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30.6.09

O discurso da alma

Textos de Platão em "Fedro" (Editora Martins Claret, tradução de Alex Marins). As notas são de minha autoria.

SÓCRATES - Imagina que alguém expõe por escrito as regras de sua arte e um outro aceita o livro como sendo a expressão de sua doutrina clara e profunda; esse homem seria um tolo, pois, não entendendo a advertência profética de Amon [1], atribuiria a teorias escritas mais valor do que o de um simples lembrete do assunto tratado. Não é assim?

FEDRO - Perfeitamente.

S. - O uso da escrita, Fedro, tem um incoveniente que se assemelha à pintura. Também as figuras pintadas têm a atidude de pessoas vivas, mas se alguém as interrogar conservar-se-ão gravemente caladas. O mesmo sucede com os discursos. Falam das coisas como se as conhecessem, mas quando alguém quer informar-se sobre qualquer ponto do assunto exposto, eles se limitam a repetir sempre a mesma coisa [2]. Uma vez escrito, um discurso sai a vagar por toda parte, não só entre os conhecedores mas também entre os que o não entendem, e nunca se pode dizer para quem serve e para quem não serve [3]. Quando é desprezado ou injustamente censurado, necessita do auxílio do pai, pois não é capaz de defender-se nem de se proteger por si.

F. - Também neste ponto tens toda a razão.

S. - Examinemos agora uma outra espécie de discurso, irmão legítimo dessa eloquência bastarda: vejamos como nasce e quanto ele é superior e mais poderoso que o outro.

F. - A que discurso te referes, e como nasce ele?

S. - Refiro-me ao discurso conscienciosamente escrito com a ciência da alma, ao discurso que é capaz de defender a si mesmo e que sabe diante de quem convém falar e diante de quem é preferível ficar calado.

F. - Estás falando do discurso vivo e animado do homem sábio, do qual todo discurso escrito poderia ser chamado com justiça um simulacro?

S. - Exatamente. Imagina que um agricultor inteligente possua sementes e lhes dá valor, e das quais queira obter frutos. Pensaria tal homem seriamente em plantar suas sementes durante o verão nos jardins de Adônis [4], e gostaria de vê-las desenvolvidas como plantas dentro de oito dias? Seria possível que o fizesse de bom grado, mas simplesmente a título de cerimônia religiosa, por ocasião das festas de Adônis. Quanto às sementes a que deseja dar um fim sério, porém, ele as plantará em solo apropriado, utilizando a sua técnica de agricultor, e ficará contente se a seara lhe der frutos no oitavo mês.

F. - Mas é evidente, Sócrates; como dizes, esse homem faria uma coisa seriamente e a outra com intensões diversas.

S. - Ora, podemos nós dizer que quem possui o conhecimento do justo, do belo e do bom dará às suas sementes um uso menos judicioso do que o camponês?

F. - Não.

S. - Tu bem vês que aquele que conhece o justo, o bom e o verdadeiro não irá escrever na água (locução que equivale a escrever na areia) essas coisas, nem usará uma caniço para semear tais discursos, pois eles se mostrarão incapazes de ensinar eficientemente a verdade.

F. - Provavelmente não fará isso.

S. - Claro que não. Naturalmente, semeará nos jardins literários apenas por passatempo. Se escrever, será na intenção de acumular para si mesmo um tesouro de recordações para a velhice, se chegar até lá; porque os velhos esquecem tudo. Escreverá também para os que caminham na mesma rua com ele, e se alegrará vendo crescer as tenras plantas. E, enquanto outros se divertem em banquetes e prezeres semelhantes, esse homem se recreará com as coisas que mencionei [5].

F. - Mas, Sócrates, estás comparando com divertimentos vulgares a belíssima atividade de um homem que se deleita em escrever discursos sobre a justiça e as outras virtudes!

S. - É verdade, meu caro Fedro! Mas acho muito mais bela a discussão dessas coisas quando alguém semeia palavras de acordo com a arte dialética, depois de ter encontrado uma alma digna para recebê-las; quando esse alguém planta discursos que são frutos da razão, que são capazes de defender por si mesmos e ao seu cultivador, discursos que não são estéreis mas que contém dentro de si sementes que produzem outras sementes em outras almas, permitindo assim que elas se tornem imortais. Aos que as levam consigo, tais sementes proporcionam a maior felicidade que é dado ao homem possuir [6].

