21.5.15

Entre a esquerda e a direita: os comentários (parte 3)

Parte da série “Entre a esquerda e a direita”, onde Alfredo Carvalho e Igor Teo responderam minhas perguntas, e agora estou comentando os assuntos abordados. Para conhecer mais sobre a proposta da série e seus participantes, não deixe de ler nossa apresentação.

“Não há almoço grátis”
Recentemente, o ex-diretor de abastecimento da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, investigado na operação Lava Jato e signatário de acordo de delação premiada, deu o seguinte depoimento a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga os desvios bilionários da estatal:

“Não existe doação de empresas que depois essas empresas não queiram recuperar o que foi doado. Se ela doa R$ 5 milhões, ela vai querer recuperar R$ 20 milhões lá na frente... Não há almoço grátis.”

O que parece óbvio, claro e cristalino até mesmo para os mais desinformados acerca do nosso sistema eleitoral, no entanto, é muito mais grave do que parece. Doações empresariais são o investimento mais lucrativo do mercado, e o lucro compensa em muito o risco envolvido no negócio... Costa falou em empresas doando 5 e ganhando 20, ou seja, 4 vezes mais do que o valor doado, mas a realidade é muito mais lucrativa!

O estudo “The Spoils of Victory” (“Despojos da Vitória”), feito por pesquisadores de três universidades dos EUA, concluiu que as empresas que financiaram candidatos a deputado federal do PT nas eleições de 2006 receberam entre 14 e 39 vezes o valor doado por meio de contratos com o poder público nos anos subsequentes.

A pesquisa, publicada em 2014, cruza os dados oficiais de doações para as campanhas e os contratos obtidos pelas empresas nos anos seguintes – sem levar em conta eventuais pagamentos ilegais. Segundo os autores, não foi possível estender o estudo para governos anteriores por falta de dados públicos confiáveis.

Taylor Boas, um dos autores do estudo, explica que nos países em desenvolvimento os problemas envolvendo doações de campanha se agravam porque eles têm poucas leis de regulamentação da atividade. Segundo Boas, “No Brasil o limite para a doação corporativa é de 2% de seu faturamento bruto anual. Isso é um valor muito alto já que estamos falando de grandes empresas”.

E não é que as grandes empresas financiadoras tenham qualquer tipo de alinhamento ideológico com este ou aquele partido. Maior exemplo disso foi a atuação da JBS-Friboi, uma das maiores do mundo no ramo de alimentos, na campanha presidencial de 2014: não satisfeita em doar para um só candidato, resolveu doar de uma vez só para todos os que tinham alguma chance de vencer, ou seja, Dilma Rousseff, Aécio Neves e Marina Silva. Não há, de fato, nenhuma ideologia envolvida neste processo – afinal, não à toa, a JBS foi na última década uma das grandes beneficiadas pelos empréstimos do BNDES a juros nível “ajuda de custo do papai”.

Ora, o próprio escândalo envolvendo a Petrobrás, outro daqueles que a grande mídia gosta de chamar de “maior caso de corrupção da história do país” (desta vez, porém, muito provavelmente com razão), está intimamente relacionado com o financiamento de campanhas eleitorais. E, como muitos devem saber, não se trata mais de financiamento não declarado a Receita Federal – o famigerado “caixa 2” –, mas doações perfeitamente legais e declaradas, ou seja, “caixa 1” mesmo... A questão é que a origem do dinheiro em si é ilegal, fruto de propinas gordas vindas de cartéis de empreiteiras.

Com tanto “crédito na praça”, não é de surpreender que o custo total das últimas eleições, em 2014, tenha batido o recorde histórico, e chegado a R$ 5 bilhões. Nós temos que olhar para esse número, infelizmente, não pelo seu valor atual, mas pelo que vai custar aos Cofres Públicos em “benefícios” a todas as empresas que tiveram a sorte de doar para os candidatos vencedores (afora, é claro, as que doaram para todos os candidatos)... Ou seja, no final das contas, quem paga pelo custo crescente de nossas eleições, no médio e longo prazos, somos eu, você, todos nós.


