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18.12.19

Jesus e Buda viviam na multidão

Qual é a melhor: a vida ativa ou a vida contemplativa? O simbolismo dessa pergunta está presente na história de Maria e Marta. Falo um pouco mais sobre isso aqui.

A resposta politicamente correta, a resposta mais bela e que vai agradar mais a todos é dizer simplesmente: um caminho não é melhor que o outro; um precisa do outro, um se alimenta do outro. Ninguém é completamente ativo ou completamente contemplativo. Os dois são importantes e cada pessoa se inclina um pouco mais para um ou para outro, conforme seu coração se sinta chamado, ou Deus te chame.

Eu concordo com essa resposta. Não vejo nada de errado nela. Não acho que discutir essa questão em termos de melhor ou pior vá trazer benefícios, mas disputas desnecessárias.

Porém, se buscamos alguma clareza para investigar nosso próprio caminho e inclinações, quem sabe ajude refletir um pouco sobre tudo isso.

A tendência da época em que vivemos é sermos mais ativos do que contemplativos. Mas as pessoas estão tão estressadas e cansadas que encontram uma cura em atividades como meditações. Assim, elas encontram um equilíbrio e descobrem que meditar alguns minutos por dia na verdade as tornam ainda mais produtivas na vida ativa.

Esse também é o valor de se ter períodos de lazer e de descanso. Não é apenas um grande número de horas de ações, sem intervalos, que vai te tornar mais produtivo. Madre Teresa costumava dizer que desde que se adicionou uma hora diária de Adoração Eucarística para as irmãs, as Missionárias da Caridade, tudo se tornou melhor e mais leve, e parecia que havia ainda mais tempo para as outras coisas.

Dependendo do meio em que você está, a tendência é se defender mais a vida ativa ou mais a vida contemplativa. Como já foi dito, no período em que vivemos há um grande foco em ser “Marta”, em ser ativo ou “produtivo”. Por outro lado, se você está num mosteiro ou falando de espiritualidade em geral, é comum se focar na importância de períodos de silêncio e solidão.

Onde podemos buscar uma resposta, então? Podemos observar como Jesus e Buda viveram.

Jesus passou a maior parte de sua vida “escondido”. Não sabemos quase nada sobre os primeiros 30 anos de sua vida. Mas sabemos que logo antes de iniciar sua vida pública, ele fez um jejum por 40 dias no deserto.

Depois disso, ele passou a maior parte dos próximos 3 anos de sua vida ensinando, junto com a multidão. Mas mesmo nessa época mais agitada e ativa de sua vida, ele sempre se recolhia em alguns momentos do dia para rezar.

Disso talvez possamos concluir que a parte mais importante da vida de Jesus foi sua vida pública. Mas ela não se iniciou antes de uma grande preparação contemplativa. E mesmo na época pública, Jesus tinha seus momentos de contemplação.

Buda, assim como Jesus, passou os primeiros 29 anos de sua vida com sua família, tendo uma vida normal. Foi somente depois disso que ele iniciou sua etapa contemplativa. No caso de Jesus, ela durou 40 dias. No caso de Buda foram em torno de 4 ou 5 anos, até ele atingir a iluminação.

Conforme nos conta a história, o demônio Mara tentou convencer Buda a continuar meditando para sempre após atingir a iluminação, porque os olhos das pessoas estavam cheios de poeira e elas não iriam entender seus ensinamentos. Porém, por mais que fosse confortável continuar ali meditando e guardar tudo aquilo para si, Buda replicou para Mara: “algumas pessoas vão entender”.

Buda levantou-se e passou as próximas décadas de sua vida, até os 80 anos, vivendo com a multidão. Ele ensinou tanto para seus discípulos, os monges, como para o povo e para os reis. Da mesma forma que Jesus ensinava tanto para os apóstolos como para o povo.

Buda também alternava períodos de vida ativa com uma vida contemplativa. Na estação das chuvas ele e seus discípulos permaneciam num único lugar e passavam esse tempo focando-se nas meditações.

Enquanto Jesus passou por 40 dias de vida exclusivamente contemplativa seguidos por 3 anos de vida predominantemente ativa (com momentos de contemplação a cada dia), Buda passou por 5 anos de vida exclusivamente contemplativa, seguidos por cerca de 45 anos de vida predominantemente ativa (com períodos de meditação todos os dias e cerca de 2 meses de retiro por ano, na estação das chuvas).

Eu acredito que a vida dessas duas figuras extraordinárias nos mostra a importância da vida ativa. Porém, também nos mostra um detalhe fundamental: o quão relevante é termos um período exclusivo e intensivo de retiro, de vida contemplativa, antes de mergulharmos numa etapa mais longa de vida ativa. E como é imprescindível, mesmo em meio à vida ativa, termos um período a cada dia para contemplação. E, a cada ano, reservarmos alguns dias ou semanas para uma contemplação um pouco mais longa, pois isso nos alimenta, nos fortalece.

Essa contemplação pode se dar de muitas formas: meditação, oração, solidão, silêncio, leituras espirituais ou alguma outra maneira que nos inspire.

A importância da contemplação não é apenas descansar, mas nos conectar com o sagrado, dentro e fora de nós. Também é um período de reflexão.

A importância da ação é nos voltarmos para o mundo, para as outras pessoas, e trocarmos experiências, na forma de palavras e vivências. Cada um vai descobrir a sua forma única de fazer isso.

Wanju Duli é escritora – Contato: facebook.com/WanjuDuIi

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Crédito da imagem: Bijoy Thomas

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15.10.19

A cultura de jamais sentir dor

Uma das coisas que mais me impressiona no cristianismo é o valor dado à prática das penitências: jejuns, vigílias, orações, esmolas, peregrinações, autoflagelação, etc. Algumas ainda são feitas por cristãos hoje em dia, enquanto outras já não são tão aceitas ou estão simplesmente fora de moda. Nesse post eu falo mais sobre a prática das penitências, incluindo as realizadas nas religiões indianas.

Atualmente há uma maior valorização das penitências, como jejuns, por razões de benefício à saúde ou questões estéticas (obter massa muscular ou emagrecer). Isso se deve a um maior culto ao corpo do que ao espírito.

É verdade que a saúde e a beleza também são importantes e elas foram valorizadas nas mais diferentes sociedades e épocas, como na Antiguidade Clássica. Cristo nos mostrou a importância do corpo ao vir a esse mundo como ser humano. Ele também curou muitas pessoas, indicando que devemos ajudar os outros tanto no corpo quanto no espírito.

Sendo assim, o fato de nos sentirmos belos e felizes com nosso corpo, e também saudáveis, sentindo menos dor e com a possibilidade de desfrutar os prazeres da vida, que Deus nos deu, é realmente uma bênção. Todas essas coisas devem ser buscadas e não devem ser condenadas.

O cristianismo não é uma religião contra o prazer, mas mostra que devemos adorar, acima de tudo, o Criador e não a criatura. O que isso significa?

Se Deus existe e criou o mundo, significa que deve haver um sentido para o sofrimento. Mesmo que não seja ele o criador do sofrimento, o fato de ele permiti-lo deve ter um significado.

É fato que a dor existe. Ela jamais poderá ser completamente eliminada desse mundo. Desde desconfortos físicos até sofrimentos mentais, ela acontece em diferentes intensidades ao longo da vida, por mais que nos esforcemos para evitá-la.

Então o primeiro passo é aceitar a existência da dor. Não nos fará nenhum bem fugir dela o tempo todo e jogá-la para baixo do tapete, fingindo que ela não existe. O mesmo deve ser dito sobre a morte: ela ocorrerá em algum momento conosco e com as pessoas ao nosso redor. Por isso, dor e morte devem ser abordadas e aceitas de modo sincero, desde o começo.

Os cristãos dizem que se houvesse outra forma melhor de viver, evitando a dor e a morte, Jesus teria nos mostrado. Pelo contrário, Jesus nunca optou pelo caminho mais fácil. Ele fez um jejum de 40 dias no deserto logo antes de começar sua vida pública, para enfrentar de frente o diabo. E ao longo dos anos seguintes descansava pouco e seguia ajudando as pessoas, ensinando, curando, dando esperanças. Ele não fugiu da morte e muito menos de uma morte cheia de dor e humilhação.

O que isso nos mostra? Como será que devemos viver? Será que devemos passar nossa vida buscando confortos o tempo todo e sempre fingindo que a dor e a morte estão distantes de nós? Se não treinarmos formas de lidar com elas, quando elas acontecerem não estaremos preparados.

Por isso é importante para muita gente ter uma religião: religiões são muito boas não somente em lidar com os problemas do dia a dia, mas ir mais fundo. Uma religião vai para a raiz do problema do sofrimento, como o budismo, que diz de forma clara: “A vida é sofrimento”. Buda não tenta embelezar a verdade, mas mostra as coisas como elas são.

É verdade que na vida podemos ter muitas alegrias, mas também teremos muitas dores e o final da nossa história e da história de todo mundo não é exatamente um final feliz. Nosso final é a morte. O único motivo para não ficarmos tristes com isso é se descobrirmos que esse não é realmente o fim da história.

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27.8.19

A espiritualidade de Sócrates

Hoje acreditamos que filosofia e espiritualidade são coisas diferentes, campos distintos. Mas segundo o filósofo francês Michel Foucault, como discutido em seu livro A Hermenêutica do Sujeito, na Antiguidade essas áreas eram mais permeáveis entre si.

