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28.8.18

Levítico e Parada Gay (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo venho estabelecer um diálogo com você, conservador cristão, que ainda carrega essa pedra na mão, e não sabe nem bem porquê. Será que é justificada a liberdade de expressão religiosa em outdoors com certos trechos não muito simpáticos do Levítico, livro do Antigo Testamento bíblico, em relação aos gays? Será que vociferar publicamente esse tipo de opinião não pode contribuir para o aumento da violência contra homossexuais na sociedade? Vem, vamos refletir mais sobre isso...

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16.1.17

Eles não sabem o que fazem

Noite na periferia paulista. José havia acabado de voltar do hospital com a filhinha de 8 meses. Quase teve um troço com o diagnóstico do médico, “sífilis congênita”, mas ficou mais tranquilo quando lhe explicaram que não era nada grave. Na calçada em frente de casa, José explicava a dois amigos como tinha sido a viagem até o hospital. Todos jovens, na casa dos 20 e poucos anos, mas apenas ele já havia se tornado pai. Foi “sem querer”, e a filhinha ficava mais na casa da avó materna. “Pelo menos não abandonei minha filha” – gostava de dizer aos amigos, o que sempre deixava sua própria mãe, Dona Maria, orgulhosa (ela havia criado José sem ajuda de pai algum).

De repente, um barulho de correria. Passaram pela calçada uns 3 ou 4 sujeitos correndo apavorados. “Foge, polícia!” – um deles gritou... Na verdade José mal teve tempo de entender o que estava acontecendo, logo cerca de 3 motos da polícia militar de São Paulo cercaram a todos, e mandaram encostar no muro do outro lado da rua, com as mãos para cima. Na revista, foram encontrados com o grupo 20 pinos de cocaína, uma quantidade irrisória de maconha, e cerca de 37 reais. Os 37 reais estavam justamente com José, que era o troco dos 50 reais que sua mãe havia lhe emprestado para levar a bebê no hospital e “tomar um suco”. Ele era ajudante de pedreiro, mas estava desempregado.

“Manda todos os vagabundos para a delegacia”, disse um dos policiais. Naquele dia José foi liberado, mas depois teve de ir com a mãe se defender da acusação de tráfico de drogas na audiência do Tribunal de Justiça. Dona Maria não pôde entrar... Antes de José o seu advogado, um defensor público, fez perguntas aos policias: “Vocês já o conheciam?”. A resposta foi “não”. “A droga estava no bolso da blusa ou da calça?”. “Da blusa”. “Havia mais gente na rua?”. “Sim, mas alguns conseguiram fugir”. A promotoria não se manifestou.

Durante os cerca de 3 minutos que teve para se defender na frente da juíza, José explicou que havia acabado de voltar do hospital (como sua mãe lhe instruiu a fazer). “Sífilis?”, perguntou a juíza. “Sim”, respondeu José. “Quantos anos ela tem?”. “8 meses”. “Não deve ser nada grave”, amenizou a juíza... O advogado também tentou tranquilizar José: “Foi o que falei, você é réu primário. Vão negar nosso recurso, normal. Você vai ficar oito meses preso e depois entra no regime semiaberto”. Antes de sair, algemado, José pediu ao advogado para que ele mandasse um beijo para a mãe dele.

Tal relato é uma ficção, mas baseado em fatos reais e corriqueiros. Desde 2006, com a promulgação de uma nova lei de combate às drogas, o crescimento de casos como esse foi vertiginoso. Segundo dados de 2014, grande parte dos encarcerados no Brasil tem o ensino fundamental incompleto (53%) e está na cadeia por conta de tráfico de drogas (27%). No mesmo relatório, vemos que apenas 1% dos presos têm o ensino superior completo, e aqueles presos por casos envolvendo assassinato, como homicídio ou latrocínio, não chegavam a 20% do total.

A primeira coisa que um réu primário como José precisa decidir ao entrar na cadeia é se vai ou não se juntar a uma das facções criminosas. Em se tratando de São Paulo, é quase certo que a única opção disponível seja mesmo o Primeiro Comando da Capital (PCC), que já domina as prisões paulistas há tempos, visto que também administra o próprio tráfico de drogas na Grande São Paulo.

O PCC surgiu no início da década de 1990 num presídio do interior paulista. Oito presidiários se juntaram para formar uma espécie de “irmandade” e assim tentar se proteger da violência nas cadeias. Antes do PCC os réus primários geralmente sequer tinham essa opção de “se juntar a irmandade para se proteger”. Muitas vezes, eram “vendidos” como escravos sexuais para os presos de alta periculosidade, os “bandidões”. Eram usados de todas as formas, até como “cofre” para guardar objetos no ânus ou no estômago. Apesar de tudo, antes do PCC, o destino de gente como José era geralmente muito mais trágico. Hoje, gente como José pode optar por se juntar ao PCC e se manter vivo, pelo menos nas prisões onde não há guerra de facções criminosas.

Outra grande facção criminosa no país é o Comando Vermelho (CV), ainda mais antiga que o PCC. Até outro dia, o CV, que é carioca, dominava o negócio de drogas no maior ponto de vendas da América Latina, a Rocinha. O PCC tomou o ponto sem disparar um único tiro, apenas pela via da negociação comercial. Explica-se: faz alguns meses, o PCC se internacionalizou ao assassinar de forma cinematográfica o “rei do tráfico” no Paraguai, e agora controla boa parte da plantação da maconha no país vizinho. Ora, se a maconha responde por cerca de 80% das vendas do tráfico, não deve ser difícil imaginar como o PCC simplesmente “cooptou” a Rocinha ao oferecer o seu produto de maior destaque por um preço bem mais barato do que o dos demais atravessadores.

A resposta do CV foi tentar investir na outra via de comércio ilegal de drogas e armas no país: ao invés de recorrer à via Paraguai-Bolívia, teve de se voltar para a via amazônica. Talvez por isso as recentes rebeliões e chacinas nos presídios brasileiros tenham se iniciado justamente em Manaus. Mas claro, não deve terminar por lá, e de fato já se espalhou pelas cadeias de todo país, uma espécie de “guerra interna” entre PCC e CV.

Um ex-Ministro da Justiça já afirmou que nossos presídios são como “masmorras medievais”. Se a maior autoridade de segurança no país disse isso, é porque de fato já não era segredo para ninguém. Há muitos “homens de bem” que passaram a crer justamente que as chacinas seriam a solução para a nossa criminalidade. Bem, se fossem, as estatísticas de violência já teriam diminuído há décadas, justamente antes da criação do PCC, quando ocorriam bem mais assassinatos dentro das prisões (só não dava manchete nos jornais porque não tinham decapitações em série).

Quando imaginamos a prisão como uma espécie de “limbo” ou “buraco negro” de onde os presos jamais sairão, estamos simplesmente ignorando a realidade do ciclo de violência no Brasil: ora, é justamente porque em geral a sociedade pouco se interessa pelo que ocorre dentro das cadeias que facções como o PCC proliferaram à vontade. Pense só, num estado como São Paulo, é a própria Justiça que ajuda o PCC a estar sempre recrutando novos funcionários. Ao misturar réus primários ou não violentos com a “nata da bandidagem”, damos um fluxo gratuito e contínuo de gente para o PCC; afinal não é bem a questão de escolher entre “ser honesto ou criminoso dentro da cadeia”, é antes algo como “viver ou morrer”. Darwin explica.

Assim, o Estado paga caro para manter um sistema que não só não ressocializa ninguém para a vida em sociedade, como funciona mais como uma verdadeira “fábrica de criminosos”, onde gente como José, se tiver sorte, sairá muito, muito pior do que entrou. E, se não tiver sorte, pode nem sair vivo, mas tal fato não diminuí o ciclo da violência, apenas aumenta. O Karma explica.

Afinal, se o PCC pode até funcionar como um “agente de proteção social” dentro dos presídios, fora deles pratica sequestros, assassinatos, e outros crimes, além de intimidar agentes da lei e políticos ou, muitas vezes, simplesmente comprá-los para o seu lado. Quando necessário, o PCC também pode muito bem atuar “fora dos presídios”, causando um verdadeiro caos nas grandes cidades. Da última vez que algo assim ocorreu, em São Paulo, pouco mais de uma década atrás, foram às próprias autoridades quem correram para chegar a um acordo de “cessar fogo” com a facção, e o acordo saiu. Mas, e se não tivesse saído? E se o PCC resolver voltar a “se manifestar” fora das cadeias, como será? O que podemos dizer hoje é: cada vez pior.

Se voltarmos ao exemplo de José, veremos que ele pelo menos teve um julgamento, enquanto cerca de 40% dos nossos presos aguardam por um. E pelo menos teve um defensor público, coisa inexistente em mais da metade dos estados...

Você pode me dizer que na verdade a história de José era mesmo uma baita mentira, que ele de fato estava correndo junto com os outros traficantes que passaram pela calçada da sua casa, que ele também era um deles. Tudo bem, você pode até julgar daí que José era mesmo um bandido. E, ainda que o mantra “bandido bom é bandido morto” possa lhe soar como a solução derradeira de todos os problemas, devo lhe dizer que é justamente por pensamentos como este que chegamos na situação em que chegamos. Morram quantos Josés forem, eles continuarão nascendo, e a violência continuará ardendo mais e mais nesta imensa pira de ignorância.

