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14.8.18

Amigo de Mago (Reflexões no YouTube)

Nesta primeira edição especial (Special Edition - SE) do Colossi Estúdio Gráfico em parceria com o nosso canal, iremos falar de dragões-fada imaginários, de sistemas modernos de espátulas e de servidores astrais, não necessariamente nessa ordem. Eu gostaria de poder falar mais, mas não quero dar maiores spoilers... Assistam por sua conta e risco!

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


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3.4.18

Viviane Mosé fala sobre a sociedade em rede

Ontem tive o privilégio de ver ao vivo, na Câmara Municipal de Campo Grande/MS, a palestra do maior pensador vivo do país, que por acaso é uma mulher, e se chama Viviane Mosé.

Iniciando seu discurso há 100 mil anos, desde o surgimento da consciência humana, passando pela descoberta de nossa mortalidade, pela agricultura e pela invenção de imprensa, Mosé chega enfim a grande revolução de nosso tempo, a internet, com todo o seu potencial maravilhoso e todas as suas revelações monstruosas de nós mesmos: uma sociedade deprimida em busca de algum rumo, em geral dominada pelos discursos fáceis, radicais, mas que tem a sua frente a imensa tarefa de aprender a viver em rede, a educar e ser educada, e a abandonar uma visão excessivamente racional da vida em prol de uma presença emocional, aqui e agora...

Tudo isso tentou falar a filósofa e poetisa de um fôlego só. Estejam preparados, não é vídeo para se ver sem prestar atenção. Se trata de um verdadeiro vendaval filosófico:

Obs.: Ela começa a falar em 00:14:50. Infelizmente o Facebook não permite inserção de tempo inicial num vídeo compartilhado desta forma.


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2.3.15

O garoto de ouro da internet

“Eu sinto fortemente que não é suficiente simplesmente viver no mundo como ele é e fazer o que os adultos disseram que você deve fazer, ou o que a sociedade diz que você deve fazer. Eu acredito que você deve sempre estar se questionando. Eu levo muito a sério essa atitude científica de que tudo o que você aprende é provisório, tudo é aberto ao questionamento e à refutação. O mesmo se aplica à sociedade. Eu cresci e através de um lento processo percebi que o discurso de que nada pode ser mudado e que as coisas são naturalmente como são é falso. Elas não são naturais. As coisas podem ser mudadas. E mais importante: há coisas que são erradas e devem ser mudadas. Depois que percebi isso, não havia como voltar atrás. Eu não poderia me enganar e dizer: “Ok, agora vou trabalhar para uma empresa”. Depois que percebi que havia problemas fundamentais que eu poderia enfrentar, eu não podia mais esquecer disso.”

Aaron Swartz contava 22 anos de vida quando conseguiu resumir, com as palavras acima, o seu objetivo de vida. Parecem palavras de um sujeito um tanto experiente não? De fato, nesta idade Aaron já era considerado um expert em sua área.

Desde os 14 anos, ele trabalhava criando ferramentas, programas e organizações na Web. E, de algum modo, em algum momento, quem usa a rede foi beneficiado por algo que ele fez. Por exemplo, ele participou da criação do RSS (que nos permite receber atualizações do conteúdo de sites e blogs de que gostamos), do Reddit (plataforma aberta em que se pode votar em histórias e discussões importantes), e do Creative Commons (licença que libera conteúdos sem a cobrança de alguns direitos por parte dos autores). Mas não só. A grande luta de Aaron, como fica explícito no depoimento acima, era uma luta política: ele queria mudar o mundo e acreditava que era possível.

Aaron ajudou a criar o Watchdog, website que permite a criação de petições públicas; a Open Library, espécie de biblioteca universal, com o objetivo de ter uma página na web para cada livro já publicado no mundo; e o Demand Progress, plataforma para obter conquistas em políticas públicas para pessoas comuns, através de campanhas online, e o contato com congressistas e advocacia em causas coletivas. Em 2008, lançou um manifesto no qual dizia: “A informação é poder. Mas tal como acontece com todo o poder, há aqueles que querem guardá-lo para si”.

Indignado com a passividade dos acadêmicos diante do controle da informação por grandes corporações, ele conclamava a todos para lutar juntos contra o que chamava de “privatização do conhecimento”. Baixou milhões de arquivos do judiciário americano, cujo acesso era cobrado, apesar de os documentos serem públicos. Chegou a ser investigado pelo FBI, mas sem consequências jurídicas. Em 2011, porém, Aaron foi alcançado.

Em alguns dias, ele baixou 4,8 milhões de artigos acadêmicos de um banco de dados chamado JSTOR, cujo acesso é pago pelas universidades e instituições. Aaron usou a rede do conceituado MIT (Massachusets Institute of Technology) para acessar o banco de dados, fazendo download de muitos documentos ao mesmo tempo, o que era – é importante ressaltar – permitido pelo sistema. Não se sabe o que ele faria com os documentos, possivelmente dar-lhes livre acesso. Mas, se era esta a intenção, Aaron não chegou a concretizá-la. Ao ser flagrado, ele assegurou que não pretendia lucrar com o ato e devolveu os arquivos copiados para o JSTOR, que extinguiu a ação judicial no plano civil.

Havia, porém, um processo penal: Aaron foi enquadrado nos crimes de fraude eletrônica e obtenção ilegal de informações, entre outros delitos. Aaron seria julgado em Abril de 2013. Se fosse acatado o pedido da acusação, esta seria a sua punição: 35 anos de prisão e uma multa de 1 milhão de dólares.

O julgamento, entretanto, nunca ocorreu. Em 11/01/2013 Aaron foi encontrado morto em seu apartamento em Nova York, aos 26 anos. A causa mais provável é o suicídio... Há argumentos de que ele sofria de depressão, mas não há como deixar de considerar que o que o levou a morte foi, direta ou indiretamente, a grande perseguição que sofreu das forças da estagnação.

“O mundo é roubado em meio século de todas as coisas que nós nem podemos imaginar que Aaron realizaria com o resto da sua vida”, declarou Kevin Poulsen em artigo da Wired Magazine. Para o mundo da computação, da colaboração, do livre pensamento e do compartilhamento do conhecimento que é produzido para toda a humanidade, particularmente o científico, a perda de Aaron, mais um dos que vieram da Mansão do Amanhã, é irreparável...


Esta história triste, porém vital para a compreensão do nosso século e do advento da chamada "era da informação", é narrada de forma brilhante no documentário abaixo, The Internet's Own Boy, com legendas em português. Recomendamos enormemente que tirem cerca de 2 horas para vê-lo com a mente aberta e tranquila:

Aaron está morto. Andarilhos deste mundo louco, nós perdemos um mentor, um sábio ancião. Hackers do bem, hoje somos um a menos. Educadores, instigadores, cuidadores, ouvintes, todos os pais aí fora, nós perdemos um filho. Deixemos que as lágrimas escorram. (Tim Barners-Lee, 11/01/13)

***

Crédito da imagem: Google Image Search/Divulgação

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12.10.14

El Partido de la Red

A democracia que temos está aprisionada: é míope, ordena suas prioridades de forma equivocada, tem a sua largura de banda limitada (Manifesto de la Red)


Desde seu surgimento na Grécia antiga, onde os próprios cidadãos decidiam as ações do Estado, a democracia passou por tantas reviravoltas e atualizações que hoje um filósofo daquela época mal a reconheceria. É verdade que hoje não há mais escravidão, e que mulheres também podem votar, mas por outro lado nossas cidades-estado cresceram tanto que a única forma que encontramos de continuar consultando os anseios do povo foi instaurando a democracia representativa, onde certos candidatos são eleitos para nos representar em tais decisões. Assim, teoricamente, somente os mais bem preparados e sábios dentre nós deveriam ser eleitos para nos representar. Estaria tudo certo, contanto que o sistema eleitoral fosse capaz de dar oportunidade aos mais bem preparados e sábios concorrerem nas eleições. Como bem sabemos, isso não é mais o que ocorre hoje em dia...

Teoricamente nossas eleições deveriam ser um embate de ideias e de propostas, baseadas sobretudo em ideologias. Mas, na prática, o que ocorre hoje em dia está muito longe disso. Se tomarmos o segundo turno das eleições de 2014 para a presidência do país, por exemplo, não temos exatamente um embate de ideologias opostas (embora há muitos que ainda creiam nisso, e considero que devemos respeitar sua inocência, para que o sonho não morra), mas sim uma disputa de poder onde está em jogo muito, muito dinheiro. Não importa se um partido de "esquerda" se alia, de última hora, ao partido opositor de "centro-direita" em troca de certos ministérios; pois o partido que disputa a reeleição, apesar de se declarar de "esquerda", também só se encontra em seu posto devido a negociação de inúmeros ministérios com os partidos de "direita" da base aliada. Onde ficou a ideologia nesse Grande Negócio Eleitoral? Ficou na cartilha dos marqueteiros, que usam os milhões doados por grandes empresas (muitas das quais doaram a ambos os partidos, o opositor e o que disputa a reeleição) para suas superproduções do "horário eleitoral gratuito".

Conforme bem analisou Lawrence Lessig em sua reflexão sobre o sistema eleitoral dos EUA, "Há um forte sentimento de inevitabilidade, de que não temos o que fazer para mudar tudo isso". Mas foi o próprio jurista que, em sua histórica palestra no TED, apontou um caminho para a mudança: tirar o "dinheiro grande" das eleições, para que o povo possa voltar a decidir, de fato, entre os candidatos mais bem preparados e sábios. Obviamente que esta reforma não é algo que se dê da noite para o dia, mas é uma reforma cada vez mais necessária, pois no fim das contas a única outra opção será uma revolução - e na revolução, como bem sabemos, há muito mais mortes e violência, além de ser um processo de estabilização lenta e incerta.

