16.5.13

Nunca desliga

Imaginem que Maria estava quase caindo no sono em sua rede a beira do rio, com uma revista no colo. Então de repente uma mosca pousa em seu braço, ela o sacode quase instintivamente, e continua praticamente adormecida. Mas a mosca não se dá por vencida, e fica zunindo em seus ouvidos, como é próprio de todas as moscas que evoluíram para nos atormentar... Maria pega a revista e espanta a mosca, chateada. Quem sabe agora possa voltar a dormir.

O que será que ocorreu em seu cérebro depois que “despertou” com o zunido da mosca? E como estava ele momentos antes, enquanto Maria caia no sono? Por muito tempo, os neurocientistas consideraram a hipótese de que grande parte da atividade cerebral durante o repouso se equiparava a um estado “semi-inativo”, sonolento.

Conforme tal hipótese, a atividade no cérebro em repouso representaria nada mais que um ruído ocasional, semelhante ao padrão de “chuviscos” na tela de TV enquanto o sinal está fora do ar. Então, quando a mosca zuniu e incomodou Maria, seu cérebro “despertou” para se concentrar na tarefa consciente de exterminá-la... Entretanto, estudos recentes com tecnologias de neuroimagem revelaram algo muito diverso, e estranho: mesmo quando estamos em repouso, sem fazer absolutamente nada, o cérebro continua em plena atividade!

Sim, hoje conseguimos observar o interior do cérebro e medir boa parte de sua atividade química e elétrica em tempo real. Tudo começou com o psiquiatra alemão Hans Berger, criador do eletroencefalograma (EEG), que grava a atividade elétrica no cérebro por meio de um conjunto de linhas ondulatórias sobre um gráfico.

Em ensaios seminais sobre suas descobertas com as primeiras pesquisas utilizando o EEG em 1929, Berger deduziu, a partir das incessantes oscilações elétricas detectadas pelo aparelho, que “temos de supor que o sistema nervoso central está sempre – e não somente durante o estado de vigília – num estado de considerável atividade.” Mas suas ideias foram amplamente ignoradas, até tempos recentes, bem recentes... A tecnologia para se examinar o cérebro se aprimorou: em 1970, veio à tomografia por emissão de pósitrons (PET, Positron-Emission-Tomography), que mede o metabolismo da glicose, fluxo sanguíneo e absorção de oxigênio para a extensão da atividade neuronal; já em 1992 veio à captação de imagem por ressonância magnética funcional (fMRI, functional Magnetic Ressonance Imaging), que mede a oxigenação do cérebro com o mesmo propósito.

Essas tecnologias são mais do que capazes de analisar a atividade cerebral, focada ou não, mas a maioria dos estudos iniciais levou a impressão errônea de que, na maior parte, as áreas do cérebro permanecem “tranquilas” até que sejam requisitadas a desempenhar alguma tarefa específica. Ao longo dos anos, no entanto, alguns pesquisadores [1] começaram a estudar a atividade cerebral de colaboradores simplesmente em estado de descanso, deixando a mente livre para divagar. Eles descobriram que a energia gasta pelo cérebro não varia mais do que 5% entre o estado de vigília e/ou atividade consciente e o estado de relaxamento completo, quando supostamente não fazemos absolutamente nada a não ser pensar, divagar...

A conclusão surpreendente a que chegaram é a de que boa parte da atividade geral – de 60% a 80% de toda a energia gasta pelo cérebro – ocorre em circuitos não relacionados a nenhuma evento externo. Com a devida licença dos colegas astrônomos, os pesquisadores deram a essa atividade intrínseca o nome de “energia escura do cérebro” – referência à energia não visível (não interage com fótons), mas que representa a maior parte da massa do universo.