Neste texto, veremos o caso de Sócrates. Como todos já devem saber, o pai da filosofia foi condenado à morte acusado de “corromper a juventude”. O que sabemos na verdade, segundo os relatos de Platão, é que Sócrates era um sujeito bastante incômodo em Atenas.

Sócrates perambulava pelas ruas da cidade questionando o que as pessoas pensavam ser a verdade sobre a justiça, sobre o bem, sobre a fortuna, e por aí vai. Após uma série de indagações que demonstravam o desconhecimento mais profundo do seu interlocutor sobre estes temas, os cidadãos de Atenas saíam aborrecidos, queixando-se da atividade do filósofo.

Porém, o objetivo de Sócrates não era simplesmente perturbar as pessoas. Vejamos o que ele mesmo diz em sua defesa durante seu julgamento:

"Que tratamento, que multa mereço eu por ter acreditado que deveria renunciar a uma vida tranquila, negligenciar o que a maioria dos homens estima, como fortuna, interesse privado, postos militares, sucesso na tribuna, magistraturas, coalizões, facções políticas? Por oferecer a cada um de vós em particular, aquilo que declaro ser o maior dos serviços, buscando persuadi-lo a preocupar-se menos com o que lhe pertence do que com sua própria pessoa, de pensar menos nas coisas da cidade do que na própria cidade, em suma, de aplicar a tudo esses mesmos princípios?”

De maneira simples, Sócrates se defendeu da acusação de ser um corruptor da cidade dizendo que seu objetivo era tentar convencer as pessoas a se dedicarem antes aos interesses de si mesmas que aos interesses da cidade (como adquirir riquezas, cargos e propriedades).

Não surpreende que não tenha convencido a ninguém em sua defesa. Sócrates de fato corrompia os valores atenienses. Ele questionava os valores que moviam os cidadãos em busca de dinheiro, fama e status, e lhes queria convencer a cuidar mais de suas próprias almas. Segundo Foucault, Sócrates iniciou assim a longa tradição ocidental do cuidado de si mesmo.

O que é o cuidado de si?
Cuidar-se de si significa formar-se como sujeito. Constituir uma relação consigo mesmo, definindo valores, identidade e assumindo regimes de verdades. É cuidar de sua própria alma, acreditando que há uma verdade nesse cuidado que pode nos conduzir a viver melhor. Ocupar-se consigo antes de se preocupar com as demandas da cidade. Isso é o que chamamos também de espiritualidade.

Sócrates se colocava na pólis como um guia espiritual. Ao ocupar-se dos outros, Sócrates era conhecido por constantemente não se ocupar consigo mesmo. Ele mesmo diz em seu discurso que negligenciou os bens em sua vida, não adquiriu fortuna, recusou vantagens cívicas e renunciou a qualquer carreira política, nem pleiteou cargo de magistratura para poder ocupar-se dos outros. De certo modo, Sócrates encarna a figura do terapeuta que traz o remédio aos males do outro, mas não pode tratar a si mesmo.

Sócrates encarnava a figura do mestre, que é uma figura essencial para o cuidado de si. Pois o cuidado de si tem sempre a necessidade de passar pela relação com um outro. Não por acaso procuramos ainda hoje psicólogos para tratar de nossa saúde mental (ou deveríamos). Também por isso a ideia de “autoajuda” é tão falha. Existe uma impossibilidade no trabalho solitário de si.

Porém, diferente de um professor, o mestre não é aquele que ensina aptidões e capacidades a quem ele guia. O mestre não ensina alguém a se comportar melhor ou prevalecer sobre os outros. O mestre é quem cuida do cuidado que o sujeito tem de si mesmo. Não cuida do discípulo, mas do cuidado que o discípulo tem para consigo. Aqui há a similaridade com a moderna figura do psicanalista, que não diz ao seu cliente como viver, mas faz ele refletir sobre sua maneira de viver.

Quando interpelava os jovens na rua, Sócrates lhes dizia: “é preciso que cuideis de vós mesmos”. Tal ato, mais do que a excentricidade de um velho, representa um acontecimento na história do pensamento ocidental. Pois do exercício filosófico de “conhecer a si mesmo para cuidar de si” de Sócrates, ao ascetismo cristão, chegando até mesmo às modernas formas de psicoterapia, centenas de anos de evolução do pensamento acontece, onde o denominador comum é a máxima que devemos cuidar de nós mesmos.

A espiritualidade do cuidado de si
Desde os antigos textos clássicos da filosofia às modernas receitas de autoajuda, das diferentes práticas de vida aos discursos terapêuticos, o princípio do cuidado de si aparece convertido em uma série de fórmulas como: sentir prazer consigo mesmo, ter cuidados com sua saúde, buscar a felicidade somente em si, encontrar a companhia de si mesmo, ser seu próprio amigo, estar em si como numa fortaleza, respeitar-se etc.

A ideia de que muitas vezes não podemos mudar o mundo, mas podemos transformar a nós mesmos, e ao mudar nossa própria conduta numa reforma íntima podemos viver de uma maneira diferente – talvez mais plenos, talvez mais felizes – é a base das terapêuticas que conduzem a transformações espirituais.

A espiritualidade é a relação com uma verdade que transforma. Não por acaso Sócrates estava tão obstinado em encontrar a verdade. Em qualquer caminho espiritual, a verdade nunca está em posse do sujeito. Temos uma relação de desconhecimento com a nossa existência. Não sabemos a priori nossa razão de ser. Para encontrar uma resposta a esta questão, não podemos fazer por um simples ato de conhecimento. A verdade sobre a vida não pode ser acessada com a simplicidade de apenas ler a bula de um medicamento.

Toda doutrina filosófica e espiritual exige que o sujeito se modifique, se transforme, se desloque, torne-se outro que não ele mesmo, para ter acesso à verdade. Na espiritualidade cristã, é morrer e renascer em Cristo. Em outras tradições, é o contínuo processo de elaboração na reforma íntima espiritual.

Pois o que está em jogo na espiritualidade é um trabalho, no sentido mais hegeliano do termo. A espiritualidade se define mesmo pelo modo no qual o sujeito deve se transformar na ascese para alcançar algo de uma “realização subjetiva”.

Um Sócrates espiritual
Sem querer estender muito além da questão socrática, concluímos este texto não para defender um Sócrates místico acima do filósofo, mas para sinalizar que essas dimensões não andavam separadas na Filosofia Antiga. Mais do que isso, Sócrates não é apenas o pai da filosofia ocidental, mas o precursor do modo como entendemos e praticamos a espiritualidade.

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Google Image Search

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8.8.19

Como o taoismo lida com o sofrimento

Como toda forma de espiritualidade antiga, o taoísmo apresenta a sua própria proposta terapêutica. E com terapia nos referimos aqui às estratégias para lidar com o sofrimento e encontrar um alívio para ele, ou até mesmo desenvolver um sentimento de paz interna.

Na perspectiva taoista, o sofrimento advém da comparação. Quando passamos por alguma experiência negativa, algo que podemos considerar como relativamente comum à vida, nos comparamos com os outros, com a vida e experiências de outras pessoas, ou até mesmo nos comparamos com a nossa própria vida e experiências de outros tempos.

Tomados em comparação, nos sentimos numa posição inferior aos os demais. Os taoistas chamam isso de sentir a humilhação. Quando nos sentimos humilhados, podemos nos crer injustiçados, pior que os demais, infelizes e amaldiçoados com uma má sorte. Este é o estado de uma consciência em sofrimento.

Mas a comparação não revela apenas o sofrimento. Se conseguimos pensar que, por pior que seja o nosso problema atual, talvez haja no mundo problemas piores e pessoas com um sofrimento maior, veremos a quão injusta age a nossa consciência.

Por exemplo, você pode se sentir terrivelmente injustiçado porque seu negócio faliu enquanto outras pessoas prosperaram. Mas se você pode contar com o fato de que ainda lhe resta o apoio familiar e de amigos, quando há pessoas numa condição de abandono total, talvez você perceba que a sorte não está completamente contra si.

Para o taoísmo, a sorte é sempre mais complexa do que julga a nossa consciência.

Há a história de que um mestre taoista que viajava com seu discípulo pelo interior da China quando encontraram uma família muito pobre. A família foi muito receptiva com os viajantes, mas seus membros se vestiam de forma maltrapilha, faltava comida para os filhos e a casa dela estava praticamente caindo aos pedaços.

O mestre perguntou ao pai da família como eles se sustentavam, ao que ele respondeu: “Está vendo a vaca ali fora? Dela tiramos o leite que consumimos e fazemos queijo. O pouco de leite que sobra, trocamos por outras mercadorias na cidade. Ela é nossa fonte de renda e de vida. Conseguimos viver com o que ela nos fornece.”

No dia seguinte, pouco antes de partir, o mestre ordenou ao discípulo que lançasse a vaca de um precipício. O discípulo não compreendeu a ordem do mestre, pois iria matar a vaca, a única forma de sustento daquela pobre e sofrida família. Mas, pela hierarquia, cumpriu a ordem assim mesmo.

Alguns anos mais tarde, ainda sentindo o remorso do que fez, o discípulo voltou a visitar aquela região e se surpreendeu com o que encontrou. Havia ali agora uma bela casa ali, a família estava bem vestida e já não faltava mais comida.

O discípulo quis saber o que aconteceu, e o pai da família respondeu: “Depois daquela noite que vocês estiveram aqui, nossa vaquinha caiu no precipício e morreu... Como não tínhamos mais nossa fonte de renda e sustento, fomos obrigados a procurar outras formas de sobreviver. Descobrimos muitas outras formas de ganhar dinheiro e desenvolvemos habilidades que nem sabíamos que éramos capazes de fazer.”

