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27.9.16

Existem os anjos?

Não sei se os anjos existem,
mas sei que há mundos sem fim,
estrelas incontestáveis
a salpicar a noite –
não desejariam tantas e tão belas
serem admiradas por nós
aqui embaixo?

Não foi sua luz criada
para ser contemplada?
Para guiar os girassóis,
aquecer os corações
e reger as primaveras?

E estes pássaros
que vêm bailar pelo bosque,
e anunciar a nova manhã
em pios melodiosos,
seriam eles tão belos,
seriam eles tão pássaros,
seria, enfim, a natureza tão natureza
sem nós aqui
a observar tamanha imensidão?

Não sei se os anjos existem,
mas sei que mesmo aqui embaixo,
nesse mundo de chumbo,
ainda estamos ao alcance das estrelas,
e sua luz ainda nos acaricia,
e sussurra em nossos ouvidos
canções mudas e eternas
na linguagem da alma...

E, se tal idioma existe,
é provável que os anjos filólogos
estejam somente esperando
que nós nos tornemos
literatos do coração:

“Olá meu irmão, minha irmã,
olá andarilhos dos reinos de baixo,
hoje vocês já sabem nossa língua,
hoje já posso lhes falar sobre os mistérios
e as maravilhas infindáveis
que nós voadores catalogamos
nos mundos de cima”


raph'16

***

Crédito da imagem: Google Image Search/Den Belitsky

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20.9.16

Palestra: Poetas da Alma

Depois de muita insistência de amigos de todos os cantos, eu finalmente vou dar a minha primeira palestra pública...

O título será Poetas da Alma, e embora todos os verdadeiros poetas sejam naturalmente poetas da alma, darei um destaque maior a história e a poesia dos meus quatro preferidos: Fernando Pessoa, Khalil Gibran, Rabindranath Tagore e Jalal ud-Din Rumi. Para quem já acompanha este blog há tempos, eles já devem ser velhos conhecidos. Para quem não acompanha, será uma grande oportunidade de conhecer poetas grandiosos.

O local será em Campo Grande/MS, onde moro, num espaço espiritualista recém-inaugurado chamado SuryAmar. Para quem não puder ir, prometo que irei compartilhar todos os slides usados na palestra, mas ainda não posso confirmar se ela será filmada. Vejam as informações completas do evento abaixo:


Poetas da Alma, com Rafael Arrais
Seja você a poesia do Natal de uma criança

Dia 09 de Dezembro de 2016, das 19 às 21h
SuryAmar Espaço Integral do Ser
Rua Enoch Vieira de Almeida, 149 | Campo Grande/MS
Inscrições: (67) 99223.8570  

O valor do convite é a doação de 2 brinquedos para ambos os sexos que serão doados para caridade.


Vejam uma amostra dos primeiros slides da palestra

 

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14.9.16

Os domingos precisam de feriados

Texto por Nilton Bonder, rabino e escritor. Os comentários ao final são meus.

Toda sexta-feira à noite começa o shabat para a tradição judaica. Shabat é o conceito que propõe descanso ao final do ciclo semanal de produção, inspirado no descanso divino, no sétimo dia da Criação. Muito além de uma proposta trabalhista, entendemos a pausa como fundamental para a saúde de tudo o que é vivo. A noite é pausa, o inverno é pausa, mesmo a morte é pausa. Onde não há pausa, a vida lentamente se extingue.

Para um mundo no qual funcionar 24 horas por dia parece não ser suficiente, onde o meio ambiente e a terra imploram por uma folga, onde nós mesmos não suportamos mais a falta de tempo, descansar se torna uma necessidade do planeta. Hoje, o tempo de ‘pausa’ é preenchido por diversão e alienação. Lazer não é feito de descanso, mas de ocupações ‘para não nos ocuparmos’. A própria palavra entretenimento indica o desejo de não parar. E a incapacidade de parar é uma forma de depressão. O mundo está deprimido e a indústria do entretenimento cresce nessas condições. Nossas cidades se parecem cada vez mais com a Disneylândia. Longas filas para aproveitar experiências pouco interativas. Fim de dia com gosto de vazio. Um divertido que não é nem bom nem ruim. Dia pronto para ser esquecido, não fossem as fotos e a memória de uma expectativa frustrada que ninguém revela para não dar o gostinho ao próximo.

