Pular para conteúdo
26.2.17

Reflexões políticas, parte 2

« continuando da parte 1

A tradição em reforma

Se imaginarmos a linha que liga os extremos de esquerda e direita econômica (dos quais falei no último artigo) como um plano horizontal, e uma outra linha vertical cortando esta primeira ao centro, em que no topo temos um extremo de totalitarismo governamental, onde geralmente a democracia é inexistente ou precária, e na ponta inferior, uma forma de governo plenamente democrática, que garante todas as liberdades individuais de seus cidadãos, então chegaremos a uma das versões do Diagrama de Nolan.

David Nolan, um ativista político americano, criou este diagrama em 1969. Nolan via uma esquerda progressista que defendia somente as liberdades individuais, mas era favorável a intervenções do Estado na economia, ao mesmo tempo em que percebia na direita conservadora de seu país uma defesa somente da liberdade do Mercado, e não exatamente dos indivíduos (por exemplo, a união estável entre casais homossexuais não era então reconhecida pela lei). Assim, Nolan adicionou mais um eixo na divisão entre esquerda e direita, como forma de divulgar as ideias do libertarianismo, que defende uma regulação estatal mínima tanto na economia quanto na vida pessoal de cada cidadão [1].

De certa forma, é impossível defender a democracia plena sem concordar em alguma medida com o libertarianismo, mas antes de falar de totalitarismo e liberdade, eu vou falar de conservadorismo e progressismo:

Podemos considerar que desde os girondinos e jacobinos, na Revolução Francesa, o mundo político (principalmente o ocidental) tem avançado em suas reformas passo a passo, ora estimulado pelos reformistas, ora refreado pelos tradicionalistas. Obviamente que os tradicionalistas são conservadores e defendem que as reformas sejam feitas da forma mais lenta e gradual possível, preocupados que são com a possibilidade de que uma série de passos descuidados a frente venham a precipitar todo o sistema num abismo do qual necessitará de muitas gerações para escapar; os reformistas, pelo contrário, acreditam que as mudanças vêm ocorrendo de forma muito lenta, e que o progresso social deve se dar de forma mais urgente, ainda que alguns passos apressados eventualmente possam nos levar para algumas armadilhas pelo caminho.

É muito importante notar que ambos os movimentos creem que é necessário o aprimoramento das leis e das condições sociais, eles tendem a discordar apenas na velocidade em que tais mudanças devam ocorrer para que elas de fato funcionem da melhor forma. Quando compreendido desta forma, não há a menor razão para que o debate entre conservadores e progressistas se dê de forma dogmática, crendo que o pensamento oposto está intrinsecamente errado: é provável que o melhor caminho surja precisamente do consenso entre eles. A isto chamamos, mais uma vez, Política.

Vamos citar um exemplo contemporâneo: em junho de 1971, o então presidente dos EUA, Richard Nixon, afirmou numa conferência de imprensa que o abuso do uso de drogas ilegais era o “inimigo público número um” dos Estados Unidos. A chamada Guerra às Drogas, que já estava em curso, se radicalizou bastante nas décadas seguintes. Com o passar dos anos, entretanto, muitos pensadores progressistas começaram a alertar para o fato de que ela se parecia muito mais com uma espécie de “enxugamento de gelo”; que, além de não resolver definitivamente o problema, ainda transferia muitos recursos para o crime organizado, conforme havia ocorrido no período da Lei Seca, quando os americanos continuaram consumindo bebidas de um jeito ou de outro, e Al Capone se tornou um criminoso célebre pelo seu poder.

A ideia dos progressistas não era afirmar que o consumo de toda e qualquer droga deveria ser liberado e estimulado mas, pelo contrário, de que as dependências químicas seriam melhor administradas e tratadas pelos médicos do que pelos policiais. Para quê, afinal, gastar imensos orçamentos em segurança pública somente para impedir que um cidadão se aproxime das drogas se a experiência milenar da relação entre seres humanos e substâncias do tipo tem nos dito que isto provavelmente jamais irá acabar?

