27.11.14

O Livro da Reflexão

Segue abaixo o Prefácio para uma edição muito especial das Edições Textos para Reflexão, cujo lançamento será em meados de 2015...


Lá se vão oito anos desde que publiquei o primeiro dos Textos para Reflexão. Mas o que é o tempo não é mesmo? Disse Manoel de Barros que “o ser biológico é sujeito à variação do tempo, o poeta não”. Sinto que a poesia me faz viver um pouco deslocado do tempo, ao menos do tempo do mundo. Não me entenda mal, eu sei bem que a Disney lançará mais filmes do Star Wars, que o Brasil perdeu de 7 a 1 para a Alemanha em casa, e que há uma grave crise econômica na Europa, mas perto de alguns poemas de Fernando Pessoa, ou de alguns diálogos de Sócrates com seus jovens amigos, nada disso me comove como deveria... Eu simplesmente me esqueço de trocar meu smartphone no fim do ano, devo ser um desleixado.

Na verdade quase tudo o que sou devo ao que consegui desvelar da poesia. Foi assim que conheci a mulher que amo, que aprendi a fazer design para a web e, enfim, que encontrei a poetisa que me fez iniciar este blog – a história não é tão bonita quanto parece (ou, quem sabe, seja de uma beleza triste), mas ela também vem descrita nesta edição...

Com o passar dos anos, de tanto escrever, acabei chegando a alguns textos relativamente relevantes que me deram a honra de alcançar mais de 6 mil seguidores no Facebook e, o que é mais importante, uma boa dúzia de amigos e fiéis leitores do blog. Volta e meia eu me refiro “aos autores” do meu blog no plural, mas isto não quer dizer bem que faço psicografias (embora todo poeta seja um fingidor...), quer dizer somente que creio que as pessoas dão mais relevância a blogs com vários autores, e penso eu que até a pessoa descobrir que se trata de um blog de um autor só, talvez ela já tenha sido fisgada por alguma luz que refletiu por lá.

Mas fato é que o Textos para Reflexão é um blog pessoal, bem mais pessoal do que eu gostaria. Talvez fosse inevitável, afinal todo escritor que se preze escreve primeiro para si mesmo. É bom contar com mais de uma dezena de comentários em alguns posts, mas a verdade é que eu sempre escrevi antes para organizar minhas próprias ideias, e muito do que eu escrevi, escreveria de qualquer jeito (o mesmo fez Montaigne, e para o bem ou para o mal não existiam blogs na sua época)...

A grande questão é que tenho a sorte de trabalhar em home office, e desde que parei de jogar World of Warcraft tenho escrito bastante, bastante coisa mesmo. Talvez seja impossível acompanhar tudo (eu mesmo me esqueço de muito do que já postei), e daí que pensei que seria interessante poder editar os melhores contos e artigos desses anos todos, catalogados por temas específicos. Dessa forma, cheguei a este primeiro volume do Livro da Reflexão, onde pretendo abordar o amor, a morte e a existência, todos eles temas recorrentes do blog.

Nesta edição, cada capítulo tratará de um tema, mas é bem possível que eles também estejam espalhados por entre tantos textos. Espero que a presente organização sirva como uma espécie de guia de leitura minimamente agradável.

Acho que era só isso o que eu tinha para dizer neste prefácio... Ah, sim, e se você por acaso nunca ouviu falar do meu blog, segue um breve resumo do que ele pretende tratar:

Textos para Reflexão é um blog que fala sobre filosofia, ciência e espiritualidade. Onde se busca a sabedoria tanto no Evangelho de Tomé quanto no Cosmos de Carl Sagan. Onde as palavras nada mais são do que cascas de sentimentos, embora a poesia ainda assim possa nos levar a um outro mundo. Onde toda religião se pratica no pensamento, e onde Deus é nosso amor...