O Grande Negócio Eleitoral
É precisamente isso que eu chamo de Grande Negócio Eleitoral. Eu não sei quanto a você, mas neste ponto eu sou mesmo radical: não vejo como uma empresa possa ter quaisquer motivos para financiar campanhas políticas que não a possibilidade de lucro futuro. É muito simples: empresas não apoiam ideologias, elas investem.

Por conta desta minha percepção solidificada por inúmeros exemplos que venho analisando nos últimos anos, sou defensor ardoroso do fim do financiamento empresarial para campanhas eleitorais, e obviamente não sou o único... Faz mais de um ano que a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a CNBB, a UNE, a CUT e outros movimentos sociais enviaram ao Supremo Tribunal Federal (STF) uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) desautorizando as doações empresariais para campanhas.

Ora, quando o julgamento já estava vencido em favor da ação, com 6 votos favoráveis dos ministros do STF (o que supera a metade), o ministro Gilmar Mendes pediu vistas para analisar “com cuidado” a Adin em casa, e interrompeu a tramitação da ação. E, repetindo, isso já faz mais de um ano!

Como defensor da democracia, eu compreendo que existam aqueles que defendam a continuidade do financiamento empresarial. Mas a questão aqui é que não está funcionando a democracia: é um único ministro emperrando a tramitação de uma ação importantíssima, que já foi voto vencido.

Vamos, porém, nos voltar para os defensores do financiamento empresarial... Eu quero crer que o motivo de eles persistirem defendendo o modelo atual se deva a um forte temor de que, em instaurado o temido financiamento público e exclusivo de campanha, os atuais detentores do poder se tornem quase que “lordes feudais”, utilizando os recursos públicos e a máquina do governo para injetar centenas de milhões de reais em suas campanhas, enquanto os que estão fora do poder mal teriam recursos para ter alguma chance nas eleições.

Pois bem, é talvez um motivo justo, mas inteiramente equivocado. E abaixo irei lhes enumerar as razões:

(1) Defender o fim do financiamento empresarial não significa defender o financiamento público e exclusivo. Isto porque o financiamento privado continua sendo perfeitamente possível, só que exclusivamente através de doações de pessoas físicas, e não jurídicas. De fato, o Butão é o único país onde foi adotado o financiamento público e exclusivo de campanha. No entanto, há diversos países que vêm adotando a proibição do financiamento empresarial nos últimos anos, dentre eles Canadá, Portugal, França, Polônia, Ucrânia, México, Paraguai, Peru, Colômbia e Egito.

(2) É preciso lembrar que o financiamento público já existe no Brasil, e está na Constituição. O Fundo Partidário, inclusive, recentemente teve o seu valor quase que triplicado, passando de R$ 289 milhões para R$ 867 milhões [1], no que parece ser uma clara reação dos parlamentares ao fechamento das torneiras das grandes empresas – que finalmente têm algum motivo para temer prosseguir com seus investimentos de campanha (alguma coisa, afinal, está dando certo!).

(3) Os atuais detentores do poder já são os maiores beneficiados pelas doações empresariais, inclusive em valores que superam em muito o que lhes cabe do Fundo Partidário. Por exemplo, ao final do segundo mês da campanha presidencial de 2014, a campanha do PT havia arrecadado de empresas 3 vezes mais do que o PSDB e 6 vezes mais do que o PSB. Já para o governo de São Paulo, não que fosse alguma surpresa, as doações se concentraram majoritariamente no PSDB.

Ou seja, não somente o financiamento público já existe, como em todo caso os atuais governantes, desde que mantenham sua popularidade em alta, são naturalmente os destinatários da maior parte do financiamento empresarial... No atual cenário, o financiamento público e exclusivo talvez fosse até um auxílio na renovação dos cargos eletivos, mas nem é isso que estou aqui defendendo...

Defendo tão somente o fim das doações empresariais, pois crer que alguma empresa tem realmente algum motivo para dar dezenas, centenas de milhões de reais para campanhas de políticos, que não seja para receber muito mais em troca lá na frente, é no mínimo de uma inocência muito grande.

