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15.8.18

Lançamento: Luz no Caminho

As Edições Textos para Reflexão desta vez trazem a você a obra-prima da teosofista Mabel Collins, Luz no Caminho.

Não foi por acaso, quem sabe, que o grande poeta português Fernando Pessoa escolheu a dedo esta preciosa obra para realizar sua primorosa tradução do inglês. Muitos devem saber que Pessoa foi um místico relutante, e a carta que trazemos na Introdução, endereçada ao seu amigo Sá-Carneiro, nos dá uma bela ideia de como os textos teosóficos o impactaram; e este, talvez mais do que todos os outros. Somente quem já deu seus primeiros passos no Caminho, quem anda devagar porque já teve pressa, quem traz um sorriso porque já chorou demais, poderá aproveitar completamente o teor deste pequeno mistério em forma de palavras.

Disponível em e-book na Amazon e na Saraiva:

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À seguir, trazemos os vídeos do canal Nova Acrópole no YouTube, onde a professora Lúcia Helena Galvão faz uma análise minuciosa desta obra inefável (até onde é possível explicá-la por palavras, é claro):

» Comentários dos degraus exotéricos, 1 a 7

» Comentários dos degraus exotéricos, 8 a 16

» Comentários dos degraus exotéricos, 17 a 21 + esotéricos 1 a 3

» Comentários dos degraus esotéricos, 4 a 12

» Comentários dos degraus esotéricos, 13 a 21 (FINAL)


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10.1.18

Lançamento: O Caibalion

As Edições Textos para Reflexão desta vez trazem a você o grande clássico do hermetismo moderno, O Caibalion.

Escrita e publicada no início do século 20 por estudantes anônimos do hermetismo, esta obra introdutória traz preceitos e axiomas do antigo hermetismo, comentados e explicados para uma nova era e um novo público. Publicado originalmente em inglês, nos EUA, este Caibalion é mesmo um fruto de nosso tempo, porém ele se refere a outro Caibalion, bem mais antigo e oculto, que se perdeu nos anais da história, mas que se encontra preservado nas mentes e nas almas de todos aqueles que não deixaram morrer a chama. Acaso deseje se tornar um jogador no jogo de tabuleiro da vida, e não mais mera peça a ser movida pelas circunstâncias e influências externas, este pequeno livro cheio de luz pode ser o seu guia nas noites mais escuras.

Disponível em e-book e versão impressa :

Comprar eBook (Kindle) Comprar livro impresso (Clube de Autores)

Se você mora fora do Brasil e deseja ter minha tradução impressa, também colocamos à venda uma versão impressa exclusiva na Amazon.com

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À seguir, trazemos um trecho do Cap. I – A Filosofia Hermética:

Nos primeiros tempos, havia uma compilação de algumas Doutrinas Herméticas Básicas, passadas de instrutor a estudante, que ficaram conhecidas como O Caibalion, cujo exato significado do termo esteve perdido por muitos séculos. Este ensinamento, entretanto, é conhecido por muitos seres ao qual ele foi derramado ao longo dos séculos, de lábios a ouvidos, sempre escoando pelo tempo. Até onde sabemos, os seus preceitos nunca foram escritos ou impressos. Se tratava de uma mera coleção de máximas, axiomas e preceitos, que soavam incompreensíveis aos estrangeiros das ordens, mas que eram prontamente assimilados pelos estudantes assim que o seu conteúdo era explicado e exemplificado pelos Iniciados aos seus Neófitos.

Tais ensinamentos constituíam de fato os princípios básicos da Arte da Alquimia Hermética, que, ao contrário da crença popular, se baseia no domínio das Forças Mentais, e não dos Elementos Materiais – portanto, a Alquimia não fala da transmutação de um tipo de metal em outro, mas da transmutação de um tipo de Vibração Mental em outra. As lendas acerca da Pedra Filosofal, que transformava qualquer metal comum em Ouro, falavam tão somente de uma alegoria relacionada à Filosofia Hermética, facilmente compreendida por quaisquer estudantes do verdadeiro Hermetismo.

Neste pequeno livro, cuja Primeira Lição é esta, nós convidamos nosso estudante a examinar os Ensinamentos Herméticos, conforme expostos no Caibalion e explicados por nós, humildes estudantes dos Ensinamentos (e que, apesar de carregarem o título de Iniciados, são tão somente estudantes prostrados aos pés de Hermes, o Mestre). Assim, nós lhe oferecemos muitas das máximas, dos axiomas e dos preceitos do Caibalion, acompanhados de explicações e comentários que acreditamos servir de auxílio para a compreensão do estudante moderno, particularmente porque o texto original se encontra propositalmente velado em muitos termos obscuros.

As máximas, axiomas e preceitos originais do Caibalion estarão sempre destacados em negrito no restante de nossa obra, e todos eles vêm diretamente dos lábios de Hermes. O restante do texto, sem destaque, pertence a nós. Esperamos que muitos dos estudantes aos quais nós hoje oferecemos esta pequena obra possam tirar tanto proveito do seu estudo e conhecimento quanto aqueles buscadores que já a seguiram através do Caminho do Adepto, ao longo dos muitos séculos que se passaram desde o tempo de Hermes Trimegisto, o Mestre dos Mestres, o Três Vezes Grande:

“Onde se encontram as pegadas do Mestre, os ouvidos daqueles preparados para os seus Ensinamentos se abrem completamente.” – O Caibalion

“Quando os ouvidos do estudante estão preparados para ouvir, logo vêm os lábios para preenchê-los de sabedoria.” – O Caibalion

Assim, conforme indicam os Ensinamentos, a divulgação desta obra se dará na medida em que os seus futuros estudantes se encontrarem em condições de compreendê-la, pois do contrário sequer lhe darão a atenção devida, e ela lhes passará desapercebida, como deve ser. E, segundo a mesma Lei, quando o pupilo estiver devidamente preparado para receber a verdade, então esta pequena obra dará um jeito de chegar ao seu conhecimento.

O Princípio Hermético de Causa e Efeito, em seu aspecto de Lei de Atração, tratará de juntar lábios e ouvidos – e muitos pupilos ainda hão de conhecer este livro.

Que Assim Seja!


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20.12.17

Traduzindo o hermetismo, parte 2

Continuamos trazendo os trechos iniciais da tradução de Rafael Arrais do Caibalion, que em breve será publicado em e-book e livro impresso.

« continuando da parte 1

De lábio a ouvido as verdades foram sendo passadas através dos séculos para os poucos caminhantes em condições de recebê-las. Sempre houve poucos iniciados em cada geração, nos mais variados territórios do planeta, que mantiveram vivo o fogo sagrado dos Ensinamentos Herméticos, e eles sempre estiveram a postos para se valer de suas reluzentes lamparinas para reacender as lamparinas acanhadas do mundo profano, sempre que a chama da verdade ameaçava esmaecer por conta da negligência de seus cuidadores, ou quando os pavios ficavam embebidos em estranhas substâncias. Sempre houve um punhado de seres dispostos a cuidar fielmente do altar da Verdade, sobre o qual foi posta a Lamparina Perpétua da Sabedoria. Tais seres devotaram suas vidas para a obra de amor que o poeta soube definir tão bem nestas linhas [Nota do Tradutor: trechos do poema de Edward Carpenter em Towards Democracy]:

Ó, não deixes a chama morrer!
Mantida era após era em sua escura caverna,
e tão bem cuidada nos templos sagrados
pelos puros ministros do amor...
Não, não deixes a chama morrer!

Tais seres jamais buscaram a aprovação popular, tampouco numerosos seguidores. Eles são indiferentes a tais coisas, pois que bem sabem como são tão poucos aqueles que, em cada geração, estão preparados para a verdade, ou que pelo menos são capazes de reconhecê-la quando esta lhes é apresentada. Eles guardam “a carne para os adultos”, enquanto outros dão “o leite às crianças”. Eles reservam suas pérolas de sabedoria para os poucos eleitos que são capazes de reconhecê-las, e assim as utilizam no adorno de suas coroas, ao invés de jogá-las aos porcos vulgares e materiais, que iriam tão somente chafurdar na lama com elas, e as misturar com o seu desagradável alimento mental.

Mas tais iniciados no caminho nunca menosprezaram ou se esqueceram dos preceitos originais de Hermes, que tratam da transmissão da verdade para aqueles em condições de recebê-la, conforme nos diz o Caibalion: “Onde se encontram as pegadas do Mestre, os ouvidos daqueles preparados para os seus Ensinamentos se abrem completamente”; e, noutra parte: “Quando os ouvidos do estudante estão preparados para ouvir, logo vêm os lábios para preenchê-los de sabedoria”. Mas sua atitude costumeira sempre esteve em estrito acordo com outro aforismo hermético, também presente no Caibalion: “Os lábios da Sabedoria se encontram fechados, exceto aos ouvidos do Entendimento”.

Há aqueles que criticaram tal atitude por parte dos hermetistas, e que afirmaram que eles não manifestavam o verdadeiro espírito dos seus ensinamentos por conta de suas políticas de reclusão e reticência. Porém um rápido olhar pelo que se passou nas páginas da história irá revelar a devida sabedoria dos Mestres, que bem sabiam o quão inútil seria tentar ensinar abertamente num mundo que não estava preparado e tampouco desejoso de receber tais ensinamentos. Os hermetistas jamais buscaram se tornar mártires, tanto pelo contrário, somente se sentaram silenciosamente ao largo dos grandes acontecimentos profanos, com seus lábios fechados, esboçando um leve sorriso de piedade.