Porém, ainda que o "dinheiro grande" fosse retirado das eleições, ainda não haveriam garantias suficientes que ele não pudesse ser usado para corromper os candidatos mais bem preparados e sábios que foram eleitos. Pois também já vimos inúmeros exemplos de boas pessoas que, de um jeito ou de outro, se viram obrigadas a jogar o Grande Negócio Eleitoral uma vez eleitas. A solução seria fiscalizar mais de perto tais candidatos, em cada passo, em cada decisão, em cada votação... Isto sim seria a semente de uma nova democracia, uma forma de, ironicamente, voltarmos as origens gregas, e realmente participarmos diretamente das decisões dos nossos representantes eleitos.

É precisamente isso que pretende o Partido de la Red, um partido político argentino que surgiu há poucos anos, fruto da experiência fracassada de tentar convencer aos políticos tradicionais de vincular suas decisões a votações específicas de um aplicativo para tablets e smartphones, intitulado DemocraciaOS. Conforme a oferta foi inicialmente recusada, os argentinos desbravadores de uma nova era decidiram fundar o seu próprio partido, onde cada deputado eleito se compromete a votar de acordo com a decisão da maioria dos votos no aplicativo. É claro que não é uma ideia completa, imune a hacks de todos os tipos, mas é um novo caminho, uma luz no fim do túnel.

Para saber mais sobre esta ideia preciosa, vejam a palestra de Pia Mancini, uma das fundadoras do Partido de la Red, no TED Rio recém realizado em Outubro de 2014 (com legendas em português):

***

Veja também:

» x dólares, 1 voto (a palestra de Lawrence Lessig)

» Interregno de eras

» Primavera Brasilis

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18.8.14

Conectados, parte final

« continuando da parte 5

Não seja escravo do seu passado. Mergulhe em mares grandiosos, vá bem fundo e nade até bem longe, e voltará com respeito por si mesmo, com um novo vigor, com uma experiência a mais que explicará e superará a anterior. (Ralph Waldo Emerson)


Pensamentos libertos

Era uma manhã mais fria que o habitual de Janeiro de 2008, e Idoya, uma macaquinha de não mais que 5,5kg e 80cm de altura, era o primata no centro das atenções de um enorme grupo de outros primatas espremidos num laboratório da Universidade de Duke, em Durham (Carolina do Norte/EUA). Com fotógrafos e repórteres do New York Times documentando cada momento da preparação, Idoya foi gentilmente colocada pelos pesquisadores numa esteira hidráulica. Vários cabos conectavam neurochips implantados meses antes em seu cérebro a um eletroencefalograma e inúmeros computadores. Na parede imediatamente a sua frente, a simpática macaquinha já podia ver imagens de alta definição das pernas de um CB-1, um robô humanoide de 90kg e 1,5m suspenso no ar em um outro laboratório científico do outro lado do planeta – mais precisamente em Kyoto (Japão).

Era um momento histórico, ou pelo menos era o que torcia Miguel Nicolelis, neurocientista brasileiro pioneiro nos estudos mais aprofundados das interfaces cérebro máquina (ICMs). Nas últimas décadas, Nicolelis havia passado por um longo e penoso caminho, bem ao modo dos grandes pioneiros da ciência: com muitos e muitos erros, muitas e muitas tentativas, e apenas alguns acertos aqui e ali... Mas, felizmente, a qualidade dos acertos suplantou em muito a quantidade de erros; e naquele dia, se tudo corresse bem, todos presenciariam um “pequeno milagre” ocorrer diante de seus olhos.

A esteira começou a rodar, e Idoya prontamente começou a caminhar. Não se tratava de trabalho escravo: a macaquinha adorava caminhar um pouco, pois sabia que os outros primatas sempre a recompensavam com deliciosas uvas-passas e biscoitos, de modo que nem os flashes dos fotógrafos a deixaram tímida naquele dia. Nos computadores, um programa de computador com um algoritmo especialmente criado para tal experiência começava a extrair os comandos motores específicos do movimento das pernas de Idoya, filtrados de uma verdadeira avalanche cerebral.

Em Kyoto, o CB-1 começava a caminhar em pleno ar, seguindo os comandos elétricos do cérebro da macaquinha, que precisavam atravessar o planeta até o Japão e retornar como um feedback visual em cerca de 250ms (pois as reações conscientes operam numa janela de até meio segundo, ou 500ms). Mas isso não era tudo. Chegava a vez da simpática macaquinha fazer o seu “pequeno passeio pela lua” (a little moonwalk), uma alusão de Nicolelis a importância do experimento – um pequeno passo para Idoya, um grande passo para todos os primatas... “Ao meu sinal, desligue a esteira... Ok, agora!”

Enquanto a esteira parava, fazendo com que a macaquinha assumisse uma postura semiereta e imóvel, todos os primatas em Durham fixaram os olhos no monitor que exibia o robô em Kyoto. Até Idoya parecia intrigada, pois continuou a olhar atentamente para as imagens à sua frente. Talvez ela realmente quisesse provar algo, pois tudo o que puderam observar do Japão era aquele distinto robô humanoide andando e andando, suspenso no ar, seguindo as instruções detalhadas que continuavam a brotar de algum canto do cérebro de Idoya. Conforme o próprio Nicolelis relatou em seu livro [1]: “Cada passo finamente esculpido, apenas algumas centenas de milisegundos antes, pelo sopro de vida elétrico que emergia, quase como presente divino, de um radiante, embora agora liberto, cérebro de primata.”

Até os primeiros dias do século 21, o mero fato de pessoas conseguirem se comunicar instantaneamente por todo o globo, através de chats na Web, já parecia um grande avanço tecnológico. Algumas mentes afortunadas já podiam mesmo antever o advento dos smartphones, dos tablets, dos chats por vídeo, da TV on demand, etc. Porém, eram poucos, pouquíssimos, que já no início deste século puderam vislumbrar uma era onde nossa tecnologia permitirá que comandemos computadores microscópicos embutidos em todo o tipo de equipamento, automóvel ou eletrodoméstico, e até mesmo dentro de nosso próprio corpo, sem que seja necessário mover um dedo, um único músculo!

Com o avanço das ICMs, os computadores poderão ler o baile elétrico que ocorre em nosso cérebro quando “imaginamos um movimento”, ainda que este movimento nem chegue a ser executado por membros e músculos de nosso corpo. De fato, com um entendimento mais completo de como funciona o nosso cérebro, talvez seja possível uma interface ainda mais direta, onde a separação entre o corpo e o dispositivo que ele “pilota” deixe de ser clara. O nosso “cérebro liberto” poderia, desta forma, incorporar (literalmente) em robôs exploradores das fossas submarinas deste planeta, ou do solo avermelhado de Marte. Mas, para a maior parte de nós, o mais provável é que passemos a viver, cada vez mais, imersos nos ambientes virtuais... De fato, talvez neste tempo o próprio termo – “virtual” – deixe de fazer qualquer sentido.

Em seu livro, Nicolelis chamou a ideia de “brainet” (a Web do cérebro):

“Nossa interação com sistemas operacionais e programas específicos de nossos computadores pessoais se transformaria num claro exemplo de simbiose virtual, uma vez que nossa atividade elétrica cerebral seria utilizada diretamente para capturar objetos virtuais e, eventualmente, utilizar um novo meio de comunicação, uma verdadeira rede cerebral, a “brainet”, como gosto de chamá-la, um considerável upgrade das redes sociais, que nos permitiria, literalmente, trocar ideias com milhões de outros cérebros navegantes. O fato de empresas como Intel, Google e Microsoft já terem criado suas divisões de interface cérebro-máquina indica claramente que esta ideia não é tão exótica quanto pode parecer à primeira vista.

[...] No futuro, o que hoje soa como inimaginável se tornará rotina, pois o ser humano, com suas faculdades mentais amplificadas, certamente terá acesso a uma variedade de ambientes remotos e até mesmo inóspitos, através de emissários que tomarão o formato de ferramentas artificiais sofisticadas, robôs humanoides e até mesmo virtuais, todos controlados única e exclusivamente pelo pensamento de seu mestre.”

Imaginem um cenário onde todo e qualquer pensamento irradiado por uma mente humana pode não somente influenciar, como ser influenciado por outro pensamento. Imaginem uma imensa rede de pensamentos interligados, se conectando e entrecruzando uns com os outros. Imaginem os pensamentos mais potentes, com maior penetração sobre as mentes alheias, lentamente galgando degraus numa “lista de tópicos” global. Imaginem um grupo enorme de mentes reunidas em torno dos pensamentos e sonhos mais celebrados, os alimentando e os tornando cada vez mais enraizados nos alicerces desta verdadeira teia global que, em verdade, une todas as consciências humanas... Imaginaram?

Agora me digam, com sinceridade, será que estávamos imaginando algo que surgirá num futuro tecnológico, ou algo que não somente existe neste momento, como tem existido desde os primórdios da humanidade?

Em seu livro A essência da realidade, o físico israelense David Deutsch afirma que “tudo o que experimentamos diretamente não passa de uma construção virtual, convenientemente gerada para nosso usufruto, por nossa mente inconsciente, a partir de dados sensoriais somados a complexas teorias adquiridas e congênitas sobre como interpretar novas informações”. Ora, se a vida sempre foi uma construção virtual, porque exatamente a “brainet” de Nicolelis seria algo essencialmente novo? Diferente, certamente – novidade, de forma alguma!

Desde que nos reuníamos em torno da fogueira no centro da tribo, após mais um dia de caça extenuante, e ouvíamos as histórias dos homens e mulheres que contemplavam as estrelas e diziam se comunicar com espíritos, temos construído, em nossas mentes, em nossos mundos internos, reais ou virtuais (tanto faz), os sonhos mais iluminados, os pesadelos mais macabros, os mitos mais transcendentes. De lá para cá nossas lanças e machadinhas se tornaram ferramentas muitíssimo mais elaboradas, mas que continuam sendo tão somente ferramentas. Um computador, afinal, serve para computar, da mesma forma que uma machadinha serve para cortar – quem utiliza as ferramentas, quem esculpe e interpreta o mundo, real ou virtual (tanto faz), somos nós, os humanos, os que despertaram.

