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3.9.18

Chá com Abramelin

Quando a Wanju Duli aceitou meu convite para ser colunista deste blog, ela já estava bem no meio do chamado Ritual da Sagrada Magia de Abramelin, uma das práticas místicas mais minuciosas e demandantes do ocultismo (principalmente da maneira que está sendo conduzida). O texto que trago aqui é a introdução de um de seus blogs (e, acreditem, ela já teve muitos!), chamado Chá com Abramelin, onde ela vem nos trazendo resumos diários do Ritual. Eu raramente trago textos tão longos neste blog sem separá-los em várias partes, mas neste caso abrirei uma exceção. O texto foi originalmente publicado na Páscoa de 2018:


Enfim, o grande dia!

Nessa auspiciosa ocasião, dia da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. A gloriosa Páscoa!

Eis que Abraão, o Judeu, recomenda que se inicie a Sagrada Magia de Abramelin no primeiro dia após a Páscoa cristã ou judaica. Optei por iniciá-la após a Páscoa cristã, uma vez que estou mais conectada ao cristianismo.

Mas o que é a Magia de Abramelin? Por que resolvi iniciá-la? E quem sou eu, afinal?

São perguntas que merecem respostas consideravelmente longas, mas irei me esforçar para ir direto ao ponto. Raramente consigo fazer isso, uma vez que sou mais conhecida por minhas digressões. Ainda assim, me proponho a tentar.

Sempre gostei de religiões. Talvez meu problema seja amá-las demais. Na adolescência li muitos livros religiosos, como a Bíblia, Alcorão, Bhagavad Gita, Dhammapada, Tao Te Ching, dentre outros.

Por que eu precisava ter apenas uma religião? Eu amava todas, queria mergulhar em todas, até me afogar.

Aparentemente meu tempo aqui nesse mundo (meu Kronos), nesse plano, seria finito, teria um limite. Poderia ser uma boa coisa optar por uma direção de acordo com minhas inclinações.

Acabei me envolvendo mais com o budismo Theravada e com o catolicismo. Isso não me impediu de continuar admirando todas as outras religiões. Particularmente o hinduísmo e o judaísmo, que seria como uma mãe dessas outras duas.

Aos 13 anos me envolvi com leituras e práticas de ocultismo. Li e reli muitas das obras de Eliphas Levi. Foi ele que me ensinou a admirar o cristianismo, já que ele foi seminarista e teve muito contato com a teologia e a filosofia dessa religião.

Eventualmente ouvi falar da Operação de Abramelin e dos rumores do quanto ela era perigosa e difícil de realizar.

O que uma adolescente de 14 ou 15 anos faria com essa informação? Na época eu já havia lido algumas dezenas de famosos livros de filosofia, literatura, ocultismo e religião. Já havia testado algumas práticas e estava ansiosa por algo mais profundo, que não tocasse apenas a mente ou a carne, mas o espírito.

A perspectiva de essa magia ser árdua e um desafio à sanidade era imensamente atraente. Era um bônus que me tentava e me convidava.

Eu ignorei prontamente o aviso de que somente maiores de 25 anos deveriam realizá-la. Essa regra dos 25 anos aparentemente tem origem nos estudos da cabala.

Com 16 anos eu comecei a magia. Eu estava no último ano do ensino médio. Foi difícil conciliar meu tempo, mas eu estava determinada. Acordava todos os dias antes do nascer do sol, abria a janela, acendia a vela, rezava, lia a Bíblia. Fiz isso por seis meses, já que eu estava seguindo a versão francesa do grimório.

Aos 17 anos, perto do fim dos seis meses, resolvi que eu não era digna da presença do meu Anjo. Eu me transformei tanto com todo o rigoroso processo da magia, que eu simplesmente me sentia um verme diante da grandiosidade de Deus.

Por isso, clamei pela piedade do Altíssimo e declarei que eu não merecia que meu Anjo aparecesse. Eu ainda não estava preparada. Implorei, com a testa no chão, que Deus me permitisse prosseguir a magia por mais seis meses, pois eu senti que minhas rezas e minhas leituras bíblicas não foram fervorosas o bastante.

Sem intervalos, prossegui por mais um período de seis meses. Nessa época eu nada sabia sobre a versão alemã do grimório, que indicava um período de um ano e meio para a magia. Eu simplesmente senti que devia realizá-la por mais tempo.

No final de um ano, teve início a semana de ouro, que é a célebre semana de contato e conversação com o SAG e espíritos familiares.

Aquela semana, e particularmente o primeiro dia, foi a experiência espiritual mais profunda da minha vida até então, que cobriu meu rosto de lágrimas.

