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19.7.18

Há uma religião verdadeira?

Hoje estreia em nosso blog mais uma colunista. Com vocês, Wanju Duli:


“A grande diversidade de religiões que existe no mundo dá origem ao que, na filosofia da religião, costuma ser chamado de problema do pluralismo religioso. A existência de ampla diversidade religiosa em várias culturas inevitavelmente nos obriga a perguntar quais são as implicações dessa diversidade para a verdade da religião em geral. Será que o fato de haver uma variedade de religiões no mundo significa que, de alguma forma, uma religião é tão legítima quanto qualquer outra? Ou significa que nenhuma delas pode pretender ser a detentora da verdade?”

(Religião. Conceitos-chave em filosofia, por Brendan Sweetman)

Nessa postagem eu irei me basear essencialmente no referido livro. Algumas vezes eu irei resumir conceitos apresentados nele. Porém, em boa parte das vezes irei reproduzir parágrafos inteiros da obra (entre aspas), tendo como finalidade que o argumento seja apresentado de forma mais detalhada, uma vez que o autor é um filósofo que conhece o tema em profundidade.

Brendan Sweetman apresenta três visões possíveis para responder a pergunta “Há uma religião verdadeira?”. São elas: exclusivismo religioso, pluralismo religioso e inclusivismo religioso. Iremos analisar cada uma delas.

Exclusivismo Religioso

Essa é a visão de que o caminho correto para a salvação só pode ser encontrado em uma religião. A posição estreita sustenta que só uma determinada denominação pode alcançar a salvação. A posição ampla aponta que membros de uma religião específica (digamos, cristã, independente do tipo de cristianismo) será salva.

Os exclusivistas religiosos de hoje se opõem ao termo “exclusivismo”, sugerindo em vez disso o termo “particularismo” (mais neutro).

Os exclusivistas defendem que pode haver verdades profundas em outras religiões, mas que não se pode alcançar a salvação seguindo a religião errada.

Para eles, o trabalho missionário é muito importante. Afinal, estaria em jogo a alma eterna das pessoas.

Quais são os argumentos dos exclusivistas? Primeiro, eles defendem que é razoável acreditar em Deus, usando argumentos da teologia natural. Uma vez que Deus existe, seria razoável esperar que ele revele seus planos aos seres humanos. Assim, seria preciso investigar, na história, evidências dessa revelação. Seria feita a análise das várias candidatas à verdadeira revelação e a argumentação que uma delas seria superior às outras (incluindo análise textual, teologia moral, argumentos filosóficos, etc).

Eles defendem que, por uma simples questão de lógica, nem todas as religiões do mundo podem ser verdadeiras. Mesmo que exista alguma verdade em todas elas, ainda há contradições diretas, de modo que algumas dessas religiões devem estar erradas em determinadas questões. Poderia ser o caso de que todas estivessem erradas, mas mesmo assim uma delas poderia muito bem estar mais próxima da verdade do que as outras.

O exclusivista muitas vezes rejeita as críticas modernas ao exclusivismo, alegando que muitos estão intimidados pelo multiculturalismo e pelo politicamente correto, evitando fazer perguntas difíceis sobre pontos de vista diferentes, com medo de ofender os outros. Dessa forma, os críticos do exclusivismo evitariam uma exploração mais profunda sobre a questão.

Quais são os argumentos contra os exclusivistas? Uma objeção é que, embora a lógica por trás da posição exclusivista tenha sentido, não seria possível fazer um julgamento preciso e razoável sobre qual seria a religião mundial verdadeira. Há muitos aspectos obscuros sobre evidências históricas, datação de textos, relatos de testemunhas, etc.

Outra objeção é a de que muitos não veem dificuldade lógica nem teológica na visão de que Deus pode ter se revelado de diferentes maneiras em diferentes religiões. Os exclusivistas rejeitam essa visão porque não veem dificuldade para um Deus poderoso se revelar substancialmente da mesma maneira para culturas diferentes. Por que ele chegaria ao ponto de revelar mensagens diferentes?

Uma das razões mais fortes para se rejeitar o exclusivismo segundo seus críticos é que ele parece muito injusto para os membros das religiões equivocadas. E sobre os que não seguem a religião correta por nunca terem ouvido falar dela?

A isso os exclusivistas respondem com o argumento do “conhecimento intermediário de Deus” , conhecido como “molinismo”. Segundo essa visão, além do conhecimento passado, presente e futuro, Deus também tem um conhecimento intermediário e sabe o que você teria feito se tivessem sido apresentadas às opções certas em sua vida. Para muitos, essa é uma doutrina especulativa, incompatível com o livre-arbítrio humano.

Pluralismo Religioso

É a visão de que há muitos caminhos diferentes à salvação nas várias religiões e todas têm certa legitimidade. Um forte defensor dessa visão é John Hick, que foi fortemente influenciado pela metafísica de Kant.

Kant distinguiu o mundo numênico e o fenomênico, que é o mundo como ele é e como aparece a nós. Ele afirmou que só conhecemos o mundo fenomênico, que, embora se baseie no mundo numênico, é modificado de forma significativa no ato do conhecimento. A mente humana não poderia escapar a esses atos de alteração com o objetivo de conhecer o mundo tal como ele é.

Hick argumenta que a natureza da realidade de Deus ou Realidade Última equivale ao mundo numênico. Em sua perspectiva limitada, os humanos tentam descrever o numênico, o que daria origem às diferentes religiões. De acordo com Hick, nenhuma delas detém toda a verdade sobre o Real, porque isso é impossível, mas cada uma delas tem uma perspectiva legítima sobre o Real, e por isso nenhuma religião pode pretender ser mais verdadeira ou alegar ter o caminho verdadeiro para a salvação. Isso é verdade, Hick argumenta, mesmo quando as religiões se contradizem, pois cada religião estaria tão distante de uma descrição correta do Real que as diferenças seriam irrelevantes. Elas seriam mais bem descritas como “distorções”, já que representam uma verdade que estaria muito além da compreensão humana.

Para mostrar como isso funciona, Hick e muitos pluralistas apelam para a história dos cegos e do elefante. Sua visão se tornou atrativa a muitos e é motivada por várias ideias atrativas à mente moderna: a liberdade de cada um de escolher sua própria visão de mundo, a rejeição da verdade literal das reivindicações religiosas, o aumento do relativismo moral e o desejo de não ter uma postura de julgamento em relação aos outros.

No entanto, é uma visão que vem com sérios problemas. Ela recorre a uma epistemologia antirrealista, como a de Kant, ou a um ceticismo em relação à possibilidade de os seres humanos conseguirem conhecer a verdade sobre qualquer coisa em sua experiência. Embora tenha popularidade hoje, em várias disciplinas acadêmicas (e tenha penetrado na cultura popular), devido aos problemas dessa posição epistemológica muitos relutam em se comprometer com ela.

Segundo Brendan Sweetman:

“Um problema enfrentado pela visão kantiana é que ela parece contraditória, pois está dizendo, por um lado, que, como ilustra claramente o exemplo do elefante, não há perspectiva final a partir da qual possamos julgar qual religião mundial possa ser verdadeira. Por outro lado, o próprio Hick está assumindo uma perspectiva maior, pois nos apresenta uma descrição de como as coisas realmente são! Em outras palavras, Hick está dizendo que a mente humana não consegue escapar do mundo fenomenal para descrever o mundo numênico e, ainda assim, é capaz de nos apresentar uma descrição supostamente verdadeira da realidade (e não uma descrição modificada pela mente): a de que ela consiste dos mundos numênico e fenomênico e de uma relação específica entre eles. Isso é uma contradição no âmago de todas as teorias antirrealistas: a pessoa que propõe a teoria sempre consegue escapar das estruturas relativizantes e da mente cognoscente, das quais o autor defende que ninguém pode escapar! O pluralismo também flerta abertamente com o ceticismo em relação ao conhecimento, porque se baseia na visão de que não é possível examinar as religiões do mundo da forma defendida pelo exclusivista — para ver qual delas tem mais probabilidade de ser verdadeira. Vai mais longe, argumentando que as afirmações factuais diretas nas religiões mundiais são todas falsas, como a de que Jesus ressuscitou dos mortos ou de que o anjo apareceu a Maomé, e são mais bem entendidas como metáforas para expressar o Real. Portanto, a literalidade da maioria das afirmações religiosas — que está no centro de quase todas as religiões — teria de ser abandonada. Então, para um cristão pensar que Jesus era Deus e realmente ressuscitou dos mortos para salvar a humanidade e que devemos, portanto, orar a Deus, essas crenças não devem ser consideradas literalmente verdadeiras, de acordo com Hick, e sim ‘perspectivas’ sobre o Real, que é, em si, incognoscível. E o mesmo acontece com todas as religiões. É fácil ver como essa visão convida ao relativismo e ao ceticismo sobre a religião em geral, e seria difícil distinguir do ateísmo”.

