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11.2.19

Espíritos são coisa da nossa cabeça? (Reflexões no YouTube)

Bem-vindos ao primeiro vídeo resposta do canal! Neste vídeo respondo a uma pergunta do Douglas Pinnheiro sobre entidades espirituais e outras coisas mais... Lembrando que por enquanto estarei criando vídeos resposta somente para as perguntas nos comentários do vídeo comemorativo de 1.000 inscritos no canal.

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


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22.6.16

Lançamento: Laroyê

As Edições Textos para Reflexão, em parceria com a Like a Sir Press, publicam a sua primeira história em quadrinhos digital. E o tema é nada mais do que Umbanda para crianças!

Escrito e ilustrado pelo casal de artistas Lucy Fidelis e Roe Mesquita (que também ilustra o nosso Tarot da Reflexão), Laroyê traz um conto singelo sobre o orixá mensageiro, Exu (*). O e-book traz, como de costume, ilustrações em cores bem vibrantes, que serão melhor apreciadas no aplicativo gratuito do Kindle para tablets e smartphones. A versão impressa pode ser adquirida diretamente na editora dos autores:

Comprar e-book Comprar versão impressa

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(*) Aliás, é sempre bom lembrar o que disse Marcelo Del Debbio, grande estudioso de mitologia e religiões, sobre o orixá Exu:

Assim como Hermes, Exu é o mensageiro dos deuses, seu poder é o de receber e transportar os pedidos e oferendas dos seres humanos ao Orum, o Mundo dos Deuses. É o Senhor dos Caminhos, das encruzilhadas, das trocas comerciais e de todo tipo de comunicação. Ele representa também a fertilidade da vida, os poderes sexual, reprodutivo e gerativo. Não podemos nos esquecer de que o sexo, diferentemente do que os católicos e evangélicos dizem (uma coisa de luxúria, de pecado), é na verdade um ato sagrado. Talvez por isso, por ele ser o poder sexual, os cristãos o comparem com o Demônio.
A origem do mito de associação de Exu com o Diabo vem dos Jesuítas. Quando os escravos estavam fazendo o sincretismo de suas religiões africanas com os Santos Católicos, os Jesuítas desconfiaram que havia alguma coisa errada… nas religiões africanas, não existe a figura do diabo, apenas de deuses com características humanas. Então eles encontraram um símbolo fálico representando o Exu e tiveram a “brilhante ideia” de associar o pênis ereto com o sexo (pecado) com o diabo para completar o panteão católico.
Adicione dois séculos de deturpação católica e (posteriormente) evangélica e temos a imagem do Exu como ela é nos dias de hoje.
Sem falar que normalmente a figura do Senhor Exu é colocada com chifres, rabo, pintado de vermelho, imagem bem parecida com a que os cristãos “desenham” o Diabo… Então, o Exu verdadeiro das religiões africanas nada tem em comum com o diabo lúdico, e as esquisitas estátuas comercializadas e utilizadas arbitrariamente em terreiros são frutos da imaginação de visionários que não enxergam nada além das manifestações dos baixos sentimentos em formas deprimentes, nos seres que lhes são afins.


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24.4.14

Ah! Se você tivesse a coragem de amar...

Mas quem é esse que está falando, um sujeito incorporando essas coisas de "preto velho"? Coisa do demônio!

Hein?! Você acha que eu vou ouvir um charlatão que ainda por cima afirma estar incorporando essas coisas de "espírito"? Ainda não fiquei louco!

Mas o que? Você acha que eu vou dar bola para esses espíritos inferiores dessa coisa de "umbanda"? Só ouço espíritos de luz!

Eu até poderia ouvir esse tal de Gasparetto, se ele não fosse tão "espírito de moça", você me entende?


É nessas horas que podemos refletir: não é a toa que eles vêm na "roupagem" de pretos velhos; velhos negros e com sotaque "caipira"... É que eles queriam, quem sabe, serem ouvidos somente por quem já tem condições de ouvi-los. Por quem já se livrou, ao menos, dos preconceitos mais básicos. Por quem já compreendeu, enfim, que a luz dá o seu jeito de se irradiar onde for, e que a Vida, na ânsia por si mesma, faz de "defuntos caboclos" os seus seus apóstolos mais fiéis, e mais humildes...

Ainda assim, vale notar que é o próprio Calunga, espírito que incorpora no médium Gasparetto há anos, quem diz que ele está ali tão somente refletindo a luz que vem do Alto. Uma luz ancestral, estoica, cheia de vida e de amor pela existência, que permeia tanto os antigos reinos africanos quanto os antigos filósofos gregos, e que não perde nem um tantinho do seu brilho por estar sendo irradiada através de "um exu":

Primeira parte da palestra O mundo em que eu vivo, proferida em 26/11/2006 no Espaço Vida & Consciência, em São Paulo. As outras partes seguem abaixo (*):

» Ver a segunda parte da palestra

» Ver a terceira parte da palestra

» Ver a quarta e última parte da palestra

***

(*) A palestra tem pouco mais de 2h de duração, o que pode ser muita coisa para certas pessoas. No entanto, recomendo que vejam, de alma aberta, apenas a primeira parte (o vídeo acima), que o restante é mais uma "fixação" do que já foi dito ali.

Crédito da foto: Rodrigo Bueno

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13.2.14

Uma breve consideração sobre a existência de Deus

Muito se debate sobre a existência ou não existência de Deus. Como alguns devem saber, eu considero este um debate particularmente inútil.

Há ateus ferozes que acusam de infantil e fantasioso qualquer um que creia num “velho de barba muito branca que sabe de antemão quando cada fio do seu cabelo cairá”. No entanto, isto foi um espantalho de deus que foi criado; e qualquer místico, isto é, qualquer um que já observou a Deus de relance, sabe que se trata somente de um espantalho.

No fundo, todos nós, mesmo os ateus mais ferozes, sabemos por intuição própria que nada pode surgir do nada, nem mesmo um espantalho ou as leis que permitem as flutuações quânticas no vácuo. Até mesmo os yorubás, que trouxemos acorrentados de sua terra natal, e que tanto acusamos de “paganismo”, sabem que os orixás não surgiram do nada e tampouco criaram a si mesmos – são, todos eles, filhos de ainda outra entidade que os precedeu, chamada Olorun, e para a qual não se fazem oferendas ou cultos, pois ela já é todas as oferendas e já se encontra presente em todos os cultos.

E, se não acreditam nos yorubás, podem ler o grande Espinosa, que disse algo muito parecido em sua Ética demonstrada à maneira dos geômetras. O que Espinosa talvez não tenha compreendido é que a “demonstração geométrica” era em realidade desnecessária, sendo apenas uma espécie de óculos para enxergar com a razão lógica o que a intuição já enxergava muito bem há tempos, e sempre enxergou!

No entanto, o fato de sabermos que existe um Deus anterior e acima de qualquer espantalho ou “teoria do tudo” não significa que saibamos exatamente como é a face deste Deus, ou sequer que ele tenha alguma face...

É neste sentido que há muitos místicos que concordam plenamente com os agnósticos: “Nós o vimos de relance, mas não sabemos se um dia o veremos face a face”. Ou, como diria Feynman, “a inefável natureza da Natureza”!

Mas que sabe dançar, isto ele sabe...

***

Crédito da imagem: Grafite de Cosmo Sarson (em Bristol, Ingalterra)

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22.10.13

Os Orixás da Estrada Velha

O grande empreendedor brasileiro, Irineu Evangelista de Souza (1813-1889), mais conhecido como Barão de Mauá, recebeu em 1852, a concessão do Governo Imperial para a construção e exploração de uma linha férrea, no Rio de Janeiro, entre o Porto de Estrela, situado ao fundo da Baía da Guanabara e a localidade de Raiz da Serra, em direção à cidade de Petrópolis.

A primeira seção, de 14,5 km, foi inaugurada por D. Pedro II, no dia 30 de abril de 1854. A estação de onde partiu a composição inaugural receberia mais tarde o nome de Barão de Mauá...

***

Mais de um século e meio depois, a Estrada Velha da Estrela jaz relativamente esquecida e abandonada, exceto pelos devotos da Umbanda Sagrada e do Candomblé, que utilizam a vasta Natureza da região como "templo" para seus rituais de fé; e também a Coca-Cola, que deseja comprar áreas da região onde há fontes de água potável (porque será?).

Quem nos conta mais sobre o assunto é Fernando Gabeira, em seu aspecto mais genial, o de jornalista efetivamente curioso. Conforme ele mesmo diz, "minha tática com os centros espíritas foi essa: deixar que eles descrevam as cerimônias e expliquem para mim o que está se passando":

(clique na imagem para assistir a reportagem no site da GloboNews)


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5.7.13

O canto de Clara

Há pouco mais de 30 anos nos deixava Clara Nunes, uma das maiores cantoras e intérpretes de canções da história da música popular brasileira. Pesquisadora de música e folclore de povos antigos, particularmente africanos, viajou boa parte do mundo representando o país, e também foi a primeira cantora a vender mais de 100 mil cópias de discos, derrubando um tabu da época de que mulheres não podiam alcançar tal marca.

