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12.11.16

Metafísico

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


Meus amigos às vezes me dizem que eu sou um cara meio metafísico. Quase sempre eles têm toda a razão.

Não sei quando isso começou direito, provavelmente bem cedo. Por agora me lembro especificamente dos engarrafamentos em Copacabana, e eu na janela do 485, a caminho da faculdade de Artes no Fundão; ou seja, a uma boa hora de distância, quando tinha sorte!

Mas mesmo quando tinha azar e ficava preso muito tempo na Nossa Senhora, havia muito o que se observar pela janela, muito o que refletir – e a luz, como já devem saber, foi criada para ser refletida.

Ora, aqueles raios que me alcançavam numa esquina do Rio de Janeiro levavam menos tempo para viajar do Sol até ali do que eu levava para chegar na porta da aula de desenho. Todos os dias eles me venciam, e ricocheteavam na lente dos meus óculos e rumavam sabe-se lá para que outro canto do Cosmos.

Mesmo desenhando, é impossível explicar o que se sente ao compreender que nós mesmos também somos parte do que foi forjado no núcleo dos sóis, e catapultado a imensidão. Nós mesmos também somos hidrogênio, oxigênio, carbono, ferro e muitos outros elementos pesados das forjas estelares. Nós mesmos também vivemos mergulhados no oceano cósmico, e não aprendemos a nadar em suas profundezas somente por ter lido manuais de natação...

As palavras, as cascas de algum sentimento ancestral, escapam. Mesmo aos poetas mais loucamente cosmológicos, elas escapam!

Então estou tomando um delicioso chopp de trigo nalgum bar deste canto do hemisfério sul na terceira pedra do Sol, e tento fazer com que meus amigos percebam que nem a caneca em cima da mesa está perfeitamente parada, nem nós mesmos em nossas cadeiras, nem o planeta, nem mesmo a estrela por onde temos girado.

Desde o mais ínfimo átomo do trigo, tudo vibra e nada está parado. E em meio a conversas sobre resultados de partidas de futebol e eleições, não só o bairro da Lapa, como nossa galáxia inteira está a rodopiar junto a um aglomerado de bilhões e bilhões de sóis e seus mundos, rumo a onde quer que este Big Bang queira nos levar!

Enquanto vivemos esta vida entre dois séculos contados desde o nascimento de Cristo, as placas tectônicas se movem alguns bons milímetros, e algumas montanhas crescem um pouco, enquanto outras diminuem. Há árvores imensas e frondosas que nos viram nascer, e ainda verão muitas gerações de nossas famílias chegarem e partirem novamente.

Pasmado com tanta grandiosidade, posso muito bem concordar com Caeiro, há de fato metafísica suficiente em não pensar em nada...

E assim, de tanto não pensar, de tanto sentir, quem sabe eu também deixe de ser metafísico por um instante, quem sabe por breves momentos deste ir e vir incessante de sóis e átomos eu consiga deixar este observador de lado, para me espalhar por tudo o que há.

Não há misticismo maior do que romper tal casulo do ser, e voar assim, verdadeiramente liberto, seguindo a fragrância ancestral deste Amor que mantém a dança dos mundos: uma abelha seguindo o caminho do pólen, um pássaro rumando ao Monte Kaf, um louco saltando um abismo, um franciscano em busca de um bom pedaço de pedra para usar como tijolo em sua igrejinha, um físico maravilhado com a relação entre o espaço e o tempo, um poeta a escrever com sangue e lágrimas...

E depois voltar, da eternidade para a Lapa, e terminar o chopp, junto aos amigos. E olhar rapidamente para as estrelas, sem que percebam, e orar esta grande oração de uma palavra só, gratidão. É este, meus caros, o meu Evangelho!

Mas nada disso era para ser dito. Nada disso terá fim, tampouco teve um início...


raph’16

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Crédito da imagem: Google Image Search/Holzweg

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5.8.15

Alumínio

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


Há algum tempo atrás li num livro que Napoleão, o imperador da França, tinha uma pequena coleção de talheres de alumínio, e que os guardava somente para si e os seus convidados mais ilustres. Os demais usavam talheres de ouro mesmo.

Isto porque, na sua época, a produção de alumínio em larga escala havia sido recém-descoberta, e ainda era tão cara que os talheres ou joias feitos de alumínio tinham muito mais valor do que os mesmos forjados em ouro. Somente algumas décadas depois, ao final do século XIX, é que novas descobertas científicas permitiram que a produção de alumínio se tornasse bem mais barata [1].

Mas não consta que durante o reinado de Napoleão os alquimistas franceses tenham substituído o ouro pelo alumínio. Que eu saiba, eles continuaram tentando transformar o seu chumbo em ouro, como antes.

Ocorre que o ouro dos alquimistas nada tinha a ver com o ouro dos talheres comuns de Napoleão. Se tratava de um ouro mais etéreo, mais espiritual, mais simbólico. Um ouro, de fato, muito mais difícil de produzir do que aquele ouro mais comum. No entanto, um ouro que não se sujeitava as leis de escassez, da oferta e procura – enfim, um ouro que nunca esteve à venda.

Outra importante consideração a fazer sobre os alquimistas é que eles não valorizavam seus mestres pelo seu peso em ouro, mas sim pela sua luminosidade.

Na antiga Atenas um grande mestre das ideias também se tornou puro ouro. Mas ele fazia questão de ressaltar que nada sabia. As ideias tinham valor por si mesmas, ele provavelmente pensava, e o fato de orbitá-las não o fazia seu dono, apenas o seu divulgador. Ele era apenas um espelho devidamente polido, tudo o que fazia era refletir alguma luz vinda sabe-se lá de onde...

E se ele repetia há todo momento que tudo o que sabia era que nada sabia, é porque era sábio o suficiente para compreender a grande e vil armadilha que se arma para aqueles que julgam que o seu ouro é sua propriedade, e não a propriedade de toda a humanidade.

Pois que se a fonte dourada é represada pelas alucinações do ego, ela perde a sua pureza, e se torna fétida.

Afinal, aquele que se torna imperador de si mesmo produz não talheres, mas o próprio alimento para todos aqueles que vagam por este mundo, esfomeados e desamparados. São eles quem precisam ser alimentados, e não o ego!

Assim, o sábio que conquistou os seus próprios países, que marchou sobre a própria sombra e a trouxe para o seu exército, dispõe de riqueza inimaginável.

Mas como isso valeria mais do que ouro?

Ora, se os pretensos alquimistas tivessem sucesso, e se todo o chumbo do mundo se transmutasse em ouro, os talheres mais valiosos passariam a ser de prata. Isso já não diz muito sobre o valor que damos ao ouro?

No entanto, o outro ouro, o ouro dos verdadeiros alquimistas, será sempre o bem mais valioso! E no dia em que ele deixar de ser tão raro, no dia em que for tão comum quanto o alumínio de Napoleão, então esta terra estará cheia de imperadores sem súditos, e um céu dourado terá sido derramado sobre o mundo...

Há uma batalha diária, feroz e violenta, para que cada pensamento se livre do seu chumbo, e se eleve e se doure e se torne sublime!

Para aqueles que creem que o céu está lá fora, cheio de deuses misteriosos, esta é uma guerra sem sentido.

Mas para aqueles que trouxeram seus deuses para dentro, esta é a única guerra que merece ser travada, a grande guerra alquímica.


raph’15

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[1] Essa história também é contada neste artigo: Você sabia que o alumínio chegou a valer mais do que o ouro?

Crédito da imagem: Google Image Search/todayifoundout.com

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19.9.14

Caixas quebradas

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


Há quase dez anos atrás eu vivenciei um instant karma, ou um carma instantâneo.

Somente quem passou por isso, e crê em carma, pode saber como é. Em todo caso, outro dia tentei descrever nas redes sociais, comentando uma notícia que tinha a ver com o tema:

Um dia eu fiquei muito revoltado com a minha mulher. Acabei dando um soco na lateral do armário, e toda a minha coleção de CDs de música caiu junto com uma prateleira que se deslocou da parte superior. Naquele momento eu pensei comigo mesmo: instant karma! Até hoje, quando vejo as caixas quebradas dos meus CDs ao abrir o armário, lembro da importante lição que aprendi da Natureza naquele dia...

A notícia em questão era uma notícia do blog do psiquiatra Jairo Bauer, onde ele trazia dados de um estudo realizado nos EUA que chegou a aterradora conclusão de que um em cada cinco americanos agredia a sua parceira.

Como era um canto das redes sociais frequentado por feministas, elas logo tratarem de me alertar:

Pesquisas indicam que o soco no armário é só o começo, depois você poderá estar dando um soco na cara da sua mulher, o que provavelmente é o que gostaria de ter feito!

Posso lhe garantir que o trauma que sua mulher passou não se compara as caixas quebradas dos seus CDs de música!

Vocês podem pensar que eu fiquei chateado com esse tipo de reação... Muito pelo contrário, é o tipo de reação que deveria se esperar de mulheres feministas que estão bem informadas sobre o quadro da violência doméstica no Brasil e no mundo. Melhor pecar pelo exagero do julgamento apressado do que pela leniência da maioria, que costuma dizer que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”.

Mas talvez tivesse ajudado se eu houvesse explicado melhor o que eu senti exatamente naquele dia, há quase dez anos atrás...