Dessa forma, de nada adiantará nos deslumbramos com o avanço de nossa tecnologia, de nos conectarmos numa “brainet” global, se neste processo continuarmos a nos desconectar de nossa essência mais profunda, que aí sempre esteve a quem teve olhos para ver. Antes da Web, antes da teia global de computadores, nós já formávamos uma rede, e já estávamos conectados, como ainda estamos, a Alma de tudo o que há.

***

[1] Fiz o que pude para resumir da melhor forma possível a descrição do experimento de Idoya conforme consta em Muito além do nosso eu (Cia. das Letras). Se quer um estudo mais minucioso (e abrangente) do assunto abordado, não deixe de ler a obra. O artigo ainda trará outros trechos do mesmo livro.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Miguel Nicolelis); [ao longo] Heather Layton/Nagaland

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13.8.14

Conectados, parte 5

« continuando da parte 4

Avatar, no mundo online, é uma figura digital, um alter ego de uma pessoa real, que pode ser representado em duas ou três dimensões, e ter praticamente qualquer forma permitida pela plataforma onde foi criado – ao limite da imaginação de cada um.


Sem pausas

Como vimos, o ser humano tem sido muito hábil em fazer uso de todo o tipo de tecnologia disponível para aprimorar sua forma de comunicação com os demais. Quando tudo o que tínhamos eram sinais de fumaça, ainda assim eles foram preciosos para que tribos se comunicassem a quilômetros de distância umas das outras. Após a invenção da escrita, passamos a deixar mensagens e discursos para a posteridade, de modo que até hoje podemos nos comunicar, de alguma forma, com a Atenas de Sócrates, assim como com a vida de tantos outros pensadores e escritores da antiguidade.

Mas foi somente com o advento da telefonia móvel e, particularmente, da Web, que tivemos acesso a uma outra magnitude em nossas comunicações. A interação online foi um dos grandes trunfos da internet desde a sua criação, e o que antes era usado para troca de informações entre militares e pesquisadores acadêmicos, acabou por se tornar uma imensa rede que hoje conecta, direta ou indiretamente, a maior parte da humanidade.

Porém, como vínhamos dizendo, a avassaladora quantidade de informação disponível no mundo online requer que nos tornemos, cada vez mais, exímios pescadores, com o bom senso e a sabedoria para podermos filtrar as informações relevantes das irrelevantes. E, se isto vale para as notícias, as revistas, os livros e os filmes em geral, da mesma forma, vale também para a nossa vida social na rede.

Zygmunt Bauman é um célebre sociólogo polonês que vive e leciona há décadas na Inglaterra. Perto dos seus 90 anos, ele não parece, a primeira vista, o tipo de pensador que teria muito a dizer sobre o Facebook... No entanto, as aparências enganam:

“Um entusiasta do Facebook gabou-se para mim de que havia feito 500 amigos em um dia. Minha resposta foi que eu vivi por quase 90 anos, mas não tenho 500 amigos. Eu não consegui isso. Então, provavelmente, quando ele diz “amigo”, e eu digo “amigo”, não queremos dizer a mesma coisa. São coisas diferentes.

Quando eu era jovem, eu nunca tive o conceito de “redes”. Eu tinha o conceito de laços humanos, de comunidades, esse tipo de coisa, mas não redes. Qual é a diferença entre comunidade e rede? A comunidade precede você. Você nasce numa comunidade. Por outro lado, temos a rede. O que é uma rede? Ao contrário da comunidade, a rede é feita e mantida viva por duas atividades diferentes. Uma é conectar e a outra é desconectar.

E eu acho que a atratividade do novo tipo de amizade, o tipo de amizade do Facebook, como eu a chamo, está exatamente aí. Que é tão fácil de desconectar. É fácil conectar, fazer amigos. Mas o maior atrativo é a facilidade de se desconectar. Imagine que o que você tem não são amigos online, conexões online, compartilhamento online, mas conexões off-line, conexões de verdade, face a face, corpo a corpo, olho no olho.

Então, romper relações é sempre um evento muito traumático. Você tem que encontrar desculpas, você tem que explicar, você tem que mentir com frequência e, mesmo assim, você não se sente seguro porque seu parceiro diz que você não tem direitos, que você é um porco, etc. É difícil, mas na internet é tão fácil, você só pressiona delete e pronto.

Em vez de 500 amigos, você terá 499, mas isso será apenas temporário, porque amanhã você terá outros 500... E isso mina os laços humanos.” [1]

A maior armadilha em que podemos cair na era digital é crer que o mundo virtual é aquele construído somente pelos pixels e os dados dos computadores em rede. Não, o mundo virtual é e sempre foi aquele que roda bem em nossa cabeça. O mundo é aquilo que imaginamos dele, e neste caso não importa tanto quantas interfaces, cenários virtuais e avatares digitais há na Web, pois que no fundo estamos conectados não somente a internet, mas a todo o mundo, a toda a Vida.

Querer viver somente no mundo online é tão somente abdicar de um mundo virtual complexo para um mundo virtual com a promessa de maior simplicidade. No entanto, isto é um tanto quanto ilusório, e no fim das contas a grande verdade é que há somente um único mundo – o mundo que você interpreta dentro de si mesmo.

Para além da superficialidade das amizades que se limitam ao mundo digital, e que nunca são transpostas para a complexidade do dito “mundo real”, uma das grandes iscas para aqueles que anseiam por “vidas mais simples” são os games.

Em um livro de título sugestivo, Como viver na era digital [2], Tom Chatfield aborda melhor o assunto:

“Tanto num game simples como Angry Birds, como num mundo virtual imersivo como World of Warcraft, temos exemplos de problemas tame (domesticado). Analisados pela primeira vez em 1973, pelos sociólogos Horst Rittel e Melvin Webber, os problemas tame incluem jogos como o xadrez e a maior parte dos problemas de matemática. São problemas nos quais a pessoa que está tentando resolvê-los tem todos os dados necessários à disposição e sabe desde o início que existe uma solução final ou alternativa vencedora.

Isto é o oposto dos problemas wicked (terríveis), que são problemas nos quais não existe uma maneira de expressar de forma clara a questão que está em jogo, nem algo como uma solução única ou definitiva. Cada problemas wicked é uma combinação única de circunstâncias, elas mesmas entrelaçadas a outros conjuntos de problemas, como por exemplo, a saúde financeira de uma grande empresa ou de um país, ou alguém tentando decidir qual a melhor maneira de administrar sua vida pessoal.

Deste ponto de vista, a vida em si é um problema wicked. Numa das piadas mais geniais da ficção científica, o escritor inglês Douglas Adams imaginou, em seu livro O guia do mochileiro das galáxias, um supercomputador capaz de responder à “Questão Fundamental da Vida, o Universo e Tudo o Mais”: um simples número, 42.

A piada reside na incoerência absurda entre o tipo de problema que pode ser respondido por um simples número e o tipo bem diferente de “problema” que a vida representa. A própria ideia de que a vida possui uma solução, da mesma forma que um jogo de xadrez, ou uma fase de Angry Birds, ou uma quest ou uma raid de World of Warcraft, é um divertido absurdo.”

De fato, mundo virtuais imersivos como o caso de World of Warcraft, onde milhões de jogadores interagem e se aventuram juntos há quase uma década, podem ser tão sedutores que a falta de um componente vital, o botão de pausa [3], pode ser letal... Em 2007, um chinês deitou sua cabeça no teclado de seu computador e morreu, após haver jogado Warcraft por três dias seguidos, sem dormir e, provavelmente, sem comer ou se hidratar adequadamente. E este não foi nem o primeiro nem o último caso de “jogar até a morte” [4]...

Talvez sejam necessários tais exemplos extremos para que nos demos conta de que, embora em muitos games online não exista um botão de pausa, há sempre a possibilidade de simplesmente largar o teclado ou o controle e, quem sabe, simplesmente ir até aquele café perto de casa, para tomar um expresso, ver pessoas em movimento, ouvir passarinhos cantando e contemplar o baile das nuvens.

Pode não haver, afinal, um botão de pausa para a vida. Mas, por outro lado, somos nós, e somente nós, os grandes responsáveis por determinar com que velocidade, com que qualidade, com que nível de angústia, ela é vivida. De nada adianta se esconder dos problemas complexos da vida, mesmo que sejamos os melhores estilingadores de pássaros do nosso grupo de amigos virtuais, e ainda que todo um servidor de World of Warcraft nos idolatre como “o grande mestre da arena”, isto por si só jamais irá afastar os problemas terríveis da existência; eles ainda o encontrarão, pois estão, essencialmente, dentro de você mesmo...

Devemos aprender a olhar para dentro, e conhecer a grande imensidão de nosso mundo virtual interior; e então, quem sabe, encarar a toda a complexidade da vida de frente, face a face, como grandes aventureiros de nós mesmos. E com isto não quero dizer que exista a esperança de transformar os problemas wicked em tame – pelo contrário, o que devemos é compreender e aceitar o quão terrivelmente vasta, complexa, profunda e interconectada pode ser a Vida, sem pausas!

» Em seguida, a grande rede de pensamentos libertos...

***

[1] Transcrito de uma entrevista concedida em sua casa para o programa Café Filosófico (TV Cultura).

[2] Parte do projeto The School of Life de Alain de Botton. Lançado no Brasil pela Editora Objetiva. A transcrição do texto do livro foi ligeiramente adaptada para facilitar a compreensão do trecho em questão.

[3] Games online não podem ser pausados, já que em sua simulação há inúmeros jogadores simultâneos. Seria o mesmo que pausarmos uma sessão de cinema para dar um pulo no banheiro –os demais cinéfilos da sessão certamente não ficariam muito satisfeitos.