Eu não irei contar sobre ela ainda. Ao longo desse livro, explicarei um pouco do que aconteceu, o que vi, o que senti.

Mas eu não estou escrevendo esse livro só para falar do que aconteceu há 13 anos. Imagino que ao longo desses escritos irei acabar mencionando um pouco das minhas experiências passadas, para comparar com as atuais.

A meta principal desse blog, que irá se transformar num livro, será relatar cada um dos dias dessa operação, que irá durar um ano e meio ou mais.

Da primeira vez que eu a realizei, eu segui a versão francesa do grimório. Embora ela sugerisse seis meses de duração para a magia, eu a fiz em um ano.

Garanto com todas as minhas forças, e com todo o meu entendimento, que a magia funcionou. De uma forma muito mais impressionante do que eu esperava. Superou todas as minhas expectativas. Eu me tornei outra pessoa antes e depois de Abramelin.

Eu já li dois livros com relatos da realização dessa magia no ano passado e fiz resenhas de ambos: "After the Angel: an account of the Abramelin Operation" de Marcuz Katz e "The Sacred Magician: a ceremonial diary" de William Bloom (Georges Chevalier). Além desses dois livros, já li relatos na internet.

Os dois autores garantem que a magia deu certo e o Sagrado Anjo Guardião lhes apareceu. Um deles optou por usar os quadrados mágicos e o outro optou por não usar.

Mas há uma diferença entre dizer que a magia deu certo e que ela deu certo de uma maneira extraordinária. E, pelos relatos, ninguém sai dessa magia sem ser completamente transformado por ela.

Quem realiza a magia de Abramelin precisa estar disposto a dar tudo de si. É um tipo de morte. Somente quem a realiza compreende o que isso significa. Não é uma brincadeira.

Sabe o que significa se humilhar completamente diante de Deus dia após dia, por um longo tempo? Não fingir que se humilha, mas colocar a testa no chão e deixar o orgulho de lado. Suplicar, como um mendigo.

O orgulho é o maior obstáculo do ser humano. Foi pelo orgulho que caiu Lúcifer. No cristianismo esse é considerado o pecado mais devastador e a origem de todos os outros.

Não irei discutir aqui a origem de outros sistemas de magia que ressaltam o orgulho. Independente de eles possuírem seus méritos, não é disso que estou falando.

A magia de Abramelin é tida como um sistema de magia RHP, Right Hand Path, do Caminho da Mão Direita. Uma pessoa que não gosta de cabala, judaísmo, cristianismo, não acredita em Deus, não gosta de rezar e tem problemas em se humilhar diante de um Deus que está acima dela pode encontrar obstáculos para realizar essa magia.

Se ela estiver realmente determinada, poderá permitir que a magia a transforme. Ela pode fingir que acredita em tudo isso enquanto dura a magia e no final dela "voltar ao normal". Porém, eu sou da opinião de que realizar essa magia é um caminho sem volta. Não há como "voltar ao normal" após realizá-la, mesmo que você finja e se agarre ao seu eu e ao seu orgulho o máximo possível.

Não podemos julgar ninguém. Eu não posso julgar. Afinal, quem sou eu? Deus e seus anjos frequentemente escolhem os maiores pecadores para que sejam seus mensageiros. Afinal, ele não escolheu Paulo? Não escolheu Santo Agostinho?

Eu mesma (não que eu tenha muitos méritos), após o período de purificação da magia, não me considerei digna. Porém, os caminhos de Deus são misteriosos.

A magia de Abramelin me ensinou que Deus é maior do que qualquer magia e poder que se possa obter nesse mundo. Por isso, ironicamente, essa operação me afastou da magia e da busca por poder.

Tudo é pequeno: eu, dinheiro, poder, fama, imortalidade. Somente Deus importa, só ele é glorioso.

Nós, seres humanos, buscamos a verdade. "O que é a verdade?" perguntou Pilatos para Jesus. E Jesus ficou em silêncio.

Deus e seus mensageiros podem se comunicar conosco pelo silêncio se tentarmos ouvi-los.

No Velho Testamento há uma passagem em que Abraão recebe a visita dos três anjos (Deus toma a forma de um dos anjos? É os três? É a Trindade?). A passagem em que Abraão está para sacrificar seu filho Isaac também é poderosa, como nos lembra Kierkegaard em sua obra "Temor e Tremor".

Então por que eu preciso da magia de Abramelin se temos as grandes religiões, que já nos ensinam o bastante sobre a humildade diante de Deus?

Está aí uma boa pergunta. Por causa dela e pelas palavras de São João da Cruz, eu resisti fortemente a realizar essa magia nos últimos meses.