Enquanto isso, “os ignorantes se enfureciam contra eles”, se valendo de sua diversão costumeira de encaminhar para a morte e a tortura os honestos porém desencaminhados entusiastas que um dia imaginaram ser possível evangelizar a verdade para uma raça de bárbaros; a verdade que só poderia ser compreendida, é claro, por aqueles já avançados no caminho.

E este espírito de perseguição ainda vive até os dias atuais. Ainda há certos Ensinamentos Herméticos que, se forem divulgados abertamente, possivelmente farão com que caia sobre os seus instrutores um clamor de ódio e desprezo vindo da multidão: “Crucificai-os! Crucificai-os!”.

Nesta pequena obra nós buscamos lhes dar uma ideia dos ensinamentos fundamentais do Caibalion, nos esforçando para lhes trazer os Princípios que de fato funcionam, mas deixando que vocês mesmos os estudem e pratiquem com maior profundidade, ao invés de tentar detalhá-los apenas com palavras. Se você acaso é um estudante verdadeiro, certamente poderá compreender e aplicar tais Princípios no seu dia a dia – porém, se ainda não se tornou um, você deve buscar primeiramente desenvolver a si mesmo, do contrário os Ensinamentos Herméticos nada mais serão que “palavras, palavras, palavras” para você.

Os Três Iniciados

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Crédito da imagem: Marko Horvat/unsplash

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13.12.17

Traduzindo o hermetismo, parte 1

Sempre soube que ao longo do meu projeto de traduções de grandes obras em domínio público eu eventualmente chegaria ao Caibalion, mas confesso que me surpreendeu que um livro tão essencial para o estudo do ocultismo e do espiritualismo em geral tenha até hoje basicamente só uma única tradução para o português [1], a de Rosabis Camaysar para a Editora Pensamento, que provavelmente foi a versão lida pela grande maioria daqueles que já conhecem a obra, inclusive eu. Mas, não somente isso, como até hoje não temos uma única versão em e-book do livro, nem mesmo da própria Pensamento.

Parece que estavam todos esperando pela minha tradução, e se for o caso, informo que ela já está a caminho, e deve ser lançada no início de 2018 tanto em e-book (na Amazon) quanto na versão impressa (pelo Clube de Autores, e quiçá também pela própria Amazon, aguardem novidades!).

Como eu tenho estado, justamente, bem ocupado com o trabalho de tradução, pensei em usar o início dela para preencher alguns posts do blog, mais ou menos como fiz quando estive traduzindo o Bhagavad Gita. Portanto, segue abaixo, e nos próximos posts desta pequena série, os trechos iniciais da minha tradução do Caibalion, a obra essencial para quem quer conhecer o hermetismo.

Rafael Arrais

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Introdução

Nós temos grande prazer em trazer à atenção dos estudantes e investigadores das Doutrinas Secretas esta pequena obra baseada nos Ensinamentos Herméticos do mundo antigo. Há tão poucos escritos acerca de tal assunto, apesar das inúmeras referências aos Ensinamentos em diversas obras do ocultismo, que muitos sinceros buscadores das Verdades Arcanas irão, sem dúvida, apreciar com carinho este volume.

O propósito desta obra não é a enunciação de nenhuma filosofia ou doutrina em especial, mas sim o de ofertar aos estudantes uma exposição da Verdade que servirá de reconciliação para muitos dos pedaços separados do conhecimento oculto que eles podem ter adquirido, mas que por vezes se parecem como que opostos uns dos outros, e terminam por desencorajar e desanimar aqueles que estão no início do caminho. Nossa intenção não é erguer um novo Templo do Conhecimento, mas deixar nas mãos do estudante a Chave-Mestra com a qual ele mesmo poderá abrir muitas portas internas no Templo do Mistério cujos portais ele já adentrou.

Não há porção dos ensinamentos ocultos existentes no mundo que foi tão bem guardada quanto os fragmentos dos Ensinamentos Herméticos que chegaram até nós através das dezenas de séculos que se passaram desde que viveu entre nós o seu grande fundador, Hermes Trimegisto, o “escriba dos deuses”, que residiu no antigo Egito nos dias em que a atual raça humana estava ainda em sua infância. Contemporâneo de Abraão e, se forem verdadeiras as lendas, um instrutor deste venerável sábio, Hermes foi, e ainda é, o Grande Sol Central do Ocultismo, cujos raios serviram de iluminação para incontáveis ensinamentos que foram disseminados desde o seu tempo. Todos os ensinamentos mais básicos e fundamentais embutidos nos conhecimentos esotéricos de cada etnia humana podem ser traçados de volta a Hermes. Mesmo os preceitos ancestrais da Índia sem dúvida têm suas raízes firmes nos Ensinamentos Herméticos originais.

Saindo da terra do rio Ganges, muitos ocultistas de grande conhecimento peregrinaram até alcançar o Egito, e se prostraram aos pés do Mestre. Foi dele que eles obtiveram a Chave-Mestra que explicou e reconciliou suas visões divergentes, e assim a Doutrina Secreta foi estabelecida em bases sólidas. De outros territórios também vieram os avançados no caminho, que da mesma forma reconheceram Hermes como o Mestre dos Mestres, e a sua influência era tamanha que apesar dos desvios do caminho pela parte das centúrias de instrutores de terras tão diversas, ainda há como se rastrear uma certa semelhança e correspondência por detrás das diversas e por vezes divergentes teorias aceitas e ensinadas pelos ocultistas de diferentes culturas e países até os dias atuais. O estudante de Religiões Comparadas terá condições de perceber a influência dos Ensinamentos Herméticos em cada religião digna do nome hoje conhecida entre os seres humanos, seja ela uma religião já morta ou ainda em pleno vigor no transcorrer de nosso próprio tempo. Há sempre uma certa Correspondência entre elas, apesar das aparências contraditórias, e os Ensinamentos Herméticos atuam como o Grande Reconciliador.

A grande obra da vida de Hermes parece ter se inclinado na direção de plantar uma grandiosa Semente da Verdade que desde então brotou e floresceu em inúmeras formas as mais estranhas, pois que ele não quis estabelecer uma mera escola de filosofia destinada a enredar o pensamento humano. No entanto, de qualquer forma, as verdades originais que ele ensinou foram mantidas intactas em toda a sua antiga pureza pelos poucos seres que, em cada época, ao recusarem um grande número de estudantes e discípulos pouco desenvolvidos, seguiram os preceitos herméticos e guardaram tais verdades para aqueles poucos realmente preparados para as compreender e dominar.

» Continua com a parte final da Introdução

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[1] Ao menos entre as versões de editoras brasileiras não esgotadas ou fora de tiragem, que eu saiba há somente esta mesmo.

Crédito da imagem: Aarón Blanco Tejedor/unsplash

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21.9.17

O Caibalion: uma nova tradução

O próximo livro das Edições Textos para Reflexão será a tradução do maior clássico do hermetismo moderno, O Caibalion, uma obra fundamental para qualquer estudante do ocultismo.

Após haver adquirido experiência na tradução de grandes clássicos da espiritualidade, como o Bhagavad Gita e o Tao Te Ching, ambos traduzidos a partir de versões inglesas, desta vez poderei traduzir diretamente do original em inglês!

"Mas O Caibalion não era uma obra lendária do antigo Egito, como pode ter sido escrita em inglês?" Bem, na verdade se trata justamente de uma compilação de espiritualistas modernos que traz alguns axiomas e princípios herméticos do Caibalion original, devidamente comentados e explicados em detalhes. Abaixo lhes trago um dos textos introdutórios da edição, que fala sobre os seus supostos autores, já que a obra foi assinada somente por um pseudônimo (e logo após, a capa!):

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Uma nota acerca da autoria desta obra

O Caibalion foi publicado pela primeira vez em 1908 na língua inglesa pela Yogi Society, ligada a um templo maçônico de Chicago, nos EUA. A obra é anônima, assinada somente pelo codinome ou pseudônimo “Três Iniciados”.

No entanto, existem indícios de que o livro esteja ligado ao Movimento Novo Pensamento, que surgiu nos Estados Unidos no final do século XIX. Esse movimento era formado por filósofos, espiritualistas, escritores e pessoas que compartilhavam crenças e participavam de estudos metafísicos associados a temas diversos da espiritualidade e da parapsicologia.

Das diversas teorias ligadas à autoria do Caibalion a mais aceita é a de que o livro foi escrito pelo espiritualista americano William Walker Atksinson (mais conhecido como Yogi Ramacharaka, e também popular por usar diversos pseudônimos em suas obras) em parceria com outros estudiosos como o maçom Paul Foster Case ou a teosofista Mabel Collins. Em todo caso, a verdade é que nunca saberemos ao certo quantos foram os colaboradores da obra, e quais os seus nomes, principalmente porque, sejam quem forem, simplesmente optaram pelo anonimato.

A mim, tradutor e editor desta obra rara, me parece que o principal objetivo dos autores originais não era adicionar “mistério” ao livro ao ocultarem seus nomes reais, mas tanto pelo contrário: a sua intenção era focar toda luz a obra em si, as palavras de Hermes Trimegisto, e não a quem as compilou e adaptou para esta era moderna.

Na elaboração da capa, chegamos a pensar em inserir a assinatura, “Três Iniciados”, mas depois optamos por incluir no lugar um subtítulo mais indicado para a sua real função: “uma iniciação ao hermetismo”.

