26.1.15

Como blindar a democracia dos projetos de poder?

Parte da série “Entre a esquerda e a direita”, onde Alfredo Carvalho e Igor Teo respondem a uma mesma pergunta (a cada post). Para conhecer mais sobre a proposta da série e seus participantes, não deixe de ler nossa apresentação.

[Raph] Recentemente se completaram 25 anos da queda do Muro de Berlim, que simbolizou, na época, o triunfo do regime econômico ocidental sobre o regime comunista do leste europeu e da então União Soviética. Quando um governo precisa construir um muro para evitar que seus cidadãos escapem dos limites do seu país, não é preciso ser analista político para notar que algo está errado. Infelizmente algum resquício de feudalismo, de regimes totalitários onde a promessa do desenvolvimento social é massacrada pelo projeto de poder de uma elite, ainda perdura em partes do mundo até hoje. Mesmo o Brasil passou por 21 anos de um regime militar brutal que somente em 2014 admitiu a prática de tortura. Ditaduras, enfim, não são mesmo exclusivas de um único espectro político. Qual a melhor forma de evitá-las, como blindar a democracia dos projetos de poder?

[Teo] A questão do poder é amplamente discutida na obra do filósofo francês Michel Foucault. No senso comum, tendemos a associar o poder como algo que “vem de cima para baixo”, sendo o Estado o coroamento deste poder. Foucault entende que o poder não se exerce de cima para baixo, mas opera através de ramificações reticulares, formando uma complexa rede. O poder não está apenas no Estado ou com alguns grupos, mas inclusive nos seus subordinados que o afirmam e reproduzem. Entretanto, falar em organização reticular do poder não implica dizer que se trata de uma distribuição equitativa: o poder se destaca justamente pela assimetria que imprime a estas ramificações.

No prefácio ao Anti-Édipo, Foucault afirma que “o fascismo está em nós todos, que martela nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz amar o poder, desejar esta coisa que nos domina e nos explora”. Na mesma obra, Gilles Deleuze e Félix Guattari afirmam que aquele que melhor entendeu o fenômeno social foi Wilhelm Reich, que ao invés de invocar a teoria da ilusão das massas para explicar o fascismo, disse que as massas não foram enganadas: “elas desejaram o fascismo em certo momento” (como, por exemplo, o nazismo que subiu democraticamente ao poder na Alemanha).

O que ambos pensadores apontam é que o problema do fascismo é menos uma questão de ideologia – embora as ideologias obviamente possam ser mais ou menos fascistas – e mais uma questão de desejo, o que aponta em última instância para nós mesmos: nós temos atitudes fascistas, e não a direita ou a esquerda (pois como bem sabemos, existiram ditaduras sangrentas de ambas matrizes ideológicas). Quando achamos que nossa opinião é a melhor e que ela deve se impor a qualquer custo, nós estamos sendo fascistas. Quando vemos uma produção cultural diferente da nossa – como uma “música das massas”, por exemplo – e a julgamos inferior por isto, nós estamos sendo fascistas. Quando não suportamos que os desejos dos outros possam ser distintos dos nossos, nós estamos sendo fascistas.

É óbvia nossa crítica às formas totalitárias do poder, mas mesmo nas democracias liberais devemos nos atentar que ele não está igualmente distribuído. O discurso liberal tenta associar sua oposição a regimes totalitários, mas ao fazer isso, cega-se para as relações de poder que ocorrem em seu próprio seio. De fato, existiram ditaduras supostamente de esquerda, assim como de direita, e a elas não devemos poupar críticas por sua história tenebrosa. Mas associar a democracia liberal à conquista irrestrita de liberdade demonstra desconhecimento das relações estruturais ao seu próprio modelo político. As democracias liberais não solucionaram a questão do exercício do poder, mas apenas o tornou mais eficiente e silencioso.

No totalitarismo, o horror é reconhecível. Todos podem identificá-lo: dizemos “que horríveis são essas gulags.  As estratégias de dominação e opressão nos são claras. Nas democracias liberais, por sua vez, as estratégias de dominação e opressão se aperfeiçoaram, tornando-se “invisíveis”, nos fazendo até desejá-las. Na fantasia do liberalismo democrático, somos sedados em relação ao horror de nossa sociedade, e assim sedados podemos dormir tranquilamente todas as noites sabendo que existem milhares de moradores de rua no país, que os produtos que consumimos são produzidos a partir de trabalho escravo, que milhares de crianças morrem de fome pelo mundo devido à desigualdade econômica e social que fundamenta a própria estrutura capitalista de acumulação de riquezas.