Ficou claro, a partir desse trabalho, que o processo consciente é responsável por apenas uma parte, ainda que crítica, da atividade total de todos os sistemas do cérebro. Como Berger mostrou em primeiro lugar, e muitos outros confirmaram desde então, a sinalização cerebral consiste em um amplo espectro de frequências, que vão dos potenciais corticais lentos (SCPs, Slow Cortical Potentials) de baixa frequência até a atividade acima de 100 ciclos por segundo. Um dos grandes desafios da ciência é entender como os sinais de diferentes frequências interagem.

A orquestra sinfônica proporciona uma metáfora adequada, com sua integrada “tapeçaria” de sons provenientes de múltiplos instrumentos que tocam no mesmo ritmo. Os SCPs equivalem à batuta do regente. Só que, em vez de manter o tempo para um conjunto de instrumentos musicais, esses sinais coordenam o acesso que cada sistema cerebral exige para o vasto depósito de memórias e outras informações necessárias para se sobreviver num mundo complexo e em permanente mudança. Os SCPs garantem que as computações corretas ocorram de maneira coordenada, exatamente no momento adequado.

Mas o cérebro é muito mais complexo que uma orquestra sinfônica. Ele oscila continuamente entre a necessidade de equilibrar respostas planejadas com demandas imediatas. Os grandes expoentes da psicologia, como William James, Sigmund Freud e Carl Jung, sempre compreenderam o enorme e misterioso papel do inconsciente sobre o consciente. Que o cérebro pode até ser uma máquina de envio e reenvio de informações, um computador molecular de vasta complexidade, mas ainda assim há que se pensar no que quer que – esteja onde estiver no cérebro – interpreta as informações recebidas e elabora respostas morais e sentimentais...

Pesquisadores já sabem há algum tempo que do imenso fluxo de informações que trafegam pelo cérebro a todo instante, apenas um mísero “filete” se encaminha para os centros de processamento neurológicos. Embora 6 milhões de bits sejam transmitidos através do nervo ótico, por exemplo, somente 10 mil bits (0,16%) chegam até a área de processamento virtual do cérebro; e, destes, apenas algumas centenas participam da formulação de percepção consciente – o que é escasso demais para que possam gerar, por si mesmos, uma percepção significativa do ambiente a volta.

Tal descoberta sugere que o cérebro provavelmente faz constantes predições sobre o ambiente externo, valendo-se de insignificantes impulsos sensoriais que chegam a ele do mundo exterior. O que isto quer dizer, na prática, é que a maior parte do que vemos do mundo é imaginada e antecipada por padrões cerebrais que independem, na realidade, do que nos chega do exterior.

Ultimamente, neurocientistas tem registrado em estudos que há mesmo certas áreas do cérebro que estão em maior atividade no repouso, e que reduzem sua atividade quando precisamos realizar uma tarefa motora ou intelectual, como afugentar uma mosca ou ler um texto em voz alta. Tais áreas estão envolvidas com a lembrança dos eventos pessoais, com aspectos que tendem a determinar o nosso estado emocional e com a capacidade empática de “imaginarmos o que os outros estão pensando”.

Tudo isso nos sugere que em nosso inconsciente, e talvez em nossa essência mais íntima, somos como uma trupe teatral que escreve os roteiros e reencena para si mesma, constantemente, histórias repletas de significância emocional. A emoção, ao que parece, nunca desliga. E o mundo, o nosso mundo, nada mais é do que a peça que nos dispomos a encenar para nós mesmos. Os filetes de informação que chegam de fora podem mesmo ser quase irrelevantes perto da gigantesca quantidade de informação que moldamos dentro de nós mesmos.

Os sábios antigos, de diversas partes do mundo, pareciam já saber disso. Saber, isto é, que para conhecer o mundo, devemos antes conhecer a nós mesmos. E que, para alcançar o Céu, devemos antes olhar para dentro – se não erguermos nosso próprio Céu dentro de nós mesmos, não o encontraremos em lugar algum...


