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4.4.18

As grandes questões do ocultismo (tomo I)

Nada é tão escondido que não possa ser revelado através de seu fruto (Paracelso)


Hoje uma boa parte dos leitores do meu blog provavelmente conhecem alguma coisa de ocultismo, e alguns até se consideram ocultistas. Eu, entretanto, só vim conhecer melhor o ocultismo após cruzar no caminho com o meu amigo Marcelo Del Debbio. Através dele, percebi que o ocultismo era algo bem diferente do que se julga na chamada “opinião popular”. Ainda assim, mesmo tendo adquirido um conhecimento mais aprofundado do tema, eu ainda sinto que muitas vezes faltam consensos e sobram divergências quando as próprias vertentes ocultistas dialogam entre si.

Há gente que crê que ocultista é somente quem já chegou a praticar algum ritual vestindo mantos e empunhando espadas ou adagas, há magos do caos que acham isso tudo uma besteira, enquanto há leitores da teosofia que se dizem ocultistas porque seguem os ensinamentos da Madame Blavatsky; há quem diga que se trata de uma ciência, há quem diga que é religião, há quem diga que não é nenhum dos dois... Ora, eu me pergunto se essa confusão toda não contribuí ainda mais para o descrédito do chamado ocultismo na opinião popular.

No fim das contas, talvez seja mais proveitoso tentar definir o ocultismo não pelo que ele é, mas pelo que ele não é:

Não, o ocultismo não é “coisa do Demônio”.
Não há associação mais direta quando mencionamos o termo “ocultismo” a um leigo do que ao “Demônio”. Tudo bem que contribuíram para isso muitos filmes e contos de terror ao longo da história, mas é estranho de se pensar: muitas vezes, até mesmo quem não acredita na existência de um Demônio, de um “Senhor de todo o mal”, ainda assim crê piamente que ocultismo e satanismo (seja o que isso for) são mais ou menos a mesma coisa.

A crença num Demônio Mal adversário de um Criador Bom pode ser traçada ao zoroastrismo, e sua presença no cristianismo se deve muito a antiga crença de Agostinho de Hipona, o grande doutor da Igreja, nas doutrinas de Mani (que era admirador, por sua vez, da dualidade zoroastrina). Agostinho, é claro, afirma ter deixado de lado suas crenças pagãs, assim com a sua antiga vida boêmia, mas uma coisa é afirmar “eu renego Mani”, outra é ter a absoluta certeza de que nada, mesmo que inconscientemente, foi transportado para o seu próprio pensamento. Como sabemos, Agostinho provavelmente esteve enganado sobre si mesmo nesse ponto.

No entanto, ainda que você mesmo creia nesse Demônio, talvez lhe surpreenda que o próprio criador do satanismo não acreditava nele. É difícil saber se as histórias acerca da vida de Anton LaVey são verdadeiras, pois ele mesmo admitiu ter mentido bastante (e, de certa forma, em boa parte o próprio satanismo de LaVey é uma grande zoação), mas a sua biografia não autorizada (e, portanto, mais fidedigna) nos conta que ele trabalhou alguns anos de sua juventude como organista (tocador de órgão) em bares e prostíbulos dos EUA nos anos 1940. Ora, ocorre que, nos mesmos locais onde ele foi contratado para tocar aos sábados, também achou emprego para tocar aos domingos, em cultos e espetáculos cristãos...

Então ele percebeu que os mesmos ditos cristãos que juravam seguir os preceitos de sua religião aos domingos, menos de 24 horas antes estavam pagando prostitutas nas casas noturnas em que LaVey tocava. Assim, o seu satanismo não surgiu nem de uma adoração a algum Demônio nem propriamente de um ódio intrínseco ao cristianismo: LaVey simplesmente não suportava era a hipocrisia de muitos dos cristãos da sua época.

Fosse hoje em dia, talvez ele já estivesse contente em criar uma página de memes zoando o cristianismo nas redes sociais. Mas, já lá pelos anos 1960, a sua forma de extravasar esse sentimento foi criando uma espécie de “religião zoeira”; que, no entanto, trazia muitos ensinamentos profundos retirados de vertentes ocultistas mais antigas que defendiam o chamado “caminho da mão esquerda” (do qual ainda falaremos mais para frente).

Nada disso, no entanto, tem qualquer coisa a ver com um Demônio real, muito menos com “pactos de venda de alma” e baboseiras desse tipo. Que há maldade no mundo, disso não temos dúvida; mas essa maldade está no coração dos seres (encarnados ou não), e não numa espécie de “bode expiatório cósmico”, condenado a ser a fonte de toda maldade pela eternidade. Nem no zoroastrismo antigo havia crença tão infantil...

No entanto, se formos considerar os demônios como aspectos negativos de nós mesmos, então um de seus grandes estudiosos, segundo consta na tradição judaico-cristã, foi justamente o Rei Salomão (sim, aquele carinha mesmo, lá da Bíblia). Uma das tradições magísticas mais conhecidas é a Ars Goetia, onde se estuda o sistema, dado de presente a Salomão pelos anjos, que lhe conferia poder e controle sobre os principais demônios conhecidos. Assim, se o ocultismo também lida com demônios (e não com “o Demônio”), saiba que isso vem desde Salomão.

Não, o ocultismo já não é mais um “conhecimento vedado”.
Segundo Del Debbio, a origem dos grupos ou ordens onde algum conhecimento precioso era “guardado” do resto das pessoas ocorreu ainda na época da construção das pirâmides, e perpassou séculos e séculos onde os segredos da construção de castelos, fortalezas, barcos, juntamente com a forja das armas e armaduras de metal, eram antes de mais nada questões militares, que tocavam a própria segurança de reinos e países, da mesma forma como até hoje os segredos para a produção de armas nucleares são vedados a maior parte das nações.

Ocorre que, nos primórdios da humanidade, a ciência, a filosofia e a religião ainda eram como “uma coisa só”, e é natural imaginar como os mesmos grupos que guardavam os segredos da construção de templos religiosos, por exemplo, guardavam igualmente os segredos de seus rituais mais profundos. Além disso, é preciso lembrar que durante boa parte de nossa história a grande maioria da humanidade foi iletrada, analfabeta. Os eclesiásticos tampouco ajudavam: foi somente em 1534, por exemplo, que uma tradução da Bíblia para o alemão alcançou o grande público, graças ao reformador Martinho Lutero. Até a Reforma, não era do interesse da Igreja Católica ter o seu maior livro sagrado acessível à leitura da maior parte da população. Por que será?