Clara se declarava abertamente espírita e umbandista, e não tinha o menor temor em dizer que muitas das composições que escolhia interpretar eram claramente associadas a espiritualidade. Clara não viveu somente numa época onde a música brasileira ainda era genuinamente popular, mas também numa época em que, apesar dos pesares, o canto dos povos antigos das Américas e da África ainda podiam ser escutados nos horários nobres da TV, ecoando como um soluçar de dor...

Os vídeos abaixo foram escolhidos com a alma:

Ijexá (encerrando o Fantástico da Rede Globo)

Canto das três raças

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Crédito da imagem: Google Image Search/Divulgação

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28.1.13

O software angélico que roda no eixo do mundo, parte 2

« continuando da parte 1

E foram todos os dias de Enoque trezentos e sessenta e cinco anos. E andou Enoque com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus para si o tomou. (Gênesis 5:23-24).

Seriam os anjos e demônios seres como nós?
Se até agora tendemos a concluir que os deuses e orixás não poderiam ser seres pessoais, conquanto não poderiam haver passado por alguma espécie de evolução, o mesmo não necessariamente se aplica aos anjos e demônios.
É claro que nos mitos monoteístas, diz-se que os anjos foram criados como seres já perfeitos, servos eternos dos desígnios de Deus. Neste caso, seriam algo similar aos deuses, que operam as forças naturais. Mas o problema desta linha de pensamento é que esses mesmos mitos também nos contam que há alguns anjos que se rebelaram contra o Criador, e que desde então foram condenados a habitar o Inferno e, quem sabe, serem sempre maus, por toda a eternidade.
Com isso se quer dizer que o livre-arbítrio foi inventado, precisamente quando um anjo chamado Lúcifer (portador da luz) decidiu se rebelar contra a “programação” do Criador. Afinal, qualquer ser criado “já perfeito, pronto e acabado”, não passou por evolução alguma e, dessa forma, não é “perfeito” pelo seu próprio mérito, mas antes por alguma forma de “programação”. Tais anjos seriam então como robôs, autômatos sem vontade própria. Mas, se não teriam vontade, como diabos Lúcifer teve a vontade de contrariar seu Pai?
Eu penso que este problema tem duas soluções lógicas, e não mais do que duas: (a) Lúcifer na realidade também foi “programado” para contrariar a Deus, e tudo o que têm feito desde então, em realidade, é tão somente o que foi “programado” para fazer [1]; (b) Lúcifer na verdade seria um ser como nós, e sua decisão de contrariar ao Criador denota, metaforicamente dentro deste mito profundo, o estágio em que o ser se torna autoconsciente, que “desperta” para o conhecimento do bem e do mal, da vida e da morte, e para o fato de que possuí uma alma capaz de interpretar o mundo e fazer escolhas [2].
Ora, se ficarmos com a última opção (que, no meu entendimento, faz mais sentido), temos que anjos e demônios nada mais são do que espíritos, como nós mesmos, em maior ou menor grau de evolução cognitiva, moral e espiritual. Certamente pode parecer complicado “classificar” aos seres por sua suposta “evolução moral”; mas, na prática, é isto o que tentamos fazer todos os dias. Sempre que conhecemos algum novo amigo (ou inimigo), uma de nossas primeiras preocupações é tentar situar em que “nível de moralidade” ele opera. Claro que, muitas vezes, temos julgado errado [3], mas isto não significa que não exista uma distinção clara entre seres amorosos, sábios e morais, e seres indiferentes, ignorantes e imorais.
Antes, porém, de habitarem reinos fantásticos, acima ou abaixo do mundo, anjos e demônios talvez devam ser classificados pelo estado em que se encontram suas mentes, sua consciência, sua paz de espírito. Anjos seriam, portanto, aqueles seres com maior consciência da própria liberdade, e maior controle da própria vontade; ao passo que demônios seriam o oposto, ou seja: seres atolados num charco de desejos desenfreados, facilmente manipulados por vontades alheias, perdidos de si mesmos.

O que isto tudo quer dizer é isto aqui: anjos e demônios habitam mesmo este mundo, e não poderia ser diferente.

Os exus e as pambu njilas
Nas mitologias africanas (e, particularmente, na dos iorubás), deuses são chamados orixás, conforme já vimos. Pois bem, ocorre que no caso da umbanda sagrada, religião de origem brasileira [4], anjos e demônios são chamados de exus e pambu njilas. Exus nada mais seriam que espíritos como nós, no período entre vidas, do gênero masculino. Pombagiras seriam exus do gênero feminino (seu nome é uma corruptela do pambu njila, de origem angolana) [5].
Dessa forma, na umbanda, nem todo exu é demônio. De fato, a imensa maioria dos praticantes desta doutrina lida mesmo é com exus de amor e moral elevados – anjos, portanto.
Em todo caso, não devemos confundir os exus anjos e demônios com o Exu orixá (um dos deuses iorubás)...

O axis mundi
Me disseram que o termo Exu é derivado de “Eixo”, mas isto não posso confirmar. Em todo caso, é algo que faz sentido: o orixá Exu é o deus mensageiro, o responsável por fazer a conexão entre um mundo que está no plano com um outro mundo que está acima ou abaixo. No nosso caso, costuma-se dizer que Exu forma o eixo entre a Terra e o Céu, mas também poderia formar um eixo, igualmente, entre a Terra e o Inferno, dependendo de nossa intenção e vontade ao invocá-lo.
Desnecessário dizer que estas ideias de um axis mundi (Eixo do Mundo), e de deuses mensageiros que o percorrem, trazendo e enviando mensagens entre um plano médio e um superior (ou inferior), são abundantes em diversas mitologias. Geralmente, os deuses inventores da escrita (Toth-Hermes; Odin-Wotan) encontraram esta incrível descoberta exatamente enquanto viajavam através do Eixo, indo e retornando de um plano superior. Odin, por exemplo, chegou a se enforcar neste Eixo, que era a própria Yggdrasil (“o eixo do mundo”), e após alguns dias de “transe xamãnico”, trouxe o conhecimento das runas (forma de escrita) aos homens nórdicos.
Entretanto, isto vocês devem lembrar: dizíamos há pouco que os deuses eram forças da natureza, e não seres pessoais, que evoluem, como nós. Ora, e não é exatamente disto que se trata o orixá Exu? Uma força natural, um instrumento pelo qual nossas mentes conseguem entrar em estados alterados e acessar informações que antes nos eram ocultas?
No fundo, não importa muito ao médium ou magista se os deuses existem fora ou dentro de suas mentes... Na prática, o axis mundi poderia ser um pé de feijão mágico cujo caule gigantesco toca o próprio céu, ou o eixo interno da própria alma, que liga o plano médio, consciente, ao plano oculto, inconsciente. Dessa forma, se em nosso inconsciente há um reino celeste, ou infernal, isto depende unicamente de onde sintonizamos nosso pensamento e nossa vontade.

» Em seguida, finalmente, o software angélico...

***

[1] Apesar de eu mesmo não acreditar na hipótese, admito que ela explicaria o fato de Lúcifer ser eternamente mau, sem a possibilidade de se arrepender: é que foi “programado” para assim o ser.

[2] Neste caso, o mito de Lúcifer teria vários outros paralelos na mitologia. Mesmo no próprio Gênese, o mito da Eva que comeu a fruta proibida da Árvore da Ciência do Bem e do Mal, seria essencialmente uma metáfora muito parecida. Talvez surgido num tempo próximo, mas em outra parte do mundo, temos o mito de Prometeu, o titã que roubou o fogo dos deuses, e depois foi punido. Não obstante, houve tempo de presentear este fogo aos homens, o que os tornou “superiores” aos demais animais: ou seja, eram, conforme Adão e Eva, os primeiros seres humanos conscientes de si mesmos e da própria liberdade (vontade). Também haviam conquistado a ciência do bem e do mal (graças ao sacrifício de um ser “sobre-humano”, mas que foi punido pelos deuses por sua ousadia).

[3] O massacre dos indígenas da América pelos colonizadores vindos da Europa é um belo exemplo. Os colonizadores se julgavam “seres de moral superior”. Mas por tudo o que fizeram, pelo exemplo que foi dado, fica muito claro que os ditos “selvagens” estavam, muitas vezes, num estágio moral muito mais elevado do que os ditos “civilizados”.

[4] Surgida há pouco mais de um século, em Niterói, Rio de Janeiro.

[5] Muitas vezes a umbanda também lida com espíritos que, em sua última encarnação, não eram de origem africana, mas indígena. Normalmente são chamados de caboclos ou cabocladores, e não de exus. Eles são o que restou dos indígenas devastados pelos “homens civilizados”. E eles nos perdoaram: voltam para nos ajudar, sobretudo, por amor.