“Os pluralistas, muitas vezes, respondem a essas críticas dizendo que, na religião, o que importa não é tanto em que você acredita, mas como vive, ou, nas palavras de Hick, o que importa é que a religião possa transformar a vida de uma pessoa, de autocentrada a centrada em Deus. Se você seguir o código moral correto em sua vida, vai encontrar a graça aos olhos de Deus, independentemente de suas crenças metafísicas, teológicas e doutrinárias (e por isso essa abordagem pluralista também teria espaço para secularistas e ateus). Essa é uma visão pela qual mesmo quem não é pluralista tem alguma simpatia, mas parece que seria necessário que soubéssemos qual é a maneira certa de viver (isto é, que saibamos o que significa ter uma vida centrada em Deus). Contudo, parece que para isso teríamos que ser capazes de fazer duas coisas que os pluralistas acreditam não poder ser feitas. Primeiro, teríamos que conseguir julgar as várias religiões de acordo com seus códigos morais, mas, se pudermos fazer isso com os códigos morais delas, por que não poderíamos fazer o mesmo com suas características teológicas, sociológicas e históricas? Em segundo lugar, de modo mais geral, teria de ser possível saber qual é a verdade objetiva na moralidade e, se pudermos conhecer a verdade objetiva na moralidade, por que não podemos conhecê-la em outras áreas do conhecimento, como história, teologia e descrições da revelação?”

“O pluralismo, em suma, é ‘exclusivista’ à sua maneira, no sentido de que o pluralista quer que o exclusivista e o inclusivista aceitem a sua visão como verdadeira, e não apenas em geral, mas também em relação ao que está envolvido em viver uma vida centrada em Deus. O pluralista acredita que tem a resposta correta a isso e que as outras respostas estão incorretas. Em outras palavras, na história do elefante, o pluralista é o homem com visão, que consegue ver o quadro inteiro, incluindo a natureza do Real (o elefante), mas todos os outros são cegos! Se não fosse esse o caso, o pluralista não poderia saber que as descrições do Real apresentadas pelos cegos eram distorções inadequadas. Esses problemas são graves para o pluralismo e tem levado muitos a propor um meio-termo entre exclusivismo e pluralismo”

Inclusivismo Religioso

“Muitos consideram graves os problemas identificados tanto no exclusivismo quanto no pluralismo e, assim, gravitam em torno de uma visão que nos permita dizer tanto que a salvação pode ser alcançada em muitas religiões diferentes, mas que, no entanto, nem todas as religiões podem ser verdadeiras. Ainda pode haver apenas uma religião verdadeira. Essa visão é conhecida como inclusivismo religioso. Os inclusivistas afirmam que há apenas uma visão verdadeira de como a salvação pode ser alcançada, mas que pessoas de diferentes religiões podem ser salvas por causa da natureza dessa visão da salvação. Por exemplo, um inclusivista cristão acreditaria que a morte e ressurreição de Jesus Cristo tornam a salvação possível, não apenas para os cristãos, mas também para os membros de outras religiões. Isso é verdadeiro mesmo se os membros das outras religiões não reconhecerem Jesus ou o cristianismo: é verdade mesmo se eles acharem que Jesus não foi Deus ou que as principais afirmações do cristianismo são falsas. O teólogo católico Karl Rahner (1904–1984) e o filósofo católico Jacques Maritain (1882–1973) tinham, ambos, essa concepção”.

“O inclusivismo é atrativo para a mente moderna, porque parece preservar os pontos fortes das outras visões, evitando as suas fragilidades, mas não está isento de críticas”.

Os exclusivistas rejeitam a ideia de que não podemos investigar quais religiões do mundo provavelmente sejam verdadeiras. Também não concordam em afirmar que não há necessidade de conexão real ou essencial entre a doutrina e as crenças teológicas da religião e as suas crenças morais (como se as crenças teológicas e doutrinárias fossem falsas, mas as morais não fossem afetadas). Essa posição seria negativa para o ponto de vista lógico e enfraqueceria a posição geral da religião no debate com o secularismo, principalmente na política.

Os pluralistas, por outro lado, também não são entusiastas do inclusivismo, porque têm problemas com a ideia de que podemos descobrir qual religião é verdadeira, o que é preciso fazer para quem quer ser inclusivista. Mas reconhecem seu valor pragmático, tornando o debate de qual religião é verdadeira menos premente e menos polêmico.

Conforme Brendan Sweetman:

“Outra dificuldade para o inclusivita é que, para dizer que as pessoas de outras religiões podem ser salvas, deve-se apresentar alguma visão do que é a salvação para que a visão inclusivista tenha qualquer conteúdo e não continue a ser uma abstração vaga e impraticável. Isso vai envolver tanto uma visão teológica de salvação quanto alguma visão da vida moral correta que é necessário para a salvação. Também exigirá um argumento de que não é preciso acreditar na visão teológica para ser salvo, que viver moralmente é o suficiente, e que Deus é revelado de forma imperfeita em várias tradições religiosas. Mesmo se não pudermos chegar a um acordo sobre a visão teológica, a visão sobre a maneira correta de viver parece ser urgente, ou cairíamos rapidamente no relativismo moral”

“Concluindo, não nos esqueçamos de que todas as visões que abordamos exigem algum trabalho missionário, porque os seus defensores precisam converter os outros ao que consideram a posição correta sobre a questão da diversidade religiosa, e, como vimos, essa tarefa parece exigir que se saiba o que é verdade em matéria religiosa, pelo menos em algum nível. Essa última questão ilustra mais uma vez porque o problema do pluralismo religioso é um assunto fascinante, mas complexo, para as várias religiões do mundo moderno”.

Wanju Duli é escritora – Contato: facebook.com/WanjuDuIi

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Crédito das imagens: [topo] Android Jones; [ao longo] wikimedia.org

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25.5.17

A verdade

Nós, seres que refletem sobre o Cosmos, temos um problema com a verdade: nos parece que, quanto mais a cercamos com as mãos, mais ela escapa por nossos dedos, nos mostrando que moramos numa praia ainda maior e mais cheia de pequeninos grãos de areia do que um dia ousamos imaginar...

Disse o Rabi da Galileia, “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Analise esta frase de forma puramente racional, e me diga então o que seria a verdade: um homem? Um deus? Uma doutrina? Um livro, onde tais palavras foram registradas? Ora, ainda que consiga responder a tais questões, esta resposta será a sua, servirá somente para você, baseada na sua interpretação da vida, e de ninguém mais. Ainda que existisse mesmo um Manual da Verdade Absoluta, isto não nos diria nada sobre a verdade: pois caberia a cada um de nós interpretar suas palavras a sua maneira.

Vejamos um exemplo, “Disciplina é liberdade”... Diga isto para um policial militar ou um operador de tráfego aéreo e ele provavelmente discordará veementemente – é justamente a supressão da liberdade de fazer o que bem entender, e seguir regras e normas rigidamente estabelecidas, o que permite que cumpram o seu serviço da maneira que deve ser cumprido, para que o menor número possível de pessoas inocentes morra em decorrência de assaltos ou acidentes. Diga a mesmíssima frase para um zen budista, ou alguém que, através da domesticação dos desejos desenfreados da mente, encontrou a sua verdadeira vontade, e ele não só concordará, como abrirá um largo sorriso com o coração – um coração livre.