A lição dessa história taoista é clara. Quando sofremos uma perda, nos sentimos injustiçados porque estamos conformados com uma determinada posição em nossas vidas. Mas a perda também faz com que nos movemos, tentemos encontrar novas soluções, e às vezes é necessário perder para ganhar mais à frente. A sorte é sempre mais complexa do que aparenta à nossa consciência conformada.

Portanto, a terapêutica taoista se baseia no caminho do reconhecimento e da gratidão pelas coisas que acontecem em nossa vida, mesmo quando não as compreendemos bem.

Porém, é claro que há uma dificuldade em nos sentirmos gratos pelas coisas que nos causaram sofrimento. Nossa tendência é se rebelar contra o que nos fez sentir mal. Ninguém se sentiria contente ao perder sua vaca. Mas o que taoísmo nos ensina é que a gratidão deve ser, antes de tudo, uma prática de libertação.

Quando não conseguimos nos separar das coisas que nos causaram sofrimento, elas continuam presentes em nossa consciência, gerando novos sofrimento. Este é o ressentimento. Imagine se aquela família tivesse desistido de tudo após perder a vaca e passassem todos os dias apenas pensando no que perderam. Para não continuar carregando o sofrimento conosco, precisamos nos libertar dele, aceitando o seu lugar em nossa vida e criando novos caminhos para a nossa existência.

A terapêutica taoista nos ensina a aceitar o sofrimento sem culpa, e fazer disso algo melhor a cada dia.

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Teresa Vega/Unsplash

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18.7.19

A filosofia pode ser terapêutica?

Segundo os pensadores do período helenístico, sim.

Na verdade, a filosofia naquela época era diferente de como a praticamos hoje. Se na filosofia moderna o conhecimento filosófico é ensinado como um discurso nas universidades, dedicada a tentar resolver os problemas da natureza do conhecimento – por exemplo, racionalismo versus empirismo, materialismo versus metafísica, objetividade versus subjetividade – na antiguidade clássica os filósofos viam a própria filosofia como uma “forma de viver”.

Ou seja, os filósofos estavam preocupados com os problemas da ética. E com ética eu não me refiro a moral. Não se tratava de simplesmente descobrir o “comportamento correto”, tal como seria numa moral religiosa, seja cristã, judia, budista ou qualquer outra.

A ética se refere ao modo como nos relacionamos com as coisas do mundo, com as outras pessoas e até mesmo com nossos próprios desejos. É muito mais um exercício a ser desenvolvido que uma norma a ser seguida. É neste sentido que a ética, numa concepção helenista, se aproxima do que hoje entendemos como o campo da psicologia, ou melhor, das psicoterapias.

Uma psicoterapia é também uma forma de pensar a maneira como nos relacionarmos com nossa vida, repensar nossos investimentos e cuidar daquilo que nos faz sofrer. Toda terapia – independente de sua abordagem – segue um ideal ético, ainda que cada terapia tenha a sua própria ética.

O terapêutico é a maneira como lidamos com o sofrimento, e para os helenistas, o sofrimento não é por acaso. Ele tem origem em nosso pensamento. Isto é, seja por pensamentos incorretos, raciocínios distorcidos ou modos patológicos de enxergar a realidade, nós sofremos.

E se a filosofia é, por excelência, o meio para nos fazer pensar melhor, não é estranho imaginar que ela poderia nos fazer sofrer menos também. [1]

Por trás do pensamento, no entanto, há o próprio desejo. Aquilo que o homem quer do mundo e na vida. Pensamos de determinada maneira porque queremos algo disso. Ao questionar o pensamento, a filosofia estaria na verdade investigando, explorando e tratando os nossos desejos, origem de nossos pensamentos, e causa do sofrimento.

Deste modo, as escolas filosóficas helenistas e suas diferentes propostas éticas eram, em última instância, modos de lidar e educar o próprio desejo. A filosofia aparece como uma terapia do desejo. [2]

Apresentarei a vocês neste texto resumidamente as três principais escolas do pensamento helenista e suas respectivas formas de lidar com o desejo:

O Epicuranismo e a busca pelo desejo verdadeiro
Fundada por Epicuro, esta escola entendia que o homem sofre porque ele tem “maus desejos”. Isto é, desejos ruins e artificiais, como a busca por dinheiro, fama, glória etc. Estes desejos seriam impróprios não por uma simples razão moralista, mas porque, de algum modo ou de outro, os filósofos percebiam que tais desejos não podiam trazer uma verdadeira felicidade. Eles não correspondiam ao que as pessoas realmente necessitavam na vida.

A verdadeira felicidade viria dos desejos verdadeiros, estes sim que deveriam ser buscados e valorizados. Epicuro, por exemplo, acreditava que a riqueza seria um bem vazio se não pudesse ser compartilhada com outras pessoas, criando com elas momentos de alegria. Deste modo, o dinheiro não é um verdadeiro desejo, mas sim a companhia de boas amizades. A busca por riqueza seria um desejo artificial, enquanto cultivar uma boa amizade ou um amor recompensaria melhor a nossa natureza.

A terapêutica de Epicuro dedicava-se, portanto, em descobrir que aquelas coisas que perseguimos normalmente são artificiais. Necessitamos descobrir quais são os nossos verdadeiros desejos, porque eles sim podem nos trazer a felicidade.

Por outro lado, esta terapêutica lida com o problema de que nem sempre reconhecemos o nosso desejo como ruim. Isto é, alguém pode gostar de seu mau desejo. A ética epicurista só seria praticável a alguém num momento em que já se percebe num nível “patológico”.

O Ceticismo e as expectativas
Outra escola importante da antiguidade era o ceticismo. Hoje usamos esta palavra para nos referir a pessoas que são cientificistas, que não acreditam ou duvidam de algo, ou até mesmo que são ateias. Porém, originalmente, os céticos eram aqueles que duvidavam de que existisse uma visão única sobre algo, que duvidavam de que havia uma verdade.

Podemos ver que os céticos concordavam com a visão de Epicuro de que o sofrimento humano tem origem em suas falsas crenças, em seus falsos desejos. Porque muitas vezes pensamos que aquilo que desejamos é verdadeiro e bom, e depois de perseguir tal ilusão nos decepcionamos e sofremos.

No entanto, os céticos discordavam dos epicuristas que a solução estaria em cultivar desejos melhores. Para eles, isto simplesmente não existia. Seria apenas trocar um falso desejo por outro, que inevitavelmente também nos faria sofrer em algum momento.

Aos céticos, o problema era a própria expectativa criada pelo desejo. A terapia cética buscava assim criar uma indiferença ao próprio desejo, pois, se somos indiferentes ao que desejamos, nos tornaríamos imunes aos sofrimentos das altas expectativas.

Porém, é necessário questionar até que ponto a expectativa seria algo evitável, ou mesmo se a indiferença seria vantajosa, e não apenas uma maneira de fugir dos paradoxos da vida e do desejo. Quem suportaria uma vida indiferente a tudo?

O Estoicismo e o autocontrole
Finalmente, a última das três principais escolas da antiguidade é o estoicismo. Esta deixou para a posterioridade o seu ideal ascético, tendo influenciado em muito o cristianismo. O objetivo estoico é substituir as paixões humanas pela razão. Seus filósofos acreditavam que nós não somos simples animais, movidos pelas nossas emoções, mas que através de nossa capacidade racional podemos alcançar uma vida superior.

Os estoicos viam o sofrimento no desejo. Em nossas paixões. Pois ao querermos coisas e não podermos tê-las ou transformá-las, terminaríamos frustrados. Nossas emoções nos fariam sempre demasiadamente humanos, mesquinhos pelos nossos interesses, incapazes de uma visão superior sobre a vida e a sociedade. O ideal estoico dizia então que o homem devia usar sua maior virtude, a racionalidade, para dominar a as suas paixões e exercitar o autocontrole.

É curioso que, como terapeuta, percebo que a maioria dos nossos clientes procuram o atendimento motivados por um ideal estoico. Geralmente percebem que há algo neles que não podem controlar, e desejam ter maior domínio sobre isso em suas vidas para não mais sofrerem.

No entanto, os estoicos precisam confrontar-se com a dificuldade – quiçá a impossibilidade muitas vezes – de serem sempre racionais ou não possuírem emoções ou paixões autênticas, por mais que estas pareçam injustas ou contraditórias. Será que o homem pode estar sempre no controle de si mesmo?

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Vemos, portanto, que os ideais terapêuticos que nossos clientes buscam ou que profissionais e influenciadores promovem por aí não nasceram da psicologia moderna. Inocentes são aqueles que acreditam nisso. Eles existem desde muitos séculos na filosofia, se não são anteriores a ela mesma.

É neste sentido que a filosofia pode ser sim terapêutica, já que a origem de nossa ética emerge dela, mesmo que disto não saibamos. Que alguém busque um desejo verdadeiro que lhe traga felicidade, que tente lutar contra suas próprias expectativas ou queira controlar a si mesmo através da racionalidade, tudo isto faz parte de um ideal ético filosófico.

Se a filosofia pode ser terapêutica é porque antes a terapia é filosófica. Cabe questionar, para além disso: qual é afinal a nossa ética?