Crédito das imagens: [topo] Fantasy Flight Games; [ao longo] Tetra Images/Corbis

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27.1.13

O software angélico que roda no eixo do mundo, parte 1

O único lugar em que os deuses e demônios existem indiscutivelmente é na mente humana, onde são reais em toda a sua grandiosidade e monstruosidade (Alan Moore).

Há muitas coisas a se falar acerca de deuses, anjos e demônios. Para não tornar este texto excessivamente longo, estarei iniciando no meio do caminho, de forma que é recomendável que primeiramente leiam estas duas séries de artigos, antes da leitura deste aqui: A roda dos deuses e Os corvos de Wotan.

Se não entenderem muita coisa a partir daqui, não digam que não avisei!

Seriam os deuses forças da natureza?
Segundo muitos estudantes de mitologia e ocultistas, os deuses nada mais seriam do que imensos conjuntos de símbolos resumidos nalgumas imagens ou histórias, que foram passadas adiante pela cultura humana mesmo antes de a escrita haver sido inventada [1]. Existiriam, dessa forma, tão somente na mente humana, esta incrível força capaz de interpretar a realidade. Mesmo que este fosse o caso, o fato de existir somente na mente não necessariamente torna os deuses “assunto irrelevante”, principalmente pelo fato de que toda a realidade, de certa forma, existe na mente – na medida em que o resultado final dela é processado na mente.
Mas é óbvio que há muitos religiosos, dogmáticos ou não, que consideram ou creem piamente na possibilidade dos deuses existirem também fora da mente, na realidade objetiva. Ora, isto gera pelo menos duas questões lógicas de solução não exatamente trivial:

(1) Se os deuses existem objetivamente, quem os criou?
(2) Se os deuses são seres individuais, conscientes, de que forma ocorreu sua evolução?

Para respondermos a primeira pergunta, precisamos considerar o problema da existência, ou o problema do ser, que na filosofia postula, basicamente, que nada pode surgir do nada [2]. Trata-se de um problema muito antigo, que consta tanto nos Upanixades hindus quanto no taoismo, tanto na filosofia de Parmênides e Plotino quanto na monumental síntese moderna de Benedito Espinosa, que postula que “uma substância não pode criar a si mesma ou alguma outra substância totalmente dissociada de si”.
Ora, pela lógica mais pura e básica, isto significa que algo sempre existiu, e jamais foi criado, exatamente porque o nada não existe. Desta forma, isto também significa que, acaso os deuses existam objetivamente, mesmo eles precisam haver sido criados, e quem ou o que os criou, este sim é o chamado Criador.
A despeito da ignorância de muitos eclesiásticos monoteístas acerca do tema, em realidade o politeísmo sempre contou com alguns grandes sábios e/ou místicos que sabiam muito bem que “teria de haver um Deus anterior aos demais, e este seria o Criador, e ele teria de ser único”. Desta forma, a ideia central do monoteísmo, longe de ser alguma novidade lógica, é apenas uma conclusão tardia que, por alguma razão, preferiu discriminar ou ignorar a possibilidade da existência dos deuses.
De fato, há muitas mitologias arcaicas [3] que falam acerca de um Criador que, após haver criado o mundo e os deuses, se tornou um “deus ocioso”. O fato de ser “ocioso”, entretanto, não necessariamente significa que “não faça nada”, mas sim que “não fazemos sequer ideia do que ele é ou faz”.  
Na mitologia iorubá, que teve grande influência no Brasil através do candomblé e da umbanda sagrada, que lhe são derivadas, há o exemplo do Deus Criador: Olorun. Ora, foram os deuses (orixás) quem criaram os homens [4], e são eles quem “os influenciam” na Terra (Ayie). Mesmos estes orixás, porém, foram criados por Olorun, que hoje reside no Céu (Orun). Bem, sabemos que nos ritos do candomblé, por exemplo, há oferendas para os orixás. Para Olorun, porém, jamais é feita oferenda alguma. E o motivo é mesmo óbvio: Tudo o que existe, tudo o que pode ser ofertado, já lhe pertence em todo caso! Eis uma profundidade de pensamento que muitos críticos dos iorubás ignoram ou desconsideram.
E Olorun é também “ocioso”, antes por não ter nenhuma participação nos ritos e rituais, do que propriamente por não fazer nada. Ora, são os homens quem não sabem o que ele faz ou deixa de fazer, e que, portanto, disseram que ele “se tornou ocioso” – ou seja, além de nossa capacidade de compreensão do que uma ou outra ação sua significaria.
Seja Olorun da África, ou El da Mesopotâmia (que foi sincretizado com o deus bíblico), ou o próprio Tao, “anterior ao Soberano do Céu”, do taoismo: todos estes nomes se referem ao Criador, ao Uno, a substância tão sabiamente definida por Espinosa. E os deuses nada mais são do que seus filhos, assim como nós mesmos [5].

Para respondermos a segunda pergunta, precisamos considerar que todo ser vivo há que haver evoluído de um princípio simples para uma entidade complexa, consciente. Pois, assim como não há árvore que antes não tenha sido semente, e não há espécies complexas sem que antes haja existido espécies tão simples como uma simples bactéria, da mesma forma ocorre com o espírito. Se os deuses, portanto, fossem espíritos, teriam de haver evoluído da mesma forma, sabe-se lá onde, sabe-se lá quando.
O grande problema desta hipótese é que os deuses representam as forças da natureza, e estas não podem simplesmente ter passado por uma evolução. Pelo que sabemos, a gravidade precisa existir, da mesma forma como é hoje, desde os primeiros momentos deste espaço-tempo. E, ainda que existam outros universos num hipotético multiverso, pela lógica seria muito complexo supormos que, nalgum outro universo qualquer, a gravidade possa ter “evoluído passo a passo, assim como nós”.
Pode ser estranho para alguns associar um conceito científico, a gravidade, com o conceito dos deuses entendidos como forças da natureza. Mas para mim é uma associação muito proveitosa... Para Empédocles (filósofo pré-socrático), por exemplo, a gravidade era chamada de amor: o que unia não somente os seres, como todas as coisas do Cosmos. Ora, se a gravidade deixasse de existir por um momento sequer, podemos imaginar o caos que ocorreria em todo o universo. Não há como haver universo, ao menos um universo onde haja sóis, planetas e vida, sem a gravidade, sem o amor de Empédocles. Portanto, este amor tem de haver existido desde sempre.
Se formos então transportar esta ideia para o conceito dos deuses enquanto representantes e agentes das forças naturais, temos que eles não somente não são seres individuais, ou espíritos como nós, como tampouco tem exatamente uma vontade própria. Se existe alguma vontade nalgum deus, esta vem como reflexo da vontade do Deus Criador, pois que tudo o que os deuses fazem é legislar com as leis que existem na própria engenharia da realidade...
Isto é, se é que os deuses existem fora da mente humana.

» Em seguida, anjos e outros mensageiros atuando no eixo do mundo...

***

[1] Há muitos deuses que inclusive fazem parte da própria narrativa da descoberta da escrita, como é o caso de Toth-Hermes ou Odin-Wotan. Eles têm em comum pelo menos o fato de terem sido aqueles que “trouxeram o conhecimento da escrita para a humanidade”. Entretanto, também existem ou existiram outras doutrinas espiritualistas, como a druídica e boa parte das antigas doutrinas xamãnicas e indígenas, que ou jamais descobriram a escrita, ou preferiram não utilizá-la, temendo que ela terminasse por reduzir à experiência religiosa a mera teoria (provavelmente Sócrates sentia o mesmo, tanto que faz uma curiosa crítica ao discurso escrito no Fedro).

[2] Recomendamos a leitura da série Reflexões sobre o nada.

[3] E recomendamos, ainda uma vez mais neste blog, a leitura do monumental História das crenças e ideias religiosas, de Mircea Eliade (Ed. Zahar). Trata-se de uma série de 3 volumes, no qual o primeiro volume, por tratar do início, é obviamente o mais importante (ao menos no contexto do que estamos refletindo aqui).

[4] Bem, em algumas interpretações desta mitologia, Olorun também foi responsável pela criação dos homens. Mas no contexto de nossa reflexão, isto não fará muita diferença prática.

[5] Não à toa o rabi da Galileia nos disse: “sois deuses”. E, mesmo isto não era nenhuma novidade, pois há uma frase mística muito mais antiga que afirmava: “eu também sou da raça dos deuses”.

Crédito da imagem: Encontrada em UNEGRO

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19.11.12

Carta a um evangélico

Olá Sr. Evangélico, aqui quem fala sou eu, o Sr. Espiritualista.

Antes de mais nada, preciso lembrar-lhe de que somos irmãos, ou pelo menos não há nada explícito em nossas doutrinas que afirme o contrário...