Mas, estranho de se pensar, e se encontrarmos um budista militar, não haverá momentos em sua vida em que ele precisará seguir normas rígidas de disciplina de guerra e paz, independentemente do que diga o seu coração durante tais períodos? E se o sonho da sua vida fosse justamente o serviço militar? E se ele se sente tão bem cumprindo aquelas ordens patrióticas que, ao mesmo tempo em que às cumpre, ainda se sente o homem mais livre do mundo? Há muitos que compreendem os soldados como agentes de guerra e de morte, mas em princípio o bom soldado é justamente aquele que, em todos os momentos, busca o caminho mais breve possível para a paz, e zela por ela, e a abençoa, e agradece por não ter de disparar nenhum tiro em toda a manhã em que o sol nasce em terras livres.

A verdade, portanto, é algo que nós, os seres que refletem sobre o mundo, interpretamos – algo que até hoje nenhuma máquina foi capaz de realizar. A verdade não é algo que se imprime na página de um livro ou se escreve em equações complexas, mas talvez se pareça mais como um poema de luz recitado por aqueles mais loucos dentre nós, os poetas que habitam este mundo, mas conseguem por vezes entreolhar outros mundos por entre as frestas entre os dedos, sempre que apanham mais um bocado de areia desta praia infinita...

Nos dias de Einstein, por exemplo, ainda se acreditava, cientificamente, que o Cosmos era eterno, que não teve início nem teria fim, e que jamais poderia estar se expandindo. Foi Georges Lamaître, padre e astrônomo belga, quem propôs primeiramente a teoria que, de tão absurda para a época, foi rotulada de forma sarcástica por um radialista daqueles tempos como Big Bang, ou “a grande explosão”. Somente muitos anos depois, após a descoberta da radiação cósmica de fundo, que fora prevista pelos cosmólogos que defendiam a teoria, é que ela foi alçada de vez ao status de teoria científica mais aceita para o início do universo, e dentre os físicos atuais são raríssimos aqueles que levantam algum questionamento relevante acerca da sua validade.

No entanto, não foi à toa que muitos cientistas da época a questionaram: era de fato uma verdade bíblica demais para ser realmente verdade. Um universo inteiro que cabia na ponta de um alfinete ou num ovo cósmico primordial, e que se expandiu para se tornar tudo o que há... Como pensar cientificamente sobre algo assim? Como bem resumiu Terrence McKenna: “A ciência moderna se baseia num princípio: dê-nos um milagre espontâneo e a gente explica o resto. Este milagre se chama Big Bang”.

Claro, muitos cientistas hoje se justificam dizendo que este universo pode muito bem ser apenas um de infinitos outros universos de um vastíssimo multiverso, e isto parece acalmar suas inquietações... No entanto, não somente o multiverso não pode ser empiricamente comprovado (como Javé ou Ganesha ou os discos voadores), como a sua preposição por si só não chega a resolver o problema lógico: e de onde surgiu o multiverso? Claro, podemos nos acalmar pensando que o multiverso, ou o Cosmos, é tudo o que é ou foi ou será, incriado, infinito e eterno. Einstein, Espinosa e tantos outros bem mais antigos ficariam satisfeitos, mas quem poderá dizer que esta é a verdade derradeira, absoluta?

Estamos aqui brincando nas margens deste grande oceano cósmico, profundo e desconhecido, e por vezes nos encantamos com a quantidade de grãos e pedrinhas que catalogamos nesta vasta areia a refletir o sol, mas o encanto logo logo se transforma novamente em espanto, quando a areia escorre totalmente da mão, e vemos que a nossa frente há ainda um mar infindável de descobertas por serem feitas, um mar cada vez maior.

O Rabi também nos disse que “somos deuses”, e noutra parte dos Evangelhos, nos revelou que “dia virá em que faremos tudo aquilo que ele tem feito, e ainda muito mais”. Se ele já andou sobre as águas deste mar, se já velejou fundo em seu barquinho, se já mergulhou e nos trouxe peixes para alimentar a nossa fome espiritual, não é porque devemos nos contentar com olhar e aplaudir, mas porque devemos arregaçar as calças e segui-lo, mar adentro.

E assim, velejadores de nós mesmos, também seremos o caminho, a verdade e a vida, e que cada um interprete isso como seu coração achar melhor, pois que em realidade eu lhes digo: não há outra forma de verdade.


A fonte secreta de suas almas precisa brotar e desaguar pelos córregos murmurantes até o mar; e assim o tesouro de suas profundezas infinitas seria revelado aos seus olhos abertos.
Mas não usem balanças para pesar tais tesouros desconhecidos; e não busquem explorar as profundezas de seu conhecimento com uma vara ou uma sonda, pois o Eu é um oceano sem limites e imensurável.
Não digam, “Encontrei a verdade”, mas sim, “Encontrei uma verdade”. Não digam, “Encontrei o caminho da alma”, mas sim, “Encontrei a alma andando em meu caminho”. Pois a alma anda por todos os caminhos.

(Khalil Gibran, trecho de O Profeta)

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Crédito da imagem: Steve Halama/unsplash

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18.9.12

Citações (8)

Algumas citações minhas e de outros autores. Elas geralmente já terão aparecido anteriormente na página do Textos para Reflexão no Facebook...


De nada adianta termos a nossa frente a Verdade escrita, se não soubermos interpretar seus símbolos, seus signos... Poesias chegam mais perto, mas ainda assim são essencialmente compostas por essas cascas de sentimento...

"O poeta finge ser dor a dor que deveras sente; e quem o lê, na dor lida se sente bem; mas não nas duas que teve o poeta, e sim na dor que eles não têm" - porque a dor é uma experiência. Mas o amor também é uma experiência.

Somente o pensamento pode, quando conectado a tais mistérios, ao mesmo tempo sentir e conseguir retirar deste fruto a sua casca, e trazer cascas de sentimento para o papel... Ainda assim, somente o poeta sabe o que sentiu - o que escreve é um fingimento, mas um divino fingimento.

É por isso também que digo: minha religião é meu pensamento.

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Alguns se escandalizam com os assuntos espirituais, e querem nos imputar uma certeza das coisas que não temos, como se todo espiritualista fosse um "dogmático do espírito".

Eu posso falar por mim: Penso que, perto da imensidão do Cosmos, o que sabemos é, parafrasenado Yeats, "como uma gota de orvalho suspensa numa folha de grama".

Mas, de fato, tenho a convicção de que possuo uma vontade e uma certa liberdade. Não liberdade total, claro, mas uma "ínfima" liberdade, como o cachorro que é levado por uma coleira, e pode por vezes se ajustar e caminhar pros lados, mas que não pode se demorar muito, senão será arrastado pela coleira do Destino (aqui cito o estoicismo).

Pois se não tenho vontade, ou se a subjetividade não existe, tampouco é minha culpa: é culpa de Deus e seu determinismo absoluto, ou, no caso de não haver Deus, culpa do tilintar neuronal supostamente aleatório do meu cérebro: eu não tenho culpa, em ambos os casos, de crer que tenho vontade.

Mas, tirando este item essencial, do resto todo eu duvido, e questiono, e sei muito pouco.

***

O mito e a poesia são intuições, o que se espera é que a ciência defina o que se aplica a realidade dos mecanismos naturais, e o que se aplica somente ao campo da mente e da imaginação.

Há muito tempo um sujeito fez uma aposta, disse que "tudo vibra, nada está parado (*)"... Como ele poderia saber disso naquela época, senão pela intuição? Somente no século XX a física de partículas comprovou experimentalmente que, contra todas as expectativas da nossa realidade conforme interpretada por nossa consciência humana, nada, NADA, de fato, está parado.

Somos poeira de estrelas a levitar pelo Cosmos, e quando por acaso um átomo realmente toca outro átomo, ocorrem explosões nucleares. Mas tudo vibra, nada está parado: apertamos a mão um do outro, e na realidade nenhum átomo de nossa mão toca a mão de quem cumprimentamos, e nenhum deles está parado.

