19.7.13

Manifestações

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


A primeira manifestação da noite ocorreu dentro do ônibus.

Era um ônibus de integração do metrô carioca. Estávamos parados já há uns 20 minutos na rua em frente ao Jardim Botânico, e eu já havia analisado minuciosamente todos os painéis com fotografias ampliadas da exposição do Sebastião Salgado. Eu via aqueles indígenas em "trajes de festa" e pensava como em muitos pontos o sistema tribal nunca deixou de existir, apenas "evoluiu" e, quem sabe, se corrompeu.

A manifestação do ônibus opôs a tribo dos "classe média com pressa de chegar em casa" a tribo dos "funcionários do metrô que seguem as regras a risca". Geralmente essa tribo "classe média" até gosta muito que outras tribos sigam as regras a risca, mas não poder abrir a porta do ônibus fora do ponto após 20 minutos parados no mesmo lugar já era demais. Vencemos nossa manifestação (afinal, eu era da tribo "classe média" também) e pudemos saltar livres e faceiros para seguir a pé até a Gávea.

A Gávea foi onde cresci, cercado de montanhas e com vista para uma das maiores favelas urbanas do mundo (também conhecida como Comunidade da Rocinha). Segundo algum grande poeta do século passado, "o Céu era ter uma cobertura na Gávea". Eu concordo plenamente, mas dificilmente um dia terei uma, visto que desde que eu era moleque a Gávea passou de um bairro de classe média para um baixo de ricaços. Eu estava, portanto, fora da minha tribo...

No Shopping imponente da Marquês, entrei para tomar um café antes de ir encontrar com uma amiga nas manifestações na porta do prédio onde reside o governador Cabral, no Leblon (o Leblon já há muito tempo é um bairro da tribo dos ricaços; tirando aqueles que ainda residem com os avós, quem sabe). Lá dentro constatei que a conversa dos anciãos da tribo se referia, sobretudo, ao medo "da tribo da Rocinha haver descido"... É que o trânsito estava ainda totalmente parado, e havia boatos de uma "outra manifestação" na frente da Rocinha que estava trancando todas as vias que fluem para a Barra da Tijuca (que é praticamente outro país dentro da cidade do Rio de Janeiro).

Este "medo da descida da favela" tem rondado o imaginário da elite tribal há muitos anos. De fato, nunca ocorreu da maneira que temiam. O máximo que houve foi uma procissão pacífica (de algumas semanas atrás) até a porta do Cabral, e que tampouco recebeu qualquer resposta do governador na época. Mas fato é que alguma "eletricidade urbana" fluía e pairava pelo ar. Alguma espécie de estranhamento e de medo do novo se mesclava ao velho pensamento do "investimento conservador" em se manter tudo do jeito como está para ver como fica. Ocorre que os jovens nunca foram muito adeptos desse tipo de pensamento, e é sobretudo graças a eles que os pensamentos se renovam entre as gerações.

Eu fui caminhando até o Leblon e por muitas vezes agradeci aos céus por não ter um carro.

Chegando perto da praia, me deparei com uma fila indiana de cerca de dez policiais em trajes cinematográficos, que estavam ali parados de pé ao lado de uma árvore, impassíveis e muito sérios. Eu fiquei imaginando o que iria ocorrer mais tarde naquele dia, e também fiquei considerando quais seriam minhas "rotas de fuga" preferíveis se alguma algazarra lacrimogênea fosse eclodida. Aquela rua certamente não seria parte de minha rota... Em todo caso, fiz uma cara de "leitor feliz da Veja" e passei pelos policiais em direção ao mar.

No posto doze, em frente ao prédio do Cabral, encontrei minha amiga e seu namorado, e ficamos observando as projeções de vídeos dos manifestantes na fachada de outro prédio praiano que, convenientemente, era branco. Vimos muitas daquelas máscaras dos quadrinhos do Alan Moore. Não sei se leram, mas o personagem que usa a tal máscara não é exatamente "bonzinho", nem muito menos crê que uma manifestação totalmente pacífica é combustível suficiente para mudanças mais profundas na estrutura política de uma cidade ou país. E aquelas eram máscaras brancas, mas a minha volta eu via seres encapuzados assustadores por si mesmos, com máscaras totalmente negras, com seus sorrisos cromados refletindo a luz das câmeras fotográficas que disparavam sem parar. Era óbvio que estes seriam aqueles que entrariam em conflito com os policiais.

