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10.12.14

Malala - uma menina, entre muitas

Em homenagem à Malala Yousafzai, vencedora do Prêmio Nobel da Paz 2014, mais de 40 meninas de 12 países, incluindo Paquistão, Etiópia, Zâmbia, Ruanda, Brasil, Nicarágua e Filipinas reproduziram seu mais famoso discurso pela educação de todas as meninas do mundo, proferido na ONU.

Yolanda, moradora do Capão Redondo, em São Paulo, é uma das estrelas do filme Uma menina, entre muitas. O filme foi produzido pela Plan Brasil, organização não governamental que desenvolve programas e projetos com o objetivo de capacitar e empoderar crianças e suas comunidades para transformar a sua realidade.

Com vocês, as palavras de Malala, mais uma recém-chegada da mansão do amanhã:

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Crédito da foto: Google Image Search (Malala Yousafzai)

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23.9.14

Emma Watson e a igualdade de gêneros: "Se não agora, quando?"

O discurso integral de Emma Watson na ONU, para o lançamento da campanha pró-feminismo HeForShe. Tradução de Nathália Campos (via Facebook).


Hoje estamos aqui lançando a campanha HeForShe. Eu estou falando com vocês porque precisamos de ajuda. Queremos acabar com a desigualdade de gêneros - e pra fazer isso, todo mundo precisa estar envolvido.

Essa é a primeira campanha desse tipo na ONU. Precisamos mobilizar tantos homens e garotos quanto possível para a mudança. Não queremos só falar sobre isso. Queremos tentar e ter certeza que é tangível.

Eu fui apontada como embaixadora da boa vontade para a ONU Mulheres há seis meses e quanto mais eu falava sobre feminismo, mais eu me dava conta que lutar pelos direitos das mulheres muitas vezes virou sinônimo de odiar os homens. Se tem uma coisa que eu tenho certeza é que isso tem que parar. Para registro, feminismo, por definição é a crença de que homens e mulheres devem ter oportunidades e direitos iguais. É a teoria da igualdade política, econômica e social entre os sexos.

Eu comecei a questionar as suposições baseadas em gênero quando eu tinha oito anos, fui chamada de mandona porque eu queria dirigir uma peça para nossos pais - mas os meninos não foram.

Aos quatorze anos, fui [precocemente] sexualizada por membros da imprensa. Com quinze anos, minhas amigas começaram a sair dos times esportivos porque não queriam parecer masculinas. Aos dezoito, meus amigos homens não podiam expressar seus sentimentos.

[Então] eu decidi que eu era uma feminista. Isso não parecia complicado pra mim. Mas minhas pesquisas recentes mostraram que feminismo virou uma palavra não muito popular. Aparentemente, eu estou entre as mulheres que são vistas como muito fortes, muito agressivas, anti homens, não atraentes...

Por que essa palavra se tornou tão impopular? Eu sou da Inglaterra e eu acho que é direito que me paguem o mesmo tanto que meus colegas de trabalho do sexo masculino. Eu acho que é direito tomar decisões sobre meu próprio corpo. Eu acho que é direito que mulheres estejam envolvidas e me representando em políticas e decisões tomadas no meu país. Eu acho que é direito que socialmente, eu receba o mesmo respeito que homens. Mas infelizmente, eu posso dizer que não existe nenhum país no mundo em que todas as mulheres possam esperar ver esses direitos. Nenhum país do mundo pode dizer ainda que alcançou igualdade de gêneros. Esses direitos são considerados direitos humanos, mas eu sou uma das sortudas.

Minha vida é de puro privilégio porque meus pais não me amaram menos porque eu nasci filha. Minha escola não me limitou porque eu era menina. Meus mentores não acharam que eu poderia ir menos longe porque posso ter filhos algum dia. Essas influências são as embaixadoras na igualdade de gêneros que me fizeram quem eu sou hoje. Eles podem não saber, mas são feministas necessários no mundo de hoje. Precisamos de mais desses.