(*) A Lei da Vibração no hermetismo, que data do Antigo Egito.

***

Ainda uma pitada de hermetismo:

Já nos foi dito que todos os paradoxos seriam reconciliados. E, pela lógica, realmente foram: existe algo, o Uno, a “substância que não poderia criar a si mesma, incriada”, e para esta, e talvez somente para esta, não há oposto, nunca houve e nunca haverá. Todos os paradoxos estão reconciliados no Uno desde o início até o fim, pela eternidade e o infinito: basta ter olhos para ver.

***

(a) "Sim sou contra a pena de morte"
(b) "Porque?"
(a) "Muito branda"
(b) "Mas há predadores que precisam ser exterminados"
(a) "O problema é que eles voltam, e suas 'pendências' geralmente só podem ser resolvidas aqui. Por isso quanto mais tempo para que tenham alguma pequena chance de serem resolvidas, melhor.
Uma outra opção é exterminar toda a raça humana. Mas isto poderemos fazer independente de haver ou não pena de morte"

***

Algumas notícias do dia a dia trazem ensinamentos profundos aos bons observadores. Muitos devem saber que uma cobertura em Copacabana pegou fogo recentemente, e outros devem saber que se tratava da casa de um artista e colecionador de arte romeno, mas que mora no Brasil há tempos: Jean Boghici.

Ocorre que ele era um dos maiores colecionadores do país, com quadros de Di Cavalcanti e Tarsila do Amaral, muitos dos quais nem tinham preço definido, mas provavelmente valeriam milhões se estivessem a venda, e se perderam no incêndio...

E o que Jean disse aos jornalistas? "Estou com raiva e vou me vingar desse destino cruel, vou fazer uma belíssima exposição com os quadros que restaram".

E disse mais: "E eu quero saber de quadro... Meu gato morreu! Isso que me dói"... Dois gatos morreram no incêndio.

Talvez seja essa a sabedoria que a arte traz as pessoas.

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O texto a seguir é de um professor universitário aposentado de física, e um amigo:

Tudo o que o meu coração busca a minha razão aceita. Porque se a razão não se amoldar ao coração e nem o coração se amoldar à razão, a vida fica conflituosa e insuportável. O que pode acontecer é que o mundo, a sociedade, os outros, os homens, conspirem contra isso. Mas minha razão não aceita nada que não venha de algum desejo sincero que promova a paz, a concórdia, o amor, a felicidade, de forma altruísta. Mas muitos são gananciosos, possessivos, egoístas e querem que o mundo exista para servi-los e não eles para servir. Se todos se imbuírem do ideal de servir e de amar sem restrição, todos serão servidos e amados. Se todos trabalharem com afinco uns pelos outros, sem esperar retribuição, todos serão beneficiados com a dádiva do produto do trabalho dos outros. Mas se todos esperarem ser amados para amar, serem beneficiados para beneficiar, serem servidos para servir, então nunca se dará a partida para a construção de um mundo mais justo, harmônico, fraterno, próspero, aprazível, igualitário, livre e feliz para todos.

(Ernesto von Rückert é livre pensador, humanista, estóico, epicurista e ateísta)

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Crédito da imagem: Franco Vogt/Corbis

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11.8.12

Médium de si mesmo

Se Deus, ou os "seres de luz", quisessem nos trazer a Verdade, ou diremos agora, uma "boa parte" da Verdade acerca das Leis do Cosmos, de uma vez só, para todos os seres da Terra, já poderiam ter feito isso há milhares de anos atrás... Bastava deixar "anotado" na psicografia de algum Xamã, Sacerdote do Egito, ou até mesmo um Filósofo Grego... Porque não o fazem?

Porque obviamente seguem sua própria Lei. De que adianta trazer a Verdade de mão beijada aos seres? Seria mais fácil tê-los criado já conhecedores da Verdade de antemão. Mas quem é criado "programado" para conhecer a Verdade de antemão, não passa de um autômato, um robô, que em realidade não conhece coisa alguma por si mesmo, mas pela "graça de Deus", ou coisa assim...

Seria um tanto curioso que Deus se prestasse a criar o Cosmos, e todo o sistema que visa nos fazer encontrar essa Verdade por nós mesmos, ao longo das existências, apenas para em dado momento "resolver" nos trazer a Verdade de mão beijada, gravada em tábuas, em um livro "infalível", ou na fala de um profeta.

Foi Jesus quem disse a Nicodemus: "Se não entendestes de coisas terrestres, como irei lhes falar das celestiais?"... E o mesmo Jesus disse "que faremos tudo o que ele faz, e ainda muito mais". Mas será que Jesus foi importante porque curou cegos? Ressuscitou mortos? Caminhou sobre as águas?

Não me parece que tenha sido por isso... Jesus, tenha existido ou não, simboliza a Sabedoria que podia ser compreendida, até então, pelo ser humano... A mesma Sabedoria que chegou a nós por diversas outras vias, e continua chegando até hoje. Quem tem olhos para ver, a percebe, debaixo de uma pedra, entre um graveto de árvore, em qualquer lugar...

Ou ainda, dentro da própria alma, como um legítimo médium de si mesmo.

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Crédito da foto: Mary Lou Harris/Corbis

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31.7.12

Intervista, parte 3

Esta é uma "entrevista de mim mesmo" que escrevi em 1999 e agora trago para este blog. Continuando da parte 2:


Você se considera alguém esperançoso?

-Como assim? No sentido de ter esperança em que?

-Na vida, no mundo, nas coisas em geral...

-Ah sim... Pois bem, neste sentido posso dizer que não tenho esperança alguma, pelo menos não como as outras pessoas têm.

-Ora, mais uma resposta enigmática, como era de se esperar...

-(sorri) Você gostaria que eu explicasse melhor?
 
-Claro! E não se preocupe porque temos bastante tempo ainda.

-(sorri mais uma vez) Eu estava querendo dizer que as pessoas me parecem ter muita esperança, muito mais do que eu tenho por assim dizer... Elas têm, por exemplo, a esperança de serem amadas, bem sucedidas e felizes, mas para isso contam mesmo apenas com sua esperança. Elas querem ser amadas sem se preocupar em amar a elas mesmas, ou a sua vida e seus amigos, ou a quem quer que seja. Querem receber carinho, mas desde cedo aprendem que demonstrar carinho é uma coisa vulgar, que demonstra sua fraqueza, e as impede de serem bem vistas pelos homens que criaram tais regras. Elas na verdade não estão nem aí para tais regras, elas querem é ser amadas, mas como elas tem tanta esperança, seguem as regras porque acham que vão ser amadas de qualquer jeito.
Porque seguindo as regras elas tem a esperança de serem bem sucedidas, de terem um grande imóvel, os melhores carros, os companheiros mais bonitos ou famosos, e de poderem viajar para onde quiserem uma vez ao ano pelo menos... Elas acreditam que conseguirão isso apenas seguindo as regras, e que além de conseguir tudo isso, ainda serão amadas, muito amadas; e, portanto, felizes. Elas têm tanta esperança que acham que tudo isso irá verdadeiramente cair do céu em cima delas.
Não se preocupam em fazer o que gostam, nem em desenvolver um gosto pessoal, elas apenas seguem as regras, e fazem o que quer que vá transforma-las em pessoas bem sucedidas, gostam do que tem de gostar para serem tais pessoas; e, incrivelmente, elas têm a esperança de serem muito felizes, e ainda muito amadas, vivendo dessa maneira.

-Sim, sim, você está querendo dizer que os meios de comunicação, aliados a lei do consumismo capitalista e ao que é considerado politicamente correto, escravizam as pessoas em vidas sem rumo pessoal ou sentido próprio?

