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16.1.17

Eles não sabem o que fazem

Noite na periferia paulista. José havia acabado de voltar do hospital com a filhinha de 8 meses. Quase teve um troço com o diagnóstico do médico, “sífilis congênita”, mas ficou mais tranquilo quando lhe explicaram que não era nada grave. Na calçada em frente de casa, José explicava a dois amigos como tinha sido a viagem até o hospital. Todos jovens, na casa dos 20 e poucos anos, mas apenas ele já havia se tornado pai. Foi “sem querer”, e a filhinha ficava mais na casa da avó materna. “Pelo menos não abandonei minha filha” – gostava de dizer aos amigos, o que sempre deixava sua própria mãe, Dona Maria, orgulhosa (ela havia criado José sem ajuda de pai algum).

De repente, um barulho de correria. Passaram pela calçada uns 3 ou 4 sujeitos correndo apavorados. “Foge, polícia!” – um deles gritou... Na verdade José mal teve tempo de entender o que estava acontecendo, logo cerca de 3 motos da polícia militar de São Paulo cercaram a todos, e mandaram encostar no muro do outro lado da rua, com as mãos para cima. Na revista, foram encontrados com o grupo 20 pinos de cocaína, uma quantidade irrisória de maconha, e cerca de 37 reais. Os 37 reais estavam justamente com José, que era o troco dos 50 reais que sua mãe havia lhe emprestado para levar a bebê no hospital e “tomar um suco”. Ele era ajudante de pedreiro, mas estava desempregado.

“Manda todos os vagabundos para a delegacia”, disse um dos policiais. Naquele dia José foi liberado, mas depois teve de ir com a mãe se defender da acusação de tráfico de drogas na audiência do Tribunal de Justiça. Dona Maria não pôde entrar... Antes de José o seu advogado, um defensor público, fez perguntas aos policias: “Vocês já o conheciam?”. A resposta foi “não”. “A droga estava no bolso da blusa ou da calça?”. “Da blusa”. “Havia mais gente na rua?”. “Sim, mas alguns conseguiram fugir”. A promotoria não se manifestou.

Durante os cerca de 3 minutos que teve para se defender na frente da juíza, José explicou que havia acabado de voltar do hospital (como sua mãe lhe instruiu a fazer). “Sífilis?”, perguntou a juíza. “Sim”, respondeu José. “Quantos anos ela tem?”. “8 meses”. “Não deve ser nada grave”, amenizou a juíza... O advogado também tentou tranquilizar José: “Foi o que falei, você é réu primário. Vão negar nosso recurso, normal. Você vai ficar oito meses preso e depois entra no regime semiaberto”. Antes de sair, algemado, José pediu ao advogado para que ele mandasse um beijo para a mãe dele.

Tal relato é uma ficção, mas baseado em fatos reais e corriqueiros. Desde 2006, com a promulgação de uma nova lei de combate às drogas, o crescimento de casos como esse foi vertiginoso. Segundo dados de 2014, grande parte dos encarcerados no Brasil tem o ensino fundamental incompleto (53%) e está na cadeia por conta de tráfico de drogas (27%). No mesmo relatório, vemos que apenas 1% dos presos têm o ensino superior completo, e aqueles presos por casos envolvendo assassinato, como homicídio ou latrocínio, não chegavam a 20% do total.

A primeira coisa que um réu primário como José precisa decidir ao entrar na cadeia é se vai ou não se juntar a uma das facções criminosas. Em se tratando de São Paulo, é quase certo que a única opção disponível seja mesmo o Primeiro Comando da Capital (PCC), que já domina as prisões paulistas há tempos, visto que também administra o próprio tráfico de drogas na Grande São Paulo.

O PCC surgiu no início da década de 1990 num presídio do interior paulista. Oito presidiários se juntaram para formar uma espécie de “irmandade” e assim tentar se proteger da violência nas cadeias. Antes do PCC os réus primários geralmente sequer tinham essa opção de “se juntar a irmandade para se proteger”. Muitas vezes, eram “vendidos” como escravos sexuais para os presos de alta periculosidade, os “bandidões”. Eram usados de todas as formas, até como “cofre” para guardar objetos no ânus ou no estômago. Apesar de tudo, antes do PCC, o destino de gente como José era geralmente muito mais trágico. Hoje, gente como José pode optar por se juntar ao PCC e se manter vivo, pelo menos nas prisões onde não há guerra de facções criminosas.

