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17.6.22

Nossa vida nas cartas (parte final)

« continuando da parte 2

Nessa altura do campeonato, talvez já tenha ficado claro que o tarot pode servir para muitas coisas. Entretanto, de um ponto de vista estritamente prático, mundano, se algo serve para alguma coisa, é preciso saber qual é a sua função, real utilidade ou, para resumir em uma pergunta que já ouvi muitas vezes: “Afinal, o tarot funciona?”

Essa é uma boa pergunta. Ocorre que, em se tratando do tarot, ela também pode ter uma miríade infindável de respostas. Antes de prosseguirmos, no entanto, é preciso deixar claro que para aquele que não acredita no tarot, que não o conhece nem se sente minimamente inclinado a conhecer, é bastante óbvio que o tarot não funciona, e jamais irá funcionar.

Até mesmo os mais céticos dentre nós podem encontrar uma utilidade para o tarot: a apreciação artística. Se o tarot é encarado enquanto obra de arte, ele é tão funcional quanto uma pintura, uma escultura ou uma sessão de teatro. No que essas coisas podem funcionar, afinal, senão no sentido de tocar as teclas de nossa alma, de nos encaminhar a estados de consciência mais poéticos, mais espirituais, mais próximos das belezas da arte do que das mazelas da rotina mundana? E, se é assim para tais expressões artísticas, o mesmo se dá com o tarot. Nesse sentido, um cético pode colecionar baralhos de tarot pela mesma razão que coleciona graphic novels de super-heróis, por exemplo. E, se prefere ilustrações modernas às representações medievais de baralhos como o de Marselha, tanto melhor: de fato, a grande maioria dos baralhos atuais foi concebida há poucas décadas, e alguns deles são primorosamente ilustrados.

Então entra a questão da simbologia. Agora sabemos que as cartas espelham arquétipos, e que eles perduram, de alguma forma, por centenas ou milhares de representações diversas. Mas, isso não teria um limite? Um artista contemporâneo não precisaria saber minimamente sobre o que o tarot quer dizer para conceber um baralho capaz de reter ao menos uma parte da luz arquetípica? Ora, mas a beleza da coisa é que o tarot regula a si mesmo: baralhos que tentem falsificar ou tratar de forma demasiadamente superficial os Arcanos Maiores, ou mesmo os Menores, serão esquecidos bem mais facilmente do que outros.

Isso não quer dizer que o tarot não possa se atualizar. Na realidade, ele deve. Se nossa vida está nas cartas, elas devem espelhar de alguma forma o nosso tempo, e não se manterem fossilizadas no medievo. Peguemos a figura do Louco, por exemplo. Nem sempre ele teve esse nome. No Tarot de Marselha, o seu nome era Le Mat, o que provavelmente foi um erro de tradução ao francês do italiano Matto, que significa Louco (este baralho na verdade surgiu no norte da Itália). No entanto, até mesmo isso repercutiu na história: mat vem do árabe, e está relacionado à “morte”, ou ao “xeque-mate” no jogo de xadrez, quando o rei adversário está encurralado, e perdeu a partida. Ocorre que mesmo esse “final de partida” continua tendo tudo a ver com a ideia arquetípica do Louco: o aventureiro ou iniciado que se encontra no início de uma nova jornada. Isto é, perde-se ou ganha-se uma partida e inicia-se outra [1].

Pictoricamente, o Louco em Marselha é uma espécie de andarilho maltrapilho, que traz seus pertences embrulhados num pequeno saco atado na ponta de um bastão, e tem um cachorro rasgando parte de sua calça. Isso está mais próximo do “xeque-mate” da pobreza do medievo do que de outras representações mais modernas. No Tarot de Waite-Smith, por exemplo, criado mais ou menos na época do sonho de Jung, o Louco se parece com um viajante nobre, com roupas confortáveis e uma espécie de bolsa de couro no lugar do saco, enquanto atrás dele um belo cão branco saltita sem no entanto tentar mordê-lo. Ainda que o novo Louco continue se vestindo com roupas relativamente antigas para sua época, ele é claramente um filho dos ideais humanistas e espiritualistas do início do século XX, e já abandonou há tempos a pobreza de alguns dogmas dos séculos mais antigos.

Todavia, houve a introdução de um elemento novo: o abismo. O Louco se encaminha para ele, e o cão amigo talvez tente alertá-lo do perigo da jornada à frente, do caminho espiritual. Mas ele segue com fé e esperança de que, de alguma forma, “saltará” sobre o abismo. Um cético dos segredos do tarot certamente estaria mais seguro retornando com seu cão para casa. Em nosso Tarot da Reflexão, eu e meu amigo Roe Mesquita representamos um Louco místico, já iniciado, que simplesmente voa para fora da carta e arrasta seu cão pela coleira. Ele já passou por aquela colina muitas vezes, e sabe que ainda serão infindáveis jornadas no caminho. Nosso Louco é fruto de uma esperança renovada, quiçá ingênua, na espiritualidade de nosso próprio século.

Quem estará “mais certo”? Nós? Arthur Edward Waite e Pamela Smith? Ou os criadores do Tarot de Marselha, sejam eles quem forem? Todos, e ninguém. Tudo vai depender do que cada baralho é capaz de despertar na alma daquele que se utiliza dele. Seja como obra de arte. Seja como simbologia. Seja como oráculo.

E aqui retornamos ao início de tudo, a quando eu achava que o tarot era “somente” um oráculo divinatório. Ora, ele é decerto muito mais do que isso, como temos visto até aqui, mas isso não significa que ele deixe de ser oráculo. E, em sendo um oráculo, como ele pode funcionar? Aliás, o tarot funciona?

Meu amigo Marcelo Del Debbio descreve uma espécie de “exercício” para quem quer se conectar com o tarot: todos os dias pela manhã, retirar uma carta do baralho e colocá-la sobre uma mesa com a face voltada para baixo. Depois, ao fim do dia, ao chegar em casa do trabalho ou antes de ir dormir, desvirar a carta e refletir sobre o que o seu Arcano tem a ver com o que foi vivido naquele dia. A ideia é que, com o tempo, você se torne tão afinado com o tarot que já vai saber qual é a carta antes mesmo de desvirá-la. Eventualmente, você também poderá desvirar a carta logo cedo e prever como será o seu dia, de tão adaptado que estará ao seu tarot.

O cético poderá ficar boquiaberto ao perceber que isso, de alguma forma estranha, funciona. Afinal, o que diabos seria se conectar, se afinar ou se adaptar ao tarot? Ora, no espiritualismo em geral há vários nomes para isso, mas no Brasil nos acostumamos a usar o termo mediunidade.

Há inúmeras teorias acerca de como e porque a mediunidade pode funcionar, mas podemos resumir em, talvez, três grandes hipóteses:

A primeira postula que o nosso inconsciente é algo muito mais vasto que nossa experiência consciente, e assim ele guarda consigo uma imensidão de informações que, no dia a dia, são simplesmente filtradas de nossa consciência, do contrário a vida seria impossível. Pense na quantidade de informação que uma pessoa moderna, moradora de alguma metrópole e conectada as redes sociais, acessa de alguma forma todo santo dia. Decerto muita coisa é varrida para debaixo do tapete da consciência, rumo ao inconsciente. A mediunidade poderia ser uma forma de acessar pedacinhos específicos desse inconsciente. Isso explicaria como podemos nos autoconhecer melhor através do tarot, mas se formos considerar que o tarot também pode trazer respostas acerca da vida de outras pessoas, isso só poderia ser viável através do acesso ao inconsciente coletivo proposto por Jung.

A segunda hipótese diz respeito à ideia de um anjo da guarda, Eu Superior ou Sagrado Anjo Guardião, ou ainda, a entidades espirituais em geral, sejam elas espíritos desencarnados ou deuses. Através da mediunidade, todos poderíamos nos conectar e conversar de alguma forma com tais seres do chamado mundo astral, e o tarot nada mais seria do que uma dessas interfaces – assim como, por exemplo, o jogo de búzios no candomblé ou a psicografia no espiritismo. Tais entidades não necessariamente seriam externas: há teorias que afirmam que o Sagrado Anjo Guardião, por exemplo, é nós mesmos em algum futuro distante, onde saberíamos tudo o que se passou nos milhares de anos de caminho espiritual. Segundo essa teoria, nós usaríamos o tarot para fazer perguntas a nós mesmos no futuro. Dá um baita filme de ficção científica!

Finalmente, a terceira hipótese, de longe a mais metafísica, parte da ideia que veio do hermetismo e afirma basicamente que “o Todo é mente”. Simplificando bastante, isso quer dizer que quem ou o que criou o espaço-tempo está, sempre esteve e sempre estará presente nele. Ou seja, não haveria nada no cosmos fora ou mesmo longe deste Todo, que é tudo o que existe. E, como fomos criados “a sua imagem e semelhança” ou, para citar outro conceito hermético, “o que está em cima é como o que está embaixo”, este Todo é tão mente quanto a gente: nós fazemos parte dele, somos como personagens na sua história. Nesse sentido, enquanto o inconsciente coletivo de Jung seria, para nós, inconsciente, para o Todo ele seria pura consciência – consciência universal. E, sim, isso tudo quer dizer que nós usaríamos o tarot para fazer perguntas diretamente a Deus, ou como queira chamá-Lo.

