no blog apenas as mais profundas, na medida do possível, e na medida da minha própria avaliação subjetiva, é claro. Até quando isso vai durar? É uma boa pergunta... Mas, seguindo a minha Verdadeira Vontade, como os ocultistas gostam de dizer, não lido com isso tudo como se fosse algum fardo ou compromisso, pelo contrário: é uma grande e prazerosa brincadeira!

O Textos para Reflexão, antes de ser blog, já era um site que existe na web (inicialmente hospedado na geocities, alguém lembra?) desde meados de 1998 (se não me engano), e surgiu para que eu pudesse expor ao público em geral meus contos e poesias. Era algo simples, mas foi através desse algo simples que conheci a minha atual esposa, e também uma grande amiga e poetisa, a Flávia.

Em 2006 minha grande amiga morreu, passando para o outro lado do véu da via da inspiração... Inicialmente o blog surgiu como uma necessidade minha de voltar a escrever com maior frequência e, também, para publicar alguns poemas meus e alguns poemas dela. Obviamente, o blog tem hoje muitas outras vias de conteúdo e de pensamento. Sinto que a minha amiga também já segue caminhos próprios onde quer que esteja e, portanto, não preciso mais continuar lamentando sua ida (embora a saudade seja o amor que não passa)...

Desde meados de 2010, culminando com a estreia da minha coluna no portal Teoria da Conspiração em 2011, eu que sou um turista de egrégoras, tenho agora também sido visitado por alguns de seus colaboradores que estão do outro lado... Nada assim muito claro, pelo menos por enquanto, mas seria injusto da minha parte eu simplesmente afirmar que tudo o que é publicado nesse blog, que tudo o que chega a minha mente, é fruto apenas de mim mesmo. Na verdade, todo poeta tem esse problema: de saber de onde exatamente sopram os ventos da poesia.

Obviamente que, além disso, o próprio público do meu blog tem crescido e se tornado mais ativo, seja comentando no próprio blog ou através de interações na nossa página do Facebook. E, como digo desde o primeiro post: a reflexão não é somente a minha reflexão (filosófica ou não), ou a sua reflexão, mas a reflexão de todos nós que, por vezes, também influencia diretamente no que eu mesmo escrevo. Apesar de escrever principalmente para “organizar as ideais”, fico feliz de perceber que alguns destes textos que chegam de algum lugar têm conseguido auxiliar alguns daqueles que os leem (inclusive eu).

E foi durante um de meus estudos mediúnicos, em estado de meditação, que a inspiração para esta série chegou de forma inesperada: “vi” (entenda-se: imaginei) a enorme e maravilhosa cabeça de Ganesha, um mito do Hinduísmo, a mover-se lentamente em minha volta, e as palavras “Ganesha Play” apareceram no meu pensamento – com elas, todo o conceito da primeira imagem, e da própria série, já estava pronto e acabado, e eu apenas trouxe isso para esta realidade de bits de informação. Um mito, segundo Joseph Campbell, é algo que nunca existiu, mas que, todavia, existe sempre – este paradoxo pode ser reconciliado da seguinte forma: é óbvio que não existe, na natureza terrestre pelo menos, um ser humano humanoide com uma imensa cabeça de elefante; mas, por outro lado, a iconografia de Ganesha é toda ela um imenso conjunto de símbolos, símbolos estes que existem e sempre existirão, ao menos enquanto existirem mentes com vontade de pensar sobre eles.

Os símbolos nada mais são do que imensas quantidades de informação reduzidas a uma única imagem ou ícone que funciona como uma chave mental para o acesso dessas informações, desde que a pessoa saiba, em seu pensamento, como usar esta chave de uma forma consciente. Você pode perfeitamente substituir a imagem (o símbolo) de Ganesha por uma série de palavras (formadas por conjuntos de símbolos: as letras do alfabeto) a formar uma extensa lista: intelecto, sabedoria, conhecimento, controle dos próprios desejos, força de vontade, refúgio e proteção, realização do verdadeiro eu, auxílio na destruição dos obstáculos da existência atribulada, etc. É claro que, dependendo da interpretação de cada pessoa, e de cada doutrina religiosa, essa lista pode variar imensamente, mas não absolutamente. Ganesha é um conjunto de símbolos, ele serve para que acessemos tais ideias em nosso pensamento, sentimento e intuição, de forma simplificada e cada vez mais potente (o hábito faz o monge).

