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28.3.19

As Canções de Kabir

Rabindranath Tagore foi o primeiro não ocidental a vencer o Prêmio Nobel de Literatura, em 1913, e também o único ser humano responsável pela composição do hino nacional de duas nações: Índia e Bangladesh. Tagore foi um dos maiores poetas do Oriente, e aquele que conferiu o título de “Mahatma” (grande alma) a Gandhi. Mas este artigo não quer tratar de Tagore ou de sua poesia, e sim da sua grande fonte de inspiração: um homem, um poeta, uma lenda conhecida simplesmente como Kabir (“Grande”, em árabe).

Pouco se sabe da sua história com exatidão além de que viveu a maior parte da vida na cidade de Varanasi, no nordeste da Índia, durante o século XV (e início do XVI). Varanasi, às margens do Ganges, é uma das principais cidades do hinduísmo, e uma das cidades continuamente habitadas mais antigas da humanidade, com pelo menos 3 mil anos.

Tendo nascido aproximadamente em 1440 nos arredores de Varanasi, e morrido aproximadamente em 1518 na cidade próxima de Mughar, Kabir passou toda a vida sob o domínio islâmico do Sultanato de Delhi (1206-1526), que no entanto era consideravelmente tolerante para com as práticas hindus. Apesar de possuir um nome árabe, Kabir sempre desdenhou dos rótulos religiosos e das castas sociais, tanto que é até hoje considerado islâmico e hindu ao mesmo tempo (o que, mesmo naquela época, já era algo incomum).

Muito bem, a partir deste ponto, a realidade se confunde com a lenda... Segundo a tradição, Kabir nasceu numa família que professava o hinduísmo, pertencente à casta dos brâmanes (a mais “elevada” delas, reservada aos sábios e sacerdotes). Porém, seu pai morreu cedo e a sua mãe, sem ter condições de educá-lo, o ofereceu em adoção. Kabir foi adotado e educado por um casal de muçulmanos relativamente pobres, o tecelão Niru e sua esposa Nima. Naquele tempo, como ainda hoje, a comunidade islâmica de Varanasi dominava a produção e o comércio de tecidos finos. Assim sendo, Kabir alcançou cedo a maestria na arte da tecelagem, e durante o restante da vida trabalhou com ela.

Quando seu pai adotivo morreu, Kabir assumiu o seu posto como tecelão e vendedor de tecidos, de onde tirava o pálido sustento dele e da mãe. Durante o trabalho, no entanto, entrava frequentemente em êxtase místico e, assim absorto noutros mundos, tecia peças fora da medida ou era facilmente roubado por ladrões quando as expunha no mercado. Era necessário que ele disciplinasse tal vocação espiritual, e foi assim que procurou ajuda no ashram de Ramananda, um dos maiores expoentes da bhakti yoga no hinduísmo da época.

Felizmente, Ramananda também foi um dos primeiros grandes mestres daquele tempo a aceitar discípulos de todas as castas e credos. Tomando contato com aquele jovem tecelão, não se importou que fosse pobre e vindo de família islâmica: viu, em seus olhos, toda a sua potência espiritual, e logo o acolheu.

Sob a generosa tutela deste grandioso mestre, Kabir em poucos anos veio a alcançar ele mesmo o status de santo e sábio, reconhecido por muitos discípulos e inúmeros admiradores (inclusive advindos do islamismo). Mas a lenda de Kabir vai além: mantida em sigilo por séculos, a informação de que ele também teria sido instruído por outro mestre foi revelada por Paramahansa Yogananda (1893-1953) em sua célebre autobiografia. Segundo nos revelou Yogananda já no século XX, Kabir também teria sido instruído por Bábaji, um lendário iogue de sua época (considerado por muitos hindus como “o maior dos iogues perfeitos”).

A conexão de Kabir com grandes místicos do seu século não termina aí. No siquismo se diz que Kabir também foi uma das inspirações do próprio guru Nanak (1469-1539). A poesia de Kabir também encontra paralelos evidentes tanto com o misticismo hindu (sobretudo a bhakti yoga) quanto com o sufismo, o misticismo islâmico.

Assim sendo, não surpreende que Tagore, não mais do que dois anos após alcançar o reconhecimento ocidental com o seu Nobel, tenha se dedicado a selecionar e traduzir poemas de Kabir para o inglês. Através desta obra, Songs of Kabir (As Canções de Kabir), o grande poeta de Varanasi foi finalmente conhecido no Ocidente.

