22.3.15

A quem interessa a polarização entre PT e PSDB?

Parte da série “Entre a esquerda e a direita”, onde Alfredo Carvalho e Igor Teo respondem a uma mesma pergunta (a cada post). Para conhecer mais sobre a proposta da série e seus participantes, não deixe de ler nossa apresentação.

[Raph] A democracia surgiu na Grécia antiga, no século V a.C. Como a própria etimologia do termo sugere, a democracia é uma forma de governo que se propõe a ouvir a voz do povo, da maioria do povo, e não somente de uma elite (seja ela monárquica, aristocrática ou religiosa). Neste sentido, a política nada mais é do que a atividade de tentar criar o melhor consenso possível entre grupos com ideias opostas, através do diálogo, sempre visando o bem da pátria.
Como ideias opostas sempre existirão, a chamada polarização política é não somente inevitável como por vezes bem vinda: quando a política é bem conduzida, novas ideias surgem da faísca do choque entre as pedras. No entanto, há momentos em que a polarização é tão radical que o choque das pedras faz com que tirem lascas umas das outras, sem produzir nada de bom, e paralisando o próprio governo.
Nós já vivemos mais de duas décadas de polarização entre dois partidos, PT e PSDB, e parece que já estamos num estágio de esgotamento. Aparentemente, ninguém quer mais chegar a um consenso, apenas destruir a imagem um do outro, custe o que custar...
Ainda assim, vai eleição e vem eleição, todo o esquema eleitoral, do financiamento as coligações, parece estimular cada vez mais tal cenário, para que siga exatamente como já está posto. É precisamente aqui que coloco a minha última questão: a quem interessa a manutenção desta polarização PT vs. PSDB?

[Teo] Tanto o PT quanto o PSDB possuem uma política mais centralista. Ambos concordam quanto a uma posição de social democracia, e de que as instituições do capitalismo não devem ser revolucionadas, mas transformadas ou melhoradas (dependendo da posição respectiva de cada partido) a partir de reformas graduais através de políticas de Estado. No entanto, ainda que próximos, tais partidos se enviesam em sentidos distintos em suas matrizes ideológicas.

O PSDB faz uma posição de centro tendendo mais para a direita, flertando com ideias neoliberais, como a redução do Estado, a redução das condições de bem-estar social em função do mercado e a privatização de áreas fundamentais à nação. Quanto ao último, pode se questionar como este processo ocorrido no governo PSDB foi permeado por denúncias de corrupção. Entregues à gestão privada, os serviços não melhoraram, seus preços subiram acentuadamente e se traduziram em problemas para o Judiciário. A receita neoliberal, em nome de índices econômicos de fachada e o lucro exorbitante das grandes empresas estrangeiras, deixa por onde passa como rastro o crescimento abismal da desigualdade social.
        
O PT, por sua vez, tem uma posição de centro tendendo para a esquerda. Economicamente assumiu um neodesenvolvimentismo, buscando valorizar a produção nacional e tornar o país menos refém do capital estrangeiro. Associou-se com países latino-americanos de forma a criar um eixo cultural e econômico alternativo ao ditado pela dominação dos países europeus e dos Estados Unidos. Socialmente buscou implementar projetos sociais que visassem à erradicação da miséria. Ainda assim, costuma-se ouvir que o PT traiu a esquerda. Por quê?

Para chegar ao poder o PT associou-se com grupos que são dominantes no país desde a República Velha. A implementação de seus programas sociais foi sempre tacanha, na medida em que não podiam ameaçar completamente os interesses desses grupos. Na luta por direitos os avanços sempre foram lentos demais, e estão ainda longe do que se esperava. Em resumo, pode-se dizer que para chegar ao poder o PT se vendeu ao instituído, fez acordos que para mantê-lo em sua posição o fez refém daqueles que deveriam combater. O PT nunca representou uma ameaça às instituições do capitalismo, e inúmeras vezes jogou muito bem segundo suas regras na promessa de um reformismo tardio.

A resposta à recente crise com austeridade apenas demonstra que Dilma está mais próxima de Margaret Thatcher do que, por exemplo, Rosa Luxemburgo. Isto é muito diferente das tentativas de grupos como o Syriza na Grécia e o Podemos na Espanha que possuem a posição de que não é o povo que deve pagar pela crise dos grandes capitalistas, mas eles próprios.