Como eu estava com uma raiva muito súbita da minha mulher, achei por bem sair do quarto onde estávamos discutindo e ir para outro, e foi assim que entrei no quarto em que soquei a lateral do armário. Ora, é óbvio que eu soquei o armário por estar com raiva, é óbvio que se esta raiva não fosse tratada, compreendida e, quem sabe, domesticada, nalgum dia o alvo do meu soco poderia realmente ser o rosto da minha mulher – e isto é muito grave!

Mas não foi sem a ajuda do instant karma que eu consegui chegar a tal conclusão. Na verdade, eu não dou a mínima para as caixas quebradas dos CDs. De fato, se quisesse eu poderia ter comprado outros CDs. O que me interessa nas caixas quebradas é o símbolo que elas representam, e que me trazem a lembrança daquela vivência:

Quando vi toda a minha coleção de CDs no chão, foi como se ouvisse uma mensagem da Natureza: “Você tem certeza de que quer prosseguir neste caminho? Daqui para frente será só amor corrompido, e cada vez mais corrompido”.

Até hoje, toda vez que abro meu armário e troco de roupa, me lembro daquela mensagem da Natureza.


Um estudo do Ipea estima que, entre 2009 e 2011, o Brasil registrou 16,9 mil feminicídios, ou seja, “mortes de mulheres por conflito de gênero”, especialmente em casos de agressão realizadas por parceiros íntimos. Esse número indica uma taxa de 5,8 casos para cada grupo de 100 mil mulheres. Neste país, a cada uma hora e meia, em média, morre uma mulher vítima da violência do seu companheiro.

Nos EUA, recentemente, imagens do circuito interno de um hotel flagraram um astro do futebol americano agredindo a sua esposa dentro do elevador. As imagens mostram que ela desmaiou com um único soco, que a fez bater com a cabeça no corrimão de aço do elevador. Alguns andares depois, o jogador a arrasta para fora do elevador e espera ela acordar, enquanto um funcionário do hotel tem o cuidado de segurar a porta para que não se fechasse nas pernas dela.

Devido a enorme pressão popular por conta da divulgação das imagens na web, o Baltimore Ravens, time pelo qual jogava, decidiu demiti-lo, enquanto a liga de futebol americano, a NFL, o suspendeu indefinidamente. Agressões de jogadores as suas esposas ocorrem há anos nos EUA, dificilmente tal caso teria esse desfecho não fosse pela divulgação das imagens.

Mesmo assim, esta foi a mensagem que a esposa agredida divulgou na web, no dia seguinte a agressão:

Tirar algo do homem que amo e que ele se dedicou por toda a vida apenas para ganhar audiência é horrível. Essa é nossa vida! Por que vocês não entendem? Se a intenção era nos machucar, nos envergonhar, nos fazer sentir solitários, tirar toda nossa felicidade, vocês tiverem sucesso.


Esses foram apenas alguns dados estatísticos que refletem o atual estágio de nossa sociedade. Aqui, nos EUA e em boa parte do dito mundo civilizado.

Já foi muito pior, é claro. Não muitos anos atrás a alegação de “legítima defesa da honra” ainda salvava muitos maridos homicidas da condenação pelos seus crimes. Após o caso Doca Street isso mudou. Mas ainda precisamos mudar muito, muito mais!

A própria Lei Maria da Penha, um marco na legislação brasileira, só conseguiu reduzir ligeiramente a mortalidade das mulheres nos primeiros anos após a sua implementação. Hoje a curva da violência doméstica letal já retornou aos mesmos patamares do período anterior a Lei.

Mas ao menos hoje em dia tal assunto não é mais varrido para debaixo do tapete. Ao menos hoje em dia muitos homens e mulheres, feministas ou não, já têm plena compreensão da devastação que a violência doméstica causa em nossa sociedade e em nossas relações, na maioria das vezes, silenciosamente.

O macho é educado para ser viril, para não chorar, para sustentar a casa, etc. Mas o macho também é educado para proteger suas famílias, seus filhos e, sobretudo, para nunca, em hipótese alguma, agredir uma mulher ou uma criança. Como podemos ver, a visão dos machos sobre a própria educação é um tanto quanto seletiva. Muitos provavelmente ainda achariam uma tragédia muito maior chorar em público do que ser visto agredindo a mulher... A educação dos machos falhou, é o que milhares de estatísticas demonstram.

Eu gostaria muito que todo o “homem macho” pudesse um dia sentir, vivenciar, o instant karma que eu passei. Eu gostaria de fazê-los compreender que este tal caminho de “ser muito macho” é uma dos caminhos mais nocivos e corruptores que o ser humano já inventou. Corruptor de almas, nocivo a própria vida.

Eu gostaria, enfim, que todos pudessem um dia ver a si mesmos como eu me vi naquelas caixas quebradas, que em realidade também eram o reflexo de uma alma que vinha se rachando...

Mas eu me consertei a tempo. Espero que outros tenham a mesma sorte. Mas, enquanto a sorte não vem, espero também que as suas companheiras compreendam, cada vez mais, que o amor não tem nada, absolutamente nada, a ver com qualquer tipo de violência.


Segundo a falsa ideia de que não é possível reformar a sua própria natureza, o homem se julga dispensado de empregar esforços para se corrigir dos defeitos em que de boa-vontade se compraz, ou que exigiriam muita perseverança para serem extirpados. É assim, por exemplo, que o indivíduo, propenso a raiva, quase sempre se desculpa com o seu temperamento. Em vez de se confessar culpado, culpa seu organismo, acusando a Deus por suas próprias faltas. (Hahnemann)

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Crédito da imagem: Google Image Search/Conversation

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24.7.14

Algoritmos

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


Outro dia vi um sujeito, no metrô, usando uma cédula de dois reais como marca página de seu livro.

Imediatamente me veio a mente que o dinheiro não deveria ser usado desta forma. "Nossa, imagina se ele deixa cair sem querer!". Nós somos acostumados a dar grande valor ao dinheiro. Porém, é até estranho de se pensar, mas aquela cédula nada mais era do que um papel impresso. Ligeiramente mais fino e flexível do que um marcador de página, mas com uma imagem consideravelmente mais elaborada. Bem, um dia ainda podem criar um marcador de página que tenha a mesma imagem de uma cédula de dois reais – neste caso, restaria somente a diferença da grossura e da flexibilidade.

Quando usávamos moedas de ouro, há muito tempo atrás, era a própria moeda que tinha valor. Com o tempo, acabou ficando mais simples usarmos papeis impressos, com gravuras multicolores, para não termos de carregas sacos cheios de moedas (inclusive pelo metrô). Ocorre que tais cédulas costumavam ser rastreadas, isto é, terem uma equivalência direta ao ouro que estaria depositado nalgum cofre do respectivo Estado que imprimiu as cédulas. Mas isto durou somente até os Estados Unidos precisarem de "mais dinheiro do que tinham realmente" para continuar gastando com sua guerra no Vietnã. A "brilhante" solução foi abandonar o lastro material em ouro, e simplesmente continuar imprimindo cédulas multicolores. "Sim, não temos mais como comprovar que estes valores existem, mas se somos a Superpotência do mundo, podemos simplesmente dizer que eles existem, e se tudo correr bem vai todo mundo acreditar".

Deu muito certo. O sistema econômico da pós-modernidade é, desta forma, um grandioso sistema de crenças. Vivemos de grandes bolhas especulativas, que quando estouram revelam pequenas bolhas especulativas por dentro delas. Esperemos que ninguém nunca estoure as bolhas pequenas, pois pode ser chocante descobrirmos que, no fim, o valor que damos ao dinheiro é realmente uma crença – algo que existe somente na nossa cabeça.

Mas, afinal, e o que existe além daquilo que existe somente na nossa cabeça?

Provavelmente a natureza exista, mesmo fora da nossa cabeça. O problema é que, com o que temos feito com a natureza de nosso planeta, em nome de alguma estranha ideia de "empreendedorismo infinito", podemos chegar num ponto em que nossa existência conjunta com esta natureza fique insustentável. A natureza vai continuar existindo, mesmo aqui neste planeta – o que não temos certeza é se ainda teremos cabeças e olhos humanos para a contemplar.

Sabemos hoje que, se todo o planeta já tivesse o mesmo padrão de consumo dos cidadãos dos Estados Unidos, seriam necessários recursos naturais de cerca de três planetas e meio para fechar a conta. E ainda assim eles não estão satisfeitos. Por que ter somente um carro? Por que não ter uma máquina de lavar louça? Por que não trocar de celular a cada seis meses? "Sim, sabemos que tudo isto pode fazer mal pro planeta, mas se não continuarmos consumindo, pode ser ruim para a economia. Nosso PIB pode ficar abaixo da meta!"

É assim que, a despeito do que nos disseram sobre a democracia na escola, no final das contas parece mesmo é que somos governados por algoritmos de lucro. Há empresas tão, tão grandes, que possuem tais algoritmos em suas "metas anuais"; e são eles que determinam o que deve ser feito para maximizar os lucros. Não é a ideia de um ou outro empresário, mas uma construção coletiva. Um ideia que cresceu tanto que assumiu "vida própria". Não são os grandes empresários, os CEOs, quem governam as multinacionais, são os algoritmos de lucro.

Assim, com tanto lucro, também fica muito simples investir na política, no Grande Negócio Eleitoral. Algumas grandes empresas, como petrolíferas e empreiteiras multinacionais, financiam campanhas dos candidatos que têm alguma chance de vencer eleições. As eleições do Grande Negócio Eleitoral são caras, muito caras. Assim, somente quem tem muito, muito dinheiro, tem alguma chance de vencer. Isto porque somente quem tem como financiar grandes agentes de marketing tem alguma chance de convencer as pessoas (as filosofias e ideologias já não convencem mais ninguém, o marketing sim). Desta forma, o sistema é montado para que somente algumas poucas empresas, muito grandes e muito ricas, possam colocar seus candidatos no poder.