Antes de lhes apresentar trechos deste livro, resta-nos ainda uma última lenda (ou anedota) por contar:

Quando Kabir morreu, tanto os hindus quanto os muçulmanos o reivindicaram como deles e houve uma disputa para cremar ou enterrar seu cadáver. Os hindus queriam cremá-lo conforme a sua tradição e os muçulmanos queriam enterrá-lo, seguindo seus costumes. Há uma história popular a respeito de sua morte, que é ensinada como evento histórico em muitas escolas indianas: ela conta que quando abriram o caixão para disputar o corpo, lá encontraram um livreto sobre sua filosofia desdenhando tanto as crenças hindus quanto as islâmicas, e um buquê com suas flores favoritas! O corpo do santo havia desaparecido e nunca jamais foi encontrado.

Agora sim, para encerrar, algumas canções de Kabir (na tradução de Rafael Arrais):

IV.

Não vá até o bosque!
Ó meu amigo, não vá!

Em seu corpo
existe o bosque, cheio de flores...
Tome o seu lugar
numa das milhares de pétalas da lótus,
e então contemple
a Beleza Infinita.


XIV.

O rio e suas ondas
fluem como um só:
qual a diferença entre eles?

Quando se eleva a onda,
ela é a água;
e quando ela rebenta,
ainda é a mesma água...
Diga-me, ó senhor,
onde está a diferença?

Se acaso a chamaram "onda",
não pode mais ser chamada "água"?

Nas mãos de Brama,
os mundos estão sendo contados
um a um, como as contas de um rosário:
contemple-o com os olhos da sabedoria.


XVI.

Entre os polos da consciência e da inconsciência,
lá a mente fez a sua oscilação:
neste movimento se sustentam todos os seres e todos os mundos,
e este pêndulo jamais deixa de oscilar.

Milhões de seres estão lá;
o sol e a lua e os seus cursos estão lá.
Passam-se milhões de anos,
e seu movimento persiste...

Tudo em fluxo!
O céu e a terra e o ar e a água,
e o próprio Lorde tomando forma:
foi esta a visão que fez de Kabir um servo.


raph

***

Bibliografia
The Songs of Kabir, trad. Rabindranath Tagore (diversas editoras); Kabir: 100 Poemas, trad. José Tadeu Arantes (Attar Editorial); Wikipédia.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search; [ao longo] Joel L.

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7.12.12

De Brahman ao último talo de erva

Texto de Mircea Eliade em "História das crenças e das ideias religiosas, vol. II” (Ed. Zahar) – trechos das pgs. 57 a 59. Tradução de Roberto Cortes de Lacerda. As notas ao final são minhas.

[Segundo a sanquia-ioga [1]], a substância (prakrti) é tão real e eterna como o espírito (purusa) [2]. Contudo, ao contrário do purusa, é dinâmica e criadora. Embora perfeitamente homogênea, essa substância primordial possui, por assim dizer, três “modos de ser” que lhe permitem manifestar-se de três maneiras diferentes, chamadas gunas: 1) sattva (modalidade da luminosidade e da inteligência); 2) rajas (modalidade da energia motora e da atividade mental); 3) tamas (modalidade da inércia estática e da obscuridade psicomental). Os gunas têm, portanto, por um lado, um caráter objetivo, já que constituem os fenômenos do mundo exterior, e, por outro lado, uma caráter subjetivo, uma vez que sustentam, alimentam e condicionam a vida psicomental.

[...] O Universo – objetivo e subjetivo – é apenas a transformação de uma etapa inicial da natureza, ahamkara (que quer dizer: massa unitária aperceptiva, desprovida ainda da experiência “pessoal” [3]), quando, pela primeira vez, na massa energética surgiu um pressentimento do ego [4]. Mediante um duplo processo de desenvolvimento, o ahamkara criou um duplo Universo: interior e exterior, esses dois “mundos” que têm entre si correspondências eletivas. Dessa maneira, o corpo do homem, assim como suas funções fisiológicas, seus sentidos, “estados de consciência” e até sua inteligência são, todos, criações de uma mesma e única substância: aquela que produziu o mundo físico e suas estruturas [5].

