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31.12.18

1.000 inscritos (Reflexões no YouTube)

Chegamos aos mil inscritos, ou mil formas do Cosmos conhecer a si mesmo (como diria Carl Sagan)! Neste vídeo vamos celebrar esta marca e falar um pouco mais da história do meu blog, o Textos para Reflexão, e também das Edições Textos para Reflexão, a minha "editora"... Ainda falaremos sobre os toriis, os portais japoneses que são o símbolo do canal. Ao final, algumas mensagens muito importantes a todos vocês :)

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


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12.9.17

A importância do vazio

Nunca fui exatamente um grande fã de desenhos japoneses, mas isto durou até assistir ao filme que ganhou o Oscar de Melhor Animação em 2003, A Viagem de Chihiro. Desde então me tornei mais um dos fiéis seguidores do grandioso Hayao Miyazaki e do Studio Ghibli, a empresa que ele criou para transformar em desenho sua obra-prima dos quadrinhos, Nausicaä do Vale do Vento, que por acaso é também uma das melhores histórias em quadrinhos que li na vida (e li muitas, desde criança).

Após Nausicaä felizmente se seguiram muitas obras grandiosas, onde além de Chihiro, ainda se contam Meu Amigo Totoro, Princesa Mononoke, O Serviço de Entregas da Kiki e muitas outras, além dos desenhos da Ghibli que não contaram com a assinatura de Miyazaki na direção, mas que também seguem a mesma filosofia.

Há algo de profundamente misterioso em boa parte dos filmes da Ghibli, e nem sempre é fácil identificar do que exatamente se trata este "mistério". Sem dúvida, em muitos desenhos há menção a mitologia japonesa, principalmente ao xintoísmo e a sua crença de que espíritos habitam toda a parte da natureza. Há desenhos onde sonhos se tornam realidade, e onde a realidade é tão fantástica que mais parece um sonho. Ao mesmo tempo, há também uma perene conexão com a realidade humana, com nossa essência mais profunda, algo que Miyazaki herdou do Pequeno Príncipe de Saint-Exupéry, do qual é fã confesso. Mas ainda nos faltam palavras para descrever melhor do que se trata...

Felizmente para nós, Max Valarezo e o pessoal do canal EntrePlanos no YouTube nos trazem um belo vídeo onde este "mistério" é, quem sabe, melhor vislumbrado. Com vocês, Ma, ou "a importância do vazio":

***

Crédito da imagem: Studio Ghibli/Meu Amigo Totoro

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9.2.17

O templo dentro de mim

O texto abaixo foi retirado de uma de minhas respostas dentro de um debate entre pensadores e espiritualistas.

Esta questão do universalismo espiritual é interessante.

Muitos grandes estudiosos de mitologia do século passado, e mais especificamente Joseph Campbell, acabaram por estudar inúmeros mitos nas mais diversas regiões e culturas do globo, assim chegando aqueles "pontos em comum" entre as mitologias (como os mitos de Origem ou do Dilúvio), o que o Campbell depois chamou de Monomito. No entanto, estudar mitologia é uma coisa, se iniciar nas ordens e religiões é outra muito diferente, até mesmo porque a maior parte delas requer uma dedicação exclusiva, do contrário você acaba ficando só na superfície.

Eu mesmo me considero um turista de egrégoras e doutrinas religiosas. Já fui médium em casa espírita, já dancei com ciganos incorporados e gurus indianos, já cantei mantras com uma mestra em ascensão, já "meio que me iniciei" no sufismo, já fui em alguns simpósios de hermetismo, já fiz a Contagem do Ômer (meditação da cabala judaica) etc. A maior parte disso transparece num canto ou noutro do meu blog, mas nem contar tudo eu contei.

Apesar de fazer amigos em muitas estradas, eu sei bem que não posso seguir profundamente em nenhuma delas, pois teria necessariamente de abandonar parte dos meus passeios pelas demais. Assim, eu visito algumas estalagens em diversas estradas que rumam para os grandes templos, mas não chego em templo algum.

