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7.12.17

Maledicência

Peçonha .:.

"Se você dirige ou conhece o trânsito de nossas grandes cidades deve ter notado que, por ocasião d'algum acidente, o nó que se forma nas estradas deve-se muito mais a curiosidade mórbida em ver o sangue fresco do infortúnio do que propriamente a razões técnicas.

Se você tem um aparelho de TV dentro de casa talvez tenha notado que um dos gêneros de maior audiência e destaque - por vezes dominical - são aqueles que mostram a queda, o deslize, o desastre e a vergonha do outro. Famílias inteiras se reúnem sob o silencioso prazer de ver e rir (!) do tombo de outros seres humanos.

Questões filosóficas a parte, a maledicência apresenta fundamentalmente as mesmas bases: o indivíduo encontra nesta uma oportunidade de ¹criar um laço de confidencialidade com seus ouvintes, ²ver-se como superior por não ter caído nas mesmas falhas e ³comprazer-se na referida infelicidade.

No geral o hábito de falar mal dos outros expressa não uma real vontade de ajudar o ouvinte, alertá-lo quanto a possíveis problemas ou mesmo retificar quaisquer erros mas, em realidade, o desejo secreto de espalhar o veneno, disseminar a discórdia, empreender pequenas vinganças e crescer as custas da desgraça alheia.

Quem tem o sombroso costume da 'fofoca', quem toma parte em círculos de 'linchamentos' (físicos, sociais ou virtuais) e se apressa em atirar as primeiras pedras, pode até ser que tenha de fato razão mas não é confiável pela simples razão de que se o fez ontem e o faz hoje, certamente o fará amanhã.

Aquele que fala mal de 'X' para 'Y' agora e dança sobre o caixão de suas imperfeições, não resistirá a tentação de fazer isto com o próprio 'Y' quando a oportunidade se apresentar...

Sim, claro, tem-se todo o direito - e até o dever - de lutar por justiça, equiparações e esclarecimentos; mas se os atos e palavras reverberadas não possuem qualquer outro efeito além do tripúdio vazio, a chacota infértil e a retaliação dissimulada, corre-se sim o perigo de, no mínimo, engasgar-se com a própria peçonha!"

Caciano Camilo Compostela, Monge Rosacruz – Contato: facebook.com/mongerosacruzcacianocompostela

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Crédito da imagem: Priscilla Du Preez/unspalsh

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5.12.17

Milan Kundera e a Astrologia

Trecho de A Imortalidade, romance de Milan Kundera. Os comentários ao final são meus.


Sobre o mostrador de um relógio, os ponteiros giram em círculo. O zodíaco também, como é desenhado pelos astrólogos, tem o aspecto de um mostrador. O horóscopo é um relógio. Quer se acredite ou não nas previsões astrológicas, o horóscopo é uma metáfora da vida, e assim sendo, encerra uma grande sabedoria.

Como é que um astrólogo desenha seu horóscopo? Traça um círculo, a imagem da esfera celeste, e o divide em doze setores cada um representando um signo: Carneiro, Touro, Gêmeos, etc. Em seguida, no círculo zodiacal, ele inscreve os símbolos gráficos do Sol, da Lua e dos sete planetas nos lugares precisos onde estavam esses astros no momento em que você nasceu. Como se, sobre um mostrador de relógio normalmente dividido em doze horas, inscrevesse anormalmente nove números suplementares. Nove ponteiros percorrem esse mostrador: são também o Sol, a Lua e os planetas, mas da maneira como giram no céu durante toda a sua vida. Cada planeta-ponteiro está assim incessantemente numa nova relação com os planetas-números, esses pontos imóveis do seu horóscopo.

A configuração singular que tinham esses planetas no momento em que você nasceu é o tema permanente de sua vida, sua definição algébrica, a impressão digital de sua personalidade; os astros imobilizados sobre seu horóscopo formam entre si ângulos cujo valor em graus tem um significado preciso (positivo, negativo, neutro): imagine, por exemplo, que seu Vênus amoroso se ache em conflito com seu Marte agressivo; que o Sol de sua personalidade seja fortificado por sua conjunção com o enérgico e aventureiro Urano; que a sexualidade simbolizada pela Lua seja sustentada pelo astro delirante que é Netuno, e assim por diante. Porém, durante seu trajeto, os ponteiros dos astros vão tocar cada um dos pontos imóveis do horóscopo, pondo assim em jogo (debilitante, energizante, ameaçador) diversos componentes de seu tema vital. A vida é bem assim: não se parece com o romance picaresco onde o herói, de capítulo em capítulo, é surpreendido por acontecimentos sempre novos, sem nenhum denominador comum; é parecida com essa composição que os músicos chamam tema com variações.