É oportuno observar a importância fundamental que o sanquia-ioga, como quase todos os sistemas indianos, atribui ao princípio da individualização pela “autoconsciência”. A gênese do mundo é um ato quase “psíquico”. Os fenômenos objetivos e psicofisiológicos têm uma matriz comum, sendo que a única diferença que os separa é a fórmula dos gunas, como o sattva predominando nos fenômenos psicomentais, o rajas nos fenômenos psicofisiológicos (paixão, atividade dos sentidos, etc.), enquanto os fenômenos do mundo material são constituídos pelos produtos cada vez mais densos e inertes do tamas (átomos, organismos vegetais e animais, etc.) [6].

Com esse fundamento fisiológico, compreende-se por que o sanuia-ioga considera toda experiência psíquica um simples processo “material”. A moral ressente-se disso: a bondade, por exemplo, não é uma qualidade do espírito, mas uma “purificação” da “matéria sutil” representada pela consciência [7]. Os gunas impregnam todo o Universo e estabelecem uma simpatia orgânica entre o homem e o cosmo [8]. De fato, a diferença entre o cosmo e o homem é apenas uma diferença de grau, e não de essência [9].

Graças ao seu “desenvolvimento” progressivo (parinama), a matéria produziu formas infinitas, cada vez mais compostas, cada vez mais variadas. Acredita o sanquia que uma Criação tão vasta, uma construção de formas e organismos a tal ponto complicada, exige uma justificativa e uma significação exteriores a ela mesma. Uma prakti primordial, informe e eternamente imóvel, pode ter um sentido. Mas o mundo, tal como o vemos, apresenta, ao contrário, um número apreciável de estruturas e formas distintas. A complexidade morfológica do cosmo é elevada pelo sanquia à categoria de argumento metafísico. Pois ensina-nos o bom senso que todo composto existe em função de outro composto [10]. Assim, por exemplo, a cama é um conjunto composto de várias partes, mas essa articulação provisória das partes é efetuada em função do homem (Samkhya-karika, 17).

O sanquia-ioga revela, assim, o caráter teleológico da Criação; se a Criação não tivesse por missão servir o espírito, seria absurda, despida de sentido. Tudo na natureza é “composto”; tudo deve, portanto, ter um “superintendente”, alguém que possa servir-se desses compostos. Esse “superintendente” não poderia ser a atividade mental nem os estados de consciência (também eles produtos extremamente complexos da prakti). Temos aí a primeira prova da existência do espírito: “o conhecimento da existência do espírito pela combinação para proveito de outrem” [11].

Ainda que o eu (purusa) seja encoberto pelas ilusões e confusões da Criação cósmica, a prakti é dinamizada por esse “instinto teleológico” inteiramente voltado para a libertação do purusa. Porque, “desde Brahman até o último talo de erva, a Criação existe em proveito do espírito até que tenha atingido o conhecimento supremo” (Samkhya-sutra, III, 47).

***

[1] Sistema de ioga que data da época dos Upanixades.

[2] As questões levantadas lidam com o famoso dualismo filosófico entre a substância material e a substância espiritual.

[3] Complementação do autor: Mas com a consciência obscura de ser um ego (donde a experessão ahamkara, aham = ego).

[4] No início, havia apenas o Grande Uno refletido na forma de um ser. Ao refletir, não encontrou nada além de si mesmo. Então, sua primeira palavra foi: “Isto sou eu”... (Upanixades)

[5] É precisamente aqui que a filosofia védica se une a concepções praticamente idênticas que datam do antigo Egito (hermetismo) e da Grécia antiga (Parmênides, e depois Plotino), para muitos séculos depois culminarem na bela síntese de Benedito de Espinosa: “uma substância não pode criar a si mesma”. Sem grandes adaptações, podemos encontrar noções próximas no taoismo e em certas vertentes do budismo. Mesmo o espiritismo não dista desta ideia tanto quanto imaginamos, se considerarmos que os espíritos foram muito claros ao afirmar: “os espíritos não são imateriais, mas formados por um tipo de matéria desconhecida, etérea” (questão #82 de O livro dos espíritos).