O grande problema do “uso dos mitos” é quando os entendemos como seres literais (e não metáforas), dispostos a barganhar conosco em troca de “favores espirituais”, “boa sorte”, “boa saúde”, etc. Isso é um problema porque, exatamente, a grande vantagem dos mitos é poder ativar a nossa vontade para que nós mesmos busquemos tais objetivos, que nós mesmos nos tornemos heróis a vivenciar a grande aventura da vida, que nós mesmos nos tornemos, enfim, deuses (“sois deuses, farão tudo o que faço e ainda muito mais” – disse o grande rabi da Galileia [1]). Existe, portanto, um Deus responsável por tudo o que há, e existem todos os outros deuses – alguns em formação, alguns no exercício pleno de seu amor. E os mitos nada mais são do que parte da ponte a ligar uma terra cinzenta, de morte, a uma terra de luz multicolorida, de vida. Talvez auxiliem a manter a ponte de pé durante as tempestades, mas só avançaremos nela com nossa vontade, e nosso amor.

Finalmente, voltando a Ganesha e esta série: somente após ter publicado a imagem de Ganesha é que surgiu a inspiração do mito seguinte, Yeshua, e assim por diante, até que eu tivesse chegado no sexto mito, e tivesse compreendido que estava, afinal, a escolher os seis patronos deste blog [2]. Agora, além do torii (um portal, símbolo xintoísta que também é símbolo deste blog) por onde todos são convidados a adentrar neste jardim de reflexões, surgem seis deuses, seis mitos, seis grandiosos símbolos entalhados em menires de pedra, arrastados sabe-se lá de onde até a longa planície de grama verde a saudar o sol. E são eles:


Ganesha
Representando a atividade intelectual, a razão conectada ao Cosmos, a busca pela filosofia e pela ciência livres de ideias preconcebidas, a fé irmanada à razão, o crer para compreender e o compreender para crer.

Yeshua
Representando o grande sábio, e não algum messias que veio sangrar por nossos supostos pecados. O maior exemplo de amor, compaixão e comunhão com o Cosmos que nossa mitologia registrou. O sol que atravessou invicto a noite escura de todas as almas.

Iemanjá
Representando o sentir além do que se é capaz de racionalizar, a beleza e a fecundidade dos mares e de todos os seres femininos, a poesia abrangente a nos cercar como uma ilha de náufragos é cercada pelo mar.

Gandalf
Representando a magia, o ocultismo e o grande chamado do Infinito para que sigamos sempre em busca do próximo horizonte. A aventura derradeira, a primeira aventura, a aventura sem fim. Os seres de cima que vem trabalhar nos territórios de baixo.

La Santa Muerte
Representando a transitoriedade e impermanência, a embarcação que mais dia menos dia atracará no porto de cada alma, e que deve ser aguardada conforme os estoicos recomendaram. O renascimento vindouro, e a possibilidade de que uma nova vida, e um novo pensamento, surjam sempre.

Maitreya
Representando a grande renovação espiritual que todos ansiamos sempre. O chegar para buscar e o buscar para chegar. As crianças que não vem de nós, mas através de nós, na ânsia da vida por si mesma. O novo que, a despeito dos conservadores e aqueles de mente fechada, sempre virá.


Jogue, represente, interprete, brinque: play a myth

Obs: está série irá continuar, com imagens de outros mitos, apenas os próximos não farão parte deste grupo de patronos acima.

***

[1] João 10:34; João 14:12 (NT).

[2] Eu espero que, a essa altura, você compreenda perfeitamente que eu não estou a criar uma estranha religião politeísta, mas apenas agregando simbologia a um blog.

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