Não é a palavra que é importante. É a ideia e ambição por trás dela, porque nem todas as mulheres receberam os mesmos direitos que eu. De fato, estatisticamente, muito poucas receberam. Em 1997, Hillary Clinton fez um famoso discurso em Pequim sobre direitos das mulheres. Infelizmente, muito do que ela queria mudar ainda é verdade hoje. Mas o que me impressionou foi que menos de 30% da audiência era masculina. Como nós podemos efetivar a mudança no mundo quando apenas metade dele é convidada a participar da conversa?

Homens, eu gostaria de usar essa oportunidade para apresentar o convite formal. Igualdade de gêneros é seu problema também. Até hoje eu vejo o papel do meu pai como pai ser menos válido na sociedade. Eu vi jovens homens sofrendo de doenças, incapazes de pedirem ajuda por medo de que isso os torne menos homens - de fato, no Reino Unido, suicídio é a maior causa de morte entre homens de 20-49 anos, superando acidentes de carro, câncer e doenças de coração. Eu vi homens frágeis e inseguros sobre o que constitui o sucesso masculino. Homens também não tem o benefício da igualdade.

Nós não queremos falar sobre homens sendo aprisionados pelos estereótipos de gênero, mas eles estão. Quando eles estiverem livres, as coisas vão mudar para as mulheres como consequência natural. Se homens não tem que ser agressivos, mulheres não serão obrigadas a serem submissas. Se homens não tem a necessidade de controlar, mulheres não precisarão ser controladas.

Tanto homens quando mulheres deveriam ser livres para serem sensíveis. Tanto homens e mulheres deveriam ser livres para serem fortes. É hora de começar a ver gênero como um espectro ao invés de dois conjuntos de ideais opostos. Deveríamos parar de nos definir pelo que não somos e começarmos a nós definir pelo que somos.

Todos podemos ser mais livres e é isso que HeForShe é sobre. É sobre liberdade. Eu quero que os homens comecem essa luta para que suas filhas, irmãs e esposas possam se livrar do preconceito, mas também para que seus filhos tenham permissão para serem vulneráveis e humanos e fazendo isso, sejam uma versão mais completa de si mesmos.

Você pode pensar: “Quem é essa menina de Harry Potter? O que ela está fazendo na ONU?”. É uma boa questão e, acreditem em mim, eu tenho me perguntado a mesma coisa. Não sei se sou qualificada para estar aqui. Tudo que eu sei é que eu me importo com esse problema e eu quero melhorar isso. E tendo visto o que eu vi e sendo apresentada com a oportunidade, eu acho que é minha responsabilidade dizer algo. Edmund Burke disse: “Tudo que é preciso para que as forças do mal triunfem é que bons homens e mulheres não façam nada.”

Com os nervos a flor da pele por conta deste discurso e em um momento de dúvida eu disse pra mim mesma: “Se não eu, quem? Se não agora, quando?”. Se você tem as mesmas dúvidas quando apresentado uma oportunidade, eu espero que essas palavras possam ajudar.

Porque a realidade é que se a gente não fizer nada, vai demorar 75 anos, ou até eu ter quase 100 anos antes que mulheres possam esperar receber o mesmo tanto que os homens no trabalho. 15,5 milhões de garotas vão se casar nos próximos 16 anos como crianças. E nas taxas atuais não vai ser até 2086 que todas as crianças da África rural poderão receber educação fundamental.

Se você acredita em igualdade, você pode ser um desses feministas “sem saber” sobre os quais eu falei mais cedo. E por isso, eu te aplaudo.

Estamos lutando, mas a boa notícia é que temos a plataforma. É chamada HeForShe. Eu convido você a ir em frente, ser visto e se perguntar: “Se não eu, quem? Se não agora, quando?”

Obrigada.