Rafael Arrais
27.11.2014

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E, como é de costume, já temos a capa prontinha (a imagem é baseada em arte de Banksy):

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Obs. (1): O Livro da Reflexão, volume 1: Amar e perder será inteiramente gratuito na versão digital!
Obs. (2): Também estamos recolhendo depoimentos dos leitores do blog para constarem no livro. Se você tem alguma coisa a dizer sobre o Textos para Reflexão – algo curtinho mesmo, com cerca de 1 a 3 parágrafos –, por favor nos envie uma mensagem por nossa página no Facebook ou, se preferirem, por e-mail: rarrais@yahoo.com

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24.11.14

Unicidade

Há muitos agnósticos que creem que Deus talvez até exista, mas pouco intervem. Equivale a dizer que, na prática, todo o debate acerca da existência de Deus é um tanto inútil, já que nem mesmo Ele está interessado em intervir para dar a discussão por encerrada. A verdade é que não se convence ninguém da existência de Deus – há muitos que foram convencidos da existência do Diabo e que, por temerem o seu Lago de Enxofre, acabam por achar melhor crer num Deus salvador. Mas como pode Deus salvar, se não intervem?

Já dizia o velho Lao Tse que o melhor governante é o governante desconhecido, o que faz com que seu povo prospere por si mesmo e nem se preocupe com quem está sentado nalgum trono distante... Trazendo para a época atual, poderíamos imaginar duas universidades: a primeira, uma instituição de ponta, onde todos os professores e funcionários seguem a um estatuto muito bem elaborado, que já previra todos os percalços do caminho, e mantém seus alunos em constante aprimoramento; a segunda, um caos completo, onde um estatuto falho faz com que funcionários e professores não tenham regras claras a seguir, e não consigam manter o bom funcionamento da instituição nem tampouco manter seus alunos interessados nas aulas...

Onde vocês acham que um reitor teria de intervir mais, na primeira ou na segunda universidade?

Ora, nós estamos acostumados a questionar e a reelaborar constantemente nosso conhecimento, nossa ciência, nossa arte e até mesmo nossas doutrinas religiosas. Porém, não é sempre mirando a ordem grandiosa da Natureza que temos, passo a passo, evoluído ao longo de tantas eras humanas?

Foi preciso, afinal, nos apoiarmos em ombros de gigantes para que pudéssemos enxergar mais adiante. E os gigantes eram nós mesmos... Mas todos os gigantes da Terra, no final das contas, tinham os pés plantados no solo. A relva nos precede tanto quanto o nascer e o pôr do sol. As leis naturais, as forças naturais, as grandezas naturais, as simetrias naturais, estão a nossa volta desde que aprendemos a captar a luz e, com ela, formar as mais belas e variadas formas em nossas mentes ancestrais... Até onde isso leva?

Dizer "Deus é a Natureza" não é bem o problema, o problema é crer que isto seria reduzir a Deus. Pois a questão é que por "Natureza" muitos compreendem somente o seu Mecanismo, e daí reduzir Deus a "mera Natureza" não seria tão diferente de reduzir a Natureza a "mero Mecanismo". É o Sentido, o Sentido que traz para a nossa alma um vislumbre da grandiosidade de tudo o que há!

A ciência, infelizmente, nada tem a nos dizer acerca deste Sentido (embora não deixe de indicar o caminho)... É necessário elaborarmos o estatuto de uma nova Academia, de uma Universidade da Alma, e a sua primeira aula será: Unicidade.

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Crédito da imagem: Google Image Search

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19.11.14

Pela manhã...

Atentem para a imagem acima. Parece uma banda dessas que tocam na rua e vendem CDs não? Bem, a peculiaridade é que eles tocam nas ruas de Istambul, e quase sempre em hebraico... Além de contarem com uma das cantoras mais belas do mundo, mas já voltamos a eles...


Salomão ibn Gabirol foi um filósofo neoplatônico e poeta judeu que viveu na Espanha durante o período de dominação islâmica, no século XI. Abaixo lhes trago minha tentativa de tradução para o seu poema Shachar avakshecha (Pela manhã), que embora certamente esteja bem aquém do original hebraico, acredito que tenha mantido parte da sua essência:

Pela manhã eu busco a Ti,
Tentei encontrá-Lo no refúgio das rochas,
Mas você só se pronuncia no momento certo
Entre a alvorada e a tardinha.