Sim, pois é justamente disto, de uma iniciação, que esta obra se trata para todos aqueles que ainda a desconhecem. Se for o seu caso, respire fundo, relaxe, medite, dê graças a sua divindade (ou a natureza, no caso de não ter uma), e acompanhe com atenção a sabedoria que, com muito custo e muito sangue, venceu a séculos de ignorância, e conseguiu chegar aqui, neste momento, em suas mãos.

A luz foi criada para ser refletida!

Rafael Arrais

» A minha tradução já foi lançada em Janeiro de 2018. Vem dar uma olhada!

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Imagem da capa derivada de gravura de autoria anônima, vista primeiramente em um livro de Camille Flammarion intitulado L’atmosphère: météorologie populaire (1888)

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21.8.15

Uma longa tradução (parte 3)

O grande projeto do Textos para Reflexão este ano é, como alguns devem saber, a tradução de um dos livros mais sagrados do mundo, o Bhagavad Gita (vocês podem saber mais sobre ele no artigo A sublime canção, que servirá de base para o prefácio da edição).

Conforme falei no início, estarei lhes trazendo alguns trechos desta longa tradução para que possam acompanhar o seu andamento enquanto eu não chego ao final do trabalho.

Portanto, continuando da parte anterior, segue abaixo o trecho final do Capítulo I:


Arjuna descreve os malefícios da guerra

Com a destruição da família, as antigas tradições e códigos de conduta também são perdidos, e a imoralidade passa a prevalecer. (1.40)

E quando a imoralidade prevalece, ó Krishna, as mulheres da família se tornam corrompidas, assim como seus filhos indesejados [1] (1.41)

Tudo isso carrega tanto a família quanto seus assassinos para o inferno, pois os espíritos de seus antepassados são esquecidos pelos filhos corrompidos, que já não lhe prestarão mais as oferendas cerimoniais nem o respeito devido. (1.42)

Pelo ato ilegítimo e pecaminoso de tais rebentos indesejados, as qualidades ancestrais da família e toda a ordem social são destruídas. (1.43)

Já nos foi dito, ó Krishna, que os membros de tais famílias corrompidas vagueiam pelo inferno por um longo período. [2] (1.44)

Ai de nós, de todos nós! Estamos prestes a cometer um grande pecado ao concordarmos com essa matança insensata de nossos parentes, tudo por conta da ganância dos prazeres e riquezas do reino (Hastinapura [3]). (1.45)

Para mim seria muito melhor que meus irmãos me matassem com suas armas na batalha, enquanto eu estivesse desarmado e sem oferecer resistência. Que eles bebam o sangue do meu coração... (1.46)

Sanjaya disse: Tendo dito isso tudo ao seu amigo Lorde Krishna, e deixando seu arco e suas flechas de lado, o príncipe Arjuna se recostou no assento de sua carruagem de guerra, com sua alma inundada de angústia e tristeza. (1.47)


(tradução de Rafael Arrais)

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[1] Novamente há dois planos de interpretação. O literal se assemelha a antiga visão conservadora (de fato, milenar). O plano mítico continua tratando do campo psicológico: as mulheres corrompidas, e seus filhos indesejados, nada mais são do que os maus pensamentos, muitos dos quais “não sabemos exatamente como chegaram até nós”.

[2] No hinduísmo o inferno não é eterno, e quer significar o período de arrependimento pelo qual a alma passa, seja após a morte, quando aguarda um novo renascimento, seja ainda na própria vida. No entanto, muitas descrições do inferno hindu não devem em nada, em matéria de sofrimento, ao inferno do cristianismo.

[3] Hastinapura (cidade [pura] do elefante [hastina]) é a lendária capital da dinastia dos reis Kurus e local principal de toda a narrativa do Mahabharata, incluindo o Gita. Está localizada ao norte da Índia, às margens do rio Ganges, e possuí um importante sítio arqueológico que comprova sua existência ainda na época em que tais obras sagradas foram primeiramente escritas. Hoje abriga uma cidadezinha fundada em 1949, que contava 21.248 habitantes no senso de 2001.

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Crédito da imagem: Google Image Search/krishna.org

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9.7.15

Uma longa tradução (parte 2)

O grande projeto do Textos para Reflexão este ano é, como alguns devem saber, a tradução de um dos livros mais sagrados do mundo, o Bhagavad Gita (vocês podem saber mais sobre ele no artigo A sublime canção, que servirá de base para o prefácio da edição).

Conforme falei no início, estarei lhes trazendo alguns trechos desta longa tradução para que possam acompanhar o seu andamento enquanto eu não chego ao final do trabalho.

Portanto, continuando da parte anterior, segue abaixo mais um trecho do Capítulo I:


O dilema de Arjuna

Ante tal visão, Arjuna foi tomado de uma grande compaixão e pronunciou tais palavras com imensa tristeza:
Ó Krishna, ver meus parentes em ambos os lados do campo de batalha, com vontade de lutar até a morte, faz minha alma arrefecer e minha boca ressecar. Meu corpo estremece e meu pelo fica todo arrepiado. (1.27-29)

Meu arco escorrega das mãos, e minha pele se incendeia. Minha cabeça tonteia, eu mal consigo permanecer de pé. Ó Krishna, eu vejo maus presságios. Eu não vejo nenhum sentido em matar meus parentes nesta guerra. (1.30-31)

Não desejo nem a vitória nem a conquista de reino algum, ó Krishna. Qual o uso de um reino, dos espólios da guerra, ou mesmo da própria vida, se todos eles estão aqui, agora, dispostos a lutar entre si até a morte? [1] (1.32-33)

Eu não quero matar nenhum dos meus parentes, nem mesmo pelos reinos do céu, e muito menos pelos reinos da terra, ó Krishna. (1.34-35)

Ó meu amigo, que prazer nós poderemos encontrar na matança de nossos irmãos? Nesta guerra insensata tudo o que podemos colher é o remorso e o arrependimento. (1.36)

Desta forma, não devemos lutar contra nossos parentes. Como poderíamos ser felizes após matá-los, ó Krishna? (1.37)

Apesar de estarem cegos pela ganância, e não conseguirem perceber o grande mal que há na destruição de sua própria família, ou o pecado em serem traiçoeiros com seus amigos, por que nós, que podemos ver claramente esta grande calamidade, deveríamos concordar com ela, ó Krishna? (1.38-39)


(tradução de Rafael Arrais)

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[1] No plano literal, o início do Bhagavad Gita traz uma mensagem pacifista. Já no plano mítico, Arjuna identifica os participantes da guerra aos próprios desejos. Isto é, conforme destacado no prefácio desta edição, fica claro que se trata de uma guerra psicológica. Neste caso, o leitor deve invariavelmente se identificar com o próprio Arjuna, e descobrir quem são os Kurus e os Pândavas (os pensamentos materialistas e espirituais, respectivamente) em sua própria mente. Note, entretanto, que todos eles “são seus filhos”.

» Em breve, novos trechos desta tradução...

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Crédito da imagem: Google Image Search/God Wallpapers

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12.6.15

O eco de uma era distante

Ao contrário de muitos músicos e bandas que trago aqui para o blog, Pink Floyd dispensa apresentações. O que eu quero aqui, no entanto, é lhes fazer refletir sobre a magia da música, principalmente da música que se eleva, e recai, e se eleva, e nessa progressão infindável, imita a vida e as eras humanas. Nessa obra-prima da história desta arte, Echoes, a banda britânica nos leva a uma viagem inefável que parece nos tocar profundamente a alma... O fato de terem escolhido tocá-la nas ruínas de Pompéia somente enaltece a essência de tais ecos, ecos do passado distante, ecos da angústia perante o futuro, ecos do momento divino em que dois olhares se entrecruzam, e subitamente percebem que nunca deixaram de coexistir na eternidade.

Ouçam aos acordes do tempo, ouçam com atenção...

***

Lá no alto, os albatrozes flutuam imóveis pelo ar
E abaixo das ondas, nos labirintos das cavernas de corais
O eco de uma era distante vem florescendo pela areia
E tudo é verde e submarino

E ninguém nos conduziu a terra
E ninguém sabe dos "comos" e "porquês"
Mas algo se espanta e experimenta
E inicia a subida em direção à luz

(...)

Estranhos passando pela rua
Por acaso dois olhares separados se encontram
E eu sou você e o que eu vejo sou eu
E eu pego em sua mão
E a conduzo através da terra
E me ajudo a compreendê-la da melhor forma
E ninguém nos incita a prosseguir
E ninguém nos obriga a fechar os olhos
E ninguém diz nada
E nada experiencia...
E ninguém voa em torno do sol

(...)

Todos os dias você cai sobre meus olhos despertos
Me convidando e incitando a subir
E através da janela eles entram, fluindo por asas de luz...
Um milhão de embaixadores da manhã
E ninguém mais me canta canções de ninar
E ninguém mais vem fechar meus olhos
E então eu escancaro as janelas abertas
E clamo por você através do céu...


(tradução da letra original em inglês, por Rafael Arrais)

***

» Veja David Gilmour e Richard Wright tocando Echoes décadas depois, em Gdańsk, Polônia.

Crédito da imagem: Pink Floyd Live at Pompeii/Divulgação

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13.5.15

Uma longa tradução (parte 1)

O grande projeto do Textos para Reflexão este ano é, como alguns devem saber, a tradução de um dos livros mais sagrados do mundo, o Bhagavad Gita (vocês podem saber mais sobre ele no artigo A sublime canção, que servirá de base para o prefácio da edição).