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[1] Nota do Editor: antigamente o blog Textos para Reflexão tinha uma espécie de “slogan” – pensar para melhor viver. É interessante que, anos depois do “slogan” haver sumido, a sua essência tenha reaparecido aqui :)

[2] Mais sobre este tema pode ser lido no livro The Therapy of Desire de Martha Nussbaum.

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Bill Ringer/Unsplash

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7.6.19

A superação da humanidade

Para viver precisamos comer e beber. No entanto, a questão filosófica e ética é se devemos comer apenas o suficiente para nos manter vivos, ou se, por outro lado, um alto grau de permissividade e sensualidade deste prazer poderia ser vantajoso. Trata-se da questão ética de como lidamos com nossos desejos?

Quando ansiamos por adquirir muito daquilo que nos falta, assim como com a comida, nos empantufamos em sua abundância. O excesso de nossos desejos pode trazer diversos infortúnios, não só azia e má digestão.

Platão refletiu sobre esse assunto, e tanto na República quanto em Fédon propôs o ascetismo como modelo de vida para o filósofo. O homem sábio deveria saber se separar do corpo e suas necessidades – respeitando o mínimo para a manutenção da vida – permanecendo com reserva em relação aos prazeres excessivos. Deveríamos, desde já, praticar o “desapego para a morte”.

Mas, quantos de nós, mesmos com as considerações relativas à saúde, desejaríamos realmente abandonar os prazeres do corpo, tal como a necessidade de comer?

Quando Platão propões a austeridade sobre nossos desejos, ele pensava que nenhuma pessoa reflexiva gostaria de se ver escravizada por seus desejos. Um ser humano desligado gradualmente de todos os apegos e preocupações de natureza instáveis – como o amor, o sexo, a ânsia de poder ou a ganância de dinheiro – se liberta também dos seus respectivos conflitos.

A ética platônica diz que a superior harmonia filosófica provém da diminuição do número de “compromissos” mundanos que mantemos, pois consequentemente estamos menos sujeitos às tormentas que tais compromissos nos trazem. Cultivamos, como um exercício espiritual, um estado de paz para a morte.

Se grande parte das coisas são fontes de dor e sofrimento para um ser racional, o ascetismo filosófico é um remédio para o tormento. Mas não era o que pensava Nietzsche, que viu na filosofia platônica o culto à morte e a negação da vida.

Nietzsche escreve que o pensamento platônico é produto do ressentimento metafísico de quem odeia essa vida e espera uma vida melhor num outro mundo que talvez sequer exista. Ironicamente, Nietzsche, que nunca leu Platão com muita atenção, chega ele mesmo a uma solução platônica ao problema platônico.

Platão dizia que deixar de lado nossos desejos humanos seria abandonar, de certo modo, nossa condição de seres humanos. É surpreendente que Nietzsche, com todo seu antiplatonismo, chega a mesma conclusão em sua filosofia de afirmação da vida e negação da metafísica, seja na figura do além-do-homem ou de Zaratustra que anuncia uma nova moral para a humanidade.

Tanto Platão quanto Nietzsche, cada um ao seu modo, estavam profundamente insatisfeitos com a humanidade e achavam que a solução deveria ser superá-la. Ambos veem no homem a fraqueza de seus desejos, e seja pela via da austeridade ou pela via do seu esgotamento, precisaríamos nos tornar um novo tipo de homens e mulheres.

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Giammarco Boscaro/Unsplash

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7.5.19

Equilíbrio

ACOMODAÇÃO .:.

"Quando você se aceita como está, se conforma com as circunstâncias em que vive, baixa a cabeça para antigos hábitos e se acomoda, as dificuldades ganham força, os problemas não tem fim e se repetem aonde quer que vá!

A filosofia aplicada lhe sugere o conhecimento de si, lhe aponta o caminho da auto-observação e contínua transformação. 

Se na natureza tudo progride, também tudo no gênero humano deve avançar. 

Melhorar a cada dia, crescer a cada etapa, elevar-se a cada ciclo e iluminar-se a cada dia é a missão. 

Não nos é pedido 'saltos quânticos', viradas repentinas ou guinadas de 360º, mas sim um consciente caminhar diário, contínuo e consciente.

Na medida do esforço maximiza-se a força.

Na medida da continuidade eleva-se a maturidade.

Na medida do aprofundamento resplandece a realização."

Caciano Camilo Compostela, Monge Rosacruz – Contato: facebook.com/ mongerosacruzcacianocompostela

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Crédito da imagem: Brian Mann/unsplash

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5.4.19

O homem universal

O que é o homem universal?

O polímata, aquele que conhece várias áreas do saber, geralmente é identificado com o homem renascentista, a exemplo de Leonardo da Vinci. No Renascimento (entre os séculos XIV e XVI, aproximadamente) houve um retorno a ideais da Antiguidade Clássica e uma perspectiva mais centrada no homem (humanismo) e não em Deus. Porém, não seria o monge medieval também um homem universal? Um verdadeiro polímata?

Os mosteiros, com suas grandes bibliotecas, eram o centro do saber na Europa antes do surgimento das universidades. Na verdade, foi a partir deles que algumas das primeiras universidades surgiriam. O que torna o monge medieval um homem universal? Por influência da Antiguidade Clássica, na Idade Média ensinava-se as Sete Artes Liberais, aprimoradas nesse período, que eram a base do saber: o Trivium (lógica, gramática e retórica) e o Quadrivium (aritmética, música, geometria e astronomia). O clero era educado nelas, principalmente os padres. Era um requisito indispensável para os padres aprender o latim e algumas vezes também o hebraico e o grego, para um estudo aprofundado da Bíblia.

Além de padres e muitos monges terem essa base nas Sete Artes Liberais e conhecimento de idiomas, eles estudavam filosofia e teologia. Nos mosteiros, os monges repetiam, e repetem até hoje, os salmos na Liturgia das Horas tantas vezes por dia que alguns sabem os 150 salmos de cor. É comum que citem de cor muitas passagens dos Evangelhos ou mesmo algumas do Velho Testamento. Houve vários monges que também foram cientistas. Um dos exemplos mais óbvios é Gregor Mendel, o pai da genética: biólogo botânico e monge agostiniano. E um padre e físico belga, Georges Lemaître, criou a teoria do Big Bang. 

Mas voltemos aos monges. Além de muitos terem inúmeros conhecimentos intelectuais em diversas áreas do saber, todos eles possuem uma categoria muito especial de conhecimento: o manual. Assim como os pintores renascentistas, vários monges, frades e padres se destacaram na habilidade com a pintura, a exemplo de Fra Angelico, frade dominicano. Nos mosteiros sempre foi muito comum que os monges aprendessem as artes da pintura e da caligrafia e preparassem as belas iluminuras dos pergaminhos medievais. Mas os conhecimentos do monge medieval não acabam aí. Eles aprendiam a cozinhar, preparavam as próprias comidas e até vendiam artigos como pães, biscoitos, geleias e cervejas artesanais, tudo feito por eles mesmos. E fazem isso até hoje.

Isso é tudo? Não, alguns monges fazem esculturas, costuram, dentre outras habilidades manuais, dependendo dos artigos que vendem nas lojas dos mosteiros. E além disso, eles também fazem sua própria limpeza: varrem e lavam o chão, lavam os pratos. Lavam a própria roupa.

Aristóteles e outros filósofos da Antiguidade Clássica colocavam os trabalhos intelectuais acima dos manuais porque tinham escravos para fazer para eles trabalhos como cozinhar, lavar e limpar. Na Idade Média e com o cristianismo houve uma valorização de trabalhos do campo como a agricultura. E aqui encontramos mais uma habilidade de muitos monges medievais: plantar, já que muitos plantavam e colhiam a própria comida. E cortavam a própria lenha para se aquecer no inverno. Além disso, sempre foram excelentes anfitriões, recebendo e hospedando viajantes que chegassem. 

Portanto, o monge medieval, além dos conhecimentos intelectuais em várias áreas, também sabia pintar, esculpir, fazer caligrafia (os monges copistas), costurar, cozinhar, limpar, plantar e tudo mais que fosse necessário à sobrevivência, pois eles não tinham nenhum empregado para fazer isso para eles. Num mosteiro todos devem fazer um pouco de trabalho intelectual, manual e braçal. 

Será mesmo que o homem urbano renascentista, que conhece a fundo filosofia, ciência e engenharia, sabe pintar e esculpir, mas talvez não saiba plantar, cozinhar, costurar e limpar, é mais universal que o homem medieval, principalmente se falamos de um monge medieval?

E será que não é particularmente interessante que todos saibam um pouco dos trabalhos braçais e auxiliem com eles, como ocorre em mosteiros, ao invés de considerá-los em segundo plano, como inferiores, enquanto o homem universal renascentista se coloca num pedestal com seus trabalhos intelectuais e artísticos superiores?

Respondendo nossa pergunta inicial: o que é o homem universal? Depende das crenças do pequeno universo no qual ele foi criado, educado e ensinado a valorizar.

Wanju Duli é escritora – Contato: facebook.com/WanjuDuIi

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Crédito da imagem: Pintura de Fritz Wagner

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27.2.19

A realidade existe?

Parece estranho iniciar um texto com um título cuja resposta soaria tão auto evidente. Mas é claro que a realidade existe, não? Podemos tocar as coisas, senti-las, percebê-las. No entanto, os argumentos filosóficos nunca são simples assim. Segundo Immanuel Kant, nós nunca temos acesso aos reais objetos do mundo. Sempre que vemos um objeto, o percebemos mediado pelas ideias que temos sobre ele.

