22.4.14

Chesed shebe Geburah

Neste momento
há um ladrão de sonhos
sendo adorado
por uma legião de temerosos.

Neste momento
há um grande amante
sendo acusado de inúmeros adultérios
ao largo das igrejas.

Neste momento
há um porta-voz do apocalipse
ofertando terrenos no Paraíso,
em troca da esperança
de que este mundo
tome rumo...


Nós temos visto
inúmeros templos serem construídos
em meio aos desertos.
Por que não no sopé dos montes?
Ou nos oásis
e litorais ensolarados?

Pois é no deserto que há sofrimento,
dor, injúria e desejo desenfreado;
e é neste batismo seco
que todos os julgamentos são realizados...


Há grande teólogos,
mestres, e outros homens santos
debatendo noite e dia
sobre o livre-arbítrio,
a pureza da alma
e o “grandioso caminho moral”.

Mas enquanto isso,
pulando pelos montes,
dançando nos oásis
e brincando na praia dos mundos,
os amantes não julgam
e nem são julgados.

No amor
eles se deleitam.
No amor
eles são como um,
e todas as leis do mundo dos homens
se tornam tão importantes
e imprescindíveis
quanto a construção e a destruição
de esplendorosos castelos de areia...


raph’22.04.14

***

Crédito da foto: Bill Hammer

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20.4.14

Hod shebe Chesed

Então me diga,
você que se diz sábio:

Acaso o sol algum dia já se arrependeu
de haver nascido?

Acaso em alguma noite esquecida
a lua invejou, sequer por um momento,
a luz solar?

Acaso as montanhas das grandes fossas marinhas
alguma vez reclamaram
de toda a fama do Himalaia?

E alguém já viu alguma leoa
resmungando pelo fato
de serem elas as grandes caçadoras,
enquanto os leões comem e dormem?

Ora, grandiosos animais caminham pela Terra,
e outrora vimos pelas campinas
bestas ainda maiores...

Mas, sem a grama,
sem a extensa relva que cobre todas as paragens,
e trata de crescer até mesmo em meio ao concreto,
o que teríamos para o nosso banquete?

A Natureza, que é vasta,
exige sim uma certa submissão,
uma certa humildade...

Porém, mesmo todas as folhas de grama do mundo
são apenas uma pequenina mancha verde
na superfície de uma pedra
que viaja pelo vazio
ao lado de bilhões e bilhões de irmãs.


Se há mesmo algum homem ou mulher
que ainda não aprendeu a ser humilde,
talvez seja porque nunca tenha olhado para o alto,
durante as noites de céu aberto,
e iniciado a contagem dos sóis!


raph’19.04.14

***

Crédito da imagem: Joel "Boy Wonder" Robinson

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18.4.14

Um ano de Zaratustra!

Em pouco mais de um ano à venda, nossa edição digital de Assim falou Zaratustra, de Friedrich Nietzsche, acaba de completar 365 dias na lista dos 100 mais vendidos da Amazon Brasil!

Para comemorar este feito do bigodudo alemão, estaremos disponibilizando em download gratuito outras três obras das Edições Textos para Reflexão. Ad infinitum e Rumi - A dança da alma poderão ser baixados de graça até a madrugada do dia 20 para o dia 21, enquanto que Tudo será Céu ainda estará gratuito até a madrugada do dia 22 para o 23!

Clique nas capas dos livros para saber mais sobre eles na loja da Amazon (*). Lembrando que nosso bestseller do pensador alemão continua sendo vendido a módicos R$1,99:

(*) Obs.: Você não precisa ter um Kindle para ler nossos livros digitais. Basta baixar qualquer um dos aplicativos gratuitos do Kindle para que os possa ler em seu tablet, smartphone, laptop ou desktop.


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16.4.14

Chesed shebe Chesed

Viemos do pó.
Habitamos o pó.
Somos todos poeira de estrelas;
e, ainda assim, elas nos amam,
e nos regam com sua luz,
e nos vivificam com seu calor,
e dançam conosco
através dos dias e das noites,
e pelas estações,
e por cada palavra
de nossas orações.

Somos um fruto de casca muito grossa.
Nem a serpente nos fendeu –
é preciso um fogo mais intenso,
que arde sem se ver
e irrompe o seu casulo
de dentro para fora...

O que não conhecíamos,
dia virá que conheceremos...
O que não percebíamos,
dia virá que perceberemos...
Mas o que não sentíamos,
o que não amávamos,
não será jamais sentido ou amado
nalgum dia futuro...