Para tal empreitada, estou usando como base a tradução clássica do sânscrito para o inglês de Sir Edwin Arnold (1885), conforme compilada pela American Gita Society. A edição digital e a impressa virão recheadas de notas, incluindo muitas citações de célebres pensadores ocidentais simpáticos ao Gita, como Joseph Campbell e Arthur Schopenhauer. O meu intuito é trazer a filosofia perene da antiga Índia para os dias atuais, pois que apesar da guerra dos Kurus e dos Pândavas ter sido narrada há milênios, ela não deixa de estar sendo lutada ainda hoje, ainda neste momento, na alma de todos nós...

No entanto, como a despeito do que imaginam alguns, este blog é fruto do trabalho de um homem só, o projeto desta tradução, assim como alguns outros, tem me tomado o tempo que normalmente utilizo para escrever novos contos e artigos por aqui... Daí pensei que faria mais sentido trazer parte da tradução do Gita para o blog em si. Assim consigo ir tocando a tradução e atualizar o blog, ao mesmo tempo.

Decidi começar lhes trazendo o início do livro, portanto, aqui vai:


CAPÍTULO I – O DILEMA DE ARJUNA

A guerra do Mahabharata teve início após o fracasso de todas as tentativas de negociação realizadas por Lorde Krishna e alguns outros. O rei cego (Dhritarashtra) nunca teve a certeza da vitória de seus filhos (os Kurus), a despeito da superioridade do seu exército. O sábio Vyasa, o autor do Mahabharata, desejou conferir ao rei cego a dádiva da visão para que ele próprio pudesse ver os horrores da guerra pela qual ele era o principal responsável.
Ele não quis ver os horrores da guerra, e preferiu receber as notícias da batalha pela voz de seu cocheiro, chamado Sanjaya. O sábio Vyasa, desta forma, conferiu a Sanjaya o poder da clarividência. Com ela, o cocheiro podia ver, ouvir e rememorar os eventos do passado, do presente e do futuro. Assim, ele podia informar ao rei cego, sentado no trono de seu palácio real, sobre tudo o que transcorria na guerra.
Bhishma, o mais forte dos homens, e comandante-em-chefe do exército dos Kurus, foi ferido mortalmente por Arjuna, príncipe dos Pândavas (o exército rival), e está esticado ao solo em meio ao campo de batalha no décimo dia da guerra. Após ouvir esta má notícia de Sanjaya, o rei cego perde todas as esperanças na vitória de seus filhos.
Agora o rei cego deseja conhecer todos os detalhes da guerra, desde o seu início. Ele deseja, sobretudo, saber como o mais forte dos homens, e comandante-em-chefe de sua poderosa armada – aquele que tinha a dádiva de morrer assim que desejasse – foi derrotado no campo de batalha...
Os ensinamentos do Gita se iniciam com este pedido do rei cego, após o qual Sanjaya descreve como Bhishma foi derrotado:

O rei inquiriu: Sanjaya, por favor me conte agora, em detalhes, o que o meu povo (os Kurus) e os Pândavas realizaram no campo de batalha antes do início da guerra? (1.01)

Sanjaya disse: Ó rei, após observar a formação de batalha do exército dos Pândavas, seu filho (Duryodhana) se aproximou de seu guru (Drona) e proferiu essas palavras: (1.02)

Ó mestre, contemple a poderosa armada dos Pândavas, organizada em formação de batalha pelo seu outro talentoso discípulo! Há muitos grandes guerreiros, homens valentes, heróis e habilidosos arqueiros. (1.03-06)

Os comandantes dos Kurus são apresentados

Também há muitos heróis do meu lado que arriscaram suas vidas por mim. Eu devo trazer os nomes dos poucos distintos comandantes de minha armada para a sua informação.
Então, ele nomeou todos os oficiais de seu exército, incluindo Bhishma, e disse: Eles estão armados com as mais variadas armas, e são muito hábeis na guerra. (1.07-09)

Nosso exército é invencível, enquanto o deles pode ser conquistado. Dessa forma, todos vocês, ocupando suas respectivas posições em nossa formação de batalha, protejam nosso comandante-em-chefe, Bhishma! (1.10-11)

A batalha se inicia com o sopro das conchas

O poderoso comandante-em-chefe e o guerreiro mais velho de sua dinastia rugiu como um leão e soprou vigorosamente sua concha, soando um grande estrondo e trazendo alegria para seu filho, ó rei. (1.12)

Logo após, conchas, tambores, címbalos e outros instrumentos soaram em uníssono. A comoção foi tremenda por todo o exército dos Kurus. (1.13)

Do outro lado do campo de batalha, entre os Pândavas, vinha o príncipe Arjuna, acomodado numa grandiosa carruagem de guerra puxada por cavalos brancos e conduzida por Lorde Krishna. Em resposta aos Kurus, ambos sopraram suas conchas celestiais. (1.14)

Krishna foi o primeiro a soar sua concha, e em seguida Arjuna e todos os demais comandantes dos Pândavas sopraram seus instrumentos. Todo aquele rugido, ressoando através da terra e do céu, fez estremecer o coração dos Kurus. (1.15-19)

Arjuna deseja inspecionar o exército dos Kurus

Observando tantos guerreiros prestes a combater, e o início da guerra com os primeiros tiros de flechas, Arjuna, cuja bandeira trazia o emblema de Lorde Hanuman (o deus-macaco), apanhou o seu grande arco e disse tais palavras ao Lorde Krishna:
Ó grande amigo, por favor, conduza minha carruagem até o espaço entre os dois exércitos. Eu preciso ver de perto aqueles que estão ansiosos pela batalha, aqueles que desejam nos matar, e com os quais terei de lutar nesta guerra sangrenta. (1.20-22)

Eu desejo ver aqueles que estão dispostos a servir e satisfazer ao malicioso e vingativo filho de Dhritarashtra (Duryodhana), aqueles que vieram se apresentar para esta guerra insensata. (1.23)

Sanjaya disse: ó rei, conforme requisitado por Arjuna, Lorde Krishna conduziu a melhor de todas as carruagens de guerra até o espaço entre os dois exércitos, virada para o lado dos Kurus, e então disse a Arjuna:
Contemple a todos os soldados que se apresentaram para a batalha! (1.24-25)

Arjuna viu estarrecido que no outro lado do campo de batalha se encontravam também muitos de seus parentes: pais e filhos, irmão, cunhados, avós e netos, tios e sobrinhos, sogros e genros. (1.26)


(tradução de Rafael Arrais)

» Em breve, novos trechos desta tradução...

***

Crédito da imagem: Google Image Search (Arjuna e Krishna sopram as conchas celestiais) (*) Eu realmente não consegui achar o nome do ilustrador(a), se alguém souber por favor comente neste post, obrigado.

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22.1.15

Os ensinamentos de Krishna

O próximo livro das Edições Textos para Reflexão será a tradução de um dos maiores livros sagrados do mundo, o Bhagavad Gita, a sublime canção da Grande Índia.

Para tal empreitada, usarei como base a tradução clássica do sânscrito para o inglês de Sir Edwin Arnold (1885), conforme compilada pela American Gita Society. E contarei também, é claro, com a experiência de já haver traduzido o Tao Te Ching da versão inglesa de James Legge, além do Gitanjali de Tagore e do Profeta de Gibran, ambos diretamente do original em inglês.

A edição digital e a impressa virão recheadas de notas, incluindo muitas citações de célebres pensadores ocidentais simpáticos ao Gita, como Joseph Campbell e Arthur Schopenhauer. O meu intuito é trazer a filosofia perene da antiga Índia para os dias atuais, pois que apesar da guerra dos Kurus e dos Pândavas ter sido narrada há milênios, ela não deixa de estar sendo lutada ainda hoje, ainda neste momento, na alma de todos nós.

Conforme já falei mais sobre o livro original aqui no blog (texto que será, aliás, o prefécio da edição), a seguir já lhes trago um exemplo do andamento da minha tradução, retirado do Cap. II – O conhecimento transcendental (a informação entre parêntesis ao final de cada trecho se refere a marcação dos versos originais):

 

Os ensinamentos de Krishna começam pelo verdadeiro conhecimento da alma e do corpo

Lorde Krishna disse: Você se entristece por aqueles que não são dignos da sua tristeza, mas ainda assim suas palavras trazem grãos de verdade. Elas exprimem a sabedoria do mundo exterior, mas são ainda insuficientes para satisfazer à mente interior. Os sábios, em realidade, não se deixam abater nem pelos vivos nem pelos mortos. (2.11)

Jamais houve um tempo em que todos esses reis, você, ou eu, não existíssemos; tampouco haverá algum tempo futuro em que deixaremos de existir. [1] (2.12)

Assim como a alma adquire um corpo de criança, um corpo de jovem e um corpo de velho durante sua vida, da mesma forma, a alma adquire outro corpo após a morte. Isto é muito claro para os sábios. (2.13)

Ao contato dos sentidos, as formas e objetos dão vasão a sensações de frio e calor, de dores e prazeres. Todas essas sensações são transitórias e impermanentes. Dessa forma, devemos aprender a suportá-las sem nos apegarmos a elas, ó Arjuna. (2.14)

Pois uma pessoa verdadeiramente calma e tranquila, que não se deixa afligir ou apegar por essas formas e objetos, e permanece sempre estável em meio às dores e aos prazeres, se torna apta a trilhar o caminho para a imortalidade. (2.15)