É por isso que tive de criar o meu próprio templo. Não a toa o símbolo do meu blog é um torii japonês. Os toriis, no xintoísmo, são portais que demarcam a entrada ou a proximidade de um local sagrado. Ora, ocorre que eles estão espalhados pelo Japão todo, pois no xintoísmo se acredita que tudo o que é vivo é animado e habitado por espíritos, e para eles toda a Natureza é viva. Assim, o meu templo também é tudo o que está a minha volta, acima e abaixo, a esquerda e a direita, a frente e atrás. Esta foi a maneira com que consegui chegar a um templo: o carregando dentro de mim.

Por isso que digo, "minha religião é meu pensamento", pois se religião é religação a Deus ou ao Cosmos, e se pensamento é a forma com que a mente se aventura pelos caminhos e estalagens e templos, então é com esta carruagem, este veículo, que eu poderei um dia chegar lá.

E, se o fato de parar em tantas estalagens pelo caminho por ventura me atrasar um bocado, eu sinceramente não ligo. Pois ainda que eu chegasse lá antes dos demais, em todo caso eu teria de voltar para convidar os que ainda se arrastam pela estrada.

Em todo caso, no Céu continuaremos trabalhando.

***

Crédito da imagem: Joel "Boy Wonder" Robinson

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19.3.13

Não temos teologia...

Texto de Bill Moyers em "O Poder do Mito” (Ed. Palas Athena) – trechos da introdução do livro. Tradução de Carlos Felipe Moisés. As notas ao final são minhas.

Um jornalista, é o que se diz, goza do privilégio de se educar em público; somos os felizardos a quem se permite gastar o tempo num contínuo curso de educação para adultos. Ninguém me ensinou mais que Joseph Campbell [1], e quando eu lhe disse que ele deveria assumir a responsabilidade pelo que adviesse de me haver adotado como aluno, ele riu e citou a velha sabedoria romana: “Os fados guiam àquele que assim o deseje; aquele que não o deseja, eles arrastam” [2].

Ele ensinou, como o fazem os grandes professores, pelo exemplo. Não era seu hábito tentar convencer ninguém do que fosse (exceto uma vez, quando persuadiu Jean a se casar com ele). Pregadores se equivocam, ele me disse, quando tentam “persuadir pessoas à fé; fariam melhor se revelassem a radiância de sua própria descoberta”. [...] Assim fez Campbell. Era impossível escutá-lo – ouvi-lo de verdade – sem experimentar, na própria consciência, um emocionante frescor de vida, o crescimento da própria imaginação.

Ele concordava em que a “ideia-guia” do seu trabalho era procurar “o caráter comum dos temas nos mitos do mundo, visando à constante exigência, na psique humana, de uma centralização em termos de princípios profundos”. “Você se refere à busca do sentido da vida?”, perguntei. “Não, não, não”, ele disse. “À experiência de estar vivo.”

Eu tinha dito que a mitologia é um mapa interior da experiência, traçado por alguém que empreendeu a viagem. Creio que ele não endossaria a prosaica definição do jornalista. Para ele, mitologia era “a canção do universo”, “a música das esferas” – música que nós dançamos mesmo quando não somos capazes de reconhecer a melodia. Ouvimos seus refrões, “quer quando escutamos, com altivo enfado, a ladainha ritual de algum curandeiro do Congo, quer quando lemos, com refinado enlevo, traduções de poemas de Lao Tsé, ou rompemos a casca de um argumento de S. Tomás de Aquino, ou apreendemos, num relance, o sentido radiante ou bizarro de uma lenda esquimó”.

Ele imaginou que esse imenso e cacofônico coral começou quando nossos primeiros ancestrais contaram histórias uns aos outros, a respeito dos animais, que eles matavam para comer, e a respeito do mundo sobrenatural, para onde os animais pareciam ir quando morriam. “Lá fora, em alguma parte”, para além do plano visível da existência, estava o “senhor dos animais”, que exercia sobre os seres humanos o poder de vida ou morte: se ele deixasse de mandar de volta as feras, para serem novamente sacrificadas, os caçadores e sua prole morreriam de inanição. Por isso as sociedades primitivas aprenderam que “a essência da vida subsiste graças ao matar e comer; esse é o grande mistério que os mitos têm que enfrentar”. A caça tornou-se um ritual de sacrifício, e os caçadores encenavam atos de expiação diante dos espíritos dos animais que partiam, esperando coagi-los a retornar, para serem sacrificados de novo. As feras eram vistas como enviados do outro mundo, e Campbell admitiu “um mágico, maravilhoso acordo” gestando-se entre o caçador e a caça, como se eles estivessem aprisionados num círculo “místico, atemporal”, de morte, sepultamento e ressurreição. Sua arte – pinturas nas paredes das cavernas – e sua literatura oral deram forma ao impulso que passou a se chamar religião [3].