É tão difícil descrever o que se sente quando se sente que realmente se existe, e que a alma é uma entidade real, que não sei quais são as palavras humanas que possa defini-lo. Não sei se estou com febre, como sinto, se deixei de ter a febre de ser dormidor da vida. Sim, repito, sou como um viajante que de repente se encontre numa vila estranha, sem saber como ali chegou; e ocorrem-me esses casos dos que perdem a memória, e são outros durante muito tempo. Fui outro durante muito tempo – desde a nascença e a consciência –, e acordo agora no meio da ponte, debruçado sobre o rio, e sabendo que existo mais firmemente do que fui até aqui... (Livro do Desassossego - Fernando Pessoa)

***

[1] Boa parte das informações científicas deste artigo foram retiradas do artigo “A energia escura do cérebro”, capa da Scientific American de Abril de 2010 (ano 8, #95), escrito por Marcus E. Raichle – professor de radiologia e neurologia –, que é um dos principais pesquisadores no assunto aqui abordado.

Crédito das imagens: [topo] John Warburton-Lee/JAI/Corbis; [ao longo] Michael Pole/Corbis

Marcadores: , , , , , ,

13.5.13

Tao Te Ching a caminho...

O próximo projeto para as Edições Textos para Reflexão é consideravelmente mais ambicioso que os demais: Tao Te Ching – O Livro do Caminho Perfeito.

Trata-se do livro essencial do taoísmo e de um dos maiores livros sagrados da humanidade. Diz a lenda que foi escrito (entre 350 e 250 a.C.) pelo próprio Lao Tse, um misterioso sábio chinês, a pedido de um guarda de fronteira, enquanto ele aguardava para ser liberado a ultrapassá-la... Quem sabe, uma das maiores contribuições da burocracia para a sabedoria humana!

Estarei, claro, traduzindo do inglês, e não diretamente do original. Entretanto, estarei muito bem “assessorado”. Usarei como base a tradução clássica de James Legge, mas contanto com as interpretações de Aleister Crowley e Murillo Nunes de Azevedo. Vejam mais detalhes abaixo, no que será um trecho do início do livro:

***

Nota sobre a tradução

Na língua chinesa escrita de estilo antigo, cada palavra, em geral, era escrita usando um único caractere (monossilábico); era um estilo muito mais conciso e literário do que a língua falada. Como o Tao Te Ching foi escrito no estilo antigo, o texto é extremamente conciso e não é de interpretação fácil mesmo para um chinês. O significado de cada monossílabo, no meio de uma série continua de caracteres sem pontuação, não surge espontaneamente; as frases têm uma estrutura mais difícil de detectar. As palavras que rimam sugerem as frases que estão presentes, mas nem sempre elas estão lá e nem sempre a estrutura fica perfeitamente clara. Sabe-se também que na época de Lao Tse não havia uma escrita unificada, porque a China não estava ainda politicamente unificada, e que o significado e pronúncia de muitos caracteres se foi alterando com o tempo.

Neste cenário, seria deveras complexo e pretensioso traduzir tal obra direto do original. Felizmente, no entanto, posso contar com a tradução clássica de James Legge para o inglês. Legge (1815 – 1897) foi um missionário escocês que viveu na China e dedicou boa parte da vida a estudar sua cultura. Além de ter sido o primeiro professor de chinês na Universidade de Oxford, é reconhecido por haver composto uma das traduções mais fiéis do Tao Te Ching para o inglês.

Mas não é tudo. Em minha tradução de Legge para o português conto com uma “assessoria” muito especial. A primeira é a interpretação do famoso e polêmico ocultista britânico, Aleister Crowley (1875 – 1947):

“Durante minhas andanças solitárias pelas montanhas de Yun Nan, a atmosfera espiritual da China me penetrou a consciência, graças a ausência de qualquer impertinência intelectual de meu órgão de conhecimento. O Tao Te Ching revelou sua simplicidade sublime a minha alma, pouco a pouco [...] A filosofia de Lao Tse se comunicou comigo, a despeito das tentativas persistentes de minha mente em tentar conformá-la com minhas noções pré-concebidas do que o seu texto deveria significar” (The Tao Teh King [Liber CLVII], trechos da Introdução).