Imagine que você tenha diante de si um par de óculos. Você pode até percebê-los, mas poderia compreender qual a sua real natureza, o que de fato ele é? Kant diria que não, pois a percepção do objeto que tem diante de si está mediada por todas as ideias que você possui anteriormente sobre ele: a cor que você associa a outras cores que viu antes, seu uso que foi socialmente aprendido, suas lembranças e afetos de pessoas que usavam óculos, o que pode significar uma pessoa que usa óculos, e por aí vai. Ou seja, os óculos nunca serão apenas os óculos.

O real dos objetos do mundo é impossível na perspectiva kantiana. Isto não quer dizer que o real não exista. Ele só não é assimilável, pois sempre que trazemos um objeto à consciência, o trazemos através de significados previamente possuídos. Um objeto é sempre um objeto parcialmente construído pela nossa subjetividade, digamos assim.

Ou seja, se o objeto real é inalcançável, tudo que podemos saber e investigar são as nossas próprias ideias sobre ele. Temos, portanto, o nosso argumento 1: Não podemos saber a realidade, mas podemos investigar as nossas ideias sobre a realidade.

As ideias de Kant influenciaram bastante a filosofia, mas não foram unanimidade. Outro filósofo importante nessa discussão foi David Hume, conhecido pelo seu ceticismo. Segundo Hume, nada podemos saber com certeza através da razão. Tudo sabemos através de experiências prévias, e a partir delas intuímos o que acontecerá no futuro. Por exemplo, por lembrarmos que todos os dias o Sol nasceu pela manhã, supomos que o mesmo acontecerá amanhã. Mas posso afirmar isto com certeza? Segundo Hume, não. Nada me garante que algo inesperado impeça que surja o Sol no dia seguinte.

Para Hume, a mente cria associações entre fatos e acontecimentos do mundo dos quais não podemos ter certeza. Deste modo, tudo que conjecturamos racionalmente são meras suposições que podem ser reais ou não. Teorias e mais teorias. Para compreender a realidade necessitamos da experiência, ou, em outras palavras, do empírico.

Hume constitui assim o nosso argumento 2: Conjecturas teóricas dizem muitas coisas possíveis sobre o mundo, mas elas não podem ser consideradas reais se não confirmadas pela experiência.

Os argumentos na Filosofia

Os dois argumentos que trouxe para introduzir esta questão correspondem à grande cisão da filosofia contemporânea.

De um lado está a filosofia analítica – os herdeiros de Hume – que possuem uma profunda ligação com a ciência e o empirismo. Seus autores fundamentais são de países anglófonos. Através da lógica, dos estudos sobre a linguagem, do diálogo com os estudos cognitivos, evolucionistas e da computação, buscam definir o que é real, identificado geralmente com o mundo natural. Para os analíticos há uma realidade objetiva da natureza que podemos descobri-la.

Do outro lado está a filosofia continental – os herdeiros de Kant – cujos autores principais são de países de língua alemã e francesa. Os continentais olham com desconfiança ao realismo naturalista assumido pelos analíticos, e possuem grande ressalva quanto ao espírito cientificista moderno, preferindo se aproximar em seus métodos às artes, como a literatura, o teatro, a psicanálise etc. Afastando-se de um real natural, os filósofos continentais tendem a pensar numa realidade que é em alguma medida produzida: as condições sociais no marxismo, as impressões da consciência na fenomenologia, a discursividade nos estudos culturais, e por aí vai.

Existiram poucas tentativas de diálogo entre essas duas áreas no século passado. Grande parte dos filósofos de uma corrente simplesmente realizava seus estudos ignorando o que era produzido pela outra. Não por rivalidades pessoais, mas porque no fundo há essa grande fenda epistemológica que os afasta numa questão tão básica: podemos falar sobre a realidade?

Para os analíticos, os continentais não fazem filosofia séria. Eles se perdem em abstrações inúteis, numa metafísica infundada e seus discursos são meros floreios de linguagem. Podem ser bons poetas, mas são péssimos cientistas. Porque o conhecimento autêntico deve ser positivo, derivado da experiência controlada e fundamentado na lógica. Qualquer coisa diferente disto não importaria.

Já os continentais julgam os analíticos como ingênuos em seu realismo, pois ignorando a própria interferência de suas categorias sobre a natureza, o conhecimento por eles produzido é uma confirmação de seus próprios preconceitos teóricos, chegando sempre a uma realidade aparente, porém falsa.

O caso de Foucault

Um ótimo exemplo à nossa discussão é o filósofo continental Michel Foucault. Se perguntássemos a Foucault o que é a loucura, ele nos diria que jamais poderia responder a essa pergunta. Tudo que poderíamos fazer é descobrir como a loucura era diagnosticada, controlada e tratada em diferentes sociedades e tempos históricos.

Foucault nos chama a atenção que, se hoje os loucos são um incômodo a serem trancados em manicômios, houve um tempo em que a loucura era vista como sinônimo de sabedoria extravagante, e eles podiam conviver conosco na sociedade. Eis um ponto de tensão entre uma ciência naturalista e a filosofia discursiva. Pois se enquanto a primeira, fundamentada na biologia e nos estudos cognitivos, quer estabelecer a verdade da loucura – isto é, classificá-la numa disfunção cerebral localizável, marcada como um transtorno de um funcionamento normal – Foucault nos mostra que o mesmo suposto transtorno pode ser visto como normalidade em outra sociedade, e que talvez o que chamamos de loucura (ou patologia) diga mais de nossa própria sociedade que da loucura enquanto entidade em si.

Portanto, não se trata da loucura em si, mas de nossas próprias categorias e juízos que estão em questão.

Então quer dizer que não há algo propriamente louco e tudo é relativo? A ideia de que tudo poderia ser relativo, não havendo um mínimo ponto de realidade comum, ficou conhecido como pós-modernismo, um termo que é usado geralmente de maneira crítica justamente para dizer que algo é frouxo e sem sentido.

Porém, é curioso notar que Foucault nunca tenha dito que tudo é relativo, embora muitos o tenham interpretado assim. No tema da loucura mesmo Foucault disse que não poderíamos saber o que é a loucura, apenas o que em cada momento histórico se entendia sobre ela. Mas ele nunca disse que não havia a loucura.

Há o real, no entanto...

Retomemos o argumento de Kant, que chamei de nosso argumento 1. Diferente do que ficou conhecido como pós-modernismo, não é que o real não exista e estamos a flutuar num fluído de indeterminação. É evidente que há algo real.

Como muitos usam esse exemplo de forma depreciativa, trago-o aqui: imagine que você esteja atravessando a rua e venha um carro em sua direção. Não adianta pensar que o carro não é real para se safar dessa situação. Ele vai lhe atropelar de qualquer modo.

Porém, o que está em jogo nessa discussão é um pouco mais sofisticado do que isso. Não se trata de saber se o carro é real ou não, mas se o conhecimento que podemos produzir sobre alguma coisa (o carro, por exemplo) corresponde ontologicamente ao seu real ou não. Como eu disse, é um pouco mais sofisticado do que nossa bruta vida cotidiana.

Então, nesse ponto, acho que é consenso dizermos que sim, a realidade existe. Há um real enquanto base dura a tudo que existe. O problema vem no segundo momento, quanto a sua acessibilidade direta ou indireta. Há um real natural encontrável na experiência ou estamos condenados a viver sob nossas próprias categorias subjetivas que mediatizam e parcializam nosso encontro com o real?

A forma como nos sentimos quando alguém nos diz algo, as visões de mundo de uma determinada doutrina, ou até a porcentagem de eficácia de uma nova droga farmacêutica –invocando Nietzsche, há fatos ou são tudo interpretações?

Aos continentais, nosso conhecimento é conjectural. Podemos fazer conjecturas que conversem melhor com a experiência de nossas almas, não por serem uma realidade última, mas por falarem de uma realidade experimentável em outro nível. Porém, tenho que concordar com os analíticos quando dizem que muitos pensadores continentais – talvez por excesso de conjecturas – se tornaram excessivamente abstratos, herméticos e até obscuros. Obras gigantes que necessitam uma extensa exegese para compreendermos. E para quê mesmo afinal?

Do outro lado, a suposição de que há um mundo natural independente de nós aponta para a tentativa de pensar um realismo. É uma proposta interessante, ainda que, bem notado pelos continentais, tenha trazido à filosofia analítica conclusões ingênuas, e que poderiam ser mais interessantes se houvesse menos reducionismo teórico. Aos excessivamente empiristas vale lembrar que a “realidade” também pode mentir, especialmente quando nosso método empírico é caolho.
 
Pensar a realidade para quê?

Nossa discussão não é um mero joguinho intelectual para pensadores ociosos. Pensar a realidade se tornou cada vez mais fundamental em nossos tempos de pós-verdade, em que a política de países está sendo decidida com base em Fake News, e movimentos terraplanistas conseguem chegar aos postos mais altos do governo.

Para além dos nossos problemas políticos imediatos, temos ainda um confronto maior e inevitável com a realidade virtual. A internet, a construção de imagens frágeis porém narcísicas em redes sociais, e até mesmo a possibilidade de experimentamos um mundo de “realidade ampliada”.

Quando pudermos viver experiências holográficas, criadas de forma artificial para serem autênticas ao nosso cérebro, será que estaremos satisfeitos e seremos facilmente enganados por elas como num aterrorizante episódio de Black Mirror, ou crescerá ainda mais o sentimento de inautenticidade do mundo moderno, sinal de nossa insatisfação com uma realidade espectral?