E assim, seguindo o plano à risca, conseguem manter a roda girando, e cada vez mais rápido, até que o mundo acabe... Não faz muito sentido, quem é que pensou que poderia dar certo?

Aí é que está: algoritmos não pensam. Algoritmos foram pensados, e quem os pensou pode nem estar mais aqui para ver como as coisas, quem sabe, não estejam enveredando para um caminho viável, digamos assim.

"Ora, mais pode ser que nem todos pereçam, que sobrem alguns poucos, e que não sejamos totalmente extintos; e então poderemos reconstruir tudo de novo."

Mas então, se já sabemos que não dará certo, por que continuar insistindo neste modelo? Por que o medo de buscar algo novo? O máximo que pode ocorrer é nos extinguirmos um pouco mais rápido, em meio a algumas guerras e conflitos que escapem de controle...

Pelo menos não teremos sido hipócritas. Pelo menos teremos sido honestos, até o fim.

Portanto, se algum país invade outro em busca de petróleo, sejamos honestos, e não inventemos que ali havia "uma luta pela democracia".

E se multinacionais vêm comprar nossas fontes de água doce, sejamos honestos, e não inventemos que elas estão apenas "investindo no mercado interno".

E se nossos gadgets mais avançados são construídos por trabalhadores escravos ou semiescravos, sejamos honestos, e não inventemos que isto se dá somente para que "a livre concorrência deixe o mercado sadio".

E se um de nossos candidatos vence a eleição com um financiamento de campanha um pouco mais robusto do que o outro, sejamos honestos, e não inventemos que havia ali "um embate de ideologias", nem muito menos que vivamos numa época de "democracia plena".

É este o meu manifesto. O manifesto pelo fim da hipocrisia.

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Crédito da imagem: ABM/Corbis

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7.10.13

Autoescola

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


Hoje tive de acordar cedo para ir a autoescola com o meu Manual de formação de condutor veicular debaixo do braço.

Dizem que o CONTRAN, o Conselho Nacional de Trânsito, é o “órgão máximo” do trânsito no país. Cada faixa amarela pintada no meio fio das calçadas, cada placa de parada obrigatória, cada gesto executado pelos guardas de trânsito foram pensados e definidos por tal Conselho através de um Código: o Código de Trânsito Brasileiro (C.T.B.).

Mas ainda que eu saiba do significado de cada placa, de regulamentação ou advertência ou indicação, e ainda que eu saiba de cada uma das centenas de infrações previstas e de quantos pontos tiram da carteira, ainda que soubesse de cada um dos itens obrigatórios para automotores, da diferença entre a distância de segmento e a distância de parada, ou mesmo o que diabo faz um canister, tudo isto, por si só, não me serviria sequer para retirar o meu carro da sua vaga na garagem...

Perdi a chance de haver tirado minha carteira há muitos anos atrás. Li tanto Platão, Lao Tse e Bhagavad Gita que, subitamente, tirar a carteira já não era nem a décima segunda prioridade da minha vida. Não precisava mais me preocupar em “ser mais homem” pelo fato de saber dirigir. Até hoje, quando chegamos no supermercado e eu salto do carona, enquanto minha esposa salta do motorista, surgem aqueles olhares do tipo, “Nossa, a mulher dele é motorista, vai ver ele deixa ela dirigir o carro fora do expediente”.

Na verdade eu deixo ela dirigir o carro sempre, e não tenho a menor pretensão de dirigir um dia melhor do que ela, que tem anos de prática a mais do que eu. Agradeço por ter alguém que me completa na vida, e também por não ligar, mesmo, para o que os outros pensam do fato de eu sempre saltar do motorista.

Ainda assim aprender a dirigir pode ser uma experiência filosófica por si só. Tenho amigos que tiraram a carteira quando as 45 horas de aulas teóricas sequer existiam. E eu disse há pouco que toda a teoria do mundo não me ensinaria, por si só, a prática da direção. É a mais pura verdade.

No entanto, a prática crua, sem um ensino teórico inicial, tampouco me parece ser uma boa solução... Ora, há muitos que frequentam as aulas teóricas somente pela obrigação de frequentar, não se atentam aos motivos ocultos por detrás de cada lei e de cada recomendação do Código de nosso trânsito. Eu, como filósofo, não poderia deixar de nota-los.

Pegue o sinal amarelo do semáforo, por exemplo: “indica atenção, devendo o condutor parar o veículo”. Penso eu que o sinal amarelo do semáforo diz muito sobre nós enquanto seres humanos.

Esqueçamos a madrugada, quando existem bons motivos para não se parar o carro: no dia a dia do trânsito, a grande maioria dos motoristas, ao invés de frear o veículo ao avistar o sinal amarelo, acelera ainda mais, para ganhar, quem sabe, dois ou três minutos, por serem gastos no próximo congestionamento (geralmente um pouco mais a frente).

Diz no Código que os cruzamentos são, de longe, o local mais perigoso do trânsito, e onde ocorrem a maioria dos acidentes. Um acidente de trânsito, ainda que não acarrete mortes ou ferimentos graves, ainda que não acarrete ferimento algum, no mínimo vai acarretar a perda de várias dezenas de minutos pela espera da polícia, registro da ocorrência, acionamento do seguro, etc. Ainda assim, a grande maioria prefere arriscar e fincar o pé no acelerador no momento em que veem um sinal amarelo.

É como se o motorista dissesse, na verdade, assim: “seja esperto e acelere para ganhar tempo, você deve estar com pressa não?”.

Um dia visitei Brasília e fiquei boquiaberto com o fato de lá ser comum os carros pararem para os pedestres atravessarem nas ruas de pouco movimento, ainda que fora da faixa. Me perguntei quanto tempo e quantas gerações seriam necessárias para que a população de Rio e São Paulo fosse educada da mesma forma. Não é quase um milagre isto que ocorre em Brasília?

Há uma filosofia no C.T.B. que me parece muito interessante: os elementos mais frágeis do trânsito tem preferência de passagem sobre os mais fortes. É assim que os pedestres tem preferência sobre todos os demais, tirando os trens, porque um trem demora muito tempo para frear e as viagens seriam inviáveis se os trens tivessem de parar para dar passagem aos pedestres a atravessar os trilhos. E também, penso eu, porque um trem nada mais é do que um conjunto de pedestres viajando em comboio.

Outro dia sonhei que Lao Tse havia deixado de lado o seu carro de bois e resolveu atravessar a cidade num carro popular...

Sempre que via um pedestre esperando para atravessar a rua, ele freava, não importa aonde nem quem vinha atrás.

Ora, quem vinha atrás apressado o xingava dos nomes mais chulos, mas ele estava mais interessado no olhar de gratidão daquele que obtinha sua chance de travessia.

Com o tempo, os pedestres se reuniram e compraram um ônibus de turismo para que Lao Tse pudesse mostrar a cidade aos que chegavam. E sempre que via um de nós querendo atravessar, parava e nos saudava. Os turistas, que já não estavam assim tão apressados, foram se encantando pela gentileza daquele distinto condutor.

Passaram os anos e ele se tornou uma celebridade local (para o seu profundo desgosto). Até em capa de jornal apareceu. Depois resolveram lhe dar um trem para que ele fizesse uma viagem por todo o Brasil, saindo de Manaus e chegando na Central do Brasil (lembre-se de que era um sonho)...

Não era trem bala. De fato, a viagem lavava meses, pois Lao Tse gostava de parar em cada cidadezinha e conversar com seus habitantes, conhecer a comida, jogar dama nas pracinhas... Ainda assim muita gente gostava da viagem, quem não era aposentado tirava todo o mês de férias para acompanhar um trecho dela, sem saber ao certo onde teria de parar para pegar um ônibus e um avião para casa.

Dizem que no território nacional a velocidade máxima de qualquer automotor é de 110 quilômetros por hora, mas Lao Tse era um maquinista especial, e ganhou do Imperador de Jade um trem de pura luz.

No final do sonho, todos viajaram com ele para a Eternidade. Foi aí que eu acordei.

Ainda não sei dirigir, mas na teoria, ah! na teoria eu já dei várias voltas pelo mundo.

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Crédito da imagem: Google Image Search

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10.9.13

Estranho

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Há um tempo em que refletimos tanto sobre a existência que nos tornamos estranhos.

Eu mesmo sou mais estranho do que pensam. É preciso conviver comigo por longos períodos para perceber. Como Raulzito, não falo de amor quase nada – mas penso no amor a toda hora. Como Raulzito, não fico sorrindo ao seu lado – mas posso muito bem estar te amando, de maneira até mesmo muito séria! E tudo isto é mesmo muito estranho.

As vezes assisto ao Pânico na TV, as vezes ouço música no rádio, as vezes até mesmo como um quarteirão com queijo no McDonald’s... Não quero me distanciar tanto deste mundo, pois sei que sempre serei parte dele, e me distanciar seria me iludir; e deixar de ser estranho para ser apenas esquisito.

Ó Bernardo Soares, sou estranho, mas não esquisito!