As democracias liberais operaram uma propaganda ideológica muito mais eficaz que qualquer regime totalitário. Como Foucault discute em Vigiar e Punir, somos meticulosamente produzidos por nossas instituições, como escolas, prisões, hospitais, quartéis, fábricas, entre outros dispositivos de vigilância e controle, funcionando a partir da medição de aptidões e treinamento para entrarmos na grande lógica do capitalismo, de modo a nos tornarmos indivíduos aptos para trabalhar e produzir, e sedentos para explorar e consumir. Todos aqueles que não se enquadram são vistos como marginais cuja vida não possui muito valor. Se na sociedade capitalista as democracias liberais “venceram”, não foi por sua superioridade moral, mas por terem se tornado um meio mais efetivo de normalização social, esta última sob a ordem do capital. A liberdade do liberalismo só existe até o ponto em que o indivíduo está docilizado e operando segundo as regras pré-determinadas de produtividade e consumo.

Um morador de rua é simplesmente visto como alguém que não se esforçou o suficiente. Tampouco as pessoas se importam com a exploração do trabalhador em condição de miséria desde que os produtos cheguem com preços baixos aos consumidores com poder aquisitivo. Neste sentido, o discurso liberal se tornou um excelente anestésico social: o problema nunca é o capitalismo e as relações de poder que reproduzimos diariamente, mas sempre o outro que não adentrou suficientemente no sistema capitalista. Só que nesse discurso ignora-se que a marginalidade é produzida pelo próprio sistema.

Devemos ser críticos ao totalitarismo, mas não podemos crer que a instituição da democracia ocidental por si só seja a alternativa salvadora. Mesmo nas democracias não estamos livres de um cotidiano de violência decorrente da criminalidade, fruto de uma sociedade desigual; não estamos livres da miséria de situações de extrema pobreza; não estamos livres do morticínio nas guerras financiadas por grandes indústrias armamentistas; entre tantos outros massacres já socialmente naturalizados que se fizéssemos uma real contabilidade da mortalidade e da miséria, veremos como o capitalismo é uma gulag muito mais eficiente. E ainda somos ensinados a desejá-lo através das promessas ideológicas de felicidade através do capital e do consumo.

Respondendo à pergunta, não há como evitar os projetos de poder, pois a própria democracia não deixa de ser um destes. As relações de poder são constituintes da própria sociedade. O que ocorre é que estamos sempre a afirmar os poderes instituídos, reproduzindo-os, mas pouco acostumados a refletir e exercer o poder por nós mesmos. O que precisamos é liberar o poder de modelos unitários e totalizantes. Isto não quer dizer acabar com o Estado, mas alterá-lo em sua organização. A proposta de por fim ao Estado soa ingênua, pois antes de redistribuir o poder, ela estaria entregando o poder a outros (no caso do capitalismo, aos detentores do capital). O que precisamos é tomar o poder para nós, dar maior voz à micropolítica, esta que fazemos no cotidiano, em oposição à macropolítica, ditada pelos grandes burocratas e detentores do capital.

Neste sentido, há a organização social em rede, em oposição à atual piramidal e burocrática. Na organização social em rede o poder é descentralizado, dando maior autonomia às partes para se articularem diante das problemáticas da sua realidade. No entanto, isto não significa prescindir completamente de organizações macropolíticas. Elas resguardam sua importância em diversos contextos, mas em outros, a autonomia é fundamental. Do mesmo modo, a responsabilidade de atuação é coletiva, e não centrada em líderes que atuam enquanto a maioria permanece passiva. Exemplos de sucesso dessa forma de organização tem se dado no campo da saúde mental, onde o Brasil é referência internacional.

Criticar a democracia não significa se opor a ela, mas pensar em maneiras de efetivá-la, já que estamos aquém do que ela representa. Minha resposta já se alongou demais, então deixo tal ideia para que o leitor possa se interessar e pesquisar por si mesmo, e quem sabe, não apenas pensar o Estado através dessa perspectiva, mas também as demais instituições (como escolas, hospitais e até mesmo empresas) que atualmente funcionam sob modelos hierárquicos e disciplinadores. Na organização social em rede, o coletivo e o individual são postos para funcionar de modo complementar, de forma a exercitar algo que Jürgen Habermas chamou de razão comunicativa, onde exercícios de alteridade e questionamentos éticos fazem parte do cotidiano por uma vida não fascista.