Nesses últimos anos estou muito envolvida com o catolicismo. No início de 2017 realizei um retiro de cinco semanas num mosteiro católico e no início desse ano repeti a dose.

Penso que exatamente devido a essa minha nova visão e vivência do cristianismo eu poderei realizar a magia de Abramelin de uma forma mais madura. Também por causa da minha idade, agora que já estou com 30 anos.

Aos 17 anos eu ainda possuía uma rebeldia e resistência juvenil ao cristianismo. Somente agora sinto que posso apreciar essa religião com o devido respeito que ela merece. Não porque todos os cristãos sejam santos, mas exatamente pelo motivo contrário: porque muitos deles são pecadores que possuem a humildade de reconhecer que não são perfeitos, em vez de recorrer à relativização do bem e do mal para chamar um pecado de virtude e assim igualar-se a Deus (voltarei a essa questão mais adiante no livro. Não nos precipitemos).

A magia de Abramelin trabalha com a noção de hierarquia: um conceito difícil para a mentalidade contemporânea. As palavras do filósofo católico Peter Kreeft ainda ecoam na minha mente. Em seu livro "Angels (and Demons): What Do We Really Know About Them?", ele escreve:

"'De acordo com a angeologia, anjos supostamente formam uma hierarquia. Por quê? Isso não é apenas uma projeção das políticas monárquicas medievais?'"
E a resposta:
"A noção alternativa de que anjos são iguais poderia também muito bem ser uma projeção das nossas políticas igualitárias modernas"

O motivo de a magia de Abramelin ser difícil não é só porque ela exige uma enorme disciplina. Evidentemente não é fácil manter uma operação por um ano e meio, acordando todos os dias antes do nascer do sol para rezar e ler a Bíblia.

Ela é difícil principalmente porque nós vivemos numa cultura que rejeita o cristianismo (e, por tabela, o judaísmo) como algo antiquado, preconceituoso e ultrapassado. Mesmo na Idade Média rezar e ler/escutar a Bíblia eram consideradas atividades penosas. Hoje em dia, com tantas opções de entretenimento e com tantas alternativas mais fáceis de espiritualidade para seguir, que exigem menos sacrifícios e resultados mais rápidos, por que alguém ainda tentaria fazer a magia de Abramelin?

Muitos se sentem atraídos para ela por sua fama espinhosa. Eu também fui chamada a ela por esse motivo. Mas em algum momento da travessia as coisas mudaram. Passei a acreditar no valor da penitência e do sacrifício como caminho espiritual válido. Entendi que simular os sofrimentos da vida num formato ritualístico nos faz entender que a dor não existe por acaso, mas possui o papel de nos elevar ao divino.

O autor alerta que não se deve realizar essa magia por motivos frívolos, como para se exibir, buscar fama ou poder. Da primeira vez que eu a realizei eu não a fiz por fama, já que eu não fiz relatos dela e a realizei no silêncio. Sequer tomei notas diárias para uso pessoal. Digamos que a fiz por curiosidade e busca de poder, embora a busca de poder tenha se perdido um pouco no meio do caminho.

Dessa vez eu confesso que resisti a fazer um diário da operação. O meu diário poderia ser interpretado como uma tentativa de exibição, busca de fama ou até causar isso. Sempre há esse perigo. Eu sou apenas humana.

Porém, me mirando no exemplo de autores como William Bloom, e porque algumas pessoas ao meu redor estão interessadas no meu relato, resolvi ceder. Também acho que poderei me beneficiar disso.

Eu não me considero uma pessoa humilde. Falo frequentemente sobre o número de livros que já li ou a quantidade de horas que aguento fazendo meditações. Eu me envergonho disso e continuo repetindo essas coisas supérfluas. "O que raios tem de errado comigo?" eu me pergunto. "Mas que diabos?"

Provavelmente esse é um forte motivo de eu ter me sentido atraída pelo cristianismo e pela magia de Abramelin. Eu entendi que eu era uma pessoa muito orgulhosa. Eu precisava aprender a humildade, me humilhar diante de Deus.

Ainda sou uma principiante nisso. Então, em primeiro lugar, deixarei algo bem claro.

Eu não sou melhor do que ninguém por já ter realizado essa magia e por realizá-la pela segunda vez agora. Também não sou melhor do que ninguém pelas minhas meditações, suposto conhecimento e prática de budismo, cristianismo ou qualquer outra coisa parecida.