-Meu Deus, eu não quero dizer nada disso! Veja bem, eu não estou querendo ser irônico, e as pessoas não estão escravizadas! Ora, é muito fácil pensar assim, que alguma elite multimilionária simplesmente controla toda a forma ocidental de pensar. Não é nada disso... As pessoas vivem assim porque querem realmente, porque estão acomodadas e com medo de tentar algo novo, como sempre... Na realidade, esse algo novo é muito antigo, a verdade da vida sempre esteve oculta dentre o mundo, e são muito poucos os que conseguem desmascará-la.

-A verdade está atrás de uma máscara?

-Claro, não só a verdade do mundo, mas a nossa própria verdade. Quantos de nós não usam máscaras para se adequarem ao mundo que nos é apresentado, escondendo nosso amor, nossa criatividade, nossa vontade de dançar, para sermos considerados homens normais?
A verdade está mascarada porque as pessoas não se preocupam em retirar sua máscara, não porque tenham medo da verdade... Alguns até têm medo, mas acredito que a grande maioria esteja mesmo é acomodada. Sabe porque? Porque a grande maioria tem muita esperança! Esperança de que essa máscara caia sozinha, sem que eles tenham que se arriscar a desvendar a si mesmas, e ao mundo...
Quando andamos pelas ruas movimentadas das cidades grandes, queremos conversar com as pessoas, mesmo que não sejam tão bonitas; sempre encontramos alguém que nos chame a atenção, num bar, na praia ou no ônibus... Pensamos diversas coisas, como seria aquela pessoa? Será que não poderíamos ser bons amigos? Ao menos viajar juntos ou conversar por algumas horas...
Porque as cidades são mesmo um caos, mas somente porque nos sentimos sozinhos mesmo em meio a uma multidão. Nas escolas não aprendemos a nos comunicar, não nos foi ensinada uma boa maneira de conversar, trocar idéias e comentários. O que importa é defender nossa opinião, 99% do tempo fazemos isso... Se gostamos de um filme é bom que as pessoas também gostem, para termos certeza de que o filme é realmente bom. Se as pessoas não gostam, talvez o filme não seja tudo aquilo que imaginamos, afinal...
E, portanto, ficou entendido que não devemos nos comunicar com qualquer um, principalmente pelas ruas e caminhos da vida. Vai que a pessoa não concorda com nossa opinião?

-Você está dizendo que as pessoas não se comunicam porque têm medo de que discordem de sua opinião?

-Não exatamente, elas não têm medo de que discordem de sua opinião, elas têm medo do novo! Têm medo de que sua definição da vida seja falsa, e que alguém na rua lhes convença disso. Elas não têm medo dos que discordam de sua opinião, pois aí vão continuar se divertindo, defendendo sua própria opinião, muitas vezes sem nem ouvir ou dar crédito a opinião alheia... Elas dão valor às opiniões mais populares, mais bem aceitas na sociedade, nas regras do que é correto, e se mascaram atrás delas. Se as pessoas divergem de sua opinião, ela pode então discutir, brigar, guerrear com elas, até que sua opinião impere sobre as outras.
Mas elas não têm problema nenhum com isso, pois em verdade estão duelando protegidas por suas máscaras maravilhosas, que as mantém longe do desconhecido, do que é novo. Na realidade as pessoas têm mais problemas em se comunicar com aquele que aceita qualquer opinião, elas não entendem esse alguém, pois ele está olhando, e falando, com a pessoa verdadeira, aquela por detrás da máscara... E isso tudo é muito novo para elas, muito provocativo e original, e elas não querem entender isso, pois acham que já entendem de tudo.

-Então as pessoas têm mesmo é a esperança de que essas tais máscaras maravilhosas as protejam para sempre do novo, e, portanto, jamais terem de encarar desmascaradas ao desconhecido?

-Me parece que é isso... Elas não querem encarar a verdade. Talvez não seja nem culpa delas, mas de tantas outras que viveram antes de nós, e criaram tais regras brutais. Mas enfim, as pessoas parecem ter mesmo muita esperança, pois acham que vão conseguir enxergar ao mundo inteiro com sua visão tão curta, e ainda por cima encoberta por uma máscara!

-Interessante, interessante... (pensa por algum tempo) Mas agora eu tenho uma última pergunta: Se a esperança não serve de nada a essas pessoas, o que será do futuro?

-Não! Desculpe se não soube me explicar... (preocupado) Na verdade estava mais preocupado em não parecer irônico... Eu não quis dizer que a esperança não serve de nada, apenas que somos nós mesmos quem construímos a esperança.
Eu explico: A humanidade se tornou uma especialista em padronizar as coisas. Ela diz que esperança é ter fé em algo melhor, numa vida melhor. Daí ela inventa a palavra “esperança” e publica em seus dicionários monstruosos que esperança é isso que foi dito acima. Mas se esquece de que tem de ensinar as crianças sobre tais verdades, pois senão corre o risco de que elas interpretem tais definições de dicionário ao pé da letra, e então padronizem a coisa toda...
Por acaso as pessoas sabem o que é ter fé? Então como vão saber o que é ter esperança? Ora, a gente não nasce com fé, ou pelo menos se nascemos com ela, não vamos conseguir mais fé num shopping center ou comprando com cartão de crédito. Nós construímos essa fé, e consequentemente a nossa esperança, ao nos dedicarmos a achar a verdade pelo mundo... Porque a verdade foi massacrada por tanta ignorância através dos tempos, e sua única saída foi se esconder também, pois essa foi à única maneira de não ser totalmente arruinada pelos preconceitos e inquisições patrocinados pelos homens mascarados, distantes de si mesmos...
Mas a verdade não foi embora, e, portanto, ainda existem caminhos a serem seguidos, e decerto ainda existe esperança. Mas veja bem: Só se conquista a esperança ao desbravar o desconhecido, ao ter a coragem de seguir tais caminhos por onde tão poucos passaram, mais por onde todos um dia inevitavelmente terão de passar. A cada passo sua esperança irá aumentar, a cada recuo, ela irá se abalar, mas em realidade você nunca terá esperança! A esperança não é uma moeda que se perde ou ganha, ela é uma força poderosa destinada a nos levar daqui para mundos muito melhores. Você não ganha esperança, mas pode correr para ela, sem medo, sem máscaras, e abraça-la de coração!
Irá abraçar a si mesmo, e depois a todos aqueles que passam angustiados pelas ruas, e mostrar para eles que o homem pode sim jogar a máscara fora, e então se preparar para aceitar toda a verdade, todo o amor, e toda a felicidade decorrentes de tal ato.

***

Por algum motivo, na época eu não prossegui com esta entrevista... Talvez, quem sabe, por ter se tornado pessoal demais – afinal, seria hipócrita se dissesse a vocês que eu mesmo não carrego mais máscara alguma. Mas o que me interessa em retornar até 1999, revisitando esse texto, é tentar reconhecer quem eu era, e não sou mais...

Este é um belo exercício, que recomendo a todos. As máscaras são trocadas, e nem sequer percebemos, até que temos uma fantasia totalmente nova posta diante do espelho. Somente o folião por detrás da fantasia, o dançarino, o poeta, o espírito, é quem permanece – este grande ser oculto, para o qual tenho dedicado todas as minhas cascas de sentimento.

raph

***

Crédito da imagem: WIN-Images/Corbis

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24.8.11

Frases (7)

Mais frases que vem e vão, e por vezes as consigo agarrar, geralmente primeiro aparecem no meu twitter, depois aqui:

"A diferença entre nós e os seres de Acima é que eles não criam peixes em aquários apenas para se divertir ou decorar seus quartos."

"Os seres de Acima sabem que os peixes do aquário um dia serão como eles, e ainda muito mais... Quanto antes, quanto menos dolorido e mais amoroso o caminho, tanto melhor."

"Qual a previsão do presente?"


"Eu escrevo para melhorar a vizinhança. Quanto melhor a vizinhança, melhor o condomínio do mundo."

"A dúvida sem dúvida faz parte de um mundo em constante mudança."

"Quando mergulhamos nalgum canto da eternidade, não há nada a temer, nem nada a duvidar - pois não há nada a se pensar, apenas a se sentir!"


"Se tempo é dinheiro, o dinheiro é relativo."