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» Veja o discurso no YouTube (em inglês)

Crédito da imagem: Divulgação/HeForShe/ONU

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18.12.09

Nós não viemos barganhar

Sei que muitos não esquecem o mensalão do PT, enquanto outros tem a tendência de resumir a culpa de todas as mazelas do Brasil na figura de um único homem, porém há que se admitir que este discurso de Lula ante os chefes de estado do mundo, reunidos na conferência de mudanças climáticas de Copenhagen, a COP15, foi praticamente impecável - tanto que foi o mais aplaudido de todos os discursos de chefes de estado. Enfim, pena que Lula é presidente, e não diplomata:

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30.6.09

O discurso da alma

Textos de Platão em "Fedro" (Editora Martins Claret, tradução de Alex Marins). As notas são de minha autoria.

SÓCRATES - Imagina que alguém expõe por escrito as regras de sua arte e um outro aceita o livro como sendo a expressão de sua doutrina clara e profunda; esse homem seria um tolo, pois, não entendendo a advertência profética de Amon [1], atribuiria a teorias escritas mais valor do que o de um simples lembrete do assunto tratado. Não é assim?

FEDRO - Perfeitamente.

S. - O uso da escrita, Fedro, tem um incoveniente que se assemelha à pintura. Também as figuras pintadas têm a atidude de pessoas vivas, mas se alguém as interrogar conservar-se-ão gravemente caladas. O mesmo sucede com os discursos. Falam das coisas como se as conhecessem, mas quando alguém quer informar-se sobre qualquer ponto do assunto exposto, eles se limitam a repetir sempre a mesma coisa [2]. Uma vez escrito, um discurso sai a vagar por toda parte, não só entre os conhecedores mas também entre os que o não entendem, e nunca se pode dizer para quem serve e para quem não serve [3]. Quando é desprezado ou injustamente censurado, necessita do auxílio do pai, pois não é capaz de defender-se nem de se proteger por si.

F. - Também neste ponto tens toda a razão.

S. - Examinemos agora uma outra espécie de discurso, irmão legítimo dessa eloquência bastarda: vejamos como nasce e quanto ele é superior e mais poderoso que o outro.

F. - A que discurso te referes, e como nasce ele?

S. - Refiro-me ao discurso conscienciosamente escrito com a ciência da alma, ao discurso que é capaz de defender a si mesmo e que sabe diante de quem convém falar e diante de quem é preferível ficar calado.

F. - Estás falando do discurso vivo e animado do homem sábio, do qual todo discurso escrito poderia ser chamado com justiça um simulacro?

S. - Exatamente. Imagina que um agricultor inteligente possua sementes e lhes dá valor, e das quais queira obter frutos. Pensaria tal homem seriamente em plantar suas sementes durante o verão nos jardins de Adônis [4], e gostaria de vê-las desenvolvidas como plantas dentro de oito dias? Seria possível que o fizesse de bom grado, mas simplesmente a título de cerimônia religiosa, por ocasião das festas de Adônis. Quanto às sementes a que deseja dar um fim sério, porém, ele as plantará em solo apropriado, utilizando a sua técnica de agricultor, e ficará contente se a seara lhe der frutos no oitavo mês.

F. - Mas é evidente, Sócrates; como dizes, esse homem faria uma coisa seriamente e a outra com intensões diversas.

S. - Ora, podemos nós dizer que quem possui o conhecimento do justo, do belo e do bom dará às suas sementes um uso menos judicioso do que o camponês?

F. - Não.

S. - Tu bem vês que aquele que conhece o justo, o bom e o verdadeiro não irá escrever na água (locução que equivale a escrever na areia) essas coisas, nem usará uma caniço para semear tais discursos, pois eles se mostrarão incapazes de ensinar eficientemente a verdade.

F. - Provavelmente não fará isso.

S. - Claro que não. Naturalmente, semeará nos jardins literários apenas por passatempo. Se escrever, será na intenção de acumular para si mesmo um tesouro de recordações para a velhice, se chegar até lá; porque os velhos esquecem tudo. Escreverá também para os que caminham na mesma rua com ele, e se alegrará vendo crescer as tenras plantas. E, enquanto outros se divertem em banquetes e prezeres semelhantes, esse homem se recreará com as coisas que mencionei [5].