Enfim, independente da opinião de cada um acerca do financiamento empresarial, o que todos devem concordar é que alguma reforma precisa ser feita em nosso sistema eleitoral, e ela é absolutamente urgente!

» Em breve, a reforma possível, e alguns vislumbres do futuro...

***

[1] Ainda assim, ficou somente pouco acima do valor das isenções fiscais concedidas as emissoras de TV por conta do horário eleitoral “gratuito” em 2014, que de fato jamais foi gratuito. Somente entre 2002 e 2014, o somatório das isenções chegou a R$ 4,4 bilhões.

» Ver os posts mais recentes desta série

Crédito da foto: Google Image Search

Marcadores: , , ,

17.5.15

2 respostas para Abu

Como já disse aqui algumas vezes, toco este blog primeiramente para organizar minhas próprias ideias. Isso não me desobriga, entretanto, a reconhecer que é sim, muito legal, ter leitores e curtidores. Mas fato é que, há quase uma década atrás, quando ninguém curtia ou comentava nada, ainda assim eu escrevia...

A primeira vez que me surpreendi com a “fama” do blog foi no início do III Simpósio de Hermetismo, em São Paulo, quando conheci pessoalmente um dos leitores do blog, que me reconheceu e veio falar comigo. Ele hoje é um amigo que inclusive já escreveu por aqui também.

Mas o que sempre me deu ânimo para continuar escrevendo foram os raros e-mails de pessoas dando seus depoimentos, extremamente pessoais, de como algum texto daqui as auxiliou em suas vidas... Afinal, o que poderia ser mais recompensador do que isso?

Ainda assim, eu confesso que gostaria de haver alcançado uma certa “fama”, ao menos ao ponto de ter sido convidado para participar do programa Provocações, e ter sido entrevistado pelo Abu...

Talvez vocês o conheçam pelo seu personagem mais famoso, o Ravengar da novela Que Rei Sou Eu?, de 1989. Mas Antônio Abujamra foi muito mais do que um feiticeiro de personalidade forte, ele foi um pensador de personalidade forte. Seu programa de entrevistas, que durou quase 15 anos na TV Cultura, até a sua passagem recente, no último 28 de Abril, era interessantíssimo por diversas razões: entrevistava personalidades realmente interessantes, independente de sua “fama” (tendo, inclusive, entrevistado minha amiga Debora Noal, um anjo do Médicos Sem Fronterias, e até mesmo o Frater Goya, que conheci no Simpósio); recitava poemas (de uma forma magistral, pois Abu sempre foi um ator grandioso); e, principalmente, pelas perguntas, as perguntas!

Abu idolatrava a dúvida, e costumava fazer uma sequência de duas perguntas ao final dos programas. Primeiro, perguntava, “O que é a vida?”; e então, após a pessoa se esforçar muito para dar uma resposta sincera, ele repetia a mesma pergunta, “O que é a vida?”... Assim chegamos a diversos depoimentos que, se não resolveram a questão (e ela dificilmente seria resolvida), ao menos partiram genuinamente do fundo das almas que por lá tiveram o privilégio de passar.

Eu não tive tal privilégio, mas em todo caso gostaria de usar aqui a imaginação, e responder ao meu querido Abu:


[Abu] Raph, o que é a vida?

[Raph] Sabe Abu, se tem uma coisa capaz de nos manter sempre em movimento, sempre à frente, é a nossa divina capacidade de questionar o que sabemos, pois ela é de fato aquilo que nos faz buscar saber mais, cada vez mais...

E, se este oceano de conhecimento cada vez se alarga mais, e se fica evidente que, para cada dúvida que resolvemos, surgem diversas outras, é bom que seja assim, que este oceano é vasto, verdadeiramente vasto.

O que é a vida, então, senão a própria essência por traz deste questionamento? Não importa a resposta, importa mesmo é que continuemos a perguntar.

[Abu] Raph, o que é a vida?