Urano move-se no céu num passo relativamente lento. Leva sete anos para percorrer um signo. Suponhamos que hoje esteja numa relação dramática com o Sol imóvel no seu horóscopo (digamos que estejam a noventa graus de distância): você terá um ano difícil; em vinte e um anos a situação se repetirá (Urano estando então a cento e oitenta graus do seu Sol, o que tem o mesmo significado nefasto), mas a repetição será apenas aparente, porque nesse ano, no mesmo momento em que Urano ataca o seu Sol, Saturno no céu se encontrará com Vênus no seu horóscopo num relacionamento tão harmonioso que a tempestade passará por você na ponta dos pés. Como se você fosse atingido por uma mesma doença, mas desta vez sendo tratado num hospital fabuloso, onde, em vez de enfermeiras impacientes, estariam anjos.

A astrologia, parece, nos ensina o fatalismo: você não escapará do seu destino! A meu ver, a astrologia (preste atenção, a astrologia como metáfora da vida) diz uma coisa mais sutil: você não escapará ao tema de sua vida! Isso quer dizer que será uma quimera tentar implantar no meio de sua vida uma ‘vida nova’, sem nenhum relacionamento com sua vida precedente, partindo do zero, como se diz. Sua vida será sempre construída com os mesmos materiais, os mesmos tijolos, os mesmos problemas, e o que você poderia considerar no princípio como uma ‘vida nova’ logo aparecerá como uma simples variação do já vivido.

O horóscopo parece com um relógio, e o relógio é a escola da finitude: assim que um ponteiro completou um círculo para voltar ao lugar de onde partiu, uma fase termina. No mostrador do horóscopo, nove ponteiros giram em velocidades diferentes, marcando a todo instante o fim de uma fase e o começo de outra. Em sua juventude, o homem não está em condições de perceber o tempo como um círculo, mas apenas como um caminho que o conduz direto para horizontes sempre diversos; não percebe ainda que sua vida contém apenas um tema; perceberá isso mais tarde, quando a vida compuser suas primeiras variações.


Comentários
Mesmo que permaneça para mim essencialmente como um idioma alienígena, a Astrologia ainda é um enigma que, creio eu, alguns estudiosos de fato adentraram, mesmo que apenas com os tornozelos na água rasa. A primeira vez que ouvi falar no Zodíaco como uma espécie de marcador dos ponteiros do relógio celeste, foi através dos textos do meu amigo Marcelo Del Debbio. Neste sentido, muito mais de fotografia do estado atual da mente universal, do que de "previsões do futuro e influência dos astros", creio que a Astrologia possa de fato servir como um poderoso instrumento de autoconhecimento. Quisera eu ter a fluência em tal língua. Como não tenho, ao menos posso me dar por satisfeito em admirar a elouqência daqueles que estão no beabá deste Alfabeto da Alma. Milan Kundera demontra ser mais um deles.

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Crédito da imagem: Google Image Search (Relógio Astronômico de Praga)

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28.11.17

No jardim

No jardim os bambuzais
envergam e dançam com os ventos,
até se aquietarem com as brisas
que vão soprando fraquinho,
cada vez mais devagar,
devagarinho
até parar,
e aí, tudo é paz.

Fora do jardim os carros passam a mil por hora,
e buzinam para quem vai a frente,
e caçoam de quem fica muito para trás.
Lá tudo tem um tempo cronometrado,
tudo passa depressa e vale alguma comissão;
tudo, tudo, menos a morte, é claro,
pois que lá ninguém é educado
para a dor e a tristeza;
lá fora ninguém pode jamais
simplesmente se deixar levar
pela correnteza.

Enquanto isso, aqui no jardim,
o espírito já declarou o óbito do ego,
tudo que havia para doer já doeu,
e todas as coisas que existem no tempo
são tão relevantes quanto o início e o fim
de mais uma dança de bambuzais...

O vento passou, e voltou uma vez mais;
nesse eterno e ligeiro vai e vem
toda a mata segue a bailar.
No fundo, todos somos iguais;
mal sabemos quem é quem,
quiçá aonde tudo isso vai dar...


raph'17

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Crédito da imagem: raph (Jardim Botânico do Rio de Janeiro)

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