Pular para conteúdo
27.6.26

Lançamento: Emily Dickinson - Poemas de amor e de morte

As Edições Textos para Reflexão retornam à poesia com a maior poeta da língua inglesa.

Uma mulher que viveu sua vida numa sociedade profundamente patriarcal e conservadora, autora de poemas que exploram temas universais como o amor, a morte, a natureza, a eternidade, a dúvida religiosa e a consciência individual de uma forma extraordinariamente original e, por que não dizer, mística: eis o grande mistério em torno de Emily Dickinson. Esta edição traz uma seleção dos seus poemas mais profundos.

A nova tradução de Rafael Arrais já está disponível na Amazon, em e-book, e também na versão impressa:

Comprar eBook (Kindle) Comprar livro (Amazon) Comprar livro (Clube de Autores)

» Saiba mais sobre Emily Dickinson no Epílogo da edição: O mistério de Amherst


Marcadores: , , , , ,

25.6.26

O mistério de Amherst

A Natureza é a mais elevada das artes
Apenas ver o céu de verão já é poesia

Se leio um livro e isso deixa todo o meu corpo tão gélido
Que não há fogo que posso aquecê-lo,
Sei que isso é poesia
Se sinto, fisicamente,
Como se o topo da minha cabeça fosse arrancado,
Sei que isso é poesia –
Essas são as únicas maneiras de saber –
Haverá outra?


No século XIX, Amherst era uma pequena cidade cerca de 150 km ao oeste de Boston, cuja população girava em torno de 2 a 4 mil habitantes. Nessa época, a vida do cidadão médio era marcada por uma combinação de trabalho agrícola, religiosidade protestante intensa, forte valorização da educação e uma vida social relativamente restrita para os padrões atuais. A maioria das famílias dependia direta ou indiretamente da agricultura, e os dias de trabalho começavam cedo, muitas vezes antes do nascer do sol.
No entanto, o nível de alfabetização e interesse pela leitura era consideravelmente elevado se comparado à cidades norte-americanas do mesmo porte. A cidade contava com instituições de peso, como o Amherst College, fundado em 1821, e posteriormente a Universidade de Massachusetts Amherst, fundada em 1863. Além da Bíblia, muitos dos seus cidadãos eram versados nas obras de William Shakespeare, John Milton, Ralph Waldo Emerson e Henry Wadsworth Longfellow.
Isso pode explicar, quem sabe, o surgimento de um grande poeta numa cidadezinha tão modesta. Certamente ele teria viajado bastante, quiçá rumo a outros continentes, para compensar a falta de diversidade cultural em sua cidade natal. Talvez fosse um agitador social, presente em saraus de poesia em Boston e outras grandes cidades de sua época.
Mas que esse poeta tenha vivido toda a vida em sua própria região, que nunca tenha participado de saraus públicos, movimentos culturais, tampouco tido algum livro de poemas publicado em vida – e que, ainda por cima, tal poeta tenha sido recluso e isolado em sua própria residência por boa parte da vida, e que seja lido e reconhecido até hoje como um dos maiores poetas da língua inglesa e, além de tudo isso, que seja uma mulher, uma mulher que viveu sua vida numa sociedade profundamente patriarcal e conservadora, autora de poemas que exploram temas universais como o amor, a morte, a natureza, a eternidade, a dúvida religiosa e a consciência individual de uma forma extraordinariamente original e, por que não dizer, mística: eis o grande mistério em torno de Emily Dickinson.


Viver é tão surpreendente que deixa pouco espaço para outras ocupações.


Nascida em 10 de dezembro de 1830, Emily era filha de um proeminente família de região. Tanto seu pai quanto seu avô foram advogados de renome. Ela sempre viveu ao lado da família, a quem era muito apegada: os pais, o irmão Austin e a irmã Lavinia que, assim como ela, nunca se casou. A irmã foi também uma de suas grandes amigas ao longo da vida, e após sua morte tornou-se a guardiã de sua obra poética – sem Lavinia, dificilmente o mundo conheceria Emily Dickinson.
Nossa poetisa sempre demonstrou uma grande sagacidade aliada a um temperamento espirituoso, muitas vezes irônico, e uma forte tendência à introspecção e a solitude. Estudou até os 17 anos num seminário para moças, onde foi uma aluna brilhante, sendo versada em inglês, latim, história, geografia, matemática e, principalmente, botânica, pois era grande amante das flores. Com exceção de algumas viagens a Boston e outras cidades da região, Emily passou praticamente a vida toda na mesma residência onde nasceu, chamada “The Homestead” – uma mansão bela e espaçosa, hoje transformada no Emily Dickinson Museum.
Lá ela tinha o seu quarto, um cômodo relativamente simples, com uma pequena mesa de canto iluminada por um lampião, onde escreveu, quase sempre à noite, após encerrar as tarefas domésticas, centenas de poemas que entraram para a história. Isso também se explica pelo seu grande interesse pela leitura, aliado ao fato do pai possuir uma grande biblioteca que estava sempre à disposição. Emily era especialmente versada na Bíblia e na obra de Shakespeare, mas também admirava Charles Dickens, George Eliot e as irmãs Brontë. Na poesia, teve contato com Ralph Waldo Emerson, William Blake, John Keats e Elizabeth Browning. Todavia, seus poemas não parecem ter influência direta de nenhum deles, sendo talhados com extrema originalidade, o que decerto a ajudou a ser lida e reconhecida até os dias atuais.