[4] Ver, por exemplo, Jovem morre após jogar Diablo 3 durante 40 horas seguidas.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Zygmunt Buman); [ao longo] Divulgação/Rovio (Angry Birds)

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11.8.14

Conectados, parte 3

« continuando da parte 2

Placebo: se origina do latim placeo, placere, que significa agradar. Entende-se efeito placebo como a melhoria dos sintomas e/ou funções fisiológicas do organismo em resposta a fatores inespecíficos e aparentemente inertes (sugestão verbal ou visual, comprimidos inertes, cirurgia fictícia, etc.)


A arte de se estourar bolhas

Em 1970, Linus Pauling, célebre bioquímico americano, ganhador tanto do Nobel de Química quanto do Nobel da Paz, lançou um livro chamado Vitamin C and the Common Cold (A Vitamina C e o Resfriado Comum) que é até hoje o grande responsável pelo maior efeito placebo da história [1]. Pela tese de Pauling, a ingestão de altas doses diárias de vitamina C seria responsável não somente pelo tratamento de resfriados, como pela manutenção de uma “boa saúde” geral do organismo.

Somente em 1986 o professor A. Stewart Truswell, da Universidade de Sidney, publicou o resultado de 27 experimentos para validar a tese de Pauling, alguns realizados desde o início da década de 1970, e chegou a conclusão de que a ingestão de vitamina C, particularmente em altas doses (mais de 500mg/dia), não tinha nenhum efeito considerável no tratamento dos sintomas da gripe, tampouco na redução de sua duração. No entanto, 16 anos após o lançamento do livro de Pauling, a Indústria Farmacêutica já havia consolidado um mercado lucrativo com base nela – como era de se esperar, até hoje há inúmeros comerciais na TV falando sobre como a vitamina C auxilia a tratar resfriados...

Se até hoje você, como eu, toma vitamina C quando está com gripe, ainda que saiba que ela não tem efeito científico comprovado, é porque está tirando vantagem do efeito placebo para “convencer a sua mente” de que ela é um agente de cura. Neste caso, “crer na cura”, como já dizia Hipócrates, pode ser parte importante de um tratamento bem sucedido. Até hoje a ciência mal faz ideia do que é exatamente o efeito placebo [2], mas ele nos deixa ao menos uma importante lição – nós definitivamente somos, em maior ou menor grau, sugestionáveis.

Recentemente, um estudo científico publicado na revista da Academia Nacional de Ciências dos EUA provocou rebuliço no mundo online. Os pesquisadores se valeram do Facebook, provavelmente a maior rede social do mundo nos dias de hoje, para tentar comprovar como o que lemos em nosso próprio feed de notícias [3] pode afetar positivamente ou negativamente o nosso humor e estado de espírito em geral [4].

O estudo analisou 689.003 usuários (dentre os que usam o Facebook em inglês) cujos feeds foram propositalmente alterados para mostrar posts mais positivos ou negativos de seus amigos. O resultado? Quando o usuário via mais posts positivos em seu feed, escrevia mais comentários positivos. Quando via mais posts negativos, escrevia mais comentários negativos... A comunidade online se indignou principalmente pela invasão de privacidade deste tipo de pesquisa, já que ninguém soube que estava sendo “testado”. Entretanto, o que a pesquisa demonstrou é que, apesar de em menor escala, somos sugestionáveis também nas redes sociais. Ou, noutras palavras, a nossa dieta de informação define, muitas vezes, uma parte considerável do nosso estado de espírito.

Há algo próprio da chamada Web 2.0 que é ainda muito, muito mais grave do que a influência das notícias que os seus amigos postam no Facebook. Ocorre que nesta nova era da Web, a maior parte dos sites também se tornaram serviços e, desta forma, requerem que você se cadastre neles para os utilizar. Mas o cadastro é somente o primeiro passo. Em sites de compras como a Amazon, por exemplo, cada uma das suas compras passadas (e até mesmo cada item à venda pelo qual você já navegou um dia dentro da Amazon) pode servir de “base de dados” para lhe trazer sugestões sobre “o que comprar a seguir”.

No caso das compras, isto geralmente é bem anunciado nos termos de adesão do site, e ainda que 99% das pessoas jamais leia esses termos, fica até mesmo óbvio que suas compras passadas estão servindo de guia para os anúncios do site. No caso das redes sociais, particularmente do Facebook, nem sempre é fácil notar o que está sendo feito dos seus dados nos bastidores...

Um dos conceitos que foram vitais para o sucesso prolongado do Facebook é algo aparentemente muito simples: um botão, um botão de curtir (ou like button, em inglês).

Ora, computadores não podem ler sua mente, mas podem ler cada um dos cliques no botão de curtir que você deu, desde que começou a usar o Facebook. Com isso, o servidor consegue saber quais são os amigos e as páginas que você mais gosta dentro da rede social, e assim criar um filtro customizado para o seu feed de notícias. Aquela menina que posta fotos de biquíni quase toda semana, e que você sempre curte? Está no topo da lista do seu feed. Aquele amigo chato da época de colégio que só posta vídeos de música clássica, e que você nunca curtiu sequer uma vez? Está na lista dos excluídos do seu feed, e ainda que você continue amigo dele, em meio aos seus quase 500 amigos, a chance de ver qualquer postagem dele é ínfima, senão zero.

O que este tipo de atividade cria, na prática, são bolhas de conteúdo dentro do seu Facebook. De modo que, se um dia você finalmente arrumar um namoro sério, é bem provável que a sua namorada ache um tanto estranho o seu feed onde aparecerão diversas fotos de sua amiga de biquíni (dica: não mostre o seu feed a ela). E, da mesma forma, se um dia você por acaso ver Gustavo Dudamel regendo uma orquestra enquanto trocava de canal na TV a cabo, será um tanto improvável que fique uns minutinhos por lá e aprenda a apreciar música clássica, pois aqueles posts do seu amigo de infância nunca mais apareceram para você.

O que é mais nocivo nesta era das bolhas de conteúdo, no entanto, é que com o tempo, se você não tomar cuidado com o que anda curtindo em seu Facebook, é bem capaz de seu feed de notícias trazer tão somente as notícias de quem concorda com suas posições ideológicas, ou de quem gosta do mesmo tipo de música que você, ou vê os mesmos filmes e lê os mesmos livros.

No taoísmo, a filosofia da China antiga, aprendemos que os opostos são necessários para que nos tornemos aptos a enxergar o caminho do meio. Se formos analisar as ideologias políticas conforme o editor da Superinteressante [5], os esquerdistas extremos creem que a fonte de todo o bem é o Estado, enquanto que os direitistas extremos creem que esta fonte é o Mercado. Não é difícil perceber como um, na verdade, precisa do outro – um Mercado sem a regulação do Estado pode enveredar para um capitalismo tão consumista que extinguirá os recursos naturais necessários para a manutenção da humanidade na Terra; já um Estado que trancafie o Mercado numa prisão de burocracias sem fim fará com que a economia do país definhe, ferindo primeiramente os mais pobres, exatamente aqueles que gostaria de auxiliar.

Aos que conseguem transitar pelos extremos, aos que são capazes de enxergar os dois lados da moeda, está até mesmo óbvio que não há uma fonte única de bem absoluto, assim como tampouco há uma fonte de mal absoluto – o que há são ideias opostas, e a arte da Política consiste exatamente em se chegar a consensos que são capazes de atender os anseios da maioria, ao mesmo tempo em que levam em consideração as opiniões da minoria (sem a oprimir, sem a ridicularizar, sem a censurar).

Não é tão difícil assim de entender. No entanto, se nos últimos anos tudo o que você têm visto no seu feed de notícias do Facebook são opiniões radicais à favor de somente um lado, é bem capaz de você, como ser sugestionável que é, cair na falácia do “8 ou 80” (ou uma ideia está totalmente certa, ou totalmente errada), e demonizar um dos lados, enquanto crê que a sua forma de pensar é “evidentemente a mais correta, já que todos os meus amigos concordam”.

É preciso tomar cuidado, muito cuidado, com este tipo de “pensamento encapsulado em bolhas”, pois foi com ideias muito parecidas que os regimes mais autoritários e sanguinários da história política foram implementados. A Web precisa ser livre, realmente livre, e não somente mais uma sucursal das agências de marketing das multinacionais, ou das “ideologias enlatadas” do Grande Negócio Eleitoral.

De vez em quando, clique também no botão de curtir de uma ideia que não concorde, mas que esteja bem elaborada. De vez em quando, pratique a arte de se estourar bolhas... Lembre-se de que, assim como todos os demais seres humanos, você também pode estar errado.

» Em seguida, Aaron, o homem do amanhã...

***

[1] Saiba mais no artigo (em inglês) Vitamin C: Do High Doses Prevent Colds?, por Charles W. Marshall, Ph.D.

[2] Veja também o nosso artigo Placebo-Nocebo.

[3] Uma lista onde aparecem as publicações de nossos amigos e das páginas que seguimos no Facebook.

[4] Saiba mais no artigo Nossas Emoções Estão Surgindo em Bolhas Criadas Pelo Facebook, por Derek Mead.

[5] Denis Russo Burgierman. Não deixe de conferir o seu excelente artigo sobre o tema, A maldição do esquerdo-direitismo.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Linus Pauling em sua fazenda, em meados da década de 1980); [ao longo] Google Image Search.

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8.8.14

Conectados, parte 2

« continuando da parte 1

Informação, segundo uma interpretação antiga, é “o ato de dar forma a mente”; segundo uma interpretação moderna, é “qualquer evento que afeta o estado de um sistema dinâmico”.