[Raph] John Galsworthy, um dramaturgo inglês, dizia que “as palavras são somente cascas de sentimentos”... Então, Abu, é preciso compreender que “Deus”, “sentido”, “vida”, e até mesmo “eu” e “você”, tudo isto são apenas palavras...

Nesse sentido, talvez até exista uma resposta para essa pergunta, mas não creio que ela possa ser transmitida por palavras... Quem sabe por um gesto, ou um olhar, um olhar de amor...

Se um grande pesquisador descobre que o sentido da vida reside no interior de uma pérola em meio ao mar, ele pode tentar tirar toda a água do mar com sua grande máquina. Mas de que adiantaria saber o sentido da vida apenas após haver drenado o mar e esvaziado toda a praia?

Somente quem vai e mergulha pode encontrar tal pérola... Pessoa estava certo: navegar é preciso, navegar é cada vez mais preciso!

***

Crédito da imagem: Google Image Search/Divulgação

Marcadores: , , ,

13.5.15

Uma longa tradução (parte 1)

O grande projeto do Textos para Reflexão este ano é, como alguns devem saber, a tradução de um dos livros mais sagrados do mundo, o Bhagavad Gita (vocês podem saber mais sobre ele no artigo A sublime canção, que servirá de base para o prefácio da edição).

Para tal empreitada, estou usando como base a tradução clássica do sânscrito para o inglês de Sir Edwin Arnold (1885), conforme compilada pela American Gita Society. A edição digital e a impressa virão recheadas de notas, incluindo muitas citações de célebres pensadores ocidentais simpáticos ao Gita, como Joseph Campbell e Arthur Schopenhauer. O meu intuito é trazer a filosofia perene da antiga Índia para os dias atuais, pois que apesar da guerra dos Kurus e dos Pândavas ter sido narrada há milênios, ela não deixa de estar sendo lutada ainda hoje, ainda neste momento, na alma de todos nós...

No entanto, como a despeito do que imaginam alguns, este blog é fruto do trabalho de um homem só, o projeto desta tradução, assim como alguns outros, tem me tomado o tempo que normalmente utilizo para escrever novos contos e artigos por aqui... Daí pensei que faria mais sentido trazer parte da tradução do Gita para o blog em si. Assim consigo ir tocando a tradução e atualizar o blog, ao mesmo tempo.

Decidi começar lhes trazendo o início do livro, portanto, aqui vai:


CAPÍTULO I – O DILEMA DE ARJUNA

A guerra do Mahabharata teve início após o fracasso de todas as tentativas de negociação realizadas por Lorde Krishna e alguns outros. O rei cego (Dhritarashtra) nunca teve a certeza da vitória de seus filhos (os Kurus), a despeito da superioridade do seu exército. O sábio Vyasa, o autor do Mahabharata, desejou conferir ao rei cego a dádiva da visão para que ele próprio pudesse ver os horrores da guerra pela qual ele era o principal responsável.
Ele não quis ver os horrores da guerra, e preferiu receber as notícias da batalha pela voz de seu cocheiro, chamado Sanjaya. O sábio Vyasa, desta forma, conferiu a Sanjaya o poder da clarividência. Com ela, o cocheiro podia ver, ouvir e rememorar os eventos do passado, do presente e do futuro. Assim, ele podia informar ao rei cego, sentado no trono de seu palácio real, sobre tudo o que transcorria na guerra.
Bhishma, o mais forte dos homens, e comandante-em-chefe do exército dos Kurus, foi ferido mortalmente por Arjuna, príncipe dos Pândavas (o exército rival), e está esticado ao solo em meio ao campo de batalha no décimo dia da guerra. Após ouvir esta má notícia de Sanjaya, o rei cego perde todas as esperanças na vitória de seus filhos.
Agora o rei cego deseja conhecer todos os detalhes da guerra, desde o seu início. Ele deseja, sobretudo, saber como o mais forte dos homens, e comandante-em-chefe de sua poderosa armada – aquele que tinha a dádiva de morrer assim que desejasse – foi derrotado no campo de batalha...
Os ensinamentos do Gita se iniciam com este pedido do rei cego, após o qual Sanjaya descreve como Bhishma foi derrotado:

O rei inquiriu: Sanjaya, por favor me conte agora, em detalhes, o que o meu povo (os Kurus) e os Pândavas realizaram no campo de batalha antes do início da guerra? (1.01)

Sanjaya disse: Ó rei, após observar a formação de batalha do exército dos Pândavas, seu filho (Duryodhana) se aproximou de seu guru (Drona) e proferiu essas palavras: (1.02)

Ó mestre, contemple a poderosa armada dos Pândavas, organizada em formação de batalha pelo seu outro talentoso discípulo! Há muitos grandes guerreiros, homens valentes, heróis e habilidosos arqueiros. (1.03-06)

Os comandantes dos Kurus são apresentados

Também há muitos heróis do meu lado que arriscaram suas vidas por mim. Eu devo trazer os nomes dos poucos distintos comandantes de minha armada para a sua informação.
Então, ele nomeou todos os oficiais de seu exército, incluindo Bhishma, e disse: Eles estão armados com as mais variadas armas, e são muito hábeis na guerra. (1.07-09)

Nosso exército é invencível, enquanto o deles pode ser conquistado. Dessa forma, todos vocês, ocupando suas respectivas posições em nossa formação de batalha, protejam nosso comandante-em-chefe, Bhishma! (1.10-11)

A batalha se inicia com o sopro das conchas

O poderoso comandante-em-chefe e o guerreiro mais velho de sua dinastia rugiu como um leão e soprou vigorosamente sua concha, soando um grande estrondo e trazendo alegria para seu filho, ó rei. (1.12)

Logo após, conchas, tambores, címbalos e outros instrumentos soaram em uníssono. A comoção foi tremenda por todo o exército dos Kurus. (1.13)

Do outro lado do campo de batalha, entre os Pândavas, vinha o príncipe Arjuna, acomodado numa grandiosa carruagem de guerra puxada por cavalos brancos e conduzida por Lorde Krishna. Em resposta aos Kurus, ambos sopraram suas conchas celestiais. (1.14)

Krishna foi o primeiro a soar sua concha, e em seguida Arjuna e todos os demais comandantes dos Pândavas sopraram seus instrumentos. Todo aquele rugido, ressoando através da terra e do céu, fez estremecer o coração dos Kurus. (1.15-19)

Arjuna deseja inspecionar o exército dos Kurus

Observando tantos guerreiros prestes a combater, e o início da guerra com os primeiros tiros de flechas, Arjuna, cuja bandeira trazia o emblema de Lorde Hanuman (o deus-macaco), apanhou o seu grande arco e disse tais palavras ao Lorde Krishna:
Ó grande amigo, por favor, conduza minha carruagem até o espaço entre os dois exércitos. Eu preciso ver de perto aqueles que estão ansiosos pela batalha, aqueles que desejam nos matar, e com os quais terei de lutar nesta guerra sangrenta. (1.20-22)

Eu desejo ver aqueles que estão dispostos a servir e satisfazer ao malicioso e vingativo filho de Dhritarashtra (Duryodhana), aqueles que vieram se apresentar para esta guerra insensata. (1.23)

Sanjaya disse: ó rei, conforme requisitado por Arjuna, Lorde Krishna conduziu a melhor de todas as carruagens de guerra até o espaço entre os dois exércitos, virada para o lado dos Kurus, e então disse a Arjuna:
Contemple a todos os soldados que se apresentaram para a batalha! (1.24-25)

Arjuna viu estarrecido que no outro lado do campo de batalha se encontravam também muitos de seus parentes: pais e filhos, irmão, cunhados, avós e netos, tios e sobrinhos, sogros e genros. (1.26)

(tradução de Rafael Arrais)

» Em breve, novos trechos desta tradução...

***

Crédito da imagem: Google Image Search (Arjuna e Krishna sopram as conchas celestiais) (*) Eu realmente não consegui achar o nome do ilustrador(a), se alguém souber por favor comente neste post, obrigado.