O que amamos e sentimos
é para sempre –
arde no farfalhar das gramas,
sussurra no crepitar das chamas,
e nos abraça e afaga
e diz, bem baixinho,
dentro de nossa mente:

“Eu estive a sua procura;
em cada sorriso,
em cada lágrima,
em cada suspiro de vida
ou de morte,
eu estive lá
e ainda estou...

Eu estive a sua procura;
mas você jamais esteve
nem longe
nem fora
de mim”


Viemos das estrelas,
e somos estrelas,
e tudo quanto há
são constelações...


“Venha! Venha para fora!
Há tantas luzes na noitinha...
Venha! E traga a sua luneta!”


raph’15.04.14

***

Crédito da imagem: Dimitri Lomanova

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12.4.14

Noé – o que merece ser salvo? (parte final)

« continuando da parte 1

O mito moderno
De acordo com Richard Saul Wurman, em seu livro Ansiedade de Informação, uma edição de domingo do jornal The New York Times tem cerca de 12 milhões de palavras e contém mais informação do que aquela que um cidadão do século 17 recebia ao longo de toda a vida. A capacidade de computação mundial aumentou 8 mil vezes nos últimos 40 anos. Com esse ritmo, especialistas calculam que produzimos mais informação na última década do que nos 5 mil anos anteriores. E todo esse acúmulo causa ansiedade.

A velocidade com que a informação viaja o mundo é algo muito recente, com o qual os seres humanos ainda não sabem lidar – e muito menos aprenderam a filtrar. Já foram cunhados até alguns termos para definir a ansiedade trazida pelos novos meios de comunicação: technologyrelated anxiety (ansiedade que surge quando o computador trava, que afeta 50% dos trabalhadores americanos), ringxiety (impressão de que o seu celular está tocando o tempo todo) e a ansiedade de estar desconectado da internet e não saber o que acontece no mundo, que já contaminou 68% dos americanos [1].

Uma outra consequência de tamanha “globalização da informação” é a de que hoje somos prontamente informados de todos os grandes desastres naturais, genocídios e conflitos armados que ocorrem ao redor do globo. Certamente o seu bisavô, por mais bem informado que fosse, não estaria muito preocupado com um acidente de trem na Espanha, um estupro coletivo na Índia ou um ataque de algum esquizofrênico numa universidade americana. E, mesmo as notícias da Primeira Guerra Mundial não eram tão impactantes quanto as notícias das guerras de hoje – na sua época a guerra era descrita em alguns parágrafos de jornal, hoje ela muitas vezes é filmada ao vivo com câmeras de alta definição.

Dessa forma, se no mito de Noé o fim do mundo era um anúncio divino que nem todos levaram a sério (exceto Noé e sua família), nos dias atuais o fim do mundo parece ocorrer de tempos em tempos no noticiário, ao ponto de sermos obrigados a nos tornar, de certa forma, “insensíveis” a tanta desgraça anunciada nas dezenas ou centenas de canais de notícia de nossa TV a cabo e em nossos portais favoritos da web.

Não é que hoje o mundo esteja mais violento do que há milênios atrás, pelo contrário: hoje vamos a um estádio ver jogadores praticando esportes, e não se matando; hoje não há mais escravidão, ao menos oficialmente; hoje as mulheres que apanham de seus maridos têm uma opção de escolha que antes lhes era absolutamente negada. O mundo melhorou fora das zonas de guerra, sem dúvida, mas o problema é que hoje podemos saber de tudo (ou quase tudo) de catastrófico e violento que ocorre nos quatro cantos do globo.

Como sobreviver a essa época tão fluida e tão cheia de atrativos, a esse verdadeiro “dilúvio de informações”? Talvez, quem sabe, a Arca de Noé possa ser uma possibilidade de salvação. Afinal, se a construção de nossa Arca pode ser tão difícil e custosa, ela nos traz um grande consolo, um grande alento, em sua conclusão: teremos, enfim, uma embarcação só nossa, onde guardamos a informação que nos importa de verdade, assim nos livrando de todo um mar revolto de irrelevâncias.

A Arca moderna nada mais é, portanto, do que o pensamento próprio, livre de dogmas de crença ou descrença, livre da enxurrada de informações que nada acrescentam ao nosso autoconhecimento e ao nosso caminho espiritual. Para sobreviver no mundo moderno como um indivíduo de pensamento livre, sem dúvida precisaremos aprender mais acerca das técnicas de construção de Noé.