O grande mago não pôde evitar a tentativa de reinterpretação do livro para a língua inglesa. No verão de 1918, realizou sua nova tradução com o auxílio de um amigo, chamado Amalantrah, que lia o significado de cada ideograma chinês, traduzindo-o ao inglês, enquanto Crowley os interpretava e anotava:

“Eu completei minha tradução em três dias, mas durante os últimos cinco anos tenho constantemente reconsiderado cada sentença. O manuscrito foi emprestado a numerosos amigos e intelectuais que comentaram meu trabalho, e aspirantes do Tao que apreciaram sua adequação ao espírito do ensinamento do Mestre. Aqueles que se desapontaram com a tradução de Legge estavam entusiasmados com a minha” (Idem).

A segunda “assessoria” de que desponho é a espetacular tradução do Tao de Ching, também à partir de Legge e outras versões inglesas para o português, de Murillo Nunes de Azevedo (1920 – 2007), engenheiro, escritor e filósofo brasileiro. Membro da Sociedade Teosófica desde 1950, professor em diversas universidades brasileiras durante 30 anos, monge budista, Murillo traduziu e escreveu ele mesmo uma vasta obra sobre diversas tradições espirituais e religiosas, do Tantra ao Taoísmo, do Budismo da Terra Pura ao pensamento teosófico de Helena Blavatsky. Segundo suas próprias palavras, Murillo “procura a visão global de uma realidade que teima em não ser captada pelos seres humanos mais preocupados com os problemas das suas vidas pessoais e seus pequenos mundos de 'faz-de-conta'” (Wikipedia).

De posse da tradução de Legge e das interpretações de Crowley e Murillo, penso que posso chegar a uma espécie de “tradução no caminho do meio”, nem tanto a Terra, nem tanto ao Ar. Meu sucesso ou insucesso, no entanto, será julgado pelos leitores...

***

Para dar uma ideia de como ocorre meu processo de tradução, trarei abaixo, na sequência, quatro versões para o quarto poema do Tao Te Ching (meu predileto): iniciando com Legge e Crowley (em inglês), depois trazendo a tradução de Murillo e, finalmente, a minha.

IV

The Tao is (like) the emptiness of a vessel; and in our employment of it we must be on our guard against all fullness.
How deep and unfathomable it is, as if it were the Honoured Ancestor of all things!

We should blunt our sharp points, and unravel the complications of things; we should attemper our brightness, and bring ourselves into agreement with the obscurity of others.
How pure and still the Tao is, as if it would ever so continue!

I do not know whose son it is. It might appear to have been before God.

***

THE SPRING WITHOUT SOURCE

The Tao resembles the emptiness of Space; to employ it, we must avoid creating ganglia. Oh Tao, how vast art Thou, the Abyss of Abysses, thou Holy and Secret Father of all Fatherhoods of Things!

Let us make our sharpness blunt; let us loosen our complexes; let us tone down our brightness to the general obscurity. Oh Tao, how still art thou, how pure, continuous One beyond Heaven!

This Tao hath no Father; it is beyond all other conceptions, higher than the highest.

***

A FONTE DE TUDO

O Caminho é vazio e inesgotável,
profundo como um abismo.
É como se fosse o ancestral das dez mil criaturas.
Suavizai o corte
Desfazei os nós
Diminuí o brilho.
Deixai que as rodas percorram os velhos sulcos.
Devemos considerar nosso brilho
a fim de que nos harmonizemos com a escuridão dos outros.
Como é puro e tranquilo o Caminho!
Não sei de quem possa ser filho
pois parece ser anterior ao Soberano do Céu.

***

A FONTE SEM ORIGEM

O Caminho é como o vazio de um vaso.
Ao utilizá-lo, devemos nos guardar de todo excesso.
Oh, e como é vasto, profundo como um abismo!
É como se fosse o Ancestral de todas as coisas.