[6] John Wheeler, um físico americano, cunhou a expressão “o it que vem do bit”. Em suas palavras: “Cada it – cada partícula, cada campo de força e até mesmo o próprio continuum espaço-tempo – deriva inteiramente sua função, seu significado, sua própria existência – mesmo que em alguns contextos indiretamente – de respostas induzidas por equipamento a perguntas sim ou não, escolhas binárias, bits. O it que vem do bit simboliza a ideia de que cada item do mundo físico tem no fundo – bem no fundo, na maioria dos casos – uma fonte e uma explicação imateriais; que aquilo que chamamos de realidade vem em última análise da colocação de perguntas sim-não, e do registro de respostas evocadas por equipamento; em resumo, que todas as coisas físicas são informacional-teóricas na origem” (Citado em O universo inteligente, de James Gardner, publicado pela Cultrix/Pensamento).
O que isto quer dizer é que, além de existir um paralelo claro entre o pensamento de alguns físicos modernos e o pensamento dos filósofos védicos, mesmo o pensamento precisa “trabalhar com informações” – ou seja, mesmo o pensamento parece lidar com esta substância que forma tudo o que há a partir de si mesma.

[7] Para mim, o grande erro da sanquia-ioga é situar o espírito (purusa) como algo completamente dissociado de ahamkara, ou seja, da substância “material” primordial. Eu não compactuo com este dualismo extremo, e exatamente por isso posso ser considerado um espiritualista materialista, ou talvez fosse melhor dizer: um dualista de propriedade (ver Monismos e dualismos).

[8] Complementação do autor: Quando é o sattva que predomina, a consciência é calma, clara, compreensível, virtuosa; dominada pelo rajas, ela mostra-se agitada, incerta, instável; atormentada pelo tamas, é obscura, confusa, apaixonada, bestial (Yoga-sutra, 11, 15, 19).

[9] O que combina perfeitamente com a grande lei hermética: assim em cima, assim embaixo.

[10] Espinosa foi o apóstolo do bom senso.

[11] Acredito que Mircea tenha sido bastante infeliz na escolha de algumas palavras neste parágrafo, embora ele provavelmente só estivesse tentando “incorporar” o pensamento da filosofia do sanquia-ioga: (a) a missão da Criação não me parece ser de “servir” ao espírito, mas, pelo contrário, conforme nos contam os textos védicos: “quem compreende isso, torna-se, nesta Criação, um co-criador” – ora, e o que seria este isso, senão o próprio conhecimento de que nós também somos da raça dos deuses? (b) não há nenhuma “prova do espírito” ali, mas antes uma defesa de uma hipótese imaterial para o espírito, totalmente dissociado de tudo o que há, morando “nalgum canto inacessível do cosmo” – conforme já disse acima, repudio esta ideia.

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Crédito da imagem: Google Image Search

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9.11.12

A iniciação de Márcio Lupion

Outra grande alma que vi pelo III Simpósio de Hermetismo é Márcio Lupion, monge, arquiteto, franciscano, liberto [1]. Eis o que disse acerca da própria iniciação [2] (o comentário ao final é meu):

No primeiro dia, após Marcio ser aceito como aluno no Ashram foi um momento de imensa felicidade, pois depois de tanto tempo de leitura e espera, conseguir fazer parte das aulas era um triunfo pessoal enorme; para aquele que leu a vida do Paramahansa Yogananda e viu a dificuldade que o swami teve para encontrar seu mestre, ser aceito equivalia encontrar a própria libertação.
E não era um lugar qualquer, pois ali se reunia toda sua história pessoal, sua busca espiritual, os livros, sua memória sagrada. Parecia que ele havia se preparado para encontrar esse swami, naquele exato dia, um verdadeiro e feliz renascimento!

Na primeira aula, dividida em cinco yogas diferentes, começava-se pela Hatha Yoga, depois eram mais minutos de pranayamas - aqueles exercícios de respiração que preparam o corpo para a meditação, onde a mente vai silenciando, passo a passo, o batimento cardíaco vai diminuindo, chegando em um determinado momento em que simplesmente se sentava pra meditar, com a mente calma, o corpo tranqüilo e aí aprendia-se a ouvir, a mergulhar no silêncio, de um modo profundo, repleto de bem-aventurança e uma paz incomensurável.