Por trás desta disputa binária reside ainda o PMDB, o maior partido brasileiro mesmo sem nunca ter elegido nenhum presidente. O PMDB possui alianças extremamente maleáveis segundo seus interesses (na última eleição no Rio de Janeiro, por exemplo, o governador pemedebista apoiou os dois candidatos à presidência simultaneamente no segundo turno). Respondendo mais diretamente à questão principal do Raph, cabe lembrar que quem cresceu com a disputa PT e PSDB nas últimas eleições foi o PMDB, se tornando hoje maioria no Senado. De certo modo, o PMDB está sempre do “lado vencedor” em seu jogo político a favor dos interesses privados que os beneficiam e os financiam no poder.

Nos últimos anos é possível perceber uma crise do centro em se mostrar capaz de lidar com os problemas estruturais ao nosso modelo socioeconômico. A democracia representativa no modelo instituído igualmente vem ganhando descrédito. Deste modo, alas mais radicais de ambos os lados tem crescido. Na direita, vemos o crescimento dos grupos fundamentalistas (como a bancada evangélica) e reacionários (como Bolsonaro e afins). Na esquerda, crescem grupos como o PSOL, que mostram uma saída possível aos nossos problemas institucionais pela esquerda crítica.

Radicalismo por si mesmo não é o problema. Em tempos de uma política centralista que não apresenta nenhuma perspectiva de mudança, colaborando com o instituído, atitudes radicais são o que pode fazer alguma diferença. Mas mesmo em posições radicais, o diálogo é sempre fundamental na medida em que é a partir dele que podemos produzir conscientização e agenciamentos políticos. E justamente diálogo é o que parece faltar a essa direita que luta contra os direitos fundamentais das mulheres, homossexuais, e por ai vai.

Faltam mudanças radicais. Mudanças que afetem à estrutura do poder instituído, sua distribuição e seu modo de reprodução. Pois comumente se fala em combater os males sociais, como a extrema desigualdade social e a corrupção, mas todas as ações se dão em nível superficial. Luta-se com os galhos secos de uma árvore morta, mas não se possui coragem para enfrentá-la pela raiz.

Neste sentido é que necessitamos de reformas estruturais. Reformas que atuem nos problemas estruturais do capitalismo, nos modos como a riqueza é distribuída, nos modos de produção, em seus meios de reprodução. Particularmente, minha visão é de que precisamos de uma esquerda radical (que não é sinônimo de comunismo, vale lembrar) que se oponha à ideologia hegemônica do capital e dialogue com as diferentes camadas sociais, tendo como agenda reformas estruturais. Uma esquerda que não esteja compactuada com o capital. Um posicionamento político que responda aos problemas da democracia não com fascismo, mas com novos modelos de organização social (como a organização social em rede), que visem aprimorar a democracia, e não dissolvê-la.

Hoje se fala da tão necessária reforma política, mas essas não são ideias essencialmente novas. O presidente João Goulart, apoiado por nomes como Leonel Brizola, já tinha na década de 1960 um projeto denominado reformas de base que incluíam reformas bancária, fiscal, urbana (contra a tão atualmente crítica especulação imobiliária), eleitoral, agrária e educacional. Desde a democratização da terra à valorização da educação, as reformas de base tinham como objetivo combater a desigualdade estrutural da sociedade brasileira. Antes de meros paliativos ou políticas populistas que nada alteram a hierarquia nacional, reafirmando apenas as relações de poder instituídas, as reformas de base miravam nos pontos cruciais e estruturais que determinam até hoje nossos problemas mais críticos.

Entretanto, tais medidas incomodavam à elite dominante e, apoiados pelos Estados Unidos, que viam no Brasil mais um de seus quintais, as camadas conservadoras instituíram o Golpe Militar em 1964 usando como desculpa a falsa e fajuta “ameaça comunista”, dando início a um período de sangrenta opressão, cujas consequências nefastas são sentidas até hoje, sobretudo na precarização da educação. Talvez se as reformas tivessem ocorrido, uma trajetória menos trágica existiria atrás de nós hoje.

Deste modo, assim como já começa a se desenhar na Grécia, e que se tentará estender também à Espanha, Portugal e recentemente Irlanda, apenas corajosas reformas estruturais podem mudar os rumos desse jogo viciado.

[Carvalho] Partindo de uma análise histórica das diversas experiências democráticas, em especial as mais recentes, amadurecidas e consolidadas no formato representativo, muitos filósofos e cientistas políticos tendem a concordar que o fenômeno da polarização entre alguns poucos partidos, geralmente dois, é recorrente e até mesmo necessário para o adequado funcionamento das modernas repúblicas constitucionais. Isso equivale a dizer que quando não há a disputa entre pelo menos duas forças políticas de interesses contrários, não há democracia, ou há apenas uma democracia doente.