Sob a Sua grandeza eu me prostro,
E permaneço com este temor,
Pois sei que todos os meus pensamentos mais ocultos
Estão nus, diante de Ti.

O coração e a voz pouco podem fazer
Ante a Sua glória;
As histórias permanecem pequenas,
Assim como nossas almas.

Porém, da mesma forma como o som dos tambores
Podem Lhe parecer agradáveis,
Eu Lhe louvarei em meu cântico
Enquanto Seu hálito passa através de mim.


Pois bem, retornemos a tal banda...

Light in Babylon (Luz na Babilônia) é um grupo musical turco que traz uma fusão de diferentes etnias e culturas. Michal Elia Kamal (cantora e compositora) é nascida em Israel, mas sua família tem origem iraniana; Metehan Çifçi (santour, um instrumento exótico) é nascido na própria Turquia; e Julien Demarque (violão) veio da França. Suas influências musicais aliam a tradição cosmopolita de Istambul com as antigas tradições sefarditas (judeus da Península Ibérica), e o som de sua música parece se conectar imediatamente com a alma das pessoas.

Abaixo, temos a versão cantada do poema acima, com melodia de autoria dos integrantes da banda, e com a voz celestial de Michal... Sim, ela é mesmo uma das cantoras mais belas do mundo, em todos os sentidos:

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» Veja outra versão ao vivo da mesma música (Sokak Festivali)

Crédito da imagem: Divulgação (Light in Babylon)

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16.11.14

O que são, afinal, a direita e a esquerda?

Parte da série “Entre a esquerda e a direita”, onde Alfredo Carvalho e Igor Teo respondem a uma mesma pergunta (a cada post). Para conhecer mais sobre a proposta da série e seus participantes, não deixe de ler nossa apresentação.

[Raph] Uns dizem que tudo começou com Hobbes e Rousseau, mas a história mais aceita é a que diz que foi durante a Revolução Francesa a origem da separação ideológica entre os que sentavam à esquerda ou à direita no plenário da Assembleia Constituinte: os girondinos sentavam-se na direita e defendiam os atuais detentores do poder econômico, enquanto os jacobinos e os cordeliers sentavam-se na esquerda e defendiam a reforma do sistema. Séculos depois, atualmente costuma-se classificá-los entre socialistas e neoliberais... No entanto, seria mesmo possível reduzir o pensamento político de um indivíduo ou grupo de indivíduos a esta dimensão restrita de “esquerda” e “direita”? Em suma, o que são, afinal, a direita e a esquerda?

[Teo] Primeiramente, gostaria de parabenizar pela excelente iniciativa e agradecer o convite para participar do debate. Antes de responder propriamente a questão, gostaria de apresentar um interessante recurso que nos ajuda a pensar este dilema: a Análise Institucional. O movimento institucionalista desenvolveu-se na França em meados do século passado e tem o Brasil hoje como um dos locais em que ele pôde fixar-se, tendo alcançado interessantes resultados, sobretudo na área da saúde mental. Como afirma Gregorio Baremblitt em seu livro Compêndio de Análise Institucional e Outras Correntes, a sociedade é formada por uma rede de instituições, estas as composições lógicas, que segundo o grau de formalização que adotem podem ser leis, normas, e quando não enunciadas de maneira manifesta podem ser hábitos, costumes, crenças, etc. Há diversos tipos de instituições, como a família, a divisão do trabalho, a educação, a religião, a justiça, todas com a função de regular a vida humana segundo seus próprios modos de organização. Quando uma determinada ideia está bem consolidada, sendo amplamente aceita e repetidamente executada, dizemos que se trata do instituído. Quando surge uma nova ideia que deseja substituir a anterior, chamamos de instituinte. A Análise Institucional trata-se, deste modo, do estudo e prática da dinâmica instituído-instituinte.