[Carvalho] O conservadorismo político moderno, dizem, nasceu no final do século XVIII, partindo das Reflexões Sobre a Revolução em França, de Edmund Burke. Nesta obra, o filósofo irlandês analisou e criticou duramente os fundamentos da Revolução Francesa, chegando mesmo a prever em detalhes, de forma quase profética, o processo de instabilidade política e de degeneração tirânica que levaria ao período do Terror jacobino e, mais tarde, à ascensão de Napoleão Bonaparte, dois e nove anos após a publicação do texto, respectivamente.

Burke inaugurou uma linhagem de pensadores que cultivou um grande interesse pela análise crítica dos processos políticos revolucionários, bem como da mentalidade que lhes serve de fundamento, procurando demonstrar a relação destes com a ocorrência ou o agravamento de períodos de instabilidade social, e também com o despertar de tiranos de toda espécie. E, em vista disso, é apoiando-me em alguns desses autores que me aventuro a propor uma receita para proteger a nossa tão estimada democracia.

Pois bem, para começar, a primeira coisa que eu diria é que não existe receita alguma. Isso mesmo. Pelo menos não uma solução geral, supostamente dedutível através da razão. A crença de que tal coisa pode ser alcançada se enquadra naquilo que o filósofo conservador inglês Michael Oakeshott chamou de racionalismo em política. Uma mentalidade que tende a sobrepor a razão à experiência e que acaba, sorrateiramente, infestando o debate político de uma retórica excessivamente abstrata, muito pouco útil na tarefa de resolver problemas concretos, mas incrivelmente competente na arte de seduzir consciências.

Assim, o racionalista em política é aquele indivíduo que, quando fala, usa e abusa de termos vagos como liberdade, igualdade, justiça e democracia, mas que reflete pouco sobre a experiência concreta desses conceitos, tendendo a adotar, quanto a eles, quase sempre uma atitude utópica. Ele crê firmemente, por exemplo, que a entidade abstrata que ele chama de democracia, se radicalizada e levada às últimas consequências, seria uma espécie de solução geral para todos os conflitos sociais e políticos, mas tal crença, segundo o filósofo inglês Roger Scruton, “é baseada no desprezo pelas condições históricas e culturais, e no fracasso em perceber que a democracia só se fez possível por meio de outras instituições mais profundamente ocultas”, como a independência judicial, os direitos de propriedade, a liberdade de discurso e de expressão e a liberdade de oposição.

De fato, quase todos os planos “para um mundo melhore “para o bem de todos”, arquitetados nas cabeças dos racionalistas políticos, são profundamente utópicos e fundamentados em conceitos abstratos e vagos. Às vezes até envolvem raciocínios bastante sofisticados, mas, a exemplo dos antigos sofistas gregos, tais raciocínios não levam a lugar nenhum, e muitas vezes nem seus próprios autores os compreendem. A única coisa efetivamente inteligível e clara em seus projetos é a oposição intransigente a um ou mais aspectos da realidade presente, como o capitalismo ou as religiões organizadas, supostamente responsáveis por desviar o mundo dos belos ideais abstratos que têm em mente.

É justamente aí, segundo o filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé, que reside a semente da tirania e do autoritarismo, a tentação totalitária. Como seus ideais são extremamente imprecisos, mas sempre imantados com uma irrefutável aura de verdade, humanidade e racionalidade, os utopistas políticos, sem perceber, facilmente acabam corrompendo seus valores morais, permitindo-se utilizar meios espúrios em nome de fins tão virtuosos . Afinal, alguém que vá contra a democracia, a liberdade, a igualdade ou a justiça - na verdade, os simulacros nebulosos que eles crêem ser tais coisas - só pode ser um inimigo a ser neutralizado, não é? E no fim das contas, mesmo cidadãos comuns, corretos e pacatos, acabam apoiando e colaborando com regimes totalitários assassinos, sem nem notar a gravidade da situação.