E assim, com essa sabedoria, orei –
Grande Espírito, dá-me
Um Céu não tão grande quanto o teu,
Mas grande o suficiente para mim


Durante toda a sua vida teve menos de dez poemas publicados, todos enviados a jornais por pessoas da família, sem o nome da autora. Logo de cara, ao verificar que alguns de seus poemas foram impressos com “melhorias” e “correções” editoriais, Emily desistiu de publicá-los como livro, e passou a enviá-los, por correspondência, somente aos seus amigos mais próximos – mesmo que fossem apenas amigos das letras, isto é, cujo contato com a poeta se dava quase sempre pela via das cartas.
Quanto aos casos amorosos, fossem ou não platônicos, ela sempre os manteve em segredo, embora os vivenciasse intensamente. Seja como for, as suposições acerca de sua vida amorosa são baseadas tão somente nas cartas que ela enviou e que foram parcialmente recuperadas ao longo do tempo, já que todas as cartas que ela recebeu de seus correspondentes foram queimadas pela irmã após sua morte, atendendo seu desejo expresso. Dito isso, parece certo que chegou a ter diversos flertes na juventude, e que na maturidade três homens lhe despertaram um forte sentimento. Eram todos casados, mais velhos, figuras que ela admirava: um ministro presbiteriano, o editor de um jornal e um juiz. Com os três a poeta manteve correspondência por muitos anos, e num e noutro ano, deram-se até mesmo raras visitas pessoais. O terceiro, o juiz Otis Lord, um grande amigo de seu pai, ficou viúvo e teve um romance de poucos meses com Emily. Ao que tudo indica, em 1882 ele a pediu em casamento, mas ela recusou, pois isso a obrigaria a mudar-se de Amherst. Dois anos depois, o juiz faleceu.
Também são bastante evidentes os sinais apaixonados nas dezenas de “cartas poema” (letter poems) que ela enviou à sua grande amiga Susan Dickinson, casada com seu irmão Austin. Susan, uma mulher culta e inteligente, em geral era a primeira a receber os poemas de Emily, sendo também a sua principal crítica literária. Esse diálogo duradouro entre as duas foi essencial para o processo criativo e o crescimento intelectual da autora.


Derramei o orvalho –
Mas colhi a flor da manhã –
Escolhi esta estrela:
Única dentre a Noite Imensa –
Sue - para sempre Sue!


Emily amava a Natureza e não se cansava de tentar colocar tal sentimento em palavras. Com seu conhecimento de botânica, cultivava flores numa estufa com tanta dedicação que havia sempre alguma espécie em floração, inclusive no inverno. Na companhia de seu cão Carlo, costumava passear pelos jardim da propriedade da família, o que sem dúvida a inspirava na escrita noturna.
Embora criada no Puritanismo, seus poemas demonstram aversão aos dogmas religiosos mais limitantes. Ao mesmo tempo, era evidente o fervor de sua religiosidade íntima, captada tantas vezes em seus versos mais arrebatadoramente místicos. Emily não se furtava de falar com profundidade tanto do Céu quanto do Inferno.


E se você fosse salva,
E eu condenada a estar
Onde você não estivesse,
Isso já seria o Inferno para mim.

Com a morte de seu cão, um companheiro diário por dezesseis anos, cessaram seus passeios pelos jardins, e Emily se tornou cada vez mais reclusa na própria casa, no próprio quarto, protegida pela irmã e pela criada da família.
Essa tendência à reclusão já havia se manifestado desde seus vinte e poucos anos, mas foi gradualmente se agravando diante da perda de diversas pessoas queridas. Já aos quatorze anos havia perdido uma prima e grande amiga, Sophie, da mesma idade. Ela perdeu o pai em 1874 e poucos anos depois, foi obrigada a testemunhar o adoecimento da mãe, até sua morte em 1882. Aliás, num curto período de alguns anos, a poeta perdeu a mãe, o querido sobrinho Gilbert, de meros 8 anos, uma grande amiga de infância, Helen Hunt Jackson, e ainda o juiz Lord, com quem quase se casou.
De fato, em sua época, anterior à penicilina e o saneamento básico, a morte era um espectro constante em torno dos vivos. Mesmo nas classes mais abastadas era comum morrer de acidentes, de parto, malária, tuberculose, tifo etc. Portanto, não é de admirar que Emily dialogasse constantemente com a morte e a imortalidade da alma em seus poemas. Em alguns deles, a Morte se torna uma espécie de personagem mitológica, uma semideusa, ou quem sabe um aspecto de Deus.