Esquisito seria apenas me deleitar com as exibições espontâneas de bundas na TV, ouvir as rimas fáceis da rádio e me contentar apenas com elas, comer sanduíche todo santo dia... Estranho é reconhecer o machismo do mundo e procurar modificá-lo sem me alistar numa guerra; aceitar que existem gostos musicais os mais variados e que isto se desenvolve ao tempo de cada um; e admitir que há pessoas suficientemente sedentárias não somente em seu estômago, mas principalmente em seu pensamento.

Como mudar isso tudo? Sei lá como mudar isso tudo! Eu estou mais interessado nos 96% do universo que não interagem com a luz, na dualidade mente-corpo, em entender o que diabos é a consciência e como é possível que os hindus tenham imaginado esta quantidade exorbitante de deuses... Depois, se sobrar um tempo, procuro utilizar o que descobri de tanto mistério para melhorar a vizinhança.

Mas se eu estiver pensando em como Álvaro de Campos pôde compor poemas tão ruins ao lado das maiores pérolas da pátria da língua portuguesa, enquanto como uma batata frita caprichada no óleo, e uma garota na mesa ao lado me paquera imaginando que eu seja somente um pouco mais velho que ela, eu retorno o olhar... Porque isto devemos saber: todos os olhares de amor devem ser retornados, é por isso que o homo sapiens povoou o globo inteiro!

E não quer dizer que eu deva esquecer a poesia e ir dar em cima da garota da mesa ao lado, pois tudo tem o seu momento e não me arrependo nem lamento a minha juventude...

Outro dia Stephen Hawking comparou o corpo ao hardware e a mente ao software. Como cientista acadêmico, Hawking optou por ignorar a hipótese espiritualista, da mesma forma que até hoje ignoram Wallace e se lembram somente de Darwin. Já eu, como espiritualista estranho, não preciso ignorar a ciência nem sou forçado a isso pelo julgamento alheio – dentre outras coisas porque quero mais que o julgamento alheio se foda (mas curtam minha página no Facebook, ok).

Se a mente é o software, é de se supor por analogia que um dia construiremos finalmente uma máquina autoconsciente, capaz de interpretar e não somente computar. Acaso isto ocorra enquanto ainda estiver habitando este meu corpo de trinta e poucos anos, posso até mudar de ideia, mas ainda que meu corpo seja mumificado vivo, dificilmente estarei ainda nele se e quando uma máquina for capaz de interpretar a poesia de Pessoa.

Mas eu também gosto de analogias. Se a mente é o software, precisamos ir atrás dos sistemas operacionais... Preso em sua cadeira de rodas, a mente de Hawking, como sugere o nome, voa como um falcão por todo o Cosmos. Ainda assim, ela usa alguma espécie de sistema operacional não compatível com os aplicativos místicos – do tipo que não travam com números infinitos.

Vejam bem: se construirmos uma nave espacial capaz de viajar a velocidade da luz, a maior velocidade possível segundo o manual da Academia, ainda que voássemos em linha reta, quem sabe, mirando a galáxia mais próxima, haveriam galáxias tão distantes, tão distantes, que jamais alcançaríamos. Mesmo voando junto a luz, jamais! Pois há partes deste universo que se expandiram em velocidades maiores que a da luz, quando ele era ainda um minúsculo recém-nascido menor do que uma batatinha frita...

Então, meus caros acadêmicos, eu lhes pergunto: “Qual parte do Infinito ainda não entenderam?”.

Eu não entendi nenhuma parte, por isso parei de pensar sobre o assunto, e passei a sentir o assunto!

E assim, como Raulzito mitológico, como um legítimo místico, passei a considerar que todos nós, todos nós, compartilhamos e compartilharemos os mesmos sorrisos dos encontros e as mesmas lágrimas das despedidas.

E que o assassino compartilha sua existência com a vítima, e o juiz com o acusado, o vitorioso com o derrotado, o cientista com o espiritualista, o ateu com o religioso, o jovem com o velho, o homem com a mulher, a mãe com os filhos e os amantes com todos, todos os amados.

E a vida com todas as vidas, todas as formas do Cosmos conhecer a si mesmo, ontem e hoje e enquanto existir luz em meio ao vácuo do espaço-tempo...

É isto que todos os místicos sabem, e calam. Finjam que eu não disse nada disso. Finjam que sou somente mais um desses estranhos delirantes.

Mas finjam com convicção!

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Crédito da imagem: Joel "Boy Wonder" Robinson

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19.7.13

Manifestações

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A primeira manifestação da noite ocorreu dentro do ônibus.

Era um ônibus de integração do metrô carioca. Estávamos parados já há uns 20 minutos na rua em frente ao Jardim Botânico, e eu já havia analisado minuciosamente todos os painéis com fotografias ampliadas da exposição do Sebastião Salgado. Eu via aqueles indígenas em "trajes de festa" e pensava como em muitos pontos o sistema tribal nunca deixou de existir, apenas "evoluiu" e, quem sabe, se corrompeu.

A manifestação do ônibus opôs a tribo dos "classe média com pressa de chegar em casa" a tribo dos "funcionários do metrô que seguem as regras a risca". Geralmente essa tribo "classe média" até gosta muito que outras tribos sigam as regras a risca, mas não poder abrir a porta do ônibus fora do ponto após 20 minutos parados no mesmo lugar já era demais. Vencemos nossa manifestação (afinal, eu era da tribo "classe média" também) e pudemos saltar livres e faceiros para seguir a pé até a Gávea.

A Gávea foi onde cresci, cercado de montanhas e com vista para uma das maiores favelas urbanas do mundo (também conhecida como Comunidade da Rocinha). Segundo algum grande poeta do século passado, "o Céu era ter uma cobertura na Gávea". Eu concordo plenamente, mas dificilmente um dia terei uma, visto que desde que eu era moleque a Gávea passou de um bairro de classe média para um baixo de ricaços. Eu estava, portanto, fora da minha tribo...

No Shopping imponente da Marquês, entrei para tomar um café antes de ir encontrar com uma amiga nas manifestações na porta do prédio onde reside o governador Cabral, no Leblon (o Leblon já há muito tempo é um bairro da tribo dos ricaços; tirando aqueles que ainda residem com os avós, quem sabe). Lá dentro constatei que a conversa dos anciãos da tribo se referia, sobretudo, ao medo "da tribo da Rocinha haver descido"... É que o trânsito estava ainda totalmente parado, e havia boatos de uma "outra manifestação" na frente da Rocinha que estava trancando todas as vias que fluem para a Barra da Tijuca (que é praticamente outro país dentro da cidade do Rio de Janeiro).

Este "medo da descida da favela" tem rondado o imaginário da elite tribal há muitos anos. De fato, nunca ocorreu da maneira que temiam. O máximo que houve foi uma procissão pacífica (de algumas semanas atrás) até a porta do Cabral, e que tampouco recebeu qualquer resposta do governador na época. Mas fato é que alguma "eletricidade urbana" fluía e pairava pelo ar. Alguma espécie de estranhamento e de medo do novo se mesclava ao velho pensamento do "investimento conservador" em se manter tudo do jeito como está para ver como fica. Ocorre que os jovens nunca foram muito adeptos desse tipo de pensamento, e é sobretudo graças a eles que os pensamentos se renovam entre as gerações.

Eu fui caminhando até o Leblon e por muitas vezes agradeci aos céus por não ter um carro.

Chegando perto da praia, me deparei com uma fila indiana de cerca de dez policiais em trajes cinematográficos, que estavam ali parados de pé ao lado de uma árvore, impassíveis e muito sérios. Eu fiquei imaginando o que iria ocorrer mais tarde naquele dia, e também fiquei considerando quais seriam minhas "rotas de fuga" preferíveis se alguma algazarra lacrimogênea fosse eclodida. Aquela rua certamente não seria parte de minha rota... Em todo caso, fiz uma cara de "leitor feliz da Veja" e passei pelos policiais em direção ao mar.

No posto doze, em frente ao prédio do Cabral, encontrei minha amiga e seu namorado, e ficamos observando as projeções de vídeos dos manifestantes na fachada de outro prédio praiano que, convenientemente, era branco. Vimos muitas daquelas máscaras dos quadrinhos do Alan Moore. Não sei se leram, mas o personagem que usa a tal máscara não é exatamente "bonzinho", nem muito menos crê que uma manifestação totalmente pacífica é combustível suficiente para mudanças mais profundas na estrutura política de uma cidade ou país. E aquelas eram máscaras brancas, mas a minha volta eu via seres encapuzados assustadores por si mesmos, com máscaras totalmente negras, com seus sorrisos cromados refletindo a luz das câmeras fotográficas que disparavam sem parar. Era óbvio que estes seriam aqueles que entrariam em conflito com os policiais.

Lá no alto do céu havia dois helicópteros filmando tudo. Em algum canal que nunca desliga, toda a tribo de ricaços e classe média podia assistir a tudo como num filme... Mas havia também os cinegrafistas NINJAs, que filmavam in loco com câmeras de celular e transmitiam tudo ao vivo e online (com visão de videogame). Na internet, todos podiam agora ver o que realmente ocorria nesse tipo de manifestação, sem o "filtro interpretativo" do canal que nunca desliga.

Em dado momento, minha amiga me levou para conhecer a "fronteira" entre os manifestantes e a fila de policiais cinematográficos. Perto das grades reparei que havia uma aglomeração de observadores e repórteres que estavam todos interessados somente nessa área onde as agressões verbais são fartas e o conflito é iminente... Estranho ninguém filmar a gente de todas as tribos e idades (embora majoritariamente jovem, inclusive na alma) que rondavam o local e não estavam tão interessadas em passar horas gritando em frente aos policiais. Estranho ninguém captar o som das músicas animadas e das cirandas que ocorriam a poucos metros dali. Estranho ninguém haver tirado foto das "patricinhas" com suas máscaras de gás de última geração, perfeitamente trajadas para a ocasião (e que pareciam ser rebentas rebeldes das próprias tribos do Leblon).