O instituído é uma força conservadora, que tenta se manter presente, enquanto o instituinte é uma força revolucionária que tenta suplantar o instituído. Neste contexto, é muito importante entender que não se trata de bom ou mal, ou qualquer tipo de julgamento moral. Não é porque algo é novo que é bom, como não é porque algo é tradicional que significa ser melhor. O que hoje temos como instituído, um dia foi uma força instituinte que conquistou seu lugar, e o que hoje vemos como instituinte, muito provavelmente virá a se tornar um dia o instituído. É neste sentido que podemos entender as questões históricas e ideológicas entre Direita (instituído) e Esquerda (instituinte).

Desde que a burguesia assumiu o lugar principal na sociedade e o capitalismo se tornou instituído, podemos pensar a Direita como os defensores desta ordem, e a Esquerda como aqueles visam combatê-la (ou ao menos tentar torná-la menos perversa, embora existam discordâncias se podemos chamar estes últimos realmente de esquerda). Deste modo, só faz sentido pensar em direita e esquerda no contexto de nossa sociedade. Ainda que o capitalismo tenha se reformulado cada vez que enfrentou uma crise e as características da burguesia dos tempos de Marx (a detentora dos meios de produção) não seja tão parecida com a atual (muito mais sustentada no capital especulativo), ainda há algo em comum: a geração de lucros para si.

Ser de Direita, neste sentido, é concordar com o capitalismo e suas instituições. É acreditar nos valores do individualismo, da meritocracia e da primazia do lucro. Em alguns casos ainda é possível ver sujeitos que defendam seus valores mais radicais, como o tradicionalismo da família (ser contra modelos diferentes de família que o heterossexual nuclear), o machismo (ser contra a igualdade de direitos entre homens e mulheres), entre outros. Felizmente, a extrema-direita não é absoluta, então é possível encontrar muitas pessoas de pensamento direitista com que podemos estabelecer um bom diálogo.

Ser de Esquerda, como disse Deleuze em uma excelente entrevista, é uma questão de percepção. Não é questão de ter boa alma, ou algo do gênero, mas perceber que as minorias somos todos nós. É perceber que os direitos dos trabalhadores, dos negros, das mulheres, dos homossexuais, dos pobres são direitos fundamentais. É perceber que o capitalismo é um sistema que explora os recursos naturais do planeta até causar sua completa destruição. É perceber que mesmo que o modelo liberal possa ter pontos positivos, é para as classes mais altas que ele é recompensador, pois para quem está em baixo na pirâmide social, a miséria não é algo a se orgulhar. É perceber que a meritocracia e a competitividade são valores falsos, e que eles jamais podem estar acima do bem comum. É perceber que o acesso a justiça, saúde e educação de qualidade deve ser para todos, e não apenas para quem pode pagar seu alto preço. É perceber que as promessas do capitalismo são falsas, pois há uma desigualdade constitutiva em que para existir acumulação de capital, necessariamente há exploração e segregação. É perceber que ter poder e riqueza no sistema capitalista não é reflexo de atitudes éticas, sendo justamente o contrário comum na selvageria do mercado. É perceber que o aumento da criminalidade tem relação com a desigualdade social e a exposição do sujeito ao mundo da felicidade pelo consumo. É perceber que, a despeito do individualismo, precisamos encontrar soluções coletivas para um bem-estar coletivo.

E ao percebermos que o governo é a representação da ordem e do instituído, percebemos que não há governos genuinamente de esquerda. Existem alguns governos favoráveis às causas da esquerda, mas a esquerda não se identifica com um partido ou um político, nem pode se deixar ser capturada por eles. Ser Esquerda é ser uma força instituinte numa sociedade em que o instituído é o capital e os seus meios de exploração. Após a queda do comunismo e a dificuldade do socialismo ideal se realizar, ser de Esquerda tem menos a ver com levantar bandeiras socialistas (embora a participação do socialismo foi e ainda é fundamental) do que estar disposto a pensar e lutar por alternativas.