Outra grande facção criminosa no país é o Comando Vermelho (CV), ainda mais antiga que o PCC. Até outro dia, o CV, que é carioca, dominava o negócio de drogas no maior ponto de vendas da América Latina, a Rocinha. O PCC tomou o ponto sem disparar um único tiro, apenas pela via da negociação comercial. Explica-se: faz alguns meses, o PCC se internacionalizou ao assassinar de forma cinematográfica o “rei do tráfico” no Paraguai, e agora controla boa parte da plantação da maconha no país vizinho. Ora, se a maconha responde por cerca de 80% das vendas do tráfico, não deve ser difícil imaginar como o PCC simplesmente “cooptou” a Rocinha ao oferecer o seu produto de maior destaque por um preço bem mais barato do que o dos demais atravessadores.

A resposta do CV foi tentar investir na outra via de comércio ilegal de drogas e armas no país: ao invés de recorrer à via Paraguai-Bolívia, teve de se voltar para a via amazônica. Talvez por isso as recentes rebeliões e chacinas nos presídios brasileiros tenham se iniciado justamente em Manaus. Mas claro, não deve terminar por lá, e de fato já se espalhou pelas cadeias de todo país, uma espécie de “guerra interna” entre PCC e CV.

Um ex-Ministro da Justiça já afirmou que nossos presídios são como “masmorras medievais”. Se a maior autoridade de segurança no país disse isso, é porque de fato já não era segredo para ninguém. Há muitos “homens de bem” que passaram a crer justamente que as chacinas seriam a solução para a nossa criminalidade. Bem, se fossem, as estatísticas de violência já teriam diminuído há décadas, justamente antes da criação do PCC, quando ocorriam bem mais assassinatos dentro das prisões (só não dava manchete nos jornais porque não tinham decapitações em série).

Quando imaginamos a prisão como uma espécie de “limbo” ou “buraco negro” de onde os presos jamais sairão, estamos simplesmente ignorando a realidade do ciclo de violência no Brasil: ora, é justamente porque em geral a sociedade pouco se interessa pelo que ocorre dentro das cadeias que facções como o PCC proliferaram à vontade. Pense só, num estado como São Paulo, é a própria Justiça que ajuda o PCC a estar sempre recrutando novos funcionários. Ao misturar réus primários ou não violentos com a “nata da bandidagem”, damos um fluxo gratuito e contínuo de gente para o PCC; afinal não é bem a questão de escolher entre “ser honesto ou criminoso dentro da cadeia”, é antes algo como “viver ou morrer”. Darwin explica.

Assim, o Estado paga caro para manter um sistema que não só não ressocializa ninguém para a vida em sociedade, como funciona mais como uma verdadeira “fábrica de criminosos”, onde gente como José, se tiver sorte, sairá muito, muito pior do que entrou. E, se não tiver sorte, pode nem sair vivo, mas tal fato não diminuí o ciclo da violência, apenas aumenta. O Karma explica.

Afinal, se o PCC pode até funcionar como um “agente de proteção social” dentro dos presídios, fora deles pratica sequestros, assassinatos, e outros crimes, além de intimidar agentes da lei e políticos ou, muitas vezes, simplesmente comprá-los para o seu lado. Quando necessário, o PCC também pode muito bem atuar “fora dos presídios”, causando um verdadeiro caos nas grandes cidades. Da última vez que algo assim ocorreu, em São Paulo, pouco mais de uma década atrás, foram às próprias autoridades quem correram para chegar a um acordo de “cessar fogo” com a facção, e o acordo saiu. Mas, e se não tivesse saído? E se o PCC resolver voltar a “se manifestar” fora das cadeias, como será? O que podemos dizer hoje é: cada vez pior.