Quando cansamos fomos beber um chopp no Jobi, que é um bar tradicionalíssimo do quarteirão imediatamente atrás do Cabral. É tanta "tradição" que um copo de chopp chega a custar mais do que uma garrafa de cerveja noutros bairros "menos tradicionais", por isso bebi somente um chopp mesmo... Quando estávamos pensando em voltar a Gávea, vimos os manifestantes numa animada procissão a contornar a esquina, circulando o quarteirão do governador. Não conseguimos resistir aos gritos de "vem para a rua" e os seguimos até o outro lado da barricada formada pela polícia cinematográfica.

Nessas horas as declarações do Eduardo Galeano na praça Catalunya, na Espanha, não saiam da minha mente. De fato, o entusiasmo dos jovens, ver aquele povo "com os deuses adentrados pela alma", era um forma de resgate do estado original da tribo, uma forma de "descorrupção", literalmente.

"Este mundo de merda está grávido de um outro", e somente compreende a verdade de tal declaração quem caminha novamente entre os jovens, seja por fora ou por dentro de si mesmo...

Mas como o namorado da minha amiga era fanático por futebol, fomos até a Gávea ver um jogo pela TV. E assim prosseguiu a minha noite revolucionária até quando, já bem mais trade, sintonizei no canal que nunca desliga e fiquei observando, através do helicóptero, os seres de máscaras negras colocando fogo nas ruas e atirando algumas pedras em algumas vidraças específicas.

Uma tribo disse que são arruaceiros e saqueadores. Outra tribo disse que estavam atacando alvos específicos: o banco que financiou o estádio superfaturado, a grife que usa trabalho "semiescravo" dos bolivianos paulistas, etc. (mas ninguém soube explicar o motivo ideológico de uma loja de bebidas haver sido saqueada). Enquanto discutiam tudo isso, fiquei pensando em como os helicópteros filmavam tudo e transmitiam madrugada adentro, sem nunca deligar, enquanto a política cinematográfica continuava parada no lugar.

Vai ver naquele horário o filme policial já tinha acabado.

Os manifestantes pediam pela dismilitarização da polícia. Eu já seria mais prático, pediria logo pelo fim da cenografia policial, e também da cenografia política do governo do tal Cabral, que até hoje ninguém sabe onde mora exatamente...

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Crédito da imagem: Google Image Search (Black Bloc)

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30.5.13

Relâmpagos

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


Da janela entreaberta do quarto, vi um relâmpago antes de ir dormir.

Era como se um milhão de vagalumes se alinhassem imperfeitamente e então algum deus desse o sinal para que iluminassem, em uníssono, a vasta escuridão noturna; Era como alguma espécie de orgasmo do crepúsculo; Como um exímio samurai a nos matar antes que pudéssemos ver nosso próprio sangue escorrer ou nosso cadáver tombar ao solo – tudo o que havia a ser lembrado era o derradeiro movimento estático de sua lâmina cortando o espaço escuro...

Os que têm certo asco de mitologia dizem que os antigos eram supersticiosos imbecis que acreditavam que algum gigante seminu morava no Céu e enviava relâmpagos para Terra a fim de nos assustar.

Eu não estava assustado. É o trovão o que nos assusta, e tem sido assim desde antes da civilização; Mas aqueles relâmpagos estavam tão, tão distantes, que o seu som não chegava. Eu vi somente as pinceladas de luz envolta em nuvens, eu não estava assustado.

Me aproximei da janela e a abri lentamente. Tinha sono, mas aquele baile elétrico a desvelar o horizonte oculto da noite havia me hipnotizado!

Os cientistas já descobriram e computaram o que é, objetivamente, um relâmpago. Mas eu já havia desligado o computador, e o Grande Google estava inacessível as minhas indagações. Ademais, tudo o que poderia ser computado acerca dos relâmpagos, todos os dados científicos colhidos pela meteorologia, nada disso iria me responder exatamente o que eu estava sentindo naquela noite antes de ir dormir.

Quem disse que todos os antigos acreditavam nessa lenda do deus que arremessa relâmpagos? Talvez fosse uma história que eles contavam para atemorizar as crianças em torno da fogueira; Talvez fosse um código simbólico para alertar sobre a imprevisibilidade de tais eventos... Afinal, após milhares de anos, nós mal sabemos dizer em que dia do mês que vem vai relampejar novamente.

O acaso natural ou o acaso do mau humor de um gigante seminu que vive acima das nuvens – tanto faz, é o mesmo acaso.

Um dia um sujeito chamado Laplace postulou que se um demônio pudesse saber da posição e movimento exatos de todas as partículas do Cosmos, então poderia saber perfeitamente de todo o futuro – nada mais seria acaso para o seu vasto intelecto.

Ora, talvez seja isto exatamente a natureza de Satanás, um demônio que já sabe de tudo o que há para saber, e por isso enlouqueceu?

Felizmente a física quântica comprovou que tal demônio não poderia saber tanto...

Mas afinal, o que os antigos não sabiam é que dentro de nosso cérebro as sensações e reações se convertem em pequeninos relâmpagos que realizam um baile neuronal incessante.

Isto me conectou, de certa forma, aqueles relâmpagos distantes que também dançavam uma valsa silenciosa.

Sejam os relâmpagos distantes no Céu, sejam estes que viajam dentro do meu crânio, nenhum deles pode me explicar o que é exatamente ver um relâmpago antes de ir dormir, pela janela entreaberta do quarto.

Então, assim confuso e espantado, fui dormir.

E em meus sonhos, não haveria nada que pudesse me impedir de ser, eu mesmo, um gigante seminu a atirar lanças de luz pela imensidão...

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Crédito das imagens: [topo] Rob Matheson/Corbis; [ao longo] Joel Robison (Zeus/Jupiter)

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4.3.13

Pássaros

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


Aqui perto de casa existe uma rua cheia de árvores de copas esféricas, embora nenhuma esfera viva seja ou precise ser perfeita... Todos os dias eu atravesso ela para poder ir tomar café. Eu a chamo de Rua dos Pensadores, embora a prefeitura tenha lhe dado outro nome.

Uma vez tomei um baita susto: um pássaro enfurecido veio bicar minha cabeça. Acho que nunca vi um pássaro voar na minha direção, geralmente eles fogem da gente... Aquele não, aquele tinha alguma razão para arriscar a vida e dar bicadas na cabeça de um gigante. Se algum dia eu tive vontade de esganar um pássaro, ela passou rapidamente.

Ainda bem, porque depois acabei compreendendo: era um pássaro defendendo o seu ninho. A Natureza, em sua guerra da fome e da morte, privilegia a vida acima de tudo. Não fosse assim, o pássaro iria abandonar seu ninho ao primeiro sinal de perigo, e só voltar se fosse perfeitamente seguro. No entanto, existem animais, como uma espécie de polvo, que dão a vida por sua cria. Existem ainda outros animais, como uma espécie de inseto, que dão a vida ainda no ato da cópula. “Sexo mortal”? Ou “criação da vida”?

Não é a toa que o Abujamra sempre pergunta duas vezes aos entrevistados do seu programa (Provocações, na TV Cultura): “O que é a vida?”. Eu acho que ele tem esperança de que um dia alguém responda. Na primeira ou na segunda pergunta? Em nenhuma das duas. Quem quer que saiba responder isso, não precisará de palavras.

A vida é uma deusa alada que anseia por si mesma, ad infinitum. Seu combustível é o amor, e ele nunca se esgota. Sua vontade é o mistério: inefável, inalcançável... Há muitos eclesiásticos e cientistas que tentaram trepar pela árvore que cresce na Rua dos Pensadores e roubar um ou outro ovo do ninho deste pássaro. Mas não viram ovo algum!

Não sabemos quem ou o que criou a vida. Não sabemos criar vida, apenas copiar uma ou outra pequena parte daquilo que é chamado “orgânico”. E há muitos eclesiásticos que bradam assim, ainda trepados no tronco colossal: “Nós já vimos o que está no ninho. Temos agora todas as respostas!”; Enquanto há céticos que dizem isto: “Não há ninho algum. Larguem esta infantilidade! Trepar em árvores é coisa de criança.”

Dizia o poeta libanês que “nossos filhos são os filhos da ânsia da vida por si mesma”... É isto: as crianças quem sabem o que havia no ninho, na Mansão do Amanhã, e por isso elas gostam tanto de trepar em árvores. Mas depois nós as ensinamos a serem “sérias”, e elas se esquecem de tudo, ou quase tudo.

Tenho uma certa dificuldade em seguir doutrinas. Algumas delas são bem profundas, e isto está muito bom. Mas eu posso simplesmente reconhecer sua profundidade, e aprender o que há para se aprender dela. O que não posso é ficar ancorado nesta ou naquela doutrina.

Há algumas coisas que somente os pássaros e as crianças sabem, e todos estes seguidores de doutrinas, todos estes que acreditam que alguma palavra infalível resolverá a questão da vida para eles, jamais saberão de toda esta brincadeira.

O ninho que eu defendo, incondicionalmente, como o pássaro louco que vai bicar o gigante, é o ninho da liberdade!