Seja de que ponto de vista você observe o tarot, fato é que há que se ter certa humildade diante dele, afinal ninguém, absolutamente ninguém, pode dizer que o compreendeu inteiramente. Nossa vida está e sempre estará nas cartas, mas as cartas são lâminas espelhadas, não estão vivas: refletem a vida. Há quem use tais lâminas para objetivos mesquinhos e egóicos, e se cortam nelas, e sangram sem necessidade. Mas há quem compreenda que elas podem refletir a luz do Alto, e assim jogar luz na escuridão da inconsciência, e tornar nosso caminho como um todo mais prazeroso, mais iluminado e mais colorido. A luz foi criada para ser refletida, e ela tem muitas cores!

***

[1] Alguns podem dizer que isso teria mais a ver com o próprio Arcano da Morte. Ora, mas é preciso lembrar que o Louco se encontra espalhado por todos os outros Arcanos. Ou foi só um erro de tradução mesmo...

Bibliografia
Para esta série nos valemos de conhecimentos e trechos obtidos nos livros História do Tarô (Isabelle Nadolny; tradução Luciana Soares da Silva; Editora Pensamento), Tarot Hermético (Marcelo Del Debbio e Priscilla Martinelli; Daemon Editora) e O Homem e seus Símbolos (Carl G. Jung e colaboradores; tradução Maria Lúcia Pinho; Harper Collins), no portal Clube do Tarô (por Constantino K. Riemma e outros colaboradores) e nos cursos Os Mistérios do Tarot – Arcanos Maiores e Menores (Marcelo Del Debbio) e Tarot: Os Mitos Modernos e a Cultura Pop (Rodrigo Grola e Marcos Keller).

Crédito das imagens (com links da maioria dos tarots na Amazon): [topo] Jack Sephiroth/Heaven & Earth Tarot (a imagem traz o Louco, e este tarot é obviamente uma releitura do Tarot de Waite-Smith); [ao longo] Anônimo e Pamela Smith (a imagem traz o Louco no Tarot de Marselha e no Tarot de Waite-Smith); Roe Mesquita (a imagem traz o Louco no Tarot da Reflexão, do qual sou cocriador, mas não ilustrador); Jen Theodore/unsplash (na imagem, o Wild Unknown Tarot, de Kim Krans).

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20.4.18

As grandes questões do ocultismo (tomo III)

« continuando do tomo II

Seja feita a Vossa vontade assim na terra como no céu (Oração do Pai Nosso)


Muitos devem conhecê-lo como “aquele ocultista inglês que apareceu na capa do disco dos Beatles”, outros ainda como “o profeta do novo Aeon de Hórus”; mas Aleister Crowley preferia se autointitular “Mestre Therion”, ainda que a mídia de sua época o chamasse de “o homem mais perverso do mundo”. Não se pode dizer que Crowley passou desapercebido por aqui...

Quanto a ser um ser perverso, eu preferiria guardar esse tipo de julgamento para assassinos em massa, torturadores e defensores da tortura, terroristas em geral, gente que suga sangue de verdade dos outros – Crowley nunca fez nada disso, pelo menos que se saiba. No entanto, se você julga que “todo ocultista é perverso porque trata com o Demônio”, então talvez seja melhor reler o que já foi dito no tomo I.

Na verdade, Crowley foi uma espécie de Allan Kardec bem mais liberal, principalmente no que tange ao sexo e a participação em ordens esotéricas. Eu explico: assim como Kardec, que codificou sua obra-prima (O Livro dos Espíritos) a partir de perguntas e respostas a jovens médiuns incorporadas, Crowley fez algo parecido com o seu Livro da Lei, com a diferença relevante que se valeu da mediunidade de sua própria esposa na época, ao contrário do fundador espírita, que recorreu a quatro adolescentes.

Bem, na verdade há mais diferenças: enquanto Kardec jamais psicografou diretamente de algum espírito, Crowley na realidade usou a mediunidade da esposa apenas para ter o contato inicial com uma entidade espiritual chamada Aiwass, que por sua vez falava em nome de Hórus, o antigo deus egípcio dos céus. Foi “escutando a voz de Aiwass ditando por sobre o seu ombro esquerdo”, sem ser visto, que Crowley redigiu todo o Livro da Lei. Segundo o ocultista, a voz era “de um timbre profundo, musical e expressivo, com tons solenes, voluptuosos e tenros, flamejante e despida de tudo que não fosse o conteúdo da mensagem. Não um baixo, talvez um rico tenor ou barítono”.

Assim sendo, o seu processo de escrita pode ser considerado profético; como ocorreu com Maomé, que redigiu o Alcorão também pelo ditado do anjo Gabriel (neste caso, com a ajuda de secretários letrados). Mas, seria Aiwass um anjo? Um espírito? Um aspecto do inconsciente do próprio Crowley? Seja como for, o que importa é a mensagem, não como ela chegou a este mundo... e a mensagem de Crowley fala sobretudo de Vontade. Não uma vontade como outra qualquer, o desejo de tomar um sorvete, ou de comprar um carro – nada disso, ele falou de thelema, e a sua lei foi resumida neste trecho relativamente conhecido do público em geral:

Faze o que tu queres há de ser o todo da Lei.
O amor é a lei, amor sob vontade.

“Torne-se aquilo que você é”
Friedrich Nietzsche resgatou esta antiga frase de Píndaro mais ou menos na mesma época em que Crowley também buscava, justamente, descobrir a si mesmo, saber o que na realidade habitava em seu ser mais profundo.

Saber quem se é não deixa de ser um primeiro passo necessário para se tornar o que se é. Assim sendo, também podemos traçar um paralelo até o antigo templo de Delfos, onde segundo Platão, Sócrates leu e foi decisivamente inspirado pela frase: “conhece-te a ti mesmo, e conhecerás aos deuses e ao universo”.

Curiosamente, não há nada mais difundido na modernidade ocidental, nada mais na moda, do que as frases marqueteiras que lhe incentivam a “encontrar o que realmente ama”, e seguir em frente a partir dali, rumo à felicidade... O problema é que o que você ama, do ponto de vista de nosso mundo consumista, invariavelmente estará fora de você, será um produto. Existem variações, é claro, às vezes você mesmo pode ser o produto, como as musas fitness que estão sempre em forma, sempre felizes, sempre “profundamente espiritualizadas”.

Mas, se o caminho para nossa essência fosse tão simples, se as agências de marketing pudessem de fato realizar o mergulho em nós mesmos, todos já seríamos profundamente místicos: não, é só o caminhante quem pode mergulhar; instrutores de mergulho, ou pior, manuais de natação, jamais substituirão tal experiência.

Talvez fraquejemos. Talvez, como Crowley, nós não consigamos seguir 100% do tempo as nossas próprias instruções angelicais, e acabemos mais hedonistas, mais epicuristas que se perderam da ataraxia, do que gostaríamos de admitir. Mas ninguém disse que o caminho para a Verdadeira Vontade seria simples como um passeio no parque. Também já nos disse o doce rabi: “não vim trazer a paz, mas a espada”. Também nós mesmos precisaremos caminhar isolados no deserto, para também sermos tentados pelos nossos próprios demônios, para que possamos compreender, para que possamos saber, enfim, qual é a nossa Vontade, a nossa thelema.

A alma do universo inteiro
Para facilitar a compreensão da lei trazida ao mundo por Crowley, talvez seja mais fácil recorrer a outro monumento do ocultismo britânico, Mr. Alan Moore [1]:

Quando cumprimos a vontade de nosso verdadeiro Eu, nós estamos inevitavelmente cumprindo com a vontade do universo. Na magia, ambas as coisas são indistinguíveis. Cada alma humana não é, de fato, uma alma humana: é a alma do universo inteiro. E, enquanto você cumprir a vontade do universo, é impossível fazer qualquer coisa errada.

Muitos dos magos como eu entendem que a tradição mágica ocidental é uma busca do Eu com “E” maiúsculo. Esse conhecimento vem da Grande Obra, do ouro que os alquimistas buscavam, a busca da Vontade, da Alma, a coisa que temos dentro que está por trás do intelecto, do corpo e dos sonhos. Nosso dínamo interior, se preferir assim. Agora, esta é, particularmente, a coisa mais importante que podemos obter: o conhecimento do verdadeiro Eu.