F. - Na verdade, isso é muito mais belo.

***

[1] Sócrates acabara de descrever o mito da invenção da escrita pelo deus egípcio Thoth. Este foi repreendido em sua intenção por outro deus egípcio, Amon: "Tu, como pai da escrita, esperas dela com o teu entusiasmo precisamente o contrário do que ela pode fazer. Tal coisa tornará os homens esquecidos, pois deixarão de cultivar a memória; confiando apenas nos livros escritos, só se lembrarão de um assunto exteriormente e por meio de sinais, e não em si mesmos. Logo, tu não inventaste um auxiliar para a memória, mas apenas para a recordação. Transmites aos teus alunos uma aparência de sabedoria, e não a verdade, pois eles recebem muitas informações sem instrução e se consideram homens de grande saber, embora sejam ignorantes na maior parte dos assuntos. Em consequência, serão desagradáveis companheiros, tornar-se-ão sábios imaginários ao invés de verdadeiros sábios".
Sócrates (assim como seu discípulo, Platão) acreditava que a sabedoria não poderia ser passada adiante como "verdades impressas" em algum texto ou discurso, mas que deveria ser despertada na alma das pessoas; até mesmo porque certas verdades não podem ser expressas em palavras, mas somente através da estimulação do logos (razão conectada ao Cosmos) de cada um. No belo final do "Fedro", Sócrates nos dá uma boa pista de como discursar para a alma - é exatamente este trecho que está transcrito acima.

[2] Infelizmente Sócrates não viveu em nossa época, pois ficaria maravilhado com as possibilidades de discursos transmitidos em blogs e afins, onde todos podem comentar e interagir diretamente com o autor, contanto que este realmente frequente o próprio blog. Muito embora, evidentemente, nossa sociedade em sua maioria continue utilizando a web para fins muito menos nobres...

[3] Os discursos não poderem se adaptar a sua audiência. Sócrates defendia que, pessoalmente, o filósofo deveria ser capaz da analisar o conhecimento de cada um, e proferir discursos de acordo com a capacidade de cada ouvinte. Talvez mesmo por isso nunca tenha escrito coisa alguma, tendo sempre preferido transmitir sua sabedoria pessoalmente aos seus discípulos.

[4] Tratava-se de uma festa para o deus Adônis. No início da festa colocavam-se sementes em grandes vazos cheios de terra molhada, para simbolizar o desaparecimento de Adônis; depois expunham-se os vasos à irradiação de um forte calor artificial, o que fazia com que as sementes brotassem em poucos dias. As pequenas plantas que se desenvolviam nos jardins de Adônis eram apresentadas no fim da festa como símbolos da ressurreição desse deus. Naturalmente, tais plantas artificiais eram bonitas, mas caducavam poucos dias depois da festa, sem dar frutos nem sementes. Ou seja, o camponês sábio guardava suas melhores sementes não para a festa, mas para o plantio durável, para que possam germinar e dar frutos reais. Esta é mais uma bela analogia de Sócrates para com o discurso efêmero (atrativo e superficial, mas que não dá frutos) e o discurso durável, talhado para a alma (requer certa reflexão, mas traz o fruto como recompensa).

[5] Sócrates dedicou boa parte da vida a analisar a sabedoria dos homens. E percebeu que exatamente os que se julgavam os mais sábios eram, muitas das vezes, os mais ignorantes. Por isso se utiliza de uma fina ironia em muitas de suas críticas veladas a sociedade da época. Também é preciso lembrar que é muito complexo discernir o que era pensamento genuíno de Sócrates, e o que era interferência de Platão, nessas questões.

[6] Em última instância, a função da filosofia é proporcionar ao homem o contato com tal felicidade. Após o contato, todo filósofo pleno dessa felicidade não terá objetivo mais recompensador do que o de passar tal conhecimento adiante, de modo a que outros também possam alcançar a felicidade. Se há "filósofos" que não fazem isso, é porque nunca alcançaram essa sabedoria, e não exatamente porque creem que a filosofia deva ser uma forma de sofrimento intelectual, ou um conjunto de sistemas e regras do pensar, que servem mais para confundir a mente do que aplainá-la.

***

Crédito da foto: camerar (borboleta "adonis blue - lysandra bellargus")

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