No topo de todas as árvores do mundo há um ninho semelhante. Mas somente as crianças os viram, de relance, em meio ao pique esconde. Há pássaros que vêm e vão, de vez em quando, entre eras, para semear a Terra com as sementes de cada ninho desses...

Na Rua dos Pensadores os ninhos não têm ovos, mas sementes de um novo pensamento. Se um pássaro louco vier lhe bicar, não fique revoltado: às vezes, ele pode estar apenas lhe trazendo uma nova experiência.

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Crédito da foto: Templer/Corbis

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14.2.13

Condutoras

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...

“Só podia ser mulher! Nessas horas eu sou machista...”.

Quem disse isso foi uma mulher. Ela estava dirigindo o carro, e eu era o carona. No cruzamento, alguma outra mulher conduzia seu carro sem muita pressa, o que é sempre um incômodo para o mundo do fast food.

Mas eu não estou aqui para falar de fast food, e sim de machismo. Já pararam para pensar? – São as mães, são as mulheres, primordialmente, quem ensinam seus filhos e filhas a serem machistas. Ou, pelo menos, a maioria pouco faz para evitar a sedução do pensamento machista na maior parte das sociedades do mundo.

Em comerciais de TV (inclusive de carros), músicas pop, novelas, e até mesmo na literatura softcore altamente vendável: o machismo ainda está por toda a parte. Mas é claro que as coisas mudaram: hoje em dia, na maior parte do mundo civilizado, as mulheres tem alma, podem escolher com quem vão se casar, tem direito ao voto, e estão a caminho de ganhar quase tanto quanto os homens pela mesma função no trabalho. Dizem até que no ensino superior já ultrapassaram os homens há algum tempo, ao menos em porcentagem de inscritos... Então, qual é o problema?

O problema está na origem do machismo, isto é, na origem do mundo patriarcal. Como alguns devem saber, há muito, muito tempo, a maioria das sociedades tribais era matriarcal, pois eram as mulheres, as sacerdotisas, quem “dominavam” os mistérios da vida, e da Deusa Mãe. Era somente através delas que novos seres humanos chegavam a Terra, e por isso parecia justo que fossem elas as responsáveis por organizar e celebrar os cultos e rituais religiosos.

Então chegou a agricultura. No início, deu ainda mais poder as mulheres: afinal, elas já cuidavam de organizar a tribo enquanto os caçadores-coletores se arriscavam no meio selvagem. Agora cuidavam também da plantação e do estoque de grãos. Estocar comida, isto sim, era algo inédito na história humana. Infelizmente, nem todas as tribos tinham a mesma habilidade para tal função.

Em épocas de fome, tribos de nômades pensaram assim: “Porque me arriscar a caçar na selva, se posso simplesmente invadir aquela tribo onde há vasos cheios de comida estocada, e somente mulheres cuidando dela?”. Os caçadores nômades passaram a invadir tribos estabelecidas, e foi então que o mundo viu o surgimento do primeiro exército: um grupo de caçadores passou a ser pago em comida, para proteger a comida.

Ainda que todo soldado sirva, idealmente, para manter a paz, na prática foi com violência e sangue, muito sangue derramado, que ela vem sendo mantida desde então. O matriarcado não fazia mais sentido num mundo violento. A Deusa Mãe tornou-se submissa ao Deus Pai. Freyja tornou-se apenas a esposa de Wotan.

O machismo está, portanto, intimamente ligado à violência, a ideia de que “os homens são fortes e lhe protegem, mas não os irrite porque eles são mais fortes que você”. Então, se na teoria o machismo pode parecer somente algo engraçado que aparece de vez em quando na TV, na prática o que ele gera são estatísticas alarmantes de violência doméstica e estupros. E isto não aparecia na TV até pouco tempo, mas mesmo o que aparece é somente a ponta do iceberg...

No entanto, isto não responde a pergunta: “se o machismo é tão nocivo as mulheres, porque grande parte delas, quem sabe a maioria, é machista?”.

Neste caso, precisaremos recorrer a mitologia: Enquanto boa parte das deusas perdeu sua força ancestral, o gênero feminino conseguiu se manter no pensamento masculino como uma espécie de joia preciosa, de troféu... A musa que dá inspiração aos artistas, a princesa que precisa ser resgatada de algum monstro vil (e que é ela mesma o prêmio da aventura), a miss que, com sua beleza, reina sobre homens e mulheres.

E, conforme os mitos não existem, mas existem sempre, isto significa que existem ainda neste momento. Talvez por isso muitas mulheres aceitem o machismo. Elas podem até saber, ainda que inconscientemente, que correm algum risco de serem estupradas ou esbofeteadas ocasionalmente num mundo de homens machistas, mas talvez aceitem o risco pela possibilidade de serem, elas mesmas, o grande prêmio cobiçado por todos!

Qual mulher machista, afinal, não quer ser a musa, a princesa prometida ao grande herói, a miss universo, a mais bela de todo o mundo, de todo o Cosmos?

E isto só é possível num mundo machista. Num mundo machista as mulheres que são mais cobiçadas não são exatamente aquelas donas do próprio nariz, senhoras de si, livres pensadoras, mas sim aquelas que esperam, tal qual a princesa do castelo, pelo príncipe encantado. Num mundo machista estamos atrás de mulheres-troféu. E as mulheres machistas, afinal, querem muito ser este troféu tão adorado.

Infelizmente para elas, e felizmente para os que desejam um novo mundo, a grande maioria das mulheres não alcança tal posto... Um dia, quem sabe, elas cansem das dietas milagrosas e da obsessão pela estética, e se voltem para dentro, e descubram a si mesmas, e rasguem esta ridícula veste de princesa que as limitam por todos os lados. Quem sabe, um dia, as mulheres aceitem a celulite e algum tanto de culote.

Neste dia o machismo estará em sérios apuros. Neste dia a Deusa Mãe, e a sensibilidade, e o amor e respeito a Natureza, e o amor e respeito a integridade da mulher, estarão em vias de retomar seu lugar no mundo. Não um lugar de dominância, acima do Deus Pai, pois neste novo mundo Deus poderá ser, finalmente, Pai e Mãe!

E, em toda essa história, teremos citado apenas uma lenda, um mito efetivamente falso: As mulheres são melhores condutoras de automóveis que os homens, e já faz algum tempo. Se duvidam, pesquisem pelo preço do seguro para homens, e para mulheres.

O que falta a mulher é, portanto, ser a condutora da própria vida. Os homens, afinal, não as deixaram num mundo tão maravilhoso assim. O príncipe encantado, e seu Reino Encantado, podem existir no futuro, não hoje.

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Crédito da foto: Tomas Rodriguez/Corbis

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4.1.13

Nuvens

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...

No ciclo de final de ano, todos procuram retornar as suas casas para as comemorações. Como minha casa fica perto das montanhas do litoral, e moro no planalto, voo muito de avião por estas épocas...

Há algo de espiritual em se voar (de avião ou não). Talvez ajude o fato de termos de esperar horas nos embarques e escalas, sentados em cadeiras semiconfortáveis e, principalmente, com bastante tempo de sobra para se ler algum livro. Quando se lê, se imagina. Há algo de espiritual em se imaginar (lendo um livro ou não).

Por exemplo, não sou adepto daqueles fetiches que os homens midiaticóides têm das aeromoças. Para mim elas estão apenas fazendo o seu trabalho, e me interessa mais sua gentileza que sua beleza... Imagino, isto sim, quando alguma garota bonita senta ao meu lado. Ambos viajando sozinhos – mas será que nalgum universo paralelo poderíamos ser amantes viajando juntos? Dizem que os físicos quânticos dizem que essas coisas podem acontecer. E eu acho que até podem, mas que isto nada tem a ver com a indeterminação da Natureza.

A priori, segundo Jesus Cristo, todos nós somos amantes que viajam juntos. A dificuldade está em imaginar a verdade dita, isto é: em vivenciá-la.

Outra coisa que me assalta a mente durante o voo são as turbulências. Antes tinha medo delas, acreditava que poderiam derrubar um avião... Talvez até possam, mas hoje prefiro acreditar que a grande parte delas é apenas um aceno dos silfos que vivem na alta atmosfera. Silfos, como devem saber, são os espíritos do ar... Seria realmente falta de educação atravessar sua casa com tamanha quantidade de metal e combustível e não dar sequer um aceno de volta. Eu também faço isto com a imaginação.

Algumas vezes os silfos também estão celebrando alguma coisa (talvez o final do ano deles?), e convidam as ondinas, sereias e até, nalgumas ocasiões, algumas das nereidas. Conforme construímos nossos aeroportos sem antes consultar seus locais de festividades, algumas vezes há o inconveniente de termos de pousar aviões em meio a tempestades (que é o que ocorre quanto silfos chamam os espíritos da água para o céu)...

Nesses momentos geralmente tememos por nossa vida. Dizem que o pouso em meio à chuva forte é muito perigoso, mas segundo as estatísticas é consideravelmente menos perigoso do que dirigir um automóvel nas mesmas circunstâncias (os gnomos mandaram dizer que sentem saudades de nossas antigas carruagens decoradas). Ainda assim por vezes cremos piamente que iremos morrer, como se a morte fosse algo muito diferente do que deitar a cabeça no travesseiro de nossa cama, à noite, e dormir.

Eu também chegava a temer por minha vida, mas isto foi somente até uma vez em que o avião em que estava arremeteu em meio aos prédios de São Paulo, isto é: abortou o pouso. Como isto nunca havia ocorrido comigo até então, deveria estar morrendo de medo. Mas não estava – simplesmente porque estava apertado para ir ao banheiro. Tudo o que pensava era quando o banheiro seria liberado, independente se o avião faria ou não algum pouso forçado. Por breves momentos, a vontade do número um foi mais forte do que o medo da morte...