Evidentemente, essa não é a única condição para manter a vitalidade democrática de uma nação. Existem mais elementos, tais como o império da lei, a separação entre os poderes, a liberdade de imprensa, e diversos outros. Cada um deles exercendo um papel específico e importante para o quadro geral. Basta retirar qualquer um e o edifício democrático logo começa a dar sinais de ruína. É mesmo uma harmonia delicada, de modo que o filósofo Olavo de Carvalho, para citar um exemplo, define a “democracia saudável” como “a administração bem sucedida de um conflito insolúvel, destinado a perpetuar-se entre crises e não a produzir a vitória definitiva de uma das facções”. E continua dizendo que “desde o início, a democracia tem encontrado no equilíbrio instável a regra máxima do seu bom funcionamento”.

O grande problema é que o mundo real é sempre mais complexo do que se espera. Assim, nos casos concretos, nas democracias “de carne e osso”, embora o conflito entre diferentes forças políticas sempre exista em algum nível, a forma como ele se dá nem sempre é compatível com o que prescrevem os teóricos e analistas da democracia. A experiência democrática que vivemos no Brasil desde meados da década de 1980 padece desse tipo de mal desde a sua criação, mas com duas fases bastante distintas: uma com a hegemonia do PMDB, quando as forças políticas mais relevantes coabitavam ou orbitavam o mesmo partido, mesmo com ideologias ou interesses conflituosos; e a outra com a polarização “para inglês ver” entre PT e PSDB.

A primeira fase representa o surgimento de um mecanismo que o professor Marcos Nobre chamou de peemedebismo, o qual ele descreve da seguinte maneira: “É um modo de fazer política que franqueia entrada no partido a quem assim o deseje. Pretende, no limite, engolir e administrar todos os interesses e ideias presentes na sociedade. Em segundo lugar, garante a quem entrar que, caso consiga se organizar como grupo de pressão, ganhará o direito de vetar qualquer deliberação ou decisão que diga respeito a seus interesses. Foi assim que o PMDB se organizou a partir da década de 80. Como se o partido fosse, em si mesmo, um governo de união nacional”.

Resumida dessa forma, como se pode perceber, a tese é bastante interessante e sua ideia central me parece acertada. Isso não quer dizer, entretanto, que os detalhes do diagnóstico, do prognóstico e tampouco da terapia indicados pelo filósofo sejam consistentes. Ele insiste, por exemplo, na capciosa retórica esquerdista de aplicar o rótulo de “conservador” a tudo e todos que ofereçam resistências às propostas de transformação defendidas por ele próprio, aproveitando-se da confusão comum que se faz entre as acepções política e vulgar do termo. Mas não se pode negar, enfim, que, embora o fenômeno não seja tão maquiavélico quanto Nobre o pinta, o peemedebismo percebido por ele parece ser mesmo uma realidade e um defeito da política brasileira, no sentido de fechá-la em si mesma, relegando os atritos democráticos ao submundo.

A segunda fase, conquanto não tenha suplantado em definitivo a influência de fundo da primeira, começou, curiosamente, durante o mandato do então peemedebista Itamar Franco e tem como marco inaugural a implantação do Plano Real, sob os cuidados do ministro Fernando Henrique Cardoso, que na sequência viria a vencer as eleições presidenciais. Naquele momento foi inaugurada a polarização entre PT e PSDB, que predomina entre altos e baixos em todas as eleições presidenciais desde 1994.

Ao contrário do que acontecia antes, com o sufocamento das controvérsias no interior de um único partido hegemônico, o problema passou a ser o banimento das controvérsias relevantes para fora do ringue político, por meio do destaque de apenas dois partidos cujas divergências eram, e ainda são, apenas secundárias ou circunstanciais. Como bem disse o ex-presidente FHC, em 2004, em uma interessante entrevista concedida ao então senador do PT, Cristovam Buarque, “nós não discutimos nem disputamos ideologia, é poder, é quem comanda”. Ao que foi complementado por Buarque, “antigamente a gente brigava para a ideia da gente prevalecer; agora a gente briga para que o outro não seja dono da ideia da gente”.