Assim, parece haver uma quantidade assustadora de pessoas que não apenas têm urgência por ignorar seu Eu, mas que também parecem ter a urgência por obliterarem-se a si próprias. Isto é horrível, mas ao menos vocês podem entender o desejo de simplesmente desaparecer com essa consciência, porque é muita responsabilidade realmente possuir tal coisa como uma alma, algo tão precioso. O que acontece se a quebra? O que acontece se a perde? Não seria melhor anestesiá-la, acalmá-la, destruí-la, para não viver com a dor de lutar por ela e tentar mantê-la pura? Creio que é por isso que as pessoas mergulham no álcool, nas drogas, na televisão, em qualquer dos vícios que a cultura nos faz engolir, e pode ser vista como uma tentativa deliberada de destruir qualquer conexão entre nós e a responsabilidade de aceitar e possuir um Eu superior, e então ter que mantê-lo.

Entendem agora como a espada do Cristo era, de fato, afiada? É impossível alcançar nossa alma, nossa Verdadeira Vontade, sem antes morrer para a “vontade do ego”, sem antes morrermos para nossa natureza animal e renascermos, como o próprio Cristo, na plena posse de nossa natureza humana, no sentido mais pleno de “ser humano”.

Faze o que tu queres: porém há poucos que conseguem estar de fato conectados, todo o tempo, a este “tu”, a este Eu superior, para cumprirem a sua própria Vontade.

Há de ser o todo da Lei: não há Lei maior do que a Lei do Cosmos, da Natureza, do Sagrado. Somente ela dá conta da totalidade de nossa existência, e de todas as demais existências, em todos os tempos, em todos os cantos do universo.

O amor é a lei: não há em todo o universo algo mais eterno, mais transcendental, mais primordial que o amor. O amor é a essência da realidade, e tudo o que há segue em seu caminho tão somente para despertar a sua própria compreensão do que vem, de verdade, a ser o amor.

Amor sob vontade: fôssemos criados já como seres plenamente amorosos, na plena compreensão do amor, seríamos como anjos, como autômatos criados para servir as leis universais, e não seres humanos que, em sua animalidade, em sua Vontade, conseguem evoluir por si próprios. Há Vontade porque alguém lá no Alto não quis que fôssemos robôs.

Assim é que se cumpre a Lei e a Vontade do Céu, e se Crowley lhes parece um mensageiro demasiado sinistro, saibam que o antigo rabi da Galileia não disse coisa muito diferente. Esta é uma tradução mais fidedigna do trecho do Pai Nosso com o qual iniciamos este tomo (veja quem tiver olhos para ver):

Faze com que se realize a tua vontade, na terra, à imagem do céu (Oração do Pai Nosso; tradução ecumênica)


» No tomo final: Ars Magica.

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[1] Trecho do doc The Mindscape of Alan Moore.

Crédito das imagens: Google Image Search (respectivamente: Aleister Crowley e Alan Moore).

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2.10.15

Uma epidemia de autismo?

“Vivemos uma epidemia de autismo nos EUA. Se nada for feito, em 2025 um em cada dois recém-nascidos será diagnosticado com autismo.” – a conclusão não é de qualquer leigo no assunto,  mas de Stephanie Seneff, pesquisadora sênior do Computer Science and Artificial Intelligence Laboratory no mundialmente respeitado Massachusetts Institute of Technology (MIT). A Dra. Seneff, assim como muitos outros cientistas, afirma que o autismo não é um distúrbio neurológico apenas genético – é praticamente certo que ocorra devido a fatores ambientais. Dois desses fatores estão relacionados à exposição ao glifosato e a um coquetel de metais pesados, incluindo o alumínio. “Glifosato”, guarde este nome, pois já voltaremos a ele...

Antes, é preciso falar um pouco mais sobre o autismo. Trata-se de um distúrbio neurológico caracterizado por comprometimento da interação social, comunicação verbal e não-verbal, assim como de comportamento restrito e repetitivo.

Ninguém “pega autismo”, como se pega uma gripe ou doença sexualmente transmissível. Ou nascemos com autismo, ou não. Os pais costumam notar sinais nos dois primeiros anos de vida da criança. Os sinais geralmente desenvolvem-se gradualmente, mas algumas crianças com autismo alcançam o marco de desenvolvimento em um ritmo normal e depois regridem.

Segundo Temple Grandin, uma famosa autista savant (que desenvolveu grande empatia para com os animais, e pouca para com os seres humanos), autistas como ela “pensam em imagens” e, exatamente por “não serem atrapalhados pelas emoções”, estão aptos a resolver mais facilmente diversos problemas matemáticos e detectar padrões naturais que uma mente normal usualmente deixa passar em branco, simplesmente porque sua consciência está focada em aspectos, digamos, mais sociais da existência.

Mas são poucos os autistas que conseguem se destacar, como Grandin. Muitos são condenados a viver uma vida enclausurada em seu próprio mundo interno, como uma larva que entra num casulo, mas jamais chega a virar borboleta e voar para fora.

Voltando ao assunto da epidemia, mas não ao glifosato (continuem guardando o nome), há muitos americanos que desconfiam que o autismo está sendo causado por vacinas. Apesar de aparentemente absurdo, o assunto foi levado até mesmo ao recente debate dos candidatos do partido republicano à presidência dos EUA. E foi exatamente o mais cotado nas pesquisas para concorrer pelo partido, o bilionário Donald Trump, o único a defender abertamente a ideia de que, sim, as vacinas podem ter alguma relação com a tal epidemia.

Para o desespero dos médicos americanos, este assunto vem se tornando tão popular que doenças erradicadas há décadas estão retornando aos EUA, simplesmente porque alguns pais estão se recusando a vacinar seus filhos. Ora, para derrubar tal teoria, basta comparar as vacinas de hoje com as de décadas atrás, quando não havia tantos casos de autismo diagnosticados, e veremos que não, não é culpa das vacinas, ao menos não diretamente.

É aí que voltamos a Dra. Seneff e ao glifosato... A Monsanto é uma multinacional americana do ramo da agricultura e biotecnologia, sendo de longe a líder mundial na produção e comercialização de sementes geneticamente modificadas e do agrotóxico herbicida RoundUp, o mais vendido do mundo, cuja base é exatamente o glifosato.

O glifosato é um herbicida desenvolvido para matar todo tipo de ervas, usado no mundo todo, e no Brasil desde a década de 70. Há vários indícios de que ele pode ser cancerígeno, além de causar certo impacto ambiental pela destruição de bactérias que são vitais para a regeneração do solo, assim como pela má-formação de fetos de certos animais, principalmente anfíbios. Mas nada foi oficialmente comprovado, não se sabe se com a ajuda do lobby da Monsanto ou não.

A questão é que nunca se usou tanto glifosato no mundo quanto nas últimas décadas, pois a Monsanto também desenvolveu sementes geneticamente modificadas “imunes ao glifosato”, permitindo que ele pudesse ser despejado em grande quantidade sobre as plantações.

Isso significa que todos nós temos traços de glifosato na urina, e até mesmo no leite materno. Nos EUA, essas concentrações são cada vez maiores, e é precisamente aí que a teoria da Dra. Seneff começa a fazer todo sentido.

É possível que o glifosato seja inócuo para a grande maioria de nós, ou que seu efeito nocivo não seja facilmente notado, como a possibilidade de ser um agente cancerígeno. Entretanto, a coisa muda de figura quando temos a informação que ele está presente no leite materno e, dessa forma, na única dieta de um recém-nascido em seus primeiros meses de vida. É possível que o glifosato interfira na formação cerebral, já que sabemos que o homo sapiens vem ao mundo com seu cérebro ainda em plena formação, particularmente no início da vida.

Fazendo mais um “parêntesis” nessa história, vamos dar um pulo no campo espiritual... Anos atrás, quando estudei sobre o tema do autismo, eu tinha certa convicção que se tratava de uma “doença do espírito”. Isto porque, pensemos, ele só aparecia em crianças, e afetava as relações sociais, a empatia e o aspecto puramente emocional da vida. Sempre me pareceu como que uma doença programada para aqueles espíritos que “abusaram” das emoções noutras vidas, e que precisavam passar uma vida com esse aspecto “anestesiado”.

E, se tal convicção foi agora seriamente abalada por esta notícia de que o autismo pode muito bem ser causado por fatores puramente ambientais, ela não caiu inteiramente por terra em minha “rede de possibilidades” – simplesmente pelo fato de que a principal ação do glifosato nos recém-nascidos é a interrupção do bom funcionamento da glândula pineal.

Particularmente quando acompanhado de alumínio (e esse alumínio também vem das vacinas, que podem mesmo ter algum envolvimento indireto no assunto – com toda ênfase no “podem”), o glifosato interfere diretamente na boa formação da pineal, e conforme já sabemos muito pouco sobre essa glândula, sabemos menos ainda sobre o que o seu comprometimento pode acarretar. No entanto, segundo a teoria de um cientista brasileiro, Dr. Sérgio Felipe de Oliveira, a relação entre o comprometimento da pineal e a baixa empatia faz todo sentido.

O Dr. Oliveira estuda a pineal há muitos anos, e como se trata de um cientista espiritualista, não se acanha ante as possíveis “funções espirituais” associadas à glândula. O que ele encontrou em seus estudos não é nada como “a sede da alma” ou algo vago, mas cristais, cristais de apatita. Ele percebeu que algumas pessoas já nascem com a pineal cheia desses cristais, enquanto outras têm poucos ou nenhum. Assim, ele fez experimentos com ambos os grupos.