"Quem doa amor, nada perde: ganha mais. É que o amor empresta sua essência do infinito, e a matemática do infinito está além da razão."

"Da próxima vez que algém lhe disser: vivo totalmente sem fé, pergunte onde ele guarda suas moedas de ouro."


"Quando descreve a natureza física, a matemática é ciência. Quando descreve a imaginação humana, ela é arte. Quando descreve o infinito, ela é sagrada."

"Existe enorme diferença entre ter o hobby de não colecionar selos, e o hobby de criticar ferozmente toda e qualquer coleção." [1]

"Diferença entre um humanista secular e um espiritualista: um defende o espírito humano enquanto encarnado, o outro o defende onde quer que vá."


"Um dia também acreditamos piamente que o Sol girava em torno da Terra, mas esse dia está nesse momento tão distante que se perdeu de nossa consciência atual."

"Aquele quem primeiro afirmou que era a Terra que girava em torno do Sol: era aqui um louco e, nas estrelas, mais um que despertou."

"Assim parece ocorrer: não encontramos a verdade talhada em pedra, despertamos para ela. Um sonho de cada vez..."


***

[1] Alguns anti-teístas afirmam que apenas tem o hobby de não colecionar selos...

Crédito da imagem: do mestre da filosofia sequencial, Laerte.

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4.7.11

Nosso evangelho

Eu digo: minha religião é meu pensamento
Pois a religião não é uma doutrina de regras fossilizadas, mas um caminho eterno, uma via que se inicia estreita, mas cujo final se perde na névoa que o próprio infinito interpõe ao horizonte.

Que não se busque a religião como quem busca um reino específico: o reino dos céus, o cume da montanha de todos os sábios, a sombra da árvore de onde se pode alcançar um nirvana...

Pois se tudo que fazemos neste mundo é reflexo daquilo que somos, daquilo que pensamos, daquilo que sentimos, daquilo que intuímos, é somente através do pensamento, da música tocada pelas mãos etéreas, que efetivamente caminhamos à frente, em Sua direção.

Eu digo: minha vida é minha bíblia
Pois ainda que exista um livro infalível, o mais sagrado de todos, isso não significa que sejamos hoje tão sagrados quanto ele. Isso não significa que estejamos em plenas condições de o compreender.

Que a verdade é como o horizonte: quanto mais a buscamos, mais e mais descobrimos o quão infinito é o mundo, e além do mundo...

No entanto, quando finalmente descobrimos uma verdade, é como se o próprio horizonte tivesse cedido, e recuado, e nos reverenciado, e nos agraciado. Este é o mistério, a angústia, e a suprema felicidade da vida: escrever nosso próprio texto sagrado com nossos passos na areia do tempo. E que hão de desvanecer, quando Seu vento soprar.

Eu digo: minha igreja é meu coração
Pois o reino não foi edificado para que fosse circundado por colunas e paredes de templos, e os escolhidos não foram apenas alguns poucos agraciados, mas todos os seres do infinito.

Que ninguém poderia ser feliz num jardim de ociosidade enquanto outros de seus irmãos ardem nos lagos de enxofre. Que o reino não é feito de fronteiras delimitadas, e todos os templos precisam ser erigidos em nossas próprias almas...

Pois se o reino está em toda parte, debaixo de pedras e dentre galhos partidos, os convites para o Seu banquete foram enviados a todos nós: os filhos do Cosmos. E só poderemos entrar no reino de mãos dadas.

Nós dizemos: Deus é nosso amor
Conforme consta em todas as leis naturais, desde o núcleo do átomo até os agrupamentos de galáxias mais distantes: tudo esta conectado, tudo está em harmonia, tudo flui, tudo vibra, tudo se atrai mutuamente pela gravidade divina, enquanto de alguma singularidade de amor Ele continua a nos arremessar no turbilhão sem fim.

Tudo se iniciou em um pensamento de amor, e todo o amor do mundo jaz neste momento aos Seus pés: o amor de todos os dias dos homens, e dos seres de outrora, e dos seres do porvir.

E todos os cânticos sagrados, e todos os poemas e orações, e todas as bênçãos e maldições, e todos os erros e acertos, e todos os códigos sagrados, e todos os evangelhos, e este nosso evangelho...

raph’11

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Crédito da imagem: Tom Grill/Corbis (modificada por Rafael Arrais)

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9.11.10

Yeshuah, parte 1

Texto de Júlia Bárány Yaari prefaciando a HQ "Yeshuah” de Laudo Ferreira (Ed. Devir) – As notas ao final são minhas.

Veio como uma criança indefesa, outros dizem que é lenda.

Há dois mil anos falamos dele. Ele mudou o mundo e cada um de nós, mesmo que não tenhamos consciência disso.

É a figura histórica a respeito de quem mais se escreveu, mais se inquiriu. As divergências na compreensão de seus ensinamentos já existiam entre os próprios apóstolos, antes mesmo de sua partida. Embora suas palavras, registradas por seus seguidores conforme se lembravam delas no mínimo trinta anos depois de sua morte, sejam simples, transmitindo conceitos básicos repetidos de diversas formas, o entendimento não é fácil, pois supõe uma mudança interior.

Ele usou discurso direto com os mais íntimos, mas com o povo falava por parábolas, como se faz com criancinhas que aprendem por meio dos contos de fadas e histórias [1].

Os documentos históricos e os registros de seus ensinamentos passam periodicamente por depurações e reformulações, na busca da verdade. Diferentes grupos disputam o reconhecimento como detentores das palavras autênticas dele. Artistas têm procurado esta verdade por meio da música, da pintura, da escultura, da literatura, cada obra sendo uma interpretação pessoal do autor.

Cada um projeta o seu Jesus com as características que lhe dizem aquilo que deseja ouvir. Instalam-se os estereótipos. Manifestam-se os ideais, as aspirações, os anseios [2].

Passamos a duvidar se é possível chegar aos fatos incontestáveis sobre sua vida, descobrir as palavras que ele de fato proferiu. Se é possível escavar através de camadas e camadas de interpolações, interpretações, encobrimentos, descobrimentos, interesses mundanos, ou simplesmente da ignorância e fraqueza dos seres humanos que promoveram guerras e cometeram atrocidades em seu nome. Se é possível encontrá-lo livre dos dogmas, não engessado em instituições que manipulam as pessoas para firmar seu poder.

Onde encontrá-lo?

Cada um que procura o seu Jesus o encontra dentro de si mesmo [3].

E nessa multiplicidade de seres ele se esparrama como chuva de estrelas, cada uma com seu brilho próprio, feitas, no entanto, todas da mesma essência de luz. Qual é mais verdadeira que as outras? Na obra aberta, como é a obra de Jesus, a maravilha é que todas são verdadeiras [4].

Na continuação, Júlia fala sobre os evangelhos sinópticos e apócrifos do início do cristianismo.

***

[1] O próprio recurso de se passar conhecimento através de parábolas remete a esta tentativa de resumir vários níveis de entendimento em um único discurso simples, capaz de ser passado adiante por quase todos. Isso significa que o Novo Testamento é quase em sua totalidade em conjunto de metáforas, independente de quem as tenha realmente escrito. Nesse sentido, buscar lá a “Verdade Absoluta” pode ser inútil, na medida em que nossa compreensão dela irá variar de acordo com a capacidade de interpretação de cada um.
Por outro lado, investigar a fundo os ensinamentos mais profundos de Jesus pode ser uma atividade revigorante, na medida em que seremos capazes de cada vez compreender um pouco mais, adentrando passo a passo nos níveis mais profundos do conhecimento espiritual ali presente. Claro que, para tal, não precisaremos nos limitar aos evangelhos sinópticos, pois há também muita profundidade em alguns apócrifos, particularmente no Evangelho de Tomé.

[2] A própria imagem de Jesus como um belo homem branco de cabelos e barba castanhos só se tornou mais aceita mais de 600 anos após sua morte – no início do cristianismo ele era muitas vezes retratado como um jovem pastor e às vezes até como criança. É pouco provável que Jesus tenha tido fisionomia sequer próxima da utilizada, por exemplo, em boa parte de seus retratos em pinturas da Renascença.