PT e PSDB são ambos partidos “de esquerda”, sendo o primeiro um pouco mais estatista e controlador que o segundo. A retórica dos partidos socialistas mais radicais – como PSOL, PCdoB, PSTU e PCO – segundo a qual, “na verdade”, aqueles seriam “de direita”, não passa de mais uma balela na farsa democrática que vivemos há tantas décadas. Ora, se as concessões que esses dois partidos fizeram ao capitalismo significassem algum tipo de “direitice”, teríamos que colocar até Lênin e o Partido Bolchevique no mesmo saco, o que é, evidentemente, um disparate. O PT, aliás, com a sua versão “made in Cuba” da Terceira Internacional – cujos partidos membros atualmente governam 17 dos 21 países da América Latina – tem feito um lento mas eficientíssimo trabalho de consolidação da hegemonia esquerdista em todo o nosso continente. No fim das contas, portanto, a resposta não poderia ser outra, quem ganha com a polarização mequetrefe da nossa política nos últimos vinte anos é, sem sombra de dúvida, a esquerda, em especial, infelizmente, a sua vertente de tendências totalitárias.

***

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Esta foi a sexta e última pergunta desta série. Agradeço mais uma vez aos participantes pela generosidade e o entusiasmo com que responderam questões marcadamente complexas. Quando esta série voltar a aparecer aqui no blog, será com os meus comentários gerais acerca de boa parte da gama de assuntos abordados... Até lá! (Raph)

Crédito das imagens: Guilherme Bandeira

O debate continua nos comentários, não deixem de acompanhar.

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19.3.15

A educação de Casanova, parte final

Texto recomendado para maiores de 16 anos.

« continuando da parte 9


10.

Quando se está a deriva em águas profundas, nunca se sabe até onde as correntes marinhas podem nos levar. Eu tentei nadar em direção a Janaína, mas subitamente percebi, enroscadas em meus tornozelos, as amarras que me atavam as profundezas. Neste momento tive medo, muito medo, mas criei coragem e olhei uma vez mais em direção à superfície, onde minha amada já desaparecia junto com os últimos reflexos da lua. Não sei bem como, mas mesmo lá no fundo, gritei com toda a vontade do meu pensamento:

“Meu amor, me ajude!”

E percebi, deslizando pelas águas fundas, um estranho brilho reluzente de alguma espécie de lâmina... Mas isto foi só por um breve momento, depois fui tragado pelas profundezas...

Lá no fundo, escuro como a noite eterna, vislumbrei e relembrei não somente quem havia sido, mas todos os homens que fui, desde antes das civilizações mais antigas de que a história já teve notícia.

Me vi como uma espécie de símio que ainda mal conseguia se colocar de pé. Meu plano de visão era totalmente terrestre, e eu ainda tinha de caçar os animais, ainda tinha de me alimentar de carne crua e cheia de sangue...Como podíamos viver sem contemplar as estrelas? Como sobrevivemos a tudo isso? Como, mesmo após tanto tempo, ainda aceitamos em nós alguns destes ecos animalescos do passado?

Ainda assim, em meio a tanto sangue e violência bestial, pude vislumbrar o despertar inesquecível do amor, da divina putaria... Pude ver como guardava a melhor parte da caçada para ofertar a uma fêmea ancestral. Pude ver como aquele jogo todo garantia que toda uma espécie pudesse não somente sobreviver num mundo selvagem, como lentamente, bem lentamente, aprender a caminhar de pé, e ver o céu, o sol, a lua, e todas, todas as estrelas da noite sem fim!

E subitamente, ao compreender como uma lótus tão bela podia nascer de um lamaçal tão denso, abri os olhos e percebi os parcos reflexos na lâmina cravada no fundo do mar. Aquela espada estranha era o presente de Janaína, mas a luz que conseguia adentrar tamanha profundidade era o presente do sol. Me senti seguro e reconfortado, mesmo indo tão fundo em mim – não há nada mais fundo do que Deus.

Criei forças para apanhar a lâmina, e com ela dilacerei todas as amarras que me prendiam ao passado. E, ao finalmente me livrar delas, tive uma clara revelação de tudo o quanto foi amor, e tudo o quanto foi bestialidade, não só na minha história, como em toda a história humana. Mas então já não sabia mais quem eu era, “Casanova” era agora tão somente um nome, uma casca que se desprendeu de algo muito maior, maior do que o mundo, maior do que qualquer coisa que alguém já pensou, imaginou ou calculou... A imagem daquilo que é lembrado para sempre, o eixo no qual gira tudo o que é, foi ou será...

Como um herói épico renascido, um mito renovado, nadei para a superfície do oceano, e me ancorei novamente no Campo do Leblon. Aquela praia continuava sendo a mesma, como qualquer outra praia do mundo, mas agora eu já não era o mesmo, agora eu enxergava as coisas como são.

