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20.4.18

As grandes questões do ocultismo (tomo III)

« continuando do tomo II

Seja feita a Vossa vontade assim na terra como no céu (Oração do Pai Nosso)


Muitos devem conhecê-lo como “aquele ocultista inglês que apareceu na capa do disco dos Beatles”, outros ainda como “o profeta do novo Aeon de Hórus”; mas Aleister Crowley preferia se autointitular “Mestre Therion”, ainda que a mídia de sua época o chamasse de “o homem mais perverso do mundo”. Não se pode dizer que Crowley passou desapercebido por aqui...

Quanto a ser um ser perverso, eu preferiria guardar esse tipo de julgamento para assassinos em massa, torturadores e defensores da tortura, terroristas em geral, gente que suga sangue de verdade dos outros – Crowley nunca fez nada disso, pelo menos que se saiba. No entanto, se você julga que “todo ocultista é perverso porque trata com o Demônio”, então talvez seja melhor reler o que já foi dito no tomo I.

Na verdade, Crowley foi uma espécie de Allan Kardec bem mais liberal, principalmente no que tange ao sexo e a participação em ordens esotéricas. Eu explico: assim como Kardec, que codificou sua obra-prima (O Livro dos Espíritos) a partir de perguntas e respostas a jovens médiuns incorporadas, Crowley fez algo parecido com o seu Livro da Lei, com a diferença relevante que se valeu da mediunidade de sua própria esposa na época, ao contrário do fundador espírita, que recorreu a quatro adolescentes.

Bem, na verdade há mais diferenças: enquanto Kardec jamais psicografou diretamente de algum espírito, Crowley na realidade usou a mediunidade da esposa apenas para ter o contato inicial com uma entidade espiritual chamada Aiwass, que por sua vez falava em nome de Hórus, o antigo deus egípcio dos céus. Foi “escutando a voz de Aiwass ditando por sobre o seu ombro esquerdo”, sem ser visto, que Crowley redigiu todo o Livro da Lei. Segundo o ocultista, a voz era “de um timbre profundo, musical e expressivo, com tons solenes, voluptuosos e tenros, flamejante e despida de tudo que não fosse o conteúdo da mensagem. Não um baixo, talvez um rico tenor ou barítono”.

Assim sendo, o seu processo de escrita pode ser considerado profético; como ocorreu com Maomé, que redigiu o Alcorão também pelo ditado do anjo Gabriel (neste caso, com a ajuda de secretários letrados). Mas, seria Aiwass um anjo? Um espírito? Um aspecto do inconsciente do próprio Crowley? Seja como for, o que importa é a mensagem, não como ela chegou a este mundo... e a mensagem de Crowley fala sobretudo de Vontade. Não uma vontade como outra qualquer, o desejo de tomar um sorvete, ou de comprar um carro – nada disso, ele falou de thelema, e a sua lei foi resumida neste trecho relativamente conhecido do público em geral:

Faze o que tu queres há de ser o todo da Lei.
O amor é a lei, amor sob vontade.

“Torne-se aquilo que você é”
Friedrich Nietzsche resgatou esta antiga frase de Píndaro mais ou menos na mesma época em que Crowley também buscava, justamente, descobrir a si mesmo, saber o que na realidade habitava em seu ser mais profundo.

Saber quem se é não deixa de ser um primeiro passo necessário para se tornar o que se é. Assim sendo, também podemos traçar um paralelo até o antigo templo de Delfos, onde segundo Platão, Sócrates leu e foi decisivamente inspirado pela frase: “conhece-te a ti mesmo, e conhecerás aos deuses e ao universo”.

Curiosamente, não há nada mais difundido na modernidade ocidental, nada mais na moda, do que as frases marqueteiras que lhe incentivam a “encontrar o que realmente ama”, e seguir em frente a partir dali, rumo à felicidade... O problema é que o que você ama, do ponto de vista de nosso mundo consumista, invariavelmente estará fora de você, será um produto. Existem variações, é claro, às vezes você mesmo pode ser o produto, como as musas fitness que estão sempre em forma, sempre felizes, sempre “profundamente espiritualizadas”.

Mas, se o caminho para nossa essência fosse tão simples, se as agências de marketing pudessem de fato realizar o mergulho em nós mesmos, todos já seríamos profundamente místicos: não, é só o caminhante quem pode mergulhar; instrutores de mergulho, ou pior, manuais de natação, jamais substituirão tal experiência.