Se voltarmos ao exemplo de José, veremos que ele pelo menos teve um julgamento, enquanto cerca de 40% dos nossos presos aguardam por um. E pelo menos teve um defensor público, coisa inexistente em mais da metade dos estados...

Você pode me dizer que na verdade a história de José era mesmo uma baita mentira, que ele de fato estava correndo junto com os outros traficantes que passaram pela calçada da sua casa, que ele também era um deles. Tudo bem, você pode até julgar daí que José era mesmo um bandido. E, ainda que o mantra “bandido bom é bandido morto” possa lhe soar como a solução derradeira de todos os problemas, devo lhe dizer que é justamente por pensamentos como este que chegamos na situação em que chegamos. Morram quantos Josés forem, eles continuarão nascendo, e a violência continuará ardendo mais e mais nesta imensa pira de ignorância.

E, se queremos manter os presos realmente perigosos e violentos dentro das cadeias, é justamente tratando réus primários como José de uma outra forma, liberando espaço e recursos no sistema penitenciário, que teremos alguma chance de começar a mudar este cenário.

Afinal, não foi nos países onde há pena de morte que a violência se reduziu ao ponto de faltarem presidiários para popular as cadeias, pelo contrário, foi nos países que tratam mais a causa do que os sintomas, em todas as dimensões que envolvem o crime: na educação, na ressocialização, na política em relação às drogas etc. Sim, ainda estamos muito distantes do nível de desenvolvimento humano dos países escandinavos, mas até quando vamos permanecer ignorantes dos exemplos que deram certo? Até quando vamos continuar vendo nossos criminosos com um olhar tão arcaico, alimentando infindavelmente este ciclo macabro de decapitações e banhos de sangue?

Há dois mil anos, o doce Rabi da Galileia, aquele quem nos ensinou toda a profundidade do Amor, também cumpria sua pena ao lado de dois bandidos, todos crucificados ao público. A sua volta, o povo gritava a sua própria versão de “bandido bom é bandido morto” para a época. Segundo Lucas 23:34, esta foi a sua resposta:

Pai, perdoa-lhes, pois eles não sabem o que fazem.

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Créditos das imagens: Google Image Search

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12.1.17

A civilização e a barbárie

O texto abaixo foi retirado de uma de minhas respostas dentro de um debate entre pensadores e espiritualistas.

Em nosso debate, foi citado um historiador espanhol que afirmou que todas as civilizações partem da barbárie, passam por um período religioso e depois entram numa espécie de "decadência espiritual", pela falta da prática do autoconhecimento [1]. Eu associei isso ao estágio atual da nossa própria civilização, e nesse contexto é que elaborei o meu complemento:

Acho que todas as culturas de fato partem da barbárie, mas isso se dá desde o advento das cidades. Antes delas, provavelmente em boa parte do mundo humano não havia a barbárie, tampouco bárbaros, já que pela etimologia do termo "bárbaro" chegamos ao grego antigo, "não-civilizado", "estrangeiro", "estranho". Antes das cidades, todos eram não-civilizados, estrangeiros, estranhos, mas como não sabiam disso, se tratavam apenas como seres humanos mesmo.

As cidades surgiram com a agricultura, pois antes dela éramos todos nômades basicamente todo o tempo, e os únicos "locais fixos" da pré-civilização eram justamente os templos religiosos da religiosidade arcaica, as cavernas com arte rupestre, os círculos de pedras elevadas, e provavelmente locais específicos nas florestas, dos quais praticamente não restaram registros.

Com a agricultura e o excedente de alimentos, grãos e cereais que podiam ser estocados nos primeiros silos, houve a possibilidade de se cercar e delimitar pedaços de terra e dizer: "Aqui é nosso território". Daí logo vieram os primeiros conflitos e guerras organizadas. No início, não creio que quisessem conquistar a terra do outro, mas sim somente roubar seus alimentos. Depois, quando o outro montou seu primeiro exército para proteger seus grãos, os invasores precisaram também formar exércitos, e assim foi até que a maior parte das grandes cidades tiveram seus exércitos permanentes, e muita guerra e muito sangue correu desde então...