O Espírito é eterno, o corpo é transitório

O Espírito invisível (atma) é eterno, e o corpo visível é transitório. A realidade da relação entre ambos é certamente conhecida pelos sábios, que investigaram a si mesmos por um longo tempo, e finalmente chegaram a verdade sobre sua própria essência. (2.16)

O espírito que preenche todo este universo é indestrutível. Ele está em tudo e abarca a todas as coisas. Ninguém pode destruir o que é imperecível. (2.17)

Mas os corpos que abrigam momentaneamente o Espírito eterno, imutável e incompreensível, esses são perecíveis, ó Arjuna. Dessa forma, se prepara para a batalha! (2.18)

Aquele que pensa que o Espírito é um assassino se comporta como aquele que pensa que o Espírito pode ser assassinado, e ambos vivem na ignorância, pois o Espírito nem mata e nem pode ser morto. (2.19)

O Espírito jamais nasce ou, nalgum tempo, morre. Ele não vem à existência, nem cessa de existir. Ele é incriado, eterno, permanente e primordial. Quando o corpo perece ou é destruído, o Espírito perdura. (2.20)

Ó Arjuna, como pode uma pessoa que sabe que o Espírito é indestrutível, eterno, incriado e imutável, matar alguém, ou fazer com que qualquer um seja morto? (2.21)

A morte e a transmigração da alma

Assim como alguém veste uma nova roupa após se livrar da antiga, da mesma forma, a entidade viva da alma individual adquire novos corpos após descartar os antigos. [2] (2.22)

As armas não perfuram tal Espírito, o fogo não o queima, a água não o umedece, e o vento não o deixa seco. O Espírito não pode ser perfurado, queimado, umedecido ou ressecado. Ele é eterno e preenche a tudo o que há. Ele é imutável, permanente, o ancestral de todos. (2.23-24)

Nós sabemos que ele é inefável, incompreensível, incognoscível, que mora além das palavras e do intelecto. E, se você também sabe disso, não deve se deixar afetar pela tentação de tentar conceber o inconcebível. [3] (2.25)

E ainda, ó Arjuna, que você creia que a alma nasce e morre junto com o corpo, isso ainda não seria motivo para tamanha tristeza. Pois que a morte é algo certo para aquele que nasce, e o nascimento necessariamente antecede aquele que vive. Dessa forma, um deriva do outro, e ambos são inevitáveis. Ó príncipe, não se lamente em demasia sobre o que é inevitável. (2.26-27)

Todos os seres são imanifestos, invisíveis aos olhos do corpo, antes do nascimento e após a morte. O período de sua manifestação física é transitório, passageiro, e compreende tão somente uma única vida. Ante tal fato, o que há para nos afligir? (2.28)

***

[1] Conforme dizia Joseph Campbell, grande estudioso de mitologia do século XX: “O mito é algo que não existe, mas que existe sempre”.

[2] Conforme bem notou Arthur Schopenhauer, célebre filósofo alemão, em Da morte, metafísica do amor, do sofrimento do mundo (Ed. Martin Claret):

“Sobre a universalidade da crença na metempsicose [reencarnação], Obry nos diz, com razão, no seu excelente livro Du Nirvana indien, p.13: “Esta velha crença fez a volta ao mundo, e estava de tal modo expandida na alta antiguidade, que um douto anglicano a julgou sem pai, sem mãe, e sem genealogia”. Já ensinada nos Vedas, como em todos os livros sagrados da Índia, a metempsicose é, como se sabe, o núcleo do bramanismo e do budismo, e reina até hoje por toda a Ásia não conquistada pelo islamismo, isto é, em mais da metade do gênero humano, como a crença mais sólida, e como influência prática de uma força inimaginável. Ela foi também um elemento de fé dos egípcios (Heródoto, II, 123); Orfeu, Pitágoras e Platão a adotaram com entusiasmo, e os pitagóricos, sobretudo, a mantiveram firmemente. [...] Ela era também o fundamento das religiões dos druidas. [...] Mesmo entre os americanos (índios) e povos negros, a até mesmo entre os australianos (aborígenes), encontram-se traços dela.”

[3] Realmente se trata de um assunto complexo. Eu gosto muito da forma como John Galsworthy, escritor britânico, o resumiu: “As palavras são cascas de sentimento”. Mas, no que se refere a análise da transcendência dos mitos, talvez ninguém seja maior autoridade no tema, no Ocidente, do que Joseph Campbell. Permita-me citar uma de suas respostas a Bill Moyers em O Poder do Mito, onde ele falava sobre “a eternidade”:

“A fonte da vida temporal é a eternidade. A eternidade se derrama a si mesma no mundo. É a ideia mítica, básica, do deus que se torna múltiplo em nós. Na Índia, o deus que repousa em mim é chamado o “habitante” do corpo. Identificar-se com esse aspecto divino, imortal, de você mesmo é identificar-se com a divindade.
Ora, a eternidade está além de todas as categorias de pensamento. Este é um ponto fundamental em todas as grandes religiões do Oriente. Nosso desejo é pensar a respeito de Deus. Deus é um pensamento. Deus é um nome. Deus é uma ideia. Mas sua referência é a algo que transcende a todo pensamento. O supremo mistério de ser está além de todas as categorias de pensamento.
[...] As melhores coisas não podem ser ditas porque transcendem o pensamento. As coisas um pouco piores são mal compreendidas, porque são os pensamentos que supostamente se referem àquilo a respeito de que não se pode pensar. Logo abaixo dessas, vêm as coisas das quais falamos. E o mito é aquele campo de referência àquilo que é absolutamente transcendente.”

Em suma, o que todos esses sábios estão tentando nos dizer é que não basta ler o manual de natação, é preciso mergulhar, pois o mergulho não pode ser descrito em palavras. Há um “deus” que é tão somente uma palavra, e há a experiência de Deus. Só quem passa por tal experiência, sabe...

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2.1.15

Lançamento: O Pequeno Príncipe

As Edições Textos para Reflexão trazem em 2015 o seu livro digital mais elaborado, com mais de 40 ilustrações de tela cheia (ver galeria) e uma cuidadosa tradução de um dos maiores clássicos do século XX – O Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry:

"Saint-Exupéry escreveu e ilustrou o nosso mundo interior. Ao saber deste pequeno milagre ocorrido em meio a um mundo em plena guerra, temos a esperança renovada de que lá dentro, em nosso planetinha mais íntimo, ainda brinca e ri com doçura a nossa criança mais frágil e preciosa... É difícil não se deixar corromper pelo peso do mundo das pessoas grandes. Mas, sempre que se sentir oprimido por ele, saiba que ainda terá este livrinho a sua inteira disposição."

Um ebook já disponível para o Amazon Kindle e também na Saraiva Digital:

Comprar eBook (Kindle) Comprar eBook (Saraiva)

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Abaixo, segue talvez o principal capítulo do livro, onde o viajante pequenino encontra a raposa (clique nas ilustrações para vê-las em tamanho maior):


E foi aí que apareceu a raposa...

“Bom dia”, disse a raposa.

“Bom dia”, respondeu educadamente o pequeno príncipe, apesar de que não a viu em canto nenhum quando se virou.

“Estou aqui, ao lado da macieira.”

“Quem é você? Nossa, você é muito bonita.”

“Eu sou uma raposa”, disse a raposa.

“Venha brincar comigo”, convidou o pequeno príncipe. “Estou um tanto infeliz...”

“Eu não posso brincar contigo, ainda não fui cativada.”

“Ah! Me desculpe.”, disse o pequeno príncipe.

Mas, após pensar um tantinho, perguntou:

“O que isto significa, ‘cativar’?”

“Você não é daqui”, disse a raposa. “O que é que veio buscar nessas redondezas?”

“Eu busco por pessoas”, disse o pequeno príncipe. “O que significa ‘cativar’?”

“As pessoas têm armas, e nos caçam. É algo muito perturbador. Elas também costumam criar galinhas. Bem, estes são os seus únicos interesses... Você procura por galinhas?”

“Não”, disse o pequeno príncipe, “eu procuro por amigos. O que significa ‘cativar’?”

“É algo muito esquecido hoje em dia”, disse a raposa. “Significa estabelecer laços.”

“Estabelecer laços?”

“Isso. Para mim, por exemplo, você ainda não passa de um garotinho, igual a cem mil outros garotinhos. E eu não tenho necessidade alguma de estar em sua presença, assim como você não tem necessidade de estar na minha.
Afinal, para você eu não passo de uma raposa, igualzinha a cem mil outras raposas que existem por aí... Se você me cativar, no entanto, nós passaremos a ter a necessidade de estarmos juntos. Para mim, você será um garotinho único em todo o mundo. E para você, eu serei uma raposa como nenhuma outra na Terra...”

“Estou começando a entender”, disse o pequeno príncipe. “Há uma flor... Eu acho que ela me cativou...”

“É possível. Aqui na Terra vê-se de tudo.”

“Oh, mas não foi na Terra!”

A raposa ficou intrigada, e um tanto curiosa:

“Foi noutro planeta?”

“Sim.”

“E há caçadores nesse planeta?”

“Não.”

“Ah, que interessante! E há galinhas por lá?”

“Não.”

“Nada é perfeito”, suspirou a raposa...