Evidentemente, nem todo utopista irá degenerar seu comportamento de forma tão trágica. Alguns, na verdade, quando confrontados com a fonte infinita de tensões e discordâncias que é a sociedade real, passam pelo processo de desilusão de forma relativamente saudável e apenas adotam uma postura mais cética e ranzinza em relação à política. O problema é que, antes de atingirem esse estágio, eles acabam servindo como sustentação e massa de manobra para uma outra classe de pessoas, os psicopatas políticos, que estão sempre infiltrados em tudo que cheire a poder. E estes, mesmo tendo uma certa imunidade ao apelo emocional da retórica política abstrata, já identificam, antes de todos, aquela competência para sedução de consciências que mencionei antes, e a utilizam em favor de si mesmos, fascinando uma horda de idiotas úteis sugestionáveis que fará de tudo por eles ou pela ideologia que representam.

Por fim, considerando tudo o que foi dito, o mais próximo de uma receita conservadora para nos proteger dos regimes autoritários e totalitários seria, justamente, nos manter longe das receitas fáceis e do modo utópico de pensar a política. Como disse Roger Scruton, em As Vantagens do Pessimismo, “esse modo de pensar, ao perseguir uma solução única e geral para os conflitos humanos, uma solução que elimine para sempre o problema, destrói as instituições que nos permitem resolver os problemas um a um”, e continua, “as soluções para os conflitos humanos são descobertas caso por caso, e são consubstanciadas em precedentes, costumes e leis. A solução não existe como um plano, um projeto ou uma utopia. É o resíduo de uma miríade de acordos e negociações, preservados nos costumes e nas leis. As soluções raramente são previsíveis por antecipação, mas regularmente vão se acumulando por meio do diálogo e da negociação”.

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Crédito da imagem: Google Image Search (A queda do muro de Berlim, em 1989)

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22.1.15

Os ensinamentos de Krishna

O próximo livro das Edições Textos para Reflexão será a tradução de um dos maiores livros sagrados do mundo, o Bhagavad Gita, a sublime canção da Grande Índia.

Para tal empreitada, usarei como base a tradução clássica do sânscrito para o inglês de Sir Edwin Arnold (1885), conforme compilada pela American Gita Society. E contarei também, é claro, com a experiência de já haver traduzido o Tao Te Ching da versão inglesa de James Legge, além do Gitanjali de Tagore e do Profeta de Gibran, ambos diretamente do original em inglês.

A edição digital e a impressa virão recheadas de notas, incluindo muitas citações de célebres pensadores ocidentais simpáticos ao Gita, como Joseph Campbell e Arthur Schopenhauer. O meu intuito é trazer a filosofia perene da antiga Índia para os dias atuais, pois que apesar da guerra dos Kurus e dos Pândavas ter sido narrada há milênios, ela não deixa de estar sendo lutada ainda hoje, ainda neste momento, na alma de todos nós.

Conforme já falei mais sobre o livro original aqui no blog (texto que será, aliás, o prefécio da edição), a seguir já lhes trago um exemplo do andamento da minha tradução, retirado do Cap. II – O conhecimento transcendental (a informação entre parêntesis ao final de cada trecho se refere a marcação dos versos originais):

 

Os ensinamentos de Krishna começam pelo verdadeiro conhecimento da alma e do corpo

Lorde Krishna disse: Você se entristece por aqueles que não são dignos da sua tristeza, mas ainda assim suas palavras trazem grãos de verdade. Elas exprimem a sabedoria do mundo exterior, mas são ainda insuficientes para satisfazer à mente interior. Os sábios, em realidade, não se deixam abater nem pelos vivos nem pelos mortos. (2.11)

Jamais houve um tempo em que todos esses reis, você, ou eu, não existíssemos; tampouco haverá algum tempo futuro em que deixaremos de existir. [1] (2.12)

Assim como a alma adquire um corpo de criança, um corpo de jovem e um corpo de velho durante sua vida, da mesma forma, a alma adquire outro corpo após a morte. Isto é muito claro para os sábios. (2.13)

Ao contato dos sentidos, as formas e objetos dão vasão a sensações de frio e calor, de dores e prazeres. Todas essas sensações são transitórias e impermanentes. Dessa forma, devemos aprender a suportá-las sem nos apegarmos a elas, ó Arjuna. (2.14)