E, se queremos manter os presos realmente perigosos e violentos dentro das cadeias, é justamente tratando réus primários como José de uma outra forma, liberando espaço e recursos no sistema penitenciário, que teremos alguma chance de começar a mudar este cenário.

Afinal, não foi nos países onde há pena de morte que a violência se reduziu ao ponto de faltarem presidiários para popular as cadeias, pelo contrário, foi nos países que tratam mais a causa do que os sintomas, em todas as dimensões que envolvem o crime: na educação, na ressocialização, na política em relação às drogas etc. Sim, ainda estamos muito distantes do nível de desenvolvimento humano dos países escandinavos, mas até quando vamos permanecer ignorantes dos exemplos que deram certo? Até quando vamos continuar vendo nossos criminosos com um olhar tão arcaico, alimentando infindavelmente este ciclo macabro de decapitações e banhos de sangue?

Há dois mil anos, o doce Rabi da Galileia, aquele quem nos ensinou toda a profundidade do Amor, também cumpria sua pena ao lado de dois bandidos, todos crucificados ao público. A sua volta, o povo gritava a sua própria versão de “bandido bom é bandido morto” para a época. Segundo Lucas 23:34, esta foi a sua resposta:

Pai, perdoa-lhes, pois eles não sabem o que fazem.

***

Créditos das imagens: [topo] Salve Geral/Divulgação; [ao longo] Google Image Search

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1.6.16

A cultura do acolhimento

Introdução
Quando fiquei sabendo da grande repercussão do estupro coletivo de uma jovem de 16 anos no Rio de Janeiro, seja nas redes sociais ou mesmo na grande mídia, logo me veio uma necessidade de falar alguma coisa sobre o assunto – isto é, sobre a repercussão em si, o que foi de fato a novidade (para o alívio de muita gente, principalmente das mulheres em geral), visto que o estupro em si, tanto aqui como no resto do mundo, infelizmente está longe de ser novidade.

De fato, seja no Brasil, na Índia ou nos EUA, em bailes funk e favelas ou em universidades luxuosas, entre gente pobre ou bem criada, na rua ou no seio das famílias mais bem reputadas, o estupro está mais para epidemia do que para novidade. Uma epidemia de violência que surge da ignorância sobre o que nós homens somos realmente.

Porém, uma vez que eu já disse quase tudo o que tinha para dizer sobre o assunto num conto que escrevei há alguns anos, A educação de Casanova, e conforme hoje em dia muita gente ainda confunde feminismo com femismo, e machismo com “defesa da masculinidade”, confesso que optei por abdicar de voltar uma vez mais a um tema tão espinhoso (não por culpa do tema em si, mas sobretudo por culpa da ignorância geral acerca dele).

Foi por isso que resolvi trazer a vocês não um artigo meu, mas sim o resumo de um excelente artigo de Nora Samaran, uma blogueira canadense que analisa grandes questões da cultura moderna. Ela, como excelente escritora, e sobretudo como mulher, pode nos esclarecer melhor o assunto do que eu creio que seria capaz de fazer. O artigo se encontra resumido por ser excessivamente extenso, mas podem encontrá-lo na íntegra em seu blog. A tradução do inglês original é de Marcelo Dakí:


O oposto da cultura de estupro é a cultura de acolhimento
O oposto da cultura masculina de estupro é a cultura masculina de acolhimento: homens aumentando sua capacidade de acolher, tornando-se plenos.

O julgamento Ghomeshi [1] volta aos noticiários, trazendo o tópico da agressão sexual violenta de volta às mentes das pessoas e às conversas cotidianas. Certamente a violência é errada, mesmo quando o sistema jurídico que lida com a mesma é um desastre. Essa parte parece evidente. Alarmante, mas evidente.

Mas aqui há algo maior em cena. Estou lutando para vislumbrar a forma completa que emerge do desenhar do lápis, quando apenas partes são visíveis no momento.

Um meme que circula por aí diz “Estupro é violência, não sexo. Se alguém te batesse com uma pá, você não chamaria isso de jardinagem”. E isso é verdade. Mas apenas a superfície da verdade. As profundezas dizem algo além, algo sobre a violência.

A violência é o acolhimento virado do avesso.

Essas coisas estão conectadas, elas têm de estar conectadas. Violência e acolhimento são dois lados da mesma moeda. Eu luto para entender isso mesmo enquanto escrevo.

Autocompaixão e compaixão pelos outros crescem juntas e estão conectadas; isso significa que homens buscando e recuperando partes perdidas de si mesmo vão curar a todos. Se muitos homens crescerem aprendendo a não amar seus eus verdadeiros, aprendendo que suas demandas de apego emocional (segurança emocional, acolhimento, conexão, amor, confiança) são fracas e erradas – que o a demanda por apego de qualquer pessoa, ou sua segurança emocional, são fracas e erradas – isso pode levar a duas coisas:

(1) Eles podem se tornar menos aptos a experienciar mulheres enquanto pessoas plenas, com demandas e sentimentos inteligíveis (por autonomia, por segurança emocional, por sintonia, por confiança).
(2) Eles podem se tornar menos aptos a compreender suas próprias demandas por conexão, transmutando-as em vez disso em formas distorcidas, mais espelhadas no social.

Então, para curar a cultura de estupro, homens constroem habilidades masculinas de acolhimento: acolhimento e recuperação de seus eus verdadeiros, e acolhimento de pessoas de todos os gêneros ao seu redor.

Eu estou lentamente descobrindo um segredo: os homens que conheço que são excepcionalmente acolhedores, amantes, pais, colegas de trabalho, amigos íntimos de seus amigos, que sabem como fazer as pessoas se sentirem seguras, esses homens não tem quase nenhum canal através do qual possam aprender ou compartilhar com outros homens essa habilidade arduamente conquistada. Se tiverem sorte, podem ter um modelo de comportamento em casa, na forma de um pai excepcionalmente acolhedor, mas sem ter esse modelo eles têm de descobrir tudo através de tentativa e erro, ou aprender com mulheres ao invés de homens. Esse conhecimento molda tudo: premissas sobre a significação de demandas, sobre como alguém pode responder a elas, como é sentida a proximidade, como amar sua própria alma, e qual tipo de acolhimento deve de fato acontecer num espaço íntimo.

Enquanto isso, os homens que conheço que são pessoas boas, de bom coração, mas que estão só começando a alimentar seus próprios modelos de amor-próprio e aprendendo a confortar e acolher os outros, esses homens não têm outros homens como referências. Crescimento acarreta dores de crescimento, certamente, mas o caminho pode ser suavizado quando alguém não precisa aprender tudo sozinho.

Homens não conversam uns com os outros sobre habilidades de acolhimento: fazer isso soa muito íntimo, ou os códigos da masculinidade tornam muito apavorante fazê-lo. Se eles não podem perguntar e ensinar uns aos outros – se eles não podem nem mesmo descobrir quais outros homens em suas vidas seriam receptivos a tais conversas – como eles aprendem?

Homens têm capacidade de cura que são particularmente masculinas e particularmente curadoras. Eles frequentemente não estão totalmente cientes desse profundo dom e do quanto ele pode ser de ajuda àqueles próximos a eles, sejam familiares ou amigos íntimos.

Para uma transformação completa dessa cultura de misoginia, homens devem fazer mais do que “não agredir”. Nós devemos fazer um apelo à masculinidade para que se torne plena e acolhedora de si mesma e dos outros, para que reconheça que demandas por apego são saudáveis e normais e não “femininas”, e então esperar que os homens curem a si mesmos e aos outros da mesma forma que esperamos que as mulheres sejam “acolhedoras”. É a hora dos homens reconhecerem e nutrirem seus próprios dons de cura.

[...] Homens precisam fazer esse trabalho com outros homens – não sozinhos, não em vez de fazê-lo com mulheres, mas para além disso, em relações responsáveis com e para com mulheres. Em outras palavras, continuar aprendendo das maneiras que o aprendizado está ocorrendo agora – e então dividir esse aprendizado uns com os outros. [...] [Os] homens precisam fazer esse trabalho de cura todos os dias, por detrás das cortinas, colhendo as recompensas de terem mulheres e pessoas de todos os gêneros se sentindo seguras com eles, e cultivando seu amor-próprio e o amor de uns pelos outros.

A maravilhosa recompensa de se criar laços seguros é que, nesses lugares de confiança, um brilho quente de significado e propósito emerge. Um círculo interior de confiança e vulnerabilidade permite movimento e descanso: ele permite que as abelhas se aproximem e se afastem da colmeia. Cria abrigos feitos de familiares escolhidos e uma comunidade amada da qual a ação, confrontos ao racismo, sexismo, à violência institucional podem surgir, uma rede de segurança para que sejam amparados os corpos e as almas de cada um, a fundação que permite o risco.

O oposto da cultura masculina de estupro é a cultura masculina de acolhimento. Isso é um trabalho para ser feito por homens, e ainda assim é uma necessidade de pessoas de todos os gêneros ter homens em suas vidas. As recompensas estão esperando.