A grande pescaria

“Tu, como pai da escrita, esperas dela com o teu entusiasmo precisamente o contrário do que ela pode fazer. Tal coisa tornará os homens esquecidos, pois deixarão de cultivar a memória; confiando apenas nos livros escritos, só se lembrarão de um assunto exteriormente e por meio de sinais, e não em si mesmos. Logo, tu não inventaste um auxiliar para a memória, mas apenas para a recordação. Transmites aos teus alunos uma aparência de sabedoria, e não a verdade, pois eles recebem muitas informações sem instrução e se consideram homens de grande saber, embora sejam ignorantes na maior parte dos assuntos. Em consequência, serão desagradáveis companheiros, tornar-se-ão sábios imaginários ao invés de verdadeiros sábios.”

Segundo Sócrates, conforme descrito no Fedro de Platão [1], é esta a repreensão que Amon, rei dos deuses egípcios e representante da força criadora da vida, impõe a Toth, o antigo deus do conhecimento e da magia, assim que fica sabendo que este ensinaria aos homens mortais a arte da escrita. Não obstante, como sabemos, a humanidade acabou ganhando tal presente (e, se não fosse através de Toth, haveria de ser através dos tantos outros deuses, de diversas outras culturas e mitologias, associados a escrita e ao conhecimento).

Mas o filósofo grego não parecia convencido de que aquele era realmente algum ganho para as pessoas:

“O uso da escrita, Fedro, tem um inconveniente que se assemelha à pintura. Também as figuras pintadas têm a atitude de pessoas vivas, mas se alguém as interrogar conservar-se-ão gravemente caladas. O mesmo sucede com os discursos. Falam das coisas como se as conhecessem, mas quando alguém quer informar-se sobre qualquer ponto do assunto exposto, eles se limitam a repetir sempre a mesma coisa. Uma vez escrito, um discurso sai a vagar por toda parte, não só entre os conhecedores, mas também entre os que o não entendem, e nunca se pode dizer para quem serve e para quem não serve. Quando é desprezado ou injustamente censurado, necessita do auxílio do pai, pois não é capaz de defender-se nem de se proteger por si.”

Para Sócrates, a disseminação dos discursos escritos, ainda que da autoria dos filósofos mais sábios, seria um enorme perigo, pois lhe parecia óbvio que o autor não poderia comparecer a todo e qualquer local onde ele era lido ou debatido, de modo que, se alguém não o compreendesse, ou pior, se alguém mal intencionado o utilizasse para os seus próprios propósitos, subvertendo a ideia original, o autor nada poderia fazer para evitar. A luz da Grécia tinha razão e antecipou muito do que vimos nos últimos milênios desde o surgimento da escrita, mas por outro lado ele bem sabia que não havia o que fazer: o conhecimento e a tecnologia jamais andam para trás.

Se houvesse sobrevivido aos séculos como o mito em torno de sua pessoa, Sócrates talvez encontrasse um certo consolo no advento da Web e, mais precisamente, da Web 2.0.

Segundo o próprio Tim Barners-Lee, o termo carece de sentido, pois a Web atual usa componentes tecnológicos surgidos antes mesmo da sua criação, mas o fato é que nome pegou: Web 2.0 é um termo popularizado a partir de 2004 pela empresa americana O’Reilly Media para designar uma segunda geração de comunidades e serviços, tendo como conceito “a Web como plataforma”, envolvendo wikis, redes sociais e sites que prestam serviços.

O que deveria agradar Sócrates não é exatamente a vasta quantidade de informação da Wikipedia, ou o número de piadas infames que se lê nas redes sociais todo santo dia, mas sim a capacidade de qualquer cidadão criar um blog e publicar seus textos e discursos numa plataforma que pode ser acessada e lida virtualmente por qualquer pessoa do mundo com acesso a Web; e não são poucas!

A princípio, poderíamos pensar que este seria apenas o pesadelo sobre o qual Amon alertou a Toth elevado a enormes potências, pois os discursos seriam lidos por tanta gente que seria inviável para o autor defender suas ideias o tempo todo. Isto é um ponto, mas ocorre que na Web 2.0 os navegantes não apenas consomem informação, mas a produzem... No caso dos blogs, nada impede que eles comentem abaixo dos textos (se o blog permitir, é claro) e dialoguem diretamente com o autor. Neste caso, o autor continua podendo defender seus discursos. Menos mal...

A questão é que chegamos então a um problema ainda mais intrigante: se todo e qualquer cidadão pode criar um blog e publicar seus textos, como faremos para saber quais os blogs que merecem ser lidos?

Ao contrário do que possa parecer, esta questão da “relevância da informação” não é nova. De fato, no próprio Fedro, o filósofo com olhos de touro já citava o assunto – vejamos o trecho onde Fedro indaga se Sócrates não estaria sendo muito duro com a atividade da escrita:

“Mas, Sócrates, estás comparando com divertimentos vulgares a belíssima atividade de um homem que se deleita em escrever discursos sobre a justiça e as outras virtudes!

É verdade, meu caro Fedro! Mas acho muito mais bela a discussão dessas coisas quando alguém semeia palavras de acordo com a arte dialética [2], depois de ter encontrado uma alma digna para recebê-las; quando esse alguém planta discursos que são frutos da razão, que são capazes de defender por si mesmos e ao seu cultivador, discursos que não são estéreis mas que contém dentro de si sementes que produzem outras sementes em outras almas, permitindo assim que elas se tornem imortais. Aos que as levam consigo, tais sementes proporcionam a maior felicidade que é dado ao homem possuir.

Na verdade, isso é muito mais belo – concluí Fedro.”

Em última instância, a função da filosofia é proporcionar ao homem o contato com tal felicidade. Após o contato, todo filósofo pleno dessa felicidade não terá objetivo mais recompensador do que o de passar tal conhecimento adiante, de modo a que outros também possam alcançar a felicidade. Se há “filósofos” que não fazem isso, é porque nunca alcançaram esta sabedoria; e não exatamente porque creem que a filosofia deva ser uma forma de sofrimento intelectual, ou um conjunto de sistemas e regras do pensar, que servem mais para confundir a mente do que aplainá-la.

E, assim como na filosofia, em todas as demais artes há sempre a possibilidade de nos depararmos com discursos que tocam diretamente a nossa essência, e que nos fazem dialogar com nós mesmos, e nos conhecer cada vez mais. Sócrates e Amon não estavam, desta forma, condenando toda a forma de escrita, toda a forma de discurso, mas apenas a maioria deles, os irrelevantes, os que nada têm de importante a dizer para nossa alma.

Se é verdade que hoje a Web é um grande mar de irrelevância, não é verdade que isto, por si só, seja motivo para nos desanimar em nossa jornada atrás de conhecimento. Pelo contrário, hoje não precisamos mais consumir somente a informação que nos chega pelos grandes afluentes da mídia, hoje podemos também, tal qual exímios pescadores, atirar nossas redes também nos pequenos córregos e riachos, e buscar por pequeninas pérolas que passam por lá – esta é a grande pescaria da era digital.

Mas, para que aprendamos a reconhecer tais joias, é preciso navegar também adentro, e descobrir que tais pedras nascem todas de uma mesma montanha; que se eleva tão, tão alto, que quase eclipsa o próprio sol.

É precisamente lá, no topo desta grande pedra, além das ideias de certo e errado, que os blogueiros da alma se encontram...

» Em seguida, a era das bolhas...

***

[1] Veja outros trechos em O discurso da alma. A tradução do grego é de Alex Marins (Ed. Martin Claret).

[2] A arte de, no diálogo, demonstrar uma tese por meio de uma argumentação capaz de definir e distinguir claramente os conceitos envolvidos na discussão.

Crédito da foto: Wilhelm von Gloeden (Sócrates na fonte)

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7.8.14

Conectados, parte 1

Internet é um sistema global de redes de computadores interligadas que conectam atualmente vários bilhões de usuários no mundo inteiro. É uma rede de várias outras redes, que consiste de milhões de empresas privadas, públicas, acadêmicas e de governo, com alcance local e global.


A teia global

Em 1997 o então presidente francês, Jacques Chirac, dizia tais palavras com todo o orgulho: “Hoje um francês em Aubervilliers sabe perfeitamente como checar sua conta de banco, dentro de sua própria casa, com o seu Minitel. O mesmo poderia ser dito de um americano em sua casa em Nova York?” [1]

Podemos desculpá-lo por crer, naquela época, que o Minitel duraria para sempre. Era o seu auge, com nove milhões de aparelhos instalados gratuitamente em casas pelo país, além dos aparelhos originais ainda presentes nas agências de correios. Cerca de 25 milhões de franceses assinavam a plataforma para acessar cerca de 26 mil tipos diferentes de serviços.

Como devem imaginar, não muito tempo após, todos os franceses estariam acessando suas contas de banco online, em seus computadores pessoais, através da internet. Em 2012 o Minitel Online, que tanto orgulho havia dado aos franceses, encerrava suas atividades após 30 anos. Hoje a internet é uma rede muitíssimo mais vasta que o Minitel jamais foi, mas em 1982 ele era tecnologia de ponta!

No início da década de 1980, os franceses ficaram maravilhados com aquela pequena tela meio arredondada, conectada a um teclado, que podia ser utilizada para coisas inimagináveis até então, como checar sua conta de banco, reservar passagens aéreas, marcar encontros com outros usuários e, quando foram distribuídos nas casas, até mesmo ver pornografia online!

“O fracasso do Minitel não se deveu a tecnologia,” – afirma Benjamin Beyart, dono do primeiro provedor de internet francês, o French Data Network – “foi o modelo implementado que causou sua derrocada. Basicamente, para deixar um serviço disponível no Minitel, você tinha de pedir permissão a France Telecom, que controlava todo o sistema. Você tinha de convencer os sujeitos antigos se quisesse inovar, e eles não sabiam absolutamente nada sobre inovação. Eles acreditavam que nada de novo poderia surgir após o Minitel. Eles foram extremamente inovadores entre 1978 e 1982, e depois se mantiveram estagnados.”