Meus amigos, o que está em jogo é a velha questão colocada por Platão no mito da caverna. Não se trata de saber se vivemos num mundo real ou de sombras, mas o que nós enquanto seres humanos queremos afinal. Se tivermos um dia a escolha, será que escolheríamos pelo mundo real, seja o que for ele, ou preferíamos alguma “ilusão confortável” que nos é mais afeita?

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Nils Stahl/Unsplash

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27.12.18

O Segredo e a Aventura da Vida

Desde crianças ouvimos fantásticas histórias de fantasia. Lemos sobre grandes heróis corajosos que partiram numa grande jornada para ajudar alguém ou mesmo salvar o mundo. Esses heróis enfrentaram perigos inimagináveis: lutaram contra dragões, se feriram, arriscaram a vida. Até que, a muito custo, conseguiram cumprir seus objetivos. Nós admiramos esses heróis e desejamos ser como eles.

Joseph Campbell fala a respeito da “Jornada do Herói” em seus livros, mas em vez de explorar cada etapa da aventura, optarei por refletir a respeito do que significa esse símbolo e exemplo do herói para a vida de cada um de nós.

Thomas Cole fez uma série de pinturas chamada “The Voyage of Life”, representando os quatro estágios da vida humana: infância, juventude, maturidade e velhice. As pinturas mostram um viajante num barco, no Rio da Vida, acompanhado por um anjo da guarda. A paisagem de cada pintura reflete as estações do ano relacionadas a cada estágio da vida.

Na primeira pintura, a Infância, a criança e o anjo saem de uma caverna, que simboliza “nossa origem terrena e o Passado misterioso”. A paisagem é calma e ensolarada, lembrando a alegria e inocência da infância. É o amanhecer da vida.

Na segunda pintura, Juventude, em pleno dia, o anjo permite que o jovem assuma o controle de sua vida. O anjo o observa e abana, enquanto o aventureiro está ansioso por partir em sua jornada. A responsabilidade é assustadora e ao mesmo tempo empolgante.

Para o jovem, o rio parece calmo e promete levá-lo diretamente ao castelo ao longe, para realizar seus sonhos e ambições. Ele tem uma visão romântica conforme a mente eleva o comum ao magnífico, antes de experimentar a realidade.

Alheio aos desafios que esperam por ele, o homem, em sua maturidade, ousadamente tenta chegar ao castelo, emblemático dos sonhos da juventude e aspiração por glória e fama. Conforme o aventureiro prossegue em sua jornada, a fúria do rio o desvia de seu destino e o carrega para experimentar a fúria da natureza, com seus demônios e as dúvidas a respeito de sua existência.

Apenas a oração, sugere Cole, pode salvar o viajante de seu destino escuro e trágico. A série parece intrinsecamente ligada à doutrina cristã de morte e ressurreição.

A última pintura, Velhice, é uma imagem da morte. O homem envelheceu e sobreviveu às provações da vida. As águas se acalmaram e o rio corre para as águas da eternidade. Ao longe, anjos descem do céu e o anjo guardião que acompanha o homem no barco faz um gesto na direção dos outros.

O homem está alegre com o conhecimento que a fé lhe deu e sustentou ao longo da vida. Cole descreve a cena: “As correntes da existência corpórea estão caindo; e a mente já tem vislumbres da Vida Imortal.”

(Fonte para a descrição da série The Voyage of Life: artigo da Wikipedia, adaptado)

Não é somente na infância que somos expostos a grandes histórias de aventuras, retratando admiráveis heróis. Quando crianças, escutamos belos contos de fadas. Na adolescência temos super-heróis. Na idade adulta continuamos a ver incontáveis filmes e séries que, de uma forma ou de outra, retratam histórias fascinantes nas quais o personagem principal, muitas vezes uma pessoa comum, precisa superar seus medos para vencer uma difícil batalha e atingir seu objetivo.

Não vemos isso somente em filmes. Livros de literatura, jogos de videogame, muitas coisas de alguma forma parecem representar essa sede de partir numa jornada. Até mesmo jogos de tabuleiro, esportes, parece que estamos rodeados com esse imaginário.

Mas nossa vida não é uma história de fantasia. Sem dúvida, nós temos nossos momentos fantásticos. Mas em boa parte do tempo temos que lidar com as questões diárias da vida real: estudar e trabalhar, que, dependendo dos nossos estudos e ocupação, podem ter certa carga de diversão e emoção.

Ainda assim, parece sempre que o herói da história de fantasia está se divertindo mais que nós e fazendo coisas mais grandiosas. É óbvio que, se estivéssemos vivendo a vida dura que ele vive, dormindo ao relento, passando fome, sede, desconforto, frio, calor e arriscando a vida a todo momento, não seria tão divertido quanto parece.

E como medir a grandiosidade de um ato? Todo trabalho pode ter seu valor e ser grandioso. Mas sempre parece que o herói que sofre desconforto e arrisca sua vida ficou com a melhor parte.

Faço um paralelo disso com o foco nas penitências e no martírio que existe no cristianismo. Ainda assim, para o cristão é possível ser um herói e se martirizar através de outros meios. Não somente o martírio vermelho, que busca a tortura e morte reais, mas existe também o martírio branco e outros tipos de serviço a Deus: aquela vida que, através da repetição de pequenos atos diariamente, com fidelidade (oração, leituras, trabalhos manuais, etc) se pode chegar a ser digno do céu.

Em poucas épocas o ato de partir numa aventura foi tão romantizado como na Idade Média, época em que eram populares os romances de cavalaria, de caráter místico e simbólico e repletos de espiritualidade cristã.

O cavaleiro resgata a dama, após derrotar o dragão. Mas ele não fez isso de mãos vazias: tinha sua armadura, sua espada, talvez um escudo e um cavalo.

Uma forma de interpretar essa história é: o cavaleiro somos nós. A espada é nossa fé, o escudo são nossas penitências. O dragão são os três inimigos clássicos: o demônio, a carne e o mundo. E a princesa é a alma, o Espírito Santo, o próprio Deus.

No entanto, há outro simbolismo escondido, ainda mais profundo: o cavaleiro é Deus. A princesa somos nós. O dragão é nosso orgulho, que impede Deus de se aproximar. Afinal, não somos nós que vamos até Deus. É Deus que vai até nós. Porém, Deus é um cavalheiro. Ele só vai se aproximar se permitirmos. Se formos humildes e rezarmos, pedindo ajuda. Se sinceramente o amarmos. Ele sempre nos amou e só está esperando que esse amor seja correspondido. E ele vai esperar até o fim do mundo se for preciso.

Quando penso nos romances medievais de cavalaria, eu imediatamente lembro de muitos dos grandes santos, que gostavam de lê-los na infância e na juventude, como Santa Teresa e Santo Inácio de Loyola.

É interessante lembrar que tanto Santo Inácio de Loyola quanto São Francisco de Assis serviram no exército na juventude antes de entrarem para a vida religiosa. Isso significa que eles já tinham essa sede de aventura, essa vontade de partir numa grandiosa jornada e morrer por um ideal há muito tempo.

Porém, Santo Inácio de Loyola foi ferido na guerra e teve que retornar. Enquanto estava se recuperando dos ferimentos, começou a ler muitos livros espirituais, incluindo “A Imitação de Cristo” e foi imediatamente fisgado para a vida religiosa. Ele descobriu uma aventura ainda mais profunda que servir no exército: era a aventura que lhe daria não somente uma medalha e honra e glória terrenas, mas a coroa da eternidade.

São Francisco de Assis ficou doente na guerra e teve que retornar. Enquanto estava doente, teve muitas experiências espirituais e se transformou completamente.

Recentemente eu estava assistindo alguns vídeos de competições de pessoas que jogam videogame muito rápido e tentam terminar o jogo com o menor tempo possível. Muitos dedicam muitos anos a isso, talvez a vida toda, e treinam diariamente.

Não é difícil entender porque as pessoas fazem isso, assim como não é difícil entender porque alguém pode se dedicar a um jogo de xadrez ou futebol. Existe, sem dúvida, a sede do desafio, e as pessoas têm feito isso com jogos em todas as épocas: competições para desafiar seus próprios limites, o que pode gerar, mais do que rivalidades, verdadeiros laços de amizade.

Por que escalar uma montanha? Por que tocar um instrumento? Por que fazer coisas difíceis? Eu escrevi sobre isso num post, falando sobre o encanto das religiões difíceis.

Antigamente as pessoas desejavam partir numa aventura se alistando no exército ou se dedicando à religião. Eis duas formas de arriscar a vida. Elas fazem isso até hoje, embora atualmente existam novas formas de fazer isso, como se dedicar a esportes radicais e tantas outras coisas.

Além de buscar adrenalina, acredito que fazemos tudo isso numa jornada de autoconhecimento. Estamos entediados e vazios com tanto conforto e prazer. Estamos desapontados com as injustiças do mundo e com nossa incapacidade de resolvê-las todas de uma vez.

Nós queremos ser parte desse mundo, fazer alguma coisa, nos conectar com os outros, com a vida em si. Ou, no mínimo, queremos nos sentir vivos e não como cadáveres que andam.

Eu acredito que muito disso resume minha própria busca religiosa: o desejo de aventura, a ânsia de descobrir algum grande segredo sobre o mundo, sobre a vida, ou sobre mim mesma.

E onde estão os segredos e as aventuras? Os livros nos contam um pouco, mas há mais. Na experiência de nosso corpo e de nossos limites, na interação com os outros e com Deus aos poucos as coisas ficam mais claras.