Pois uma pessoa verdadeiramente calma e tranquila, que não se deixa afligir ou apegar por essas formas e objetos, e permanece sempre estável em meio às dores e aos prazeres, se torna apta a trilhar o caminho para a imortalidade. (2.15)

O Espírito é eterno, o corpo é transitório

O Espírito invisível (atma) é eterno, e o corpo visível é transitório. A realidade da relação entre ambos é certamente conhecida pelos sábios, que investigaram a si mesmos por um longo tempo, e finalmente chegaram a verdade sobre sua própria essência. (2.16)

O espírito que preenche todo este universo é indestrutível. Ele está em tudo e abarca a todas as coisas. Ninguém pode destruir o que é imperecível. (2.17)

Mas os corpos que abrigam momentaneamente o Espírito eterno, imutável e incompreensível, esses são perecíveis, ó Arjuna. Dessa forma, se prepara para a batalha! (2.18)

Aquele que pensa que o Espírito é um assassino se comporta como aquele que pensa que o Espírito pode ser assassinado, e ambos vivem na ignorância, pois o Espírito nem mata e nem pode ser morto. (2.19)

O Espírito jamais nasce ou, nalgum tempo, morre. Ele não vem à existência, nem cessa de existir. Ele é incriado, eterno, permanente e primordial. Quando o corpo perece ou é destruído, o Espírito perdura. (2.20)

Ó Arjuna, como pode uma pessoa que sabe que o Espírito é indestrutível, eterno, incriado e imutável, matar alguém, ou fazer com que qualquer um seja morto? (2.21)

A morte e a transmigração da alma

Assim como alguém veste uma nova roupa após se livrar da antiga, da mesma forma, a entidade viva da alma individual adquire novos corpos após descartar os antigos. [2] (2.22)

As armas não perfuram tal Espírito, o fogo não o queima, a água não o umedece, e o vento não o deixa seco. O Espírito não pode ser perfurado, queimado, umedecido ou ressecado. Ele é eterno e preenche a tudo o que há. Ele é imutável, permanente, o ancestral de todos. (2.23-24)

Nós sabemos que ele é inefável, incompreensível, incognoscível, que mora além das palavras e do intelecto. E, se você também sabe disso, não deve se deixar afetar pela tentação de tentar conceber o inconcebível. [3] (2.25)

E ainda, ó Arjuna, que você creia que a alma nasce e morre junto com o corpo, isso ainda não seria motivo para tamanha tristeza. Pois que a morte é algo certo para aquele que nasce, e o nascimento necessariamente antecede aquele que vive. Dessa forma, um deriva do outro, e ambos são inevitáveis. Ó príncipe, não se lamente em demasia sobre o que é inevitável. (2.26-27)

Todos os seres são imanifestos, invisíveis aos olhos do corpo, antes do nascimento e após a morte. O período de sua manifestação física é transitório, passageiro, e compreende tão somente uma única vida. Ante tal fato, o que há para nos afligir? (2.28)

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[1] Conforme dizia Joseph Campbell, grande estudioso de mitologia do século XX: “O mito é algo que não existe, mas que existe sempre”.

[2] Conforme bem notou Arthur Schopenhauer, célebre filósofo alemão, em Da morte, metafísica do amor, do sofrimento do mundo (Ed. Martin Claret):

“Sobre a universalidade da crença na metempsicose [reencarnação], Obry nos diz, com razão, no seu excelente livro Du Nirvana indien, p.13: “Esta velha crença fez a volta ao mundo, e estava de tal modo expandida na alta antiguidade, que um douto anglicano a julgou sem pai, sem mãe, e sem genealogia”. Já ensinada nos Vedas, como em todos os livros sagrados da Índia, a metempsicose é, como se sabe, o núcleo do bramanismo e do budismo, e reina até hoje por toda a Ásia não conquistada pelo islamismo, isto é, em mais da metade do gênero humano, como a crença mais sólida, e como influência prática de uma força inimaginável. Ela foi também um elemento de fé dos egípcios (Heródoto, II, 123); Orfeu, Pitágoras e Platão a adotaram com entusiasmo, e os pitagóricos, sobretudo, a mantiveram firmemente. [...] Ela era também o fundamento das religiões dos druidas. [...] Mesmo entre os americanos (índios) e povos negros, a até mesmo entre os australianos (aborígenes), encontram-se traços dela.”