F. - Mas, Sócrates, estás comparando com divertimentos vulgares a belíssima atividade de um homem que se deleita em escrever discursos sobre a justiça e as outras virtudes!

S. - É verdade, meu caro Fedro! Mas acho muito mais bela a discussão dessas coisas quando alguém semeia palavras de acordo com a arte dialética, depois de ter encontrado uma alma digna para recebê-las; quando esse alguém planta discursos que são frutos da razão, que são capazes de defender por si mesmos e ao seu cultivador, discursos que não são estéreis mas que contém dentro de si sementes que produzem outras sementes em outras almas, permitindo assim que elas se tornem imortais. Aos que as levam consigo, tais sementes proporcionam a maior felicidade que é dado ao homem possuir [6].

F. - Na verdade, isso é muito mais belo.

***

[1] Sócrates acabara de descrever o mito da invenção da escrita pelo deus egípcio Thoth. Este foi repreendido em sua intenção por outro deus egípcio, Amon: "Tu, como pai da escrita, esperas dela com o teu entusiasmo precisamente o contrário do que ela pode fazer. Tal coisa tornará os homens esquecidos, pois deixarão de cultivar a memória; confiando apenas nos livros escritos, só se lembrarão de um assunto exteriormente e por meio de sinais, e não em si mesmos. Logo, tu não inventaste um auxiliar para a memória, mas apenas para a recordação. Transmites aos teus alunos uma aparência de sabedoria, e não a verdade, pois eles recebem muitas informações sem instrução e se consideram homens de grande saber, embora sejam ignorantes na maior parte dos assuntos. Em consequência, serão desagradáveis companheiros, tornar-se-ão sábios imaginários ao invés de verdadeiros sábios".
Sócrates (assim como seu discípulo, Platão) acreditava que a sabedoria não poderia ser passada adiante como "verdades impressas" em algum texto ou discurso, mas que deveria ser despertada na alma das pessoas; até mesmo porque certas verdades não podem ser expressas em palavras, mas somente através da estimulação do logos (razão conectada ao Cosmos) de cada um. No belo final do "Fedro", Sócrates nos dá uma boa pista de como discursar para a alma - é exatamente este trecho que está transcrito acima.

[2] Infelizmente Sócrates não viveu em nossa época, pois ficaria maravilhado com as possibilidades de discursos transmitidos em blogs e afins, onde todos podem comentar e interagir diretamente com o autor, contanto que este realmente frequente o próprio blog. Muito embora, evidentemente, nossa sociedade em sua maioria continue utilizando a web para fins muito menos nobres...

[3] Os discursos não poderem se adaptar a sua audiência. Sócrates defendia que, pessoalmente, o filósofo deveria ser capaz da analisar o conhecimento de cada um, e proferir discursos de acordo com a capacidade de cada ouvinte. Talvez mesmo por isso nunca tenha escrito coisa alguma, tendo sempre preferido transmitir sua sabedoria pessoalmente aos seus discípulos.

[4] Tratava-se de uma festa para o deus Adônis. No início da festa colocavam-se sementes em grandes vazos cheios de terra molhada, para simbolizar o desaparecimento de Adônis; depois expunham-se os vasos à irradiação de um forte calor artificial, o que fazia com que as sementes brotassem em poucos dias. As pequenas plantas que se desenvolviam nos jardins de Adônis eram apresentadas no fim da festa como símbolos da ressurreição desse deus. Naturalmente, tais plantas artificiais eram bonitas, mas caducavam poucos dias depois da festa, sem dar frutos nem sementes. Ou seja, o camponês sábio guardava suas melhores sementes não para a festa, mas para o plantio durável, para que possam germinar e dar frutos reais. Esta é mais uma bela analogia de Sócrates para com o discurso efêmero (atrativo e superficial, mas que não dá frutos) e o discurso durável, talhado para a alma (requer certa reflexão, mas traz o fruto como recompensa).