Outros, porém, foram menos críticos. Valerie Schafer, coautor do livro France's Digital Childhood (A Infância Digital Francesa), o defende e diz que “é injusto chamar o Minitel de antiquado. As pessoas se esquecem que muitas das ideias que ajudaram a formar a internet foram testadas primeiramente num desses terminais. Pensem sobre a forma de pagamento das assinaturas, não tão diferente da appstore da Apple. Pensem sobre os fóruns onde as pessoas debatiam, geravam conteúdo e até marcavam encontros... O mundo online definitivamente não começou com a internet.”

Tim Barners-Lee, cientista da computação e físico britânico, chamado por alguns de “o pai da internet”, tampouco a criou a partir do zero. Na verdade a ideia genial e revolucionária de Tim foi unir a internet e o hipertexto. Com isto, ele não criou a internet, mas sim a “teia mundial” de computadores; ou, como é mais conhecida em inglês, a World Wide Web (WWW).

As origens da internet remontam a uma pesquisa encomendada pelo governo dos Estados Unidos na década de 1960 para construir uma forma de comunicação robusta e sem falhas através de redes de computadores. Embora este trabalho, juntamente com projetos no Reino Unido e na França, tenha levado a criação de redes precursoras importantes, ele não criou a internet. Não há consenso sobre a data exata em que a internet moderna surgiu, mas foi em algum momento em meados da década de 1980.

Já o hipertexto nada mais é do que o conceito de que certos termos, palavras, imagens ou outras formas de mídia podem conter links e associações para outros termos, palavras, imagens ou outras formas de mídia. Ou seja, conjuntos de informação que possuem links que nos levam a ainda outros conjuntos de informação, num processo que pode se estender quase ao infinito, ou pelo menos a muito mais informação do que um ser humano é capaz de absorver em sua vida.

Em 1990, quando trabalhava no CERN em Genebra, na Suíça, Tim criou o protótipo de um navegador para rodar em computadores da NeXT, companhia fundada em 1985 por Steve Jobs. Ele acreditava que seria possível interligar hipertextos em computadores diferentes com o uso de links globais, também chamados de hiperlinks. Ele desenvolveu um software próprio e um protocolo para recuperar hipertextos, denominado HTTP. O formato de texto que criou para o HTTP foi chamado de HTML.

O primeiro site foi construído no CERN e foi posto online em 6 de agosto de 1991. Info.cern.ch foi o endereço do primeiro site e servidor web da história, rodando em um computador NeXT no CERN. A primeira página web foi http://info.cern.ch/hypertext/WWW/TheProject.html [2], centrada em informações sobre o projeto WWW. Visitantes poderiam aprender mais sobre hipertexto, detalhes técnicos para a criação de seu próprio site e até mesmo ler uma explicação sobre como pesquisar na Web para obter informações.

Até aquele dia, a humanidade havia desenvolvido inúmeras formas de troca de informações, desde os sinais de fumaça aos primeiros pergaminhos, desde o telégrafo e o rádio as transmissões de TV via satélite; mas naquele dia estava lançada a semente da Web, um local virtual onde as pessoas poderiam não somente consumir informação, mas interagir com ela. Um local onde a informação não somente trafegava e se perdia, mas poderia ser armazenada, potencialmente, para sempre. E não somente na França, mas em todo o globo. E não somente para o benefício de uma ou outra companhia ou multinacional... Graças a generosidade de Tim, a Web havia sido criada para toda a humanidade.

» Em seguida, de Toth a Web 2.0...

***

[1] Todas as citações foram retiradas ou adaptadas do artigo Minitel: The rise and fall of the France-wide web, por Hugh Schofield para a BBC News.

[2] Sim, esta página está até hoje online.

Crédito das imagens: [topo] computerhistory.org (anúncio de um dos serviços eróticos do Minitel); [ao longo] Google Image Search (Tim Barners-Lee na época da criação da WWW)

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2.1.14

O ano em que virei editora

É claro que todo escritor sonha em publicar um livro, mas até cerca de um ano atrás tudo o que havia conseguido publicar era um livro com tiragem quase “caseira”, vendido sobretudo entre familiares e amigos, e alguns outros livros de RPG, contos, poemas e artigos antigos deste blog, todos disponibilizados diretamente como PDF para download.

Há cerca de um ano atrás, porém, eu estava angustiado e esperançoso ao mesmo tempo. Angustiado por ter de finalizar meu livro, Ad infinitum, que vinha sendo escrito há cerca de 3 anos, e esperançoso por crer que, após seu lançamento, eu finalmente me veria livre daquele fardo, e poderia me dedicar somente ao blog e aos videogames novamente.

É claro que todo escritor fica feliz e aliviado ao ter seu livro publicado, mas até cerca de um ano atrás eu mal poderia imaginar que, após Ad infinitum, ainda viriam 11 outros livros, a grande maioria de outros autores.

Foi “quase sem querer” que tudo ocorreu... Após haver autopublicado meu livro em formato impresso, através do Clube de Autores, estava eu folheando uma revista na banca de jornais próxima da minha casa quando soube, através de uma matéria de meia página, que a Amazon não somente havia recém chegado no Brasil com o seu leitor de livros digitais, o Kindle, como já era possível a autopublicação de ebooks através do serviço Kindle Direct Publishing.

Como já era cliente da Amazon há muitos anos (inclusive tendo ganhado boas comissões através da venda de livros de RPG através de um site antigo que mantive no final da década de 90), fui testar o serviço... A princípio, bastava enviar um arquivo Word relativamente bem diagramado, uma capa e uma descrição, escolher o preço final de venda, que a Amazon publicava e vendia a obra. O autor ainda ficaria com entre 35% a 70% do valor das vendas – algo imensamente superior aos 5% a 10% do mercado impresso.

Na prática, não era assim tão simples. O arquivo Word do Ad infinitum que enviei não resultou em um ebook que me agradasse, e como sou “relativamente perfeccionista”, precisei estudar um pouco melhor acerca da arte da diagramação de livros digitais... Para minha surpresa, descobri que em seu estado mais essencial, um ebook nada mais é do que html, a mesma linguagem de código que monta as páginas da web, e a mesma linguagem com a qual trabalho profissionalmente há quase uma década!

Apesar de não ter sido algo tão trivial, consegui aprender a montar um epub, que é o formato de livro digital mais utilizado no mundo todo. Com isso, o caminho estava aberto para autopublicação não somente na Amazon, mas também na Kobo, que também havia recém-chegado ao país, em parceria com a Livraria Cultura [1].

Até aqui, tudo certo: ter um livro disponível em impresso e em versão digital, sendo vendido na grande Amazon, já era uma conquista e tanto para quem, até poucos meses antes, não sabia nem se ou quando exatamente conseguiria finalizar o tal livro... Mas isto ainda era somente o início – foi navegando pelas listas de mais vendidos da Amazon brasileira que me deparei com algo bastante intrigante...

Eu não pude deixar de notar que havia diversos livros digitais de Fernando Pessoa com preços muito diferentes uns dos outros. Enquanto muitos eram vendidos a cerca de 15 ou 20 reais, o que seria um preço comum para ebooks, outros custavam 5 reais ou até menos do que isso, e não pareciam dever em nada, na qualidade da capa e da diagramação, aos demais.

Quando fui me informar melhor sobre essa disparidade de preços, acabei compreendendo o que se passava. Ocorre que Fernando Pessoa morreu em 1935, de modo que em 2005, 70 anos após sua partida, toda a sua obra entrou definitivamente em domínio público no mundo todo. Isto significa, dentre outras coisas, que qualquer um pode editar seus livros como bem entender, sem dever nenhum centavo de direitos autorais aos antigos detentores de seus direitos de publicação.

Ora, isto também significava que eu mesmo poderia publicar minha própria antologia da poesia e da prosa do grande poeta português. E foi exatamente o que fiz a seguir, daí nascendo o ebook Navegar é preciso, que até hoje é muito bem sucedido em vendas, principalmente na Amazon.

Mal podia suspeitar, há um ano atrás, que me tornaria não somente um escritor publicado na Amazon, mas um editor, um tradutor e, porque não, uma editora!

Após Pessoa, que não necessitava de tradução alguma, fui atrás dos melhores autores e livros que li na vida, buscando a viabilidade da autopublicação dos mesmos. Com isso, logo na sequência encontrei uma rara tradução de Friedrich Nietzsche que já se encontrava em domínio público e, com a ajuda de meu amigo Frater Sinésio, que ajudou na revisão do texto, publiquei o célebre Assim falou Zaratustra pelo preço de um café expresso (ou menos) na Amazon Brasil. Até hoje, é de longe o ebook mais vendido das Edições Textos para Reflexão, sendo que raramente sai da lista dos 100 mais vendidos.

Depois, entre traduções e edições, algumas com a estimada ajuda de Sinésio, ainda consegui publicar mais 9 livros digitais durante o ano, atingindo uma média totalmente inesperada de 1 livro por mês. Embora nenhum deles tenha atingido o sucesso de vendas dos dois anteriores, há muitos que também se destacaram.

Porém, independente das vendas, que são realmente muito bem vindas, o que mais importa é que isto se tornou também um hobby extremamente prazeroso. Claro que também dá um bom trabalho (neste ano joguei muito pouco videogame), mas é um trabalho bastante recompensador – não exatamente pelos reais que caem na minha conta de banco, mas pela possibilidade de iniciar, quem sabe, algumas centenas de pessoas, em sua maioria jovens, em alguns dos maiores textos da humanidade...

Eu não estou brincando, eu realmente fui muito cuidadoso na seleção dos livros. “Cuidadoso” talvez não fosse a melhor palavra... Intuitivo, quem sabe? É que não fiz grandes planos de publicação, e fui publicando meio que conforme o coração mandava. Por exemplo, eu certamente não publicaria Nietzsche antes de Lao Tse ou Gibran, se fosse seguir minha lista de preferências, mas o fato de haver publicado Nietzsche antes dos demais foi de vital importância para o estabelecimento das vendas dos livros que vieram após, já que o livro de Nietzsche passou a anunciar a editora e, consequentemente, os demais lançamentos.