Ora, os primeiros progressistas que vieram com este papo foram demonizados, como é comum ocorrer com todos aqueles que se erguem para criticar o senso comum: “as drogas fazem mal!”... Foi preciso que algumas décadas se passassem para que, tal qual água mole batendo em pedra dura, o seu discurso começasse a ser assimilado pela sociedade em geral. Hoje, temos muitos políticos que foram convencidos de que a Guerra às Drogas, afinal, tem feito mais mal do que bem – um dos que mudaram de ideia foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Hoje, muitos estados americanos seguiram os exemplos de diversos países europeus, e legalizaram a venda da maconha, que sozinha respondia por bem mais da metade do lucro dos traficantes ilegais. O país que inaugurou a Guerra às Drogas hoje tem dificuldades em saber o que fazer com tanto dinheiro arrecadado nos impostos deste novíssimo mercado. Uma boa dica seria: investir em clínicas públicas de tratamento de dependentes químicos. Assunto resolvido.

Mas é claro que tal mudança não se deu para a noite para o dia, e passou por anos de debates e da cuidadosa elaboração de planos de legalização. É possível que em muitos países a liberação da venda da maconha tenha aumentado, e não diminuído, o número de usuários, mas o que não podemos dizer é que o tratamento dos dependentes piorou – afinal, nesses países hoje eles são considerados doentes, e não criminosos.

No exemplo acima falamos de um debate entre progressistas e conservadores que varou décadas, mas que no fim das contas parece ter chegado a um consenso vantajoso para todas as partes envolvidas. Provavelmente, daqui a mais algumas décadas, o período em que a maconha foi considerada proibida será lembrado da mesma forma que hoje é lembrada a Lei Seca. Hoje, é ponto passivo entre a grande maioria dos conservadores que a Lei Seca foi um erro.

Isto não quer dizer, no entanto, que os conservadores estarão sempre errados, e que a tendência natural da história seja comprovar os seus equívocos: mesmo no campo das drogas, há muitas delas potencialmente muito mais perigosas que a maconha, e que não respondem sozinhas por um lucro muito expressivo do tráfico. É possível que elas devam permanecer proibidas, e assim, percebemos que os conservadores também tinham razão. Após essa reflexão, podemos afirmar com certa convicção que um mundo sem conservadores seria tão trágico quanto um mundo sem progressistas.

O mesmo talvez não possa ser dito dos extremistas reacionários, revolucionários e totalitários, mas fato é que estes também compõem o nosso espectro político de dois eixos. Mas este artigo já se estendeu o suficiente, precisarei usar o próximo para falar deles...


» Nalgum dia, virá a parte 3.

***

[1] Os críticos de Nolan chamam o seu Diagrama de Propaganda de Nolan, mas creio que em geral ele é muito útil para esclarecer as ideias políticas que não tem a ver com economia.

Crédito da imagem: Google Image Search (Al Capone)

Marcadores: , , , , ,

24.2.17

Reflexões políticas, parte 1

O parto de um novo mundo

Era uma vez um grande mercado de peixes situado numa grande metrópole. Todo dia, ainda antes do sol nascer, muitos compradores representantes dos mais badalados restaurantes japoneses da cidade vinham comprar salmão a peso de ouro. Esse pessoal sabia que o salmão de maior qualidade tem a cor da carne avermelhada, e por isso pagava mais caro por ele.

Com o tempo, no entanto, começaram a surgir boatos de que os vendedores do mercado estavam passando gato por lebre, ou seja, fingindo vender um salmão de maior qualidade, quando na verdade se tratava de salmão de cativeiro, onde os criadores usavam corantes artificiais na ração para conferir a mesma cor avermelhada ao produto final.

Os consumidores vieram questionar os comerciantes do mercado, e estes lhes responderam mais ou menos assim: “Olha, a única forma que teríamos para nos certificar de que todo o salmão é da mesma qualidade seria contratarmos especialistas independentes para trabalharem nessa regulação; isto, no entanto, aumentaria consideravelmente o preço do salmão por aqui”.

Neste momento, os compradores tiveram de se deparar com um imenso dilema, que na verdade explica boa parte da discussão política e econômica da modernidade: o que é mais vantajoso, um mercado desregulado que vende produtos mais baratos, porém potencialmente perigosos, ou um mercado regulado que vende produtos mais caros, por uma promessa de maior segurança?

Na verdade, usei a metáfora do salmão somente pela simplicidade mesmo, pois hoje em dia a quase totalidade deste mercado não passa por uma regulação minuciosa. No entanto, há muitos outros mercados que necessitam de regulação, seja para combater os monopólios e carteis de grandes empresas, seja simplesmente para resguardar os direitos dos consumidores de não serem enganados na cara dura.

O bom senso nos indica algo até mesmo óbvio, e que de certa forma já ocorre em boa parte do mundo: há que se ter uma certa regulação dos mercados, mas não ao ponto de torná-los inviáveis para os comerciantes – afinal todo comércio necessita de algum lucro, do contrário ninguém iria arriscar seu rico dinheiro investindo nele.