Vejamos, então, a questão da espiritualidade africana. Tenho visto o senhor dizer que os orixás são demônios e que toda macumba é necessariamente coisa do Capeta... No entanto, é preciso que saiba: para o pessoal lá dos terreiros, macumba é só um instrumento musical, tipo reco-reco, sabe como é? Nem tem tanta importância assim, o som dos tambores é bem mais importante no ritual deles; E, já que falamos nos rituais, são coisas bem antigas, bem antigas mesmo! Muito antes dos termos “demônio” e “Capeta” terem sido inventados, já se faziam rituais para os orixás na África. Se ler um pouco de ciência e antropologia, saberá o que os cientistas já dão por quase certo: que viemos todos da África, o homo sapiens surgiu em algum ponto entre a parte sul e central do continente mãe.

O próprio deus bíblico deve muito ao deus que era cultuado na Mesopotâmia por povos que já eram bisnetos milenares dos primeiros africanos que batiam tambores em homenagem a Natureza. Sem El, Javé não seria muito mais do que o espírito ancestral de alguma tribo de hebreus perambulando por Canaã. Javé foi cultuado como um patriarca de homens, El foi compreendido como um deus cósmico, criador de tudo o que há [1]... Mais ou menos como Olorun, que criou o mundo, mas está tão acima de nosso plano de existência que não há nenhum xamã africano que tenha tido coragem de tratar diretamente com ele [2].

Foi muita engenhosidade dos hebreus esta que associou Javé a El, e com isso criou a ideia de um deus cósmico que, não obstante, poderia ser contatado como qualquer outro grande patriarca. O problema é supor que somente os rabinos podiam contatá-lo... Não foi exatamente por isto que Lutero lutou toda sua vida? Para que as pessoas comuns pudessem ler os textos sagrados e conhecer a Deus por si mesmas, sem a intermediação de Roma? Pois bem, pois os nossos irmãos africanos já falavam com Deus há muito mais tempo que a gente, e nem precisavam de livros para isso.

Quer dizer que todo o ritual que evoca orixás é coisa do bem? Claro que não, mas a maioria é. Maçãs podres, temos em qualquer pomar, e tenho certeza de que mesmo o neopentecostalismo tem as suas... Ou o senhor acha que abençoar talismãs com óleo ungido, ou derrubar fileiras inteiras de pessoas ao chão, é algo perfeitamente baseado nas Escrituras?

Tudo bem, vamos ser honestos: o que achamos um barato é essa tal experiência religiosa. Decerto Pentecostes foi uma loucura do Espírito Santo, mas quem garante que foi a primeira? Se até hoje os senhores procuram falar a língua dos anjos, porque encrencar com o caboclo que fala a língua dos espíritos da Natureza? Por mim, anjos e rios, cachoeiras e carruagens de fogo, florestas e sarças ardentes, se foram vistas pelas mentes que creem, se fizeram o bem para elas, que mal há? Onde o senhor vê o Capeta nessa história toda?

Por mim, se existe um ser assim, condenado a ser mal por toda a eternidade, ele não iria atuar sobre os verdadeiramente religiosos, mas antes optar pela via mais simples: tentar aqueles que já não creem, que não se dedicam, que nunca se arriscaram realmente a mergulhar neste Oceano de Amor que permeia todo o espaço e todos os tempos...

Me perdoe, eu tenho certeza que não é o seu caso, mas acaso nunca viu um cristaozão desses que bate no peito dentro da Igreja e diz: “Sou de Cristo!”, mas que começa a falar mal da sogra 5 minutos depois de terminar a oratória do pastor? De que adianta se achar um grande cristão ao chutar imagens de santos e orixás por aí, se ao chegar em casa chuta o seu cachorro e esbofeteia sua esposa? Será que Cristo falou numa espada para matar os infiéis, ou em oferecer a outra face para o agressor?

Os índios das Américas, coitados, também nunca tinham ouvido falar em Cristo. Os colonizadores europeus não deram muitas escolhas para eles: ou se convertiam, ou eram exterminados [3]. Até mesmo muitos que disseram ter se convertido foram exterminados do mesmo jeito, pois não serviam para o trabalho escravo... E o que há de cristão nisso tudo? Nas Cruzadas, o general francês perguntou ao representante do Papa como iriam identificar os cristãos dos não cristãos, na invasão de uma cidade onde cristãos, judeus e cátaros viviam em harmonia; Ele apenas disse isto: “Matem todos, que Deus escolherá os seus”... Ao que lhe pergunto: e quais deles não eram “de Deus”?

Ainda hoje, no Centro-Oeste do Brasil, há tribos indígenas sendo evangelizadas. Evangelizar não é o problema, pois ao menos estão dando a oportunidade para que esses indígenas se tornem parte de alguma outra comunidade que não a sua, e não vivam isolados, como párias, em um país construído sobre a invasão e o extermínio de suas terras ancestrais... O problema, este sim, é proibi-los de pintar o corpo de vermelho. “Vermelho é a cor do Capeta!”, seus colegas dizem... Mas, e o que diabos os índios tem a ver com o Capeta? Na maioria das mitologias indígenas, sequer existe um ser representante do mal, quanto mais um anjo caído... Eles nem sabem o que é um anjo! Se não podem se pintar de vermelho, vão se pintar de branco? Ou de verde? Ou lilás? Convenhamos, isso não faz o menor sentido.

Vamos tentar ser mais seguidores de El, e menos seguidores de Javé. Javé era um espírito ancestral, e precisava de barganhas e favores, e tinha ciúmes dos cultos de espíritos e deuses alheios, como foi o caso com Baal. Mas El não, El não tinha um oposto, pois o Tudo não tem oposto – o Nada não existe.

Dessa forma, se existe um Capeta, seria injustiça da parte de Deus que ele pudesse controlar a mente dos seres puros, corrompendo-os... Acho que faz mais lógica, além de estar mais de acordo com o que vemos na Natureza e na psicologia humana, considerarmos que o mal existe na alma de cada um de nós, e que é somente lá, precisamente lá, que precisamos fazer uso desta espada de que Cristo falou...

Para cortar a trave que obstruí nosso próprio coração. Para que nossa luz de amor transborde, e englobe os irmãos a nossa volta. Para que evangelizemos realmente uma boa nova, uma notícia de uma nova era, de uma nova sociedade, uma nova espiritualidade, uma nova religião... Assim, quem sabe, também poderemos ler, dentro de nossa alma, conectada a Alma do Mundo: “também eu sou da raça dos deuses, também eu trago o Pai dentro de mim, também eu farei tudo aquilo que o Cristo realizou, e talvez até mais”. E nem sequer precisaremos de um livro para guardar tal Verdade.

Cristo salva, afinal, todos aqueles que o encontram dentro de si mesmos... Mas Cristo é apenas uma palavra. O que salva é a fé, e não há fé mais profunda do que a fé no Amor. Pense nisso meu amigo, meu irmão. Pense, e reflita esta boa nova adiante!

***

[1] Maiores detalhes na série A roda dos deuses (esta teoria não é minha, mas de Mircea Eliade, um dos maiores especialistas em mitologia do séc. XX).

[2] Na mitologia Iorubá, talvez a de maior influência no Brasil, Olorun ou Olodumare é o criador do universo e mora no Orun (Céu). Embora reconhecido como Ser Supremo, não existe um culto ou templo que lhe é dedicado exclusivamente. Os orixás são os seus representantes em Aiye (Terra).

[3] Michel de Montaigne dá sua opinião, bem mais embasada do que a minha, nesta série de Reflexões sobre o sexo.

***

Crédito das imagens: [topo] Mark Keathley (Dance of Grace); [ao longo] Stephen Frink/Science Faction/Corbis

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1.10.12

Os intolerantes

O vídeo a seguir faz parte de uma ópera teatral sobre a história do personagem Alabê de Jerusalém, uma "entidade" que viveu há cerca de 2000 anos na África, e foi contemporâneo de Jesus. Na verdade, se trata de um espetáclo baseado em mais de 20 anos de pesquisas dos antigos mitos africanos, e provavelmente a "grande obra" da vida do músico carioca Altay Veloso, que inclusive chegou a viajar, durante seus anos de pesquisa, a Jerusalém, à Nigéria, a Angola e à Bahia.

Este trecho em específico me parece bastante adequado ao blog, pois se trata de uma crítica "amorosa" a intolerância e ao preconceito religioso, particularmente contra os religiosos ligados as culturas africanas, como é o caso, no Brasil, dos praticantes da Umbanda Sagrada, Candomblé e Tambor de Mina (dentre outras já quase extintas)...

Eu só gostaria de fazer uma ressalva ao trecho do refrão do canto inicial, que diz: "Às vezes corações que creem em Deus, são mais duros que os ateus. E jogam pedra sobre as catedrais dos meus deuses Yorubás". Ora, se vamos criticar a intolerância, devemos levar em consideração que o preconceito que afirma que "ateus são duros de coração, ou frios de sentimentos", é tão somente mais um preconceito mesmo...