Deixemos que as rodas percorram
os velhos sulcos da estrada.
Devemos cegar nossas adagas,
desfazer os nós
e diminuir o brilho
para que nos harmonizemos com a escuridão alheia.

Oh, como é puro e tranquilo o Caminho,
pode ser que continue para além do Céu!
Não sei de quem possa ser filho,
pode ser anterior ao próprio Imperador de Jade.


Marcadores: , , , , , ,

9.5.13

Lançamento: Toda poesia de Alberto Caeiro

As Edições Textos para Reflexão voltam a publicar Fernando Pessoa, ou melhor, Mestre Caeiro. Em Toda poesia de Alberto Caeiro temos ao todo 3 livros – O Guardador de Rebanhos, O Pastor Amoroso e Poemas Inconjuntos –, além de diversos textos adicionais.

Um livro digital já disponível para o Amazon Kindle e o Kobo:

Comprar eBook (Kindle) Comprar eBook (Kobo)

***

Abaixo, segue um trecho da introdução do livro:

“A fonte da vida temporal é a eternidade. A eternidade se derrama a si mesma no mundo. É a ideia mítica, básica, do deus que se torna múltiplo em nós. Na índia, o deus que repousa em mim é chamado o habitante do corpo. Identificar-se com esse aspecto divino, imortal, de você mesmo é identificar-se com a divindade.

Ora, a eternidade está além de todas as categorias de pensamento. Este é um ponto fundamental em todas as grandes religiões do Oriente. Nosso desejo é pensar a respeito de Deus. Deus é um pensamento. Deus é um nome. Deus é uma ideia. Mas sua referência é a algo que transcende a todo pensamento. O supremo mistério de ser está além de todas as categorias de pensamento. Como disse Immanuel Kant, o filósofo alemão: a coisa em si é não coisa. Transcende a coisidade e vai além de tudo o que poderia ser pensado.

As melhores coisas não podem ser ditas porque transcendem o pensamento. As coisas um pouco piores são mal compreendidas, porque são os pensamentos que supostamente se referem àquilo a respeito de que não se pode pensar. Logo abaixo dessas, vêm as coisas das quais falamos. E o mito é aquele campo de referência àquilo que é absolutamente transcendente”.

O poder do mito (trecho), Joseph Campbell

Mestre Caeiro foi além da linguagem, e exatamente por isso, descascou a casca da metafísica, e demonstrou como toda poesia é sensação, sentimento e intuição, os frutos por detrás das cascas das palavras.

Segundo Pessoa, “a obra de Alberto Caeiro representa uma reconstrução integral do paganismo, na sua essência absoluta, tal como nem os gregos nem os romanos que viveram nele e por isso o não pensaram, o puderam fazer”.

Neopagão por excelência, mito de si mesmo, Mestre Caeiro, o único heterônimo de Pessoa que era reconhecido pelos outros heterônimos como mestre, nos traduz em seus poemas tudo aquilo que não pode ser traduzido... Isto tampouco é um paradoxo: é que se trata de uma linguagem para ser percebida pela alma, e não pelo cérebro.

De fato, “há metafísica suficiente em não pensar em nada”, ou seja, em simplesmente existir, e contemplar tudo isto que está a nossa volta. Toda a Eternidade apaixonada pela produção do tempo. Toda a Transcendência a velejar pelo horizonte. Toda a Natureza a bailar com a brisa que escora pelos ombros...

Seria inútil prosseguir nessa descrição do indescritível. Portanto, antes de lhes deixar na companhia de Caeiro, trago uma poesia ainda mais antiga e inefável, vinda da Pérsia (séc. XIII):

Além das ideias de certo e errado,
há um campo. Eu lhe encontrarei lá.

Quando a alma se deita naquela grama,
o mundo está preenchido demais para que falemos dele.
Ideias, linguagem, e mesmo a frase “cada um”
não fazem mais nenhum sentido.