O que merece ser salvo?
Se o mito pode ser reinterpretado à luz da era moderna, nada nos impede de voltar atrás e interpretá-lo a nossa maneira também no contexto da época bíblica. Afinal, há certamente uma boa parte do mito que se encontra mesmo fora do tempo, que é eterna...

Uma lição que sempre me saltou aos olhos é que o Criador não pediu a Noé para que salvasse alguma relíquia, algum plano de construção de templos, e tampouco algum livro sagrado. Nem ouro, nem prata nem joias – o que havia de mais valioso para ser salvo do Grande Dilúvio era a vida, a vida!

E não somente os seres vivos em si, mas a sua simbologia. Afinal, já na época de Noé os animais eram também símbolos, informações vivas que representavam a Criação. Não bastaria, portanto, salvar somente o elefante macho, era preciso salvar também a fêmea, para que a continuidade da espécie, a continuidade do símbolo “elefante”, fosse garantida.

Nesse sentido, a Arca de Noé era, de certa forma, a Igreja sonhada por nosso querido Francisco de Assis: uma casa não somente de homens e mulheres, mas de vida, de toda a vida.

Quantas vilas, cidades e templos já existiam na época de Noé? Quantas estátuas dedicadas as mais diversas divindades? Quantos manuscritos sagrados e poemas épicos? Nada disso passou do Dilúvio. Nada sobrou, exceto a vida ela mesma...

Aquilo que ultrapassa vidas
Há algo que permeia todos os mitos referentes a um Grande Dilúvio nas mais variadas culturas ancestrais: com Arca ou sem Arca, fato é que somente um herói, ou um casal, ou um grupo muito pequeno de pessoas, sobrevive para repovoar o mundo todo após as águas aplainarem.

Ora, se formos transportar esta metáfora para o conceito de reencarnação, tão antigo quanto as primeiras religiões e mitologias, temos que o Dilúvio, o fim do mundo pelas águas, nada mais é do que a “morte”; e o mundo novo, a espera de ser povoado, nada mais é do que a “próxima vida”.

Nesse contexto, o que seria capaz de cruzar a fronteira entre uma e outra vida, senão tudo aquilo que conseguimos trazer para a nossa Arca?

É bem verdade que a maioria de nós sequer começou a aprender a construir uma Arca – mas quem disse que não somos capazes? Ainda que de início nosso barco seja pequeno e quebradiço, facilmente virado pelas ondas, o que importa é que iniciamos a aprendizagem.

E é precisamente esta aprendizagem, de construção de arcas, aquilo que ultrapassa vidas, a ciência mais preciosa e primordial de toda a existência... Não importa se hoje não acreditamos que seja realmente possível construirmos uma Arca tão grande quanto a de Noé. Não importa se nos parece inverossímil que ela pudesse mesmo carregar todas as espécies não marinhas do planeta. Pois há algo de sobrenatural nesta ciência, algo que escapa a lógica usual de todas as ciências...

Tudo é natural, e assim está bom. Mas há algo que salta por sobre, que ultrapassa as maiores barreiras; algo que é capaz de vencer até mesmo a morte; algo atemporal, eterno, infinito.

É precisamente esta Arca de Amor a única coisa que realmente possuímos, a única coisa que realmente importa, a única coisa que vale a pena construir... E cada martelada, cada tábua posta no lugar, cada gota de suor a escorrer de nossa testa, terão valido a pena.

Até que ela, a Grande Arca, consiga abarcar o mundo todo. De modo que o mundo todo será nossa Arca, e nossa Arca será todo o mundo. E somente assim poderemos, de verdade, estabelecer nossa Aliança com o Tudo. Somente assim poderemos ser carregados pelas marés internas da alma até atracarmos, um dia, nas praias do Reino de Deus:

“Senhor, árdua foi a construção da minha Arca, e longa foi a minha navegação; mas eu cheguei, eu finalmente cheguei!”

***

[1] Os dois primeiros parágrafos desta parte do artigo foram retirados de Sobre a ansiedade, por Karin Hueck para a Revista Superinteressante (Novembro de 2008).

Bibliografia: Guia Ilustrado Zahar de Mitologia (Philip Wilkinson e Neil Philip); Enciclopédia de Mitologia (Marcelo Del Debbio); O Poder do Mito (Joseph Campbell e Bill Moyers)

Crédito da imagem: Noé – O filme (Divulgação)

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