Entre aqueles que possuem os cristais, os chamados fenômenos mediúnicos, assim como a percepção de campos eletromagnéticos, são muito mais significativos. Ora, no espiritualismo sabemos que a mediunidade não deixa de ser uma percepção do mundo à volta mais desenvolvida, principalmente no que tange a empatia e as emoções. É muito comum médiuns serem alertados para “tomarem cuidado com o canal aberto”, isto é, como o fato de que, para eles, os fenômenos emocionais podem ser muito mais poderosos e, por vezes, até mesmo devastadores...

E o autismo, o que é, senão o oposto da mediunidade?

Enquanto muitos médiuns têm enorme dificuldade em erguer um casulo entre o seu mundo interior e o exterior, os autistas sofrem do extremo oposto: têm dificuldades exatamente em romperem o casulo que os mantém quase que isolados do mundo social-emocional.

Tudo bem, você pode não acreditar em nada disso, mas a questão aqui não é bem crer, mas buscar por hipóteses que façam sentido, e que não sejam absurdas a priori. E ignorar a possibilidade do autismo se originar no comprometimento das funções da glândula pineal pode não ser o melhor caminho para elucidarmos tal mistério.

Em todo caso, fato é que há sim uma característica de epidemia nos casos de autismo nos EUA. Há um aumento de 75% nos registros desde 2001, e em 2014 cerca de uma a cada 68 crianças foram diagnosticadas com algum grau de autismo (enquanto em boa parte do mundo, esse número não passa de uma a cada 500). Segundo a Dra. Seneff, esse número pode chegar a uma a cada duas, em 2015. É preciso estar de olhos abertos para que os lucros de uma multinacional americana não justifiquem o custo de termos de lidar com dezenas, centenas de milhões de autistas.

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Crédito da imagem: Google Image Search/cancerfactsheet.org

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28.1.13

O software angélico que roda no eixo do mundo, parte 2

« continuando da parte 1

E foram todos os dias de Enoque trezentos e sessenta e cinco anos. E andou Enoque com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus para si o tomou. (Gênesis 5:23-24).

Seriam os anjos e demônios seres como nós?
Se até agora tendemos a concluir que os deuses e orixás não poderiam ser seres pessoais, conquanto não poderiam haver passado por alguma espécie de evolução, o mesmo não necessariamente se aplica aos anjos e demônios.
É claro que nos mitos monoteístas, diz-se que os anjos foram criados como seres já perfeitos, servos eternos dos desígnios de Deus. Neste caso, seriam algo similar aos deuses, que operam as forças naturais. Mas o problema desta linha de pensamento é que esses mesmos mitos também nos contam que há alguns anjos que se rebelaram contra o Criador, e que desde então foram condenados a habitar o Inferno e, quem sabe, serem sempre maus, por toda a eternidade.
Com isso se quer dizer que o livre-arbítrio foi inventado, precisamente quando um anjo chamado Lúcifer (portador da luz) decidiu se rebelar contra a “programação” do Criador. Afinal, qualquer ser criado “já perfeito, pronto e acabado”, não passou por evolução alguma e, dessa forma, não é “perfeito” pelo seu próprio mérito, mas antes por alguma forma de “programação”. Tais anjos seriam então como robôs, autômatos sem vontade própria. Mas, se não teriam vontade, como diabos Lúcifer teve a vontade de contrariar seu Pai?
Eu penso que este problema tem duas soluções lógicas, e não mais do que duas: (a) Lúcifer na realidade também foi “programado” para contrariar a Deus, e tudo o que têm feito desde então, em realidade, é tão somente o que foi “programado” para fazer [1]; (b) Lúcifer na verdade seria um ser como nós, e sua decisão de contrariar ao Criador denota, metaforicamente dentro deste mito profundo, o estágio em que o ser se torna autoconsciente, que “desperta” para o conhecimento do bem e do mal, da vida e da morte, e para o fato de que possuí uma alma capaz de interpretar o mundo e fazer escolhas [2].
Ora, se ficarmos com a última opção (que, no meu entendimento, faz mais sentido), temos que anjos e demônios nada mais são do que espíritos, como nós mesmos, em maior ou menor grau de evolução cognitiva, moral e espiritual. Certamente pode parecer complicado “classificar” aos seres por sua suposta “evolução moral”; mas, na prática, é isto o que tentamos fazer todos os dias. Sempre que conhecemos algum novo amigo (ou inimigo), uma de nossas primeiras preocupações é tentar situar em que “nível de moralidade” ele opera. Claro que, muitas vezes, temos julgado errado [3], mas isto não significa que não exista uma distinção clara entre seres amorosos, sábios e morais, e seres indiferentes, ignorantes e imorais.
Antes, porém, de habitarem reinos fantásticos, acima ou abaixo do mundo, anjos e demônios talvez devam ser classificados pelo estado em que se encontram suas mentes, sua consciência, sua paz de espírito. Anjos seriam, portanto, aqueles seres com maior consciência da própria liberdade, e maior controle da própria vontade; ao passo que demônios seriam o oposto, ou seja: seres atolados num charco de desejos desenfreados, facilmente manipulados por vontades alheias, perdidos de si mesmos.

O que isto tudo quer dizer é isto aqui: anjos e demônios habitam mesmo este mundo, e não poderia ser diferente.

Os exus e as pambu njilas
Nas mitologias africanas (e, particularmente, na dos iorubás), deuses são chamados orixás, conforme já vimos. Pois bem, ocorre que no caso da umbanda sagrada, religião de origem brasileira [4], anjos e demônios são chamados de exus e pambu njilas. Exus nada mais seriam que espíritos como nós, no período entre vidas, do gênero masculino. Pombagiras seriam exus do gênero feminino (seu nome é uma corruptela do pambu njila, de origem angolana) [5].
Dessa forma, na umbanda, nem todo exu é demônio. De fato, a imensa maioria dos praticantes desta doutrina lida mesmo é com exus de amor e moral elevados – anjos, portanto.
Em todo caso, não devemos confundir os exus anjos e demônios com o Exu orixá (um dos deuses iorubás)...

O axis mundi
Me disseram que o termo Exu é derivado de “Eixo”, mas isto não posso confirmar. Em todo caso, é algo que faz sentido: o orixá Exu é o deus mensageiro, o responsável por fazer a conexão entre um mundo que está no plano com um outro mundo que está acima ou abaixo. No nosso caso, costuma-se dizer que Exu forma o eixo entre a Terra e o Céu, mas também poderia formar um eixo, igualmente, entre a Terra e o Inferno, dependendo de nossa intenção e vontade ao invocá-lo.
Desnecessário dizer que estas ideias de um axis mundi (Eixo do Mundo), e de deuses mensageiros que o percorrem, trazendo e enviando mensagens entre um plano médio e um superior (ou inferior), são abundantes em diversas mitologias. Geralmente, os deuses inventores da escrita (Toth-Hermes; Odin-Wotan) encontraram esta incrível descoberta exatamente enquanto viajavam através do Eixo, indo e retornando de um plano superior. Odin, por exemplo, chegou a se enforcar neste Eixo, que era a própria Yggdrasil (“o eixo do mundo”), e após alguns dias de “transe xamãnico”, trouxe o conhecimento das runas (forma de escrita) aos homens nórdicos.
Entretanto, isto vocês devem lembrar: dizíamos há pouco que os deuses eram forças da natureza, e não seres pessoais, que evoluem, como nós. Ora, e não é exatamente disto que se trata o orixá Exu? Uma força natural, um instrumento pelo qual nossas mentes conseguem entrar em estados alterados e acessar informações que antes nos eram ocultas?
No fundo, não importa muito ao médium ou magista se os deuses existem fora ou dentro de suas mentes... Na prática, o axis mundi poderia ser um pé de feijão mágico cujo caule gigantesco toca o próprio céu, ou o eixo interno da própria alma, que liga o plano médio, consciente, ao plano oculto, inconsciente. Dessa forma, se em nosso inconsciente há um reino celeste, ou infernal, isto depende unicamente de onde sintonizamos nosso pensamento e nossa vontade.

» Em seguida, finalmente, o software angélico...

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[1] Apesar de eu mesmo não acreditar na hipótese, admito que ela explicaria o fato de Lúcifer ser eternamente mau, sem a possibilidade de se arrepender: é que foi “programado” para assim o ser.

[2] Neste caso, o mito de Lúcifer teria vários outros paralelos na mitologia. Mesmo no próprio Gênese, o mito da Eva que comeu a fruta proibida da Árvore da Ciência do Bem e do Mal, seria essencialmente uma metáfora muito parecida. Talvez surgido num tempo próximo, mas em outra parte do mundo, temos o mito de Prometeu, o titã que roubou o fogo dos deuses, e depois foi punido. Não obstante, houve tempo de presentear este fogo aos homens, o que os tornou “superiores” aos demais animais: ou seja, eram, conforme Adão e Eva, os primeiros seres humanos conscientes de si mesmos e da própria liberdade (vontade). Também haviam conquistado a ciência do bem e do mal (graças ao sacrifício de um ser “sobre-humano”, mas que foi punido pelos deuses por sua ousadia).