A vida me mostrou que não são essas coisas que medem o valor de uma pessoa. Você pode ser ateísta, pode não saber ler ou escrever, pode nunca ter meditado, não saber nada sobre Deus, mas entender sobre amor, amizade, confiança, lealdade, esperança e muitas outras coisas. Mostrar isso nos olhos, no sorriso, nas palavras, nas ações. Até no silêncio.

Sou uma aprendiz lenta. Uma estudante que acredita que entendeu, sentiu ou viu alguma coisa, somente para colocar o rosto no chão pela milésima vez e repetir: "eu não sou nada". E envergonhar-se por não ser capaz de dizer isso do fundo do coração. Pois continuo me achando alguma coisa.

Porque eu ainda acho que sou alguma coisa pode sugerir que não conheço meu Anjo e sou uma mentirosa. Sinto que repetir essa operação irá me ajudar a transformar-me em pó com mais rapidez do que se eu confiasse meramente na minha prática sem a disciplina da operação.

"Pois tu és pó, e ao pó retornarás" (Gn 3:19)

Esse será um relato longo. Haverá dias em que terei mais tempo e estarei inspirada. Nessas ocasiões derramarei meu coração, falarei o que sinto, descreverei em detalhes o que fiz.

Por outro lado, haverá dias em que mal terei tempo para rezar e ler a Bíblia e simplesmente escreverei poucas linhas dizendo: "Informo que rezei por tantos minutos e li tantas páginas", sendo bem objetiva.

Em alguns dias terei vontade de contar mais sobre meu dia e minhas práticas. Em outros optarei por não contar tantas coisas. Não porque eu tenha algo a esconder, mas é claro que meu humor e disposição mudará naturalmente. Sentirei que algo é adequado ou relevante contar, enquanto outras coisas nem tanto.

Algumas pessoas optam por se isolar durante o período da operação, enquanto outras não. Eu até possuiria tempo e vontade para me isolar durante um ano e meio e me dedicar completamente, de corpo e alma, à magia de Abramelin, da forma que está descrito no livro.

No entanto, eu não desejo fazer isso agora e acho improvável que eu deseje em algum momento da minha vida. Não sei sobre o futuro, mas eu tenho outros planos agora e sinto que é uma época relativamente adequada para conciliar minha rotina com essa magia.

Não é a melhor época possível, mas não quero ser uma perfeccionista. Alguns se dão bem com perfeccionismo. Por um lado ele pode ajudar a fazer uma operação bem feita. Por outro, ele pode ser o motivo para postergar a operação até que supostas condições ideais, que nunca chegam, sejam atingidas.

Da primeira vez fiz a operação num impulso. Comprei o livro, li algumas vezes e em seguida comecei. Dessa segunda vez não foi tão diferente assim. Comprei a nova tradução do Steven Guth, li o livro, reli algumas partes, fiz a encomenda do óleo e do incenso e aguardei até a Páscoa. Ou seja, hoje.

É emocionante estar recomeçando essa operação. Heráclito disse que nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio, pois tanto o rio quanto o homem serão diferentes. Nesse caso devo interpretar isso o mais literalmente possível, já que irei realizar a versão mais longa da operação dessa vez e já que mais de 13 anos se passaram.

Como estou longe de ser perfeccionista, irei adaptar várias partes da operação. Realizarei diversas mudanças que alguns magistas conservadores podem considerar comprometedoras. Não acho que eles estejam errados e eu sinceramente defendo que, quando possível, deve-se seguir as sugestões do livro o mais literalmente e fielmente possível.

Porém, quando a escolha se encontra entre realizar a magia com mudanças ou não realizá-la até que as condições ideais sejam alcançadas, eu geralmente defendo que não se espere muito. Aguarde alguns meses ou anos se necessário, se você sente que será melhor. Mas depois vá em frente. Não tenha medo. Na Bíblia há diversas passagens em que Deus escolhe profetas que se sentem completamente despreparados, mas Deus insiste para que eles tenham fé e sigam em sua missão, da forma que conseguem.

Se você se sente chamado por Deus para fazer essa magia, se sente que é o momento, realize-a. Mas sempre com respeito e comprometimento.

Irei explicar o trabalho que irei realizar nos primeiros seis meses.

Todos os dias, a partir de amanhã (ou hoje, porque já é madrugada), devo acordar 30 minutos antes do nascer do sol. Assim que acordar, lavarei minhas mãos e rosto, irei rezar e ler a Bíblia. Depois do pôr do sol repetirei a reza e a leitura.

O ideal é que eu leia 1h da Bíblia e livros espirituais pela manhã e 1h pela tarde. E que realize uma reza consideravelmente longa.