Marcadores: , , , ,

7.5.15

Toren

No próximo 12 de Maio sai, para PC e PS4, o primeiro game brasileiro a ser beneficiado pela Lei Rouanet, uma forma de incentivo cultural procedente de renúncias fiscais (até um certo limite). Para além da boa nova de constatarmos que o governo brasileiro está finalmente investindo num mercado promissor, que já há anos tem renda global maior do que o mercado cinematográfico, o game em si parece não somente belíssimo e promissor, como fruto da imaginação de pessoas que leem sobre muito do que falamos neste blog, particularmente de mitologia [1].

Em Toren, jogamos com uma personagem desde sua infância até a idade adulta. A Criança da Lua está enclausurada em uma espécie de gigantesca "torre de Babel", e precisa enfrentar muitos desafios enquanto sobe seus andares, até o alto do céu, para finalmente se libertar... O grande inimigo é o Dragão que vigia a torre e tenta, a todo custo, impedir que a Criança escape. Felizmente, ela ainda conta com a ajuda de dois personagens: o Cavaleiro, enviado há eras pelo Sol para auxiliar na jornada dos escaladores da torre, que pode ser visto a distância, pela lente de telescópios; e o Mago, um dos antigos construtores da torre, que pode se comunicar com a Criança somente através de sonhos...

Obviamente, o jogo se parece muito mais com uma narrativa simbólica do que com uma história superficial qualquer... Neste sentido, fica evidente a sua inspiração em jogos clássicos parecidos, como Shadow of the Colossus e Ico. Abaixo, vocês podem ver o trailer:

***

[1] Segundo o Marcelo Del Debbio, autor do blog Teoria da Conspiração, o líder de criação do Toren (Alessandro Martinello) é leitor assíduo dos nossos textos, e muito da pesquisa sobre hermetismo e árvore da vida foi feita no próprio TdC e na Wikipedia de Ocultismo.

Crédito da imagem: Divulgação/Toren

Marcadores: , , , ,

28.4.15

Entre a esquerda e a direita: os comentários (parte 2)

Parte da série “Entre a esquerda e a direita”, onde Alfredo Carvalho e Igor Teo responderam minhas perguntas, e agora estou comentando os assuntos abordados. Para conhecer mais sobre a proposta da série e seus participantes, não deixe de ler nossa apresentação.

O duelo dos bois
Todo final de junho o Bumbódromo de Parintins, no Amazonas, recebe um dos maiores espetáculos de cultura popular do Brasil. É assim desde os idos de 1965, quando alguns jovens católicos organizaram o primeiro Festival Folclórico de Parintins, onde 22 quadrilhas se apresentaram, junto com os dois bois, o Caprichoso e o Garantido. Mas foi somente no ano seguinte que começou a disputa anual entre os bois: afinal, era preciso saber qual boi havia realizado o desfile mais bonito, e “vencido” a festa.

E assim é até hoje... No entanto, em 1982 ocorreu o impensável – o boi Caprichoso, em protesto contra as notas recebidas no ano anterior, se recusou a participar da festa, e foi substituído pelo boi Campineiro. Conforme o previsto, naquele ano o Garantido venceu facilmente a disputa. De lá para cá, isso felizmente nunca mais aconteceu. Ocorre algo curioso com o duelo dos bois de Parintins: embora todos amem o seu boi e odeiem o boi adversário, a verdade é que, sem o adversário, não haveria festa alguma!

Esta lógica dualista, longe de ser uma curiosidade cultural ou esportiva, é algo muito mais antigo e profundo... Segundo o taoísmo, não há nada que possa ser anterior ao Tao, uma coisa misteriosa que deu origem a tudo o que há. Entretanto, o primeiro conceito que advém do Tao, aquele que permite que nossa razão compreenda alguma coisa, é exatamente o conceito da dualidade, do yin e yang.