Quando esses indivíduos primitivos passaram da caça ao plantio, as histórias que contavam para explicar os mistérios da vida mudaram, também. Então, a semente se tornou o símbolo mágico do ciclo infinito. A planta morria, era enterrada e sua semente renascia. Campbell mostrou-se fascinado pelo fato de esse símbolo ter sido incorporado pelas grandes religiões do mundo, como a revelação da verdade eterna a vida provém da morte, ou, como ele dizia: “A bem-aventurança provém do sacrifício” [4]. “Jesus tinha o olho”, ele dizia. “Que magnificente realidade ele viu no grão de mostarda!”

Ele citaria as palavras de Jesus, do Evangelho de São João: “Em verdade, em verdade vos digo, a menos que caia na terra e morra, o grão de trigo ficará inerte e abandonado; mas, se morrer, dará muitos frutos”. E logo em seguida citaria o Alcorão: “Você pensa que entrará no Jardim da Bem-Aventurança sem as provações que afligiram aqueles que entraram antes de você?”. Ele vagou por toda essa vasta literatura do espírito, inclusive traduzindo escrituras hindus, do sânscrito, e continuou a coligir histórias mais recentes, que adicionou à sabedoria dos antigos. Uma história particularmente apreciada por ele falava de uma mulher aflita que se dirigiu ao santo e sábio hindu Ramakrishna, dizendo: “Ó, Mestre, não sei se amo a Deus”. E ele perguntou: “Não há nada, então, que você ame?”. Ela aí respondeu: “Meu pequeno sobrinho”. E ele lhe disse: “Eis aí seu amor e dedicação a Deus, no seu amor e dedicação a essa criança”.

“E aí está”, disse Campbell, “a suprema mensagem da religião: 'Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes' [Mateus 25,40].”

Homem espiritual, ele encontrou na literatura da fé os princípios comuns ao espírito humano. Mas esses princípios têm de ser libertados dos liames tribais, caso contrário as religiões do mundo continuarão a ser como no Oriente Médio e na Irlanda do Norte [5], hoje – uma fonte de desdém e agressão. As imagens de Deus são muitas, ele dizia, chamando-as “máscaras da eternidade”, que ao mesmo tempo escondem e revelam “a Face da Glória”.

Ele desejou saber o que significa o fato de Deus assumir tão diferentes máscaras em diferentes culturas, apesar de histórias semelhantes serem encontradas em tradições divergentes – histórias da criação, nascimentos virginais, encarnações, morte e ressurreição, segundos retornos, dias do julgamento. Ele apreciava a perspicácia das escrituras hindus: “A verdade é uma; os sábios a chamam por diferentes nomes”. Todos os nossos nomes e imagens de Deus são máscaras, ele dizia, referindo-se à suprema realidade que, por definição, transcende a linguagem e a arte. Um mito é uma máscara de Deus, também – uma metáfora daquilo que repousa por trás do mundo visível. Não obstante as divergências, ele dizia, as religiões todas estão de acordo em solicitar de nós o mais profundo empenho no próprio ato de viver, em si mesmo. O pecado imperdoável, no livro de Campbell, é o pecado da inadvertência, de não estar alerta, de não estar inteiramente desperto.
 
Nunca encontrei alguém que soubesse contar melhor uma história. Escutando-o falar de sociedades primitivas, fui transportado às largas planuras sob a imensa cúpula do céu aberto, ou à espessa floresta, sob o pálio das árvores, e comecei a entender como as vozes dos deuses falavam através do vento e do trovão, e como o espírito de Deus flutuava em todo riacho da montanha, e toda a terra florescia como um lugar sagrado – o reino da imaginação mítica. E perguntei: Agora que nós, modernos, limpamos a terra de todo mistério – agora que fizemos, segundo a descrição de Saul Bellow, “uma faxina na crença” –, qual será o alimento de nossa imaginação? Hollywood e os enlatados para TV?