No entanto, o ser humano sofre de uma latente e um tanto resiliente atração pelo maniqueísmo. Mani foi um filósofo cristão do século III que propunha que o mundo era o palco de uma guerra eterna entre um Deus Bom e um Demônio Mal. Claro que o maniqueísmo, assim como o zoroastrismo que foi sua fonte original, são bem mais complexos do que esta dualidade superficial dá a entender... mas, como muitas outras doutrinas e filosofias, o maniqueísmo passou para a enciclopédia da história de uma forma um tanto resumida, e este resumo decaiu precisamente neste “dualismo ralo”.

Assim, nas visões econômicas atuais, podemos tentar distribuir as ideias numa linha com dois pontos opostos: na extremidade esquerda, temos a ideia de que o Estado deve regular praticamente tudo, inclusive o quanto cada comerciante pode ter de lucro em sua atividade, pois que a distribuição de toda e qualquer renda excedente garantirá que tudo funcione bem para todos; já na outra ponta, a direita, temos a ideia de que o Mercado deve ser regulado o mínimo possível, deixando que os comerciantes lucrem o quanto conseguirem, pois que o livre mercado e a concorrência garantirão que tudo funcione da melhor forma.

Se recorrermos novamente ao bom senso, veremos que qualquer uma das extremidades desta linha, quando livre das considerações opostas, na realidade não funciona assim tão bem quanto o prometido. E, se é difícil imaginar os motivos, basta recorrer a nossa história recente para vermos inúmeros exemplos de como guinadas muito grandes para uma das duas pontas costumam terminar em tragédias econômicas, principalmente em se considerando um mundo cada vez mais globalizado, onde o mercado de peixes se estende por todos os continentes.

Talvez não tenha sido por uma razão puramente econômica que os modelos comunistas, baseados em alta regulação estatal, tenham desmoronado junto com o Muro de Berlim, mas o fato é que não deram muito certo. Por outro lado, nós estamos atualmente vivendo uma das maiores crises econômicas da história, e ela se originou precisamente pela falta de regulação do mercado imobiliário americano. Ou seja, não é preciso ser especialista em economia global ou análise política para compreender o óbvio: nós precisamos das duas coisas, a regulação estatal e o livre mercado, funcionando em harmonia.

Por que diabos então as pessoas ainda brigam tanto por conta disso? É a pergunta que necessariamente surge desta pequena reflexão.

Eu confesso a vocês que, se tal pergunta fosse simples de ser respondida, o mundo seria outro – no mínimo, as pessoas iriam economizar bastante tempo em debates nas redes sociais.

Mas, eu proponho responder a tal indagação com uma outra, que talvez nos ajude a chegar mais próximo de um entendimento mais abrangente da questão: Imaginem se todas as pessoas fossem de esquerda ou de direita, e concordassem em absolutamente tudo no que hoje teimam em discordar?

Nós tivemos muitos períodos históricos em que o debate político teve, oficialmente, somente um lado. No entanto, nos países e regiões do planeta que passaram por tais períodos, tivemos os governantes mais sangrentos, e os regimes mais totalitários, seja num extremo, seja noutro.

Aqui neste blog vocês devem ter percebido que eu tento evitar, na medida do possível, falar de Política. Assim, não foi da noite para o dia que eu decidi voltar ao tema. A realidade é que nosso mundo passa por mais um período raro da história humana: aqueles períodos em que os sistemas antigos já faliram, são como zumbis se arrastando pela estrada, mas os novos sistemas ainda não tiveram tempo de nascer.

Eduardo Galeano vislumbrou tal gestação numa praça espanhola durante uma manifestação popular, e chegou a sábia conclusão de que “este mundo de merda está grávido de um outro, e são os jovens que nos levam adiante”... Assim, eu não tenho grandes pretensões de ver tal nascimento nos anos ou nas décadas seguintes, mas penso que talvez alguém que esteja lendo isso possa um dia viver lá.

Esta minha singela nova série de reflexões políticas não procurará tratar de nada senão deste parto de um novo mundo. A única coisa que peço aos que por ventura se interessarem em prosseguir é que compreendam que a Política não se faz pelo extermínio da esquerda ou da direita, mas pelo consenso e a harmonia possível entre elas.

A Política existe para que os debates e as leis transcorram e sejam elaboradas em mesas de representantes do povo, e não em palácios e gabinetes habitados por homens cheios de dogmas e ideologias compradas.