Foi também devido às perseguições da Igreja na Europa que boa parte das ordens secretas que sobreviveram até os dias atuais foi inicialmente formada. Elas não podiam simplesmente divulgar certos conhecimentos a qualquer interessado, não somente pela necessidade de um estudo anterior para que o leigo tivesse condições apropriadas de interpretar aqueles conhecimentos, como também pelo fato de que havia vários “olheiros” da Inquisição prontos para enviar qualquer infiel pra fogueira.

Felizmente, a humanidade evoluiu e, a despeito de suas mazelas, ao menos o advento da era racional-científica, desde meados do século XIX, acabou trazendo uma liberdade muito maior para o tráfego do antigo conhecimento oculto. Está certo que hoje esse tipo de conhecimento é considerado uma espécie de “heresia irracional” pela Academia (que esqueceu que foi graças a ele que a ciência moderna deu o seu grande salto, quando Copérnico e Galileu beberam nas fontes do hermetismo), mas ao menos ela não manda seus hereges para a fogueira – se contenta em ridicularizá-los por “falta de provas”, somente.

Hoje sites, blogs e canais do YouTube falam abertamente de ocultismo, e anunciam suas ordens e eventos para os que quiserem praticá-lo de fato. Porém, mesmo antes da era da internet, tal tipo de conhecimento já vinha sendo aberto ao grande público, passo a passo, sobretudo através da literatura. Desde Aleister Crowley ao próprio Alan Moore, exemplos não faltam.

Vivemos na era em que Baphomet é encontrado em imagens na internet associado ao Homer Simpson. É um tempo onde há tanta, tanta informação disponível, que não há mais real necessidade de se ocultar nada: o próprio mecanismo da web faz com que somente aqueles realmente curiosos, preparados ou não, encontrem o ocultismo.

O grande problema está, evidentemente, em se tratar tudo isso como uma grande brincadeira. Em ser um “satanista” somente para irritar os seus pais e “chocar a sociedade”; ou pior, em crer realmente em “contratos com o Demônio”: tudo isso demonstra que não basta saber ler para ser alfabetizado nos assuntos da alma. É preciso interpretar o mundo e, sobretudo, o seu próprio interior. Isso nenhum site, nenhum vídeo topzera do YouTube poderá fazer por você – e é justamente por isso que ainda há espaço para as ordens nos dias de hoje, ainda que elas não precisem mais ser totalmente secretas. Elas existem para auxiliar o verdadeiro caminhante.

Não, nem todo ocultista é “charlatão”.
De fato, a maioria não é. O ocultismo em grande parte trata dos assuntos da alma, das questões internas, da nossa interpretação do mundo, da nossa própria mente. A grande maioria dos alquimistas jamais acreditou realmente que poderia verter chumbo em ouro, mas acreditava na realidade na transmutação da alma ignorante e animalesca num ser apto a refletir a luz do Alto, num ser que constrói em si o seu próprio tesouro.

É muito fácil chamar Baphomet, Pã ou Cernunnos de demônios sem jamais ter se dignado a pesquisar 30 minutos na web acerca deles. É muito fácil associar os rituais de cura e outros efeitos medicinais ao chamado efeito placebo, sem saber explicar ao certo o que diabos ele é. É muito fácil colocar o tarot e a astrologia no mesmo saco dos “signos de jornal” e dos “trago a pessoa amada em 3 dias” sem antes buscar conhecê-los mais a fundo, nem que seja para entender melhor porque grandes homens e mulheres de nossa história o utilizavam para o seu processo de autoconhecimento.

É claro que existem charlatões no ocultismo, sobretudo pelo fato de que ninguém sabe ao certo definir o que é exatamente o ocultismo. Mas, se tem uma coisa que o verdadeiro ocultismo não é, é charlatanismo.

» No tomo II: o caminho da mão esquerda; o caminho da mão direita.

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Crédito das imagens: [topo] Rembrandt (A Festa de Belazar); [ao longo] Roe Mesquita.

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20.3.13

De falos e orifícios

Os eclesiásticos parecem definitivamente ter dificuldades com a ideia de que nossos falos e orifícios precisam entrar uns nos outros; e, principalmente, que esta dança sexual possa, ao mesmo tempo em que gera vida, nos dar grande prazer.

Em algum canto da antiguidade, em alguma interpretação apressada de Platão, entendeu-se, sabe-se lá como ou porque, que “o sexo era sujo”. Isto, pois o corpo humano era precário, perecível, sempre sujeito a morte. Apenas a alma era “limpa”, imperecível, imortal, e deveria ser nossa grande preocupação mantê-la “tão pura quanto possível”, tão distante dos “prazeres carnais” quanto fosse necessário.

Hoje a virgindade de Maria, a mãe de Jesus, é um dogma da Igreja Católica Apostólica Romana. Isto não quer dizer que os primeiros cristãos tenham acreditado automaticamente que Maria “engravidou do Espírito Santo”, mas sim que a discussão já “se esvaziou” – Que nenhum teólogo deveria continuar perdendo seu tempo com ela.

Muitos não sabem, mas diversos dogmas do cristianismo foram exaustivamente discutidos e, dessa forma, elaborados nos primeiros séculos após a morte e ressurreição do Cristo (pois muitos não constam na bíblia, ao menos não numa descrição direta). Orígenes (nascido em 185), por exemplo, duvidava que Cristo fosse Deus, e também que “um Deus de amor e misericórdia pudesse permitir que um de seus filhos sofresse num inferno eterno”. Já Ário de Alexandria, pouco menos de um século depois, concordava com Orígenes quanto a distinção entre Cristo e Deus, além de simplesmente não compreender o que diabos era exatamente a tal “trindade perfeita”.

Somente em 325, no Concílio de Nicéia, as ideias de Ário (arianismo) e Orígenes foram consideradas heréticas, ou seja: “erradas”. O próprio Agostinho de Hipona, que nasceu décadas após o Concílio, estabeleceu as bases atuais do dogma do Pecado Original [1] – Somente muitos séculos, portanto, após Jesus haver pregado na Galileia. Agostinho foi admirador do neoplatonismo e do maniqueísmo, e embora não admitidamente (no caso do maniqueísmo), ambas as doutrinas, através dele, exerceram profunda influência sobre o cristianismo que se seguiu.