Outra questão interessante e não planejada (pelo menos, conscientemente) é a relação que existe entre os livros e seus autores. Já havia um conto em Navegar é preciso em que Pessoa mencionava Epicuro, que por sua vez também já fora alvo das críticas apaixonadas do grande filósofo alemão. Também há autores que destacam a proximidade de algumas ideias de Pessoa com as de Nietzsche que, por sua vez, foi um dos influenciadores de Khalil Gibran. A Arte da Guerra é um clássico que, sem dúvida, deve muito de suas ideias a outro ainda mais antigo, o Tao Te Ching, que por sua vez ainda influenciou parte dos conceitos de A Voz do Silêncio, de H. P. Blavatsky – que também foi traduzido para o português por ninguém menos que... Fernando Pessoa!

Mesmo Jalal ud-Din Rumi bebe da mesma fonte do gnosticismo presente nos Evangelhos de Tomé e Maria, que por sua vez também ecoa no Profeta de Gibran... Enfim, são mesmo muitas relações inesperadas entre estes poucos livros.

Portanto, eu me despeço do ano que passou com o mesmo espírito e o mesmo entusiasmo com que abraço o ano que chega... Sem tanto planejar mas, antes de mais nada, agradecer. Agradecer imensamente pela oportunidade de melhorar um pouco toda esta vizinhança, não exatamente através das minhas palavras, mas através dos dizeres de tantos gigantes de outrora. Pensamentos que já me ajudaram muito nesta vida, mas que nunca poderia imaginar que seriam publicados por mim.

É, sem dúvida, uma honra (não mais um fardo)... Espero que gostem do percurso, e que seus dias, e nossos dias, permaneçam sendo sempre este Ano Novo perene, elaborado e sustentado por tantas reflexões vindas do Alto.

02/01/2014

Rafael Arrais (autor/tradutor/editor)

***

[1] O serviço de autopublicação da Kobo se chama Kobo Writing Life (KWL). Além dele e do Kindle Direct Publishing (KDP), ainda publico hoje através do Publique-se da Livraria Saraiva. Infelizmente os serviços de autopublicação da Google e da Apple ainda não estão disponíveis para alguém residente no Brasil. Para maiores detalhes acerca do mundo da autopublicação, recomendo o site Revolução eBook.

Crédito da imagem: Joel "Boy Wonder" Robinson

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6.8.13

Um poderoso vendaval

Stormur, do islandês: um poderoso vendaval, capaz de modificar tudo o que se encontra em seu caminho...

Assim é também a capacidade criativa e artística desta banda islandesa, Sigur Rós, dona de uma música quase alienígena.

Neste novo projeto interativo, eles se valem da recém implementada característica do Instagram, uma famosa rede social de compartilhamento de fotos, que agora também permite o compartilhamento de vídeos curtos (15 segundos).

O Sigur Rós pediu que seus fãs ouvissem a música Stormur e, inspirados por ela, gravassem vídeos com seus celulares e os postassem no Instagram com a tag #stormur. Então está montado o vídeo interativo: cada vez que o vemos, estaremos vendo vídeos novos, enviados de todas as partes do mundo.

Existe a música contemporânea. E existe Sigur Rós:

(clique na imagem para ver stormur)


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3.7.13

Como sobreviver numa arena

Em 1999, o mais novo lançamento do mundo dos games de tiro com visão em primeira pessoa (first person shooter ou, pela sigla, FPS) era o Quake III Arena, um jogo brutal em que jogadores do mundo todo jogam online numa arena de guerra onde dois grupos de guerrilheiros (armados com armas de fogo futuristas e extremamente letais) duelam até que um dos grupos tenha sido inteiramente exterminado. Quando isto acontece, todos os mortos retornam a vida e começa um novo duelo, e assim por diante...

Uma das inovações do game, segundo a desenvolvedora (Id Software), era a suposta “nova inteligência artificial” dos bots no jogo. Um bot (abreviação de robot) é uma aplicação de software concebida para simular ações humanas repetidas vezes de maneira padrão, da mesma forma como faria um robô. Durante o jogo, os personagens da arena controlados pelo computador (ou seja, não controlados por jogadores reais e humanos) supostamente observariam o estilo de luta dos demais jogadores, humanos ou bots, na medida em que a simulação das arenas de batalha transcorresse.

Com o tempo, seriam capazes de “pensar” em novas táticas, efetivamente se adaptando as táticas que mais venciam combates, e ignorando as táticas ineficazes para a sua sobrevivência, pois ganha o combate o grupo que sobrevive ao final [1]. Para que a inteligência artificial dos bots pudesse se desenvolver mais profundamente, entretanto, os servidores do jogo deveriam permanecer online, simulando centenas ou milhares de batalhas, por muito tempo a fio. E isto era inviável para os servidores oficiais do game, que precisam passar por manutenção semanal.

De acordo com um misterioso tópico de um fórum online (hospedado no 4Chan), em 2007 um jogador configurou um servidor pirata local do game (ou seja, hospedado em sua própria casa) para rodar indefinidamente simulações de arenas de combate entre 16 bots, sem nenhum ser humano a interagir com eles. Ocorre que este jogador esqueceu completamente do que havia feito, e como em sua casa os computadores ficavam sempre ligados, como servidores locais, a simulação rodou por longos quatro anos, até que em 2011 ele finalmente se lembrou dela!

Cada um dos 16 bots da simulação havia gerado 512 MB de informações táticas aprimoradas por centenas de milhares de partidas letais. Eram 8 GB de informações. O que elas teriam gerado? Atiradores infalíveis? Coordenação perfeita e robótica para matar da forma mais eficiente possível? O jogador resolveu entrar na simulação para ver quanto tempo seria capaz de sobreviver...

Então, para sua surpresa, ele observou que os 15 bots (ele estava jogando como o décimo sexto) nada faziam, apenas olhavam para ele e o seguiam onde quer que fosse. Não pareciam mais duelistas letais, mas antes pacifistas em busca de um sentido para estarem vagueando indefinidamente por uma arena de batalha. Aparentemente, em alguns anos de simulação, a inteligência artificial dos bots chegou a melhor estratégia para a sobrevivência: ninguém morre quando ninguém mata.

A Teoria dos Jogos é um ramo da matemática aplicada que estuda situações estratégicas onde jogadores escolhem diferentes ações na tentativa de melhorar o resultado, ou seja, o retorno de suas escolhas. Inicialmente desenvolvida como ferramenta para compreender comportamento econômico e depois usada pela Corporação RAND para definir estratégias nucleares, a Teoria dos Jogos é hoje usada em diversos campos acadêmicos.

Podemos ilustrá-la de forma simples e direta com o chamado “dilema do prisioneiro”, originalmente formulado por funcionários da RAND:

Dois suspeitos, A e B, são presos pela polícia. A polícia tem provas insuficientes para sua condenação; mas, separando os prisioneiros, oferece a ambos o mesmo acordo: se um dos prisioneiros, confessando, testemunhar contra o outro e esse outro permanecer em silêncio, o que confessou sai livre enquanto o cúmplice silencioso cumpre 10 anos de sentença. Se ambos ficarem em silêncio, a polícia só pode condená-los há 6 meses de cadeia cada um. Se ambos traírem o comparsa, cada um leva 5 anos de cadeia. Cada prisioneiro faz a sua decisão sem saber que decisão o outro vai tomar, e nenhum tem certeza da decisão do outro. A questão que o dilema propõe é: o que vai acontecer? Como o prisioneiro vai reagir?

No “dilema do prisioneiro”, temos uma situação onde o altruísmo e a confiança mútua oferece o melhor resultado final para ambos os jogadores. No entanto, isto não ocorre sem o risco de se ficar calado, confiando em seu parceiro, e ao fim ser traído por ele, e receber em retorno o pior resultado. De certa forma, a Teoria dos Jogos e o “dilema do prisioneiro” se aplicam não somente a economia e as relações de poder entre potências nucleares, mas também a uma partida de Quake III Arena... Será mesmo?

Retornando ao experimento insólito do início do artigo, o jogador resolveu “ver o que acontecia se atirasse em algum outro bot”. Para sua surpresa, ao fazer isso, ele foi atacado (e morto) não somente pelos 8 bots do outro time, como pelos 7 outros bots de sua própria equipe!

Ou pelo menos foi isto que a imagem com capturas de tela do suposto tópico do 4Chan dizia. Muitos sites de games compartilharam a notícia, e ela obteve certa fama também nas redes sociais. No entanto, como muitos podem ter imaginado, era tudo um hoax, ou seja, uma história inventada, como tantas outras que vemos nestes tempos de propagação desenfreada da informação.

Porém, ainda que não tenha ocorrido de verdade, ainda que os 16 bots com suas inteligências artificiais sejam incapazes de interpretar o resultado de suas ações (já que são ferramentas de computação, e não seres de interpretação), esta história ainda nos toca numa questão primordial: ela foi espalhada como algo verossímil, extremamente verossímil.

Penso que muitos de nós têm esta certa queda por acreditar que uma simulação computacional possa, de alguma forma incompreensível, chegar a conclusões que, no fundo, são as nossas própria conclusões, mas que não temos a vontade, ou a coragem, de coloca-las em prática.

Afinal, não se enganem: o bot do game mais avançado do ano que vem não será mais nem menos ferramenta do que um martelo ou uma bomba nuclear. Não é o martelo que mata ou constrói coisas, é quem o empunha. Não foi o material radioativo, e nem mesmo os físicos que descobriram a fissão nuclear quem arrasaram Hiroshima, foram aqueles que deram a ordem: “soltem a bomba”...

Somos, desta forma, todos prisioneiros desta enorme simulação chamada “mundo”, e só sairemos desta prisão de mãos dadas – todos serão livres somente quando não houver mais nenhum prisioneiro.