Não é fácil lidar com as ideias contrárias, mas seria pior se elas não pudessem sequer serem manifestadas. Se não podemos concordar em tudo, que nossa discordância seja construtiva, que as pedras se choquem para produzir faíscas de novas ideias, e não somente para arrancar lascas umas das outras.

Sigamos adiante.


» A seguir, mais um eixo é adicionado ao nosso espectro político.

***

Crédito da foto: Mike Gates

Marcadores: , , , , , ,

23.2.17

Sócrates e a discordância construtiva

Texto por José Francisco Botelho em A Odisseia da Filosofia (Ed. Abril). Os comentários ao final são meus.

Dialética é uma dessas palavras escutadas com frequência, mas cujo sentido geralmente fica embotado pela fora do hábito e o peso do jargão. Na Antiguidade, contudo, ela tinha um significado claro: era a utilização do diálogo como ferramenta filosófica.

Para entender de que forma Sócrates transformou a história da dialética, vamos fazer uma recapitulação rápida – pois o sentido das coisas fica mais claro quando elas são comparadas com o que veio antes e depois. No início do século 5 a.C., Zenão de Eleia criou a dialética erística: um tipo de discurso em que o filósofo antecipa os contra-argumentos de seus adversários e utiliza-os para defender sua própria tese. No caso de Zenão, o debate era apenas imaginário: a palavra final ficava sempre com o autor da obra.

Depois, veio o diálogo sofístico, que era praticado face a face, entre dois interlocutores reais. Os sofistas não estavam interessados em descobrir grandes verdades; utilizavam o diálogo como ferramenta retórica, para vencer debates e influenciar a opinião do público. Aí entra o toque particular de Sócrates: para ele, o diálogo era um método de buscar a verdade por meio de perguntas e respostas. Ao contrário dos sofistas, ele partia do princípio de que a mente humana pode, sim, captar a realidade final das coisas – desde que assuma a sua ignorância de antemão.

Para os sofistas, o mais importante na filosofia era o uso persuasivo da linguagem – a verdade seria apenas uma questão de perspectiva e o que realmente importava era a habilidade em defender qualquer ponto de vista. Já Sócrates acreditava que a linguagem era uma ferramenta, e não um fim em si mesma. E, enquanto Zenão de Eleia usava a dialética com o objetivo de defender um ponto de vista decidido de antemão, os diálogos socráticos têm final aberto. Sócrates alimentava a dúvida, para que a verdade não fosse sufocada pelo peso das ideias falsas.

A teoria está explicada; mas, na prática, como funcionava o diálogo socrático? Sócrates geralmente começava lançando perguntas aparentemente simples sobre assuntos supostamente básicos: O que é o amor? O que é virtude? O que é educação? Em seguida, analisava cada resposta de forma implacável, questionando cada palavra e cada conceito usado por seus interlocutores – mas (e isso é muito importante) o questionamento socrático era sempre feito em tom amigável, sem arrogância, em uma tentativa de construir o conhecimento de forma partilhada, coletiva.

Existe no método socrático uma provocação atualíssima, que parece feita sob medida para o nosso século, cheio de som, fúria e desrazão. A arte do diálogo, conforme praticada por Sócrates nas tardes e noites de Atenas, era ao mesmo tempo implacável e civil. Implacável porque colocava em cheque todas as certezas herdadas, sem pruridos. Civil porque, se demolia ideias humanas, fazia-o em nome da humanidade, com o intuito de tornar possível uma sabedoria sem pés de barro.

A dialética de Sócrates não servia para defender posições arraigadas; lançava-se, cortesmente, contra todas elas. Partia do princípio de que a verdade absoluta não é monopólio de nenhum dos interlocutores; mas, contrapondo-se as aparentes verdades individuais, podia-se abrir caminho para uma visão mais clara e sólida das coisas. Em outras palavras: para Sócrates, a discordância não era uma força negativa, mas construtiva. Dois mil e quatrocentos anos se passaram e ainda estamos por assimilar essa lição.

Aqueles que ousassem embarcar na afável demolição socrática acabavam com uma impressão inquietante, mas potencialmente salutar: a de que todas as suas certezas eram relativas e, portanto, precisavam ser revistas. O objetivo de Sócrates era, exatamente, lançar o interlocutor em uma espécie de vazio – mas um vazio onde novas reflexões poderiam surgir, desimpedidas, em livre fluxo. “O alvo do método socrático”, escreve Richard Robinson em Plato’s Earlier Dialectic, “é arrancar os homens de sua sonolência dogmática e despertá-los para a verdadeira curiosidade intelectual”.