Porque eu não pude parar para a Morte –
Ela gentilmente parou para mim –
A carruagem levava apenas nós dois –
E a Imortalidade.


Em 1886, aos 55 anos e após dois anos de declínio de sua saúde, a poeta tomou a Carruagem. Morreu em sua cama, no mesmo cômodo onde teceu sua poesia, cuidada por Lavinia e Susan. O atestado de óbito menciona nefrite, mas pelos sintomas que ela descrevia, como desmaios e forte dores na nuca, hoje suspeita-se que fosse hipertensão. Seja como for, e medicina de sua época seria incapaz de salvá-la.
Ao organizar seus pertences, sua irmã Lavinia ficou surpresa ao encontrar, numa gaveta, centenas de poemas reunidos em 40 livretos manuscritos – uma produção desconhecida até mesmo da família. Assim, como Emily fez Lavinia jurar que queimaria todas as cartas recebidas pela irmã, mas nada disse sobre sua poesia, seguiu-se uma verdadeira epopeia da compilação de todos os seus poemas, inclusive os que foram remetidos por cartas aos amigos, que eventualmente também se tornaram seus primeiros editores.
Em 1890, quatro anos após sua morte, foi publicada a primeira seleção preparada por Todd e Higginson: Poems, com 115 poemas. Este pequeno livro alcançou um surpreendente sucesso de crítica e de público, esgotando onze reimpressões em dois anos. Na sequência, os mesmos editores lançaram mais duas coletâneas, Poems, Second Series (1891) e Poems, Third Series (1896).
Hoje amplamente reconhecida como uma das maiores poetas da língua inglesa, senão a maior, Emily Dickinson seguiu o mesmo caminho de outros grandes autores clássicos que foram muitas vezes ignorados em sua própria época, mas cuja obra venceu o tempo e veio a se tornar imemorial.
Ficou famosa a carta em que Emily faz uma pergunta ao “Sr. Higginson”, seu futuro editor:


O senhor (...) pode me dizer se o meu Verso está vivo?
A Mente está, ela própria, tão próxima – não pode ver com clareza – e não tenho a quem perguntar –
Se o senhor achar que respira – e puder me dizer – eu sentiria imediata gratidão.


Hoje podemos constatar que o seu Verso, minha amiga, segue mais vivo do que nunca!

 

(em breve as Edições Textos para Reflexão vão publicar uma seleção dos melhores poemas de Emily Dickinson... aguardem!)

***

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Emily Dickinson em forografia da época, colorizada por computador); [ao longo] Google Image Search (Amherst no século XIX; Emily Dickinson em sua mesa de escrita)

Marcadores: , , , , ,

17.1.26

Manual de Canto

Às vezes me pego perguntando
por que será que as criancinhas
brincam de construir castelos de areia
tão perto do mar?

Afinal, para que será que servem
em seu esplendor fugidio?

No entanto, lá estão elas
entusiasmadas, cheias de sorrisos,
contemplando seus portões de conchas,
suas janelas de pedrinhas,
seu palácio inteiro,
que não durará além desta tarde.

 

Depois de vir tanto nessa praia,
eu já não me pergunto se isso tudo
serve para alguma coisa ou não:
me pergunto, isto sim,
quais são os castelos de areia
que construímos na vida adulta.

Será que somos mesmo capazes,
como as criancinhas,
de olhar para nossas obras e conquistas
como o mesmo entusiasmo,
a mesma cintilação perene
de um brincadeira que é brincada agora,
e não além desta tarde?

Pois que é a vida,
senão o dia que virará tardinha?
E que é a morte,
senão a noite que antecede
um novo dia?


“Mas eu temo a morte.”

“Por quê?”

“Porque me aflige imensamente
saber que um dia não serei mais eu.”

“Então faça como os construtores
de castelos de areia,
que não se importam em ser lembrados
pela sua magnífica arquitetura;
sabe por quê?”

“Não, me diga, mevlana...”

“Por que estão entusiasmados demais,
preenchidos demais,
para pensar em ter um ‘eu’:
isso sequer faz algum sentido
para quem vive tão perto do mar.”


Às vezes me pego lembrando
do som que as ondas fazem
quebrando suavemente na beira,
e então não preciso mais pensar em nada...


“Por que esse poema é tão estranho?
Quem são essas pessoas dialogando?”

“Bem, tudo o que posso dizer é que
essa é a maneira sufi de recitar,
querer ir além disso
seria como entregar
um Manual de Canto
para um rouxinol.”


raph'26

***

Crédito da imagem: Kits Unger/unsplash

Marcadores: , , , , , ,

16.9.25

Existe algo

Existe algo, e não nada:
eu não preciso de mais do que isso.