[3] O massacre dos indígenas da América pelos colonizadores vindos da Europa é um belo exemplo. Os colonizadores se julgavam “seres de moral superior”. Mas por tudo o que fizeram, pelo exemplo que foi dado, fica muito claro que os ditos “selvagens” estavam, muitas vezes, num estágio moral muito mais elevado do que os ditos “civilizados”.

[4] Surgida há pouco mais de um século, em Niterói, Rio de Janeiro.

[5] Muitas vezes a umbanda também lida com espíritos que, em sua última encarnação, não eram de origem africana, mas indígena. Normalmente são chamados de caboclos ou cabocladores, e não de exus. Eles são o que restou dos indígenas devastados pelos “homens civilizados”. E eles nos perdoaram: voltam para nos ajudar, sobretudo, por amor.

Crédito das imagens: [topo] Fantasy Flight Games; [ao longo] Tetra Images/Corbis

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11.9.12

Arquivo Especial: o que a ciência (ainda) não explica

Neste Arquivo Especial falaremos sobre o que a ciência não explica e nem comprova fraude:

Há mais de uma década, cientistas da Universidade de Princeton, nos EUA, capitaneiam um curioso experimento que envolve a análise dos dados de geradores aleatórios de números espalhados por dúzias de locais ao redor do globo. O Projeto Consciência Global basicamente analisa os padrões de máquinas que jogam, virtualmente, milhares de moedas por segundo, e anotam o resultado: “cara” ou “coroa” (em bits, “0” ou “1”).

Os pesquisadores postulam que há uma relação direta entre eventos globais, como a morte da princesa Diana ou o tsunami da Indonésia, e os “desvios de padrão” ocorridos em tais geradores aleatórios. A despeito disto, eles não fazem muita ideia do porque isso parece ocorrer. Na realidade, somente no atentado de 11/9 nos EUA é que obtiveram um resultado “sobrenatural”: um desvio que se estendeu desde horas antes do primeiro avião atingir uma das torres de Nova York a até cerca de 72 horas depois...

Os céticos elogiam a metodologia do experimento, “realmente científico”, mas sentem-se confortáveis quanto aos resultados: há sempre a explicação de que em padrões aleatórios, há uma chance de “coisas assim ocorrerem, mesmo que as chances sejam de um em um milhão”. Mas, ainda que de fato o “grande desvio” de 11/9 se repita próximo de outro acontecimento de grande atenção da mídia global, há sempre a questão: “e daí, e o que isso prova?”. Este tipo de experimento agrada a Academia, pois não envolve diretamente explicações espiritualistas, e mesmo as explicações paranormais são tão vagas, que não despertam grandes preocupações nos céticos com certo asco do espiritualismo.

Há muitos céticos que negam uma hipótese espiritualista a priori. Eles afirmam (com razão) que afirmações extraordinárias, como a existência de espíritos, requerem comprovações extraordinárias, provas cabais, em laboratório, certificadas pelo “papado acadêmico”. Mas isso, como bem sabem os espiritualistas que ouviram Kardec, pode demorar a ocorrer – afinal não se experimenta com espíritos como se experimenta com pilhas voltaicas.

De fato, talvez nunca ocorra, talvez espíritos não existam afinal... No entanto, engana-se o cético que crê que a Academia têm comprovado que todas as alegações espiritualistas são fraudes ou devaneios. Não estou falando da prova de que espíritos não existem, pois isto é basicamente impossível: provar que algo não existe. Mas falo, isso sim, de diversos fenômenos paranormais relacionados à espiritualidade que não foram comprovados como fraude, e tampouco explicados pela ciência. Bem vindos ao reino da dúvida, só que agora, a dúvida de verdade:

Artigos:

Caso Parmod 05.04.11
Nesta série de artigos falamos sobre as pesquisas de uma vida inteira do parapsicólogo Ian Stevensson, que graças à herança deixada pelo fundador da Xerox, pôde rodar o mundo estudando os casos de crianças que lembram vidas passadas. Sua metodologia é tão meticulosa que até mesmo Carl Sagan citou seu trabalho em O mundo assombrado pelos demônios – embora Sagan acreditasse que devesse haver “outro tipo de explicação para os fenômenos”. O que você diria de crianças que lembram do endereço e de detalhes familiares íntimos de parentes de supostas vidas passadas? Qual seria a explicação? Fraude? Erro de metodologia de pesquisa? Memes? Inconsciente coletivo? Reencarnação? Todas estas hipóteses continuam muito válidas até hoje, e há inúmeros parapsicólogos seguindo com a pesquisa de Stevensson.

Reflexões sobre a consciência 16.04.09
Os dualistas acreditam na separação mente-corpo como duas entidades separadas. Na realidade essa separação, com o avanço da neurologia, hoje é compreendida como mente (ou consciência) e cérebro. Apesar da ciência ter conquistado avanços no estudo da mente humana, ao ponto de conseguir decodificar sinais motores e fazer macacos "pilotarem" membros robóticos a meio mundo de distância, ainda não se sabe onde está a "usina cerebral", o que exatamente ativa as correntes elétricas em questões mais complexas como decisões morais ou emoções como o amor. Este é o famoso problema difícil da consciência, mas engana-se quem pensa que todos os neurologistas sejam contrários a noção do dualismo. Nesta série de artigos falamos mais sobre este tema.

Quase morte 03.08.10
Mais uma série de artigos, desta vez focada nas experiências de morte, ou de quase morte. Tanto crianças como idosos, tanto ateus quanto crentes, têm relatado experiências muito parecidas que supostamente ocorreram enquanto seus cérebros estavam em “atividade zero”, normalmente enquanto estavam passando por cirurgias complexas em hospitais, quando “morreram, e depois retornaram”. O Dr. Sam Parnia é um neurologista que tem dedicado a vida ao estudo genuinamente científico desse tipo de fenômeno, tão conhecido de qualquer cirurgião geral (que “oficialmente” muito pouco falam sobre o assunto).

Um médium notável 09.04.10
Existam ou não espíritos, a ciência parece um tanto distante de chegar a uma explicação plausível para a fenomenal produção literária do maior médium brasileiro, que psicografou sobre assuntos tão diversos quanto a história da época de Cristo e a física moderna, em estilos literários e poéticos tão variados que um dia Monteiro Lobato declarou: “Se Chico Xavier produziu tudo aquilo por conta própria, merece quantas cadeiras quiser na Academia Brasileira de Letras”. Como explicar? Criptomnésia (esquecer-se de algo que já sabia, e escrever como se fosse vindo de um espírito)? Mas como ele teria psicografado livros junto com Waldo Vieira, numa parceria em que um “trazia” os capítulos pares, enquanto outro “trazia” os ímpares, separados por cidades de distância? Vale a sua dúvida...

João de Deus: charlatão? 19.02.09
Operando à décadas em Abadiânia, valendo-se (literalmente) de uma faca de cozinha não esterilizada, o médium João de Deus tem tratado de pacientes “desenganados” pelos médicos ao redor do globo, sendo hoje famoso no mundo todo. Neste artigo eu comparo a suposta “análise embasada” do desmistificador James Randi (que nunca visitou Abadiânia, e apenas “viu um vídeo” de João operando) com o estudo presencial da Associação Médica Brasileira acerca das cirurgias. E a AMB atesta: elas são reais, embora não esteja comprovada nenhuma relação com a cura dos males em si. O que se passa, afinal, no interior de Goiás?

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Vídeos e documentários:

Alma sobrevivente 17.06.09
Há muitos críticos ocidentais que afiram que os estudos de crianças que lembram vidas passadas se resumem a regiões do globo onde a crença na reencarnação é fortemente arraigada. Isto não é verdade, pois o próprio Ian Stevensson estudou casos na Europa e em muitos outros lugares onde a maioria das pessoas não crê em reencarnação. Em todo caso, parece que o garoto americano, James Leininger, filho de pais que mal tinham ouvido falar no termo “reencarnação”, nos serve como um belo exemplo de caso sugestivo. E ele não se lembrou apenas dos parentes ou dos companheiros que lutaram ao seu lado na Segunda Guerra de uma outra vida, ele foi até o local onde seu avião havia sido abatido, e chorou... Pena que Stevensson já não vivia mais para ver tal cena.

Um caso sugestivo de psicopictografia 20.09.11
Neste trecho do programa da Xuxa, na TV Globo, temos a história de Lívio Barbosa, médium que afirma pintar com o “auxílio” de espíritos. Há demonstrações de pinturas mediúnicas e, no texto do artigo, trazemos o resumo de algumas das possíveis explicações para este tipo de fenômeno: criptomnésia (conforme no caso de Chico), inconsciente coletivo, imatéria (um conceito de Alan Moore) e espiritualismo.