Aos 20 e poucos anos, percebia-se o mundo somente agora, no momento em que sua mente se esvaziava, que as aflições do corpo silenciavam e não se sentia mais o corpo, onde ele começava nem terminava, não se tinha noção de tempo, nem da sua própria respiração; eram horas de silêncio onde, de repente, um sino tocava, e a partir dele, cantava-se mantras que falavam de Ganesha, Shiva, Krishna e de Rama, mesmo sem saber direito quem era Krishna, quem era Rama, cantava-se por 15, 20 minutos com uma devoção impressionante. As aulas eram divididas como em qualquer Ashram que se preze, segunda e quarta-feira, as meninas; terça e quinta-feira, os meninos, das 19:00h as 20:30h.

Foram meses e meses de exercícios com uma alegria indescritível. Cada vez que ele se sentava para meditar, ao voltar da meditação, sabia e sentia que era outra pessoa. Em nenhuma meditação verdadeira, a pessoa que se senta é a mesma que se levanta. A cada dia o ego, ou o que restou dele, ia se esvanecendo, se extinguindo e a vacuidade que a meditação trazia junto com bhakti e as canções...

Seu mestre falava que na "volta para casa" precisava-se de duas asas de anjos, uma asa chamada meditação, silêncio interior, mente vazia, som guardado, silencioso, corpo e gesto silencioso; a outra asa era a devoção, amar realmente Deus. Os Avatares são as pessoas que vêm para a Terra sem ego e promovem ajuda a todos os seres ao seu redor, a amar todo esse sistema de forma incondicional.
Quando se cantava, entendia-se o que era esse amor... Ao sair do Ashram à noite, Marcio pegava o ônibus para casa, sentava e sentia de verdade cada ser humano, os olhos do trocador, cansado, sonolento, atrás da catraca e, cada um ali, que enfrentava uma rotina, carregando pelas costas o peso do dia, ficando às vezes duas horas olhando pela janela sem ver nada; sentia mentes e corpos cansados e pessoas sem esperança. Mas de uma forma incrível, para ele, andar do lado do mais humilde era infinitamente melhor do que sentar na faculdade ao lado das pessoas que estavam curtindo a vida. Não conseguia entender como elas festejavam enquanto em volta haviam pessoas com falta de alegria, sem possibilidades...

Os contrastes foram ficando cada vez mais acentuados. Qanto mais meditação mais devoção, mais silêncio, menos ele conseguia viver com pessoas que achavam essa vida maravilhosa; não a vida do comer dos pássaros, do vento, a vida pura; mas a vida mental, a vida imposta, aquela vida em que a gente fala que as pessoas viraram pessoas de-mentes, pessoas que mentem para elas mesmas, porque a natureza da mente - me desculpem o trocadilho - é produzir mentiras. E no meio dessas mentiras pessoais, ele começou a entender o que é o ego, uma persona, uma máscara que as pessoas usavam para se colocar sempre em uma condição melhor do que elas mesmas, melhor do que os outros e, em alguns casos, até, em condições piores, doentes, porque aquilo desfazia algum tipo de bem que até hoje não entende.

O ego é a nossa máscara e a meditação tira a nossa capacidade de ver o ego no outro. Nesses meses, chegar perto de qualquer pessoa de atitudes mundanas, engajadas na realidade vigente, era incômodo, era uma sensação de dor física que pegava o estômago, um enjôo... e com o ouvido familiarizado agora ao silêncio, não conseguia conversar, nem mais jogar conversa fora. Parecia que a vida era mais importante do que relatar coisas que aconteceram de forma superficial ou simplesmente julgar o outro, falar, analisar o outro sem estar dentro dele. Como é que pode a meditação e a devoção o levarem a sentir o outro, falar de uma pessoa que você já sabe o que está sentindo?

Naqueles dias era praticamente desnecessário falar ou conviver com qualquer pessoa, porque parecia que você sentia realmente que a vida que habita dentro de cada um de nós, é a mesma que habita todo o cenário externo, e você percebia que cada pessoa queria somente ser feliz, e viver em paz, mas parecia que o tempo já não importava, era um contraste enorme entre essa sensação, esse brilho no olhar de cada pessoa, como se fosse uma criança perdida nos olhos de um adulto, era impressionante a diferença entre este ser que habitava em cada um de nós e os pensamentos externos, tendenciosos, os pensamentos do ego.
Naquele dia, Marcio entendeu uma frase simples que martelava em sua cabeça sobre o Cristo, "o Cristo ser o que ele é". Ramana falava o tempo inteiro em ser, os mestres falam sempre que temos que manifestar a nossa essência pura.