Você é um homem acolhedor? As mulheres na sua vida – parceira, filha, irmã, amiga, colega de trabalho, mãe – te dizem ou demonstram que você as faz se sentirem excepcionalmente próximas, seguras e que importam? Em caso positivo, como você aprendeu isso? Como você abre espaços para que homens que querem ter tais conversas comecem a tê-las?

Cada homem que eu perguntei a respeito disso respondeu, “ambos os homens teriam de querer isso.” Medo de proximidade, códigos masculinos de interação, os sinais de nível baixo de um cérebro-reptiliano que os homens enviam uns aos outros, são reais e parte do quadro maior. Mas muitos homens estão se debatendo com tais questões, trancados sozinhos em suas pequenas caixinhas.

Homens têm de fazer isso acompanhados de outros homens, apesar das dificuldades de fazê-lo, por três razões. Primeiro, homens entendem o que é ser um homem muito mais do que as mulheres o entendem, e podem ensinar um ao outro enquanto compreendem como é sentir isso e ter compaixão uns pelos outros. Homens devem fazer isso com outros homens porque, francamente, mulheres não podem se responsabilizar por curar homens enquanto se protegem de violência e negligência masculinas, que ainda são endêmicas e partes da vida cotidiana das mulheres. Finalmente, uma das grandes distorções do espírito humano em nossa cultura é que cada homem vive em confinamento solitário, pensando que pode e deve resolver problemas sozinho, que não pode precisar de mais alguém. Saltar as barreiras que impedem homens de falar sobre emoções com outros homens é em si uma mudança fundamental, que reduz a vergonha e a confusão.

Como você sabe quando homens ao seu redor – o amigo que você acabou de encontrar para um drink, o colega com quem você colaborou em projetos por anos, o parceiro de futebol – podem na verdade estar quietamente confusos e sedentos por esse tipo de aprendizado?

Como você pode sinalizar sua disponibilidade, para deixar os homens na sua vida saberem que você mesmo está fazendo isso, para que então aqueles homens que queiram saber sobre acolhimento possam encontrar-se uns aos outros? É tão simples quanto começar um grupo masculino de discussão baseado neste artigo.

Pode ser tão simples quanto compartilhar esse artigo, e perguntar “Isso alguma vez já te ocorreu?”

Pode ser tão simples quanto enviar esse artigo para alguém que você conhece e dizer “Estou disponível”.

Pode ser tão simples quanto postar esse artigo e dizer “Estou aqui”.

***

[1] Jian Ghomeshi é um músico canadense que foi acusado de assédio sexual por várias mulheres, mas aparentemente acabou sendo inocentado de todas as acusações em seu julgamento, o que não foi muito bem aceito pela opinião pública das bandas de lá.

Crédito da imagem: Oleg Oprisco

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30.5.15

O país do futuro

No país do futuro
há muitas criancinhas
que brincam pelas ruas
de catar balas de fuzil
dos tiroteios das madrugadas;
enquanto outras, mais grandinhas,
que já aprenderam a correr e pular,
brincam de subir o morro e gritar:
Vem aí os alemão!

No país do futuro
há jovens sem pai nem mãe
nem escola nem sociedade...
O que eles querem?
O tênis da moda,
a camisa do shopping,
o celular novo do comercial...
Mas, como já disse o poeta,
o seu cartão de crédito
é uma navalha.

No país do futuro
os homens de bem se trancam
em suas vilas, condomínios,
e malls maravilhosos,
cheios de grades, câmeras
e sentinelas...
Mas, quando se arriscam a sair
e apreciar a paisagem,
muito cuidado!
Eis que podem ser perfurados
pela realidade!

No país do futuro
há muitos que parecem temer
que todos esses que vivem nas encostas
subitamente resolvam descer ao asfalto,
juntos, e revoltados...
Porém, há muitos que se entreolham
nas praias, nos parques, nos estádios,
e nas vias comuns,
e indagam a si mesmos:
Mas não disse o rabi
que éramos todos irmãos?

No país do futuro,
que importa, afinal,
quem sobe
e quem desce?

No entanto, no país do hoje,
é preferível ainda
enviar todas essas criancinhas,
e jovens, e seres
condenados a viver a margem
para os morros
e as masmorras,
a depender, é claro,
do merecimento de cada um!

Depois ainda não sabem
porque diabos esse tal futuro
não chega nunca...


raph'15

***

Crédito da foto: Wilton Júnior/AE

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19.9.14

Caixas quebradas

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


Há quase dez anos atrás eu vivenciei um instant karma, ou um carma instantâneo.

Somente quem passou por isso, e crê em carma, pode saber como é. Em todo caso, outro dia tentei descrever nas redes sociais, comentando uma notícia que tinha a ver com o tema:

Um dia eu fiquei muito revoltado com a minha mulher. Acabei dando um soco na lateral do armário, e toda a minha coleção de CDs de música caiu junto com uma prateleira que se deslocou da parte superior. Naquele momento eu pensei comigo mesmo: instant karma! Até hoje, quando vejo as caixas quebradas dos meus CDs ao abrir o armário, lembro da importante lição que aprendi da Natureza naquele dia...

A notícia em questão era uma notícia do blog do psiquiatra Jairo Bauer, onde ele trazia dados de um estudo realizado nos EUA que chegou a aterradora conclusão de que um em cada cinco americanos agredia a sua parceira.

Como era um canto das redes sociais frequentado por feministas, elas logo tratarem de me alertar:

Pesquisas indicam que o soco no armário é só o começo, depois você poderá estar dando um soco na cara da sua mulher, o que provavelmente é o que gostaria de ter feito!

Posso lhe garantir que o trauma que sua mulher passou não se compara as caixas quebradas dos seus CDs de música!

Vocês podem pensar que eu fiquei chateado com esse tipo de reação... Muito pelo contrário, é o tipo de reação que deveria se esperar de mulheres feministas que estão bem informadas sobre o quadro da violência doméstica no Brasil e no mundo. Melhor pecar pelo exagero do julgamento apressado do que pela leniência da maioria, que costuma dizer que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”.

Mas talvez tivesse ajudado se eu houvesse explicado melhor o que eu senti exatamente naquele dia, há quase dez anos atrás...

Como eu estava com uma raiva muito súbita da minha mulher, achei por bem sair do quarto onde estávamos discutindo e ir para outro, e foi assim que entrei no quarto em que soquei a lateral do armário. Ora, é óbvio que eu soquei o armário por estar com raiva, é óbvio que se esta raiva não fosse tratada, compreendida e, quem sabe, domesticada, nalgum dia o alvo do meu soco poderia realmente ser o rosto da minha mulher – e isto é muito grave!

Mas não foi sem a ajuda do instant karma que eu consegui chegar a tal conclusão. Na verdade, eu não dou a mínima para as caixas quebradas dos CDs. De fato, se quisesse eu poderia ter comprado outros CDs. O que me interessa nas caixas quebradas é o símbolo que elas representam, e que me trazem a lembrança daquela vivência:

Quando vi toda a minha coleção de CDs no chão, foi como se ouvisse uma mensagem da Natureza: “Você tem certeza de que quer prosseguir neste caminho? Daqui para frente será só amor corrompido, e cada vez mais corrompido”.

Até hoje, toda vez que abro meu armário e troco de roupa, me lembro daquela mensagem da Natureza.


Um estudo do Ipea estima que, entre 2009 e 2011, o Brasil registrou 16,9 mil feminicídios, ou seja, “mortes de mulheres por conflito de gênero”, especialmente em casos de agressão realizadas por parceiros íntimos. Esse número indica uma taxa de 5,8 casos para cada grupo de 100 mil mulheres. Neste país, a cada uma hora e meia, em média, morre uma mulher vítima da violência do seu companheiro.

Nos EUA, recentemente, imagens do circuito interno de um hotel flagraram um astro do futebol americano agredindo a sua esposa dentro do elevador. As imagens mostram que ela desmaiou com um único soco, que a fez bater com a cabeça no corrimão de aço do elevador. Alguns andares depois, o jogador a arrasta para fora do elevador e espera ela acordar, enquanto um funcionário do hotel tem o cuidado de segurar a porta para que não se fechasse nas pernas dela.

Devido a enorme pressão popular por conta da divulgação das imagens na web, o Baltimore Ravens, time pelo qual jogava, decidiu demiti-lo, enquanto a liga de futebol americano, a NFL, o suspendeu indefinidamente. Agressões de jogadores as suas esposas ocorrem há anos nos EUA, dificilmente tal caso teria esse desfecho não fosse pela divulgação das imagens.

Mesmo assim, esta foi a mensagem que a esposa agredida divulgou na web, no dia seguinte a agressão:

Tirar algo do homem que amo e que ele se dedicou por toda a vida apenas para ganhar audiência é horrível. Essa é nossa vida! Por que vocês não entendem? Se a intenção era nos machucar, nos envergonhar, nos fazer sentir solitários, tirar toda nossa felicidade, vocês tiverem sucesso.


Esses foram apenas alguns dados estatísticos que refletem o atual estágio de nossa sociedade. Aqui, nos EUA e em boa parte do dito mundo civilizado.

Já foi muito pior, é claro. Não muitos anos atrás a alegação de “legítima defesa da honra” ainda salvava muitos maridos homicidas da condenação pelos seus crimes. Após o caso Doca Street isso mudou. Mas ainda precisamos mudar muito, muito mais!