***

[1] Isto não deixa de ser uma forma de programação genética.

Crédito das imagens: [topo] Quake III Arena (captura de tela); [ao longo] Adrianna Williams/Corbis

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7.2.13

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29.1.13

O software angélico que roda no eixo do mundo, parte final

« continuando da parte 2

Eu tendo a pensar o Paganismo como um tipo de alfabeto, de linguagem. É como se todos os deuses fossem letras dessa linguagem. Elas expressam nuances, sombras de uma espécie de significado ou certa sutileza de ideias, enquanto o Monoteísmo é só uma vogal, onde tudo está reduzido a uma simples nota, e quem a emite nem sequer a entende (Alan Moore).

“Watson derrota a humanidade”
Essa foi uma das manchetes para a vitória de Watson, um computador que ganhou dos melhores competidores que a raça humana tinha disponível no Jeopardy!, um jogo de perguntas e respostas da TV americana. Como seus concorrentes humanos, Watson não estava ligado à internet. Tudo o que ele tinha à disposição era uma memória de 15 mil gigabytes com alguns milhões de textos arquivados e uma capacidade de processamento equivalente à de 2.800 micros caseiros. Um computadorzão bem programado, só isso.
Os cérebros humanos por trás são tão importantes que o próprio Watson errou questões por bobeira de programação. Um dos deslizes: perguntaram qual categoria da elite do automobilismo tem o nome de uma tecla de computador. "F-1" era a resposta. Qualquer batedeira tem capacidade de processamento para cruzar uma lista de nomes de teclas com uma de categorias de corridas. Mas a coisa mais próxima que Watson tinha para dizer era "Nascar". Falha dele? Não, dos programadores - a Fórmula 1 é solenemente ignorada nos EUA.
O erro nessas horas é imaginar que as máquinas são uma espécie à parte. Computadores são só alicates e martelos mais complexos. E quando você marreta o dedo não é culpa da natureza do martelo, mas sua, que não soube "programar" a martelada. A vida é melhor com martelos. Com supercomputadores também [1].
O que os bons observadores constatam, portanto, é que não existe nem existirá exatamente uma inteligência artificial, mas apenas uma ferramenta que é a extensão de alguma inteligência natural, que a programou. Computadores somente computam informação, mas são os seres que as interpretam, são os seres que as moldam em suas mentes, e as passam adiante, com uma nova forma e uma nova luz. E quem sabe disso, torna-se, nesta Criação, um cocriador.

Os muwakkals
Os sufis, místicos do Islã, dizem que assim como no corpo físico de um indivíduo muitos germes nascem e se desenvolvem como seres vivos, de forma análoga, existem também muitos seres no plano mental, chamados muwakkals ou elementais. Estes são entidades ainda mais etéreas nascidas do pensamento humano, e assim como os germes vivem no corpo humano, tais elementais sobrevivem de seus pensamentos. Segundo os místicos do Islã, o homem muitas vezes imagina que seus pensamentos não têm vida; ele não percebe que eles são mais vivos do que os germes físicos, e que eles também passam por nascimento, infância, juventude, velhice e morte. Eles trabalham contra ou a favor dos homens de acordo com sua natureza. Os sufis afirmam que os criam, elaboram e controlam. Um sufi os repete e os educa através de sua vida; ele forma seu exército e subjuga seus desejos.
Para os descrentes, a possibilidade de que nossa mente possa criar “pensamentos vivos”, e os educar para que sigam adiante com vidas próprias, pode parecer algo mais próximo do pensamento mágico do que da ciência. Mas, se procurarem saber o que Richard Dawkins, apóstolo do ateísmo, descreveu tão bem em sua obra prima, O gene egoísta, chegarão a um conceito muito próximo dos muwakkals sufi – apenas Dawkins os chamou de memes.
Sejam o que for, entretanto, estamos aqui analisando a possibilidade lógica de que seres possam ser criados “com algum grau de perfeição” do nada, sem passar por evolução alguma. Sejam robôs com inteligência artificial, sejam memes, sejam muwakkals, todos estes são candidatos, mas absolutamente nenhum deles é realmente capaz de se enquadrar no que buscamos. Pois o que buscamos, de fato, não existe: uma ferramenta, um computador, um algoritmo, um pensamento vivo – todos são tão somente extensões da mente que os criou em primeiro lugar, e não seres que evoluem por conta própria. No fim, um robô será sempre um robô.

O Grande Desconhecido
Conforme já dissemos, muitas mitos de criação das mais diversas e antigas culturas humanas falam de um “deus obscuro e ocioso”, que criou tudo o que há, inclusive os demais deuses, e depois se retirou. Olorun, afinal, não aceita oferendas, pois já possuí todas as oferendas do Cosmos, pois que é o próprio Cosmos, e estamos neste momento, como em todos os outros, encharcados por sua substância divina. No Evangelho de Tomé, Jesus também diz que o Reino de Deus se encontra espalhado pela Terra, mas os homens não o veem. No taoismo, o Tao é aquela substância “anterior ao Soberano do Céu”, um “vazio” que a tudo preenche, profundo e inesgotável. Benedito Espinosa a chamou de “a substância que não poderia haver criado a si mesma”. Mesmo o cristão de religiosidade mais superficial a conhece como algum elemento estranho chamado de Espírito Santo...
Mas e qual é o santo, iogue, rabi ou guru, que pode bater no peito e bradar: “Eu sei o que é Deus”? E, ainda que saiba, será mesmo que qualquer outra mente, qualquer outra máquina de interpretar a realidade, poderá chegar exatamente a mesma concepção? Como saber de que forma seu amante lhe ama? Como saber de que forma uma pessoa sente dor?
Para criar uma torta de maçã a partir do nada, antes seria preciso criar todo o universo... Para compreender exatamente como outro ser sente, ama ou sofre, antes seria preciso ser todo o universo.
Seria preciso conhecer o Grande Desconhecido, o Inefável, o Inalcançável, como ele mesmo se conhece. E esta é a aventura, a jornada, o prazer de todo verdadeiro religioso: religar-se a Deus.

O software angélico que roda no eixo do mundo
Tendemos a ver o xamanismo, o politeísmo e o paganismo em geral com certa desconfiança, particularmente no Ocidente. O que o monoteísmo sempre nos ensinou é que os pagãos são incapazes de perceber a mais básica das ideias: que tudo o que existe necessariamente surgiu de algo eterno e incriado, um Deus antes dos deuses... Entretanto, como já vimos, sempre existiram pagãos que sabiam perfeitamente disso, e devemos antes nos sentir orgulhosos destes sábios ancestrais, que muito antes dos hebreus já haviam chegado a tal concepção maravilhosa: a ideia de que há um Deus, uma substância ou ser incriado, anterior a tudo, causa primeira de tudo, o que se opõe ao nada... Aquele quem primeiro disse, quem sabe, “Eu sou”.
Como podemos ter alguma esperança de conhecer este Infinito? Ora, da mesma forma que temos esperança de um dia conhecer todas as leis da Natureza... A ciência nos ensinou, na verdade, uma lição que lhe era ainda muito anterior: separar o Infinito em pequenas partes, em aspectos e reflexos, para quem sabe um dia, estudando e compreendendo, amando e sentindo, uma a uma, cheguemos a uma compreensão melhor e mais profunda daquele Ser que tanto incomodou a Nietzsche: “Eu quero Te conhecer, Desconhecido” – disse o alemão quando ainda jovem, para uma plateia de jovens.
Assim como a ciência elaborou a Biologia, a Física, a Química ou a Neurologia, a mitologia elaborou o Soberano do Céu, Palas Atena, Hermes, Odin, Oxalá, e tantos outros deuses (e orixás) que são tão somente pequenas partes do Uno, aspectos do Infinito... Os deuses são o alfabeto com o qual a mente humana é capaz de reencenar, neste mundo objetivo, os fatos subjetivos de sua própria alma. Toda a mitologia é uma encenação da alma humana, toda a mitologia diz respeito a você: “Você venceu o seu monstro interior? Você morreu para seu lado animal, para renascer, três dias depois, como um novo ser?”.
Mas, seja este Grande Desconhecido quem for, talvez tenha tanta necessidade de nos amar, e reconhecer a si mesmo, através de nós, quanto nós temos esta necessidade ancestral de caminhar em sua direção – cada vez mais adentro. Nesta grande aventura, talvez também sejamos como o João no Pé de Feijão, que precisa escalar o axis mundi, e retornar com a galinha dos ovos de ouro... Ou talvez sejam precisas várias tarefas de Hércules, muitas e muitas aventuras, e inúmeras vidas.
Podemos então precisar de aliados, pois a longa jornada por vezes vai além de nossas capacidades humanas... E se o Grande Desconhecido não pode se revelar ainda, se é ainda muito arriscado que o vejamos face a face, sem estarmos amadurecidos para tal momento, quem sabe ele não nos ajude de outra forma?
Um software é uma sequência de instruções a serem seguidas e/ou executadas, na manipulação, redirecionamento ou modificação de uma informação ou acontecimento. Na mente divina existe tudo o que há, o Todo é mental. Na própria engenharia da realidade, ou mesmo no eixo que liga a Terra ao Céu, e o consciente ao inconsciente, pode sim haver um software rodando sem que o percebamos. Não fomos nós os programadores – os anjos podem ser robôs, portanto, mas robôs programados pelo Grande Arquiteto, o Programador dos programadores, o Deus dos deuses.
Eles são o Seu presente para esta grande aventura, e dizem que existem 72 deles a bailar pelo axis mundi. De vez em quando, um poeta vê uma de suas asas no céu, e de alguma forma sabe que não se trata apenas de um pássaro...

***

[1] O texto dos últimos 3 parágrafos foi retirado de um artigo de Pedro Burgos e Alexandre Versignassi para a revista Superinteressante, edição 290.

Crédito da imagem: Latajace

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