Os mistérios de Abadiânia 19.08.12
João de Deus opera um tratamento que pode resultar em cura? É exatamente esta pergunta que o documentário Cura: Milagres e Mistérios de João de Deus procura responder. Ganhador de 3 prêmios no festival internacional de Mônaco, em 2008, é de longe o documentário mais bem produzido acerca do médium de Abadiânia. Ainda que não creiamos que espíritos estão a operar e curar valendo-se das mãos de João, o documentário é tocante em seu lado humano.

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» Veja também: Espiritualismo: o que a ciência pode estudar

Crédito da imagem: James Sebor (I am we)

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19.8.12

Os mistérios de Abadiânia

Discovery Channel, National Geographic e BBC foram alguns dos canais de TV estrangeiros, bastante conceituados, que já realizaram filmagens e documentários acerca de João de Deus. Apesar de ser relativamente conhecido no próprio país, ao ponto de ter sido chamado para auxiliar no tratamento de câncer do ex-presidente Lula, e também do ator Reynaldo Gianecchini, o médium é muito mais famoso fora do país, tanto que mereceu uma visita exclusiva de Oprah Winfrey, provavelmente a apresentadora de TV mais famosa do mundo.

Filmadas por todos os ângulos, as cirurgias físicas de João de Deus causam um misto de espanto e certa repudia. Certamente não é todo dia que vemos uma pessoa sem qualquer formação médica fazer incisões profundas na pele das pessoas com facas de cozinha, “raspagem” de catarata em olhos abertos (com o mesmo instrumento, tudo filmado), e inserções de tesouras pelo orifício nasal. Em estudo da Associação Médica Brasileira, ficou comprovado que tais cirurgias são reais, e que os tecidos extraídos e “raspados” dos olhos são inteiramente compatíveis com a fisiologia dos pacientes. Mas, a pergunta que fica é: com ou sem cirurgias físicas [1], João de Deus opera um tratamento que pode resultar em cura?

É exatamente esta pergunta que o documentário Cura: Milagres e Mistérios de João de Deus procura responder. Ganhador de 3 prêmios no festival internacional de Mônaco, em 2008, é de longe o documentário mais bem produzido acerca do médium de Abadiânia. Ainda que não creiamos que espíritos estão a operar e curar valendo-se das mãos de João, o documentário é tocante em seu lado humano. Nele, vemos um homem que veio se tratar e até hoje não pode se distanciar algumas centenas de metros da Casa, pois do contrário suas convulsões retornam imediatamente. Vemos uma jovem que veio a Abadiânia por pura curiosidade, e encontrou motivos para lá residir o resto da vida, encerrando uma longa viagem pelo mundo, e iniciando uma nova viagem interior. Vemos um homem que teve de vir dezenas de vezes ao Brasil, e não compreendia porque afinal nunca se livrava de sua doença, até que finalmente conseguiu algo mais importante: tratar e curar a causa, e não o efeito.

E de todos esses, nenhum nasceu no Brasil. Há que se perguntar o que todo esse povo estrangeiro tem a tratar com João de Deus:

Caso o vídeo acima dê algum erro, veja no site do Vimeo. No Firefox as vezes os vídeos do Vimeo não abrem, então será necessário usar outro browser para ver.

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[1] O documentário mostra, em curtos momentos, cenas de cirurgias físicas operadas pelo médium. Sabe-se que tais cirurgias na verdade não participam de cura alguma, o próprio médium conta que servem apenas para "reduzir o ceticismo dos pacientes quanto ao tratamento". Eu não concordo com tais cirurgias, mas em todo caso elas são uma parcela ínfima do total de cirurgias espirituais (sem cortes, etc.) realizadas por João ao longo de décadas. Portanto, não concordo, mas isso por si só não me impede de admirar todo o amor e toda a espiritualidade que existem em Abadiânia.

» Para uma análise cética centrada exclusivamente nas cirurgias físicas mostradas no documentário, ver o artigo João de Deus: charlatão?

Crédito da imagem: Divulgação/Cena do documentário (Healing)

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16.8.12

As mesas giram, mas não pensam

Eu (Raph), Igor Teo, Peterson Danda, Raphael PH e Jeff Alves, antigos membros do Links Mayhem, estamos participando de um novo projeto: Sobre um tema específico cada um dos participantes irá publicar um texto, em uma ordem estabelecida aleatoriamente, formando uma discussão, um agradável bate papo, onde o leitor será levado a refletir e meditar sobre diversos pontos de vista e abordagens do mesmo tema. Eis então o projeto Entrementes. Boa leitura!

O tema da segunda rodada é “Mediunidade”, e coube a mim o artigo inicial [1]...

Como já falei bastante sobre o tema em meu blog [2], optei por abordar aqui a mediunidade sob outro ponto de vista. Digamos que você não acredita em espíritos, ou em consciências incorpóreas. Digamos que você não acredita em vida após a morte e que, acerca da existência de Deus, não pode conceber nada de muito concreto. Então, neste caso, a mediunidade seria o último assunto que deveria lhe interessar, correto? Pois continue lendo, e veja se conserva esta mesma conclusão até o final deste artigo:

Uma festa angustiante
Começaremos a utilizar a imaginação... Digamos que você seja uma senhora que vai na festa de aniversário da própria filha. Sua mãe mora em outro estado e você a vê apenas uma vez por ano, mas as preocupações de sua vida giram em torno de sua filha: Está bem casada? Tem um bom emprego? Já está na idade de ter filhos, mas será que está preparada para ser mãe?
Estes são seus pensamentos do dia a dia no convívio com sua filha, e esta festa deveria te deixar muito feliz e satisfeita: sua filha parece estar feliz e satisfeita, era o que você queria... No entanto, subitamente, você começa a pensar na sua mãe. “Não há de ser nada, e já está tarde” – você pensa, evitando a todo custo à vontade de ligar para ela. A festa continua e todos estão felizes, mas você está profundamente angustiada. Com o que exatamente?
Você dorme angustiada, mas acorda bem melhor. No sonho, parece que conseguiu finalmente falar com sua mãe, e nem precisou usar o telefone. No entanto, lá pelo horário do almoço seus parentes ligam do outro estado: sua mãe teve uma morte súbita na noite anterior. Ela realmente queria falar contigo, e falou. E você sabia. De alguma forma, mesmo sem o telefone, houve esta ligação entre vocês. Teria sido a última ligação? Isso é outra história, mas o que importa é que dois espíritos se comunicaram de ontem para hoje.

O primeiro porre
Continuemos a imaginar... Agora você é um jovem recém chegado à adolescência, e seu irmão mais velho finalmente aceitou te levar junto com ele para a balada. É a tão sonhada iniciação: agora finalmente você também poderá sair da casa dos pais e voltar mais tarde, quem sabe de madrugada. E vai namorar as garotas mais belas dessa parte da cidade. E dançar e se divertir... A vida será uma grande festa!
No entanto, o primeiro lugar que seu irmão te leva é para um barzinho onde se pode beber muito pagando um preço razoável. Mas você nunca bebeu, você não gosta de bebida!
Em todo caso, as horas passam e você começa a ficar incomodado com os olhares dos amigos do seu irmão. São todos apenas alguns anos mais velhos que você, mas te olham como se você fosse uma criancinha, e eles os maiorais, os experientes, os adultos. Seu irmão não deixou que ninguém te forçasse a beber, mas mesmo assim a pressão é muito grande... Você terá de dar pelo menos alguns goles num copo de cerveja, se pretende se enturmar com esse pessoal – se pretende participar dessa tal festa.
E você dá o primeiro gole, e o segundo, e o quinto, e um copo já foi, e depois vários, e lá pela madrugada, já no meio da balada, você já provou tantas bebidas diferentes que já nem se lembra mais que não gostava de beber. Na verdade, você já nem se lembra mais de quem você é exatamente. Os pensamentos se sucedem tão rapidamente que você não consegue mais construir para si um mundo que faça algum sentido. Você desmaia.
Esse foi o seu primeiro porre. Mas, será que haverão outros?