A própria Lei Maria da Penha, um marco na legislação brasileira, só conseguiu reduzir ligeiramente a mortalidade das mulheres nos primeiros anos após a sua implementação. Hoje a curva da violência doméstica letal já retornou aos mesmos patamares do período anterior a Lei.

Mas ao menos hoje em dia tal assunto não é mais varrido para debaixo do tapete. Ao menos hoje em dia muitos homens e mulheres, feministas ou não, já têm plena compreensão da devastação que a violência doméstica causa em nossa sociedade e em nossas relações, na maioria das vezes, silenciosamente.

O macho é educado para ser viril, para não chorar, para sustentar a casa, etc. Mas o macho também é educado para proteger suas famílias, seus filhos e, sobretudo, para nunca, em hipótese alguma, agredir uma mulher ou uma criança. Como podemos ver, a visão dos machos sobre a própria educação é um tanto quanto seletiva. Muitos provavelmente ainda achariam uma tragédia muito maior chorar em público do que ser visto agredindo a mulher... A educação dos machos falhou, é o que milhares de estatísticas demonstram.

Eu gostaria muito que todo o “homem macho” pudesse um dia sentir, vivenciar, o instant karma que eu passei. Eu gostaria de fazê-los compreender que este tal caminho de “ser muito macho” é uma dos caminhos mais nocivos e corruptores que o ser humano já inventou. Corruptor de almas, nocivo a própria vida.

Eu gostaria, enfim, que todos pudessem um dia ver a si mesmos como eu me vi naquelas caixas quebradas, que em realidade também eram o reflexo de uma alma que vinha se rachando...

Mas eu me consertei a tempo. Espero que outros tenham a mesma sorte. Mas, enquanto a sorte não vem, espero também que as suas companheiras compreendam, cada vez mais, que o amor não tem nada, absolutamente nada, a ver com qualquer tipo de violência.


Segundo a falsa ideia de que não é possível reformar a sua própria natureza, o homem se julga dispensado de empregar esforços para se corrigir dos defeitos em que de boa-vontade se compraz, ou que exigiriam muita perseverança para serem extirpados. É assim, por exemplo, que o indivíduo, propenso a raiva, quase sempre se desculpa com o seu temperamento. Em vez de se confessar culpado, culpa seu organismo, acusando a Deus por suas próprias faltas. (Hahnemann)

***

Crédito da imagem: Google Image Search/Conversation

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3.7.13

Como sobreviver numa arena

Em 1999, o mais novo lançamento do mundo dos games de tiro com visão em primeira pessoa (first person shooter ou, pela sigla, FPS) era o Quake III Arena, um jogo brutal em que jogadores do mundo todo jogam online numa arena de guerra onde dois grupos de guerrilheiros (armados com armas de fogo futuristas e extremamente letais) duelam até que um dos grupos tenha sido inteiramente exterminado. Quando isto acontece, todos os mortos retornam a vida e começa um novo duelo, e assim por diante...

Uma das inovações do game, segundo a desenvolvedora (Id Software), era a suposta “nova inteligência artificial” dos bots no jogo. Um bot (abreviação de robot) é uma aplicação de software concebida para simular ações humanas repetidas vezes de maneira padrão, da mesma forma como faria um robô. Durante o jogo, os personagens da arena controlados pelo computador (ou seja, não controlados por jogadores reais e humanos) supostamente observariam o estilo de luta dos demais jogadores, humanos ou bots, na medida em que a simulação das arenas de batalha transcorresse.

Com o tempo, seriam capazes de “pensar” em novas táticas, efetivamente se adaptando as táticas que mais venciam combates, e ignorando as táticas ineficazes para a sua sobrevivência, pois ganha o combate o grupo que sobrevive ao final [1]. Para que a inteligência artificial dos bots pudesse se desenvolver mais profundamente, entretanto, os servidores do jogo deveriam permanecer online, simulando centenas ou milhares de batalhas, por muito tempo a fio. E isto era inviável para os servidores oficiais do game, que precisam passar por manutenção semanal.

De acordo com um misterioso tópico de um fórum online (hospedado no 4Chan), em 2007 um jogador configurou um servidor pirata local do game (ou seja, hospedado em sua própria casa) para rodar indefinidamente simulações de arenas de combate entre 16 bots, sem nenhum ser humano a interagir com eles. Ocorre que este jogador esqueceu completamente do que havia feito, e como em sua casa os computadores ficavam sempre ligados, como servidores locais, a simulação rodou por longos quatro anos, até que em 2011 ele finalmente se lembrou dela!

Cada um dos 16 bots da simulação havia gerado 512 MB de informações táticas aprimoradas por centenas de milhares de partidas letais. Eram 8 GB de informações. O que elas teriam gerado? Atiradores infalíveis? Coordenação perfeita e robótica para matar da forma mais eficiente possível? O jogador resolveu entrar na simulação para ver quanto tempo seria capaz de sobreviver...

Então, para sua surpresa, ele observou que os 15 bots (ele estava jogando como o décimo sexto) nada faziam, apenas olhavam para ele e o seguiam onde quer que fosse. Não pareciam mais duelistas letais, mas antes pacifistas em busca de um sentido para estarem vagueando indefinidamente por uma arena de batalha. Aparentemente, em alguns anos de simulação, a inteligência artificial dos bots chegou a melhor estratégia para a sobrevivência: ninguém morre quando ninguém mata.

A Teoria dos Jogos é um ramo da matemática aplicada que estuda situações estratégicas onde jogadores escolhem diferentes ações na tentativa de melhorar o resultado, ou seja, o retorno de suas escolhas. Inicialmente desenvolvida como ferramenta para compreender comportamento econômico e depois usada pela Corporação RAND para definir estratégias nucleares, a Teoria dos Jogos é hoje usada em diversos campos acadêmicos.

Podemos ilustrá-la de forma simples e direta com o chamado “dilema do prisioneiro”, originalmente formulado por funcionários da RAND:

Dois suspeitos, A e B, são presos pela polícia. A polícia tem provas insuficientes para sua condenação; mas, separando os prisioneiros, oferece a ambos o mesmo acordo: se um dos prisioneiros, confessando, testemunhar contra o outro e esse outro permanecer em silêncio, o que confessou sai livre enquanto o cúmplice silencioso cumpre 10 anos de sentença. Se ambos ficarem em silêncio, a polícia só pode condená-los há 6 meses de cadeia cada um. Se ambos traírem o comparsa, cada um leva 5 anos de cadeia. Cada prisioneiro faz a sua decisão sem saber que decisão o outro vai tomar, e nenhum tem certeza da decisão do outro. A questão que o dilema propõe é: o que vai acontecer? Como o prisioneiro vai reagir?

No “dilema do prisioneiro”, temos uma situação onde o altruísmo e a confiança mútua oferece o melhor resultado final para ambos os jogadores. No entanto, isto não ocorre sem o risco de se ficar calado, confiando em seu parceiro, e ao fim ser traído por ele, e receber em retorno o pior resultado. De certa forma, a Teoria dos Jogos e o “dilema do prisioneiro” se aplicam não somente a economia e as relações de poder entre potências nucleares, mas também a uma partida de Quake III Arena... Será mesmo?

Retornando ao experimento insólito do início do artigo, o jogador resolveu “ver o que acontecia se atirasse em algum outro bot”. Para sua surpresa, ao fazer isso, ele foi atacado (e morto) não somente pelos 8 bots do outro time, como pelos 7 outros bots de sua própria equipe!

Ou pelo menos foi isto que a imagem com capturas de tela do suposto tópico do 4Chan dizia. Muitos sites de games compartilharam a notícia, e ela obteve certa fama também nas redes sociais. No entanto, como muitos podem ter imaginado, era tudo um hoax, ou seja, uma história inventada, como tantas outras que vemos nestes tempos de propagação desenfreada da informação.

Porém, ainda que não tenha ocorrido de verdade, ainda que os 16 bots com suas inteligências artificiais sejam incapazes de interpretar o resultado de suas ações (já que são ferramentas de computação, e não seres de interpretação), esta história ainda nos toca numa questão primordial: ela foi espalhada como algo verossímil, extremamente verossímil.

Penso que muitos de nós têm esta certa queda por acreditar que uma simulação computacional possa, de alguma forma incompreensível, chegar a conclusões que, no fundo, são as nossas própria conclusões, mas que não temos a vontade, ou a coragem, de coloca-las em prática.

Afinal, não se enganem: o bot do game mais avançado do ano que vem não será mais nem menos ferramenta do que um martelo ou uma bomba nuclear. Não é o martelo que mata ou constrói coisas, é quem o empunha. Não foi o material radioativo, e nem mesmo os físicos que descobriram a fissão nuclear quem arrasaram Hiroshima, foram aqueles que deram a ordem: “soltem a bomba”...

Somos, desta forma, todos prisioneiros desta enorme simulação chamada “mundo”, e só sairemos desta prisão de mãos dadas – todos serão livres somente quando não houver mais nenhum prisioneiro.

***

[1] Isto não deixa de ser uma forma de programação genética.