Assim, ele compreendeu quem era Cristo... e o anti-Cristo... Aquilo que não é nada essencial, a superficialidade das ações, gestos, da fala, era uma doença e tantas vezes via o seu mestre passar, sorrir e gesticular com a boca aqueles barulhinhos de "tsc, tsc, tsc", de desaprovação... e dizia: o homem está doente"... sorria e comentava: "penso e logo desisto". Passava sempre sincero, verdadeiro, honesto, leve, gentil, carregando o peso de todos em seus olhos, mas nunca lhes devolvendo nenhum mal estar.

Assim era a vida de aluno daquele Ashram... Determinado dia, lá para o dia 15 de agosto, de um ano que nem se recordava mais, talvez 1982, teve uma crise de choro, comprou flores e frutas, e foi ao Ashram, eram 17:00h e a aula começaria 2 horas depois. Fazia isso algumas vezes para meditar, mas nesse dia chegou sem motivo algum.
A mãe do Ashram, a Mãe Sutra - que significa ensinamento, falou: filho, você vai ser iniciado hoje? Ele falou: não, não sei, só cheguei mais cedo para meditar. Aí, ela disse: coloca a sua roupa branca e espera no vestiário, por favor. De repente, ele escutou uma batida no vestiário, seu mestre entrou e falou: Bom, você, já está há algum tempo aqui como aluno e chegou o dia de morrer, chegou o dia da sua iniciação, vem comigo que chegou a hora de você optar, se você quer realmente a felicidade plena, ou simplesmente caminhar como os outros homens que ficam entre a alegria e a dor. Venha comigo, filho!

"Neste céu de liberdade, Pai, deixe meu país despertar" (Tagore)

***

Comentário
No Simpósio, Márcio deu um relato comovente e sincero acerca de seu primeiro vislumbre do sagrado (dentro de si mesmo), quando entrou em estado alterado de consciência ao assistir, no cinema, a obra prima de Zeffirelli - Irmão Sol, Irmã Lua -, que conta a história de Francisco e Clara de Assis, dois dos maiores santos de nossa história. Santos não pela família em que nasceram, cargos que ocuparam, livros que escreveram, mas pelo exemplo de amor... E só se ama como seres assim quando se descobriu a fonte que não seca, a sarça que arde pelo fogo de si mesma, o Amor Sem Fim, dentro do próprio ser. Daí então se sabe o que é Cristo, e anti-Cristo... Márcio é um bom exemplo de como isso ainda pode ocorrer em qualquer lugar, em qualquer época, ou mesmo na Liberdade.

[1] Conheça seu extraordinário trabalho em projetos de reformas (redesigns) de cenários urbanos: kallipolis.org

[2] O texto foi retirado do blog Stigmatized Girl.

Crédito da imagem: Kallipolis Arquitetura (projeto Caminho do Imperador, de reforma do cenário urbano do bairro da Liberdade, em São Paulo)

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9.6.11

Eu Maior: 4 entrevistas

Recentemente falei sobre o documentário Eu Maior, e agora, após alguma pesquisa, trago a vocês 4 vídeos com os melhores momentos das entrevistas com 4 seres plenos de espiritualidade:

Prof. Hermógenes, um dos pioneiros na divulgação da Yoga no Brasil, e um homem formidável (eu o conheci pessoalmente nas palestras espiritualistas do Teatro Vannucci, no Shop. da Gávea - Rio de Janeiro [toda quarta, 19h])


Waldemar Falcão, espiritualista, músico, escritor, astrólogo. Foi o grande mediador do diálogo entre Marcelo Gleiser e Frei Betto em livro lançado recentemente no país.


» Ver entrevista com Richard Simonetti

Richard Simonetti, um dos maiores divulgadores do espiritismo no Brasil, autor de dezenas de livros. Possuí uma das mais profundas visões da doutrina espírita, não apenas no ramo religioso, mas também no filosófico e científico.

» Ver entrevista com Monja Cohen

Monja Cohen, formada em jornalismo e mãe aos 16 anos, após muitos anos de busca espiritual é hoje considerada a principal representante do Zen Budismo japonês no Brasil.

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» Veja mais entrevistas no blog do Eu Maior

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