Lá no alto do céu havia dois helicópteros filmando tudo. Em algum canal que nunca desliga, toda a tribo de ricaços e classe média podia assistir a tudo como num filme... Mas havia também os cinegrafistas NINJAs, que filmavam in loco com câmeras de celular e transmitiam tudo ao vivo e online (com visão de videogame). Na internet, todos podiam agora ver o que realmente ocorria nesse tipo de manifestação, sem o "filtro interpretativo" do canal que nunca desliga.

Em dado momento, minha amiga me levou para conhecer a "fronteira" entre os manifestantes e a fila de policiais cinematográficos. Perto das grades reparei que havia uma aglomeração de observadores e repórteres que estavam todos interessados somente nessa área onde as agressões verbais são fartas e o conflito é iminente... Estranho ninguém filmar a gente de todas as tribos e idades (embora majoritariamente jovem, inclusive na alma) que rondavam o local e não estavam tão interessadas em passar horas gritando em frente aos policiais. Estranho ninguém captar o som das músicas animadas e das cirandas que ocorriam a poucos metros dali. Estranho ninguém haver tirado foto das "patricinhas" com suas máscaras de gás de última geração, perfeitamente trajadas para a ocasião (e que pareciam ser rebentas rebeldes das próprias tribos do Leblon).

Quando cansamos fomos beber um chopp no Jobi, que é um bar tradicionalíssimo do quarteirão imediatamente atrás do Cabral. É tanta "tradição" que um copo de chopp chega a custar mais do que uma garrafa de cerveja noutros bairros "menos tradicionais", por isso bebi somente um chopp mesmo... Quando estávamos pensando em voltar a Gávea, vimos os manifestantes numa animada procissão a contornar a esquina, circulando o quarteirão do governador. Não conseguimos resistir aos gritos de "vem para a rua" e os seguimos até o outro lado da barricada formada pela polícia cinematográfica.

Nessas horas as declarações do Eduardo Galeano na praça Catalunya, na Espanha, não saiam da minha mente. De fato, o entusiasmo dos jovens, ver aquele povo "com os deuses adentrados pela alma", era um forma de resgate do estado original da tribo, uma forma de "descorrupção", literalmente.

"Este mundo de merda está grávido de um outro", e somente compreende a verdade de tal declaração quem caminha novamente entre os jovens, seja por fora ou por dentro de si mesmo...

Mas como o namorado da minha amiga era fanático por futebol, fomos até a Gávea ver um jogo pela TV. E assim prosseguiu a minha noite revolucionária até quando, já bem mais trade, sintonizei no canal que nunca desliga e fiquei observando, através do helicóptero, os seres de máscaras negras colocando fogo nas ruas e atirando algumas pedras em algumas vidraças específicas.

Uma tribo disse que são arruaceiros e saqueadores. Outra tribo disse que estavam atacando alvos específicos: o banco que financiou o estádio superfaturado, a grife que usa trabalho "semiescravo" dos bolivianos paulistas, etc. (mas ninguém soube explicar o motivo ideológico de uma loja de bebidas haver sido saqueada). Enquanto discutiam tudo isso, fiquei pensando em como os helicópteros filmavam tudo e transmitiam madrugada adentro, sem nunca deligar, enquanto a política cinematográfica continuava parada no lugar.

Vai ver naquele horário o filme policial já tinha acabado.

Os manifestantes pediam pela dismilitarização da polícia. Eu já seria mais prático, pediria logo pelo fim da cenografia policial, e também da cenografia política do governo do tal Cabral, que até hoje ninguém sabe onde mora exatamente...

***

Crédito da imagem: Google Image Search (Black Bloc)

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Rafael Arrais

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