Campbell não era pessimista. Ele acreditava que existe um “nível de sabedoria, para além dos conflitos entre ilusão e verdade, através do qual as vidas podem voltar a ser irmanadas”. Encontrar esse nível é a “questão primordial desta época”. Nos seus últimos anos, ele buscava uma nova síntese entre ciência e espírito.  “A mudança de uma visão geocêntrica para uma visão heliocêntrica do mundo”, escreveu ele, depois que os astronautas chegaram à Lua, “parece ter removido o homem do centro e o centro parece tão importante. Espiritualmente, porém, o centro está onde está o olhar. Poste-se numa elevação e contemple o horizonte. Poste-se na Lua e contemple a Terra inteira se erguendo – ainda que através da televisão, na sua sala de visita.” O resultado é uma insuspeitada expansão do horizonte, que poderia servir, em nossa época, como as antigas mitologias serviram, no passado, para abrir as portas da percepção “para o prodígio, ao mesmo tempo terrível e fascinante, de nós mesmos e do universo”.

Para ele, não foi a ciência que diminuiu os seres humanos ou nos divorciou da divindade. Ao contrário, as novas descobertas da ciência “nos reúnem aos antigos”, por nos tornarem capazes de reconhecer, no todo do universo, “um reflexo ampliado de nossa própria e mais íntima natureza; assim, somos de fato seus ouvidos, seus olhos, seu pensamento e sua fala – ou, em termos teológicos, os ouvidos de Deus, os olhos de Deus, o pensamento de Deus, a Palavra de Deus”. A última vez que o vi, perguntei-lhe se ele ainda acreditava – como tinha escrito uma vez – “que estamos participando, neste momento, de um dos grandes saltos do espírito humano para o conhecimento, não só da natureza exterior, mas também do nosso próprio e profundo mistério interior”.

Ele pensou um pouco e respondeu: “O maior salto que já houve”.

Quando soube de sua morte, demorei-me um pouco folheando o exemplar de The Hero with a Thousand Faces [6] que ele havia me oferecido. E pensei no tempo em que fizera minha descoberta do mundo do herói mítico. Vagueava pela pequena biblioteca pública da cidade onde cresci e, procurando ao acaso nas estantes, apanhei um livro que descortinou maravilhas para mim: Prometeu roubando o fogo dos deuses em benefício da raça humana; Jasão enfrentando o dragão para conquistar o Velocino de Ouro; os cavaleiros da Távola Redonda procurando o Santo Graal. Mas enquanto não cruzei com Joseph Campbell não fui capaz de compreender que os westerns a que eu assistia nas matinês de sábado tomavam muito de empréstimo, livremente, a esses contos antigos. E que as histórias aprendidas na escola dominical correspondiam àquelas de outras culturas, que reconheciam a suprema aventura da alma, o esforço dos mortais para apreender a realidade de Deus. Ele me ajudou a ver as conexões, a compreender como as peças se juntam, e não apenas a temer menos, mas a dar as boas vindas ao que ele descreveu corno “um portentoso futuro multicultural”.

Ele foi criticado, é certo, por lidar com interpretações psicológicas do mito, por parecer confinar o papel contemporâneo do mito a uma função ou ideológica ou terapêutica. Não tenho competência para intervir nesse debate e deixo a outros a tarefa de fazê-lo. Ele nunca pareceu aborrecido pela controvérsia. Apenas continuou a ensinar, abrindo aos outros novos caminhos de visão.

Acima de tudo, foi da vida autêntica que ele viveu que nos instrui. Quando dizia que os mitos são chaves para a nossa mais profunda força espiritual, a força capaz de nos levar ao maravilhamento, à iluminação e até ao êxtase, ele se expressava como alguém que tinha estado nos lugares que convidava os outros a visitar.

O que me atraiu nele? Sabedoria, sem dúvida; ele era extremamente sábio. E aprendizagem; ele de fato “conhecia o vasto escopo de nosso passado panorâmico, como poucos homens jamais conheceram”. Mas havia mais.

Uma história é a maneira de contá-la. Ele era um homem de mil histórias. Eis uma de suas favoritas: No Japão, durante um congresso internacional sobre religião, Campbell entreouviu outro delegado norte-americano, um filósofo social de Nova Iorque, dizendo a um monge xintoísta: “Assistimos já a um bom número de suas cerimônias e vimos alguns dos seus santuários. Mas não chego a perceber a sua ideologia. Não chego a perceber a sua teologia”. O japonês fez uma pausa, mergulhando em profundo pensamento, e então balançou lentamente a cabeça.  “Penso que não temos ideologia”, disse.  “Não temos teologia. Nós dançamos.”