Ainda que nossa vida seja uma insignificância,
um pequeno milagre
que fez do inorgânico algo orgânico
nas profundezas de um oceano primordial
deste planetinha a girar em torno de uma estrela
na periferia de uma entre trilhões de galáxias,
ainda assim somos algo,
e não nada.

Ainda que realmente não tenhamos a decisão final,
ainda que nossos desejos, vontades e consciência
sejam mero devaneio de alguém que sonha desperto,
e acredita que segura as rédeas
do próprio sonho,
ainda assim sonhamos,
ainda assim somos algo,
e não nada.

Ainda que todos esses anjos e demônios
sejam mero fruto da imaginação;
ainda que uns digam que Deus é a cauda do elefante,
e outros, que é a tromba,
e outros, que são as orelhas, as presas, as patas,
ainda assim, imaginados ou não,
anjos, demônios e elefantes são algo,
e não nada.

Portanto, meu amigo,
eu sou da filosofia de que há esta única certeza,
e nenhuma outra:
eu não preciso de mais do que isso.

E ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte,
não temerei mal algum,
pois que algo está comigo,
e eu mesmo sou formado por algo,
e eu mesmo, quando já não for mais “eu”,
ainda serei algo.
E, para ser bem franco,
até mesmo o vale, a sombra e a morte
são algo, e não nada.

“Algo”: alguma coisa indeterminada;
qualquer coisa;
todas as coisas.

Portanto, meu amigo,
se você me acompanhou até aqui,
deve ter percebido que precisamos consertar
o início do poema...

Existe algo:
eu não preciso de mais do que isso;
pois não preciso negar
aquilo que não existe, existiu ou existirá.


raph'25

***

Crédito da imagem: Photos by Beks/unsplash

Marcadores: , , , ,

7.8.25

Pequeninos

Quando eu era pequenino,
achava que era Cristo.

Quem nunca?
Você não?
Então deixe-me explicar melhor:

Meu Cristo não estava pregado numa cruz dourada,
não decorava gabinetes nem parlamentos,
não servia de escudo para os homens de bem,
não justificava preconceitos nem atrocidades –
o meu Cristo
era o Cristo dos pequeninos.

Esses que sobem em árvores
e lançam somente pipas aos céus;
esses que não contam nem dias nem horas,
e quando têm algum dinheirinho,
torram tudo em balas e figurinhas;
esses que montam times de futebol
em qualquer pedaço de terra,
com qualquer outro pequenino que apareça.

Pois é importante dizer isso deles:
eles não julgam,
não são bons nem maus,
e jamais, jamais
falam em nome do Pai.

Quando eu era pequenino,
achava que era Cristo,
pois que vivia sempre junto dele...

Um dia cresci, e me perdi,
e achei que estava redondamente enganado.
Mas o mais interessante da coisa toda
é que eu não estava!

Depois de muito tempo,
percebi o que o Rabi quis dizer com
“venham a mim os pequeninos,
pois é deles o Reino dos Céus.”

Então descobri que eu realmente fui Cristo,
um Cristo pequenino,
como são pequeninas e sem importância para este mundo
todas as coisas do lado de lá,
do lado que realmente importa,
da vida que verdadeiramente levamos,
ainda que nossa alma esteja tão embaçada.

Quando eu era pequenino,
achava que era Cristo;
hoje sei que não somente eu,
como todos os demais pequeninos
sempre fizemos parte dele,
e ele de nós –
hoje sei que toda a extensão do meu Caminho
reside em voltar a ser
um pequenino.


raph'25

***

Crédito da imagem: Katharina Kammermann/unsplash

Marcadores: , , , ,

20.5.25

O resto é rio

Ainda me lembro de quando todos nós
sentávamos à mesa da matriarca
para celebrar o nascimento de um deus.
“Deus” ali era o de menos, era só uma palavra;
o fato é que estávamos ali para celebrar
o amor de um pelo outro,
a vida compartilhada, as memórias
e o tempo: isto sim
era Divino.

Ainda me lembro de quando esta nossa comunidade
tinha tempo para estar junta, realmente unida,
nem que fosse uma única noite do ano.

Ainda me lembro de quando nos olhávamos nos olhos,
sem o risco de sermos subitamente interrompidos
por alguma notificação em nossa tela.

Ali, naquela época, havia tempo
para não pensarmos em tempo perdido.
Ali, naquela vida, havia sentido suficiente
para não pensarmos em busca de sentido.
Ali, naqueles dias, não vendíamos nossos minutos,
e toda a arte que apreciávamos era só arte,
não um produto.

E hoje, hoje não sei se vivemos,
acho que somos pautados:
a pauta do dia está lá, em nossa tela,
desde o momento em que abrimos os olhos,
dia após dia.