A grande ironia é que talvez tenhamos nos tornado bárbaros justamente quando nos tornamos civilizados. Nesse sentido, toda a civilização tem de lidar com a sua própria barbárie, contê-la, administrá-la na medida do possível e, acima de tudo, sempre acusar os outros de serem bárbaros, pois assim se parece decerto mais civilizado.

Claro que, com o passar dos séculos, muitas civilizações de fato avançaram muito na contenção de sua barbárie, e criaram as primeiras legislações, as primeiras religiões organizadas, as primeiras mitologias que vieram a ser registradas em palavras, as primeiras ideias filosóficas extensivamente debatidas, as primeiras ciências baseadas na observação do mundo natural etc. Mas, será que alguma delas foi totalmente bem-sucedida nisso? Eu creio que não.

Assim como nas tribos ancestrais eram somente alguns poucos xamãs e pajés quem detinham de fato o dom ou a capacidade de se conectar com o sagrado, mesmo nas grandes culturas tais homens e mulheres continuaram sendo uma grande minoria, infelizmente. Mas existe um alento nesta análise: não é que as civilizações tenham caído em decadência moral ou espiritual (pelo contrário, eu sempre gosto de lembrar que hoje vamos ao Maracanã ver e aplaudir partidas de futebol, e não a um Coliseu romano ver homens se matando ou sendo devorados por feras), mas é que este ápice moral e espiritual nunca chegou a ser de fato alcançado, nem mesmo na antiga Atenas, ou em Florença em pleno Renascimento, tampouco nas cidades de maior índice de desenvolvimento humano da Escandinávia de hoje em dia.

Desde as primeiras tribos, nós não estamos em decadência, mas em ascensão. E, se parece ao contrário, é justamente porque simplesmente há muito mais gente viva hoje do que há milênios atrás. No meio dessa gente toda, ainda há muito mais xamãs e pajés genuínos do que jamais houve na história deste planetinha. Basicamente, toda a gente que não se esqueceu da Alma. Se queremos caminhar mais rápido em sua direção, é bom ouvirmos o que eles têm a nos dizer. Mas não será fácil encontrá-los, pois (salvo raras exceções) eles não estão na Grande Mídia ou nos Bestsellers, tampouco nos Grandes Templos. Muitos deles podem estar convivendo ao seu lado, sem terem sido percebidos.

Quem ama de fato e profundamente, quem volta a sua lupa mais para dentro do que para fora, quem busca julgar mais a si mesmo do que aos "bárbaros", este conhece alguma coisa do tema!

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[1] Alejandro Deulofeo em Matemática da História

Crédito da imagem: Google Image Search/Canal History

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3.1.17

Ainda não acabou

O Relógio do Apocalipse é um relógio simbólico mantido desde 1947 pelo comitê de diretores do Bulletin of the Atomic Scientists da Universidade de Chicago. Se trata de um alerta para a iminência de uma guerra nuclear de larga escala, o que potencialmente significaria o fim da civilização humana. Segundo a analogia, quanto mais próximo da meia-noite, mais próxima estaria a humanidade de um apocalipse nuclear. Os ponteiros iniciaram com 7 minutos para a meia-noite, e chegaram a estar à apenas 2 minutos, em 1953, quando EUA e URSS testaram novas armas nucleares a poucos meses de intervalo um do outro. Hoje, ele marca 3 minutos para o fim.

É irônico como foi justamente a ciência quem nos levou mais próximo de um Juízo Final, um Armagedom real para a humanidade. A despeito de milênios de mitos e lendas acerca do final dos tempos, que muitos racionalistas sempre caçoaram, coube justamente a mais racional das invenções da mente humana o poder de nos levar, de fato, a uma guerra final. Claro que a ciência por si só não tem culpa alguma, os culpados somos nós, os seres que vivem neste mundo e, muitas vezes, consciente ou inconscientemente, trabalham para a sua aniquilação.