Ora, e se Mani (fundador do maniqueísmo) exerceu alguma influência em Agostinho, certamente esta influência até hoje é percebida no cristianismo. Mani considerava Zoroastro (profeta persa, fundador do zoroastrismo), Buda e Jesus “pais da Justiça”, e pretendia sistematizar suas mensagens individuais numa doutrina de “verdade completa”. E o que o cristianismo herdou de Mani, através de Agostinho, foi exatamente a ideia central do zoroastrismo: que existe uma guerra semieterna entre um “deus bom” e um “deus mau” [2].

O problema é que não termina aí: Mani calhou de chegar a conclusão de que a matéria era “intrinsecamente má”, e a alma, “pura e boa”. Ainda hoje acusam Platão por ter “inserido” esta ideia equivocada no cristianismo, mas mesmo esta concepção é apressada e superficial [3]: se houve culpa de alguém, além dos próprios cristãos da época, que se abstiveram de debater o assunto por mais tempo, esta culpa recaí mais decisivamente no inconsciente de Agostinho – em suas memórias da época em que seguia a doutrina de Mani e, principalmente, em seu vastamente documentado arrependimento da antiga vida boêmia (e sexual).

Estou aqui a condenar Agostinho? Claro que não. Este grande sábio da antiguidade deixou-nos inumeráveis passagens de grande teor filosófico [4]. Porém, na questão do Pecado Original, simplesmente lamento profundamente as conclusões a que chegou...

Afinal, se o ato de comer uma maçã proibida pode ser responsável pela condenação do sexo as trevas, pela eternidade, fica muito difícil saber onde a razão se escondeu nesta teoria. Poderia me estender aqui sobre o assunto de Adão, Eva e a Serpente, mas já falei sobre isso noutros artigos [5], e gostaria ainda de retornar ao problema dos falos e orifícios.

Ora, fica evidente que a Imaculada Conceição é um dogma que se esvaziou dos significados simbólicos dos mitos ainda mais antigos [6], e se revestiu de um supremo puritanismo que pretende “salvar” Maria do ato sexual – como se este fosse alguma coisa relacionada ao “deus mau” do maniqueísmo.

Mas Maria não precisa ser “salva” de nenhum Pecado Original. O sexo não é uma espécie de doença contagiosa, e ninguém se torna “impuro” por praticá-lo. O que nos torna impuros, o que realmente mancha nossas almas, é a ignorância, a intolerância, a falta de empatia, a brutalidade do pensamento ou, para resumir, o próprio “afastamento de Deus”.

Alguém já definiu o puritano como “aquele que se escandaliza ante o fato de que alguém, nalgum lugar, pode estar tendo prazer”. Muitas das vezes, os puritanos são sujeitos altamente sexuais, mas que se viram obrigados a varrer toda sua sexualidade para debaixo do tapete da consciência. Não fosse assim, como seria possível haver tantos eclesiásticos praticando os atos sexuais mais desajustados, quando defendem exatamente o oposto disto? É isto o que ocorre quando “fingimos eliminar nosso lado animal com dogmas e orações”. É este, afinal, o grande pecado: recusar-se a admitir que somos humanos, demasiadamente humanos.

Intrinsecamente, não há problema algum em darmos algumas aberturas para nosso lado animal. Não fosse por isto, pelo que Schopenhauer chamou de “a força da vida” (antecipando em muitas décadas os psicólogos evolutivos), sequer estaríamos aqui para contar a história da espécie. E o sexo, de todo tipo – heterossexual, homossexual, bissexual –, é perfeitamente natural, se encontra na Natureza (e, se vocês tem alguma dúvida, pesquisem por “bonobos” no Google [7]).

Aliás, é melhor, muito melhor, darmos alguma abertura a fera sexual que nos habita, ainda que de vez em quando, do que fingir que ela não está lá, ou pior, acreditar que ela pode ser afastada com orações repetidas da boca para fora, que não passaram pela profundidade da alma.

Pois todo aquele que conhece a alma sabe que, de fato, o sexo é bom, e tem sido bom a incontáveis vidas... Mas sabe também que há algo ainda melhor, uma espécie de gnose deste mistério, um entreolhar da “força da vida”, que anseia por si mesma, mais e mais. Um fogo que arde sem se ver, e que não se apaga nunca, mas pelo contrário: queima cada vez mais alto e forte.

Que há muitos ignorantes que condenaram o sexo as trevas, mas que ao puni-lo com violência e intolerância, praticam pecados no mínimo muito piores do que qualquer promiscuidade envolvida no ato sexual...

Mas aqueles que se largaram no fogo da alma, e queimaram seu antigo corpo, sua antiga ignorância, renasceram junto ao Cristo, e desvendaram enfim o que Zoroastro quis dizer:

Não é o sexo que é mau. Não é o corpo que é mau. Não é a matéria que é má. A maldade reside na alma, e nos olhos, de quem vê... E que é a maldade, senão a suprema ignorância da Natureza?

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[1] Um contemporâneo de Agostinho, monge ascético (e que jamais foi boêmio), chamado Pelágio, combateu veementemente o dogma do Pecado Original, mas foi considerado herege pelo bispo de Roma.

[2] Isto é, claro, segundo uma concepção altamente superficial do zoroastrismo. Infelizmente, no entanto, ainda que inconscientemente, Agostinho foi influenciado por tal pensamento, e ele se encontra até hoje no cristianismo (basta ter olhos para ver).

[3] Ver O mito da caverna comentado.

[4] Foi, por exemplo, o primeiro a analisar o aspecto psicológico do tempo de forma aprofundada (ao menos, no Ocidente).

[5] Ver Serpentes.

[6] Os mitos sobre filhos gerados por mulheres virgens são numerosos, constituindo uma ideia corrente já muito antes do cristianismo. Mesmo no Oriente, 2 mil ou 3 mil anos antes de Cristo, entidades mitológicas e fundadores de religiões eram considerados “filhos de mães virgens e puras”. Esta virgindade, no entanto, não necessariamente vinha associada de uma “condenação ao ato sexual”. Era, muitas vezes, apenas uma metáfora para “uma divindade que gerou a si mesma”.

[7] Ver 3 chimpanzés.