[Carvalho] Em sua origem, os conceitos de “direita” e “esquerda” refletiam a organização incidental, nos assentos de uma sala, de dois grandes grupos razoavelmente distintos. De um lado os monarquistas conservadores, defensores do Ancien Régime pertencentes à nobreza e ao clero [1], e de outro os republicanos revolucionários, a maioria membros da próspera classe burguesa. Esta distinção permaneceu mais ou menos constante até a segunda metade do século XIX, quando os marxistas fizeram a proeza de lançar a burguesia para o outro lado do espectro, e assumiram a esquerda para si.

Basta observar essa inversão para compreender que não é fácil conceituar os termos. Ora, se a burguesia liberal era a personificação da esquerda em um século e da direita no outro, sobramos com duas opções: ou admitimos que a utilização desses termos ao longo do tempo é, assim como foi na origem, meramente circunstancial, servindo apenas como rótulos ou coletes coloridos para organizar os “times” adversários em campo; ou então tentamos identificar uma ou mais características recorrentes nas ideologias políticas dos dois últimos séculos a fim de compará-las com os grupos originais franceses e delinear seus caminhos pela história.

Para falar a verdade, eu nem acho que a primeira opção anule a segunda, por serem ambas razoáveis. Tanto considero verdade que os termos sejam rótulos simplistas, quase sempre utilizados por critérios de conveniência, como também entendo que, justamente pela simplicidade, essa dicotomia tem o seu valor didático, além do valor simbólico da referência histórica que carrega.

Assim sendo, o critério de classificação que considero mais relevante para compreender a política geral possui a vantagem de que tanto pode ser utilizado de forma independente quanto em correlação com a organização espacial dos grupos na Assembleia dos Estados Gerais, e é aquele que simplesmente divide os movimentos políticos entre revolucionários e conservadores, estes à direita e aqueles à esquerda. Como qualquer classificação binária, ela é limitada e certamente não é capaz de descrever toda a complexidade do pensamento político de um grupo de pessoas, tampouco de um único indivíduo, mas dá indicações muitíssimo relevantes sobre a tonalidade geral e sobre as prováveis consequências práticas de cada um dos ideários.

De modo resumido, podemos dizer que as ideologias conservadoras são aquelas que se legitimam com base na experiência do passado, enquanto as revolucionárias o fazem em nome das perspectivas de futuro. Conservadores têm a tendência natural de se opor a propostas de mudanças, exceto as lentas e cuidadosas, admitem a natureza humana como intrinsecamente falha, e buscam preservar as instituições, tradições e hábitos que, mesmo imperfeitos, tenham sobrevivido aos testes do tempo.  Em contrapartida, revolucionários são os que pretendem modificar profunda e drasticamente todas essas mesmas coisas, através da ação política, em nome de algum futuro utópico.

Colocando dessa forma, até pode parecer que os dois lados são igualmente importantes para o processo de evolução da sociedade, haja vista que o pensamento revolucionário tenderia a “criar movimento” (ou “progresso”), enquanto o pensamento conservador seguiria na linha de “manter a ordem” [2], constituindo uma espécie de yin-yang da política. Entretanto, ainda que eu não negue se tratar de uma ideia sedutora, também acredito que ela passa uma falsa impressão de simetria.

Sem dúvida, considero bastante compreensível que pessoas em situações sociais desvantajosas sintam-se mais ansiosas por mudanças e por isso se deixem encantar por ideologias revolucionárias que prometem um belo futuro igualitário, mas a maioria dessas pessoas não faz ideia – nem mesmo os próprios ideólogos – de quais serão as reais consequências dessas transformações. São sempre conjecturas, algumas mais e outras menos razoáveis, cujos efeitos práticos a história nos mostra que apenas eventualmente envolvem progresso, mas quase sempre às custas de muita destruição. Enfim, a verdade é que, no mundo real, conservadores e revolucionários deixam marcas muito diferentes na história, e mesmo quando computamos os erros de ambos, a mão esquerda resta sempre mais suja de sangue do que a direita.