Assim como há doutrinas religiosas que sequer "necessitam" da crença em Deus, como o jainismo e algumas vertentes do budismo, o fato de alguém ser ateu não necessariamente indica que esta pessoa é "fria e calculista". Na verdade, há muitos ateus plenos de espiritualidade, a começar por Carl Sagan (na verdade, um agnóstico), que em certos momentos de seu Cosmos mais parece um "profeta da Natureza".

Feita esta consideração, podemos agora apreciar, de alma aberta, aos ecos da antiga sabedoria africana:

***

Alguns trechos recitados ou cantados no vídeo:

"Ah, meu Deus! Assisto com muita tristeza a pena da aspereza dilacerando a beleza de uma linda sinfonia. A aguarrás de juizes, ciumentos inflexíveis, descolorindo as matizes de uma linda pintura, só porque não gostam da assinatura?"

"E vai com uma bailarina, com a inocência de menina, dançando em volta do sol, a Grande Mãe Terra. Enquanto muitas nações, governos, religiões ensaiam a dança da guerra."

"Na verdade a bola azul quase nunca foi amada; é sempre penalizada. Tem um trabalho enorme, dedicação e talento para preparar a mistura, juntar os seus elementos para dar forma às criaturas, e elas, depois de paridas, desconhecem a matriarca e dizem, mal agradecidas: que a carne é fraca."

"E quando o planeta gera um Avatá, um iluminado assim como o Nazareno, tem logo quem se apresenta com conhecimento profundo e diz logo: não é desse mundo, só pode ser extraterreno."

"Ah, é difícil entender porque é que o homem, até hoje, cospe no prato que come. Algumas religiões, não sei por qual motivo, dizem que a Terra é um território com vocação pra purgatório, não passa de sanatório... E que nós só seremos felizes longe dela, bem distante, lá onde os delirantes chamam de paraíso."

"Olha, eu vou dizer de coração. Na minha simples, dia após dia, me perdoem a liberdade, mas religião de verdade, mais parecida com a que Jesus queria, talvez seja sentimento de ecologia. Para esse sentimento não tem fronteiras e só reza um mandamento: preservação das espécies com urgência, sem adiamento."

"Hoje, ela pensa nas plantas, nos rios, no mar, nos bichos. Amanhã, com certeza, com a mesma dedicação e capricho, pensará com muito cuidado nos meninos abandonados."

"Ah, se ela tivesse mais força para sustentar sua zanga, evitaria, com certeza a fome cruel de Ruanda. Não tinha maturidade, ainda era uma menina, quando a impertinência sangrou, com a bola de fogo, a pobre Hiroshima. Mas ela cresce, se instala como uma prece no coração das crianças. Tenho muitas esperanças..."

"Eu tenho toda a certeza que nosso planeta um dia, mesmo cansado, exausto, terá toda a garantia e guardado por uma geração vigia, nunca mais verá a espada fria no Holocausto."

"A intolerância, repito, é a mais triste das doenças. Não tem dó, não tem clemência. Deixa tantas cicatrizes nas pessoas, nos países, até as religiões, guardiãs da Luz Celeste, abandonam seus archotes para empunhar cassetete. E o que, na verdade, refresca o rosto de Deus, é um leque, que tem uma haste de Calvino e outra de Alan Kardec."

"Na outra haste, as brisas, que vêm das terras de Shivas, são uma, dos franciscanos, e outra, dos beduínos. Não precisa ir muito longe... Jesus nasce entre os rabinos."

"Às vezes corações que crêem em Deus, são mais duros que os ateus. E jogam pedra sobre as catedrais dos meus deuses Yorubás. Não sabem que a nossa terra é uma casa na aldeia, religiões na Terra são archotes que clareiam."

***

Crédito da imagem: James C. Lewis (Olorun, ou Olorum, princípio criador da mitologia dos Yorubás)

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4.9.12

Palavras de Iemanjá dos Navegantes

Há muitas aldeias no mundo
E eu que sinto como o oceano
Fluo e conecto a todas elas
Fluo e preencho o ser humano

Por muito tempo, há muito tempo, criei caçadores ferozes
E amamentei a cada um deles em meu seio;
Por muito tempo, como os navegantes do mar
Despedia-me de meus filhos antes de cada caçada
E chorava junto as suas mães
Por todo caçador que não pôde retornar

Quantas feras, quantos monstros, quanto sangue
Há no horizonte além das aldeias
Foi para cruzar tal horizonte, e capturar tais feras pelos matagais
Que muitas mulheres choraram por seus homens:
Os caçadores ancestrais

E quando meus filhos aprenderam a plantar sementes
Sorrimos eu e o sol, e cuidamos para que minha noite
Desse sempre lugar ao seu dia
E que as estações fluíssem como as correntes do mar
Sempre circulando, e circulando...
A todas as aldeias conectando

Há muitas aldeias no mundo
E eu que trago as chuvas para o chão
Fluo e amamento todas as suas raízes
Fluo e faço o milagre da plantação

Por muito tempo, há muito tempo, cuidamos deste pomar
E fomos não somente mães, mas rainhas xamãs;
Por muito tempo, como os navegantes da mente
Aguardava minhas filhas em sonhos de luz
E chorava de saudade quando vinham a despertar
Pouco antes de o sol nascer, além do mar...

Mas então veio a bonança, e com ela as verduras e os grãos
E as primeiras grandes aldeias, onde nem todos necessitavam caçar;
Houve alguns que acreditaram estar no Céu
Onde todos se davam as mãos...

Mas então vieram também os outros caçadores
Perdidos a vagar pelo horizonte selvagem
Que entravam nas grandes aldeias
Para saquear e matar
Aqueles que não podiam revidar

E quando os outros perdidos se ofereceram para proteger as grandes aldeias
Choramos eu e o sol, e cuidamos para que minha noite
Viesse a refrescar brevemente aos banhos de sangue
Que os primeiros exércitos de homens infligiam uns aos outros
E a própria vida como um todo

Sei disso, pois estou tanto na primeira divisão do óvulo
Quanto na última gota de sangue a se esvair de seus templos...
Quantos cadáveres se amontoaram desde então
Nos campo de batalhas, no entorno das aldeias
E mesmo longe delas, na imensidão?

Há muitas aldeias no mundo
E eu que sou substância como o espírito
Fluo e desperto toda a poesia
Fluo e amo a todos vocês:
Caçadores e xamãs;
Amo-os como mulher
Como mãe
Como todo um oceano
Na mais profunda calmaria

Odoya, Odoya, Iemanjá dos navegantes, senhora do coração, sereia do mar!


Um conto inspirado em Iemanjá. Através de raph em 2012.

***

» Parte da série "Voz dos Orixás"

Crédito da imagem: Google Image Search

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14.5.12

Cangoma a chamar

(atenção: este é um artigo musical, tenha ouvidos atentos)

Shhh... Escute, você ouve este som etéreo, distante? Perecem, parecem tambores... Tambores, e um lamento estranhamente alegre...

O último dia 13 de maio de 2012 foi um dia muito especial. Não pelo dia em si, mas pelo que simbolizou: a união da comemoração do fim legal da escravidão no Brasil, e a celebração do dia das mães. Além de terem caído num mesmo dia, este dia foi um domingo, pois no Brasil se comemora o dia das mães sempre no segundo domingo de maio. Ora, em muitas casas de umbanda, ou casas espíritas e espiritualistas que são simpáticas a umbanda, se realiza uma festa no domingo mais próximo do dia que simboliza a libertação dos escravos no país – ou seja, além de neste ano a festa poder ter sido realizada no próprio domingo em si, ainda foi dia das mães.

Para compreender a importância disso, é preciso retornar alguns séculos no tempo e visualizar a barbárie que os povos europeus, ditos civilizados, realizaram na África. A escravidão não significava apenas o roubo dos adultos mais saudáveis e promissores de um reino ou grupo étnico africano, mas a separação de mães e filhos, e filhos e mães: a pura devastação daquilo que nos é tão sagrado, a família. Deste modo, podemos supor que não era tanto por saudades de sua terra que os escravos choravam, nem tanto por serem açoitados e tratados como animais selvagens, mas antes por terem deixado pais, mães, esposas e até mesmo filhos, em sua terra natal – para jamais os verem novamente, nem sequer receber cartas.

Pensemos nisso quando reclamamos de nossa dor de dente, do time de futebol que perdeu a final do campeonato, ou daquele concurso público em que não passamos, e deixamos de ganhar alguns milhares de reais a mais do que já ganhamos... Os que vieram da África, esses sim tiveram razão do que reclamar.