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Crédito da foto: Wikimedia Commons (Templo de Lakshana, Índia)

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28.8.12

Os apócrifos e o gnosticismo

Como hospedo transcrições de alguns dos chamados Evangelhos Apócrifos neste blog, achei por bem trazer aqui algumas observações acerca do que são exatamente estes apócrifos, e da sua relação (nem sempre muito clara) com o chamado gnosticismo.

Que são os apócrifos?
Os evangelhos apócrifos são basicamente todos aqueles que não foram incorporados “oficialmente” ao Novo Testamento [NT], embora se relacionem claramente com Jesus Cristo e tragam muitos dos eventos citados no NT, muitas vezes sob outra ótica ou interpretação. A maior parte dos evangelhos apócrifos que chegaram à modernidade faz parte da Biblioteca de Nag Hammadi [1].

Esta Biblioteca é uma coleção de textos do cristianismo primitivo (período que vai da fundação até o Primeiro Concílio de Niceia, em 325 d.C.) descoberta na região do Alto Egito, perto da cidade de Nag Hammadi, em 1945. Naquele ano, um camponês local chamado Mohammed Ali Samman encontrou uma jarra selada enterrada que continha 13 códices de papiro embrulhados em couro. Os códices contêm textos sobre 52 tratados classificados majoritariamente como gnósticos, além de incluírem também 3 trabalhos pertencentes ao Corpus Hermeticum (do hermetismo), e ainda uma tradução/alteração parcial de A República de Platão.

Na introdução de sua obra A Biblioteca de Nag Hammadi, James M. Robinson sugere que estes códices podem ter pertencido ao monastério de São Pacômio, localizado nas redondezas de Nag Hammadi, e tenham sido enterrados por monges que tomaram os livros proibidos [2] e os esconderam em potes de barro na base de um penhasco. Ali ficaram esquecidos e protegidos por mais de 1500 anos. Os textos nos códices estão escritos em copta, embora todos os trabalhos sejam traduções do grego. O mais conhecido trabalho é provavelmente o Evangelho de Tomé, cujo único texto completo está nesta Biblioteca. Atualmente, todos os códices estão preservados no Museu Copta do Cairo, no Egito [3].

Os textos de Nag Hammadi são todos gnósticos?
Pois bem, a polêmica que surge em relação aos textos da Biblioteca não toca sua relevância histórica nem espiritual, mas sim a questão de classificação da sua doutrina em específico. São muitos textos diferentes, uns muito mais profundos do que os outros, sendo que pelo menos dois dos principais (Tomé e Maria) se assemelham num aspecto: não necessariamente seriam gnósticos.

Para explicar porque, primeiro é necessário considerarmos que nem sequer sabemos ao certo o que exatamente é o gnosticismo, pois para muitos ele parece ser mais um conjunto de doutrinas (nem sempre congruentes) do que apenas uma única doutrina em específico.

Desse modo podemos considerar o gnosticismo (do grego gnosis, conhecimento) como um conjunto de correntes filosófico-religiosas sincréticas que chegaram a mimetizar-se com o cristianismo primitivo, vindo a ser declarado como um pensamento herético após uma etapa em que conheceu prestígio entre os intelectuais cristãos. De fato, podemos falar em um gnosticismo pagão e em um gnosticismo cristão, ainda que o pensamento gnóstico mais significativo tenha sido alcançado como uma vertente heterodoxa da aurora cristã.

O movimento originou-se provavelmente na Ásia Menor, difundindo-se da região do Irã à Gália, exercendo a sua maior influência sobre o cristianismo entre os anos de 135 e 200. Tem como base elementos das filosofias pagãs que floresciam na Babilônia, Antigo Egito, Síria e Grécia Antiga, combinando elementos da Astrologia e mistérios das religiões gregas como os de Elêusis, do Zoroastrismo, do Hermetismo, do Sufismo, do Judaísmo e do Cristianismo.

Se há um elemento do gnosticismo que parece “permear” tantas vertentes diversas, este sem dúvida seria a reflexão primordial de que “a gnose é nada mais do que o conhecimento de Deus”. A partir deste pressuposto, entretanto, temos muitos caminhos incongruentes em todas estas vertentes, inclusive nos textos da Biblioteca de Nag Hammadi.

Uma visão superficial: o deus mau que criou a natureza
A visão superficial mais comum encontrada em quem mal compreende o gnosticismo, ou que o compreende apenas pelo aspecto exotérico (superficial), é aquela que interpreta literalmente os mitos gnósticos que apresentam ora a batalha eterna de um deus bom contra um deus mau (o que também é encontrado no zorastrismo), ora a história de um deus chamado Demiurgo, que foi gerado por Deus (o Deus incriado), e que gerou a natureza, sendo que a natureza seria “má” e “corrupta”. Segundo tal mito, o objetivo da alma seria se livrar da natureza material e voltar ao “mundo espiritual”.

Como no Mito da Caverna de Platão, este mito apresenta uma distinção entre uma realidade supranatural, incognoscível e a materialidade sensível, da qual o Demiurgo é o criador. Porém, em contraste com Platão, aqui o Demiurgo é apresentado como um antagonista do Deus Supremo. Seu ato de criação, seja ele inconsciente e uma imitação fundamentalmente falha do modelo divino, ou formado com a intenção maligna de aprisionar aspectos do divino na materialidade, funciona como uma solução para o problema do mal.

Bem, se no Mito da Caverna já encontramos diversas interpretações, nem todas tendendo necessariamente para uma desvalorização forçosa do mundo material, neste mito do Demiurgo uma interpretação esotérica (espiritualmente profunda) se faz essencial... Não terei espaço aqui para adentrar neste assunto, mas se iniciarmos pela consideração que a batalha do Bem contra o Mal se dá essencialmente em nossa própria alma, e que o Demiurgo não é um ser “que existe fora de nós mesmos”, já teremos dado um importante passo para a compreensão do mito.

Uma visão profunda: o Reino está em toda parte
Agora gostaria de trazer a consideração importante de como alguns dos textos da Biblioteca de Nag Hammadi pouco ou quase nada têm em comum com a visão da natureza como “má” e/ou “corrupta”. Tanto pelo contrário, tais textos consideram que a Natureza não só é sagrada, como o Reino de Deus se encontra espalhado por todas as coisas, inclusive as coisas materiais, sendo que os seres não o veem.