E assim fez Joseph Campbell – sob a música das esferas.

***

[1] O Poder do Mito é, na realidade, a compilação de uma entrevista de Joseph Campbell (um dos maiores especialistas em mitologia do séc. XX) para o jornalista Bill Moyers, que gerou também uma série de vídeos já lendária. Esta introdução é escrita, portanto, pelo jornalista.

[2] Ver O cão e a carroça, onde Alain de Botton desenvolve esta ideia, dentro do estoicismo.

[3] Para mais sobre a arte rupestre e sua clara relação com as origens da religião, ver a série de artigos Xamãs ancestrais.

[4] Mas é preciso cuidado ao interpretar o significado de “sacrifício”.  Já que foi Jesus mesmo quem disse: “Quero amor, não sacrifício”. Um sacrifício no amor é aquele que sacrifica uma parte da vida, por outra parte que lhe é superior – ao menos, para quem se sacrifica. Por exemplo: quem pratica caridade nos finais de semana, sacrifica parte de seu “tempo de descanso” em troca de algo que vale muito mais do que ele. Neste caso, tempo não é dinheiro.

[5] Na Irlanda do Norte, ao menos, os conflitos entre católicos e protestantes parecem se encaminhar para a paz já há alguns anos (este texto é do final da década de 80).

[6] O herói de mil faces, publicado no Brasil pela Pensamento.

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Crédito da foto: O Poder do Mito/Divulgação (Bill Moyers e Joseph Campbell)

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23.1.12

Para ser um médium, parte 1

« continuando da introdução

O homem, as gerações humanas, morrem no tempo. Mas o espírito não. O tempo é o campo de batalha e que os vencidos tombam para ressuscitar. Quem poderia deter a evolução do espírito no tempo? (J. Herculano Pires)

O espírito no tempo

Ernesto Bozzano foi um pesquisador e intelectual italiano com grande interesse em antropologia, sociologia, evolução e as origens da mediunidade no palco obscuro da pré-história. Num de seus livros ele inicia suas exposições dizendo que “se consultarmos as obras dos mais eminentes antropólogos e sociólogos, notamos que todos concordam em reconhecer que a crença na sobrevivência do espírito humano se mostra universal”. Na época em que Bozzano publicou seus primeiros livros, no final do século XIX, falar abertamente sobre “espírito” ainda não era tão escandaloso na Academia. Os espiritualistas europeus daquela época, muitos influenciados pelas ideias expostas nos livros de Allan Kardec, eram igualmente grandes entusiastas da teoria de Darwin-Wallace... Mas, enquanto esta se ocupava exclusivamente da evolução física das espécies, alguns espiritualistas – dentre eles o próprio Wallace – se interessavam em tentar elucidar a evolução espiritual, particularmente em como o espírito humano havia evoluído através do tempo.

Se saltarmos diretamente para a época em que os primeiros hominídios surgiram no tempo, podemos nos aproveitar de uma bela, simples e elegante teoria proposta pelo arqueólogo Steven Mithen, conforme exposta em A pré-história da mente: Mithen acreditava que algumas potencialidades da mente eram suficientemente conectadas entre si para que pudessem ser agrupadas conceitualmente em módulos mentais... A inteligência geral foi herdada das outras espécies das quais os hominídios evoluíram, e é responsável pelos processos básicos de instinto e sobrevivência; A inteligência naturalista desenvolveu-se ao longo da persistente guerra da fome – o conhecimento do terreno em sua volta, a análise dos rastros de presas livres deixados no solo, o cuidado para evitar plantas venenosas, etc.; A inteligência técnica permitiu o manuseio de objetos e até mesmo a elaboração de ferramentas, como pedras pontiagudas que facilitam o corte da carne das presas abatidas; E, finalmente, a inteligência social evoluiu desde que nossos ancestrais reconheceram que caminhar pelo mundo em bandos era mais seguro do que enfrentar as caçadas sozinho.