Segundo a ideia que engloba tanto yin quanto yang, cada ser, objeto ou pensamento possui um complemento do qual depende para a sua existência, e esse complemento também existe dentro de si. Dessa forma se deduz que nada existe no estado puro: nem na atividade absoluta, nem na passividade absoluta, mas sim em transformação contínua. Além disso, qualquer ideia pode ser vista como seu oposto quando visualizada a partir de outro ponto de vista. Neste sentido, toda a categorização seria apenas uma conveniência da lógica...

Tudo bem, mas e o que todo esse papo de bois e energias complementares tem a ver, afinal, com a Política? Bem, talvez não muito pela superfície, mas certamente pelas profundezas – afinal, assim como o yin e o yang, e assim como o Caprichoso e o Garantido, esquerda e direita são tão somente referências para organizar o pensamento, e categorizar e organizar algumas ideias. Neste sentido, tanto a direita quanto a esquerda são vitais para a Política: elas não existem para serem “vencidas”, mas existem para que a própria Política seja possível.

Afinal, pensem bem, se só existisse a esquerda, ou a direita, como exatamente saberíamos diferenciar uma vertente política da outra, como saberíamos dizer a diferença entre um e outro partido? Seria o mesmo que uma festa no Bumbódromo onde somente um boi saísse vencedor todo ano. O nome dele? Tanto faz...

Tais dualidades tocam a essência da própria filosofia. Não são poucos os casos de filósofos que se tornaram célebres exatamente por se opor as ideias de outros pensadores famosos que lhes precederam. A própria origem do embate entre esquerda e direita, segundo muitos analistas, remete a uma época anterior a própria Revolução Francesa.

Thomas Hobbes e Jacques Rousseau jamais se encontraram pessoalmente, pois o primeiro morreu pouco mais de 30 anos antes do nascimento do último, e ainda assim, suas ideias se encontram em choque até os dias atuais. Para Hobbes, o estado natural do ser humano é um estado de guerra, violência e conflito. O filósofo inglês defendia a necessidade da existência de um grande governo soberano, um monarca poderoso capaz de, pela força, garantir a ordem do Estado, para que os pequenos grupos opostos não entrassem em guerra e trouxessem o caos; algo que, segundo sua filosofia, seria certamente inevitável em cenários de “vácuo de poder”. Já Rousseau acreditava que o que determinava o poder de um monarca era tão somente o sistema estabelecido, mas discordava veementemente que este soberano representaria efetivamente "o maior poder". Para o pensador suíço, tal poder adivinha da maioria dos cidadãos, e somente uma democracia plena seria capaz de estabelecer os alicerces para um mundo mais pacífico e feliz.

Em suma, Hobbes acreditava que o homem era caótico por natureza, e precisava ceder parte de sua liberdade se quisesse viver num Estado seguro. Rousseau, pelo contrário, acreditava que o homem era bom por natureza, e era exatamente o atual sistema, que regulava a sociedade da época, aquilo que o corrompia. Hobbes favorecia a segurança sobre a liberdade. Rousseau acreditava que a liberdade plena garantiria, por si só, um mundo mais seguro.

Assim, poderíamos quem sabe, dizer que Hobbes era o “conservador”, e Rousseau o “progressista”. Um não acreditava que grandes revoluções sociais favoreceriam a vida em sociedade, o outro clamava ardentemente pela revolução, e assim vai... Independente da preferência por um ou outro pensamento, é importante frisar que tanto Hobbes quanto Rousseau queriam o melhor para a humanidade. O embate de suas ideias, desta forma, não deveria ser compreendido como um duelo “do bem contra o mal”, seja onde rotulemos um ou o outro. Rotular ideologias como “boas” ou “más” talvez seja, até hoje, o maior equívoco do debate político.

De fato, seria simples dizer que Rousseau venceu a disputa, e que hoje a maior parte da humanidade vive em democracias plenas, livre dos monarcas e dos estados totalitários. Seria simples rotular as ideias de Rousseau como “as ideias boas”. Mas, a verdade é que não é tão simples, nunca é.