Para que tal ideia fique clara e cristalina em suas mentes, não é necessário nada mais do que citar o terceiro versículo do Evangelho de Tomé, por exemplo:

Jesus disse: Se aqueles que vos guiam vos disserem: vê, o Reino está no céu, então os pássaros vos precederão. Se vos disserem: ele está no mar, então os peixes vos precederão. Mas o reino está dentro de vós e está fora de vós. Se vos reconhecerdes, então sereis reconhecidos e sabereis que sois filhos do Pai Vivo. Mas se vos não reconhecerdes, então estareis na pobreza, sereis a pobreza.

Alguém consegue associar esta ideia da Natureza com algo “corrupto” do qual necessitamos “escapar”? Pois é, eu também não consigo imaginar nenhum tipo de associação entre tais ideias.

E, se já citamos Tomé, deveremos citar também o Evangelho de Maria, no qual é demonstrado não somente a natureza sagrada da Natureza, como também da própria mulher, na pessoa de Maria Madalena. Esther A. de Boer é uma das pesquisadoras dos apócrifos cristãos que se opõe totalmente a classificação do Evangelho de Maria como gnóstico. Vejamos um trecho do que ela escreveu em seu livro, The Gospel of Mary:

A linguagem particular do Evangelho de Maria [...] pertence a um contexto mais especificamente estoico, no qual a matéria é uma construção do pensamento, e a matéria e a natureza estão entrelaçadas. Isso significa que o mundo material como tal não pode ser evitado, como seria o caso de uma visão dualística gnóstica, mas que se deve tomar cuidado para não ser governado pelo poder contrário à natureza.

Esta visão profunda da Natureza, associada à emanação do pensamento do Uno, da Substância Primeira, ou de Deus, não foi inaugurada nem pelos apócrifos, nem pelos estoicos, mas pode ser traçada na antiguidade até ao menos Parmênides e, quem sabe, a sabedoria de Hermes Trimegisto. Se formos considerar certas interpretações dos Vedas do hinduísmo, tal ideia esbarra quase nos primórdios da religião em si. É esta a Natureza que assombrou Plotino, Espinosa, e até mesmo Einstein – é este o Reino que se espalha por tudo que há, mas somente alguns veem.

Uma questão de nomenclatura
Finalmente, precisamos considerar que a maior parte dos cristãos primitivos que escreveram ou seguiram aos ensinamentos dos apócrifos não chamavam a si mesmos de gnósticos, mas sim de cristãos. Dá o que pensar...

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» Conheça mais sobre os apócrifos no site Early Chrstian Writings (em inglês)

[1] Todas as transcrições hospedadas neste blog foram retiradas dos textos encontrados em Nag Hammadi. Conforme constam em A Biblioteca de Nag Hammadi (organização de James M. Robinson, publicado no Brasil pela Editora Madras, com tradução de Teodoro Lorent), ou, para o caso específico do Evangelho de Tomé, conforme originalmente publicado no portal Sangha EEU.

[2] Quando o bispo Atanásio de Alexandria condenou o uso de versões não canônicas dos testamentos em suas Cartas Festivas de 367 d.C., após o Concílio de Niceia.

[3] Conforme aumenta à tensão política no Egito, particularmente os atos de hostilidade da maioria islâmica contra a minoria cristã copta, os pesquisadores ficam apavorados com a possibilidade da Biblioteca de Nag Hammadi ser saqueada ou destruída. Em todo caso, há cópias fotográficas de alta definição de todos os papiros espalhadas por todo o mundo – hoje este conhecimento não se perderá tão facilmente.

Crédito da imagem: gnosticisme.com

 

Os Evangelhos de Tomé e Maria

Veja também
Esta edição traz dois dos textos mais profundos encontrados em Nag Hammadi: Os Evangelhos segundo Tomé e Maria Madalena. Os acompanha uma série de contos (O Mensageiro) inspirados no gnosticismo e escritos por Rafael Arrais.

» Versão impressa

» eBook (Kindle)

» eBook (Kobo)

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29.6.12

Todas as guerras do mundo, parte final

« continuando da parte 3

Até que a filosofia que sustenta uma raça superior e outra inferior seja finalmente e permanentemente desacreditada e abandonada, haverá guerra, eu digo: guerra...
Guerra no leste, guerra no oeste, guerra no norte, guerra no sul, guerra, guerra, rumores de guerra...
(War, Bob Marley – composição de Allen Cole e Carlie Barrett)

A revolução da alma

Em 3 de junho de 1989, tanques e soldados do exército chinês invadiram a Praça da Paz Celestial, na capital, Pequim. Lá estavam cerca de 100 mil manifestantes que protestavam pacificamente há quase 2 meses, criticando a corrupção e a repressão da liberdade individual vindas de um governo que se dizia comunista [1]. Haviam entre eles muitos intelectuais, professores, estudantes e trabalhadores insatisfeitos com o rumo geral da política chinesa. Mas o Partido Comunista já havia perdido a paciência com eles; Como haviam ignorado as ordens para que as manifestações fossem encerradas, a ala do Partido mais propensa à violência aprovou a ordem para que fosse iniciado o massacre. Na Praça da Paz Celestial, na noite de 3 de junho de 1989, o exército chinês matou 2.600 manifestantes e feriu outros 10 mil [2].

No dia 4 os protestos se intensificaram muito, principalmente por parte dos jovens estudantes. Há essa altura os jornalistas de todo o mundo já estavam se hospedando nos hotéis próximos a Praça, visto que era uma área nobre da capital, e preparavam os flashes para o próximo massacre... Talvez por conta dessa exposição indesejada na mídia mundial, a ala violenta do Partido Comunista recuou, e o que se viu naquele dia foram tanques passeando em torno da Praça, enquanto os jovens prosseguiam com seu protesto ainda pacífico.

No dia 5, ante as manobras de dezenas de tanques pela avenida em torno da Praça, um homem solitário surgiu no meio da rua, impávido ante o avanço de uma coluna de vários tanques enfileirados, enquanto outros civis mais precavidos fugiam desesperadamente do avanço militar... Quando o primeiro tanque da fileira chegou próximo dele, foi obrigado a desviar para não o atropelar. Mas o homem se moveu de lado, brecando o tanque. Ele parecia querer conversar...