Mas, como foi... Como foi então que os negros puderam enxugar suas lágrimas, e amenizar sua dor? Como poderia ter sido, que não através do espírito? Pois eles não poderiam sequer escrever cartas que pudessem atravessar o oceano, mas sabiam que enquanto remavam ao Brasil, tinham a Senhora do Mar abaixo, e o Senhor dos Ventos acima – os orixás ainda estavam com eles, e a espiritualidade foi sua ponte entre o Brasil e a África, ponte esta que jaz firme até hoje.

Foi isto mesmo: nós os retiramos de sua terra, os açoitamos e dissemos que nos pertenciam, pois sequer tinham alma... E o com o que eles nos retribuíram? Axé, danças e tambores...

A festa que se realiza no 13 de maio é a festa dos pretos velhos. Pense nisso: hoje a ciência sabe que toda a humanidade migrou da África para o restante do globo, a África é a mãe dos homo sapiens, a nossa mãe. Se um genuíno preto velho é um desses espíritos antigos, é bem capaz de fazer parte do grupo espiritual mais antigo da Terra – a despeito dos outros que migraram de outras casas. Kardec nos alertou que “os espíritos falam apenas do que sabem”, e ele tinha razão; Porém, alguns dos pretos velhos que aparecem para papear em tais festas podem saber muito, muito mesmo, pois são tão antigos quanto os primeiros xamãs, e tão sábios quanto os primeiros filósofos.

E há ainda aqueles espíritos que, cansados de toda a formalidade e prepotência que se encontra em outras doutrinas ditas civilizadas, resolvem aparecer como pretos velhos, de barba branca e encaracolada, olhos profundos como o mar, voz adocicada como a primavera, e arqueados pelos séculos em suas bengalas imaginárias. Sabe-se que o grande Bezerra de Meneses volta e meia aparece como um destes pretos velhos, quem sabe quantos sábios de outrora não preferem se utilizar deste mesmo símbolo, e permanecerem anônimos nas danças de tambor?

Lai ê, lai ê, lai á, disse levanta povo... Ouvem alguma coisa agora? Acho que está vindo lá do fundo...

Vissungos eram os cantos dos escravos utilizados nas lavras de diamante e ouro, ao redor da região de Diamantina, em Minas Gerais. Alguns de seus cantos atestam como o fim da escravidão no Brasil foi muito mais legal do que real, e como foi ser liberto em uma terra que não era a sua, que não era a Mãe África. Embora alguns dos legisladores brasileiros, e alguns dos artistas e pensadores da época, fossem genuinamente simpáticos aos ex-escravos, a maioria não era, e todos sabemos quantas gerações foram necessárias para que eles fossem aceitos como cidadãos, como seres que têm alma e, portanto, direitos.

Mas a alma de alguns deles era imensa, tão imensa que jamais foi embora, e sorrateiramente infiltrou-se em nossa cultura, nossa religião, nosso pensamento... Já disseram que os orixás eram demônios, mas como demônios poderiam compor canções tão belas quanto os cantos dos escravos de Minas, da Bahia, do Rio, do Maranhão?

Clementina de Jesus foi uma grande cantora tardia que, do alto de seus 60 e poucos anos, ainda assim teve o tempo e a vitalidade para nos deixar alguns clássicos da música popular brasileira. Clementina, como neta de uma escrava, cantava com propriedade.

Foi sua voz quem nos resgatou um dos mais belos vissungos de Minas, e que, por ser tão belo e profundo, nos serve como um verdadeiro mantra para a libertação... A libertação dos preconceitos, a libertação da ignorância, a libertação do ego, para que um dia, como os pretos velhos, possamos apenas dançar ao som do tambor, da cangoma [1], e nos esquecer, por um breve momento, de toda a dor do mundo...

Tava durumindo
Cangoma me chamou
Disse: levanta povo,
Cativeiro já acabou!

Agora sim, todos estamos a ouvir... Vamos então cantar, e fazer desse canto um hino de liberdade... Até que todo cativeiro fique para trás, e a nossa frente, apenas a Mãe África, e milhares de pretos velhos a nos saudar.

Áudio de Cangoma me chamou – Mawaca (em 2:00 ouve-se a voz de Clementina, uma gravação inserida na música).

» Veja também Mawaca cantando ao vivo este mantra (do DVD "Para todo canto").

» Ouça Clementina de Jesus no original (esta versão é obviamente muito mais próxima do que se ouvia em Minas).

***

Sentido e escrito por raph, branco de pele, africano de dna, iluminado na alma por alguma luz que não sabe dizer a cor...

[1] Há um tambor grande chamado de cangoma ou angoma. Esse tambor avisa, no registro da canção, o fim da escravidão, como os sinos das igrejas que tocavam avisando e marcando os momentos importantes da vida da comunidade.

Crédito das imagens: Google Image Search

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11.2.12

Play a myth: uma explicação

Faz alguns dias que o blog tem sido infestado por mitos, numa série de imagens que chamei de Play a myth, e que não pareciam ter muita conexão umas com as outras – um mito com o outro –, exceto pelo fato de todas mostrarem, claro, seres mitológicos.

Se eu não comecei a série com um texto introdutório ou explicativo, foi porque simplesmente dessa vez a inspiração chegou de forma bem mais estranha do que o normal. Como alguns devem saber, eu participo de estudos de desenvolvimento mediúnico em um centro espírita ecumênico (ou seja, “aceita” manifestações de incorporação total, umbanda, um pouco de doutrinas orientais, etc.) e, apesar de eu mesmo não incorporar e nem pretender isso algum dia, a minha “fonte de inspiração”, por assim dizer, tem se tornado cada vez mais abrangente e atuante. Há alguns anos, eu precisava buscar ativamente, em meu pensamento e estudos espiritualistas, filosóficos e científicos, sobre o que escrever a seguir neste blog. Mas hoje em dia, pelo contrário, eu preciso é filtrar todas as inspirações que batem minha porta, e busco publicar no blog apenas as mais profundas, na medida do possível, e na medida da minha própria avaliação subjetiva, é claro. Até quando isso vai durar? É uma boa pergunta... Mas, seguindo a minha Verdadeira Vontade, como os ocultistas gostam de dizer, não lido com isso tudo como se fosse algum fardo ou compromisso, pelo contrário: é uma grande e prazerosa brincadeira!

O Textos para Reflexão, antes de ser blog, já era um site que existe na web (inicialmente hospedado na geocities, alguém lembra?) desde meados de 1998 (se não me engano), e surgiu para que eu pudesse expor ao público em geral meus contos e poesias. Era algo simples, mas foi através desse algo simples que conheci a minha atual esposa, e também uma grande amiga e poetisa, a Flávia.

Em 2006 minha grande amiga morreu, passando para o outro lado do véu da via da inspiração... Inicialmente o blog surgiu como uma necessidade minha de voltar a escrever com maior frequência e, também, para publicar alguns poemas meus e alguns poemas dela. Obviamente, o blog tem hoje muitas outras vias de conteúdo e de pensamento. Sinto que a minha amiga também já segue caminhos próprios onde quer que esteja e, portanto, não preciso mais continuar lamentando sua ida (embora a saudade seja o amor que não passa)...

Desde meados de 2010, culminando com a estreia da minha coluna no portal Teoria da Conspiração em 2011, eu que sou um turista de egrégoras, tenho agora também sido visitado por alguns de seus colaboradores que estão do outro lado... Nada assim muito claro, pelo menos por enquanto, mas seria injusto da minha parte eu simplesmente afirmar que tudo o que é publicado nesse blog, que tudo o que chega a minha mente, é fruto apenas de mim mesmo. Na verdade, todo poeta tem esse problema: de saber de onde exatamente sopram os ventos da poesia.

Obviamente que, além disso, o próprio público do meu blog tem crescido e se tornado mais ativo, seja comentando no próprio blog ou através de interações na nossa página do Facebook. E, como digo desde o primeiro post: a reflexão não é somente a minha reflexão (filosófica ou não), ou a sua reflexão, mas a reflexão de todos nós que, por vezes, também influencia diretamente no que eu mesmo escrevo. Apesar de escrever principalmente para “organizar as ideais”, fico feliz de perceber que alguns destes textos que chegam de algum lugar têm conseguido auxiliar alguns daqueles que os leem (inclusive eu).

E foi durante um de meus estudos mediúnicos, em estado de meditação, que a inspiração para esta série chegou de forma inesperada: “vi” (entenda-se: imaginei) a enorme e maravilhosa cabeça de Ganesha, um mito do Hinduísmo, a mover-se lentamente em minha volta, e as palavras “Ganesha Play” apareceram no meu pensamento – com elas, todo o conceito da primeira imagem, e da própria série, já estava pronto e acabado, e eu apenas trouxe isso para esta realidade de bits de informação. Um mito, segundo Joseph Campbell, é algo que nunca existiu, mas que, todavia, existe sempre – este paradoxo pode ser reconciliado da seguinte forma: é óbvio que não existe, na natureza terrestre pelo menos, um ser humano humanoide com uma imensa cabeça de elefante; mas, por outro lado, a iconografia de Ganesha é toda ela um imenso conjunto de símbolos, símbolos estes que existem e sempre existirão, ao menos enquanto existirem mentes com vontade de pensar sobre eles.

