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30.5.11

Nada era em vão

Textos de Fernando Pessoa em "Teatro do Êxtase” (Ed. Hedra) – Organização por Caio Gagliardi.

[Coro] – Cantai nas árvores das estradas, ó aves que consolai o ouvido dos tristes! Correi docemente na sombra, ó fontes! Dormi quietos na relva calma, ó feras agora em sossego! Daí a vossa alegria a todos os ventos, cantai a vitória do amor em todas as brisas! Morreu a sua vida o Salvador do Mundo!

Para ele não haverá nada. Só para ele nada haverá! Tudo quanto sofreu será consolado nesta hora sem tempo. Tudo quanto fez mal agora passará a nunca o ter feito. Tudo quanto sofreu o mal feito eis que nunca sofreu hoje, e nunca soube o que era o sofrimento! Só Ele, o Coração Amante do Universo, é volvido a Sombra e [o] Apagamento! Só Ele vai esquecer de todo, levando em seu seio noturno todo o mal que nele concebeu para alívio e descanso do Mundo. Só Ele desaparece, só Ele é nada. O próprio amor a ele acabará, porque ele acabará. Não há para ele a recompensa, porque ele passa agora, no triunfo maior do que os deuses, a não ser nada, a nunca ter sido coisa nenhuma. Através do Sofrimento Absoluto ele entra na Morte sem resgate.

***

[Coro] – O Mundo é livre! O Mundo é Deus! As coisas renascem em extemporâneo e Divino!

Raiam Deus todas as luzes, aquiescem Deus todas as Sombras, todos os espaços são Deus.

As flores desabrocham Deus, cada árvore é uma divindade todas elas, cada folha é Deus Todo.

Este é o Mundo! Este é o Mundo! Nunca houve tempo nem espaço! Nunca houve alegria nem dor!

O que era bom é hoje o Bem. O que era doce e humano na imperfeição é hoje a Perfeição.

Tudo quanto era divisão de repente não é, nem nunca foi (subitamente nunca foi).

O que se perdeu nunca se tinha perdido!

As pequenas ternuras são grandes hoje com o calor das pequenas. As afeições da terra são hoje do Céu em que a terra toda está. Todos os filhos estão com todas as mães. Nada falta, nada sobra, nada limita. Tudo é tudo em Deus.

***

[Coro] – Acabou o amor, porque nada se busca, estando tudo encontrado. O que era amado por ser pequeno continua a ser amado por ser pequeno, mas é grande. O que era amado por ser humano continua a ser amado por ser humano, mas é divino. O que era amado por ser imperfeito continua a ser amado por ser imperfeito, mas é perfeito. Tudo tem o que tinha de belo e Deus a mais. Tudo está liberto. Nada era em vão.


Um (ou dois, ou talvez três) dos possíveis finais para a peça “Sakyamuni”, onde Pessoa trata da passagem de Buda para o Nirvana. O organizador do livro, Gagliardi, comentou: “Sem indicação de data, a peça nos sugere interessante clave de leitura para o vertiginoso processo de despersonalização poética em que resultou a heteronímia: Tornado a Diversidade Absoluta, o Abismo Puro, morrerás de ti próprio. E tudo será o Nirvana atingido, e o Fim [dourado] da Estrada”.

***

Crédito da imagem: Ananda K. Coomaraswamy e Irmã Nivedita, litografia de 1913 (Stapleton Collection/Corbis).

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