Subiu na máquina e trocou algumas palavras com seu piloto, até que duas pessoas (que todos esperam que fossem seus amigos) surgiram na cena e convenceram o homem a desistir de papear com aqueles soldados, que os haviam massacrado dois dias antes. Esta cena foi filmada e fotografada por jornalistas de todo o mundo, e o homem, até hoje um desconhecido, se tornou um mito: o Rebelde Desconhecido... Até hoje tampouco se sabe se ele teria ou não sobrevivido. Especula-se que, mesmo um ano após o incidente, quando às manifestações já havia terminado há meses, o próprio governo chinês ainda procurava pelo homem desconhecido. Aquela altura, seria um grande benefício para o Partido Comunista mostrar aquele mito vivo e intacto, provando para o mundo que ele não havia sido preso, torturado, ou morto (como tantos milhares de civis).

Hoje, entretanto, a China é um outro país, e embora esteja evoluindo lentamente para uma sociedade mais aberta e um governo menos repressor, o mito do Rebelde Desconhecido perdura. Assim se dá com os mitos: eles existem sempre, e sobrevivem ao nascer e ao findar dos impérios. Quem seria aquele chinês corajoso? Um jovem estudante, ou um professor? O que ele teria tentado dizer ao piloto do tanque? “Parem, vocês estão dizimando nosso futuro, nossa liberdade, nossa dignidade” – teria sido algo assim?

Talvez a única coisa que possamos afirmar em relação ao Rebelde Desconhecido é que ele era alguém que havia descoberto como pensar por si mesmo. Um real revolucionário: aquele que travou todas as guerras do mundo no interior, e realizou a revolução na própria alma.

Falávamos a pouco do Deus Bom e do Deus Mal do zoroastrismo. Estes são também mitos, propostos pelo profeta Zoroastro. Dissemos também que se tratava de um conceito infantil e superficial... Mas, será que isso foi mesmo culpa de Zoroastro, ou daqueles que vieram muito depois e, não sabendo interpretar sua mitologia, tomaram-na de forma literal, e a adaptaram para seus próprios interesses?

Ora, será mesmo que uma religião sobreviveu por tantos séculos baseada num conceito superficial, ou são os seus detratores que jamais se interessaram em compreender o que diabos é exatamente um mito, uma interpretação simbólica, uma metáfora? Não quero transformar esta série num tratado sobre mitologia [3], mas vamos considerar aqui, de forma bastante breve, uma outra visão para os deuses do zoroastrismo:

Aúra-Masda, o Deus Bom, não era invenção de Zoroastro, mas uma divindade já existente na cultura indo-iraniana, com muitas semelhanças a deuses ainda bem mais antigos da Índia Védica. Aúra-Masda, ou o Senhor Sábio, era um mito associado ao sol e ao fogo. Através de sua luminosidade, as trevas da ignorância poderiam ser vencidas. Era precisamente através do fogo e suas chamas mensageiras que os homens poderiam se comunicar com o Senhor Sábio.

Já seu irmão, Arimã, o Deus Mal, era o senhor da devassidão e da corrupção, o lado negro da alma de todos os homens, que os atraia para o mau pensamento e o mau governo de sua própria existência. Ora, é precisamente este que foi associado a Lúcifer. Porém, há uma característica essencial do mito que não foi transferida para o cristianismo: Arimã não está no mundo lá fora, mas dentro da alma de cada um de nós. Arimã não nos “seduz” para o mal, mas é antes a própria presença das trevas da ignorância que ainda pairam dentro de nosso coração, impedindo que vejamos a luminosidade do bem.

Percebem a enormidade da diferença? Não se trata mais de deuses criadores do mundo ou do Cosmos, mas de aspectos da própria alma, da mente humana, e de sua longa caminhada em direção à luminosidade, a extinção das trevas da ignorância; Enfim: a evolução da consciência. Zoroastro não estava preocupado com a origem das coisas, do porque existe algo e não nada, mas sim com a origem da ignorância humana, e de como proceder para que os homens reformem a si mesmos, e se tornem melhores e mais sábios. Mas a luz de Zoroastro, quando chegou aos homens da Igreja, foi corrompida em algo menor. Tal qual Lúcifer caiu dos céus, os eclesiásticos também caíram nas trevas da ignorância, e houve mesmo aqueles demônios que um dia acreditaram que Deus pediu guerras santas e conversões sob as torturas mais bárbaras – e os demônios da Igreja diziam falar em nome de Deus.

Mas como falar em nome de um aspecto apenas nosso, uma luz que habita dentro de cada alma, e que em cada uma delas é uma luz distinta, como a íris dos olhos? Somente Deus pode falar por si, mas quando o faz, fala direto a alma daqueles que souberam lhe escutar... Os outros todos que acreditam falar em nome dele devem tomar muito cuidado, pois estes sim terão muito a explicar no Juízo Final. Este sim, terão dificuldades em espantar Lúcifer.

O rabi da Galileia disse que veio trazer a espada, e não a paz. E ele tinha razão: necessitamos de uma espada para batalhar na guerra da alma, para nos livrar dos preconceitos, dos apegos, das zonas de conforto, da estagnação. Como é possível estar em paz com tanta violência, tantas guerras e sofrimento pelo mundo afora? Com a luz do amor voltada para o sistema inteiro, e não para um pequeno grupo, uma pequena região, uma pequena parte do tempo. Quem com ferro fere, com ferro será ferido – disse ele também: a solução não é o olho por olho nem o dente por dente, a solução não é guerrear no mundo lá fora, nem propriamente enfrentar exército com exército, e bomba com bomba. Bastam algumas bombas atômicas explodirem a mais, e todos estarão cegos e desdentados: hoje ao menos sabemos disso.

A solução é a revolução da alma, para que possamos oferecer a outra face ante toda a violência: a face da tolerância, da sobriedade, da espiritualidade. Nenhum soldado jamais será, afinal, tão corajoso, tão heroico, tão mítico, quanto o Rebelde Desconhecido, que não estava mais preocupado consigo mesmo, mas com o rumo que sua pátria iria tomar, continuassem os tanques e os outros soldados dizimando aqueles que lutavam, sem armas que não o próprio pensamento, na guerra pela paz.

E a paz só virá, efetivamente, após a espada, após a guerra que se dá internamente, após a revolução da alma. Só mudando a si mesmo que o homem pode mudar o que está a sua volta. Se o pensamento não muda, o que vemos é o que temos visto pelo mundo afora: um Império substituindo ao outro, e um opressor sentando no trono sangrento de outro opressor. Enquanto o homem não muda a si mesmo, o que vemos é apenas escuridão e ranger de dentes.