Crédito das imagens: [topo] Quake III Arena (captura de tela); [ao longo] Adrianna Williams/Corbis

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14.6.13

Primavera Brasilis

Como sabemos, a Primavera chegou ao Brasil. Com “pleno emprego” e tudo, os jovens ainda assim foram chamados e compareceram as ruas de São Paulo e outras metrópoles da Terra Brasilis. Vimos um médico desnorteado incitando sua polícia à violência. Vimos um professor esquecido das ideologias da juventude. Vimos a “direita” e a “esquerda” alinhando seu discurso e demonstrando o que os que estavam nas ruas já sabiam há tempos: que neste país, não são tão diferentes assim.

Acreditaram que toda a manifestação era “orquestrada” por alguma “liderança oculta”. Acreditaram que ninguém iria dar bola para míseros 20 centavos de aumento das passagens de ônibus. Acreditaram que todos eram vândalos de baixa renda e baixa escolaridade, e que a melhor solução seria a repressão que a polícia militar, a despeito de estarmos a décadas do fim da ditadura, ainda sabe fazer como ninguém.

Deu no que deu. Agora, após até mesmo a Folha de São Paulo haver “mudado de opinião” tão repentinamente, sua preocupação deixou de ser com os míseros 20 centavos e com os vândalos. Agora estão preocupados com a repercussão da violência policial no exterior, com a repercussão da prisão de jornalistas na Anistia Internacional e, principalmente, em saber quem diabos é o “cabeça”, a “liderança oculta”, o sujeito mascarado...

Eu vou lhe dizer quem é o sujeito mascarado, mas só no final. Antes vou falar sobre os manifestantes, os ex-vândalos. Vi um estilista, amante de livros, que resolveu conferir as manifestações ao vivo, e desligou a TV:

Pela primeira vez me senti no lugar correto, para usar o novo jargão do protestante 2.0: “A passeata que fui me representa”.

Finalmente sinto que participei de algo ao lado de pessoas que tinham o mesmo pensamento que eu, que não estavam lá pra defender um partido ou uma causa específica, mas sim por indignação pelo tratamento concedido por parte dos nossos representantes públicos. Diferente dos protestos ao redor do mundo, nós não gritamos “palavras de ordem”. Aqui no Brasil (mais especificamente o que vi e vivi em São Paulo), até os gritos de guerra mais pesados viram festividades em forma de marchinhas: “vem pra rua vem!”. Quem estava lá entende. Não era agressivo. Era festivo.

Sinceramente, seria muito bom se víssemos isso como uma qualidade e não como defeito. A agressividade sendo trocada por chamados de convívio mútuo a de ser comemorada e louvada. Lá, antes das 20hrs, tínhamos tudo, consciência política, participação, voz e alegria. Esta foi a passeata que eu fui e assim ela terminou. Não foi a passeata que assisti pela TV ao chegar em casa, quando aquela minoria que restou resolveu quebrar tudo e roubou as manchetes da melhor e mais bonita manifestação que já participei [1].

Como o governo e a grande mídia gostariam que fossem somente alguns atos passageiros de uma minoria de vândalos. Como o governo e a grande mídia gostariam que fossem manifestações orquestradas por pequenos partidos políticos que ainda acreditam em lendas comunistas do século passado. Pois, fosse assim, eles já saberiam o que fazer. Mas não é assim, não mais. Vi também um jornalista que não teme expor sua opinião:

O esquerdo-direitismo é uma crença semi-religiosa que se tornou a ideologia dominante do mundo no último século. Esquerdo-direitistas são pessoas que acreditam que todo o bem que existe no mundo provém de apenas uma fonte. Há dois tipos de esquerdo-direitistas – aqueles que acham que a fonte de todo o bem é o mercado e aqueles que acham que é o estado. A estes chamamos esquerdistas, aqueles são os direitistas.

No fundo, esquerdistas e direitistas são dois lados de uma mesma coisa. Ambos veem o mundo em apenas duas dimensões, sem profundidade, dividido entre bons e maus. Não admira que esquerdistas transformem-se em direitistas e vice-versa com tanta facilidade – alguns dos analistas mais ferrenhos da direita passaram a juventude militando nas facções mais radicais da esquerda [2].

Vamos aprender política brasileira com o seu maior representante, o PMDB: (passo 1) Estar no poder; (passo 2) Caso não ganhemos a presidência, formar a base aliada do governo; (passo 3) Na base aliada, negociar o maior número de ministérios possível; (passo 4) Sempre que as negociações estiverem emperradas, chantagear o governo. Resultado: Passo 1 sempre garantido de uma forma ou de outra.

No entanto, existem exceções: (a) PT e PSDB nunca podem formar a base aliada um do outro. Quando um não está no poder, é obrigado a ser oposição de verdade (a diferença é que para o PSDB a ficha ainda não caiu); (b) PSTU é um partido efetivamente ideológico, mas que ainda acredita em lendas do século passado; (c) PSOL é um partido efetivamente ideológico, mas que acredita que algo de novo pode surgir neste século. Resultado: na última eleição no Rio de Janeiro (2012) “direita” e “esquerda” massacraram o candidato do PSOL, por que era o único que seguia uma ideologia. 

Os governantes deste país têm nos ensinado que ideologias são muito perigosas. Quem está no poder geralmente não gosta muito delas... Mas se você acha que eu escrevi tudo isso somente para defender o PSOL, está enganado. Nada garante que o PSOL, ao chegar ao poder, não se comporte da mesma forma que outros partidos de oposição que chegaram lá e pouca coisa mudaram. Isto por que o sistema está equivocado, antigo, corrupto. Aqui não se faz Política, se faz um “negócio eleitoral”. O que os que estão no poder mais temem, portanto, é exatamente que a Primavera Brasilis seja apolítica, isto é, Política de verdade: para começar a se refazer Política, antes é necessário fazer uma reforma geral na política. Os “P”s e os “p”s são propositais.

Vi que os manifestantes, em sua grande maioria, não somente não trazem símbolos de partidos políticos, como abominam se envolver com eles. Bandeiras de partidos são somente toleradas, não tem nada a ver com a alma desta Primavera. Os partidos Políticos do futuro ainda irão surgir. Os Políticos do futuro serão jovens, jovens de verdade, independente de sua idade.

Mas, e quem é afinal o tal mascarado?

Agora eu posso lhe contar. Você mesmo pode descobrir quem ele é, e é muito fácil. Dê um jeito de comprar uma dessas máscaras do Alan Moore, depois vá a pelo menos uma manifestação desta Primavera, seja onde estiver no país, e procure observar a tudo com os olhos de um jovem, de uma criança, de um recém-nascido... Caminhe pelas ruas como se elas fossem novas ruas. Observe os transeuntes como se eles fossem, ao menos por breves momentos, parte da sua família. E se alguém lhe apontar alguma arma de fogo ou canhão, lhe entregue uma flor.

Depois retorne para sua casa e, de frente para algum espelho, retire a máscara.

Lá estará o tal mascarado, desmascarado...


Onde a mente encontra-se sem medo e a cabeça é mantida erguida
Onde o conhecimento é livre
Onde o mundo não foi quebrado em fragmentos
Por estreitos muros domésticos
Onde as palavras vêm da verdade profunda
Onde laboriosas lutas esticam seus braços em direção à perfeição
Onde o riacho límpido da razão não perdeu o seu rumo
Afluindo ao triste deserto dos hábitos moribundos
Onde a mente é direcionada adiante por você
A pensamentos e ações sempre em constante afloramento
Nesse céu de liberdade, Pai, deixe meu país acordar

(Tagore)

***

[1] Trechos do artigo de Bruno Passos para o blog Papo de Homem: Contra o aumento das tarifas de ônibus: o protesto que eu não vi pela TV.

[2] Trechos do artigo de Denis Russo Burgierman para a Superinteressante: A maldição do esquerdo-direitismo.

Crédito da imagem: Anonymous

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14.2.13

Condutoras

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...

“Só podia ser mulher! Nessas horas eu sou machista...”.

Quem disse isso foi uma mulher. Ela estava dirigindo o carro, e eu era o carona. No cruzamento, alguma outra mulher conduzia seu carro sem muita pressa, o que é sempre um incômodo para o mundo do fast food.

Mas eu não estou aqui para falar de fast food, e sim de machismo. Já pararam para pensar? – São as mães, são as mulheres, primordialmente, quem ensinam seus filhos e filhas a serem machistas. Ou, pelo menos, a maioria pouco faz para evitar a sedução do pensamento machista na maior parte das sociedades do mundo.

Em comerciais de TV (inclusive de carros), músicas pop, novelas, e até mesmo na literatura softcore altamente vendável: o machismo ainda está por toda a parte. Mas é claro que as coisas mudaram: hoje em dia, na maior parte do mundo civilizado, as mulheres tem alma, podem escolher com quem vão se casar, tem direito ao voto, e estão a caminho de ganhar quase tanto quanto os homens pela mesma função no trabalho. Dizem até que no ensino superior já ultrapassaram os homens há algum tempo, ao menos em porcentagem de inscritos... Então, qual é o problema?