Os símbolos nada mais são do que imensas quantidades de informação reduzidas a uma única imagem ou ícone que funciona como uma chave mental para o acesso dessas informações, desde que a pessoa saiba, em seu pensamento, como usar esta chave de uma forma consciente. Você pode perfeitamente substituir a imagem (o símbolo) de Ganesha por uma série de palavras (formadas por conjuntos de símbolos: as letras do alfabeto) a formar uma extensa lista: intelecto, sabedoria, conhecimento, controle dos próprios desejos, força de vontade, refúgio e proteção, realização do verdadeiro eu, auxílio na destruição dos obstáculos da existência atribulada, etc. É claro que, dependendo da interpretação de cada pessoa, e de cada doutrina religiosa, essa lista pode variar imensamente, mas não absolutamente. Ganesha é um conjunto de símbolos, ele serve para que acessemos tais ideias em nosso pensamento, sentimento e intuição, de forma simplificada e cada vez mais potente (o hábito faz o monge).

O grande problema do “uso dos mitos” é quando os entendemos como seres literais (e não metáforas), dispostos a barganhar conosco em troca de “favores espirituais”, “boa sorte”, “boa saúde”, etc. Isso é um problema porque, exatamente, a grande vantagem dos mitos é poder ativar a nossa vontade para que nós mesmos busquemos tais objetivos, que nós mesmos nos tornemos heróis a vivenciar a grande aventura da vida, que nós mesmos nos tornemos, enfim, deuses (“sois deuses, farão tudo o que faço e ainda muito mais” – disse o grande rabi da Galileia [1]). Existe, portanto, um Deus responsável por tudo o que há, e existem todos os outros deuses – alguns em formação, alguns no exercício pleno de seu amor. E os mitos nada mais são do que parte da ponte a ligar uma terra cinzenta, de morte, a uma terra de luz multicolorida, de vida. Talvez auxiliem a manter a ponte de pé durante as tempestades, mas só avançaremos nela com nossa vontade, e nosso amor.

Finalmente, voltando a Ganesha e esta série: somente após ter publicado a imagem de Ganesha é que surgiu a inspiração do mito seguinte, Yeshua, e assim por diante, até que eu tivesse chegado no sexto mito, e tivesse compreendido que estava, afinal, a escolher os seis patronos deste blog [2]. Agora, além do torii (um portal, símbolo xintoísta que também é símbolo deste blog) por onde todos são convidados a adentrar neste jardim de reflexões, surgem seis deuses, seis mitos, seis grandiosos símbolos entalhados em menires de pedra, arrastados sabe-se lá de onde até a longa planície de grama verde a saudar o sol. E são eles:


Ganesha
Representando a atividade intelectual, a razão conectada ao Cosmos, a busca pela filosofia e pela ciência livres de ideias preconcebidas, a fé irmanada à razão, o crer para compreender e o compreender para crer.

Yeshua
Representando o grande sábio, e não algum messias que veio sangrar por nossos supostos pecados. O maior exemplo de amor, compaixão e comunhão com o Cosmos que nossa mitologia registrou. O sol que atravessou invicto a noite escura de todas as almas.

Iemanjá
Representando o sentir além do que se é capaz de racionalizar, a beleza e a fecundidade dos mares e de todos os seres femininos, a poesia abrangente a nos cercar como uma ilha de náufragos é cercada pelo mar.

Gandalf
Representando a magia, o ocultismo e o grande chamado do Infinito para que sigamos sempre em busca do próximo horizonte. A aventura derradeira, a primeira aventura, a aventura sem fim. Os seres de cima que vem trabalhar nos territórios de baixo.

La Santa Muerte
Representando a transitoriedade e impermanência, a embarcação que mais dia menos dia atracará no porto de cada alma, e que deve ser aguardada conforme os estoicos recomendaram. O renascimento vindouro, e a possibilidade de que uma nova vida, e um novo pensamento, surjam sempre.

Maitreya
Representando a grande renovação espiritual que todos ansiamos sempre. O chegar para buscar e o buscar para chegar. As crianças que não vem de nós, mas através de nós, na ânsia da vida por si mesma. O novo que, a despeito dos conservadores e aqueles de mente fechada, sempre virá.


Jogue, represente, interprete, brinque: play a myth

Obs: está série irá continuar, com imagens de outros mitos, apenas os próximos não farão parte deste grupo de patronos acima.

***

[1] João 10:34; João 14:12 (NT).

[2] Eu espero que, a essa altura, você compreenda perfeitamente que eu não estou a criar uma estranha religião politeísta, mas apenas agregando simbologia a um blog.

» Ver todos os posts da série Play a myth


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8.2.12

Iemanjá Play

» Parte da série: Play a myth

Joseph Campbell dizia que um mito é algo que nunca existiu, mas que existe sempre. Seres mitológicos, a despeito de em alguns casos se basearem em personagens históricos reais, são em verdade conjuntos de símbolos. Alguns os usam como lembrete de feriados, outros para sintonia de bons pensamentos. Apenas alguns poucos os incorporam, e tentam ser como heróis, fazendo de sua vida uma aventura épica...

Jogue, represente, interprete, brinque: play a myth.

***

(clique na imagem para abrir em tamanho maior)

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***

Crédito da imagem: Rafael Arrais + Google Image Search

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29.1.12

Para ser um médium, parte 4

« continuando da parte 3

Estudos místicos trazem consigo, assim como a música ou poesia – embora em grau muito mais elevado –, uma estranha euforia, como se nos levassem para mais perto de uma poderosa fonte de Ser, como se estivéssemos finalmente na iminência de desvendar o segredo que todos buscamos. (William James em Variedades da experiência religiosa)

Anjos de cima, demônios de baixo

O termo misticismo é uma das palavras mais mal empregadas na linguagem popular. O filósofo americano William James, um dos fundadores da psicologia, observou que ele se tornou abusivo, geralmente sendo aplicado a “qualquer opinião que tomemos como vaga, exagerada e sentimental, e sem base nos fatos ou na lógica”. Em Mysticism, a escritora britânica Evelyn Underhill nos trouxe uma explicação mais profunda acerca do termo [1]:

“O misticismo [...] não é uma opinião: não é uma filosofia. Nada tem em comum com a busca de conhecimento oculto. Por um lado, tampouco é apenas o poder de contemplar a Eternidade: por outro, não se deve identificá-lo com qualquer tipo de esquisitice religiosa. É o nome desse processo orgânico que envolve a perfeita consumação do Amor a Deus: a realização aqui e agora da herança imortal do homem. Ou, se preferirem – pois significa a mesmíssima coisa –, a arte de estabelecer nossa relação consciente com o Absoluto.”

Podemos, talvez, dizer que os transes mediúnicos, em seus diferentes graus, fazem parte do misticismo conforme delineado por Underhill. Pode parecer estranho que o contato com outros seres seja algo análogo ao contato com Deus – mas, no fundo, um dia talvez você também compreenda: o Reino de Deus já preenche a tudo desde sempre, e ao nos dedicarmos ao contato, a amizade, a compaixão, ao amor, com outros seres, vivos ou “mortos”, estamos aos poucos nos aproximando cada vez mais de Deus, mesmo que não o compreendamos muito bem.

Ainda assim, é preciso analisar cuidadosamente os pensamentos e sentimentos que nos assaltam a mente durante tais experiências, ou mesmo fora delas. Pois é preciso nos assegurar que estamos nos dedicando a mediunidade por uma boa razão, e não por uma razão egoísta – que ao contrário de nos aproximar do Absoluto, nos afasta. O maior perigo para um médium é algo que costumeiramente nos passa de forma desapercebida, de modo que mesmo os médiuns com décadas de atividade podem estar ainda afundados nesse problema sem que o percebam. Na falta de um nome melhor, eu o chamo de “complexo de santo”...

Você pode achar que isso só ocorre com os médiuns “ignorantes”, mas mesmo Divaldo Pereira Franco, um dos grandes expoentes do espiritismo no Brasil, admitiu que no início de sua mediunidade queria “se sacrificar pela causa”, até mesmo com a própria vida... Esse tipo de pensamento é muito próprio do meio religioso, particularmente no cristianismo e islamismo – parece haver um “céu assegurado” para os mártires, os profetas, os santos, e para ser um santo todo sacrifício seria válido!