Até este precoce despertar da consciência humana, a Natureza nos guiou, através da “guerra da fome e da morte”, por seus caminhos multimilenares: ora presa, ora predador. Lutamos em muitas guerras, e muitas foram com unhas e dentes, e paus e pedras. Fomos alvejados e esquartejados, transpassados e devorados, e decerto por muito tempo pagamos ao olho por um outro olho, e ao dente por um outro dente. Um dia, porém, alguns de nos se cansam deste jogo, e decidem se voltar para a luz, e não mais para a escuridão... Agradecem ao sistema por tê-los feito chegar aonde chegaram, mas agora tratam de viver, não mais sobreviver. E amar, não mais assassinar.

Eis que todo incêndio um dia começou pequeno. Eis que os ventos das asas do Grande Dragão, Arimã, se antes conseguiam extinguir a chama de uma vela, hoje mal conseguem abalar a fogueira que arde no coração daquele que deu os primeiros passos no caminho em direção à luz. Agora, as pedras não mais se chocam para se destruírem e arrancarem lascas umas das outras, mas para produzir ainda mais faíscas de luz, para que o fogo aumente, e aumente, sempre adiante... A ignorância alheia não mais ameaça a nossa convicção. Não há ninguém para ser convertido, há apenas seres para serem amados – e por todos os cantos.

Há seres no leste e no oeste, ao norte e ao sul, acima e abaixo, há vida e beleza, há pensamentos de luz por toda a parte. Há amor por toda a parte. Não há mais nada a temer, nem a duvidar. Então, quando todas as guerras do mundo ficam para trás, nos recônditos da alma que deixou de ser pequena, apenas se é. A paz foi finalmente alcançada, a fera foi domesticada: Arimã, quem diria, também é nosso amigo.


Neste céu de liberdade, Pai, deixe meu país acordar (Tagore)

***

[1] O comunismo de Marx, descrito em sua filosofia, foi algo um tanto distante do comunismo do mundo real. Como alguém já disse: “amo Marx, mas odeio os marxistas”.

[2] Segundo a Cruz Vermelha chinesa.

[3] Para tal, recomendo consultaram a série Os corvos de Wotan.

Crédito das imagens: [topo] Alguns fotógrafos corajosos; [ao longo] Anônimo (encontradas no Facebook, sem crédito dos autores)

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26.6.12

Todas as guerras do mundo, parte 3

« continuando da parte 2

Deixe-me dar-lhe adeus, todo homem tem de morrer.
Porém está escrito na luz das estrelas, e em cada linha de sua mão:
Nós somos tolos por guerrear com nossos irmãos de armas...
(Brothers in Arms, Dire Straits)

O Senhor dos Exércitos

O ano de 1209 deixou marcado na história o sangue de milhares de homens e mulheres massacrados pela Cruzada Albigesa, comandada pelo Rei da França e “abençoada” pelo então Papa da Igreja de Roma. Um dos principais objetivos desta Cruzada em especial não era “converter” os muçulmanos nas terras distantes, mas sim arrasar aos cátaros, um movimento religioso surgido dentro do próprio catolicismo, e que pregava uma visão um tanto quanto mística das Escrituras.

Bastante influenciado pelo gnosticismo, o catarismo pregava o cristianismo puro (do grego katharós, “puro”). Falavam em amor, fé, tolerância, perdão e misericórdia por onde passavam. Os cátaros eram queridos pelo povo, pois pregavam que não era necessária uma intermediação dos eclesiásticos em seu contato com Deus – eles poderiam orar em qualquer local, e realizar suas próprias missas e rituais de adoração, sem a necessidade de um padre. Também defendiam que a salvação da alma se daria pelo conhecimento (gnose) e pelo amor, sendo desnecessário, aqui também, o envolvimento da Igreja.

Mas os cátaros também tinham ideias radicais. Eles não acreditavam que o mundo tivesse sido criado diretamente por Deus, mas que era uma materialização do Mal e que, portanto, os que aqui viviam estavam destinados à expiação até que, após uma vida destinada ao bem, voltassem ao Éden perdido. Enquanto não conseguissem isso teriam que reencarnar em sucessivas vidas na Terra... Ou seja: os cátaros eram excelentes candidatos a serem arrasados por uma Cruzada; Isto é, caso se recusassem a “conversão”, aceitando a Verdade das Escrituras (segundo a Igreja de Roma, é claro).

Bem, eles se recusaram... Em 1209 a cidade Béziers era habitada por cerca de 60 mil pessoas, dentre elas muitos cátaros. O problema é que nem todos eram cátaros, o que gerou um questionamento muito pertinente de um dos comandantes do exército francês ao representante do Papa, quando eles se preparavam para invadir a cidade com uma força militar vastamente superior. O comandante perguntou: “Mas senhor, nesta cidade encontram-se vivendo em paz cristãos, judeus, árabes e cátaros. Como vamos saber quais são os inimigos?”. E a Igreja assim o respondeu: “Matem todos; Deus escolherá os seus!”. Béziers foi dizimada, mas não se sabe se Deus conseguiu encontrar os seus...

A ideia da guerra do Bem contra o Mal é poderosa e sedutora, e por isso mesmo sempre agradou aos Imperadores, Reis e Papas. De todas as ilusões que se interpõe a verdade inconveniente de que, como já vimos, todas as guerras do mundo se dão pelo desejo da conquista de territórios e riquezas, a lenda do Bem contra o Mal é a mais simples de se compreender, e a mais capaz de arrebatar uma grande massa de ignorantes. Nesse tipo de guerra, não há dor na consciência em dizimar inocentes, nem mesmo em estuprar mulheres e crianças, pois fica pré-estabelecido que elas são como demônios sem alma, fruto de um suposto exército comandando pelo Mal.

Engana-se quem pensa que tal artimanha se perdeu na Era Medieval, pois ela é até hoje utilizada em muitas guerras preventivas e atos de terror... Para os terroristas islâmicos, os civis de Nova York eram tão demônios quanto os civis do Iraque o eram para o exército americano. Nas manchetes, porém, havia o anúncio: “O Iraque será libertado das garras do Mal”. E acreditou quem quis, ou fingiu acreditar.