[3] Esse ponto de vista, da busca pelo “Cristo interior”, é brilhantemente defendido pelo grande estudioso de mitologia Joseph Campbell em “O Poder do Mito”:

Ao dizer: “Aquele que beber da minha boca se tornará como eu e eu serei ele”, Jesus está falando do ponto de vista daquele Ser dos seres, a que chamamos Cristo, que é o ser de todos nós. Todo aquele que vive essa relação é como Cristo. Todo aquele que traz em sua vida a mensagem do Verbo é equivalente a Jesus.
Veja, há dois modos de pensar “Eu sou Deus”. Se você pensa: “Aqui, em minha presença física e em meu caráter temporal, eu sou Deus”, então você está louco e provocou um curto circuito na experiência. Você é Deus não em seu ego, mas em seu mais profundo ser, onde você é uno com o transcendente não dual.
A palavra “religião” significa religio, religar. Se dizemos que há uma única vida em nós ambos, então minha existência separada foi ligada à vida una, religio, religada. Isso está simbolizado nas imagens da religião, que representam aquela união.

[4] A busca espiritual é uma verdade em eterna construção, o que não é muito diferente da busca científica e filosófica. Nesse sentido, a afirmação de que todas as visões de Jesus são verdadeiras não deve ser compreendida literalmente – com uma espécie de politeísmo do Cristo –, mas no contexto da espiritualidade plena: todas as visões e todas as formas de religião emprestam a verdade do amor, do Ser ao qual todos tentamos nos religar. Nesse sentido, não é possível dizer “eu achei a Verdade” – mas é perfeitamente possível compreender quando achamos “uma verdade”.
A melhor coisa dessa busca, aquilo que realmente nos “completa”, é exatamente o reconhecimento e compreensão dessas verdades profundas que esbarramos pelo caminho – muitas vezes sem estar procurando diretamente por elas –; Verdades que estão muito além da capacidade de uma descrição meramente racional e linguística, mas que na experiência religiosa podem ser vislumbradas em toda sua majestosa profundidade, em toda sua luz.
Isso nada tem a ver com dogmas, templos ou santas tábuas, mas com perfumes que passam com as brisas pelo horizonte amplo, e que às vezes percebemos.

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Crédito da foto: Wikipedia (cristianismo arcaico)

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6.5.10

A busca pela verdade

Texto de Rafael Arrais, em homenagem ao grande poeta Gibran Kahlil Gibran.

Então Almitra [1] disse: fala-nos da busca pela verdade.

E ele respondeu:

Buscai a verdade como quem busca o horizonte.

Pois vós sabeis: o horizonte está sempre à frente. Não adianta se virar para outra direção nem pegar um atalho. O horizonte está além de qualquer atalho, e seu reino jaz no fim de todos os caminhos.

Mas não vos inquieteis com a imensidão do céu nem com a distância que vos separa da verdade. O infinito é dividido em eras, as eras são divididas em dias dos homens, e tais dias são divididos em momentos...

A cada momento a sua preocupação, e a sua verdade. Não acheis que algum momento trará “a verdade”, mas ficais satisfeitos se encontrardes “uma verdade”.

Povo de Orfalés, não busquem a verdade como quem busca um vagalume pela noite. Não confundais vagalumes com estrelas, nem pretendeis que ao agarrardes um com as mãos, que tenhais dominado uma verdade.

Que a luz não se detém nem com as mãos nem com a razão. Ela escapa, flui por entre caminhos invisíveis, e só se revela nos sonhos de vossas almas.

E as estrelas da noite, essas estão muito além do horizonte.

Cabe ao homem buscar a verdade neste mundo, para somente após se arremessar rumo às estrelas.

Que todos os dias dos homens são como um piscar de olhos da eternidade. E não há verdade que fuja dela. Toda a luz do mundo irradia da essência que está fora do tempo, além de vossos horizontes, no momento que é para sempre o mesmo...

Mas não nos demoreis muito em tais pensamentos, nem pretendais serem desbravadores de novas eras. Que todas as eras já foram desbravadas, e todas as verdades já foram descobertas.

Contentai-vos, portanto, em viver com alegria. Em buscar o horizonte não como quem quer salvar-se do mundo, mas como quem quer abraçar o céu inteiro, e dançar com as estrelas pela noite adentro...

***

[1] Almitra é o personagem que faz a maior parte das perguntas para Almustafa, o escolhido e bem amado, personagem principal que dá voz aos ensinamentos de Gibran em sua obra-prima, “O Profeta”. Este texto, entretanto, é apenas uma homenagem ao grande poeta.

***

» Parte da série "Após Gibran"

Crédito da foto: Larissa Januzzi

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31.3.10

Meias-verdades

Quando alguém sofre por amor não correspondido, costuma-se dizer que teve uma desilusão amorosa. Ora, e seria melhor viver iludido por um falso amor – ao menos da outra parte –, ou se conformar com a verdade?

Profetas nos disseram que a verdade nos libertará, mas há que se perguntar quantos de nós desejam realmente ser libertos... Há quem postule a possibilidade da vida – toda a realidade –, ser uma ilusão, um sonho sonhado por outro alguém, um farfalhar de partículas em meio ao vácuo, que por alguma estranha razão gera esta “doce ilusão do existir”.

Ainda outros, os seguidores dos manuais de verdades absolutas, preferem deixar toda a inquietação, todo desassossego, com os místicos de eras que não mais existem. É mais simples crer num mundo criado em alguns dias, em animais sem alma a espera de serem subjugados, em pertencer à raça suprema no centro de toda a criação... Sim, é mais simples, contanto que não se pense nas conseqüências, contanto que se tape os olhos do coração e do raciocínio. Contanto que se ache confortavelmente estagnado em pensamentos que nunca foram realmente seus.

Dogmas e determinismos, religiosos ou científicos, que realmente são eles, senão a “doce ilusão amorosa”? – para a qual muitos de nós se encaminham, abominados com a possibilidade da desilusão, com a necessidade de termos de pensar por nós mesmos... Na vida, nos seres, no amor, na morte, na imensidão...

Pois há aqueles que se conformam em estacionar a visão abaixo dos “mistérios de deus”, ignorando o horizonte a frente. Estes dizem ter fé, e talvez tenham, mas não em si próprios. E ainda há aqueles outros que depositaram tamanha fé na matéria, que crêem piamente que ela é capaz de lhes explicar toda a realidade. Tal qual Tomé dizia: “Acredito no que posso ver e tocar”.

Mas mantiveram sua crença, mesmo após sua “divina academia” ter lhes demonstrado que tudo o que vêem são fótons, tudo o que tocam é a força eletrostática. Que toda energia e toda matéria surgiram de algum ponto “em meio a lugar algum”; Que somos formados por 4% da matéria que por acaso reflete a luz; Que por alguma razão as partículas só definem sua posição quando algum de nós as observa. A matéria é então tão mística quanto tudo o mais, cheia de mistérios ainda insondáveis, cheia de nuances que nos escapam à lógica... Ainda assim, estão perfeitamente felizes e satisfeitos em afirmar que ela explica tudo.

É mais fácil deixar que outros pensem por você, porém cedo ou tarde a existência cobrará o seu preço. O abismo entre o ser e o não-ser, entre a vida e a morte, o tudo e o nada, ainda há de lhe chacoalhar todo corpo e toda a alma, ainda há de lhe obrigar a abrir os olhos e perceber que tudo o que há é você... Você a navegar pelo mar infinito do Cosmos, sozinho ou acompanhado – pouco importa –, somente você poderá desvendar o mistério do existir.

Um antigo sábio disse que “todas as verdades são como meias-verdades, todos os paradoxos podem ser reconciliados”. Longe de relativizar a existência e reduzir todo conhecimento há algo tão inútil quanto à discussão se existe o quente ou o frio, a luz ou a escuridão, Hermes Trimegisto estava nos indicando um caminho...