Entramos no milênio num mundo que é um grande shopping. A Internet e a televisão não dormem. Não há mais insônia solitária; solitário é quem dorme. As bolsas do Ocidente e do Oriente se revezam fazendo do ganhar e perder, das informações e dos rumores, atividade incessante. A CNN inventou um tempo linear que só pode parar no fim. Mas as paradas estão por toda a caminhada e por todo o processo. Sem acostamento, a vida parece fluir mais rápida e eficiente, mas ao custo fóbico de uma paisagem que passa. O futuro é tão rápido que se confunde com o presente. As montanhas estão com olheiras, os rios precisam de um bom banho, as cidades de uma cochilada, o mar de umas férias, o domingo de um feriado.

Nossos namorados querem ‘ficar’, trocando o ‘ser’ pelo ‘estar’. Saímos da escravidão do século XIX para o leasing do século XXI – um dia seremos nossos? Quem tem tempo não é sério, quem não tem tempo é importante. Nunca fizemos tanto e realizamos tão pouco. Nunca tantos fizeram tanto por tão poucos.

Parar não é interromper. Muitas vezes continuar é que é uma interrupção. O dia de não trabalhar não é o dia de se distrair – literalmente, ficar desatento. É um dia de atenção, de ser atencioso consigo e com sua vida. A pergunta que as pessoas se fazem no descanso é ‘o que vamos fazer hoje?’ – já marcada pela ansiedade. E sonhamos com uma longevidade de 120 anos, quando não sabemos o que fazer numa tarde de domingo.

Quem ganha tempo, por definição, perde. Quem mata tempo, fere-se mortalmente. É este o grande ‘radical livre’ que envelhece nossa alegria – o sonho de fazer do tempo uma mercadoria. Em tempos de novo milênio, vamos resgatar coisas que são milenares. A pausa é que traz a surpresa e não o que vem depois. A pausa é que dá sentido à caminhada. A prática espiritual deste milênio será viver as pausas. Não haverá maior sábio do que aquele que souber quando algo terminou e quando algo vai começar. Afinal, por que o Criador descansou? Talvez porque, mais difícil do que iniciar um processo do nada, seja dá-lo como concluído.


Comentários
Quando o tempo é compreendido como dinheiro, todo o tempo, a própria vida se torna um trabalho sem fim, isto é, um trabalho escravo. E o pior de tudo é que, quando estamos profundamente seduzidos por tal ideia, somos o escravo ideal: aquele que se apraz com sua escravidão, e até mesmo a glorifica.

Isso nada tem a ver com falta de disciplina. É perfeitamente possível ser disciplinado no trabalho e no lazer. É perfeitamente possível organizar o dia a dia ao ponto de valorizar mais o lazer que o trabalho, de modo a ser o mais produtivo possível no menor número de horas. Na Escandinávia já estão se voltando para uma jornada de 6h diárias de trabalho, com aumento de produtividade. Não à toa, eles são o primeiro mundo do primeiro mundo.

E faz todo sentido: o que valoriza o seu trabalho, para além de se amar o que faz (o que nem sempre é possível, ao menos não 100% do tempo), é exatamente o que ele lhe proporciona de lazer. E lazer não é gastar o tempo com entretenimento ou consumismo desenfreado. Lazer, de verdade, é poder contemplar a imensidão do mundo, é poder usar um dia todo para não fazer absolutamente nada. Nada além de estar aqui, vivo, existindo. Lazer, enfim, é viver o tempo, e não gastá-lo.

Os índios já sabiam disso, talvez por isso eles falem que o mal do homem moderno é o seu grande esquecimento. Para a alma, afinal, só existe o agora. E, para quem acha que tempo é dinheiro, esse agora se torna uma mercadoria além de qualquer possibilidade de aquisição.

***

Crédito da foto: Steve McCurry (Rio de Janeiro visto de Niterói)

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