[5] Sócrates dedicou boa parte da vida a analisar a sabedoria dos homens. E percebeu que exatamente os que se julgavam os mais sábios eram, muitas das vezes, os mais ignorantes. Por isso se utiliza de uma fina ironia em muitas de suas críticas veladas a sociedade da época. Também é preciso lembrar que é muito complexo discernir o que era pensamento genuíno de Sócrates, e o que era interferência de Platão, nessas questões.

[6] Em última instância, a função da filosofia é proporcionar ao homem o contato com tal felicidade. Após o contato, todo filósofo pleno dessa felicidade não terá objetivo mais recompensador do que o de passar tal conhecimento adiante, de modo a que outros também possam alcançar a felicidade. Se há "filósofos" que não fazem isso, é porque nunca alcançaram essa sabedoria, e não exatamente porque creem que a filosofia deva ser uma forma de sofrimento intelectual, ou um conjunto de sistemas e regras do pensar, que servem mais para confundir a mente do que aplainá-la.

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Crédito da foto: camerar (borboleta "adonis blue - lysandra bellargus")

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3.3.09

Stay hungry, stay foolish

Neste discurso proferido para os formandos da faculdade de Stanford, na Califórnia, no ano de 2005, e com legendas em português (vá no botão "CC" e selecione "Traduzir legendas"), Steve Jobs, CEO da Pixar e da Apple, nos dá uma lição de vida em 3 contos e um pequeno lema: "Stay hungry, stay foolish".

Os contos falam sobre ligar os pontos em nosso passado, sobre amor e perda, e sobre a melhor invenção da vida: a morte.

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20.1.09

Discurso de Obama na posse

Segue na íntegra o discurso de Obama na posse da presidência em 20/01/09, talvez um momento a ser lembrado por ainda muito tempo na história. Em negrito, eu destaquei três passagens. (Fonte: O Globo):

"Meus caros concidadãos,

Eu venho aqui hoje humildemente diante da tarefa à nossa frente, grato pelo crédito que vocês me designaram, consciente dos sacrifícios feito pelos nossos ancestrais. Eu agradeço ao presidente Bush pelos seus serviços a nossa nação, assim como pela generosidade e cooperação que ele demonstrou durante o período de transição.

Agora, quarenta e quatro americanos já fizeram o juramento presidencial. Discursos foram feitos durante períodos iluminados de prosperidade e de épocas de paz. Assim como, muitas vezes, o juramento foi feito dentre períodos nebulosos e em meio a tempestades. Nestes momentos, a América progrediu, não simplesmente pela habilidade ou visão daqueles que estavam em altos cargos, mas porque nós, o povo, nos mantivemos fiéis aos ideais do nosso autocontrole, nossa verdade e nossa fundação.

Assim foi feito. Assim deve ser com esta geração de americanos.

Que estamos no centro de uma crise já é conhecido. Nossa nação está em guerra contra uma distante rede de violência e ódio. Nossa economia está se deteriorando, como consequência de ganância e irresponsabilidade de alguns. Mas nosso coletivo falhou em fazer escolhas difíceis e preparar a nação para uma nova era. Casas foram perdidas, empregos se diluíram, empresas desapareceram. Nosso seguro de saúde é muito caro, nossas escolas são muito falhas, e, a cada dia, aparecem evidências de que nossa forma de utilizar energia fortalece nossos adversários e ameaça o planeta.

Estes são os indicadores da crise, com dados e estatísticas. Menos mensurável, mas não menos profunda é a falta de confiança do povo em toda a nação - um medo perturbador de que a queda da América seja inevitável, e de que a próxima geração tenha perdido o seus horizontes.

Hoje eu digo a vocês que os desafios que enfrentamos são reais. Eles são sérios e são muitos. Eles não serão superados facilmente e em pouco tempo. Mas saiba isso, América - eles serão superados.

Hoje nos unimos porque escolhemos a esperança sobre o medo, a união sobre os conflitos e a discórdia.