Vinha nascendo a manhã, e Janaína havia desparecido por completo. Pouco importa, eu tinha todo o tempo do mundo para reencontrá-la... Finquei sua espada na areia (talvez alguém mais venha a precisar dela) e me sentei para observar o movimento do Cosmos:

Na beirinha, algumas crianças brincavam de construir castelos de areia e colecionar conchas. Os pescadores já vinham com suas redes e suas jangadas, apressados, mas a gurizada criava seus próprios barquinhos com as folhas secas que trouxeram das florestas.

Os pescadores arremessavam suas redes e conseguiam alguns peixes. Os barquinhos eram esfacelados pelas ondas, assim como os castelos... Mas as crianças não se importavam, elas já tinham inventado outras brincadeiras há essa altura.

Quanto milagre para um dia!

De fato, à partir daquele dia, não se passou um só momento em que não me sentisse profundamente excitado pelo simples fato de o vento passar, e as relvas farfalharem, e eu poder escutar a brisa, e sentir toda essa dança de vida que a grama faz.

Assim, nesta tranquilidade que se basta em si mesma, lembrei do que Dunia havia me segredado aos ouvidos, e que lhes disse que não poderia falar... Bem, agora eu posso, agora esta história está no fim, e não sou mais responsável por ela. Eis o segredo:

“Ninguém é capaz de gozar de olhos abertos.”

 

FIM

 

***

Esta foi a décima e última parte de A educação de Casanova, por raph em 2015.
Comece a ler do início


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13.3.15

O Amor segundo Gibran

O sujeito à esquerda da imagem acima se chama Gibran Khalil Gibran (apenas Gibran para os íntimos) e é um dos maiores poetas-filósofos de todos os tempos. Uma estrela cadente que habitou nosso mundo entre o fim do século 19 e o início do 20, tendo descido através do Líbano e eventualmente cintilado por todo o mundo, do Oriente ao Ocidente. Eu tive o enorme prazer de traduzir a sua obra-prima, O Profeta, da qual lhes trago abaixo o trecho onde ele fala sobre o Amor:

ENTÃO, disse Almitra, “nos fale do Amor”.
E ele ergueu a cabeça e observou a multidão, e uma quietude recaiu sobre todos. Com uma voz forte, ele lhes disse:

“Quando o amor lhes acenar, sigam-no,
Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados.
E quando suas asas lhe envolverem, aceitem-nas,
Embora a espada oculta em suas plumas possa lhes ferir.
E quando ele lhes falar, acreditem no que diz,
Embora sua voz possa despedaçar os seus sonhos como o vento do norte devasta ao jardim.

Pois assim como o amor os coroa, ele também os crucifica.
E da mesma forma que auxilia em seu crescimento, trabalha também para a sua poda.
E assim como ascende a sua altura e acaricia os seus ramos mais tenros que se agitam ao sol,
Também desce até suas raízes e as sacode em seu apego a terra.

Como feixes de trigo, ele os aperta junto a si.
Ele os debulha para expor-lhes a nudez.
Ele os peneira para livrar-lhes das suas cascas.
Ele os mói até a extrema brancura.
Ele os amassa até que se tornem maleáveis.
Então ele os encaminha ao fogo sagrado, para que possam se tornar o pão místico do banquete divino.

Todas essas coisas o amor irá operar em seu interior para que conheçam aos segredos de seus próprios corações, e através deste conhecimento se tornem um fragmento do coração da Vida.

Entretanto, acaso em seu medo vocês buscarem apenas a paz e o prazer do amor, então será melhor que cubram a sua nudez e abandonem ao açoite do amor;
Para que deem risadas num mundo sem estações, mas nem todos os seus risos;
E chorem, mas nem todas as suas lágrimas.

O amor nada oferece além de si mesmo e nada recebe além de si mesmo.
O amor não possui, e tampouco pode ser possuído;
Pois o amor se basta em si mesmo.

Quando você ama não deveria dizer, “Deus está em meu coração”, mas sim, “Eu estou no coração de Deus”.

E não pensem que podem direcionar o curso do amor, pois o amor, se lhes acharem dignos, determinará ele próprio o seu curso.

O amor não tem outro desejo senão o de cumprir a si mesmo.
Entretanto, acaso em seu amor precisarem ter desejos, que sejam estes os seus desejos:

De se diluírem e serem como um córrego que canta a sua melodia para a noitinha.
De conhecerem a dor da extrema sensibilidade.
De se ferirem por sua própria compreensão do amor.
E de sangrarem de boa vontade e com alegria.
De acordarem na aurora com um coração alado e agradecerem por um novo dia de amor;
De descansarem ao meio-dia e meditarem acerca do êxtase do amor;
De retornarem para casa a tardinha com gratidão;
E então, de adormecerem com uma prece para o amado em seus corações, e uma canção de louvor em seus lábios.”