Talvez fraquejemos. Talvez, como Crowley, nós não consigamos seguir 100% do tempo as nossas próprias instruções angelicais, e acabemos mais hedonistas, mais epicuristas que se perderam da ataraxia, do que gostaríamos de admitir. Mas ninguém disse que o caminho para a Verdadeira Vontade seria simples como um passeio no parque. Também já nos disse o doce rabi: “não vim trazer a paz, mas a espada”. Também nós mesmos precisaremos caminhar isolados no deserto, para também sermos tentados pelos nossos próprios demônios, para que possamos compreender, para que possamos saber, enfim, qual é a nossa Vontade, a nossa thelema.

A alma do universo inteiro
Para facilitar a compreensão da lei trazida ao mundo por Crowley, talvez seja mais fácil recorrer a outro monumento do ocultismo britânico, Mr. Alan Moore [1]:

Quando cumprimos a vontade de nosso verdadeiro Eu, nós estamos inevitavelmente cumprindo com a vontade do universo. Na magia, ambas as coisas são indistinguíveis. Cada alma humana não é, de fato, uma alma humana: é a alma do universo inteiro. E, enquanto você cumprir a vontade do universo, é impossível fazer qualquer coisa errada.

Muitos dos magos como eu entendem que a tradição mágica ocidental é uma busca do Eu com “E” maiúsculo. Esse conhecimento vem da Grande Obra, do ouro que os alquimistas buscavam, a busca da Vontade, da Alma, a coisa que temos dentro que está por trás do intelecto, do corpo e dos sonhos. Nosso dínamo interior, se preferir assim. Agora, esta é, particularmente, a coisa mais importante que podemos obter: o conhecimento do verdadeiro Eu.

Assim, parece haver uma quantidade assustadora de pessoas que não apenas têm urgência por ignorar seu Eu, mas que também parecem ter a urgência por obliterarem-se a si próprias. Isto é horrível, mas ao menos vocês podem entender o desejo de simplesmente desaparecer com essa consciência, porque é muita responsabilidade realmente possuir tal coisa como uma alma, algo tão precioso. O que acontece se a quebra? O que acontece se a perde? Não seria melhor anestesiá-la, acalmá-la, destruí-la, para não viver com a dor de lutar por ela e tentar mantê-la pura? Creio que é por isso que as pessoas mergulham no álcool, nas drogas, na televisão, em qualquer dos vícios que a cultura nos faz engolir, e pode ser vista como uma tentativa deliberada de destruir qualquer conexão entre nós e a responsabilidade de aceitar e possuir um Eu superior, e então ter que mantê-lo.

Entendem agora como a espada do Cristo era, de fato, afiada? É impossível alcançar nossa alma, nossa Verdadeira Vontade, sem antes morrer para a “vontade do ego”, sem antes morrermos para nossa natureza animal e renascermos, como o próprio Cristo, na plena posse de nossa natureza humana, no sentido mais pleno de “ser humano”.

Faze o que tu queres: porém há poucos que conseguem estar de fato conectados, todo o tempo, a este “tu”, a este Eu superior, para cumprirem a sua própria Vontade.

Há de ser o todo da Lei: não há Lei maior do que a Lei do Cosmos, da Natureza, do Sagrado. Somente ela dá conta da totalidade de nossa existência, e de todas as demais existências, em todos os tempos, em todos os cantos do universo.

O amor é a lei: não há em todo o universo algo mais eterno, mais transcendental, mais primordial que o amor. O amor é a essência da realidade, e tudo o que há segue em seu caminho tão somente para despertar a sua própria compreensão do que vem, de verdade, a ser o amor.

Amor sob vontade: fôssemos criados já como seres plenamente amorosos, na plena compreensão do amor, seríamos como anjos, como autômatos criados para servir as leis universais, e não seres humanos que, em sua animalidade, em sua Vontade, conseguem evoluir por si próprios. Há Vontade porque alguém lá no Alto não quis que fôssemos robôs.

Assim é que se cumpre a Lei e a Vontade do Céu, e se Crowley lhes parece um mensageiro demasiado sinistro, saibam que o antigo rabi da Galileia não disse coisa muito diferente. Esta é uma tradução mais fidedigna do trecho do Pai Nosso com o qual iniciamos este tomo (veja quem tiver olhos para ver):

Faze com que se realize a tua vontade, na terra, à imagem do céu (Oração do Pai Nosso; tradução ecumênica)


» No tomo final: Ars Magica.

***

[1] Trecho do doc The Mindscape of Alan Moore.

Crédito das imagens: Google Image Search (respectivamente: Aleister Crowley e Alan Moore).

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