Mithen acreditava que o que nos separava definitivamente dos outros hominídios de inteligência primitiva era a interseção entre tais módulos mentais, que parece ter ocorrido de forma mais abrangente no homo sapiens. Subitamente, os dentes de animais caçados, que antes eram descartados, se tornaram decoração de colares; Colares estes que também serviam para demonstrar para outros membros (e mulheres, quem sabe) da mesma tribo quão bons eram os caçadores que os ostentavam; Da mesma forma, as pegadas deixadas na terra pelas presas tornaram-se também símbolos que demonstravam o tamanho e a direção em que o animal se deslocou; E logo tanto símbolos naturais quanto animais quanto os próprios homens se fundiram em pictogramas pintados em cavernas profundas – registros da história de um povo que se reconheceu como povo; Talvez ao mesmo tempo, surgiram os mitos, as forças naturais tornadas meio-homem, meio-animal, meio-espírito, meio-deus – a religião ancestral surgia em meio ao animismo e ao xamanismo, juntamente com a consciência de nossa vida e nossa mortalidade.

A teoria de Mithen não têm absolutamente nada de espiritualista, como podemos ver, mas a sorte de sermos espiritualistas é que não precisamos ignorar as teorias daqueles que não creem em espíritos. Se alguns sentem-se escandalizados com a possibilidade do espírito ter surgido antes do homem, e ser formado por matéria fluida, parte dos 96% da matéria cósmica que não interage com a luz, e que vêm habitando corpos das mais variadas espécies, desde organismos unicelulares até os hominídios e animais com cérebro adequado para comportar um espírito em processo de individualização consciente, numa odisseia multimilenar que caminha lado a lado com a evolução descrita por Darwin e Wallace, deixem estar: lembremos que boa parte de nossa compreensão espiritual se baseia em experiências subjetivas, e que a matéria fluida, espiritual, ainda não foi detectada em laboratório.

Ainda assim, nos anais da pré-história humana, e das primeiras tribos e civilizações, permanece a dúvida objetiva: como podem tantas comunidades isoladas terem chegado a crenças tão parecidas? Em realidade, as crenças nem são tão próximas quanto às atividades místicas em si: a mediunidade, esta sim, conecta de forma definitiva todos os povos primitivos da Terra, sem exceção.

Define-se religião primal como um “sistema de crenças anterior às grandes religiões mundiais”. As religiões primais seguidas por povos tão distintos quanto os inuítes da América do Norte e os aborígenes australianos são variadas, mas com amplas similaridades. Os adeptos ainda hoje vivem quase sempre isolados e privados das comodidades modernas. Enfrentam rigores climáticos, escassez de comida e desastres naturais. Suas crenças lhes dão suporte para lidar com esses problemas. Seus milhares de espíritos ou divindades os ajudam a lidar com as forças naturais, e suas práticas religiosas variam desde experiências místicas e extáticas, normalmente guardadas aos médiuns ativos, até coisas bem mais práticas, como perguntar a um espírito qual a região próxima mais apropriada para a caçada de amanhã...

Muitos chamam tais médiuns ancestrais de xamãs, mas este é um termo surgido na Sibéria, e significa algo como “aquele que enxerga no escuro” na língua local. Mas sejam xamãs, ou pajés, babalorixás, iogues, curandeiros, feiticeiros, etc., todos são em essência médiuns, e suas práticas de comunicação com espíritos, sejam os seus próprios, sejam os de fora, são, estas sim, a grande prática universal que os conecta a todos, e assim conecta a humanidade como um todo, desde sua origem. Conforme disse o Chefe Seattle em sua carta ao presidente americano: “Todas as coisas são interligadas, como o sangue que nos une. O homem não tece a teia da vida - ele é apenas um fio dela. O que fizer à teia, fará a si mesmo.”

Como por vezes é complexo identificar como exatamente tantas sociedades primitivas chegaram a ideias e símbolos tão elaborados e “fora da realidade”, muitos antropólogos preferem deixar tudo a cargo das experiências psicodélicas induzidas por alucinógenos naturais. Por exemplo, há escritos do hinduísmo, que é reconhecidamente uma das religiões mais antigas do globo, que louvam a soma, uma planta alucinógena. No Brasil muitos já conhecem o Santo Daime, que é uma doutrina religiosa totalmente baseada nos costumes de povos da grande floresta amazônica, que consomem o chá de ayahuasca a fim de desencadearem experiências místicas... Esta explicação, porém, é incapaz de dar conta de todas as experiências mediúnicas, pois sabemos melhor do que ninguém que a mediunidade hoje pode ser praticada sem o consumo de qualquer tipo de substâncias alucinógenas, e, de fato, esta é a recomendação da grande maioria das doutrinas espiritualistas de hoje em dia. Não há a menor razão para crermos que na pré-história todos os médiuns usavam substâncias do tipo – na verdade, há razões para crer que eles eram minorias localizadas em algumas regiões do globo onde era possível extrair tais substâncias da natureza. Não haviam cogumelos alucinógenos em todas as partes do planeta.