***

Se acaso estas lascas de estrelas, estas cascas de sentimento profundo, lhes tocaram de alguma forma ao coração, eu lhes convido a conhecer a mulher a direita da imagem, Lucia Helena Galvão, uma poetisa aqui mesmo de nossas terras, aqui mesmo de nosso século, que possui em sua alma uma rara e distinta compreensão do sentido mais oculto e sagrado das palavras de Gibran.

Na cerca de uma hora do vídeo abaixo, ela irá lhes trazer reflexões profundas sobre cada trecho do poema acima [1], e muito mais... Vale assistir com o espelho do coração voltado para o alto:

Obs.: Para quem está com alguma pressa ou não tem muita paciência para introduções, ela só começa a analisar efetivamente os trechos do livro em 13:10.

***

» A quem interessar, minha tradução de O Profeta se encontra à venda na Amazon, Kobo e outras lojas, como e-book.

» Conheçam também a Nova Acrópole Brasil.

[1] A tradução do livro utilizada no vídeo é a mais reconhecida no país, de Mansour Chalita. Embora seja superior à minha, ainda se vale de um estilo de linguagem antigo, que tentei atualizar na minha versão.

Crédito das imagens: Google Image Search/Divulgação

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9.3.15

Os significados ocultos no Yin-Yang

Oh, como é puro e tranquilo o Caminho,
pode ser que continue para além do Céu!
Não sei de quem possa ser filho,
pode ser anterior ao próprio Imperador de Jade
(Tao Te Ching, IV)

O Imperador de Jade, na mitologia chinesa, governa o céu e toda a existência abaixo dele, sendo o equivalente de um "deus criador primordial" das mitologias ocidentais, como Gaia [1] ou Javé. Quando o Tao Te Ching afirma que o Tao, ou o Caminho, pode ser anterior a tal divindade, ele estabelece com grande propriedade o quão misterioso e oculto é o Tao.

O Tao, conceito central do taoismo, não é só um caminho físico e espiritual; ele também é identificado com o Absoluto que, por divisão, gerou os opostos/complementares yin e yang, a partir dos quais todas "as dez mil coisas" que existem no universo foram criadas. Isto quer dizer exatamente o que parece: o Tao é o Tudo, pois é precisamente este o significado de "as dez mil coisas" no taoismo, isto é, Tudo o que existe.

Há muitos filósofos ocidentais que tentaram abordar este conceito de Tudo. Espinosa, talvez o mais bem sucedido, o chamou de "a substância que não poderia haver criado a si mesma". No taoismo usualmente o Tao/Tudo é abordado de forma indireta, precisamente através dos conceitos de yin e de yang.

Segundo a ideia que engloba tanto yin quanto yang, cada ser, objeto ou pensamento possui um complemento do qual depende para a sua existência, e esse complemento também existe dentro de si. Dessa forma se deduz que nada existe no estado puro: nem na atividade absoluta, nem na passividade absoluta, mas sim em transformação contínua. Além disso, qualquer ideia pode ser vista como seu oposto quando visualizada a partir de outro ponto de vista. Neste sentido, toda a categorização seria apenas uma conveniência da lógica.

Em suma, yin e yang seriam a fase seguinte do Tao, princípio gerador de todas as coisas, de onde surgem e para onde se destinam... Parece complexo abordar tal assunto de forma puramente racional não? Em realidade todos estes conceitos, Tao, yin e yang, costumam ser melhor compreendidos por nossa intuição do que por nossa razão. Eles dizem respeito a alma de todas as coisas, e não as coisas em si.

No vídeo abaixo, uma animação retirada da palestra do educador John Bellaimey para o TED, temos mais uma tentativa de explicar os significados ocultos de yin e yang. Se possível, assista esses 4 minutos com a mente relaxada, para que sua intuição possa aflorar:

***

[1] Há uma correlação possível entre o Caos da mitologia grega e o Tao. Gaia é filha de Caos, assim como yin ou yang são "filhos" do Tao.

Crédito da imagem: Google Image Search

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4.3.15

O deus de Schopenhauer

Trechos de Arthur Schopenhauer em O mundo como vontade e representação (cap. 34) (Contraponto). Tradução de M. F. Sá Correia. Os comentários ao final são meus.

Nota: Para aqueles que não são familiarizados com a obra de Schopenhauer, recomendamos a leitura do artigo O ornitólogo confuso antes de darem prosseguimento a leitura deste post...