Hoje nós somos como nossa tela,
sem um tempo que seja só nosso,
sem saber o que somos ou seremos,
e sem querer saber.
Antes nós chegávamos a nos conhecer
pelo desassossego,
mas agora existimos assim,
profundamente sossegados
em nosso próprio aparelho mágico.

E é até engraçado de pensar,
mas não há mágica nenhuma nisso:
somos pautados pelos algoritmos,
e muitos de nós sequer sabem
o que diabos eles são.

Um dia chegamos a crer de pés juntos
que tempo é realmente dinheiro,
e que um crescimento exponencial de recursos
caberia dentro de um planetinha como este.
Um dia realmente achamos que o lucro por si só
resolveria todos os nossos problemas;
e, o que é pior, que a riqueza individual
traria um benefício coletivo.

Não poderia dar certo, e não deu.
Mas até mesmo o fim do mundo, vejam só,
até mesmo ele virou um produto...

Já há muitos filmes e bestsellers sobre o fim dos dias,
que tal um que fale do início de um novo tempo,
bem aqui, bem agora?

Tudo bem, tudo bem,
eu sei que este poema está ficando longo demais,
que está tomando o seu tempo precioso,
mas seja como for, me permita encerrar
com um pensamento:

Tudo o que você tem realmente de se preocupar
é em refletir sobre o que você veio fazer aqui,
neste tempo onde tudo gira
e nada está parado:
esta é a sua âncora,
o resto é rio.


raph'25

***

Crédito da imagem: Manu Mateu/unsplash

Marcadores: , , ,

12.3.25

Lançamento: Hafiz - A gargalhada de Deus

As Edições Textos para Reflexão retornam à poesia sufi.

Mesmo tendo vivido no séc. XIV, Hafiz de Shiraz é até hoje um dos mais célebres poetas persas, cujos poemas capturaram os corações e as mentes de inúmeras pessoas ao longo dos séculos. Sua coleção de poemas acerca do amor rivaliza tão somente com Rumi em termos de popularidade e influência.

Após ter se aventurado a traduzir os poemas de Rumi e Omar Khayyam, era inevitável que Rafael Arrais chegasse a outro grande expoente da poesia mística do Islam. São pelo menos 60 poemas à espera de serem desvelados e degustados. Boa jornada!

A obra já está disponível na Amazon, em e-book, e também na versão impressa:

Comprar eBook (Kindle) Comprar livro (Amazon) Comprar livro (Clube de Autores)

» Leia o prefácio da edição


Marcadores: , , , ,

7.1.25

Para estar com nosso Amigo

Há um bebê em seu carrinho
passando do outro lado da rua.
Ele me observa, e me pego indagando
o que será que vê:
uma parte dele, com pernas, braços,
cabeça e coração;
uma parte dele
a olhar de volta.

Sei que também já fui assim,
recém-nascido na Criação,
consciente de tudo,
inconsciente de mim.
Sei que também já fui assim,
anjo, santo, inocente:
haverá Céu maior que este?

Por que será, então, que temos de despencar
cá abaixo?
Por que será que temos de provar
do chumbo do mundo?
Seria essa toda a história:
cair e, desde ali, lutar para retornar?

Ou não seria justamente neste mundo
que deveríamos achar o Céu?
Não na vida que nos mandam viver,
não no dinheiro que nos mandam ganhar,
não nas quinquilharias que nos mandam comprar,
mas na essência da vida em si,
esta que jamais foi guiada por mandamentos,
por promessas de ganhos eternos
ou pelo medo de fogaréus.

Sim, na essência de tudo,
no encantamento que sentimos
em simplesmente observar
a brisa passar, as folhas farfalharem,
as formigas marcharem, pé ante pé;
no que quer se dê em nosso coração
quando percebemos que há partes de nós
que vivem, sempre, nos amigos e nas amigas
que amamos.

Para mim o Céu não poderia ser uma colônia de férias,
nem qualquer lugar específico na Criação,
mas antes um hometruck, um trem, um dirigível,
o que quer que possa levar a mim,
a minhas amigas e meus amigos
por todos os cantos e paragens,
por todos os céus e infernos,
por todas as partes de Deus.

E eu lhe digo, meu coleguinha de viajem:
não é preciso voltar a caber neste carrinho;
não é preciso morrer, nem renascer,
para estar com nosso Amigo.


raph'25

***

Crédito da imagem: Google Image Search

Marcadores: , , , ,

26.11.24

Hafiz, aquele que fala do que nos transcende

O amor não tem limites, é eterno, é para sempre.

Hafiz acreditava no amor como a causa de todas as coisas.

Khwaja Shamsuddin Mohammad Hafiz Shirazi (c. 1315 – 1390), conhecido como Hafiz, é um dos mais célebres poetas persas, cujos poemas capturaram os corações e as mentes de inúmeras pessoas ao longo dos séculos. Sua coleção de poemas acerca do amor rivaliza tão somente com Jalal ud-Din Rumi em termos de popularidade e influência (Rumi foi um poeta místico do séc. XIII que viveu na atual Turquia).