Hoje proclamamos um fim ao pequeno descontentamento, às falsas promessas, à recriminação e aos princípios morais desgastados, que por muito tempo prejudicaram a nossa política.

Nós continuamos sendo uma jovem nação, mas nas palavras da Bíblia, a hora chegou para afastar as infantilidades. Chegou o momento de reafirmar o espírito duradouro; de escolher uma história melhor; de continuar a transmitir o dom, a nobre idéia, que passamos de gerações a gerações: a promessa de Deus de que todos somos iguais, livres, e de que todos merecemos a chance de ter a felicidade.

Ao reafirmar a grandeza da nossa nação, entendemos que a grandeza nunca é um presente. Ela deve ser merecida. A nossa jornada nunca foi de corte de caminho ou de contentamento por menos. Ela não tem sido um caminho de covardes - aqueles que preferem o lazer ao trabalho, ou procuram apenas os prazeres da riqueza e da fama. Em vez disso, tem sido o caminho dos que arriscam, dos que fazem, dos que produzem - alguns reconhecidos, mas muitos frequentemente escondidos pelo trabalho, que nos levam distante, por longas estradas de prosperidade e liberdade.

Por nós, levaram suas poucas posses materiais e viajaram por oceanos em busca de uma nova vida.

Por nós, trabalharam em condições sub-humanas e se estabeleceram no Oeste; suportaram chicotadas e lavraram a dura terra.

Por nós, combateram e morreram, em lugares como Concord e Gettysburg, Normandia e Khe Sanh.

Continuamente estes homens e mulheres lutaram, se sacrificaram e trabalharam até as mãos ficarem ásperas para que pudéssemos viver uma vida melhor. Eles enxergaram a América maior do que a soma de nossas ambições, maior do que todas as diferenças de origem, riqueza ou facção.

Este é a jornada que continuamos hoje. Continuamos a ser a mais próspera, poderosa nação na Terra. Os nossos trabalhadores não são menos produtivos do que eram quando a crise começou. Nossas mentes não são menos inventivas, os nossos produtos e serviços não são menos necessários do que eram na semana passada, mês passado ou no ano passado. Nossa capacidade permanece intacta. Mas não há mais tempo para proteger interesses mesquinhos ou protelar decisões desagradáveis - esse tempo certamente passou. A partir de hoje, nós devemos levantar, sacudir a poeira e começar a trabalhar pela reconstrução dos Estados Unidos.

Para onde quer que olhemos, há trabalho a ser feito. O estado da economia exige ação, arrojada e rápida, e não vamos agir só para criar novos postos de trabalho, mas para estabelecer novas bases de crescimento. Vamos construir estradas, pontes, redes elétricas e linhas digitais que alimentam nosso comércio e nos unem. Vamos pôr a ciência no lugar certo e usar as maravilhas tecnológicas para aumentar a qualidade e baixar o custo do sistema de saúde.

Vamos usar o sol, os ventos e o solo para abastecer nossos carros e fazer funcionar nossas fábricas. E nós vamos transformar nossas escolas, colégios e universidades para satisfazer as demandas de uma nova era.

Tudo isso podemos fazer. E tudo isso faremos.

Agora, existem aqueles que questionam a amplitude da nossa ambição - os que sugerem que nosso sistema não pode tolerar tantos grandes planos. A memória deles é curta. Eles esqueceram o que este país já fez, o que homens e mulheres livres podem alcançar quando a imaginação é acompanhada por uma proposta comum, necessidade e coragem.

O que os cínicos não entendem é que a terra tem mudado debaixo deles - que os argumentos políticos que nos consumiram por tanto tempo não se aplicam mais.

A pergunta que fazemos hoje não é se nosso governo é demasiado grande ou pequeno, mas se ele funciona, se ele ajuda as famílias a encontrarem trabalho com um salário decente, saúde que eles possam pagar, uma aposentadoria digna.