Talvez a religião primal que mais intrigue os antropólogos materialistas seja a religião nativa do Japão que, a despeito do país ter se tornado um verdadeiro polo tecnológico e comportar provavelmente a sociedade mais moderna do mundo, continua plenamente ativa. O xintoísmo, ou “o caminho dos deuses”, foi o título dado à religião nativa do Japão aproximadamente em 720 d.C., poucas décadas após a chegada do budismo na ilha. A questão é que se trata de uma religião pré-histórica, que só foi nomeada em razão de diferencia-la do budismo, recém chegado. Antes o xintoísmo era apenas “a religião”. O xintoísmo reconhece diversos seres divinos chamados kami, supostamente infinitos, que preenchem tudo o que exibe poder ou força vital. Para os japoneses, a natureza é literalmente divina.

Como sabemos, a natureza não é somente divina, como potencialmente viva. Nos dias atuais, presos em nossas selvas de concreto, talvez tenhamos esquecido de como um pequeno galho partido é apenas a parte morta de uma árvore, mas que irá se decompor e formar novamente coisas vivas... Ou que mesmo uma pedra abriga tanto parte da matéria que forma nossos corpos, como parte da matéria que formará espíritos das eras vindouras, embora hoje estejam confortavelmente dormindo no ventre sagrado da Mãe Terra, esperando o chamado do Pai Céu...

Termos antigos, conhecimento antigo, intuição antiga. Certamente tinham uma compreensão precária, parcial, da natureza à volta. Mas, estariam todos eles errados em tudo o que perceberam? Talvez a essência daquilo que viram e sentiram em suas experiências mais sagradas seja exatamente aquilo que falte hoje no mundo moderno. Alguns japoneses o sabem, e também alguns xamãs em meio ao frio do norte, alguns aborígenes, alguns indígenas, alguns poetas, alguns médiuns... Talvez você possa ser um deles, talvez já o seja. Esta é a nossa história, a história do espírito no tempo. Caberá a você escrever os próximos capítulos.

» A seguir, loucura e normalidade...

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Leitura recomendada: O espírito e o tempo, de J. Herculano Pires (Paidéia). Religiões, de Philip Wilkinson (Zahar, Guia Ilustrado).

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Crédito das imagens: [topo] Edward S. Curtis/Corbis (indígena da ilha de Nunivak, no Alasca - EUA, com sua máscara cerimonial); [ao longo] Rainer Hackenberg/Corbis (um torii, símbolo xintoísta, em Kyoto - Japão)

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30.3.11

Símbolos e portais

Ainda não sei bem porque resolvi renovar o layout do blog de uma hora para outra, mas fato é que ocorreu pelo menos um caso curioso durante o processo...

A única coisa que tinha em mente, desde o início, era esta imagem de fundo, que remete ao elemento água.  Achei que este elemento seria interessante por remeter simbolicamente a certos conceitos que acredito casarem bem com o conteúdo do blog, como sentimento, subjetividade e fluidez. Até aqui, tudo certo, foi uma criação consciente.

A questão é que quando alterei a fonte da logo, “Textos para Reflexão”, achei que talvez ficasse legal ter uma caixa ao lado esquerdo, talvez um símbolo que pudesse ser utilizado como ícone, já que ocuparia um espaço menor. Então copiei o texto para dentro da caixa e iria escrever apenas um “T”, mas sem querer escrevi dois deles. Como existia um efeito aplicado às fontes da logo antiga, que as deixavam mais agrupadas, com a nova fonte ambos os “T”s se fundiram em uma espécie de portal. Tudo bem, o papo geek termina por aqui.