Mas a questão é que, infelizmente, muitos recaem no “complexo de santo” não por um sentimento genuíno de entrega aos desígnios da espiritualidade, mas simplesmente por um motivo bem mais mundano e egoísta: ora, da mesma forma que um aspirante a ator quer ser um grande astro de Hollywood, um aspirante a espiritualista quer ser um grande santo. Desnecessário dizer: é o talento e a ardorosa dedicação que constrói um grande artista e, da mesma forma, é a disciplina e a lenta e constante afloração do amor que constrói um santo. De modo que um santo jamais se considera um santo – são os outros que o chamam assim. Pense nisso: quanto antes perceber que os espíritos de cima querem amor, e não sacrifício, tanto melhor...

Além deste conselho primordial aos que se iniciam na mediunidade, acredito que alguns outros sejam também importantes, embora secundários:

Não se vira médium ativo da noite para o dia
Apesar de já ter tocado neste assunto ao longo da série de artigos, é algo importante de ser lembrado: se você é um médium iniciante, principalmente se for ainda ignorante da parte teórica de sua doutrina espiritualista (seja espiritismo, umbanda sagrada ou outras) e/ou se sua mediunidade lhe causa desequilíbrio e desconforto emocional (nos mais variados graus) [2], jamais aceite convites de dirigentes ou coordenadores de casas espiritualistas para “começar a trabalhar na semana seguinte” (ou em qualquer período de tempo muito curto).
Rejeite respeitosamente a oferta, e não se sinta desafiado se lhe disserem que “precisa começar a trabalhar logo, pois seu mentor espiritual assim o quer”, ou ainda que “precisa começar a trabalhar, do contrário coisas ruins se sucederão na sua vida”, etc. Na verdade, se insistirem muito, seria melhor você procurar alguma outra casa espiritualista... O ideal é que procure primeiro as aulas teóricas, caso existam, ou pelo menos informações acerca de alguns livros que poderia ir lendo em casa enquanto frequenta a casa espiritualista (notadamente, os de Kardec, que em todo caso você já pode ler por conta própria desde hoje).
Mas, independente da parte teórica, que nem sempre é a essencial, é preciso que desenvolva sua mediunidade de forma gradual. Ou seja: em reuniões frequentadas apenas por médiuns experientes e “discípulos”, de modo que algum “mestre” possa lhe auxiliar no afloramento gradual de sua mediunidade. Assim, quem sabe após uns 6 a 12 meses, você já possa efetivamente começar a atender o público como um médium da casa. E, quem sabe, após uns 10 a 15 anos, você descubra coisas dentro de você mesmo, e no Cosmos ao redor, que jamais teria imaginado conhecer um dia...

Não se vira um médium comprando manuais de conhecimento oculto
Apesar de acreditar que a maioria das casas espiritualistas seja idônea, não podemos ignorar que existem “espertalhões” por aí, principalmente no meio religioso. Fuja de qualquer casa que procure lhe vender “manuais de conhecimento oculto” (do tipo que não se encontra em livrarias comuns) e/ou cobre quantias fora do normal por suas aulas teóricas... Na verdade, a imensa maioria das casas espiritualistas sequer cobrará alguma coisa. Algumas podem lhe pedir uma contribuição mensal de, quem sabe, até uns 20 reais, para cobrir despesas com manutenção e contas de água e luz. Outras podem lhe pedir que compareça a almoços beneficentes ou a palestras pagas de tempos em tempos – mas desconfie de quaisquer valores exorbitantes, dízimos (valores percentuais baseados em sua renda mensal) ou pedidos extraordinários de doações materiais (como doar uma TV LED, ou qualquer coisa relativamente cara).
Dito isso, se você por acaso goza de boa situação financeira e sente a vontade genuína de ajudar materialmente a casa espiritualista que frequenta, sinta-se a vontade (doações de ar condicionado, por exemplo, seriam muito bem-vindas na maioria das casas).

Faça caridade
Alguns médiuns podem, pelas mais variadas razões, se abster de desenvolver sua mediunidade, e não há nenhum problema específico nisso (nem nenhuma futura “punição” de Deus ou de algum mentor espiritual). No entanto, a caridade é algo que todos, sem exceção, podem e deveriam pensar seriamente em fazer.
A grande maioria das casas espiritualistas tem atividades semanais, quinzenais ou mensais de caridade. Seja visitar um hospital, um asilo, uma creche, uma instituição de doentes mentais, etc. Embora não necessariamente a caridade seja “a única salvação” – embora muitos espíritas a entendam dessa forma –, ela é sem dúvida muito, muito importante para o afloramento da empatia e, por consequência, de nossas potencialidades no amor. E são essas potencialidades, mais do que quaisquer outras, o grande objetivo, o grande sentido de estarmos retornando a Terra por tantas vezes, aprendendo a amar: uma vida de cada vez.
A visita a instituições de doentes mentais pode ser particularmente reveladora para os que ainda têm dúvidas do alcance efetivo da própria mediunidade. Afinidades quase que instantâneas poderão surgir, e talvez um dia compreendam toda a beleza que há nisso tudo.

Esteja preparado para a descida...
No atendimento aos “mortos”, mesmo durante as sessões de desenvolvimento mediúnico, e particularmente nas que envolvem médiuns de incorporação total [3], desde o início ficará muito claro que a intensidade da dor e da angústia trazidos pelos espíritos em desequilíbrio é alguns graus de magnitude superior a toda a dor e angústia que você algum dia pensou existir na Terra. As dores da alma não se comparam as dores do corpo físico, sobretudo quando o espírito passa para o outro lado do véu ignorante, sem fazer ideia do sistema de reencarnação e, muitas vezes, crendo piamente que suas dores serão eternas...
Não acho necessário entrar em detalhes, até porque palavras são apenas cascas de sentimento, e seriam incapazes de lhe transmitir o tipo de dor de que estou falando. Mas, esteja preparado para a descida ao pântano negro e pegajoso de desejos desenfreados e escuridão da alma – ou, em outras palavras, esteja preparado para descer ao inferno.
Dependendo da casa espiritualista e do tipo de trabalho espiritual realizado nela, pode ser que esse tipo de coisa jamais ocorra, ou ocorra raramente – por outro lado, principalmente nas casas mais engajadas na real caridade espiritual, esse tipo de coisa é até mesmo trivial, de modo que, infelizmente, somos obrigados com o tempo a aceitar que os seres fazem suas escolhas, e arcam com as consequências... Simples assim.
Para os seres aturdidos com seus pensamentos obsessivos, complexos de culpa e lembranças contínuas de seus atos pregressos de ignorância do bem, toda e qualquer luz que chega do alto é, quase sempre, muito bem vinda – ainda que eles muitas vezes não aceitem tal luz de início, se não os julgarmos, se tivermos a devida compaixão que efetivamente merecem (a compaixão que Deus têm nos ensinado), com o tempo aceitarão beber de nossa água, e quem sabe, poderão mesmo ter uma nova chance ainda antes do previsto.
Para os demônios de baixo, nós seremos os anjos de cima. E, ainda que isso seja obviamente um absurdo – pois sabemos que de anjos não temos nada (ou deveríamos saber) –, de certa forma, nos pântanos lodosos das dores antigas, nós de alguma forma somos mesmo anjos. Nessas ocasiões divinas, é importante lembrar que um dia, nalguma vida, estivemos em situação muito semelhante, ou até pior, a situação daqueles seres que naquele momento nos imploram ajuda... Então talvez percebamos que é o inferno, e não o céu, o local de trabalho de todos os anjos do Cosmos.

» A seguir, concluindo a série: a reforma íntima...

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[1] Este livro será o próximo lançamento digital da Editora Alta Cultura, uma tradução de meu amigo Alfredo Carvalho. O título traduzido, como era de se esperar, será Misticismo.

[2] A mediunidade é uma potencialidade sagrada, e não deve jamais ser compreendida como um “fardo”. Existe a mediunidade e o desequilíbrio mental, e embora eles possam andar juntos, particularmente nos médiuns iniciantes, não devem ser compreendidos como “a mesma coisa”, nem mesmo como “coisas que não existem em separado”.

[3] A incorporação total é uma forma de mediunidade ativa que, ironicamente, pode envolver a passividade total do próprio médium. Muitos sequer se lembram do que ocorreu enquanto estavam “desligados de si”, ou seja, enquanto outros espíritos ocupavam suas mentes e boa parte das funções motoras de seus corpos. Mas o ideal seria tentar manter a consciência, ou semiconsciência, de tudo o que ocorre durante a incorporação.
Há muitas casas espiritualistas mais “ortodoxas” (principalmente as casas espíritas) que não irão aceitar incorporações de seus médiuns – apesar de às vezes elas ocorrerem de maneira “forçada”, ou sem que os próprios coordenadores percebam (em médiuns particularmente hábeis)... Se você tem algum receio de participar de sessões onde há incorporação (ainda que você mesmo não seja, de forma alguma, “obrigado” a incorporar), a melhor coisa é procurar uma casa espiritualista onde não exista esta prática. Ou seja, usualmente o trabalho envolverá apenas orações, música, passes magnéticos e, por vezes, psicografia ou psicopictografia.

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Crédito da imagem: Jari Schroderus

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