Onde a resposta for sim, nós queremos seguir em frente. Onde a resposta for não, os programas deverão acabar. E aqueles que gerenciam o dinheiro público serão cobrados - para gastar de forma inteligente, mudar maus hábitos, e fazer seu trabalho às claras - porque só assim poderemos restaurar a confiança da população no seu governo.

A questão para nós tampouco é se o mercado é uma força para o bem ou para o mal. Seu poder de gerar riqueza e expandir a liberdade é inigualável, mas essa crise nos faz lembrar de que, sem um olhar atento, o mercado gira fora de controle - e de que a nação não pode ter sucesso quando favorece apenas os prósperos. O sucesso de nossa economia sempre dependeu não somente do tamanho de nosso Produto Interno Bruto, mas no alcance de nossa prosperidade em nossa habilidade de estender as oportunidades a todos os corações - não por caridade, mas porque é o caminho mais certo para um bem comum.

No caso de nossa defesa, rejeitamos como falsa a escolha entre nossa segurança e nossos ideais. Nossos pais fundadores, que encararam o perigo que nós imaginamos, traçaram um carta para assegurar as regras das leis e dos direitos do homem, expandida pelo sangue das gerações. Esses ideais ainda iluminam o mundo, e não vamos desistir deles pela diligência. Então, para todas as outras pessoas e governos que nos assistem hoje, das grandes capitais ao pequeno vilarejo onde meu pai nasceu: saibam que a América é uma amiga de cada nação e cada homem, mulher, e criança, e que pede um futuro de paz e dignidade, e estamos prontos para liderar mais uma vez.

Lembrem que as outras gerações encararam o fascismo e o comunismo não somente com mísseis e tanques, mas com sólidas alianças e firmes convicções. Eles entenderam que apenas o nosso poder não pode nos proteger, nem nos dá os direitos que gostaríamos. Em vez disso, eles sabiam que o nosso poder cresce através de nossa prudência; que nossa segurança vem da justiça da causa, a força de nosso exemplo, da nossa qualidade de moderação, da humildade e da contenção.

Somos os guardiões de nosso legado. Guiados novamente por esses princípios, poderemos enfrentar novas ameaças que exigem um esforço ainda maior - uma cooperação ainda maior e de entendimento entre as nações. Nós começaremos a deixar o Iraque com responsabilidade ao seu povo, e mostrar uma paz duramente obtida no Afeganistão. Com velhos amigos e antigos adversários, nós trabalharemos exaustivamente para reduzir a ameaça nuclear, e fazer retroceder o fantasma de um planeta que está se aquecendo.

Não vamos nos desculpar por nosso estilo de vida, nem vamos vacilar em defendê-lo. E para aqueles que pretendem atingir os seus objetivos com o fomento do terror e a matança de inocentes, dizemos que o nosso espírito é mais forte e não pode ser rompido; não podem durar mais do que nós, e vamos vencê-los.

Porque sabemos que nossa herança é a força, não uma fraqueza. Nós somos uma nação de cristãos e mulçumanos, judeus e hindus - e incrédulos. Nós somos moldados por todas as línguas e culturas, traçados por todos os cantos desta Terra; porque provamos um pouco dos detritos da guerra civil e da segregação e emergimos deste capítulo negro mais unidos; não podemos deixar de acreditar que antigos ódios vão um dia desaparecer; que as linhas das tribos vão em breve se dissolver; que o mundo crescerá um pouco e que a humanidade deverá se reavaliar; e que a América terá seu papel em liderar uma nova era paz.

Ao mundo muçulmano, nós esperamos um novo caminho, baseado no mútuo interesse e no mútuo respeito. Aos líderes em volta do globo que desejam espalhar o conflito, ou levar sua sociedade à desgraça - saiba que seu povo irá julgá-lo por aquilo que construir, não pelo que destruir. Àqueles que chegam ao poder através da corrupção, da fraude e do silêncio de seus oponentes, saiba que você está indo para o lado errado da história; mas nós estenderemos a mão se você desejar abrir o punho.