O problema está na origem do machismo, isto é, na origem do mundo patriarcal. Como alguns devem saber, há muito, muito tempo, a maioria das sociedades tribais era matriarcal, pois eram as mulheres, as sacerdotisas, quem “dominavam” os mistérios da vida, e da Deusa Mãe. Era somente através delas que novos seres humanos chegavam a Terra, e por isso parecia justo que fossem elas as responsáveis por organizar e celebrar os cultos e rituais religiosos.

Então chegou a agricultura. No início, deu ainda mais poder as mulheres: afinal, elas já cuidavam de organizar a tribo enquanto os caçadores-coletores se arriscavam no meio selvagem. Agora cuidavam também da plantação e do estoque de grãos. Estocar comida, isto sim, era algo inédito na história humana. Infelizmente, nem todas as tribos tinham a mesma habilidade para tal função.

Em épocas de fome, tribos de nômades pensaram assim: “Porque me arriscar a caçar na selva, se posso simplesmente invadir aquela tribo onde há vasos cheios de comida estocada, e somente mulheres cuidando dela?”. Os caçadores nômades passaram a invadir tribos estabelecidas, e foi então que o mundo viu o surgimento do primeiro exército: um grupo de caçadores passou a ser pago em comida, para proteger a comida.

Ainda que todo soldado sirva, idealmente, para manter a paz, na prática foi com violência e sangue, muito sangue derramado, que ela vem sendo mantida desde então. O matriarcado não fazia mais sentido num mundo violento. A Deusa Mãe tornou-se submissa ao Deus Pai. Freyja tornou-se apenas a esposa de Wotan.

O machismo está, portanto, intimamente ligado à violência, a ideia de que “os homens são fortes e lhe protegem, mas não os irrite porque eles são mais fortes que você”. Então, se na teoria o machismo pode parecer somente algo engraçado que aparece de vez em quando na TV, na prática o que ele gera são estatísticas alarmantes de violência doméstica e estupros. E isto não aparecia na TV até pouco tempo, mas mesmo o que aparece é somente a ponta do iceberg...

No entanto, isto não responde a pergunta: “se o machismo é tão nocivo as mulheres, porque grande parte delas, quem sabe a maioria, é machista?”.

Neste caso, precisaremos recorrer a mitologia: Enquanto boa parte das deusas perdeu sua força ancestral, o gênero feminino conseguiu se manter no pensamento masculino como uma espécie de joia preciosa, de troféu... A musa que dá inspiração aos artistas, a princesa que precisa ser resgatada de algum monstro vil (e que é ela mesma o prêmio da aventura), a miss que, com sua beleza, reina sobre homens e mulheres.

E, conforme os mitos não existem, mas existem sempre, isto significa que existem ainda neste momento. Talvez por isso muitas mulheres aceitem o machismo. Elas podem até saber, ainda que inconscientemente, que correm algum risco de serem estupradas ou esbofeteadas ocasionalmente num mundo de homens machistas, mas talvez aceitem o risco pela possibilidade de serem, elas mesmas, o grande prêmio cobiçado por todos!

Qual mulher machista, afinal, não quer ser a musa, a princesa prometida ao grande herói, a miss universo, a mais bela de todo o mundo, de todo o Cosmos?

E isto só é possível num mundo machista. Num mundo machista as mulheres que são mais cobiçadas não são exatamente aquelas donas do próprio nariz, senhoras de si, livres pensadoras, mas sim aquelas que esperam, tal qual a princesa do castelo, pelo príncipe encantado. Num mundo machista estamos atrás de mulheres-troféu. E as mulheres machistas, afinal, querem muito ser este troféu tão adorado.

Infelizmente para elas, e felizmente para os que desejam um novo mundo, a grande maioria das mulheres não alcança tal posto... Um dia, quem sabe, elas cansem das dietas milagrosas e da obsessão pela estética, e se voltem para dentro, e descubram a si mesmas, e rasguem esta ridícula veste de princesa que as limitam por todos os lados. Quem sabe, um dia, as mulheres aceitem a celulite e algum tanto de culote.

Neste dia o machismo estará em sérios apuros. Neste dia a Deusa Mãe, e a sensibilidade, e o amor e respeito a Natureza, e o amor e respeito a integridade da mulher, estarão em vias de retomar seu lugar no mundo. Não um lugar de dominância, acima do Deus Pai, pois neste novo mundo Deus poderá ser, finalmente, Pai e Mãe!

E, em toda essa história, teremos citado apenas uma lenda, um mito efetivamente falso: As mulheres são melhores condutoras de automóveis que os homens, e já faz algum tempo. Se duvidam, pesquisem pelo preço do seguro para homens, e para mulheres.

O que falta a mulher é, portanto, ser a condutora da própria vida. Os homens, afinal, não as deixaram num mundo tão maravilhoso assim. O príncipe encantado, e seu Reino Encantado, podem existir no futuro, não hoje.

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Crédito da foto: Tomas Rodriguez/Corbis

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22.6.12

Todas as guerras do mundo, parte 1

Guerra é um confronto sujeito a interesses da disputa entre dois ou mais grupos distintos de seres, que se valem da violência para tentar derrotar o adversário.

Quem chora pelos demônios?

Columbine sempre fora um local pacato. Situada em Colorado, nos EUA, a escola sempre teve um dos índices mais elevados do país na aceitação de seus alunos em universidades, com cerca de 82%. Columbine também se orgulhava de não registrar casos de violência. O policial de plantão se limitava a multar alunos que estacionavam os carros nas vagas destinadas a professores. A escola também era famosa por ser conservadora e privilegiar aos atletas, que defendiam os times da própria instituição. Foi esse o provável estopim da tragédia...

Em Abril de 1999, dois alunos que se sentiam excluídos dos outros grupos, particularmente por não serem atletas e nem muito dados ao convívio social, entraram armados até os dentes em Columbine, e atiraram em quem viram pela frente, matando 13 e ferindo 21, dentre professores, alunos e funcionários. Quando a polícia chegou, os jovens assassinos atiraram contra as próprias cabeças, morrendo imediatamente. Deixaram uma nota, encontrada perto dos corpos, que dizia: “Não culpem mais ninguém por nossos atos. É assim que queremos partir”.

Mas não era apenas um suicídio, e sim um verdadeiro ato de terror. A mídia na época procurou analisar minuciosamente a vida dos dois jovens, na tentativa de encontrar uma possível motivação para ato tão brutal... Como não era conveniente culpar as grandes indústrias do entretenimento, na época a maior parte da “culpa” caiu no colo da indústria dos videogames que, há mais de uma década atrás, não tinha a força política e econômica de que dispõe hoje. Os assassinos de Columbine eram assíduos jogadores de Doom, um dos primeiros games de tiro com visão em primeira pessoa e cenários 3D.

Em Doom, o personagem controlado pelo jogador é um fuzileiro espacial de um mundo futurista fictício. Ele é deportado da Terra para Marte quando se recusa a atirar em civis desarmados (ordem de um oficial superior). Para seu infortúnio, em Marte uma experiência militar secreta dá errado, e abre uma espécie de “portal para o Inferno”, de onde saem demônios e zumbis, que precisam ser dizimados pelo jogador. O jogo foi muito criticado pelos conservadores por exibir muito sangue (apesar de ser o sangue dos demônios) e muitas “imagens satânicas” (afinal, eram demônios ora essa). O fato de o personagem estar agindo heroicamente para proteger a Terra e, principalmente, o fato de ele estar nessa situação exatamente por ter se recusado a atirar em civis desarmados, é sumariamente ignorado pelos críticos conservadores. Doom foi o primeiro bode expiatório que a sociedade americana encontrou para “explicar” o massacre em Columbine.

Mesmo após Doom, muitos outros games similares sofreram a acusação de incitar a violência nos jovens, incluindo outros baseados nas guerras modernas, onde os inimigos não eram demônios, mas membros de um exército inimigo... Com o tempo, as acusações foram “esfriando”, até que se soube que o próprio exército dos EUA via com muito interesse o impacto que tais games provocavam nos jovens.

Com o alistamento caindo ano após ano, o exército americano precisava de um chamariz que pudesse realmente “seduzir” os jovens. Assim foi criado o America’s Army, um jogo inteiramente gratuito onde todo o treinamento militar americano é simulado, até que os jogadores são aprovados no “exército virtual”, e podem então realizar missões militares pelo mundo afora, numa simulação de guerra que privilegia a estratégia, o trabalho em equipe, e que é elogiada por seu realismo. Interessante como, após o lançamento do America’s Army, os produtores de games de guerra passaram de personas não gratas para grandes colaboradores da tecnologia de treinamento e alistamento militar.

Ao contrário de Doom, no entanto, games como o America’s Army, Full Spectrum Warrior e outros, apesar de agora serem reconhecidos como “algo sério” pela sociedade americana, tem um grande problema, ironicamente ignorado pelos conservadores: neles os inimigos são soldados, pessoas como nós, seres humanos, e não demônios ou zumbis. Para um jovem americano, pode ser entusiasmante jogar uma simulação da guerra no Iraque. Para um jovem israelense, pode ser incrível simular um conflito com palestinos terroristas... Mas, para os jovens palestinos, iraquianos, ou árabes, nem tanto.