Wanju Duli é escritora – Contato: facebook.com/WanjuDuIi

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Crédito da imagem: Joel Robinson

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21.12.18

Espíritos obssessores

XV .:.

"Vez por outra sinto uma fortíssima vontade de fumar ou mesmo de consumir bebidas alcoólicas, já me acostumei com este fenômeno que se dá principalmente quando estou em grupos mais heterogêneos; o detalhe é que nunca fumei e tenho ojeriza ao álcool. Mas agora fico mais tranquilo, e consigo identificar que não sou eu a exata fonte de tão exóticos desejos. 

{Por favor: não cabe aqui uma recriminação contra o fumo e a bebida, ambos podem ser até mui luminosos. Existem monges especializados em produzir as melhores cervejas/vinhos do mundo, personalidades de altíssimo nível que fumam e abstêmios que são piores que o Cão chupando pimenta!}

Bares de rua, por exemplo, me são ambientes ainda mais confusos; as múltiplas setas dos vícios e entidades sedentas são mais difíceis de bloquear; tão forte é sua atuação nestes que me são visíveis como sombras feitas de agonia & escuridão, com a contraditória habilidade de se 'arrastarem com celeridade'. Por isso os evito. 

Observe que ninguém está sozinho. Ninguém faz nada sozinho! Todo hábito, toda ansiedade, desejo, gana e querença encontra no plano astral seus respectivos cúmplices, torcedores e parceiros. 

Entidades desencarnadas e entes não humanos de diferentes matizes associam-se aos encarnados para com estes degustarem os sabores da gula, do fumo, do álcool, do sexo e outros tantos, sorvendo junto a energia vital de seus hospedeiros.

Muitos casos de tristeza profunda, falta de força, perda de energia, abatimento físico e confusão mental tem nestes vampiros astrais uma de suas principais fontes. 

Eles farão de tudo para que se continue sob os grilhões do vício, dependem disto para uma sobrevida, ainda que esta custe a vida de suas 'mulas'. 

A chave está em saber identificar estes pontos fracos, substituí-los por novos pensamentos e hábitos; está em criar uma profunda conexão com os Guardiões pessoais, mantendo os olhos no Alto; está em só por hoje resistir (só por hoje!), e focar no mais elevado ideal de si."

Caciano Camilo Compostela, Monge Rosacruz – Contato: facebook.com/ mongerosacruzcacianocompostela

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Crédito da imagem: Alexandre Godreau/unsplash

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20.12.18

Quando a espiritualidade atrapalha

Buscar a espiritualidade geralmente significa que uma pessoa está interessada em melhorar a si mesma, aprender com seus erros e ter uma contribuição positiva no mundo. No entanto, vejo que a espiritualidade pode servir muitas vezes ferramentas contrárias a esses objetivos.

Não digo com isso que a espiritualidade seja algo ruim. Certamente ela é fonte de belíssimos ensinamentos. Trata-se mais da forma como interpretamos algumas ideias, e que terminam sendo utilizadas como fuga, escape da realidade, sabotando o nosso amadurecimento.

1. Para tudo há uma teoria
Este não é apenas um problema dos espiritualistas, mas de todos aqueles que racionalizam demais. Para qualquer experiência que enfrentam encontram alguma justificativa.

Se sempre chegam atrasados nos compromissos é porque esta é sua verdade. Se algo que prometiam fazer não saiu da promessa é porque tudo no universo acontece por uma razão. Se há uma dificuldade em se relacionar com outra pessoa é porque a outra não alcançou o nível de evolução dela.

Enfim, encontram sempre uma frase da filosofia oriental para eximir-se da responsabilidade nas coisas que lhe acontecem.

2. Sentir-se superior porque faz algo espiritual
Assim como a pessoa do item anterior nunca se coloca em questão e sempre se exime da sua parcela de participação nos seus problemas, também há aquelas que se julgam mais perfeitas que as demais porque estão praticando alguma coisa “espiritual”.

Pode ser meditação, yoga ou até uma dieta vegetariana. Qualquer prática serve de motivo para ela se sentir superior, e acabam – mesmo que não intencionalmente – julgando e desvalorizando as outras pessoas.

3. Inibir emoções autênticas
Por conta do complexo de superioridade descrito acima, muitos espiritualistas julgam que seus comportamentos devem ser sempre ideais e neutros.

Está certo que a raiva pode ser danosa ou que precisamos equilibrar emoções mais negativas, como inveja e ódio. Mas isso não quer dizer que não existam situações em que certas demonstrações de emoções possam ser justas e necessárias.

Tudo bem chorar porque algo ruim aconteceu ou ficar revoltado com alguma injustiça no mundo. Muitos querem aparentar ser sempre calmos, gentis e compassivos, e terminam parecendo falsos.

4. Buscar o positivo onde não deve
O movimento de focar em coisas positivas parece ótimo. Darmos atenção às coisas que nos fazem crescer e não nos fixarmos naquilo que nos faz mal.

Porém, existe uma infinidade de situações em que precisamos encarar o que é um verdadeiro problema. Não nos enganarmos fingindo que uma onda de positividade irá solucionar tudo.

Muitas soluções em nossas vidas tem um gosto amargo, mas são necessárias.

5. Aceitar absurdos para ser “o bonzinho”
Estou de acordo que as pessoas precisam ser tratadas com respeito, afeto e compreensão. Mas isto não quer dizer que você deve aceitar qualquer coisa das outras pessoas.

Muitos querem ser sempre os bonzinhos da história, com medo de desagradar ou ficarem com má fama se disserem um não. Por isso, sentem-se abusados pelos outros, já que não estabelecem seus próprios limites.

Não é possível agradar sempre a todos, nem desejável. Ter seus próprios limites em conta é fundamental.

Resumindo...
A espiritualidade pode ser um caminho de crescimento e amadurecimento. Mas se torna uma armadilha quando criamos expectativas sobre nós que não podemos cumprir, fazendo com que nos escondamos em máscaras de superioridade e perfeição.

O mais espiritualmente maduro muitas vezes é se reconhecer como apenas um ser humano de erros e acertos, sem autopiedade por isso. E que nem sempre a culpa é do outro que não lhe entende.

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Bart LaRue/Unsplash

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8.11.18

O que a filosofia nos ensina sobre o ódio

Nunca se falou tanto sobre o ódio. O cenário político e o crescimento dos conflitos sociais nos últimos anos têm nos chamado a atenção para esse afeto. Hoje vemos inclusive que o ódio pode ser um fenômeno social, capitalizado para interesses políticos.

Mas como a filosofia pode nos ensinar a lidar com esse afeto? Vejamos o que nos diz Sêneca em seu diálogo Sobre a Ira, a face mais agressiva do ódio.

A ira, diz-nos Sêneca, é o desejo de causar dano ao outro porque temos o sentimento que nos foi causado algum dano antes. Neste sentido, a ira é um desejo de vingança. Retribuir um dano sofrido.

Muitas vezes não se trata de um dano físico, como um golpe, mas toda sorte de prejuízos que achamos ter sofrido por consequência das ações de outra pessoa. Por exemplo, se acreditamos que perdemos a mulher que amamos para outra pessoa, passaremos a odiar a mulher que perdemos ou nosso rival amoroso porque achamos que fomos prejudicados por eles.

Temos nossa primeira lição sobre o ódio: ele nasce da sensação de prejuízo. A partir disto, raivosos, queremos reparar o dano que sofremos igualmente prejudicando ou atacando quem consideramos inimigo.

Quando hoje se fala em discurso de ódio, não se trata de simplesmente odiar um grupo em particular. É odiar um grupo por acreditar que tais indivíduos são, diretamente ou indiretamente, responsáveis pela minha infelicidade.

O ódio aos homossexuais, por exemplo, e a consequente perseguição que esse grupo sofre, parte do fato que muitas pessoas se sentem ofendidas pela simples existência deles. Não importa que os gays não estejam fazendo nada além de simplesmente existirem e amar como desejam. Muitas pessoas aprenderam a odiar qualquer coisa que seja diferente de sua concepção de mundo ou que possa balizar os seus próprios desejos, e a diferença lhes agride. Trata-se, claro, de um problema de quem não suporta a diferença.

E Sêneca vai além. É impossível vivermos sem encontrarmos algo do qual não tenhamos motivos de censura ou aversão. É natural que haja coisas que apreciamos enquanto outras repudiamos. Faz parte da própria diversidade humana.

Basta rolar o feed de notícias das redes sociais ou ligarmos a televisão que veremos muitas coisas que desaprovamos. Seja um caso de corrupção que saiu no jornal ou a agressão injusta que uma pessoa querida nossa sofreu. Estamos sempre sujeitos a nos revoltarmos com as coisas que acontecem ao nosso redor. É muito fácil que o ódio surja a qualquer momento.

Porém, o ódio não é um afeto que soluciona nossos problemas.

Odiar um político corrupto pelo que ele fez ou um ex-amigo pela traição que ele cometeu consigo não irá reparar os danos causados. É possível sim que, por vingança, você queira fazer algo. Mas será que a vingança irá realmente curar as feridas?

Sêneca nos diz que algumas coisas não valem o ódio. A serenidade da alma é o bem mais precioso, e perder isso talvez seja o verdadeiro dano que você irá se causar.

Na filosofia estoica de Sêneca, o problema não é o dano que você venha a sofrer. A vida é inevitavelmente de dificuldades e desastres. O verdadeiro sofrimento está em aceitar que essas tragédias estraguem o seu humor, o seu dia, ou mesmo a sua vida.