Mas logo ela retomou a conversa:

“Minha vida é um tanto monótona. Eu caço as galinhas, e os homens me caçam. Todas as galinhas são iguaizinhas, assim como todas as pessoas. Dessa forma, eu fico um pouco entediada...
Mas se você me cativar, será como se o sol viesse para iluminar a minha vida. Eu saberei do som de passos que serão diferentes do som de quaisquer outros passos.
Outros passos me fazem correr de volta para minha toca debaixo da terra, mas os seus me chamarão, como música, para sair do meu esconderijo.
E olhe: vê os campos de trigo lá no sopé da colina? Bem, eu não como trigo, então os campos de trigo nada têm a me dizer, e isto é triste... Mas você, você tem cabelos dourados. Pense como será maravilhoso quando houver me cativado!
O trigo, que também é dourado, me trará lembranças de você, e eu passarei a amar ficar contemplando os campos de trigo, e ouvindo o barulho do vento passando por eles...”

A raposa ficou olhando para o pequeno príncipe por um bom tempo, e depois lhe pediu:

“Por favor, me cative!”

“Eu gostaria muito”, respondeu o pequeno príncipe. “Mas eu não tenho tanto tempo. Eu tenho amigos por descobrir, e muitas coisas ainda por compreender.”

“Alguém só consegue compreender aquilo que cativa. As pessoas já não têm tempo para compreender coisa alguma. Elas compram tudo pronto nos seus mercados, mas não há loja alguma onde a amizade possa ser comprada, e assim as pessoas não têm mais amigos.
Se você realmente quer um amigo, me cative...”

“O que eu preciso fazer para lhe cativar?”, perguntou o pequeno príncipe.

“Bem, você precisa ser muito paciente. Primeiro, você vai se sentar a uma certa distância de mim – desse jeito – na grama. Então eu olharei para você de canto de olho, e você não deverá dizer nada. Palavras são uma fonte de mal entendidos. A cada dia, no entanto, você irá se sentar um pouquinho mais perto de mim...”

No outro dia o pequeno príncipe retornou ao mesmo local...

“Teria sido melhor que viesse no mesmo horário”, disse a raposa. “Se, por exemplo, você vier às quatro da tarde, então desde as três da tarde eu já começarei a ficar feliz. Daí eu ficarei cada vez mais feliz na medida em que as horas forem passando. Às quatro horas, eu já estarei inquieta e preocupada, mas lhe mostrarei o quão feliz fiquei em lhe ver!
Mas se você vier a qualquer hora, eu nunca saberei em qual hora meu coração deverá se preparar para recebê-lo... É preciso que obedeçamos a certos ritos...”

“O que é um rito?”, perguntou o pequeno príncipe.

“São coisas que também foram esquecidas nos dias de hoje”, disse a raposa. “Os ritos são o que faz um dia ser diferente do outro, e uma hora diferente da outra. Há, por exemplo, um rito entre os homens que me caçam: toda quinta-feira eles vão dançar com as garotas do vilarejo. Daí a quinta-feira é um dia maravilhoso para mim!
Nesse dia eu posso passear até bem longe, posso ir até as vinhas... Mas, se os caçadores fossem dançar a qualquer dia, então todo dia seria para mim como qualquer outro, e eu não teria a quinta-feira para descansar.”

Assim, o pequeno príncipe cativou a raposa.
E, quando a hora da sua despedida se aproximou, a raposa lhe disse:

“Ah, eu vou chorar.”

“Mas isto é sua culpa”, disse o pequeno príncipe. “Eu nunca lhe quis nenhum mal; mas você insistiu para que eu a cativasse...”

“Sim, é verdade”, disse a raposa.

“Mas agora você vai chorar!”

“Sim, é verdade.”

“Então isto não lhe trouxe nada de bom! Você não sai ganhando em nada...”

“Ganho sim”, disse a raposa, “por causa da cor dos campos de trigo.”

E então ela ainda acrescentou:

“Vá observar novamente as rosas. Agora você deverá compreender que a sua rosa é única em todo o mundo. Daí, venha me dizer adeus, e eu lhe darei de presente um segredo.”

O pequeno príncipe se foi para ver as rosas novamente:

“Vocês não são nem um pouco parecidas com a minha rosa”, ele as disse. “No momento vocês ainda são como nada. Ninguém as cativou, e vocês ainda não cativaram ninguém. Vocês são como a minha raposa quando a vi pela primeira vez. Ela era somente uma raposa como cem mil outras raposas. Mas hoje nós somos amigos, e ela é para mim uma raposa única em todo o mundo.”

E as rosas ficaram muito desapontadas...

“Vocês são belas, mas são vazias”, ele prosseguiu. “Ninguém iria morrer por vocês. De fato, um transeunte qualquer poderia pensar que a minha rosa se parece muito com vocês... Mas ela, apenas ela, é mais importante do que todas vocês, pois foi somente ela a rosa que eu reguei; foi somente ela a rosa que eu coloquei sob a redoma de vidro; foi somente ela que eu protegi com o pára-vento; foi somente por ela que eu matei as larvas (exceto as duas ou três que salvei para que se tornassem borboletas).
E foi somente ela que eu tive paciência de escutar, enquanto se queixava ou se gabava, ou mesmo quando não dizia absolutamente nada. Pois ela é a minha rosa.”

E assim, ele retornou para se despedir da raposa:

“Adeus”, ele disse.

“Adeus”, disse a raposa. “E agora, como prometido, aqui vai o meu segredo. De fato, é um segredo bem simples: é somente com o coração que podemos ver corretamente; o essencial é invisível aos olhos.”

“O essencial é invisível aos olhos”, repetiu o pequeno príncipe, para que tivesse certeza de que iria se lembrar.

“Foi o tempo que perdeu com a sua rosa o que fez dela uma rosa tão importante.”

“Foi o tempo que perdi com a minha rosa...”, repetiu o pequeno príncipe, para que tivesse certeza de que iria se lembrar.

“As pessoas esqueceram esta verdade”, disse a raposa. “Mas você não deve esquecer. Você se torna eternamente responsável pelo que cativou. Você é responsável por sua rosa...”

“Eu sou responsável por minha rosa”, repetiu o pequeno príncipe, para que tivesse certeza de que iria se lembrar.


(tradução de Rafael Arrais)


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28.9.14

O último voo de Saint-Exupéry

Em Janeiro de 2015 a obra-prima de Antoine de Saint-Exupéry, Le Petit Principe, ou O Pequeno Príncipe, entrará finalmente em domínio público em boa parte do mundo (exceto nos EUA e na França).

Como podem imaginar, lançaremos nesta data mais um livro digital das Edições Textos para Reflexão, com a tradução cuidadosa de Rafael Arrais, e todos os desenhos originais da obra, de autoria do próprio Saint-Exupéry, a cores, em boa definição e ocupando páginas inteiras!

Já que ainda não podemos lhes trazer trechos da tradução (afinal, o original em francês ainda não se encontra em domínio público), pensamos que seria interessante lhes trazer o epílogo completo, assim como, ao final, a capa, em que fizemos o máximo para homenagear a capa original da década de 1940:

***

Epílogo: O último voo de Saint-Exupéry

O Pequeno Príncipe, um clássico adorado por pessoas grandes e pequeninas, completa 70 anos...

Em Abril de 2014 a exposição The Little Prince – A New York Story, em plena Nova York, trouxe os manuscritos originais de Antoine de Saint-Exupéry, o francês autor da obra. Pouca gente sabe que ele morou em Nova York por dois anos, durante a Segunda Guerra Mundial, e escreveu o livro enquanto residia na América. A primeira edição foi publicada, em 1943, por uma editora americana, e não francesa.

A curadora da exposição, Christine Nelson [1], diz que a ideia para o livro sempre esteve rondando a cabeça de Saint-Exupéry, e prossegue, “Desde que era pequeno, gostava de desenhar, mas nunca foi um desenhista profissional, e nunca havia ilustrado um livro antes. Mas você via frequentemente em seus manuscritos alguns pequenos desenhos nas margens, e muitas vezes o desenho retratava uma pequena pessoa. E chegando perto da publicação de O Pequeno Príncipe, os traços dessa pequena pessoa passaram a tomar a forma do personagem.”

Tais ilustrações também se pareciam muito com o próprio autor. Diz a lenda que foi uma amiga sua de Nova York que o incentivou a transformar o personagem em um livro. A amiga se chamava Elisabeth Reynal, e era casada com o dono da editora (Reynal & Hitchcock) que veio a publicar o livro.

Saint-Exupéry escreveu sua obra mais famosa em vários lugares da metrópole norte americana. Tinha um apartamento ao sul do Central Park, escreveu um pouco ali; tinha uma amante – Silvia Hamilton – na Park Avenue, em Upper East Side, e escreveu muito por lá também; tinha um grande amigo da escola de artes – Bernard Lamat –, que tinha um lindo estúdio de arte, e ele também escreveu parte de sua obra por lá; e, finalmente, também trabalhou em Long Island, numa casa que alugou durante um verão.

O tempo que passou em Nova York, entretanto, foi mesmo breve. Saint-Exupéry era um piloto da força aérea francesa, e havia atuado em missões diversas, principalmente no Marrocos. Aos 43 anos, estava prestes a deixar a América para voltar à África como piloto, e foi exatamente neste período que o livro veio a ser publicado. De fato, foi quase na mesma semana, em Abril de 1943, em que ele voltava a atuar como piloto da aeronáutica francesa, que o livro chegava às livrarias de Nova York.

Quando o avião e seu piloto desapareceram durante uma missão para coletar informações do movimento das tropas alemãs, durante a guerra, o seu livro ainda estava longe de alcançar o sucesso mundial que viria a ter mais tarde. Saint-Exupéry decolou o seu P-38 Lightning de uma base aérea na Córsega, em 31 de Julho de 1944, e nunca mais retornou... Passou a viver na memória e, sobretudo, no imaginário de seus leitores.