A energia mística do amor e da paixão em seus poemas tem sido uma fonte de inspiração para muitos poetas, compositores e artistas em geral. A poesia de Hafiz é um precioso tesouro de riquezas simbólicas, mas também traz consigo uma paradoxal ambiguidade de imagens. Ele se vale de tais ferramentas para transmitir as emoções mais profundas da melhor maneira possível.

As odes de Hafiz, conhecidas como gazeis (ou gazals), são muitas vezes carregadas de emoções variadas, e revelam o poeta na sua busca por Allah (ou Deus) em sua própria alma.

Ó belo garçom,
traga a taça de vinho,
coloque-a em meus lábios.

A via do amor parecia fácil em seu início,
mas o que surgiu dela
foram as mais diversas provações.

Hafiz foi um escritor e cientista que viveu na cidade de Shiraz (no atual Irã) no séc. XIV, quando ela fazia parte do antigo reino persa. O nome de seu pai era Baha ud-Din Muhammad, um comerciante de carvão, mas ele morreu de forma trágica quando o poeta ainda era uma criança. Em sua adolescência, Hafiz foi aprendiz de padeiro e viveu uma vida cheia de dificuldades junto com a mãe. Com o tempo, no entanto, ele dominou todos os aspectos religiosos e científicos ao seu alcance, de modo que no início da fase adulta ele já era reconhecido como um grande expoente da literatura e das ciências em toda a região.

É interessante saber que ele havia memorizado por completo o Alcorão, o livro sagrado do Islam, e foi justamente por isso que lhe deram o nome de Hafiz, cuja tradução é “memorizador”.

Ele também era conhecido como Lesan Al-Ghayb, ou “aquele que fala sobre o oculto, o desconhecido, o que nos transcende” (séculos depois, o criador da série de ficção científica Duna, Frank Herbert, emprestou esse conceito para o personagem principal da trama). Hafiz parecia falar daquilo que existe além das palavras.

Um cavaleiro sombrio, o medo das ondas,
um redemoinho tão implacável!
Como pode o fardo tão leve das praias
saber da angústia em nossas profundezas?

A visão de mundo do poeta é inseparável do contexto do Islam medieval, assim como do gênero da poesia de amor persa, mas ainda assim é impossível defini-lo com exatidão. Hafiz é um místico que zomba dos místicos. Ele é conhecido como aquele que compreendeu o Alcorão com o coração, e mesmo assim não se cansa de fazer graça com a hipocrisia dos religiosos. Ele demonstra sua própria vocação espiritual, enquanto sua poesia está repleta de referências à intoxicação do vinho, algo que pode ser literal para alguns, e puramente simbólico para outros.

Vá, vá e cuide dos seus próprios assuntos.
Por que você me culpa?
Meu coração se rendeu ao amor,
o que você sabe sobre tal rendição?

O aspecto mais sublime da poesia de Hafiz é justamente a sua ambiguidade. Em seus poemas, os temas são organizados de forma tão intrincada que podem ter diferentes impactos na alma do leitor, de acordo com o seu estado emocional no ato da leitura.

Muitos dos seus poemas são até hoje usados como provérbios e ditados, sobretudo na região da antiga Pérsia, atual Irã. Já o seu senso travesso de ironia atraiu muitos poetas e compositores ocidentais ao longo dos séculos – incluindo Goethe, Brahms e Wagner.

O Divan (termo persa que significa literalmente “coleção de poemas”) de Hafiz contém 500 sonetos, 42 quadras e diversas odes que ele escreveu ao longo de meio século. Ele foi publicado em dezenas de variações, sendo improvável que qualquer uma delas possua de fato a totalidade de sua obra poética.

O seu túmulo está localizado ao norte de Shiraz, em um belo monumento cercado de bosques, onde a fragrância das flores se faz presente na maior parte do ano. Nos dias atuais, é uma das atrações turísticas mais importantes e visitadas do Irã.

Hafiz acreditava que o caminho para Allah residia nos mistérios do amor. Para ele, o amor não apenas criou este mundo, como é a resposta para todas as questões que afligem nossa alma.

Eu segui pelo meu próprio caminho no amor,
e hoje tenho uma má reputação.
Mas como poderia um segredo permanecer oculto,
se rodasse pelas línguas de todas as rodas de fofoca?

Se é a presença do Amado o que busca, Hafiz,
por que se importar com o que dirão de ti?
Permaneça junto Aquele que reside em seu coração,
deixe de lado os delírios de grandeza.