***

[1] Isso vale até a dissolução dos Estados Gerais. A partir da Assembleia Nacional quase todos os nobres e clérigos foram excluídos do processo e “a direita” foi ocupada por revolucionários moderados que somente desejavam substituir a monarquia absolutista por uma constitucional.

[2] O historiador político Francois Goguel, ao descrever a política francesa, chamava o conjunto dos partidos de esquerda de “partido do movimento” e dos de direita de “partido da ordem”.

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» Ver todos os posts desta série

Crédito da imagem: Google Image Search/raph (Obs.: A imagem traz associações propositadamente dúbias, o que faz parte do tema da pergunta :)

O debate continua nos comentários, não deixem de acompanhar.

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12.11.14

Filosofia em 8 bits

Um dos meus personagens preferidos dos games de infância é o Red Mage (Mago Vermelho) do Final Fantasy I, um game de RPG clássico lançado para o antigo Nintendo em 1990 (nos EUA). Na época eu não compreendia ao certo o meu fascínio por ele, somente muitos anos depois é que percebi que era pelo fato de ele trilhar o "caminho do meio". Sim, isto porque o Red Mage podia usar tanto magias de combate quanto magias de cura, ao contrário dos outros personagens magos, o Black Mage (Mago Negro) e a White Mage (Maga Branca), que se limitavam somente a um dos dois espectros.

Algo semelhante ocorreu com os quadrinhos de super-heróis que eu lia desde praticamente pouco após aprender a ler: somente anos mais tarde é que fui perceber o quanto a mitologia tinha a ver com tudo aquilo. No caso do Red Mage, o que me fascinava era a filosofia da coisa, e mais tarde me tornei um grande entusiasta do taoismo... Estou trazendo tudo isso para dizer que não devemos nos basear em pré-conceitos para evitar o contato com a filosofia e as mitologias. Se formos ouvir a "opinião comum", iremos acabar acreditando que a filosofia "é muito complexa e não serve para quase nada", e que as mitologias "são coisa do demônio" (exceto a mitologia bíblica, é claro).

No caso da filosofia, eu só fui mesmo me interessar por ela quando fui obrigado a ler Kant por conta de uma aula de estética (filosofia da arte) na faculdade (Belas Artes, UFRJ). A despeito de eu haver me "iniciado" na filosofia com um dos seus escritores de texto mais complexo (Kant costuma fazer resumos do seu próprio texto ao longo do mesmo livro!), acabei chegando nos textos de Platão e dali para frente um novo mundo se descortinou para mim (ou, para quem acredita, relembrei do que já havia lido há muitos séculos atrás). Na medida em que fui conhecendo Platão, Sócrates, Lao Tse, Agostinho, Nietzsche, Schopenhauer, Espinosa, etc., uma questão sempre me assombrava: "Nossa, porque só fui começar a ler isso na faculdade, minha adolescência teria sido tão mais fácil se os houvesse encontrado antes!"

Ou seja, a "opinião comum", como é tão costumeiro, acabou atrasando em alguns anos o meu desenvolvimento intelectual e espiritual... Mas, ainda que até hoje você não tenha tomado coragem para ler um grande filósofo, nunca é tarde para começar. Além de livros como O mundo de Sofia (de Jostein Gaarder) e O livro da filosofia, há inúmeras outras formas de se tomar um contato inicial "mais amistoso" com as aparentes complexidades filosóficas. Uma delas é exatamente o 8-Bit Philosophy, uma série de vídeos muito divertida e instrutiva que traz uma rápida introdução ao pensamento de alguns filósofos célebres usando o visual dos games das décadas de 1980 e 1990.

E, graças a generosidade de Rafilsky McFinnigan, agora podemos vê-los com legendas em português. O primeiro vídeo da série fala sobre Platão e o Mito da Caverna:

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» Veja os demais vídeos legendados da série 8-Bit Philosophy

» Veja meus comentários acerca do Mito da Caverna (série com 2 posts)

Crédito da imagem: Square Enix/Final Fantasy (montagem por raph)

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