Na vida real, para evitar brigas e situações em que eu interfira na vida das pessoas ao meu redor, haverá ocasiões em que falharei em cumprir plenamente os termos dessa magia. Quando eu falhar em cumprir o mínimo necessário que me comprometi a fazer no dia, realizarei uma penitência leve, como repetir a reza e a leitura em outro horário ou acrescentar uma atividade espiritual adicional.

Pode ser que eu realize algum retiro num mosteiro em julho e agosto, e também em janeiro e fevereiro. Se isso ocorrer, tentarei continuar a magia por lá. Se eu não conseguir, acrescento meses adicionais na duração da magia para compensar.

Farei o possível para não interromper essa magia e para levá-la até o final. Existe a chance de eu me envolver a tal ponto com o catolicismo que considere a magia de Abramelin como uma busca de poder e visões místicas que não são dignas da humildade que se deve a Deus por si mesmo. Claro que o melhor é crer em Deus sem pedir por poderes ou visões de anjos. Devemos apenas amá-lo e ter fé. Mas como somos fracos, a visão e conversação com o anjo pode ajudar a aumentar a fé de alguém fraco.

É provável que algumas pessoas considerem realmente supérfluo o fato de eu realizar essa magia e mais supérfluo ainda relatá-la. Porém, em respeito a quem a realizou, pretende realizá-la e aos que tornaram públicos seus relatos, me recuso a colocar a questão dessa forma.

Não acho que muitas pessoas irão acompanhar o meu relato, pois irei escrever muito, será algo longo. Pode ser que alguns desistam no meio do caminho, por me considerarem arrogante, por não acharem que meu relato é interessante ou por qualquer outro motivo.

Sim, haverá momentos monótonos em que você apenas irá escutar: "Hoje de manhã rezei para meu anjo por quinze minutos e li quatro páginas dos Atos dos Apóstolos". Infelizmente haverá dias em que não terei tempo e energia de contar algo mais interessante que isso e peço desculpas de antemão pela minha fraqueza.

Mas realizar essa operação também promete momentos memoráveis, de emoção, lágrimas, sonhos, recordações, reflexões. Tudo isso perdido em meio a palavras repetitivas. Pois estarei vivendo tudo no meu corpo, sentindo tudo: a exaustão e a energia súbita que nasce quando me sinto completamente esgotada e sinto que já chega. Quando acho que tudo está perdido e peço por piedade. Parece dramático, mas é a realidade de ousar conciliar uma rigorosa operação do espírito com a vida exigente desse mundo.

Porque deverei acordar mais cedo que de costume toda manhã, meu sono será prejudicado. Acabei de sair de uma restrição de chocolates e doces por causa da Quaresma. Pretendo realizar mais alguns jejuns no decorrer da magia. Em 16 de maio começará o Ramadã, ocasião em que colocarei novas restrições para acompanhar os muçulmanos.

Nos seis meses seguintes da magia, as restrições aumentam cada vez mais, mas depois falamos disso. Darei um passo de cada vez.

Com a graça de Deus, confiando completamente em seu poder (porque por minhas forças não sou capaz de dar sequer um passo), que a operação se inicie. Não me sentirei intimidada pelo nome "magia", já que, com exceção de alguns passos finais, a maior parte da operação é puramente religiosa e piedosa: rezas, leituras espirituais, caridade e penitências.

Sinto um grande fervor agora. Mas fervor é algo que vem e vai. Hoje estamos felizes, amanhã estamos tristes. Hoje estamos dispostos, amanhã preguiçosos. Essas coisas simplesmente não importam. Devo apenas obedecer e confiar, sem olhar para trás como a esposa de Ló. Afinal, um poder maior que eu me guia e não dependo da minha própria força. Nada disso será mérito meu. Assumirei somente meus erros.

Talvez eu tenha medo de falhar no meio do caminho, mas Deus nos convida a não ter medo. Não precisamos dar satisfação para as pessoas, mas para Deus.

Na Bíblia, cada vez que um anjo aparece ele diz: "Não tenha medo". Isso porque anjos são assustadores. Eles são todo amor, mas também inspiram reverência e temor. Principalmente para quem não tem amor o bastante em si para julgar-se digno dessa presença magnífica. Eles estão sempre na presença de Deus. Eles viram o rosto de Deus.

Medo, sensação de vertigem, emoção diante do sagrado. Meu coração acelerou muito agora. Com a lembrança, com tudo. Até mesmo tremi.

Acordarei às 5:30 para que na primeira hora litúrgica eu esteja diante do altar, diante do silêncio de Deus e de seus santos anjos. Quem é digno disso? Ninguém nesse mundo.

Wanju Duli é escritora – Contato: facebook.com/WanjuDuIi

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Crédito da imagem: Google Image Seacrh

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