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26.5.10

Navegar é preciso

Poema de Fernando Pessoa

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso."

Quero para mim o espírito desta frase, transformada
A forma para a casar com o que eu sou: Viver não
É necessário; o que é necessário é criar.

Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande, ainda que para isso
Tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso
Tenha de a perder como minha.

Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho
Na essência anímica do meu sangue o propósito
Impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
Para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.


***

Comentário
Além de interpretar seus diversos heterônimos, Pessoa era também mestre em interpretar palavras e simbolismos, de modo que muitas de suas poesias têm vários graus de interpretação – geralmente (mas não necessariamente) um mais profundo do que o outro, como nesse caso.

Esta é a origem da frase citada no poema: "Navigare necesse; vivere non est necesse" - latim, frase de Pompeu, general romano, 106-48 aC., dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra (cf. Plutarco, in Vida de Pompeu).

A primeira interpretação que muitos chegam, principalmente em focando somente a frase e não o contexto do poema, é a de que navegar, explorar o mundo ou até mesmo ser um guerreiro disciplinado é mais importante do que viver uma vida rotineira, sedentária e monótona.

A segunda interpretação envolve um olhar das entrelinhas da etimologia do jogo de palavras nesta frase. Nesse caso, navegar é preciso no sentido de ser uma atividade, uma ciência precisa; Já viver não é preciso no sentido de que a vida envolve não somente o lado racional, como também o emocional e o espiritual – viver não é nem nunca será, portanto, uma atividade precisa. Viver é deliciosamente ou terrivelmente impreciso, dependendo dos olhos de quem vê.

A interpretação derradeira e mais profunda (na minha opinião é claro) no entanto envolve parte do conceito das interpretações anteriores, com algo a mais. Pessoa quis dizer que para engrandecer sua pátria e colaborar com a evolução da humanidade, não lhe é necessário viver a vida egoisticamente como se esta fosse somente sua, e sim dedicar a vida – ou “perdê-la” – em prol da humanidade como um todo (sua pátria é o mundo e não Portugal).

Qualquer semelhança com alguns ensinamentos de Jesus não é mera coincidência. Mas além disso podemos ir um pouco mais além: a vida continua sendo imprecisa, mas navegar pelo oceano do mundo é mais necessário do que viver ancorado a sua aldeia (e dogma) local. O misticismo de sua Raça (com “R” maiúsculo) não é o misticismo dos portugueses ou dos homens de “raça branca” (na verdade raça não existe, apenas a espécie homo sapiens), mas o misticismo dos grandes sábios – esses que, como desejava Pessoa um dia o ser, viveram não para si, mas para toda a sua Raça.

***

Crédito da foto: jazz dalek

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10 comentários:

Anonymous Pedro disse...

Curti esse post, mesmo mais curtinho!

Abraço!

28/5/10 15:30  
Blogger Priscila Chakoski disse...

Adorei, me esclareceu muito! Parabéns

11/11/13 00:46  
Anonymous Anônimo disse...

Nada disso: Pessoa reproduziu uma frase antiga que dizia que navegar exigia precisão, enquanto a vida, ao contrário, não é assim. Nunca se sabe onde a vida nos leva, pois não há precisão no viver.

3/12/14 15:05  
Blogger raph disse...

Você se refere a uma das interpretações que constam no texto. Não sei se chegou a ler o texto, mas enfim, segue o trecho novamente:

"A segunda interpretação envolve um olhar das entrelinhas da etimologia do jogo de palavras nesta frase. Nesse caso, navegar é preciso no sentido de ser uma atividade, uma ciência precisa; Já viver não é preciso no sentido de que a vida envolve não somente o lado racional, como também o emocional e o espiritual – viver não é nem nunca será, portanto, uma atividade precisa. Viver é deliciosamente ou terrivelmente impreciso, dependendo dos olhos de quem vê."

Abs
raph

4/12/14 10:41  
Blogger mago romario disse...

Parabéns. As mesma interpretações que tive. É um verso muito amplo. Alguns não entendem a grandeza que uma simples frase contém e se limitam em interpreta-la. Poesia, jovens!

25/4/15 11:31  
Anonymous Anônimo disse...

Não é um poema de Fernando Pessoa. Isto «Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: "Navegar é preciso; viver não é preciso."» não é do poeta, e o mais é prosa sua, que um idiota qualquer transformou em má poesia.

20/9/15 12:55  
Blogger raph disse...

Olá Sr. Anônimo, você se dignou a fazer uma pesquisa de trechos da poesia pela internet? Se tivesse tentado, iria achar centenas ou milhares de resultados e, o que é mais importante, a poesia constando no site oficial do Domínio Público brasileiro, o que atesta que a poesia é de autoria de Fernando Pessoa:

http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/jp000001.pdf

Mas uma coisa você tinha razão, a frase "Navegar é preciso; viver não é preciso." não é mesmo de Pessoa, como ele aliás deixa bem claro no início do poema, atribuindo a autoria a "navegadores antigos". Na realidade, Plutarco atribui a frase a um antigo general romano, chamado Pompeu (196 - 48 a.C.)

Abs
raph

21/9/15 09:46  
Blogger raph disse...

Outra fonte do poema com credibilidade, num dos maiores arquivos online da obra de Fernando Pessoa (com tradução para o espanhol ao lado do original em português):

http://www.fpessoa.com.ar/poesias.asp?Poesia=036

21/9/15 09:49  
Blogger Man Filho disse...

Ótima reflexão, obrigado :)

14/10/15 16:01  
Blogger Kendy disse...

Muito elucidativo seu texto. Obrigado.

7/12/15 14:39  

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