Levou mesmo um certo tempo para que a magia de O Pequeno Príncipe conquistasse a legião de admiradores que tem até hoje. Uma coisa importante que temos de lembrar é que quando Saint-Exupéry chegou aos Estados Unidos, no final de 1940, ele já era um escritor best-seller. Já tinha publicado Terra dos Homens e Piloto de Guerra, livros que foram grandes sucessos de venda na América daquela época. Quando O Pequeno Príncipe foi lançado em 1943, até alcançou um relativo sucesso de venda, mas ficou na lista dos mais vendidos por uma única semana, enquanto outros livros do autor chegaram a ficar até 20 semanas nesta mesma lista.

O livro não foi, portanto, um sucesso imediato. Foi construindo esse sucesso ao longo dos anos; o que, com certeza, aumentou após o desaparecimento do autor, e quando finalmente veio a ser publicado na França, sua terra natal, em 1946 [2].

Nelson, tentando explicar o sucesso da obra, nos diz que “O Pequeno Príncipe é um livro decepcionantemente simples a primeira vista. Tem uma história muito simples, ilustrações muito ingênuas e, no entanto, várias camadas de leitura. Ele tem uma mensagem muito simples que todos podem apreciar e compreender – claro que estou falando da mensagem da raposa que diz que o essencial é invisível aos olhos e só pode ser sentido com o coração. Uma criança pode apreciar e entender esta mensagem, assim como qualquer adulto.

A questão é que a cada vez que o pequeno príncipe encontra um personagem adulto em sua viagem pelo universo, ele representa algumas características que nós, humanos, enfrentamos ao longo da vida – a arrogância, a vaidade, o materialismo, e, no caso do homem que bebe demais, a vergonha. Isso tudo são características que adquirimos à medida que vamos crescendo e aprendendo a nos relacionar com as outras pessoas”. São “defeitos”, se formos analisar assim, que precisam ser trabalhados e, se tudo correr bem, domesticados.

Há muito de Saint-Exupéry no seu O Pequeno Príncipe, mas também há muito de Saint-Exupéry no personagem narrador da obra, o piloto. Ele também era piloto e também teve um acidente no deserto, como o narrador da história. O foco do livro e suas ilustrações, no entanto, é no narrador contando a história do pequeno príncipe. Então acompanhamos a sua viagem fantástica pela narrativa e as ilustrações, mas não há uma ilustração sequer do narrador, isto é, do piloto (Saint-Exupéry chegou a esboçar uma, mas não foi incluída na versão final).

a raposa é a chave para o segredo do pequeno príncipe. É este personagem quem o ensina o que é mais importante na vida: o essencial é invisível aos olhos. Quando eles se encontram, a raposa quer ser seduzida, quer criar um significado para a sua relação. E, em troca, ela o ensina a ser paciente, saber esperar, curtir o momento, e, finalmente, chegar a ter um vínculo, um vínculo especial, com outro ser que nos cativou, e que também cativamos.

Muita gente não gosta ou despreza esta obra, dizendo que é muito “sentimental”. Nelson ainda nos diz que “certamente este livro não atrai todo mundo, e isto está bom. Eu tenho convivido com este livro há alguns anos – lendo, relendo, e o estudando em todos os detalhes. Tenho o sentimento de que é uma história realmente profunda. Sim, é sentimental. Sim, tem uma mensagem muito simples. Tem uma moral, se preferir, mas acredito que seja uma bela moral. Penso que a história é contada com uma grande sabedoria. As camadas de melancolia e tristeza que estão por baixo são tão profundas, principalmente quando você lembra que a guerra estava ocorrendo, e qual era o sentimento de Saint-Exupéry em relação a ela, que o fato dele ter transformado a sua experiência da guerra, durante um período de tanto desespero no mundo, em uma história tão abundante de esperança, é um enorme triunfo!”

***

Quando partiu da Córsega em seu avião, Saint-Exupéry usava uma pulseira que foi encontrada anos depois do seu desaparecimento. Depois que ele sumiu, em 1944, não ficou claro, por muito tempo, o que exatamente havia acontecido. Mas, em 1998, um pescador na costa de Marselha encontrou em sua rede de pesca uma pulseira de prata, na qual estava inscrito o nome de Saint-Exupéry. Então se descobriu que essa era a pulseira que ele usava quando o avião caiu. Em 2004, os destroços do seu avião também foram achados numa localidade próxima – mas seu corpo jamais foi encontrado...

Em todo caso, quais eram as chances de um objeto tão pequeno ser pescado do mar? Tal achado possibilitou a confirmação do local onde Saint-Exupéry morreu, e também a recuperação dos destroços do seu P-38 Lightning; e foi também mais um incrível elemento a ser adicionado ao mito de Antoine de Saint-Exupéry, o homem que se tornou, ao menos no imaginário de muitos dos seus admiradores, o próprio pequeno príncipe.

Esta obra é, portanto, o seu último voo, um voo eterno pela imaginação das pessoas de todo o mundo – sejam elas grandes ou pequeninas.

***

[1] Os depoimentos de Christine Nelson foram retirados do programa GloboNews Literatura que foi ao ar em Abril de 2014, no canal de TV a cabo GloboNews.

[2] Segundo a Universia Brasil, O Pequeno Príncipe é o segundo livro mais traduzido do mundo (após a Bíblia Sagrada), com mais de 250 traduções. Também já vendeu, em todo mundo, mais de 140 milhões de exemplares.

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29.5.14

Projeto William James

Há mais um projeto atualmente em andamento nas Edições Textos para Reflexão. Este muito especial, por se tratar da primeira tradução da mais nova integrante de nossa equipe: Hipátia (pseudônimo de Kamila Janaina Pereira), também colaboradora do blog Queremos Querer.

O livro em questão é The Will to Believe (A Vontade de Crer), de William Janes, e trata de uma discussão quanto às filosofias e crenças presentes no mundo acadêmico e científico. Como Kamila trabalha na área de psicologia, pensamos que seria uma boa ideia ela estrear por aqui traduzindo um dos fundadores da psicologia moderna.

Abaixo, segue um trecho da sua tradução (lembramos que os direitos da tradução pertencem inteiramente a tradutora, estaremos somente a editando e publicando)...

***

Vamos dar o nome de hipótese a qualquer coisa que seja proposta a nossa crença; e, assim como os eletricistas tratam de fios vivos e mortos, vamos tratar qualquer hipótese como viva ou morta. Uma hipótese viva é aquela que se mostra como uma possibilidade real àquele a quem ela é proposta. Se eu lhes pedir para acreditar em Mahdi [1], essa ideia não faz qualquer conexão elétrica com sua natureza – ela se recusa a cintilar com qualquer credibilidade. Como uma hipótese, está completamente morta. Para um árabe, todavia (mesmo que ele não seja um dos seguidores de Mahdi), a hipótese está entre as possibilidades da mente: ela está viva. Isto mostra que a morte e a vida em uma hipótese não são propriedades intrínsecas, mas se relacionam ao pensador individual. Elas são medidas pela disposição do indivíduo em agir.

O máximo de vivacidade em uma hipótese significa disposição em agir de forma irrevogável. Na prática, isto significa fé; mas há alguma tendência em crer em qualquer lugar que haja disposição em agir.

Em seguida, vamos nomear qualquer decisão entre duas hipóteses como opção. Opções podem ser de vários tipos. Elas podem ser: 1) vivas ou mortas; 2) forçadas ou evitáveis; 3) momentosas ou triviais; e, para nossos propósitos, podemos chamar uma opção como genuína, quando ela for do tipo forçado, viva e momentosa.

1. Uma opção viva é aquela em que ambas as hipóteses estão vivas. Se eu lhes digo: “Sejam teosofistas ou sejam muçulmanos”, essa é provavelmente uma opção morta, porque para vocês nenhuma das hipóteses tem probabilidade de estar viva. Mas se eu digo: “Sejam agnósticos ou sejam cristãos”, acontece o contrário: dada a sua formação, cada hipótese tem seu apelo, ainda que pequeno, à sua crença.

2. Em seguida, se eu lhes digo: “Escolham entre sair com ou sem guarda-chuva”, eu não lhes ofereço uma opção genuína, pois não é forçada. Vocês podem facilmente evitá-la ao não sair. Da mesma forma, se eu disser “Amem-me ou me odeiem”, “Chamem minha teoria de verdadeira ou a chamem de falsa”, sua opção é evitável. Vocês podem permanecer indiferentes a mim, nem me amando nem me odiando, e vocês podem se recusar a fazer qualquer julgamento a respeito da minha teoria. Porém, se eu digo “Aceitem esta verdade ou a deixem para trás”, eu lhes dei uma opção forçada, pois não existe escolha além das alternativas. Todo dilema baseado em uma disjunção lógica completa, sem a possibilidade de não se escolher, é uma opção do tipo forçado.

3. Finalmente, se eu fosse o Dr. Nansen e lhes propusesse se juntar a minha expedição ao Polo Norte, sua opção seria momentosa; pois esta seria provavelmente sua única oportunidade semelhante e sua escolha presente iria excluí-lo totalmente do grupo imortal do Polo Norte ou dar-lhes-ia alguma chance disso ocorrer. Aquele que se recusa a aceitar uma oportunidade única perde o prêmio tão certamente como se ele tivesse tentado e falhado. Ao contrário, a opção é trivial quando a oportunidade não é única, quando a aposta é insignificante ou quando a decisão é reversível se ela se mostrar imprudente posteriormente. Tais opções triviais abundam na vida científica. Um químico considera uma hipótese viva o suficiente para gastar um ano em sua comprovação: ele acredita nela a esse ponto. Mas se seus experimentos se mostrarem inconclusivos de qualquer maneira, ele está redimido de sua perda de tempo, sem qualquer dano vital.