Para o povo das nações pobres, nós prometemos trabalhar juntos para fazer suas fazendas florescerem e deixar suas águas limpas correrem; nutrir corpos famintos e alimentar mentes ávidas. E àquelas nações como a nossa que aproveitam relativa abundância, dizemos que não podemos mais arcar com a indiferença ao sofrimento fora de nossas fronteiras; nem consumir as fontes mundiais sem levar em consideração seus efeitos. Porque o mundo mudou, e devemos mudar com ele.

Quando avaliamos a estrada que se desvela a nossa frente, lembramos com humilde gratidão aqueles bravos americanos que, neste momento, patrulham longínquos desertos e montanhas distantes. Eles têm algo para nos dizer hoje, assim como os nossos heróis que descansam em Arlington sussurram através das eras. Nós os honramos hoje não apenas porque são os guardiões de nossa liberdade, mas porque eles incorporam o espírito de servir; um desejo de encontrar significado em algo grandioso para eles próprios. E agora, neste momento - um momento que definirá uma geração - é precisamente este espírito que deve habitar em todos nós.

Para aquilo que um governante pode fazer e deve fazer, é, no final das contas, a fé e determinação do povo americano sobre esta nação que conta. É a bondade de ajudar um estranho em uma inundação, a abnegação de trabalhadores que aceitam reduzir suas horas de trabalho para não ver um amigo perder um emprego nas piores horas. É a coragem de um bombeiro subir a escada cheia de fumaça, e também o desejo de um pai em alimentar um filho, que, no fim, decide nossos destinos.

Nossos desafios podem ser novos. Nossos instrumentos que encontramos agora podem ser novos. Mas aqueles valores sobre os quais nosso sucesso depende - trabalho duro e honestidade, lealdade e patriotismo - estes são antigos. Estes são verdadeiros.

Eles foram a força silenciosa do progresso por toda nossa história. O que é exigido agora é o retorno para estas verdades. O que é pedido de todos nós é uma nova era de responsabilidade - um reconhecimento, por parte de toda América, que nós temos responsabilidade conosco, com nossa nação e com o mundo, responsabilidade que não aceitamos rancorosamente, mas que agarramos com satisfação, sólidos no conhecimento que não há nada tão satisfatório para o espírito, tão definitivo do nosso caráter, do que dar o máximo à nossa difícil tarefa.

Este é o preço e a promessa aos nossos cidadãos.

Esta é a fonte de nossa confiança - o saber que Deus nos chama para moldar um destino incerto.

Este é o significado da nossa liberdade e do nosso credo - porque homens, mulheres e crianças de todas as raças e todas as crenças devem se unir em celebração através desta magnífica avenida, e porque um homem, cujo pai, há mais de sessenta anos trabalhou num restaurante local, pode agora vir à frente de vocês fazer o mais sagrado juramento.

Então vamos marcar este dia na memória de quem somos e até onde viajamos. No ano do nascimento da América, nos meses mais frios, um pequeno grupo de patriotas aconchegava-se no campo de batalhas, nas margens de rios gélidos. A capital estava abandonada. O inimigo avançava. A neve estava manchada de sangue. No momento em que o resultado de nossa revolução estava em dúvida, o pai de nossa nação disse estas palavras para o povo:

"Que o futuro saiba(...) que no mais profundo inverno, quando nada, a não ser a esperança e a virtude poderiam sobreviver(...) que a cidade e campo, alarmados com o perígo, seguiram adiante para encontrá-lo".

América, frente a frente com os perigos, neste rigoroso inverno, vamos nos lembrar destas palavras eternas. Com esperança e virtude, vamos enfrentar mais uma vez a correnteza gelada, e suportemos as tempestades que possam vir. Que os filhos de nossos filhos digam que quando fomos postos à prova, nos recusamos a permitir que esta viagem terminasse, que não demos as costas e nem vacilamos; e com os olhos voltados para o horizonte e com a graça de Deus sobre nós, transmitimos o grande dom de liberdade e o transmitimos a salvo para as futuras gerações.

Obrigado, que Deus os proteja e que Deus salve a América."

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