Vivemos efetivamente numa democracia plena, onde vale a máxima “uma pessoa, um voto”? Favorecemos realmente a liberdade acima da segurança, e conseguimos, assim, preservar a nossa privacidade? A defesa dos estados totalitários é, de fato, algo que já se perdeu no passado? Para começarmos a analisar tais questões, talvez a dualidade “esquerda e direita” já não seja suficiente – talvez precisemos usar outros eixos, e diagramas!


Em defesa da liberdade
David Nolan foi um ativista político norte-americano, grande defensor do libertarianismo. Nolan acreditava que a dualidade “esquerda e direita” era incapaz de abranger todo o espectro do pensamento político de um indivíduo, e foi assim que criou o famoso Diagrama de Nolan, onde temos, além do eixo “esquerda e direita”, um novo eixo onde os indivíduos podem defender a “liberdade” ou o “totalitarismo”.

Na prática, que o seu Diagrama faz é associar a ideia de “liberdade individual” a “esquerda”, e a ideia de “liberdade econômica” a “direita”. Há muitos esquerdistas que podem chegar a conclusão de que tudo o que Nolan pretendeu com seu Diagrama foi colocar o libertarianismo “no melhor dos mundos”. De fato, provavelmente foi isso mesmo, mas ainda assim o seu Diagrama, que é também uma espécie de “teste ideológico”, tem como grande virtude a capacidade de nos fazer enxergar as vertentes políticas como algo muito mais diverso e complexo do que “o preto no branco” ou “o bem versus o mal”.

Poderíamos, por exemplo, tentar situar as duas potências mundiais em seu Diagrama: EUA e China. Diríamos, então, que nos EUA há tanto liberdade econômica (baixa intervenção do Estado no Mercado) quanto individual (democracia plena, ausência de censura governamental etc.). Já na China teríamos algo como o oposto – baixa liberdade econômica (grande intervenção do Estado no Mercado) e individual (não há eleições diretas para a presidência, buscas na internet são censuradas etc.). Muito bem, ainda que o cenário fosse assim, tão “preto no branco”, fato é que os dois sistemas parecem funcionar muito bem, afinal estamos falando das duas maiores economias do globo.

Abaixo da superfície e das aparências, no entanto, podemos encontrar “sinais opostos” em ambos os casos: graças a Edward Snowden, “desertor” da grande agência de espionagem norte-americana, sabemos hoje que os olhos virtuais dos EUA representam uma grande ameaça a privacidade online global. Na China, já sabíamos que isso ocorria. Nos EUA, descobrimos há pouco tempo. Da mesma forma, o próprio gigante asiático, a despeito de continuar em teoria sendo um Estado comunista, é hoje a grande locomotiva do capitalismo global. Certamente há uma incômoda ironia no fato de uma das empresas de ponta da tecnologia mundial, a Apple, delegar boa parte do trabalho de montagem dos seus gadgets a trabalhadores chineses que, para dizer o mínimo, carecem dos mais básicos direitos trabalhistas, e por isso mesmo são baratos, muito baratos...

No fim das contas, todo esse jogo de desfiles de bois e construção de diagramas é absolutamente incapaz de abranger todas as ideias políticas que desfilam pelo mundo. Diz-se que na democracia o convívio de tais ideias, assim como o surgimento de ideias novas, é o grande objetivo da Política. Mas, e quando algumas ideias têm mais “poder de barganha” do que outras? E quando as ideologias são compradas, e a democracia se torna nada mais do que um “grande negócio”? Será que o pior totalitarismo é aquele que se percebe a olhos vistos, como um grande Leviatã, ou será que há formas ainda piores de represamento das ideias, e bem mais sorrateiras?

» Em breve, o Grande Negócio Eleitoral...

***

» Ver os posts mais recentes desta série

Crédito da foto: O bom daqui/Divulgação

Marcadores: , , , , , , ,

Acompanhar

Digite seu e-mail abaixo para receber atualizações do blog:

O Autor

Rafael Arrais

ver profile

design by Ayon

Nova Acrópole

Guiato

Blogger

blogspot visit counter



Licença Creative Commons Alguns textos publicados neste blog encontram-se registrados na Biblioteca Nacional