Ah, metáforas, metáforas, o que seria de um escritor sem elas! Por exemplo, quando voamos a noite, por vezes é difícil distinguir onde termina a terra dos gnomos, e onde começa o reino dos silfos. Isto é: as luzes das cidadezinhas do planalto se confundem com as estrelas no céu, e por detrás é tudo muito escuro... Mas há uma certa beleza, uma certa metáfora, em imaginarmos que as estrelas do céu podem muito bem ser pequenas cidadezinhas do planalto cósmico, e que as luzes das casas podem marcar as estrelas que vivem em seu interior. Já disseram que todo homem e toda mulher é uma estrela. Os cães e gatos talvez sejam estrelas em formação (os gnomos mandaram dizer que preferem coelhos, mais silenciosos!).

Mesmo Bernardo Soares haveria de se tornar um pouco mais otimista se pudesse viajar da Rua dos Douradores para a Lapa, pelo espaço e pelo tempo, nalgum avião moderno. Não se sabe se acharia mais belas as praias ou as montanhas do Rio de Janeiro – gostaria de viajar ao seu lado só para saber.

Dizem que o avião foi inventado para que o homem pudesse se locomover rapidamente pelos continentes. Outros diriam que foi inventado para que bombas pudessem ser derrubadas em cidades (pequenas ou grandes). Eu já acredito que o avião foi inventado para que pudéssemos conhecer as nuvens.

Claro que todo bom montanhista já conheceu as nuvens, isto é: as observou de cima para baixo. E também é bem conhecido dos anais da história que todo homem, mulher ou criança, montanhista ou não, já percebeu as mais variadas formas sendo brevemente esculpidas pelos silfos em meio às nuvens. Mas o que quero dizer é que somente os primeiros homens voadores puderam atravessar as nuvens do alto, como águias e condores já o fazem há milênios.

Há algo de profundamente espiritual em se atravessar nuvens no reino dos silfos, principalmente quanto o sol está nascendo de manhã, e as salamandras vem surfando seus raios por entre as grandes montanhas brancas a flutuar em lugar algum. Digo, lugar algum, pois quando estamos passando por tal experiência não estamos mesmo um nenhum lugar – exceto, quem sabe, nalgum reino da imaginação.

O homem inventou o avião, mas seria incapaz de inventar as nuvens. Estranho de se pensar: talvez seja isto o que Deus seja afinal... Não as nuvens, nem sequer a escultura que os silfos fizeram delas, mas a experiência de se contemplar uma nuvem em pleno céu, quando já estamos no céu.

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Crédito da foto: Richard Carlson

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18.10.12

Franciscano

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...

Encontrei uma criança que abençoa as pessoas...

Estou de férias num hotel fazenda no sul de Minas Gerais, dentre a Serra da Mantiqueira, e a encontrei num almoço. A mãe a carregava no colo e nos avisou: “Ele abençoa, querem ser abençoados?”.

Uma amiga avisou que queria, e o garotinho, de não mais do que uns 2 ou 3 anos, levantou a mão pequenina e pousou sobre a fronte dela, para logo após levantar a mão e dizer: “Dá dá!”. Logo após rodou a mesa, no colo da mãe, abençoando a todos.

Uma gracinha, muitos diriam... Também diriam que provavelmente a mãe é evangélica. E provavelmente era mesmo. Na nossa mesa todos eram católicos (exceto eu e minha esposa, que somos, poderíamos dizer, espiritualistas). Ninguém comentou ou quis saber nada sobre as raízes religiosas daquele tipo de benção infantil. Ficou apenas no “uma gracinha” mesmo.

Nos dias de hoje há um certo asco da chamada afirmação evangélica. Sejam jogadores da seleção brasileira que apontam para o céu a cada gol, sejam políticos da chamada bancada evangélica tentando introduzir leis antilaicas no país, sejam os shows da fé que reúnem milhares de pessoas em plena “aceitação do Senhor”, etc. As pessoas não evangélicas ficam assustadas.

Fato é que, bem ou mal, a renovação carismática está a pleno vapor no Brasil e em boa parte da América Latina. É claro que os pastores da madrugada na TV, que pediam 10% e agora pedem “tudo o que se puder doar a Deus”, trazem bons motivos para uma postura crítica e desconfiada de todos nós (inclusive os protestantes). Porém, será que todos os evangélicos são como zumbis que doam tudo a sua Igreja? Se fosse assim, seu dinheiro já teria acabado... Aquele casal tinha dinheiro para pagar diárias de um bom hotel fazenda no sul de Minas Gerais. Algum dinheiro deve ter sobrado.

Em todo caso, uma criança que abençoa não era nenhuma novidade para mim. A única novidade é que ela fingia ser um pastor mirim... Pois, ao menos para mim, todas as crianças nos abençoam. Abençoam com o olhar, com o sorriso, a espontaneidade, e a fragrância que trouxeram consigo da Casa do Amanhã.

Quando vejo uma criança, penso em todas as potencialidades, em toda a dose maciça de sonho e imaginação que carregam consigo. É claro que ainda irão enfrentar a castração da escola e da sociedade, é claro que muito pouco de seu sonho irá sobreviver, mas nada disso me impede de admirar aquele brilho que ainda são capazes de carregar consigo. Toda criança é um milagre em potencial.

Jesus também adorava as crianças, mas não parecia ter a necessidade de ensiná-las a abençoar ninguém... Foi Jesus quem nos relembrou de alguns ensinamentos que todas as crianças trazem consigo, embora muitas se esqueçam, na medida em que moram muito tempo neste mundo:

Todos são filhos de Deus; Todos somos deuses; Amemos ao próximo como a nós mesmos, como a um deus.

Mas então vieram os eclesiásticos, os legisladores da fé. Eles introduziram suas reformas, seus adendos, que não me parecem ter adicionado nada ao sonho original:

Todos são filhos de Deus, mas somente os que aceitarem Nosso Senhor Jesus Cristo obterão a Salvação (seja o que isto for); Todos somos deuses, mas somente através do pastor podemos contatar Deus; Amemos ao próximo como a nós mesmos, como a um deus, mas não esqueçamos que o homossexualismo é uma abominação, etc.

Na entrada da cidade há uma estátua de São Francisco de Assis. Trata-se do primeiro santo ecológico e, em todo caso, provavelmente do maior de todos os santos católicos, ou pelo menos aquele que mais se aproximou de Jesus... Os evangélicos não gostam de santos nem de imagens, sua interpretação dos testamentos arcaicos é um tanto quanto radical. São Francisco não é Baal, e mesmo Baal, coitado, era só um deus da Mesopotâmia que calhou de virar um bode expiatório bíblico. Mas Martinho Lutero viu uma Igreja em decadência, e encontrou no texto bíblico a única fonte realmente confiável para a religação a Deus.

Não foi exatamente assim com Francisco. O santo de Assis achou a Deus dentro de si mesmo, e não num livro. E passou a chamar de irmãos os próprios sinais e atributos divinos: Irmã Brisa, Irmão Vento, Irmã Lua, Irmão Sol, etc. Para Francisco, as plantas e flores, os rios e os lagos, os pássaros no céu e os peixes no mar, e os homens e mulheres, e as crianças, todos eram milagres em plena reforma.

Não coube nenhum adendo ao seu exemplo de vida. Sua reforma antecedeu a de Lutero, e deixou claro, escancarado, o imenso abismo que há entre a Casa do Padre e a Casa do Amanhã.

Se relembrei o que relembrei, é porque também sou um pássaro, a cantarolar, nos ombros de Francisco...

Brother Sun, Sister Moon (Donovan). Retirado do filme homônimo, de Franco Zeffirelli.

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Crédito da foto: Dany (este sou eu numa pequena igreja dedicada a Francisco)

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11.8.12

Irmandade

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


“Minha religião é meu pensamento”.

Foi à primeira vez que ouvi isso de outra pessoa, e foi de uma amiga. Estávamos visitando uma exposição no Centro Cultural Banco do Brasil sobre a Amazônia; e não me lembro nem ao certo o que estávamos conversando, mas tocava no assunto da tolerância religiosa, da tolerância às opções de caminhos escolhidas pelas almas alheias; e minha querida amiga me disse isso.

E ela disse do jeito certo, do jeito que eu gostaria de ter ouvido. Ela não disse “conforme você costuma dizer, minha religião também é meu pensamento”, nem tampouco “gosto muito daquilo que você diz, que sua religião é seu pensamento”. Ela disse somente isto: “minha religião é meu pensamento”. Lindo! Em seu olhar, ela pareceu ter compreendido a mensagem... Eu fui apenas quem a recebeu e passou adiante.

Já faz muito tempo que, quando me perguntam sobre qual seria a minha religião, eu tenho esta “reposta pronta”. Mas poucos a compreendem, não por culpa deles, nem minha, mas simplesmente porque pouco se dão conta de que a religião não é como escolher um time de futebol, ou então dizer assim: “não gosto de futebol, sou ateu para o futebol”. Mas alto lá, é possível ser ateu e religioso!