De fato, o caminho da busca da verdade nos liberta, mas não porque encontramos a Verdade Absoluta, e sim porque encontramos a Divina Dúvida. Eis que a verdade se revela sempre em meias-verdades, e todo conhecimento gera mais conhecimento, toda busca gera mais busca, toda dúvida resolvida gera mais dúvidas. Nada está parado no universo, nem as galáxias, nem o Sol, nem a Terra, nem nós mesmos, ou uma pedra, um galho, uma partícula... Tudo vibra, tudo se renova, tudo vive e tudo morre, tudo chega e novamente parte, tudo finda e se reinicia – não há como saber onde uma partícula está exatamente quando não lhe damos atenção, não há como saber até onde esse caminho infinito nos levará.

Porém, ao trilhar tal caminho, ao nos desiludirmos de todos os dogmas – religiosos ou científicos –, ao aceitarmos que navegamos num mar revolto e que nem sempre se pode dizer quando vem uma nova tempestade, podemos finalmente encarar tal horizonte sagrado com os olhos e a mente de quem vive eternamente em liberdade!

Into that heaven of freedom, my Father, let my country awake

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Crédito da foto: J.P. Greenwood/Corbis

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25.4.09

Alguém tem de estar errado

Quando analisamos as doutrinas das maiores religiões mundiais, percebemos que nem todos podem estar certos. Para muitos cristãos, Jesus foi uma espécie de avatar de Deus; Para os muçulmanos Jesus foi mais um na linhagem de profetas, porém apenas homem; Já para certos judeus Jesus não passa de um herege... Nós poderíamos prosseguir com inúmeros exemplos, seja dessas religiões majoritárias, seja de tantas outras doutrinas pelo mundo: Uns afirmam que a teoria de Darwin-Wallace é um equívoco e que a história de Adão e Eva é a descrição mais fiel da realidade do surgimento do ser humano na Terra, enquanto outros aceitam (com ou sem ressalvas) o evolucionismo dentro de sua doutrina; Uns afirmam que Buda atingiu o nirvana e foi o maior sábio a passar pelo mundo, outros desdenham dizendo que a meditação budista não serve para nada; Uns afirmam que é possível se comunicar com espíritos sábios e receber instruções profundas de conduta moral, outros dizem que não passa de misticismo fajuto ou comunicação com entidades demoníacas; Uns afirmam que Deus não pode ter criado o mal e que um inferno eterno não existe, outros fazem ameaças dizendo que aqueles que não aceitam ou temem ao mesmo Deus serão condenados ao inferno; Uns afirmam se comunicar com Deus todos os dias, outros dizem que é impossível termos qualquer tipo de compreensão aprofundada de Deus (se é que ele existe)... É, acho que já deu para ter uma idéia da confusão né?

Decerto existem muitos que gostam de trocar idéias e aceitam (com ou sem ressalvas) a crença ou descrença alheia - Porém há que se admitir que é bem mais fácil encontrar os radicais, em maior ou menor grau, que se tornaram "especialistas" na arte da supersimplificação: ou uma doutrina está totalmente correta, ou totalmente errada. Pior ainda são aqueles radicais que colocaram na cabeça que a sua doutrina, ou a sua verdade, deve ser espalhada pelos sete ventos, pois "certamente todos seriam mais felizes seguindo-na". Pode-se pensar que esse grupo é composto apenas de evangelizadores religiosos; mas não: existem alguns ateistas ou céticos radicais que acreditam piamente que devem "converter" os outros a "luz da razão" - Mas, e quem julga o que é racional, factível, verdadeiro?

Alguns séculos antes do nascimento de Jesus, o método experimental surgia na ilha de Samos, na Grécia. Enquanto o grande Pitágoras descobria os fundamentos da física, da matemática, da geometria, da música e outros conceitos que foram depois classificados como esotéricos, outros sábios da mesma ilha inauguravam o método experimental: observavam a natureza antes de confirmar qualquer teoria, e não mais se limitavam apenas ao campo das idéias (mental). Aristarco de Samos foi uma dos primeiros a prever que a Terra girava em torno do Sol, e não muito longe de Samos, em Alexandria Eratóstenes já provava que a Terra era uma esfera com o auxílio de dois gravetos expostos a luz solar - e de um ajudante dedicado... De lá para cá o método científico avançou de forma avassaladora, hoje a ciência já explica o nascimento do espaço-tempo até seus minutos iniciais, e investiga minuciosamente o próprio código que nos faz humanos - o Genoma.

Mas é o próprio "amigo inseparável" da ciência que afirma que não teremos tão cedo (talvez nunca) o conhecimento completo da realidade - detectada ou não. Os dados corroboram com o ceticismo: é verdade que a gravitação de Newton juntamente com a relatividade especial e geral de Einstein provaram ser capazes de medir com extrema exatidão a órbita da Terra e outros planetas em torno do Sol... Porém, a medida nunca alcança a exatidão máxima, pois é impossível prever os desvios provocados pelos campos gravitacionais de certos planetas minúsculos, luas, cometas, etc. Tudo bem, podemos afirmar que esses desvios serão mínimos; mas em sistemas binários ou trinários, onde temos mais de uma estrela orbitando juntas no centro gravitacional do sistema, ainda é impossível obter uma boa aproximação da órbita desses planetas, pois as equações tornam-se demasiado complexas. Da mesma forma, existe ainda muita coisa acima do céu, e do outro lado do véu, que a ciência não faz ainda vaga idéia de como exatamente funcionam: o problema difícil da consciência, a matéria escura, a unificação das forças fundamentais da natureza, o surgimento da vida na Terra, os diversos fenômenos ditos paranormais que ela não explica mas também não prova como fraude - e, aqui também, a lista seria interminável...

Isso não é ruim. Significa apenas que não obtemos o conhecimento pleno da natureza. Que não podemos bater no peito e dizer: "aqui está, esta é a verdade absoluta!" - Ah meu ver, a vida perderia muito de sua graça se isso fosse possível. Ainda temos muito para descobrir, investigar, compreender, evoluir em nosso conhecimento. Santo Agostinho dizia uma frase profunda, que explica a si mesma: "crer para compreender, compreender para crer." Toda jornada em busca de conhecimento é tão infinita quanto o céu noturno ou o olhar de uma criança recém-nascida. Este é o espanto, isto é o sagrado, é isso que sempre moveu o ser humano e os grandes sábios e gênios da humanidade.

E será que algum deles encontrou a verdade absoluta? Provavelmente não. Buda chegou ao nirvana e Jesus aparentemente tinha uma forte conexão com Deus, mas nenhum deles disse que havia chegado ao final do caminho. "Vocês farão tudo o que faço, e muito mais" - dizia aquele que muitos afirmam ser Deus. Ora, então nosso futuro será extraordinário - seremos deuses, faremos coisas que um deus faz e ainda muitas coisas mais. Para tal, não me parece necessário buscar apenas um caminho, apenas uma doutrina, apenas um sábio. Se é verdade que alguém tem de estar errado, também é verdade que muitas vezes alguém estará certo... Passo a passo, com a pequena vitória de cada um, caminhando juntamente com Newton "nos ombros de gigantes", sem dúvida o futuro me parece bem promissor. Qual é minha religião? Meu pensamento. Qual é minha ciência? Meu bom senso.

Você pode afirmar que "preciso escolher um lado", que "não posso ficar em cima do muro"... Mas eu não me alistei para lutar uma guerra. Eu fui chamado para um banquete de amigos no jardim de Epicuro - a minha felicidade na existência é buscar, é amar a sabedoria. Se por "em cima do muro" você quer dizer que eu não escolhi nenhuma igreja ou comunidade científica para defender... Direi-te que tem toda a razão. Mas acaso o "em cima do muro" signifique que reconheço o ecumenismo de toda crença e toda descrença, a liberdade sublime de cada ser fazer o que quer através da própria vontade, e de toda beleza que existe em tal sistema - então direi-te que estou equilibrado em cima deste muro. E esse muro se chama Tao.

***

Crédito da foto: Marco Gomes

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