Dizem os generais que a guerra não tem nada de bonito há não ser a vitória. Eles talvez estejam errados: na guerra, nem a vitória é bonita. Ainda assim, segundo o psicólogo Steven Pinker, “provavelmente vivemos na época mais pacífica da existência de nossa espécie” — mesmo que, “confrontados com intermináveis notícias sobre guerra, crimes e terrorismo, pudéssemos facilmente pensar que vivemos na era mais violenta jamais vista”. Em seu livro Os melhores anjos de nossa natureza, Pinker defende a tese de que, grosso modo, a violência tem diminuído muito no mundo civilizado, ao menos se formos considerar números relativos, e não absolutos. E ele provavelmente tem toda razão, se hoje vivemos alarmados com a violência, é muito mais pela atenção que a mídia dá a ela, do que por ela estar realmente crescendo. Entretanto, mesmo Pinker concorda: é exatamente na guerra que a moral humana é subitamente reprimida, e os ecos da nossa animalidade, nossa propensão à barbárie, retornam com toda a força. Mas, como acabar com a guerra? Seria com a educação?

Pode até ser, mas vai depender de que tipo de educação que estamos falando, e da real atenção que queremos dar a ela. Os gastos militares do exército dos EUA, por exemplo, são exorbitantes (de longe o maior do mundo), e superam em muito não só o investimento em educação, como em saúde, em ciência, e em quase tudo o mais somado. Ainda assim, lado a lado com alguns países do Oriente Médio, como Omã, Iraque e Israel, os gastos militares americanos, numa comparação percentual com o PIB (Produto Interno Bruto), não mais figuram entre os primeiros da lista. Em todo caso, o gasto com a indústria bélica é muito elevado no mundo todo, principalmente se considerarmos que ainda temos milhões de miseráveis, e um clima global cada vez mais instável para tomarmos conta...

Se parte do gasto do exército dos EUA vai para produzir games de simulação como o America’s Army, porque não investir também em games ainda mais educativos, que simulem estratégias de paz, e não de guerra? No game Peacemaker (Pacificador), cabe ao jogador escolher jogar como o Primeiro Ministro de Israel, ou a Autoridade Palestina. Neste jogo muito elogiado pela crítica especializada, o objetivo da simulação é chegar a um tratado de paz duradouro entre Isreal e a Palestina, e, ao contrário de tantos outros jogos, chegar a uma situação de guerra significa perder o jogo, e não ganhar – independente do resultado final da guerra. Para os jovens que desenvolveram esse game como um projeto numa universidade americana, tendo sido lançado comercialmente em 2007, apenas a paz é bela, apenas a paz indica que o jogo foi vencido.

Em tantos e tantos games de simulação de guerra, os “demônios” a serem mortos estão sempre do outro lado, na nação inimiga. Mas, e quem chora pelos demônios? Os palestinos choram pelos seus mortos da mesma maneira que os israelenses. Quando são atingidos por balas, sangram da mesma maneira, e até mesmo o sangue é da mesma cor... Talvez os assassinos de Columbine tenham se espelhado mais nos senhores da guerra, nos ditadores de ideologias falsas que pretendem nos fazer crer que existem seres “do outro lado”, inimigos, que não são como nós, que não pensam como nós, que não sangram ou sofrem como nós, e que merecem morrer como demônios, pois é mais fácil pegar um fuzil e matar do que negociar acordos e tratados de paz.

Infelizmente (ou felizmente) os demônios de Doom nunca existiram. Em todas as guerras do mundo, nunca existiu um único inimigo que não fosse humano, que não tivesse alma, como nós temos. Talvez o exército dos EUA esteja investindo nas ideias erradas: precisamos de gente criativa e pacífica, como os criadores de Peacemaker, e não de jovens sedentos por atirar em demônios... Afinal, é capaz de eles um dia acreditarem, como os generais acreditam, que a vitória é bela, e que os demônios da nação vizinha são realmente demônios.

» Na próxima parte, o mito das nações...

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Crédito das imagens: [topo] Divulgação (Doom); [ao longo] Divulgação (America’s Army); Divulgação (criadores do game Peacemaker)

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17.6.12

Raízes aéreas

"Sete horas da noite, sentada na sala de reuniões após um dia alaranjado de sol latente e poeira vermelha constante, tenho a sensação de terem se passado 24 horas desde o momento em que levantei. Como todos os dias, acordei hoje às 06:00h da manhã, tomei um vigoroso banho de pingos e canecos ao mesmo tempo em que observei o movimento da porta, que não tem fechadura. Estou sempre atenta a qualquer sinal de alguém ter necessidades maiores que as minhas, já que compartilhamos dois banheiros numa casa de 15 pessoas. Passados meus cinco minutos de privacidade diária, dirijo-me ao café servido em mesas improvisadas com protetores de insetos para evitar maiores acidentes alimentares (sempre temos algum companheiro de trabalho afastado por um ou dois dias por motivos de vida privada), o que nos faz perceber que não somos realmente tão resistentes quando acreditamos."

Mas se existe alguém resistente neste mundo, é Debora Noal, brasileira, psicóloga, "agente" dos Médicos Sem Fronteiras, e autora do texto acima, parte de um longo relato onde narra seus primeiros dias numa missão humanitária no Haiti. Não muito tempo antes desta que foi sua primeira missão para o MSF, Debora tinha uma cobertura em Aracaju, e um emprego público na área médica...

Na célebre entrevista para a Época, quando a repórter lhe pergunta como foi abandonar o conforto e as raízes em seu país natal (ela na verdade é gaúcha), ela nos dá uma resposta surpreendente:

"Pedi demissão, acabei o mestrado [...] Porque era uma missão de urgência. Entreguei o apartamento, deixei os móveis no meio do corredor porque não tinha condições de distribuir tudo rápido. O que não é possível carregar comigo é porque não é meu. E acho que, se você se apega a alguma coisa que é material, isso quer dizer que você está plantando sua raiz por uma estrutura material. Eu quero ter raiz, mas raízes aéreas, que eu possa levar para onde eu quiser."

E foi assim que Debora plantou raízes no Haiti, no Quirguistão, no Congo... Aliás, foi exatamente no Coração da África, onde trabalhava para aliviar a dor de mulheres que sofreram estupros coletivos, que perderam maridos e filhos, e a própria vontade de viver, que Debora provou sua resistência... Não somente ante a dor alheia, mas ante o próprio medo, em cada hora que esteve no Congo, de ser ela mesma a próxima vítima dos estupros. Como pode esta aparentemente frágil mulher ter encontrado tanta força, tanta resistência para seguir nessas missões do MSF? Talvez ela mesma possa lhe dizer, com o brilho que ainda resta em seu olhar. Um brilho peculiar, que parece nos dizer que, apesar de conhecer a dor, conhece também algo muito, muito maior... O amor:

Programa Provocações, da TV Cultura, com Debora Noal (bloco 1)

Ver o bloco 2  |  Ver o bloco final


"Lembrei de um grande amigo que [...] escreveu que Deus um dia existiu mas que ele já foi embora. Fiquei realmente muito tempo refletindo sobre esta frase, desejando... Até que cheguei no Papai Noel, pensei no quanto tempo eu acreditei nele (e ainda acredito), com o diferencial que hoje espero o Papai Noel aparecer dentro de mim e dentro dos outros, acho que sempre podemos encontrar Papai Noel. Por vezes ele chega suado, com cheiro de gente, sem barba, cabelo despentado e roupa suja, mas ele chega com presente, presente de gente, presente de vida, de vida presente."

Debora Noal (relato de seu primeiro Natal no Haiti)

***

Médicos sem Fronteiras, ou Médecins sans Frontières (MSF), é uma organização internacional não-governamental sem fins lucrativos que oferece ajuda médica e humanitária durante situações de emergência, em casos como conflitos armados, catástrofes naturais, epidemias, fome e exclusão social. É a maior organização não governamental de ajuda humanitária do mundo, na área da saúde.

» Contribua com o MSF, seja um doador sem fronteiras!


Crédito da imagem: reportagem da Época (Debora e as congolesas)

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10.3.12

Sem Deus, tudo é permitido?

Parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori respondem a uma mesma pergunta (a cada post). Para conhecer mais sobre esses dois distintos participantes, não deixe de ler sobre a premissa da série.

[Raph] O jainismo é uma das mais antigas e rigorosas doutrinas religiosas de nossa história. As histórias que falam em monges jainistas retirando pequenas larvas do solo antes de cavá-lo para plantar, de modo a não causar dano sequer aos menores seres visíveis da natureza, são, acreditem, bem mais reais do que anedóticas. Apesar de seu ascetismo extremo, e sua busca constante pela não violência, é perfeitamente possível ser um jainista sem crer em Deus ou quaisquer deuses.

Alguns defensores da ética religiosa afirmam que sem o devido temor a Deus, e/ou a promessa de um Céu Eterno, não haveria razão para que os homens fossem éticos e amorosos uns com os outros. O humanismo, pelo contrário, em todas as suas vertentes coloca o respeito ao próximo, e a sua liberdade de pensamento e ação, como a ética mais elevada e que, por si só, é sua própria recompensa, já que num sistema onde todos são humanistas, um Céu Eterno talvez nem fosse mais necessário – já estaria instaurado na própria Terra.