“Ele pode estar transando nesse minuto”
Que tal agora uma universitária cheia de sonhos, prestes a se formar, apaixonada por um cara um pouco mais velho, já formado, que tem progredido no escritório e no contracheque, mas tem trabalhado demais... Vocês quase não se veem mais!
Eles lhe ensinaram que quem ama deve cuidar de sua propriedade, então você cuida da sua: liga para o seu namorado umas 7-8 vezes ao dia. Quando não podem dormir juntos na casa dos seus pais, ou dos pais dele, a ligação noturna é longa e cheia de indagações. Ele é o namorado perfeito, afinal, e é exatamente por isso que você não consegue deixar de pensar nele, e no que anda fazendo quando não está perto de você.
“Todos os homens traem”, sempre dizem suas amigas da faculdade. “Não adianta acreditar em príncipe encantado fiel, se for assim tão encantado, vai encantar outras mulheres também. E, sabe como é, não é? Basta aquele shortinho encravado na bunda, aquela mini saia, e eles não resistem. Na verdade, ele pode estar transando com outra nesse minuto... Já pensou nisso?”.
Com o tempo, você já não sabe mais se essas frases foram ditas por suas amigas, ou se chegaram com o vento... Mas o fato é que você mal consegue se concentrar nas aulas. Está para se formar, mas as notas vão de mal a pior... Para piorar, seu príncipe encantado passou a não atender mais o celular de vez em quando. Agora, atende somente umas 5 vezes ao dia, nas outras está em “reunião de trabalho”.
“Reunião de trabalho”, você sabe bem o que é isso! Antes que fique claro e evidente para todos que está sendo traída, você resolve terminar com seu namorado. Ele finge que não entendeu nada, e diz que ainda te ama... Mas você percebe que ele também se sente aliviado por ter se livrado de você.
Então é isso: não existe príncipe encantado, e todos os homens traem mesmo. “Da próxima vez, os trairei antes” – você pensa, e parece ter sua vida amorosa bem resolvida... Será mesmo?

Shine on you crazy diamond!
E, para terminar: um solteirão convicto que convidou o pai para um show de rock. Mas não qualquer show, e sim o show daquela banda das antigas, de quando o seu pai era o solteirão convicto da vez. “Quem sabe não encontra neste estádio a mãe dos seus filhos, como o seu pai encontrou sua mãe há décadas atrás?” – mas este lhe pareceu um pensamento estranho.
O show começa e você se emociona. Não é só a questão da música ser maravilhosa, mas é a música que o seu pai lhe ensinou a ouvir. O seu pai, que não ia numa show há muitos anos, e que esteve muito triste e deprimido desde que sua mãe se foi há 3 anos, hoje está mais feliz do que nunca, e nem precisou se drogar – a década de 70 ficou para trás, o espírito roqueiro despertou novamente.
Quando toca Shine on you crazy diamond, a preferida de seu pai, e por tabela, também a sua preferida, ele lhe abraça e chora ao final da música: “Sinto que sua mãe está aqui. Ouvimos esta música tantas vezes juntos... Estou aproveitando o momento para me despedir dela de uma vez. Seja onde esteja, sei que ela ainda pode dançar, e isso me basta”.
Estranho de se pensar, logo seu pai que nunca foi lá muito religioso, nem parecia crer que qualquer parte da sua mãe ainda existira, falou dela como se ela estivesse ainda ali, ao lado dele. E não era uma questão de se crer ou não no que se passou, vocês sentiram a mesma coisa, e não era possível usar linguagem para descrever.
Naquela mesma noite, você encontrou a mãe de seus filhos. Quando sua mulher ficou grávida da primeira vez, souberam que era uma menina, e ela te disse: “Quero dar o nome da sua mãe, sinto que conheço ela desde que te conheci”.

***

Falávamos da importância do pensamento na primeira rodada do projeto, e aqui o pensamento está também na essência da mediunidade.  Podemos abrir uma enciclopédia e ler, quem sabe, assim: A mediunidade é a capacidade da consciência humana de trocar informações com outras consciências de forma não verbal, influenciar e ser influenciada por elas. Sejam consciências que habitam um corpo físico, sejam consciências incorpóreas. Mas, no fundo, a mediunidade é muito mais uma experiência, como estas citadas nos 4 casos acima.

E, neste caso, nem é tão importante crer ou descrer em espíritos. O primeiro espírito que precisamos crer, conhecer e incorporar, é o nosso próprio. Devemos tomar conta de nosso próprio pensamento, para que este não seja alvo fácil na ventania. Devemos ancorar nossa essência nos altos ideais da existência: no amor, na liberdade, no conhecimento; para que os ventos não venham e a levem sabe-se lá para onde...

Ter uma alma, ter um espírito, ter uma consciência, ter uma vontade capaz de gerar seu próprio pensamento, é uma grande responsabilidade. A mediunidade é também a arte de lidar com tal responsabilidade da melhor forma possível.

A senhora que perdeu a mãe deveria ficar deprimida e triste, ou feliz por ter conseguido conversar com sua mãe uma última vez antes que ela fosse para o lado de lá? O adolescente que tomou seu primeiro porre terá coragem para não beber nas próximas baladas (ou beber moderadamente), ou se tornará um especialista em comas alcoólicos? A universitária ciumenta saberá compreender que amores não são propriedades suas, ou continuará obsessivamente ligada aos seus namorados? O roqueiro terá a sensibilidade suficiente para encontrar com sua mãe, deste lado de cá, ainda outras vezes, ou isso ocorrerá somente nos grandes shows de rock?

Muitas dessas perguntas não trazem uma única resposta, nem muito menos uma resposta perfeitamente racional. Na introdução do Livro dos Espíritos, Allan Kardec explica como viu no fenômeno das mesas girantes [3] algo muito maior do que a mera “força mecânica cega”. Ora, as mesas passaram a responder perguntas, com pancadas no chão que ditavam “sim” e “não”. “As mesas giram, mas não pensam” – notou Kardec, e este foi o início do espiritismo. Acaso as mesas “pensassem” ou agissem por conta própria, ou quem sabe através de alguma força desconhecida da natureza, a mediunidade poderia ser, quem sabe, uma ciência física. Porém, conforme o próprio Kardec notou mais tarde, “não se experimenta com espíritos como se experimenta com pilhas voltaicas”.

Não somos, afinal de contas, nem mesas girantes, nem pilhas voltaicas, nem máquinas incapazes de ter vontade própria. Somos espíritos, temos vontade... Pensemos nisso, e cuidemos disso. Do contrário, outros cuidarão por nós.

***

» Veja todos os artigos do Projeto Entrementes

[1] A sequencia dos artigos desta rodada será: blog Diário do Adeptu (PH); blog Autoconhecimento e Liberdade (Peterson); blog O Alvorecer (Jeff); encerrando no blog Artigo 19 (Igor).

[2] Ver, por exemplo, a série “Para ser um médium”.

[3] Reuniões onde médiuns europeus supostamente levitavam mesas pouco acima do chão, e as faziam girar. Para Kardec, entretanto, era óbvio que existia um fenômeno inteligente por detrás, já que as mesas pareciam “responder perguntas”.

Crédito das imagens: [topo] Mike Agliolo/Corbis/Rafael Arrais; [ao longo] Divulgação (David Gilmour)

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4.5.12

Comentário: que é o efeito placebo?

Comentário das respostas da pergunta “que é o efeito placebo?”, parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori responderam a 7 perguntas sobre o tema. Para saber mais, leia a premissa da série.

[Raph] Há muitos anos, diariamente, dezenas de pessoas chegam a outrora desconhecida cidade de Abadiânia, uma pequena cidade com cerca de 13mil habitantes, fincada bem no meio do Brasil, no interior de Goiás. Já seria interessante saber o que tantos brasileiros vão fazer nesse “fim de mundo”, mas a grande maioria dos que chegam vêm na realidade de outras partes do mundo – principalmente dos EUA e Europa. Abadiânia é a cidade onde o médium brasileiro João de Deus realiza seus atendimentos com cirurgias espirituais (e, nalguns casos, físicas) que visam o auxílio na cura de doenças variadas, muitas das quais não têm tratamento conhecido na medicina convencional.

Discovery Channel, National Geographic e BBC foram alguns dos canais de TV estrangeiros, bastante conceituados, que já realizaram filmagens e documentários acerca de João de Deus. Apesar de ser relativamente conhecido no próprio país, ao ponto de ter sido chamado para auxiliar no tratamento de câncer do ex-presidente Lula, e também do ator Reynaldo Gianecchini, o médium é muito mais famoso fora do país, tanto que mereceu uma visita exclusiva de Oprah Winfrey, provavelmente a apresentadora de TV mais famosa do mundo.

Filmadas por todos os ângulos, as cirurgias físicas de João de Deus causam um misto de espanto e certa repudia. Certamente não é todo dia que vemos uma pessoa sem qualquer formação médica fazer incisões profundas na pele das pessoas com facas de cozinha, “raspagem” de catarata em olhos abertos (com o mesmo instrumento, tudo filmado), e inserções de tesouras pelo orifício nasal. Em estudo da Associação Médica Brasileira, ficou comprovado que tais cirurgias são reais, e que os tecidos extraídos e “raspados” dos olhos são inteiramente compatíveis com a fisiologia dos pacientes. Mas, a pergunta que fica é: tais cirurgias curam alguma coisa?

Um dos espíritos que supostamente incorpora o médium, parte da “equipe de médicos espirituais” que o auxilia nas cirurgias, já respondeu que “as cirurgias físicas não servem para mais nada que não para que o paciente efetivamente creia que está sendo tratado”. Para os pacientes que já tinham fé no tratamento, nenhuma cirurgia física era necessária [1]... Ou seja: o próprio espírito admite que se trata de uma “encenação” criada para que a mente tenha fé no tratamento. A mente, sem dúvida, parece ser o agente que mais importa, o catalisador dos efeitos placebo – e, dessa forma, da cura.