Jalal ud-Din Rumi (poeta sufi)


Marcadores: , , , , , , , , ,

8.5.13

O diagnóstico da normalidade

Para saber o que é loucura, a gente tem que entender o que é ser normal. E isso ninguém conseguiu definir até hoje. Mas, uma coisa é certa, um pouco de maluquice faz parte da normalidade e ser normal demais é o mesmo que ser muito louco. (Psicologia UERJ)


Este cartaz (com o texto acima, a imagem que ilustra este post) deveria ser lido para todo iniciante nos mistérios da loucura e da normalidade. A grande verdade é que não há um "método científico" para de diagnosticar a loucura, e muito menos a normalidade... O que há, isto sim, é uma convenção, um acordo social, para o que seja "normal" e o que seja "louco".

Ainda assim, todo ser que vive numa sociedade precisa de certa autonomia, de certa capacidade para conseguir subsistir sem a necessidade de um auxílio permanente de outro alguém. Talvez seja isto o "louco": aquele que não consegue mais viver na sociedade por si só, e que precisa de acompanhamento psicológico (ou, em casos graves, de afastamento total da sociedade).

Mas tudo isto faz parte de uma longa discussão que data desde antes da própria invenção do termo "psicologia". Nesta brilhante palestra para o programa Café Filosófico da TV Cultura, o psicanalista e psiquiatra Benilton Bezerra nos traz um exposição bastante ampla da História da psicopatologia.

O nome em si (psicopatologia) pode assustar, mas seu significado é algo que nos interessa (ou deveria interessar) a todos. A palavra "Psico-pato-logia" é composta de três palavras gregas: psychê, que produziu "psique" ou "alma"; pathos, que resultou em "excesso" ou "sofrimento"; e logos, que resultou em "lógica" ou "conhecimento". Psicopatologia seria, então, um conhecimento sobre o sofrimento da alma. E isto nos interessa a todos, pois é impossível viver sem sofrer. Nos interessa, portanto, conhecer os motivos de nosso sofrimento, e até onde eles podem ser amenizados ou "controlados". Isto também é um autoconhecimento e, dessa forma, filosofia.

Mas o que nos interessa acima de tudo é evitar que este tal "diagnóstico da normalidade" (o que, na realidade, nunca será 100% eficaz) não se reduza a um procedimento "científico", que trate aos seres humanos como "máquinas comportamentais". É este, sobretudo, o alerta da Benilton - uma alerta para que nossa mente não siga, ao menos diretamente ou irrefletidamente, aos ditames do mercado farmacêutico. Se pelo menos as crianças pararem de ser diagnosticadas a torto e a direito com "distúrbios de comportamento", somente por serem crianças e gostarem, digamos, de "bagunçar o coreto", já será um bom avanço. Não na opinião do mercado farmacêutico, obviamente, pois o que lhes interessa é somente vender seu próximo "lançamento" [1]...

***

[1] Não quero aqui, obviamente, dizer que os acometidos de distúrbios mentais devam deixar de se medicar. É claro que muitos remédios são de grande auxílio, contanto que o paciente esteja efetivamente com um distúrbio. Vocês entenderão melhor o contexto do que estou querendo dizer se virem toda a palestra acima (particularmente a segunda metade). Também já escrevi sobre este assunto aqui: Intoxicados.

Crédito da imagem: Psicologia UERJ

Marcadores: , , , , , ,

7.5.13

O mundo assombrado pelas teorias

Este texto me foi enviado por um amigo de longa data e que também se interessa por filosofia. Seu nome é Silvio Soares Santos (não "aquele" Silvio Santos...):


Parece-me muito claro que como método de conhecimento rigoroso e objetivo, o conhecimento oriundo do modelo científico, propõe-se a fundamentar empiricamente os fenômenos naturais que constituem o mundo. Fundamentar empiricamente, não significa explicar os porquês sobre um evento fenomênico, mas apenas organizar estruturalmente o ‘como’ eles ocorrem.