[3] Realmente se trata de um assunto complexo. Eu gosto muito da forma como John Galsworthy, escritor britânico, o resumiu: “As palavras são cascas de sentimento”. Mas, no que se refere a análise da transcendência dos mitos, talvez ninguém seja maior autoridade no tema, no Ocidente, do que Joseph Campbell. Permita-me citar uma de suas respostas a Bill Moyers em O Poder do Mito, onde ele falava sobre “a eternidade”:

“A fonte da vida temporal é a eternidade. A eternidade se derrama a si mesma no mundo. É a ideia mítica, básica, do deus que se torna múltiplo em nós. Na Índia, o deus que repousa em mim é chamado o “habitante” do corpo. Identificar-se com esse aspecto divino, imortal, de você mesmo é identificar-se com a divindade.
Ora, a eternidade está além de todas as categorias de pensamento. Este é um ponto fundamental em todas as grandes religiões do Oriente. Nosso desejo é pensar a respeito de Deus. Deus é um pensamento. Deus é um nome. Deus é uma ideia. Mas sua referência é a algo que transcende a todo pensamento. O supremo mistério de ser está além de todas as categorias de pensamento.
[...] As melhores coisas não podem ser ditas porque transcendem o pensamento. As coisas um pouco piores são mal compreendidas, porque são os pensamentos que supostamente se referem àquilo a respeito de que não se pode pensar. Logo abaixo dessas, vêm as coisas das quais falamos. E o mito é aquele campo de referência àquilo que é absolutamente transcendente.”

Em suma, o que todos esses sábios estão tentando nos dizer é que não basta ler o manual de natação, é preciso mergulhar, pois o mergulho não pode ser descrito em palavras. Há um “deus” que é tão somente uma palavra, e há a experiência de Deus. Só quem passa por tal experiência, sabe...

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19.1.15

Crer para compreender, compreender para crer

Não devemos confundir razão com comprovação científica.

Antes de todos os cientistas acreditarem em sua teoria, Einstein teve de ter fé na concepção do espaço e do tempo como dimensões de uma mesma substância. Isso não era uma ideia simples para a época, e 99% das pessoas diriam que ele estava louco por pensar em algo assim.

A comprovação, veio só depois...

Mas a razão sempre esteve presente. Por isso muitos de nós hoje compreendemos que o espaço e o tempo formam um conjunto chamado espaço-tempo... O que um dia foi a fé de um cientista visionário, hoje é a razão e a compreensão de muitos de nós.

Primeiro, Einstein contemplou, intuiu, vislumbrou e acreditou na possibilidade, depois através da razão a compreendeu, e finalmente elaborou sua teoria – que eventualmente foi comprovada pela ciência. Ou seja: crer para compreender, compreender para crer. É um caminho sem fim, ou poderia-se dizer que "o Grande Mistério" estará nos esperando no final...

Não importa, não há um final.

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16.1.15

A incrível história de Zé Perri

Recentemente se completaram 70 anos da morte de Antoine de Saint-Exupéry, e toda a sua obra literária entrou em domínio público (em quase todo o mundo, exceto EUA e França). Isso incluí, é claro, sua obra mais conhecida, um dos livros mais vendidos do século passado e deste, O Pequeno Príncipe. Porém, como descrito no epílogo da minha tradução [1] de Le Petit Prince (o original, em francês, pois as traduções são consideradas obras variantes e, em sua grande maioria, não entraram em domínio público), Saint-Exupéry foi muito mais do que um escritor de contos infantis... Para começar, já há uma longa discussão sobre se O Pequeno Príncipe é ou não uma obra infanto-juvenil, e pela longa duração deste debate (praticamente 70 anos, desde o lançamento nos EUA) há um certo consenso em que ela é mesmo uma obra infanto-juvenil, e não é, ao mesmo tempo...

E se no campo literário Saint-Exupéry nos deixou obras-primas desconhecidas da maioria dos admiradores do seu príncipe pequenino, como Terra dos homens e Cidadela (que permaneceu inacabada após sua morte), a própria vida do escritor foi muito mais fantástica do que muitos podem imaginar... Muitos sabem que ele serviu na guerra como piloto do exército francês, mas talvez o início de sua carreira como aviador seja o período que tenha definido a maior parte das influências que nos traz em seus livros, seja literalmente, seja por grandiosas metáforas:

Saint-Ex, como era chamado pelos amigos, foi um dos jovens pilotos que se aventuraram pelos ares nos primórdios da aviação, na década de 1920. Como piloto da extinta Aéropostale (que mais tarde viria a ser uma das companhias aéreas que deram origem a Air France), Saint-Exupéry sobrevoou não somente a Europa e a África, como também a América do Sul e o Brasil... Ou pelo menos é o que conta mais uma das lendas acerca de sua vida.