Mas, será que o humanismo e o jainismo são quase utopias, sistemas por demais rigorosos para que todos os seres humanos um dia se incluam neles? Ainda há espaço para ser otimista ante um mundo em intenso conflito, ou a intolerância, em todas as suas mais nefastas manifestações, tem vencido a batalha? Em suma: se Deus não existe, tudo é permitido? [1]

[Del Debbio] A ideia da Religião como ferramenta para o domínio dos povos é muito antiga. Os faraós se utilizavam destes artifícios para criar normas de conduta e moral para toda a população do Egito. Os judeus, através de Moisés, reorganizaram estes preceitos nos chamados “dez mandamentos”, que por sua vez, tornaram-se a base canônica para o grande pilar de dominação do ocidente, a Igreja Católica Apostólica Romana.

O medo de um Deus vingativo ou a punição eterna em um Inferno escaldante fazia com que as pessoas andassem na linha. Nem todos os Infernos eram iguais... Para os nórdicos, Hel era uma caverna de gelo onde os condenados passariam a eternidade no frio e com fome. Faz sentido. Se o inferno Nórdico fosse quente, todos iriam querer ir para lá. Assim, a idéia do símbolo do Inferno sempre foi “um lugar onde não gostaríamos de estar”.

Para os ocultistas, a idéia do Inferno nunca passou de um símbolo abstrato, porém, para a população geral, vigora até os dias de hoje a ideia de uma troca no estilo Pavlov, onde as pessoas deveriam ser boas para irem para o céu e se forem contra os preceitos de algum dos livros sagrados, irão para o colo do capeta ou algo parecido.

Mas e quando esta ideia parece cada vez menos coerente com o mundo ao nosso redor? Símbolos podem se dar ao luxo de serem monstruosos, angelicais, fantásticos e impressionantes pois são, afinal de contas, símbolos. Mas quando religiosos fanáticos utilizam-se destes símbolos como se fossem coisas literais, esta visão começa cada vez mais a não fazer sentido em confronto com a realidade.

E quando não existe mais uma cadeia? Observamos recentemente em Salvador-BA o que acontece com a nossa civilização quando a polícia entra em greve por uma semana. O que aconteceria com o mundo se as pessoas, no grau de evolução mental que estão, soubessem que não há inferno ou punição para elas aguardando no final de suas vidas?

Creio que as religiões, mesmo as dogmáticas, servem como um freio enquanto a humanidade evolui lentamente e um dia não precisaremos mais de nenhuma delas. O estudo da espiritualidade em conjunto com o Humanismo e o respeito à natureza, livre de qualquer dogma ou preceito religioso ou materialista, será o caminho evolutivo natural para a espécie humana.

Para o alquimista, não faz a menor diferença se existe um Deus ou não. As ciências herméticas são a busca pelo autoconhecimento – descobrir qual é a própria Verdadeira Vontade e exercê-la em prol da evolução da humanidade como um todo. Vejamos o ateu: se é sincero em seu coração, não há diferença para um alquimista senão a dos símbolos e metáforas utilizados.

O trabalho de um magista é aperfeiçoar-se até o máximo que puder. A interação perfeita da ciência com a religiosidade. Todos já ouvimos diversas destas alegorias: “Transformar o chumbo (do ego) no ouro (da Essência)”, “Desbastar a Pedra Bruta”, “Transformar Carvão em Diamante”, “Encontrar a Pedra Filosofal”, “Tirar as ervas daninhas para que as rosas floresçam no Jardim”, e outras.

Através da Alquimia, uma vez que cada pessoa trabalhe seus Vícios e os transforme em Virtudes, chega-se ao exato mesmo princípio do Humanismo ou do Jainismo (que nada mais são do que vertentes da mesma filosofia do “ama ao próximo como a ti mesmo”). Se existir um céu e um inferno, os alquimistas estarão preparados. Se não existir, fizeram o melhor que puderam dentro do espaço de suas vidas; se existir uma vida após a morte, continuarão da onde pararam aqui...

[Mori] Há alguns anos traduzi um fabuloso ensaio de Eric Raymond sobre “o mito do homem assassino”, que resumo em seguida. É a crença de que os seres humanos são animais unicamente violentos, escassamente contidos de cometer atrocidades uns aos outros pelas restrições da ética, da religião e do estado. Parece estranho questioná-lo, com as trágicas notícias com as quais somos bombardeados, mas basta analisar o animal humano com os olhos um tanto mais distantes de um observador do mundo natural para chegar à constatação de que não somos seres especialmente violentos.

O estilo de luta instintivo que desenvolvemos, por exemplo, nos impede de ferir seriamente uns aos outros, direcionado especialmente a empurrões e socos em áreas duras como cabeça ou tórax. Eles podem deixar o oponente inconsciente, mas as chances de que o matem são muito menores do que se mirássemos em partes moles e vitais, como artistas marciais aprendem a desenvolver mesmo em um único golpe fatal. É preciso treinamento para transformar um homem comum em um assassino, e isto mesmo quando este homem é equipado com uma arma de fogo: ao redor de 70% das tropas em sua primeira situação de combate é incapaz de disparar contra o inimigo. É preciso treinamento e intensa ressocialização para suprimir nossos instintos e criar soldados capazes de matar sob comando.

E comando é justamente o alerta de Raymond. O mito do homem assassino é promovido justamente por aqueles em comando, segundo os quais precisamos ser salvos de nós mesmos através da uma disciplina rígida com punições rigorosas que nos separaria da selvageria, quando a evidência histórica e comportamental indica que as maiores selvagerias são praticadas justamente sob comando e disciplina rígidas de um grupo contra outro. Nosso maior medo não deveria ser nosso suposto instinto assassino latente, aquele que é visto na prática apenas em uma pequena parcela da população, comumente surgida como parte, ainda assim minoritária, de grupos intensamente oprimidos. E que, não por coincidência, criam suas cadeias de comando e controle social próprias, e ainda mais rígidas.

Nosso maior medo deveria ser justamente o controle e manutenção de uma hierarquia e controle social estritos que exploram um instinto que a maioria de nós realmente possui: a obediência cega a figuras de autoridade. Sejam elas presentes na terra, sejam elas aquelas fictícias no céu, que podem ser ainda mais perniciosas. Em nome de deus, a autoridade última, tudo é permitido.

Tememos os perigos errados. Apesar disso, há motivo para otimismo porque a ignorância, a intolerância e a violência não estão vencendo a batalha. Somos hoje sete bilhões de seres humanos. Nunca tantas vidas viveram ao mesmo tempo, tanto tempo, aproveitando tão bem o seu tempo. Em particular no Brasil, e mais especificamente sobre os leitores deste texto, podemos dizer que somos privilegiados com um padrão de vida superior aos dos mais abastados reis e conquistadores, dos mais bárbaros e selvagens, de apenas alguns séculos atrás. E não precisamos oprimir ou assassinar ninguém para tal – bem, ao menos não tão diretamente quanto eles, espero. Por gerações grandes pensadores sonharam com enormes arquivos de conhecimento, e grandes visionários imaginaram fóruns livres para a difusão e discussão de conhecimento. Você está em frente a esse sonho neste exato momento.

Este privilégio não foi alcançado por acidente. Nossos ancestrais não tão distantes talvez achassem que uma mulher, um negro, homossexual ou membro de uma minoria qualquer tendo acesso a esta rede de conhecimento hoje fosse um absurdo. A religião, o Estado, a sociedade, a tradição e os bons costumes ditavam tal. Do contrário, seria a selvageria. Hoje vemos que eles é que viviam em um mundo um tanto mais selvagem que o nosso, e se estudarmos um tanto da história recente descobriremos como essas conquistas valorizando cada vida humana foram resultado de longas batalhas. Muitas destas batalhas foram vencidas e, sim, vivemos em um mundo melhor. O mundo pode ser transformado para melhor, ele foi transformado para melhor, e ele deve ser transformado para muito melhor.

Há muitas outras batalhas a vencer. Não há nada muito rigoroso no humanismo – há vertentes específicas do humanismo com algumas definições mais rigorosas, mas valorizar a vida humana é um instinto natural do animal humano. Se você ri de um bebê gargalhando, se compartilha a dor da mera imagem de alguém se cortando, se em seus momentos mais irados pensa em dar um murro no rosto de um desafeto – e não em planejar como assassiná-lo com crueldade de fato – parabéns, você faz parte da maior parcela da espécie humana. Somos sete bilhões.


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Esta foi a sétima e última pergunta da série. Fica aqui um sincero agradecimento a generosidade e ao entusiasmo dos dois participantes... Espero que essas reflexões possam trazer luz a cientistas e espiritualistas, e a todos nós: humanos.

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[1] Eu estou, propositadamente, usando esta frase de Fiódor Dostoiévski fora de contexto, pois ela acabou se tornando uma frase relativamente conhecida na cultura popular, exatamente desta forma, e não na forma original, conforme consta em mais de um trecho da obra Os Irmãos Karamazov. Ironicamente, considerando-se o desenvolvimento da questão ao longo do livro, por fim temos uma consideração que tende claramente ao humanismo. Finalmente, é justo lembrar que o Deus em questão seria, muito provavelmente (ou aproximadamente), o Deus do Antigo Testamento da Bíblia.

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Crédito da foto: moodboard/Corbis

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