Hume (1711 – 1776)[1] na obra Ensaio sobre o entendimento humano já afirmara que a ciência parte da observação e baseia-se na ideia de causa e efeito sobre os eventos constantes na natureza. Hume afirma que o sujeito do conhecimento apenas apreende os fatos concretos da realidade, sendo estes revelados pela experiência sensível. O procedimento utilizado como fundamento sensível é então a experiência. Porém, como não se podem fazer todas as experimentações e também porque a mente humana é que relaciona um evento com outro evento, o conhecimento científico tem como sustento apenas o hábito das repetições, analisadas por nossa lógica. A lógica é puramente mental e cognoscente, portanto, não representa com garantia a realidade factual e material.
Ou seja, a natureza não é obrigada a seguir nossas leis, nem ser cúmplice de nossas demonstrações. Acabamos assim, em uma espécie de crença instrumentalizada, objetiva, técnica e lógica, muito propensa a irracionalidade por diversas instâncias.

Obviamente que ninguém é maluco de dizer que o mundo prático não é funcional. Porém, nos parece funcional, por que a nossa lógica o cria assim. Relacionamos causas a seus efeitos, teorizamos leis após hipotetizarmos possíveis explicações. Aí nesse ponto, consideramos irrelevantes, os termos arbitrários inventados pelo cientista, como ‘a ideia de força’ aplicada no movimento.

Quanto às generalizações e as teorias dedutivas que partem de observações indutivas, estas também oferecem como problemas alguns pontos.
Primeiramente, a deficiência da observação, que além ser relativa pela não garantia de observarmos da mesma forma o mesmo evento e da contribuição da mente na complementação das percepções sobre as leituras das sensações, temos a problemática do instrumental, que pode interferir e influenciar os resultados.

Em segundo lugar, aparece a interferência direta do observador e a relação arbitrária dos eventos entre si. Nada garante que a cor vermelha que vejo seja o mesmo vermelho que você vê, caro leitor-observador. Nada garante que a queda de um lápis, segue as mesmas leis da queda de uma pedra lá na montanha. E a ‘coisa’ fica ainda mais complicada quando generalizamos uma mesma lei para todos os eventos, inclusive aqueles que ainda não ocorreram.

Em suma, o hábito é a única forma de se sustentar leis. Como reflexão, podemos tomar exemplos de teorias que pareciam corresponder conclusivamente aos eventos que ocorriam e foram abandonadas ou modificadas. Também podemos trazer para a crítica, os eventos anômalos que a Ciência não consegue explicar com sua teoria aplicada.

Aqui, me ausento de reflexões mais apuradas, sobre, por exemplo, o interesse econômico e político aos quais a Ciência pode estar sujeita, e mesmo as implicações éticas sobre o procedimento científico, pois não vem ao caso, de acordo com o que foi proposto nessa atividade discursiva.
Penso que o modelo tradicional ou convencional de Ciência, deva ser revisto, pois, o mundo moderno técnico-científico, não é o melhor dos mundos possíveis.

***

[1] HUME, D. Ensaio sobre o entendimento humano. Tradução de Maria Eloisa P. Tavares. Traduzido do texto disponível em inglês em gutenberg.org/files/36120/36120-h/36120-h.htm#OF_THE_DIGNITY_OR_MEANNESS_OF_HUMAN_NATURE


Marcadores: , , , , ,

Acompanhar

Digite seu e-mail abaixo para receber atualizações do blog:

Twitter

O Autor

Rafael Arrais

ver profile

design by Ayon

Igreja do Livro Transformador

Blogger

blogspot visit counter


Arquivo

todos os posts do blog se encontram abaixo (*), agrupados por mês.ano (de 11.06 até hoje)
(*) Em alguns casos o arquivo acima não trará todos os posts do mês, recomendamos a visualização dinâmica para os que não querem perder nenhum post

Licença Creative Commons Alguns textos publicados neste blog encontram-se registrados na Biblioteca Nacional