A cidade de Florianópolis acabou entrando para o rol das poucas cidades brasileiras a receber os aviões da Aéropostale entre 1927 e 1931. E, por extensão, uma parte de seus moradores conviveu com os estrangeiros que transportavam cartas e encomendas de outros países. No caso, franceses que pousavam na ilha para abastecer e realizar pequenos reparos nas aeronaves sempre que faziam a rota Rio de Janeiro-Buenos Aires. Saint-Exupéry não estava oficialmente nesse grupo, mas, como então diretor de exploração da companhia Aeroposta Argentina (cargo que assumiu em 1929, com 29 anos), teria dado seus pulos em Florianópolis para visitar os amigos e inspecionar a linha aérea ao longo de 1930.

Provavelmente o fazia sem alarde, já que o único registro comprovado de sua estada na ilha se contrapõe aos relatos de um tal Zé Perri que esteve no bairro do Campeche umas dez vezes e gostava de comer peixe e conversar com um pescador em especial, seu Deca (Manoel Rafael Inácio), à época um jovem de 20 anos, que gostava de tocar sanfona e papear...

Aí começa toda a celeuma. Embora seja indiscutível a assimilação de Saint-Ex, ou Zé Perri, pela cultura local, há uma pequena corrente de defensores da ideia de que o escritor não esteve na ilha como creem muitos moradores. À frente dessa corrente está o engenheiro aposentado João Carlos Mosimann, estudioso do tema há mais de 20 anos. "Não há nenhum documento que prove que Saint-Exupéry tenha estado aqui tantas vezes. No dia em que houver, acredito nessa história."

Talvez o maior documento que comprove esta e outras histórias acerca de Saint-Ex ou do que surgiu de sua vasta imaginação seja, exatamente, a sua persistência na história. Saint-Ex, o pequeno príncipe ou mesmo Zé Perri não irão embora, eles viverão no coração dos seus admiradores, sejam pessoas grandes ou pequeninas.

Vejam abaixo o documentário da AMAB (Associação Memória da Aéropostale no Brasil) sobre a incrível história de Zé Perri (aprox. 48 min.):

***

[1] Adquiram o e-book com minha tradução de O Pequeno Príncipe, pelo preço de um café!

Crédito da imagem: Google Image Search/raph

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10.1.15

A sublime canção

Você pensa em mim toda hora
Me come, me cospe, me deixa
Talvez você não entenda
Mas hoje eu vou lhe mostrar:

Eu sou a luz das estrelas
Eu sou a cor do luar
Eu sou as coisas da vida
Eu sou o medo de amar

Eu sou o medo do fraco
A força da imaginação
O blefe do jogador
Eu sou, eu fui, eu vou...

Gita! Gita! Gita!

Ao se deparar com tais versos, a maior parte dos brasileiros vai associá-los a famosa composição de Paulo Coelho e Raul Seixas, Gita. Mas talvez seja uma grande minoria que terá conhecimento da fonte original de boa parte das palavras usadas na música: O Bhagavad Gita, a sublime canção, um dos textos mais sagrados de toda a humanidade.

Embora mais famoso no Oriente (particularmente na Índia, sua terra de origem), o Bhagavad Gita eventualmente foi traduzido do sânscrito para o inglês e, dessa forma, pôde ser apreciado também por grandes mentes ocidentais, que não lhe pouparam elogios e até mesmo uma certa reverência:

Comparado com o Gita, o nosso mundo moderno e toda a sua literatura se parecem insignificantes e triviais (Henry David Thoreau)

O Bhagavad Gita é a coisa mais profunda e mais sublime de que dispõe o mundo dos homens (Wilhelm von Humboldt)

Foi o primeiro dos livros, como se todo um império nos falasse; nada pequeno ou sem significância, mas grandioso, vasto e consistente, a voz de uma inteligência muito antiga (Ralph Waldo Emerson)