Nas Escrituras há inúmeras menções ao Senhor dos Exércitos, que presume-se ser o Deus Bom. Ocorre que, se ele é o senhor de um exército, falta definir quem seria o senhor dos outros exércitos, os inimigos do Bem. Esta ideia está muito bem definida na mitologia do zoroastrismo. Nesta antiquíssima religião persa, anterior ao próprio judaísmo e ao início da produção das Escrituras, há uma série de crenças que até hoje se veem presentes em inúmeras religiões modernas [1]: a imortalidade da alma, o advento de um messias, a ressurreição dos mortos, o juízo final, etc. Mas o que nos interessa aqui é a própria essência do zoroastrismo, que prega que o mundo inteiro é tão somente o grande palco da luta de duas divindades. Aúra-Masda seria o Deus Bom, e Arimã o Deus Mal. Espera-se, é claro, que o Bem vença esta batalha eterna... Pois bem, e todo esse tempo acreditávamos que o Imperador Constantino havia encontrado no cristianismo o sistema religioso ideal para a manutenção de seu império, quando na verdade ele deveria agradecer mesmo era a Zoroastro [2], e não a Jesus.

Interessante, porém, como mesmo a Bíblia parece ser bem pouco clara em identificar quem seria exatamente esse tal Deus Mal. Dizem que é Lúcifer, um suposto anjo caído, mas não se sabe onde exatamente ele está descrito. “Lúcifer”, termo que significa “o portador de luz”, e na antiguidade era quase que sempre associado ao planeta Vênus [3], parece se referir a uma pessoa diferente cada vez que é citado nas Escrituras: em Isaias (14:12) refere-se a um ambicioso rei babilônico que caiu no mundo dos mortos; no Apocalipse (12:4 e 7-9), um verdadeiro hino pagão, ele é identificado (por seus outros nomes) como um imenso dragão, que lembrava uma serpente gigantesca; já no mesmo Apocalipse (22:16) e em II Pedro (1:19), o termo está se referindo ao próprio Jesus Cristo. Mesmo quando é supostamente citado indiretamente, como em Ezequiel (28), fala sobre um querubim, um anjo que esteve no Éden, mas foi condenado por desafiar a autoridade de Deus (assim como Adão e Eva o desafiaram, aliás).

Vamos simplificar um pouco, senão daremos ainda muitas voltas sem sair do lugar, e essa questão me parece tão simples que uma criança poderia resolvê-la para nós, desde que fosse deixada livre para pensar por si mesma:

O que é o Mal? Agir, por vontade própria, para infligir nos outros algo que não gostaríamos que os outros infligissem em nós.

O que é Deus? O ser ou força primordial que gerou tudo o que existe a partir de si próprio, de modo que, se não existisse Deus, nada mais haveria.

Pode haver outro ser incriado, como Deus? Não, pela lógica só poderá haver um único ser incriado. Se houvesse outro, ou se houvessem mais de um, haveriam de ter sido criados por ainda outro Deus anterior a estes.

Lúcifer é mal, e foi necessariamente criado por Deus. Isso faz de Deus um ser mal? Faria, se Lúcifer fosse mal desde o princípio. Mas ainda podemos resolver a questão considerando que Lúcifer, tal qual o querubim que desafiou Deus, nasceu bom, ou neutro, mas depois tornou-se mal.

Mas então, Lúcifer é eternamente mal? Não, se qualquer ser criado por Deus fosse eternamente condenado a ser mal ou, de fato, eternamente condenado a proceder sempre por um mesmo princípio moral, ainda que bom, isso faria de Deus não um criador de seres, mas de robôs ou fantoches. Como Lúcifer nasceu bom e tornou-se mal, nada impede que ele se arrependa e se torne novamente bom. Conhecemos, pela nossa história, inúmeros exemplos de homens maus que tornaram-se bons (dentre eles o próprio São Paulo, que antes fora Saulo). Se estes podem se arrepender, Lúcifer também pode.

Mas, digamos que Lúcifer até hoje é mal por vontade própria, o que ele pretende conseguir em sua luta contra o Deus Bom? Difícil dizer, mas o que fica óbvio é que Lúcifer não teria nenhum poder sobre Deus, e nenhuma esperança de um dia vencer tal batalha.

Se Lúcifer sabe que jamais poderá vencer, porque ele precisa das almas dos homens? Difícil dizer, mas talvez seja uma forma de aliviar sua insatisfação: já que não pode “evoluir” no mal, trata de trazer para junto de si outros seres, de modo que fiquem estagnados como ele.

E Deus seria um Deus Bom se permitisse tal estagnação, sem proteger os seus da “sedução” de Lúcifer? Obviamente que não. De fato, independente de existir ou não um ser como Lúcifer, por toda a Natureza podemos ver claramente que a estagnação é severamente punida; Não para o mal, mas para o bem dos seres, conforme um remédio amargo... A isto Charles Darwin intitulou “a guerra da fome e da morte”.

***

Eis que todas as guerras do mundo são mesmo uma mesma guerra. Mas não uma guerra religiosa, não uma guerra ideológica, não uma guerra lendária, e nem mesmo uma guerra por riquezas e territórios... Pois que todos os imperadores que marcharam pelo mundo brandindo a bandeira com o símbolo do Senhor dos Exércitos eram apenas cegos um pouco mais elevados que outros cegos, ignorantes pastoreando ignorantes, buscando no horizonte algo que sempre esteve dentro deles mesmos, mas não perceberam, não acordaram e nem tampouco iluminaram suas consciências... Marcharam e dizimaram, e talvez tenham até “convertido” alguém, mas tudo o que conquistaram foi apenas sangue e fumaça.

Mal sabiam eles o quão próximos estiveram, e ainda estão, do Reino que, uma vez conquistado, jamais poderá ser perdido...

» Na parte final, a guerra da alma...

***

[1] Na verdade o zoroastrismo ainda é praticado por cerca de 200 mil pessoas, em sua maioria na Índia e no Irã.

[2] Profeta mítico que criou o zoroastrismo.

[3] Ovídio menciona que cada novo dia começa quando "Lúcifer brilha radiante no céu, chamando a humanidade para seus afazeres diários. Lúcifer excede em brilho as estrelas mais radiantes".

Crédito das imagens: [topo] Iluminura dos irmãos Limbourg, do inicio do século XV (uma das raríssimas representações medievais de Lúcifer ainda enquanto anjo, e que mostra exatamente a sua queda); [ao longo] Lawrence Manning/Corbis

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