A palavra “apocalipse”, do grego apokálypsis, significa literalmente algo como “a retirada do véu”, o que geralmente é compreendido como alguma espécie de revelação divina. No entanto, como o Livro da Revelação no Novo Testamento bíblico trata justamente de uma elaborada metáfora para alguma espécie de fim dos tempos, o termo Apocalipse também se tornou uma espécie de sinônimo para fim do mundo na cultura popular.

De fato, numa análise esotérica do significado essencial de uma revelação divina, temos duas possibilidades que fazem todo o sentido: o fim de uma era, para que outra se inicie, ou mesmo a morte de uma persona, para que outra mais espiritual e profunda surja deste processo. No entanto ocorre que, muitas vezes, tanto o Apocalipse bíblico quanto os de outras doutrinas religiosas é visto não como o fim de um processo para que outro se inicie, mas simplesmente como o final de todos os processos, de todo o sofrimento e de todo trabalho, geralmente para ser substituído por um julgamento sumário de alguma divindade, onde uns serão condenados a sofrer eternamente num Lago de Enxofre, enquanto outros serão conduzidos a uma espécie de Jardim de Ócio Eterno.

A despeito do absurdo lógico de ambas as opções (uma divindade amorosa que permitiria que suas criações fossem torturadas brutalmente ad aeternum; seres amorosos que conquistaram uma passagem para um Céu de Escolhidos, sendo lá felizes mesmo sabendo que há muitos de seus irmãos sofrendo), é mais ou menos nisso que muitos povos e culturas, principalmente no Ocidente e Oriente Médio, colocaram todas as suas fichas. Durante séculos e séculos, depois de Cristo, e até mesmo antes, tivemos muitos crentes aguardando ansiosamente pelo final dos tempos, alguns com temor no coração, e outros simplesmente ansiando pelo fim desta terra... Todos eles na expectativa do prometido julgamento dos bons e dos maus.

E dificilmente os que creem nessas coisas veem a si mesmos como pertencentes aos não escolhidos, aos maus. Daí se tira que, muitas vezes, o seu desejo pelo Juízo Final parte muito mais do próprio julgamento que fazem dos seus irmãos do que genuinamente de um desejo de habitar o Jardim de Ócio pela eternidade, para fazer sabe-se lá o quê pelos milênios a perder de vista. Ou seja: pode ser preferível que o mundo acabe de fato, se com ele todos os gays que insistem em se beijar na rua e desafiar os mandamentos do Levítico sejam levados para o Inferno, ou se todos aqueles jovens metidos a besta que insistem em usar drogas ilícitas ardam nas forjas subterrâneas, ou se os políticos de um ou outro campo ideológico cumpram suas penas junto ao Tinhoso.

Claro, também há muitos que cansam de simplesmente esperar pela chagada de Cristo, e partem eles mesmos para provocar o seu próprio fim dos tempos, se radicalizando e chacinando os inocentes que encontram pela frente. Para nossa sorte, esse tipo de radical religioso ainda não dispõe de armas nucleares, somente das armas que as grandes empresas armamentistas dos países de primeiro mundo lhes vendem.

Neste baile da ignorância humana, é curioso pensar como, ao menos até aqui, as armas de destruição em massa talvez tenham freado uma nova e derradeira Guerra Mundial, ao contrário do que muitos poderiam imaginar. Explica-se: até o advento das armas nucleares, guerras destruíam cidades, e às vezes países inteiros, mas não podiam destruir a civilização humana como um todo. Hoje, uma guerra nucelar pode fazer justamente isso. Hoje, o Armagedom deixou de ser uma metáfora mitológica para se tornar uma possibilidade real. Hoje, aqueles que detém o poder de lançar ogivas nucleares sabem muito bem que, num cenário de guerra nuclear total, pressionar o botão vermelho será essencialmente um ato de suicídio.

Mas nem todo Apocalipse é um Apocalipse global. Há muitos povos e territórios da Terra que sofreram os seus próprios Juízos Finais. Desnecessário dizer que até hoje em dia eles estão em pleno processo, particularmente no Oriente Médio e arredores, ironicamente o grande berço das civilizações humanas.