***

Após ter lançado dois livros com poemas de Rumi selecionados e traduzidos de versões inglesas, chegou a hora de mergulhar na poesia de Hafiz. Ao longo de 2025 estarei intercalando outras traduções com mais uma jornada no misticismo sufi. Assim que tiver mais notícias, trarei aqui no blog.

Rafael Arrais

***

Crédito das imagens: Mahmoud Farshchian (artista iraniano inspirado pela obra de Hafiz)

Marcadores: , , , , , , ,

24.4.24

Quando foi que nos esquecemos de tudo isso?

Esses olhos atentos,
sedentos de ver como tudo é visto
a primeira vez:
quando foi
que os perdemos?

Dizem que as crianças viam partes de si
no todo que há lá fora.
Freud considerou que todo misticismo
vinha daí, que era algo infantil.
Ora, há grandes pensadores que se esqueceram,
evidentemente, da grandeza dos pequeninos.

O que, afinal, eles viam ao seu redor?
Não partes de si mesmos, infantil seria crer nisso,
mas partes de tudo o que existe:
há profundo misticismo em enxergar a Alma
em todas as coisas.

Em baldes de areia com suas joaninhas escavadoras.
Em poças d’água e potes de ouro no final dos arco-íris.
Em fadas e duendes, dinossauros e dragões;
em magias que existem, magias cantadas,
magias faz de conta:
quando foi que nos esquecemos de tudo isso?
Quando foi, afinal, que deixamos nossa alma
trancada neste casulo
de “tem de ser assim, porque me disseram”?

Toda criança é um ser iluminado
que não sabe, não se importa com essa historinha
de “temos de buscar a iluminação”...

E todo iluminado tão somente
voltou sua lanterna para dentro,
viu, e se calou.

(não há nada que possa ser dito sobre isso.)


raph'24

***

Obs.: Freud fala brevemente sobre o assunto em O mal-estar na civilização.

Crédito da imagem: Jeremiah Lawrence 

Marcadores: , ,

17.10.23

Sofia

Quando a luz precisa se manifestar
não há nada que se interponha em seu caminho:
ai de quem tentar!
Mas benditos são os que nela se banham
por inteiro.

Por esse dias houve aqui
um encontro de almas que,
se não eram afins,
se não se viam afins,
foram afinadas pelo destino.
É isso o que a luz faz!

Por esses dias
vimos mulheres que se põe firmes, de pé,
questionando livros sagrados,
e também vimos homens
que se permitem chorar.

Por esse dias
vimos quem recitasse a Tábua de Esmeralda de cor(ação),
e quem nos transportasse de volta
à época da Arte das Musas.

Por esses dias
vimos que a via esquerda também pode ser mística,
e a direita, rigorosa.

Por esses dias a luz veio e refletiu em todo lugar,
em toda profundeza,
em bruxos e romanis,
em magos e monjas,
em poetas e médiuns,
em vivos e mortos.

Por esse dias
vimos que a Revolução do Haiti
é aqui: no coração;
e que dia virá em que faremos tudo o que os iluminados fizeram
e muito mais;
para que o Céu se assente neste mundo
e não no próximo.

Bendita seja Sofia.
Bendita é esta luz
que foi criada
para se refletir.
Bendita é a alma
que sabe que é espelho.


raph'23

(inspirado em experiências do Simpósio Sofia)

***

Crédito da imagem: Google Image Search

Marcadores: , , , ,

20.9.23

O pão que um demônio amassou

Diz o Padeiro como fazer pão:
jogue a farinha numa vasilha
e vá adicionando água aos poucos;
então trabalhe a massa com as mãos
acariciando-a enquanto ainda está mole.

Aqui o ingrediente mais essencial
é o tempo!

Dizem que Deus também nos fez assim:
nos pegou da terra mole
e acariciou, acariciou, acariciou,
até que surgissem homens e mulheres,
cada um único na Criação.

Mas faltou dizer em que tempo
isso se deu; e também responder:
“E Deus por acaso tem mão?”

Seja como for, não vale ter pressa
na feitura do pão. Pois que, ao fim,
é esta massa que vai ao forno
arder, arder e arder,
até dourar.

Após dourado, cada pão é o que é,
e devemos agradecer pelo pão de cada dia,
seja ele da massa que for,
ou mesmo o pão
que um demônio amassou.

Pois se saímos da terra mole inacabados,
há que se ter alguém para nos socar,
e socar, e socar, e socar,
até que fiquemos assim,
bem amassados,
prontos para ir ao forno.