Facilitará a nossa discussão se mantivermos todas as distinções em mente.

***

[1] Nota da tradutora: Mahdi, de acordo com as versões xiitas e sunitas da escatologia islâmica, é o redentor profetizado do Islã, que chegará a Terra alguns anos antes da chegada do juízo final, o Yawm al-Qiyamah (“Dia da Ressurreição”). Os muçulmanos acreditam que o Mahdi, juntamente com Jesus, livrará o mundo do erro, da injustiça e da tirania.


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11.2.14

O poeta da alma

O próximo livro digital das Edições Textos para Reflexão será uma tradução da obra com a qual Rabindranath Tagore, poeta nascido em Bengala, se tornou o primeiro vencedor não europeu do Prêmio Nobel de Literatura, em 1913.

Nesta tradução direta do original em inglês de Gitanjali ("oferenda de canções" ou "oferenda lírica"), ainda contaremos com uma introdução luxuosa de outro grande poeta vencedor do Nobel, o irlandês William Buttler Yeats, cuja poesia foi diretamente influenciada por Tagore.

Abaixo, segue um trecho do livro que compõe o Prefácio juntamente com a introdução de Yeats:

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O Grande Mestre

Assim Mahatma Gandhi o chamava. Aliás, quem deu a alcunha de Mahatma (“Grande Alma”) a Gandhi foi o próprio Tagore.

Não somente o Prêmio Nobel de Literatura de 1913, mas o primeiro não europeu a merecer tal homenagem.

E, até hoje, quando ouvimos aos hinos da Índia ou de Bangladesh, ouvimos a composições suas.

Mas Tagore foi muito mais do que um compositor de hinos, um Prêmio Nobel, ou mesmo um “grande mestre”. Tagore foi um poeta da alma, um grande místico, e talvez isto por si só, ou somente isto, possa explicar a qualidade inefável e atemporal de seus poemas, contos, textos e músicas.

Rabindranath Tagore nasceu em 1861, em Calcultá, na época capital da Índia inglesa e coração da Bengala renascente. Nessa metrópole particularmente ativa, três gerações dos Tagore participaram, no decorrer do século XIX, na criação e no desenvolvimento de importantes movimentos culturais e religiosos.

Na residência de sua família desfilavam as personalidades mais marcantes da época, tanto no domínio das artes e das letras como no da política, da espiritualidade ou da filosofia. Foi nessa atmosfera que Tagore compôs seus primeiros versos, ainda com 10 anos de idade. Logo que atingiu a adolescência, começou a publicar seus textos em um periódico literário e, durante os sessenta anos seguintes, produziu uma obra imensa: poemas, cantos, óperas, romances, peças de teatro, novelas e numerosos volumes de ensaios que falavam sobre praticamente todos os domínios da vida.

Além disso, Tagore tomou parte, diretamente ou através de seus escritos, nas grandes manifestações de protesto que, a partir do fim do século XIX, balizaram a longa luta da Índia por libertação do domínio britânico. Entretanto, o próprio Tagore morou e estudou Direito nas Ilhas Britânicas, e sempre manteve amigos por lá – em sua maioria, intelectuais.

Já no ocaso da vida, ao decorrer de inúmeras viagens ao redor do mundo, se lançou numa longa cruzada pela união entre os povos, precisamente num período em que tanto a Europa quanto a Ásia viam nascer poderosos partidos nacionalistas.

Mas, apesar de desgostoso com o caminhar da política mundial, Tagore era um educador em sua alma, e sentia enorme alegria em poder ensinar. Tanto que fundou uma escola, em Santiniketan (“a morada da paz”), cerca de cem quilômetros ao norte de Calcutá, e nela criou o seu santuário. Lá viveu até o fim de seus dias cercado da família, de amigos e discípulos – ensinando a todos.

Seu sistema de educação, revolucionário para a época, era a antítese dos sistemas oficializados com suas “cartilhas”. Em Santiniketan, a criança devia ser reconhecida como um indivíduo com plenos direitos. A meta era ajudá-la a se desenvolver, da melhor forma possível, segundo seus desejos, vocações e gostos pessoais.

No santuário de Tagore a vida era organizada de tal forma que sua sensibilidade e sua imaginação podiam ser constantemente alimentadas por um contato permanente com a natureza, e por um livre acesso a todas as formas de arte ou de expressão de si mesmo. Na realidade, os que para lá se dirigiam não buscavam somente desenvolver suas faculdades mentais, mas abrir suas almas para uma espiritualidade viva e livre de dogmas.

Tagore conservou até o seu último dia a fé no homem espiritual, no homem do amanhã. Ele foi um daqueles poucos, pouquíssimos, que não se contentou em simplesmente esperar pelo Céu – tratou de tentar erguê-lo aqui mesmo, neste mundo...

Onde a mente encontra-se sem medo e a cabeça é mantida erguida
Onde o conhecimento é livre
Onde o mundo não foi quebrado em fragmentos
Por estreitos muros domésticos
Onde as palavras vêm da verdade profunda
Onde laboriosas lutas esticam seus braços em direção à perfeição
Onde o riacho límpido da razão não perdeu seu rumo
Afluindo ao triste deserto dos hábitos moribundos
Onde a mente é direcionada adiante por você
A pensamentos e ações sempre em constante afloramento
Nesse céu de liberdade, Pai, deixe meu país acordar

Céu de liberdade, poema #35 do Gitanjali

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O livro será traduzido do inglês por Rafael Arrais.


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11.12.13

Lançamento: O Profeta

As Edições Textos para Reflexão tem o orgulho de lhes trazer O Profeta, a obra prima de Gibran Khalil Gibran, traduzida do original em inglês por Rafael Arrais.

Gibran é o tipo de escritor que trabalha no limite da linguagem, quando as palavras, apesar de serem apenas cascas de sentimento, conseguem ainda assim trazer um resquício do gosto e do perfume dos frutos que crescem além do tempo, no interior da alma. O Profeta já foi traduzido para mais de 30 idiomas e lido por milhões de pessoas em todo o mundo. Dentre estas há, quem sabe, milhares que o elegeram um livro de cabeceira, para onde retornam cada vez que sentem saudades da primavera.

Um livro digital já disponível para o Amazon Kindle e o Kobo:

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Abaixo, segue um dos capítulos do livro, onde Almustafa, o eleito e amado, fala sobre a Liberdade:

E LHE DISSE um orador, “nos fale da Liberdade”.
E ele respondeu:
“Nos portões da cidade e no aconchego de seus lares, eu os vi prostrados a adorar sua própria liberdade,
Como escravos que se rebaixam perante um tirano e os glorificam, ainda que ele os destrua lentamente.
Sim, no bosque do templo e pela sombra da cidadela eu tenho observado aos mais livres dentre vocês vestirem sua liberdade como o preso coloca suas algemas.
E meu coração sangrou em meu interior; pois vocês só poderão ser libertos quando até mesmo o desejo de liberdade deixar de ser um jugo, e quando cessarem de falar dela como se fala de uma meta e de um fim.
Vocês serão livres, em realidade, quando se livrarem das preocupações dos dias e dos desejos e aflições das noites;
E assim, mesmo quando essas coisas sobrecarregarem suas vidas, vocês se elevarão acima delas, desnudos e desatados de todos os seus nós.

E como vocês se elevarão acima dos seus dias e noites a menos que partam as correntes com as quais, na aurora de sua compreensão, vocês se ataram as suas horas passadas?
Na verdade, isto que chamam “liberdade” é a mais pesada dessas correntes, embora seus anéis cintilem ao sol e ofusquem os seus olhos.

E o que são senão fragmentos de si próprios aquilo do que vocês buscam se livrar para se tornarem libertos?
Se é uma lei injusta o que buscam abolir, lembrem-se de que esta lei foi escrita por suas próprias mãos em suas próprias frontes.
Vocês não podem apaga-la pela queima de seus códigos de leis ou por lavarem as faces de seus juízes, embora derramem todo o mar sobre eles.
E se é um déspota que desejam destronar, cerifiquem-se primeiro de que o trono erguido em seus interiores já se encontre destruído.
Pois como poderia um tirano dominar os livres e os orgulhosos se estes já não possuíssem uma tirania em sua própria liberdade e uma vergonha em seu próprio orgulho?
E se é uma preocupação o que desejam eliminar, esta preocupação não lhes foi imposta, mas sim escolhida por vocês mesmos.
E se é um medo o que desejam dissipar, o trono deste medo está em seu coração e não nos lugares assombrados.

Em realidade, todas essas coisas se movem em seus interiores em constante meio enlace – o que é desejado e o que é temido, o que é repugnante e o que é atrativo, o que buscam e o que lhes inspira a fuga.
Tais coisas se movem em seu ser como luzes e sombras, em pares estreitamente unidos.
E quando a sombra se dissipa e já não está mais lá, a luz que ainda perdura se torna a sombra de uma outra luz.
E assim é que a sua liberdade, quando se livra de seus grilhões, se torna ela mesma um grilhão para uma liberdade ainda maior.”


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