Como narra um memorável anúncio dos Médicos Sem Fronteiras, “podemos ser violentos, insensíveis, cruéis, egoístas, indiferentes, mas só quem pode salvar a vida de um ser humano é outro ser humano”. O MSF atua justamente para amenizar o Juízo Final alheio.

Voltando ao Apocalipse como revelação, como final de um estágio para o início de outro, recorro à história de vida de minha amiga Debora Noal, psicóloga do MSF, brasileira: pouco antes de ser convocada para a sua primeira missão humanitária no Haiti, há quase uma década, Debora morava numa cobertura de frente para uma praia paradisíaca de Aracaju, e tinha um emprego público na área médica.

Então, como ela mesma relatou numa reportagem da Época, “Pedi demissão, larguei tudo [...] Porque era uma missão de urgência. Entreguei o apartamento, deixei os móveis no meio do corredor porque não tinha condições de distribuir tudo rápido. O que não é possível carregar comigo é porque não é meu. E acho que, se você se apega a alguma coisa que é material, isso quer dizer que você está plantando sua raiz por uma estrutura material. Eu quero ter raiz, mas raízes aéreas, que eu possa levar para onde eu quiser”. E após o Haiti, Debora foi ajudar mulheres brutalmente estupradas e infectados pelo vírus ebola em algumas missões humanitárias nos cantões mais afastados dos olhares da Grande Mídia, em plena África...

Como Debora estava tão preparada para substituir suas raízes terrestres por raízes aéreas, senão por um processo de Apocalipse pessoal? Senão por haver colocado sua própria vida mundana em segundo plano, e a Alma do Mundo, a alma e o coração de todos os seres, acima de tudo o mais? Não há Revelação maior do que este Amor que brotou aos borbotões do coração de minha amiga.

E, se ainda nos convém falar em mitologia, que a praia em Aracaju seja o Céu, que as periferias do Congo sejam o Inferno, e que Debora seja o Anjo... Tampouco existe mitologia mais bela, pois que trata exatamente da realidade, de como as coisas de fato o são. Pois só quem pode salvar a vida de um ser humano é outro ser humano. E só quem pode salvar a própria vida é o próprio ser em si.

Assim sendo, sempre que se sentir abatido pelo peso deste mundo de chumbo, pense sobre os pensamentos que lhe vêm à mente, pense sobre de onde eles de fato surgiram, e para onde pretendem lhe levar. Há muitos que desejaram modificar o mundo inteiro, e terminaram por se regozijar com a promessa do Juízo Final, e assim perderam seu entusiasmo, e se deixaram afogar no charco dos hábitos moribundos... Mas há alguns, alguns de nós, que pensaram em mudar primeiro a si mesmos, e ser a própria mudança que desejam ver neste mundo.

Passo a passo, mudaremos a nós mesmos, a vizinhança e o mundo inteiro. Se a vida já não tem qualquer outro sentido, que tenha este. Afinal, a despeito da crença e do desejo de muitos, nossa história ainda não acabou... Gritem meus irmãos, gritem pela alma adentro: ainda não acabou!

***

Para encerrar, gostaria de descrever em maiores detalhes a autoria e o cenário das duas fotos que ilustram este artigo:

A primeira, no topo, é da Reuters e mostra uma multidão de refugiados (na grande maioria palestinos) do Campo de Yarmouk, em Damasco na Síria, em fevereiro de 2014. Eles estavam tão somente aguardando a distribuição de alimentos pela ONU. Em abril de 2015 este campo foi atacado e controlado pelo Estado Islâmico, mas foi recuperado pelo governo sírio alguns meses depois. Yarmouk está ativo há mais de meio século.

A segunda, ao longo do texto do artigo, é de um jovem fotógrafo da Faixa de Gaza, Emad Nassar, e foi tirada em junho de 2015. Ela mostra um pai palestino dando banho na filha e na sobrinha, no pouco que restou inteiro de seu apartamento em Gaza. A Faixa de Gaza é um dos territórios mais densamente povoados do mundo, e vive um Apocalipse permanente há muitas décadas.

O que cada uma das fotos têm a ver com o meu artigo, deixo que cada um de vocês interprete e sinta por si só...


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