Ocorre que esta imagem de portal me remeteu imediatamente a uma imagem que já havia utilizado em uma série de artigos intitulada “Isto não é o nada”. Na terceira imagem do primeiro artigo da série, temos uma das fotos do genial Michael Kenna, de sua série “Silent world” (“Mundo silencioso”). Ora, até aqui eu sequer sabia o nome disso, apenas achei muito bonito – como, aliás, já achava antes – e resolvi colocar também no rodapé (está no rodapé das páginas no layout padrão).

Apenas após ter lançado o novo layout, e ter recebido alguns comentários acerca de sua simbologia, é que resolvi estudar o que diabos era aquela imagem de portal... Para minha surpresa, ela tem vários significados bem interessantes e profundos, alguns relacionados à imagem diretamente, outros indiretamente:

O torii
Um torii é um portão tradicional japonês, ligado à tradição xintoísta, e assinala a entrada ou proximidade de um santuário.

O torii é composto por dois pilares verticais, unidos no topo por uma trave horizontal (kasagi), geralmente mais larga que a distância entre os postes. Sob a kasagi há outra trave horizontal, (nuki) que une os dois pilares. Em torno desta estrutura básica, encontramos múltiplas variações, dependendo do estilo arquitetônico do Santuário e da sua divindade principal (saijin).

Os templos podem ter um ou mais torii, indicando a crescente proximidade do local sagrado. Quando são vários, há, geralmente, um maior que é chamado ichi no torii (“o primeiro torii”). Além disso, os torii também podem estar integrados na tamagaki ou vedação que circunda o santuário.

Os mais utilizados são a madeira e a pedra, mas não há restrições estabelecidas e, na atualidade, têm sido construídos torii com outros materiais.

Não há consenso acerca da origem dos torii. No entanto, simbolizam claramente a separação, mas também a proximidade, entre o mundo dos homens e o mundo dos kami (espíritos da natureza, protetores ancestrais, deuses, ou simplesmente Deus).

Ou seja, sem querer, acabei escolhendo um símbolo que talvez descreva melhor o blog do que eu jamais fui capaz de descrever... Bem, esta era a relação mais direta da imagem, mas encontrei outras...

O tau
O formato meio arredondado da fonte utilizada na logo fez com que o “T” ficasse parecido com o tau (τ ), que é a décima nona letra do alfabeto grego.

Até aqui nada demais, mas achei interessante que o tau fosse usado, em física e engenharia, para representar a constante de tempo. Não pelo que ela significa exatamente, mas pelo próprio conceito evocado pelas palavras – “constante de tempo”. Ainda tenho de pensar mais sobre isso.

O tau também era um símbolo adorado por São Francisco de Assis. É muito utilizado, até hoje, por franciscanos. São colares onde um tau de madeira pende sobre o peito. Quando era adolescente eu usei um desses por mais de um ano, não lembro bem porque – acho que porque achava legal, apenas.

O pi
Amigos também me lembraram que o símbolo parece o pi (π), outra letra grega, que na matemática representa a proporção numérica originada da relação entre as grandezas do perímetro de uma circunferência e seu diâmetro. Além de estar associado a forma do círculo, que é um símbolo da perfeição e da totalidade, a própria fórmula de cálculo do pi não possui uma valor final, o que remete a idéia de fractais geométricos e do próprio infinito...

Stonehenge
Finalmente, o símbolo me remeteu ao formato de algumas das pedras de Stonehenge (do inglês arcaico "stan" = pedra, e "hencg" = eixo)... Trata-se de um monumento megalítico da Idade do Bronze, localizado na planície de Salisbury, próximo a Amesbury, no condado de Wiltshire, no Sul da Inglaterra.

Constituí-se no mais visitado e conhecido círculo de pedras britânico, e até hoje é incerta a origem da sua construção, bem como da sua função, mas acredita-se que era usado para estudos astronômicos, mágicos ou religiosos.

***

Claro que não desconsidero a possibilidade de, como ser humano que sou, estar buscando por significados onde talvez não existam... Por outro lado, todo espiritualista sabe muito bem como sua intuição as vezes o guia de forma oculta e incerta, mas que muitas vezes também acaba por o surpreender com belos resultados – como uma poesia, uma oração, ou uma nova equação para a natureza.

O que posso dizer é, portanto, somente isso: que sejam bem vindos ao meu portal.

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Crédito da imagem: Michael Kenna (Torii, Takaishima, Honshu, Japão, 2002).

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