E esta parece ser a questão chave para nosso entendimento do que vem a ser o efeito placebo. Não adiante associá-lo a processos inconscientes do cérebro que terminam por auxiliar e efetivar a cura de doenças: isso é apenas o processo de cura natural, não o efeito placebo. O efeito placebo, exatamente por se tratar de um efeito, tem de ter uma causa, e acredito que quase todos concordem que essa causa passa pela mente quando esta possui a crença consciente de que um tratamento lhe fará bem. Mas, ainda neste caso, o mistério permanece: se é a mente que catalisa o efeito placebo de acordo com sua crença na própria melhora, o que exatamente catalisa a crença?

Essa última pergunta pode ter uma resposta um tanto quanto óbvia para os espiritualistas, mas para muitos materialistas (alguns dos quais que sequer creem que exista a mente) ela é uma questão muito estranha. Mas isso não os impede de continuar estudando objetivamente a questão...

Na UFRJ, a bióloga Rafaela Campagnolli, doutora em neurofisiologia, concluiu um estudo de como o cérebro processa imagens de interações sociais positivas. Na pesquisa, um grupo de 36 universitários saudáveis observou 60 fotos, sendo 30 de adultos e crianças interagindo e 30 de pessoas alheias umas as outras, embora estivessem próximas. Enquanto observavam, suas reações cerebrais e faciais eram medidas por eletroencefalograma (mede atividade elétrica neuronal) e eletromiograma (mede a atividade elétrica dos músculos):

“É fato que os cérebros dos voluntários reagiram diferentemente às imagens de cada grupo. Diante das fotografias com interações sociais positivas, ocorreu aumento da atividade neuronal associada às emoções, e do músculo do sorriso espontâneo (zigomático). Isso quer dizer que elas impactaram mais os voluntários, foram mais relevantes emocionalmente” – explicou Rafaela [2].

Esse tipo de estudo visa reforçar uma crença já ancestral: a de que as emoções positivas auxiliam na cura de doenças e reestabelecimento da saúde, ao passo que as emoções negativas podem facilitar enormemente a morte, mesmo que de forma indireta. Gilberto Ururahy, diretor-médico da Med Rio Check Up, do alto de sua experiência de mais de 60mil check ups de saúde, declara: “A prática demonstra que um quadro de emoções negativas conduz à depressão e a outros males. Um dos grandes avanços da psiquiatria foi identificar que o cortisol (hormônio relacionado ao estresse) elevado e crônico é um caminho natural para a morte. Por outro lado, a emoção positiva é a mola da vida” [3].

Portanto, nossa ciência, moderna a objetiva, têm somente demonstrado o que já sabíamos, subjetivamente e filosoficamente, ao menos desde que Hipócrates fundou a medicina, milênios atrás. São mesmo as nossas forças naturais que curam nossas doenças, e até mesmo por isso nenhum médico sério jamais pôde prometer a cura, apenas o tratamento. É apenas a nossa mente, auxiliada pelos diversos tratamentos, quem poderá se livrar da doença, e retornar a saúde. Mas, há algo de subjetivo em nossa mente que incomoda profundamente os materialistas objetivos: algo que não pode ser devidamente catalogado de forma exata, tal qual se cataloga a porcentagem de sucesso dos tratamentos da última droga contra a depressão [4]... O que seria esse espírito, essa alma, esse “eu” que parece ter um ânimo próprio, essa vontade de melhora?

Tim Cridland, também conhecido como Zamora, o Rei da Tortura, é um americano com pinta de roqueiro que parece ter uma boa resposta para tal questão. Desde pequeno, Tim era fascinado pelas histórias de faquires e homens santos da Índia, que podiam se deitar em tábuas de pregos sem sentir dor alguma, e sem causar sangramentos na pele. Sabe-se lá onde ele encontrou “cursos de faquir”, mas o que se sabe é que hoje, após décadas de prática e disciplina inimagináveis para um ocidental, Tim se tornou provavelmente o maior faquir do Ocidente, com um controle da própria mente que beira o sobrenatural. Num episódio dos Superhumanos de Stan Lee, uma série do canal a cabo History que explora pessoas com “poderes sobre-humanos”, vemos Tim perfurar o braço de ponta a ponta com espetos de metal, um dos quais ele enfia através da boca aberta, saindo pelo pescoço [5]. O mais incrível não é nem o fato de ele não sentir dor (o que é comprovado por análise neuronal ao longo do programa), mas sim o fato de ele não sangrar, nem uma gota, nem mesmo na gengiva que, todos devem saber, é uma das partes do corpo que sangram mais facilmente.

O que isso tudo quer dizer? Que devemos abandonar a objetividade da medicina moderna, junto com nosso ceticismo, e admitir que existem homens santos, espíritos e deuses? Não exatamente. Uma coisa não necessariamente leva a outra, e as crenças e descrenças não deveriam vir em “pacotes fechados” – ou cremos em todo tipo de espírito e na eficácia dos tratamentos espirituais e alternativos, ou não cremos em nada disso. Não! Você pode muito bem continuar ateu ou agnóstico em relação ao chamado mundo espiritual, e ainda assim admitir que certas coisas estranhas que provêm dele são, de fato, reais.

Na conclusão final do estudo da AMB sobre João de Deus, é dito que “nem a crença entusiasmada ou a descrença renitente ajudarão os pacientes ou o desenvolvimento da medicina”, e eu acredito que devemos refletir com muita seriedade sobre isso. Que importa se céticos como James Randi oferecem milhões para qualquer um que prove que é efetivamente um paranormal? Gente como Tim Cridland e João de Deus parece não conhecer ou não estar interessada no dinheiro dos “céticos a priori”, que fazem esse tipo de “show” exatamente por já crer que não existam paranormais [6]. Randi foi certamente útil em desmascarar dezenas de charlatões pelo mundo todo, mas há que se ter em mente que nem todos são charlatões, por mais estanho que isso possa parecer para uma mente racional.

Você pode achar que os fenômenos realizados por tais paranormais – o cirurgião espiritual e o homem imune à dor – é suficientemente raro e extraordinário, e que dificilmente acharemos coisa parecida no resto do mundo, de modo que a “raridade” não permite um estudo objetivo... Mas, não, eles não são assim tão raros quanto possa parecer a priori: para cada cirurgia realizada por João de Deus, milhares de outras são realizadas com igual ou maior eficácia (independentemente de serem cirurgias físicas, e a maioria não é), somente no Brasil, por médiuns que não se interessaram em se tornar fenômenos de mídia; para cada “agulhada” que Tim Cridland dá no próprio corpo, há centenas de faquires indianos praticando algo muito parecido, todo santo dia, e ainda não se viu sangue algum.

E, ainda assim, perto dos fenômenos da mente, tais fenômenos físicos são como a brisa que antecede a tempestade. No fundo, talvez tudo se origine de alguma mente, afinal: jamais poderemos conhecer a realidade ignorando tudo aquilo o que se passa, se passou, e que poderá passar, bem atrás de nossos olhos abertos... O efeito placebo, que diabo seria ele senão um efeito da mente, esta grande desconhecida?

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[1] A imensa maioria dos pacientes de João de Deus não passam por cirurgias físicas, e espera-se que elas sejam cada vez mais raras, já que apenas alguns dos espíritos que supostamente o incorporam defendem sua continuidade. Entretanto, não deixa de ser um fenômeno bastante estranho.

[2] O depoimento da Dra. Campagnolli foi retirado de uma matéria do O Globo de 25/12/2011 (O poder das emoções positivas – Caderno Saúde).

[3] Depoimento também retirado da matéria citada na nota acima.

[4] O que, em muitos casos, não nos traz resultados muito diferentes do tratamento com placebos.

[5] Não é tão horrível quanto parece, principalmente por não haver sangue, nem dor. Infelizmente só achei o episódio com áudio em inglês:

Poderíamos, quem sabe, inserir a legenda: Tim Cridland catalisando um efeito placebo em si mesmo, de modo que não sangre nem sinta dor. É óbvio que existem limites para a "magia" de Tim: uma agulha através do seu coração provavelmente o mataria na hora; Mas isso de forma alguma deveria diminuir nosso espanto em relação ao fenômeno, assim como nossa curiosidade genuína em procurar compreendê-lo.

[6] Neste meu artigo já relativamente conhecido, faço um contraponto entre as alegações de James Randi acerca do suposto “charlatanismo” do médium João de Deus, e o estudo estritamente científico da AMB sobre as cirurgias em si. Que cada um decida por si mesmo quem parece ter maior razão.


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Crédito das imagens: [topo] Heritage Images/Corbis (poster do século XIX anunciando as famosas pílulas da vida, supostamente criadas por Thomas Parr, que supostamente viveu até os 152 anos porque supostamente as tomava - um exemplo da extensão do efeito placebo na história recente); [ao longo] History Channel (trecho do programa sobre Tim Cridland)

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