Quando, elevando-se pela força da inteligência, se renuncia a considerar as coisas do modo vulgar; quando se deixa de procurar (à luz das diferentes expressões do princípio da razão) apenas as relações dos objetos entre si, relações que se reduzem sempre, em última análise, à relação dos objetos com nossa própria vontade, isto é, quando já não se considera nem o lugar, nem o tempo, nem o porquê, nem o para que das coisas, mas única e simplesmente sua natureza; quando, além disso, já não se permite nem ao pensamento abstrato, nem aos princípios da razão ocupar a consciência mas, em vez de tudo isto, se dirige todo o poder do espírito para a intuição; quando aí nos submergimos inteiramente e se enche toda a consciência com a contemplação tranquila de um objeto natural atualmente presente: paisagem, árvore, rochedo, edifício ou qualquer outro; ora, desde o momento em que nos perdemos neste objeto, como dizem com profundidade os alemães, isto é, desde o momento em que nos esquecemos da nossa individualidade, da nossa vontade e só subsistimos como puro sujeito, como claro espelho do objeto, de tal modo que tudo se passa como se só tal objeto existisse, sem ninguém que o percebesse, ou seja: que fosse impossível distinguir o sujeito da própria intuição e que ambos se confundissem numa único ser, numa única consciência inteiramente ocupada e preenchida por uma visão única e intuitiva; quando, enfim, o objeto se liberta de toda relação com o que não é ele, e o sujeito, de toda a relação com a [própria] vontade, então, aquilo que é conhecido deste modo já não é a coisa particular enquanto particular, mas a ideia, a forma eterna, a objetividade imediata da vontade [natural].

Neste grau, por conseguinte, aquele que é arrebatado nesta contemplação já não é um indivíduo (visto que o indivíduo se aniquilou nesta mesma contemplação), mas o sujeito que conhece, puro, liberto da [sua] vontade, da dor e do tempo. Esta preposição que parece surpreendente confirma, sabe-se muito bem, o aforismo que provém de Thomas Payne: “Do sublime ao ridículo há apenas um passo”; mas, graças ao que se segue, ela vai-se tornar mais clara e parecer menos estranha.

Era também isso que, pouco a pouco, [Benedito] Espinosa descobria, quando escrevia: “A mente é eterna, visto que concebe os fatos sob a forma de eternidade” (Ética, 5, prop. 31, escólio).

[...] O indivíduo que conhece, considerado como tal, e a coisa particular conhecida por ele estão sempre situados em pontos definidos do espaço e da duração [do tempo]; são elos das cadeias de causas e efeitos. O puro sujeito que conhece e o seu correlativo, a ideia, estão libertos de todas estas formas do princípio da razão: o tempo, o lugar, o indivíduo que conhece e aquele que é conhecido não significam nada para eles.

É apenas quando o indivíduo que conhece se eleva da maneira acima mencionada, se transforma em sujeito que conhece e transforma por este fato o objeto considerado como representação, [e este lhe] aparece puro e inteiro, é então, apenas, que se produz a perfeita objetivação da vontade [natural], visto que a ideia é apenas a sua objetividade adequada.

Esta resume em si, e na mesma qualidade, objeto e sujeito (visto que eles constituem a sua forma única); mas ela mantém entre eles um perfeito equilíbrio: por um lado, com efeito, o objeto é apenas a representação do sujeito; por outro lado, o sujeito que se esgota [ou se dissolve] no objeto da intuição torna-se esse mesmo objeto, atendendo a que a consciência é, daqui para a frente, a mais clara imagem dele. Este consciência constitui, para falar com propriedade, a totalidade do mundo considerado como representação.

[...] Do mesmo modo que na ideia, quando ela aparece, o sujeito e o objeto são inseparáveis, visto que é preenchendo-se com uma igual perfeição um ao outro que eles fazem nascer a ideia, a objetividade adequada da vontade, o mundo considerado como representação; também, do mesmo modo, no conhecimento particular, o indivíduo que conhece e o indivíduo conhecido permanecem inseparáveis, enquanto coisas em si, visto que se fizermos a abstração completa do mundo considerado verdadeiramente como representação, não nos resta mais nada a não ser o mundo considerado como vontade; a vontade [natural] constitui o “em si” da ideia, a qual é a objetividade perfeita da vontade; a vontade constitui do mesmo modo o “em si” da coisa particular e do indivíduo que a conhece, os quais são apenas a objetividade imperfeita da vontade.