Como exemplo, vamos dar uma olhada no diálogo Laques, de Platão [ou seja, uma conversa entre Laques e Sócrates]:

“Laques, você acha que a coragem é algo bom ou reprovável?”

“Algo bom, certamente.”

“E quanto à tolice? É também uma coisa boa?”

“De forma alguma, Sócrates. A tolice é reprovável.”

“Imaginemos agora dois homens. Um sabe mergulhar, o outro nunca entrou na água. Ambos são desafiados a fazer um mergulho até o fundo do mar. Ambos aceitam o desafio, com grande perseverança de espírito. Qual dos dois é o mais corajoso?”

“O que não sabe mergulhar, é claro.”

“Contudo, qual dos dois é o mais tolo? O que tem o devido conhecimento técnico das artes do mergulho, ou o que se enfia na água sem mal saber nadar?”

“O mais tolo, nesse caso, é o mergulhador inexperiente.”

“Você havia me dito que a coragem é algo bom, enquanto a tolice é reprovável. Mas agora chegamos à conclusão de que, nesse caso, o mais corajoso não é o mais perseverante, e sim o mais tolo.”

“É fato, Sócrates.”

“Você continua achando que sua definição está correta?”

“De forma alguma. Eu estava errado. Que coisa estranha, Sócrates! Parece que não consigo expressar em palavras o que parecia claro em meu pensamento; sinto que sei o que é a coragem, mas, se tento defini-la, ela me passa a perna e foge de mim.”

“Ora, meu caro Laques, sejamos então como o bom caçador, que jamais desiste de perseguir sua presa. Tenhamos perseverança de espírito. Avante!”

Nesse lapidar diálogo socrático, o filósofo não estava sugerindo que a coragem fosse algo inútil ou estúpido – afinal de contas, ele próprio dera mostras exemplares de bravura no campo de batalha [Sócrates foi soldado ateniense em sua juventude]. O que Sócrates demonstrou é que, na maior parte das vezes, não sabemos direito sobre o que estamos falando – mesmo quando falamos de assuntos aparentemente elementares.

E assim, de interlocutor em interlocutor, Sócrates ia demolindo certezas: tornou-se, em suas próprias palavras, um “vagabundo loquaz”, andando por Atenas a fazer perguntas e mais perguntas a quem se dispusesse a respondê-las. Sua amistosa impertinência conquistou muitos seguidores entre os jovens atenienses. Além de Platão, o encantamento socrático também seduziu Alcibíades, seu companheiro de batalhas.

No Banquete, o jovem guerreiro descreve desta forma o efeito de Sócrates sobre a mente dos ouvintes entusiastas: “Quando escuramos Sócrates, pensamos inicialmente que seus discursos são ridículos: pois, no exterior, estão cobertos por frases e palavras absurdas. Mas, quando olhamos mais a fundo, descobrimos que as palavras de Sócrates são as únicas que realmente fazem sentido”.


Comentários
Pode parecer simples resumir as três vertentes da dialética, e ainda explicar a essência do diálogo socrático em poucos parágrafos. Mas passa longe de ser: outros que se meteram a tentar explicar a vasta história da filosofia ocidental precisaram de muito mais palavras. José Francisco Botelho, escritor e tradutor do sul do Brasil, é um mestre em passar esse tipo de conhecimento filosófico adiante. Eu o conheci inicialmente lendo seus memoráveis artigos para a revista Vida Simples. Depois o encontrei também como colunista da Veja. Mas foi neste livro, encontrado ao acaso numa banca de jornal, que pude compreender toda a extensão da sua habilidade para resumir conceitos grandiosos em parágrafos muito fáceis de serem lidos.

Outros autores precisaram de muitas centenas de páginas para explicar de forma aprofundada a história da filosofia no Ocidente. José precisou de menos de 300. Mas todo o seu cuidado em usar tais páginas da melhor forma possível é claro e evidente ao longo da obra. Se você quer conhecer mais sobre a filosofia, não existe introdução melhor e mais eficiente do que A Odisseia da Filosofia, que ainda pode estar dando bobeira numa banca ou livraria a poucos metros da sua casa. Não perca essa oportunidade!

***

Crédito da imagem: Louis J.Lebrun (Socrates speaks)

Marcadores: , , , , , ,