Este livro é um dos resumos mais claros e compreensivos da filosofia perene que já nos foram revelados; o seu valor persiste até hoje não somente em benefício da Índia, mas de toda a humanidade (Aldous Huxley)

O Bhagavad Gita (A canção [gita] do Senhor [Bhagavan; a forma humana da divindade]) é um episódio da imensa e milenar epopeia hindu, o Mahabharata (Grande [maha] Índia [bharata]), que contém 250 mil versos, descrevendo a grande guerra entre os Kurus e os Pândavas, que tinha por objetivo a conquista de Hastinapura, um dos centros mais importantes da antiga civilização ariana.

Numa interpretação literal, o livro traz um diálogo existencial entre Arjuna, um dos cinco príncipes dos Pândavas, e o cocheiro de sua carruagem de guerra, seu grande amigo Krishna, em meio ao horror de uma batalha entre dois povos que possuíam muitos laços familiares. Porém, como bem dizia Joseph Campbell, grande estudioso de mitologia do século XX:

Há uma velha história que ainda é válida. A história da busca. Da busca espiritual... Que serve para encontrar aquela coisa interior que você basicamente é. Todos os símbolos da mitologia se referem a você. Você renasceu? Você morreu para a sua natureza animal e voltou à vida como uma encarnação humana? Na sua mais profunda identidade, você é Deus. Você é um com o ser transcendental. (trecho de O Poder do Mito)

Ora, numa interpretação mais profunda do Gita, fica claro que o amigo do príncipe Arjuna é muito, muito mais do que um mero cocheiro. Nalgumas tradições hindus, Krishna é considerado o avatar (encarnação terrena de uma divindade) do deus Vishnu; e noutras tradições ele é considerado a encarnação do próprio Deus Supremo. Em todo caso, o que nos importa em uma interpretação esotérica da obra é que enquanto Arjuna pode ser associado ao ser ainda nos primeiros estágios de sua busca espiritual, Krishna é a representação do final do caminho: a dissolução do ego e a sua união com o logos divino, o Eu Superior, o Cristo.

A batalha retratada no início da canção deve ser compreendida como o embate interno, da alma com ela mesma, em busca de sua própria reformulação moral, em suma, sua evolução no caminho para conhecer a si mesma, um pensamento, um ensinamento de cada vez. Não é sem razão que Arjuna se vê incapaz de participar da guerra entre o seu grupo, os Pândavas, e o grupo adversário, os Kurus. Eis que ambos nada mais são do que a representação de nossos próprios pensamentos: é uma batalha psicológica, uma batalha que todos nós travamos em nosso interior desde o momento em que tomamos consciência de nossa existência – quer compreendamos, quer não...

Os autores do Bhagavad Gita colocam a narração de toda a história na voz de Sanjaya, o fiel servidor do rei cego dos Kurus, Dhritarashtra. Já os Pândavas são seguidores da rainha Kunti, mãe de Arjuna. Ora, Dhritarashtra, o rei cego de nascença, representa a vida material, ancorada nas forças inferiores do ego; já Kunti representa a pureza da alma, e a vontade de reconexão com a divindade, enfim, nosso lado espiritual.

Arjuna, ao perceber que ambos os exércitos fazem parte de si mesmo, que em essência todos são seus parentes, seus irmãos, desperta naquele momento de uma longa existência no mundo das ilusões, o mundo material transitório, e passa a considerar também a existência do mundo da essência, o mundo eterno, de onde vem seu amigo Krishna.

Não se trata, dessa forma, de uma batalha que precise ter um exército vencedor e um derrotado, mas de uma batalha pela reconciliação das forças interiores, para que tanto os Kurus quanto os Pândavas reconheçam, relembrem, que no fim das contas são todos filhos de um mesmo ser. E o que Krishna ensina ao príncipe Arjuna no restante desta sublime canção é precisamente que este ser é você!

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Bibliografia
O Poder do Mito, Joseph Campbell (Ed. Palas Athena)
História das crenças e das ideias religiosas, Mircea Eliade (Ed. Zahar)
Bhagavad-Gita, A Mensagem do Mestre, introdução e tradução por Francisco Lorenz (Ed. Pensamento)

Crédito da imagem: Google Image Search (Arjuna e Krishna em sua carruagem)

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Rafael Arrais

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