Portanto, é melhor curar-se do ódio que tentar se vingar, pois a vingança absorve muito tempo e nos expõe a uma multidão de outras ofensas que nos causariam ainda mais dano. Além disso, satisfazer-se com as misérias alheias é uma satisfação muito pequena diante de outras que você proporcionar a si mesmo.

Ainda que nunca estejamos imunes ao ódio, e reações enérgicas podem ser algumas vezes justas e necessárias, vale como regra geral o conselho estoico: é melhor economizar suas energias de tentar se vingar ou atacar alguém investindo em sua própria felicidade.

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Jason Rosewell/Unsplash

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24.10.18

Anjos e Devas

Em diversas religiões é comum a existência de seres espirituais de diferentes categorias. Eles podem variar em termos de desenvolvimento espiritual, moral, poderes e entendimento.

No budismo existem muitos reinos espirituais ou planos de existência que fazem parte de sua cosmologia. Nos estados de privação temos, por exemplo, os asuras (demônios), espíritos famintos e os animais. Podemos renascer como demônios como resultado de karma ruim. Há também diferentes categorias de reinos de devas. Quando temos um bom karma podemos renascer como devas ou como humanos.

É verdade que o reino humano (manussa loka) encontra-se abaixo de muitos dos reinos de devas na hierarquia. Porém, ao atingir os estados de jhanas, um ser humano torna-se capaz de atingir os reinos dos devas.

Na cosmologia do budismo, nascer como ser humano é considerado o melhor tipo de nascimento, pois possui um equilíbrio único de prazer e dor, que é ideal para nos libertar dos ciclos de nascimentos e mortes.

Os devas experimentam muito mais prazer que dor e se encontram em reinos mais elevados do que os humanos. Em compensação, por se encontrarem em estados de tanta alegria, eles não sentem a urgência de se libertar e portanto se torna difícil para eles atingir o nirvana. Por sua vez, os demônios experimentam muito mais dores do que prazer, o que se torna um estado que dificulta enormemente o desenvolvimento espiritual.

Nós humanos normalmente buscamos o prazer e fugimos da dor, o que acaba nos gerando um problema similar ao enfrentado pelos devas: nós ficamos tão distraídos com os prazeres e alegrias que nos esquecemos de trilhar o Caminho Nobre, ou não vemos tanta urgência para isso.

As religiões indianas costumam compensar esse problema sugerindo uma vida de mais simplicidade, meditação, leitura das escrituras ou, em alguns casos, a prática de certas penitências. As austeridades não devem ser excessivas, ou cairíamos num estado similar aos demônios: muita dor impede o desenvolvimento espiritual. Devemos seguir, como Buda sugeriu, o Caminho do Meio, que o nascimento humano já proporciona naturalmente. Basta então adotar as práticas corretas.

Disso tudo concluí-se uma coisa: apesar de na hierarquia os devas (similares aos anjos do cristianismo) se encontrarem num estado superior, por possuírem bom karma, nascer como ser humano é melhor do que ser deva. Através dos estados refinados da mente (jhanas) podemos “ser como devas”. Ao atingir os quatro primeiros jhanas materiais alcançamos um estado mental equivalente ao dos devas. Porém, ao atingir os jhanas imateriais atingimos reinos acima daqueles que os devas podem alcançar, até que conquistamos a iluminação, que é, espiritualmente falando, praticamente inacessível a eles. Por isso é comum que devas escutem os discursos de humanos que já conquistaram alguns jhanas imateriais e as primeiras etapas da Iluminação. Ajahn Mun costumava discursar para devas mesmo antes de se iluminar, quando já estava avançado no entendimento.

Pode-se dizer que existe um ensinamento semelhante no cristianismo. Nós costumamos olhar os anjos como se eles estivessem numa categoria muito acima daquela dos humanos, mas não é bem assim.

O Corão nos conta que, no princípio, Deus criou Adão num estágio de desenvolvimento espiritual até mesmo acima dos anjos. Por isso Deus ordenou que os anjos se ajoelhassem diante dele. Porém, Lúcifer teria se recusado e por isso ele foi expulso do paraíso, de acordo com o islamismo.

É dito no cristianismo que os anjos se encontram constantemente na presença de Deus. Por isso, eles não têm dúvidas de sua existência. São Tomás de Aquino nos conta que eles não possuem corpos materiais, mas espirituais. Sendo assim, são capazes de apenas dois pecados principais: orgulho e inveja, tidos como os piores, pois são pecados do espírito e não da carne.

Os humanos, por outro lado, são capazes de realizar os sete pecados capitais. Eles também não são capazes de ver Deus. Num primeiro olhar, consideraríamos isso como uma desvantagem, certo?

Porém, não é bem assim. De forma similar ao budismo, é dito que os humanos se encontram num equilíbrio de dor e prazer ideal para adquirirmos humildade. É verdade que Adão e Eva caíram, porque pecaram. Eles queriam ser como Deuses, assim como Lúcifer. Porém, a “punição” de Lúcifer e de Adão foram diferentes. Na verdade, essa punição tem mais relação com uma condição que nos ensinará a humildade mais facilmente.

Nós humanos nos tornamos mortais. Porque morremos podemos valorizar mais a vida, considerando-a preciosa. Isso irá apressar nossa urgência de nos desenvolvermos espiritualmente. A mesma urgência que os devas não possuem, já que eles vivem muito mais que nós.

Para completar, porque os seres humanos podem cair em mais pecados que os anjos, eles poderão aprender a humildade com rapidez. Irão reconhecer que são fracos. Da mesma forma que no budismo é dito que, porque o ser humano experimenta certo grau de dor, ele irá buscar atingir a iluminação com mais urgência, sem tantas distrações.

E, finalmente, uma questão chave: Deus não se mostra claramente para os seres humanos. É dito que Deus mantém uma distância epistêmica de nós, não deixando sua existência totalmente clara, pelo mesmo motivo que ele respeita nossa liberdade: é superior escolher o bem quando é possível optar pelo bem ou pelo mal do que se não tivéssemos escolha nenhuma. De forma análoga, é superior acreditar em Deus quando ele não se mostra claramente do que caso ele deixasse bem claro que existe.

Os anjos caminham sempre na presença de Deus e não têm dúvidas de sua existência. É muito mais difícil caírem em pecado, por não terem corpos. Sendo assim, a missão deles é diferente. Eles podem, por exemplo, nos guiar, nos ajudar e nos inspirar.

Não é que os anjos sejam inferiores aos humanos no cristianismo. Em muitos aspectos, os anjos são superiores aos humanos, da mesma forma que os devas são superiores: por não terem corpos, possuem muitos poderes especiais que nós humanos não possuímos. E por terem um nível mais elevado de entendimento espiritual (afinal, os anjos sempre estão com Deus e os devas se mantém sempre num estado equivalente aos jhanas materiais), eles são capazes de saber coisas que desconhecemos.

No entanto, a fraqueza humana pode se tornar uma força que nos torna capazes de ir mais longe. No catolicismo é dito com muita clareza que quando um ser humano se torna um santo, o seu desenvolvimento espiritual se torna tão elevado quanto o de um anjo. Da mesma forma que uma pessoa ao atingir jhanas materiais torna-se tão elevado quanto um deva.

Existe essa passagem misteriosa na Bíblia:

“Ousa algum de vós, tendo algum negócio contra outro, ir a juízo perante os injustos, e não perante os santos? Não sabeis vós que os santos hão de julgar o mundo? Ora, se o mundo deve ser julgado por vós, sois porventura indignos de julgar as coisas mínimas? Não sabeis vós que havemos de julgar os anjos? Quanto mais as coisas pertencentes a essa vida?” (1Cor 6:1–3)

Existem diferentes interpretações para essa passagem. Alguns dizem que os humanos que se tornarem santos serão aqueles a julgar os anjos caídos no Juízo Final.

E não podemos nos esquecer que no catolicismo há Maria, mãe de Deus. Ela só está abaixo da Santíssima Trindade. Encontra-se até mesmo acima dos anjos. O que nos sugere que um ser humano possui o potencial de atingir um estágio até mesmo superior ao dos anjos, como é o exemplo de Adão no islamismo, quando estava no Jardim do Éden, e de Maria no catolicismo.

Vejo isso como um teste de Deus para ambos: para anjos e para humanos. Os humanos devem desenvolver humildade lembrando que Deus e os anjos se encontram acima deles na hierarquia. E os anjos devem desenvolver humildade lembrando que Deus está acima deles e os seres humanos possuem um potencial de elevarem-se a alturas que somente Deus sabe, de acordo com o nível de santidade de cada um.

Porém, a isso o catolicismo não coloca nenhuma dúvida: um santo é equivalente a um anjo. Não em natureza, mas em nível espiritual e de entendimento. Por isso eles podem adquirir até o poder de fazer milagres, originalmente apenas pertencente a anjos. E por isso quem atinge jhanas materiais no budismo pode adquirir alguns poderes psíquicos, como os devas.

Que tudo isso nos sirva de reflexão e para recordarmos: nascer como humano é realmente uma bênção extraordinária. Podemos chegar a alturas que nem imaginamos, mas primeiramente é preciso tornar-se digno disso, baixando a cabeça, com humildade, prestando homenagem a todos que são mais sábios que nós e aprendendo com eles.

Wanju Duli é escritora – Contato: facebook.com/WanjuDuIi

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Crédito da imagem: wikimedia (Buddha preaching Abhidhamma in Tavatimsa)

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