Considerada como vontade [natural], independente da representação e de todas as suas formas, a vontade é uma só e idêntica no objeto contemplado e no indivíduo que ao elevar-se a esta contemplação toma consciência de si mesmo como puro sujeito; ambos, por conseguinte, se confundem, visto que eles são, em si, apenas a vontade [natural] que se conhece a si mesma; quanto à pluralidade e à diferenciação, elas só existem a título de modalidades do conhecimento, isto é, apenas no fenômeno e em virtude da sua forma, no princípio da razão.

Do mesmo modo que sem objeto nem representação não sou sujeito que conhece, mas simples vontade cega, também sem mim, sem sujeito que conhece, a coisa conhecida não pode ser objeto e permanece simples vontade, esforço cego. Esta vontade é, em si, isto é, fora da representação, uma só e idêntica a minha: é apenas no mundo considerado como representação, submetido, em todo caso, à sua forma mais geral que é a distinção do sujeito e do objeto, é somente no mundo assim considerado que se opera a distinção entre o indivíduo conhecido e o indivíduo que conhece.

Uma vez que se suprime o conhecimento, o mundo considerado como representação, não resta em definitivo mais do que simples vontade, esforço cego. Se a vontade se objetiva e se torna representação, ela coloca imediatamente o sujeito e o objeto; se, além disso, esta objetividade se torna uma pura e perfeita objetividade da vontade, ela coloca o objeto como ideia, liberto das formas do princípio da razão. Ela coloca o sujeito como puro sujeito que conhece liberto da sua individualidade e da sua servidão diante da vontade.

Absorvamo-nos, portanto, e mergulhemos na contemplação da natureza, tão profundamente que já só existamos como puro sujeito que conhece: sentiremos imediatamente por isso mesmo que somos, nessa qualidade, a condição, por assim dizer, o suporte do mundo e de toda a existência objetiva, visto que a existência objetiva só se apresenta, a partir de agora, a título de correlativo de nossa própria existência. Puxamos assim toda a natureza para nós, tão bem que ela já nos parece ser um acidente da nossa substância. É neste sentido que [Lorde] Byron diz:

Montanhas, ondas e céu, não serão uma parte de mim mesmo, uma parte da minha alma? Não serei eu, eu também, uma parte de tudo isso?
(Childe Harold, 3, 75)

E, como poderia aquele que sente tudo isso crer-se absolutamente mortal, em contradição com a natureza imortal? Não; mas ele será vivamente penetrado por essa palavra dos Upanixades, nos Vedas:

Eu sou todas as criaturas como um todo, e fora de mim não existe nenhum outro ser.
(Upanixades, 1, 122)

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Comentário
E ainda lhe chamam de “filósofo do pessimismo”... Ora, este que foi um dos raríssimos a quem Nietzsche chamou de mestre, grande filósofo alemão, nada mais fez do que uma leitura ocidental dos textos ancestrais da antiga Índia. O pensamento de Schopenhauer está muito acima da mera filosofia, ele se encontra até hoje ancorado em algo eterno, mas a Academia reluta em admitir a profundidade do seu misticismo – talvez por simplesmente não o haver compreendido.
Assim como Espinosa, que chegou a compreensão de que “uma substância não pode criar a si mesma”, e assim como tantos outros antes dele, Schopenhauer se deu conta de uma ideia muito simples: não existe nada fora de Deus.
Ocorre que “Deus” é ainda somente uma palavra, e palavras nada mais são do que cascas de sentimento. De nada adianta ler o filósofo alemão de forma acadêmica, é preciso uma certa poesia no olhar e na leitura, é preciso ir além das cascas das palavras. O que quer que seja que cada um compreende por “Deus”, fato é que somos todos formados por sua substância. Seja tal substância a poeira estelar que forma nosso corpo, ou elementos mais etéreos e fugidios, como o próprio pensamento, fato é que o mundo de Schopenhauer se reduz a vontade e a representação, e se disto não decorre um entendimento exato da “substância em si”, talvez tenhamos de abandonar por um momento a nossa razão, e deixar que nossa mente “se eleve pela força da inteligência, e renuncie a considerar as coisas de modo vulgar” (e, ainda aqui, ele está citando os Vedas).
Assim, quem sabe, talvez possamos quebrar um pequeno graveto de madeira, levantar uma pedra do chão, e sentir, vividamente, que também somos parte de tudo o que há. Não existe absolutamente nenhum “pessimismo” em se pensar assim. Ou melhor, talvez seja mesmo necessário o pessimismo do ego, para que o otimismo da alma possa vir, finalmente, à tona...

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Crédito da imagem: Google Image Search/SmsRead

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Rafael Arrais

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