O religare, o religio, a religião, é à vontade de caminhar adiante rumo a uma espécie de reconexão com nossas origens, com o mistério de onde um dia saímos como seres ignorantes, e para onde pretendemos retornar como seres conscientes. Jesus disse, no Evangelho de Tomé, que “o Reino de Deus está espalhado pela Terra, mas os homens não o vêem”. Carl Sagan disse, em seu Cosmos, “que nós desejamos compreender nossa origem, e que podemos, pois somos feitos de material estelar, somos uma forma do Cosmos compreender a si mesmo...”; Escolha seu caminho: Jesus, Sagan; Deus, o Cosmos; Ou tantos outros caminhos – o importante é continuar caminhando.

“Mas isso não se faz com o pensamento, e sim com a fé, ou a razão, ou a filosofia, etc.” – Será mesmo? Pois eu digo que o único animal sagrado que o nosso pensamento ainda não capturou foi o Amor, mas continuaremos tentando. Nós queremos pensar em Deus, nós queremos pensar no Cosmos, nós queremos pensar no Amor. E porque temer? Admita então: “minha religião é meu pensamento”.

Mas fale para si, e apenas para si, como minha amiga falou. Pois eu não quero ditar regras, nem muito menos preceitos morais, e menos ainda pretender lhe dizer que este caminho é melhor do que aquele. Sim, existem cientistas que não crêem em Deus. E existem religiosos que não crêem na ciência. E existem filósofos que gostam de questionar a absolutamente tudo. Mas quem não crê no Amor? Quem, dentre todas as almas no mundo, não crê que existe um sistema, e que o percebemos, e que necessitamos saber dele, cada vez mais? Só não mergulhou no mundo quem está morto em vida, represado pelo dogma – o dogma da crença, ou da descrença. Não importa ao pensamento crer ou descrer, e sim experienciar, estar aqui, existir para o mundo! 

“Nada é mais útil ao homem do que o próprio homem”.

Foi o que disse o grande Espinosa. Para ele, o ser humano poderia ser a coisa mais preciosa na vida de outro ser humano, particularmente quando possuíam afinidade de pensamento. Uma afinidade de tal modo específica que, de certo modo, alguns poderiam mesmo se comportar e caminhar juntos, como uma só mente, um só corpo... Apenas esta comunidade, esta Eclésia do Amor, é digna de nota – as demais sempre serão apenas igrejas.

Por isso tudo eu fico extremamente grato, e realizado, por encontrar certa ressonância do que se passa no meu pensamento também pelo pensamento alheio. É exatamente assim, uma palavra por vez, uma frase, um conjunto de signos, cascas de sentimento, um pensamento a se refletir adiante, um artigo, um conto, um poema por vez, que procuro, quem sabe, melhorar a vizinhança. Seria esta a minha Verdadeira Vontade, diria um outro amigo...

Mas de nada adiantaria toda a sabedoria do mundo, sem o Amor. De nada adiantaria todos os manuais de natação, se não houvéssemos já mergulhado. De nada adiantaria todas as equações da física, se não nos espantássemos mais com a inconcebível natureza da Natureza.

Vivamos, não apenas sobrevivamos. Sejamos uma irmandade, não apenas uma comunidade. E caminhemos à frente, sem medo do que pode lá haver, sem ansiedade pelo que o horizonte pode estar nos escondendo... O horizonte está em todo lugar. O pensamento permeia o Amor como as águas de um oceano a uma enorme ilha rochosa, que um dia ainda será a praia mais bela de todo o Cosmos.


Minha religião é meu pensamento
Minha vida é minha bíblia
Minha igreja é meu coração
Deus é nosso amor

***

Crédito da imagem: Tony Hallas/Science Faction/Corbis

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8.7.12

Estrelas

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


Aqui estou novamente, num vagão de metrô da Cidade Maravilhosa...

Basta ir morar por algum tempo (meses, anos?) longe de uma grande cidade, do tipo que tem metrôs lotados, para voltar a se espantar novamente, quando retornamos a nossa antiga casa: “Nossa, se entrasse mais alguém por aquela porta, eu acho que teria sido esmagado neste poste no meio do vagão!”.

Há tanta gente em tão pouco espaço, que quando você planeja pegar o metrô do Rio em horário “nobre”, precisa realmente elaborar uma estratégia... “Se entro pela esquerda, preciso garantir minha posição próximo à porta direita, ou seria a esquerda?” – Um momento de indecisão, e é capaz de você passar do ponto sem ter tempo de sair...

Mas é entre as estações, com o trem percorrendo os corredores escuros por debaixo da metrópole, que os pensamentos mais profundos me assaltam: “Quantas histórias distintas neste mesmo vagão, quantas formas de ver o mundo... Aquele cara está com o olhar fixo nos seios daquela garota, será que ela também sabe dos seios lindos que tem? (me parecem naturais); Aquela outra ali tem pinta de nerd... Nossa, ela está lendo Game of Thrones na tela do celular, isso que é dedicação! E ali, no outro canto, aquele grupo de turistas alemães escolheu uma péssima hora para fazer turismo pelo Centro...” – Mas todos eles estão pensando. Não há aperto suficiente neste vagão que impeça alguém de pensar.

Muitos certamente estão voltando do trabalho e, invariavelmente, dedicam uma boa parte do seu tempo de reflexão a pensar no dinheiro: quanto têm, quanto almejam ter, quantas dívidas a pagar, etc. Isto tudo, sem dúvida, passou por sua educação: se não foram os pais ou familiares a lhes alertar que “tempo é dinheiro”, certamente foi a orientadora vocacional. A primeira função das orientadoras vocacionais é tentar convencer o maior número possível de jovens mentes promissoras a ingressar numa carreira “promissora”, que “pague bem”. Ultimamente, por falta de mão de obra qualificada, o empresariado brasileiro tem quase que implorado para tais orientadores: “Pelo amor de Deus, manda alguém para exatas”.

Ciências exatas! Pode ser chato de aprender, principalmente se você não gostar, mas o que importa é que “dão dinheiro” (alguns cientistas teóricos podem discordar)... Melhor seria, entretanto, se na escola alguém nos explicasse, antes de iniciar a primeira aula de química ou física: “Meus caros, vocês podem não gostar desse decoreba sem fim de fórmulas que irão vomitar sobre vocês nos anos seguintes, mas, por favor, lembrem-se ao menos disso: somos formados por elementos químicos que só podem ser gerados nos núcleos estelares! Compartilhamos a história de nossos genes com todas as espécies animais da Terra, desde as bactérias aos roedores que sobreviveram à extinção dos dinossauros... A vibração dos nossos átomos, esses que formam nosso corpo inteiro, seguem as mesmas leis dos átomos que formam pedregulhos em Marte, ou supernovas há milhões de anos-luz de nossa galáxia. Há luz por todo o lugar! Tudo bem, agora podem entrar no decoreba... Boa sorte”.

Então saberiam ao menos que, conforme as estrelas, também somos pedaços do universo capazes de produzir luz. Sim, pois todo homem é uma estrela, e toda mulher também: sua luz é seu pensamento, quando conectado ao Infinito!

E a filosofia? Bem, esta nem é mais ensinada na maioria dos colégios. Por toda parte, os “arautos da estagnação”, estes que gostariam que você não pensasse, espalharam o boato de que a “filosofia é difícil e muito, muito chata; seria melhor estudar ciências exatas, que às vezes não são assim tão chatas”. Existem, quem sabe, dois tipos de pensadores: os que usam o pensamento para manter a “ordem estabelecida”, para estes é interessante que somente alguns poucos “doutrinados” aprendam a pensar, e mesmo assim desde que não pensem em nada que possa ir contra a tal “ordem estabelecida”; existem outros pensadores, no entanto, que acreditam que todos deveriam ser livres para pensar no que quiser, e cada vez mais abrangentemente e profundamente – a estes os “estagnados” de cada época taxaram de loucos, hereges, subversivos, bruxos ou, como está tão na moda: irracionais.

Talvez a filosofia não dê mesmo dinheiro, mas certamente te ajudará a entender o porque de tantos viverem correndo atrás do dinheiro, e não da felicidade, que por vezes se perde em meio a “sobrevivência”... Pegue todos os livros da seção de autoajuda desta megastore: não equivalem a um livreto de Epicuro sobre a felicidade [1]. Com a filosofia, a verdadeira autoajuda, se aprende a viver, não somente sobreviver. Para tal, não necessitamos de tanto dinheiro assim, só do necessário (para Epicuro, um pedaço de queijo ocasional era um banquete).

Que falar das religiões então? Tudo bem, todos poderiam continuar sendo batizados antes de terem opção de escolha, assim como seus pais já escolheram seus times de futebol, em todo caso... Mas, antes da primeira missa de Domingo após os, quem sabe, 12 anos, alguém de espírito livre deveria lhes alertar: “Vá e ouça tudo o que o padre tem a dizer, mas, ainda que suas palavras sejam reconfortantes, e ainda que você não possa dialogar, dialogue consigo mesmo – duvide, questione, elabore, experimente. Não faça de sua vida religiosa mais um decoreba eclesiástico!”. O único problema é que um sujeito assim seria expulso da Igreja...

E quem seria hoje Nosso Senhor Jesus Cristo? Um socialista radical? Um hacker anônimo? Um psicólogo dos Médicos Sem Fronteiras? Aquele mendigo que mora nas escadas da paróquia? Ou mais uma dessas estrelas do céu, que insistem em irradiar sua luz antiga, para aqueles que têm alma para às admirar? Ou, quem sabe ainda, mais uma dessas estrelas espremidas neste vagão de metrô?


para Maria Luiza

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[1] Carta a Meneceu.

Crédito da foto: Claudio Lara (Metrô Rio)

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