E daí, quem sabe, possamos concordar
com o Padeiro: o tempo é, de fato,
absolutamente essencial
para que cada pão-alma
seja dourado.


raph'23

(inspirado por trecho da peça Seco, do grupo teatral Fulano di Tal, em Campo Grande/MS)

***

Crédito da imagem: Annie Spratt/Unsplash

Marcadores: , , ,

10.8.23

Voltei ao Conhecimentos da Humanidade para falar de Rumi

Voltei a participar do canal Conhecimentos da Humanidade para falar de Rumi, do sufismo, e de minha jornada pessoal na Ordem Sufi Naqshbandi. Há outras lives onde falo do mesmo tema, mas ainda que você tenha visto alguma, saiba que esta é bem especial, pois nela ficará sabendo de certos detalhes de minha jornada com o sufismo que eu nunca falei em lugar nenhum (e nem o Bruno). Assista abaixo:

Marcadores: , , , , , , , ,

30.8.22

Samádhi, ou traduzindo Yogananda

No primeiro dia de 2023 entra em domínio público em praticamente todo o planeta toda a obra de Paramahansa Yogananda, o yogui, ou iogue, responsável por uma das maiores obras da espiritualidade do século XX, Autobiografia de um iogue.

Se tudo correr bem, as Edições Textos para Reflexão iniciarão o ano que vem justamente com este lançamento, cuja tradução tem se provado um trabalho longo, profundo, e incrivelmente prazeroso.

O grande mérito aparente do livro é se tratar da autobiografia de um legítimo iogue da Índia, ou seja, escrita por ele mesmo, e não por algum jornalista ou pesquisador. Mas esta obra é muito maior que isso: em suas dezenas de capítulos, Yogananda teceu um intrincado passo a passo de conexão com o divino, de modo que não seria exagero dizer que a mera leitura atenciosa de suas centenas de páginas já é, ao menos de alguma forma, uma prática de yoga em si mesma.

E, para que ninguém duvide disso, trago abaixo um poema que consta no capítulo 14, onde o autor relata sua experiência com a Consciência Cósmica. O próprio título, Samádhi, remete a um estado de “meditação perfeita”, uma iluminação que, embora passageira no tempo, transforma a vida de quem a experimentou, para sempre.

Com vocês, Paramahansa Yogananda:


Desvanecidos os véus de luz e sombra,
Evaporada toda bruma de tristeza,
Naveguei além de todas as manhãs de alegria fugaz,
Até que a miragem dos sentidos ficou para trás.
Amor e ódio, saúde e doença, vida e morte:
Todas estas sombras falsas pereceram na tela da dualidade.
Ondas de riso e sarcasmo, redemoinhos de melancolia,
Tudo se dissolveu na vastidão oceânica do êxtase.

A tempestade de maya aplainou
Pela varinha mágica da intuição profunda.
O universo e os sonhos esquecidos espreitavam no subconsciente,
Prontos para invadir minha memória divina, recém-desperta.
Então eu vi: eu vivo sem a sombra cósmica,
Mas ela não vive sem mim;
Tal qual o mar perdura mesmo sem ondas,
Embora elas precisem dele para existir.

Sonhos e despertares, estados de sono profundo,
Presente, passado e futuro nada mais significam para mim;
Eu estou em cada momento, sempre a fluir, sempre em tudo:
Nos planetas, nas estrelas, na poeira que cintila na terra,
Nas erupções vulcânicas dos grandes cataclismas,
Nos fornos que moldam a matéria, nas geleiras silenciosas
De raios-x, nas inundações de elétrons ardentes,
No pensamento de todos os homens, de antes, agora e depois,
Em cada lâmina verde do prado, eu e a humanidade inteira
Somos cada átomo da poeira sideral;
Desejo e raiva, bem e mal, salvação e luxúria:
Eu engoli a todos, e os transmutei num vasto oceano
Que forma o sangue de meu próprio Ser!

A labareda do êxtase, tantas vezes acalentada pela meditação,
Cegou meus olhos úmidos, cresceu em fogaréu,
Tornou-se um baile imortal de fogo e contentamento,
Até consumir minhas lágrimas, minha forma, tudo o que eu era.

Você sou Eu, Eu sou Você;
O Conhecer, O Conhecido e Aquele Que Conhece: somos Um!
Sereno, inabalável, eternamente vivo, numa paz que sempre se renova!
Aqui experimentamos tal regozijo:
Uma alegria além de qualquer possibilidade imaginada, o êxtase do samádhi!
Todavia, não um estado sem consciência,
Tampouco um clorofórmio mental anestesiando a vontade.
O samádhi tão somente expande as fronteiras do reino consciente
Além dos limites mundanos,
Até as distâncias mais longínquas da eternidade,
Onde Eu, o Oceano Cósmico,
Contemplo o ego, pequenino, a flutuar.

A queda de um pardal, cada grão de areia soprado pelo vento,
Nada acontece que esteja além da minha visão.
Eu sou o espaço colossal que abarca tudo o que é, foi e será.
E através da meditação profunda, dedicada, que anseia por Mim,
Chega um dia este samádhi celestial.

O murmúrio do baile atômico pode ser ouvido;
E, veja: as montanhas e os vales dançando com a lava,
Esculpindo novas paisagens e territórios!
Mares fluem pelo cosmo, agora são vapores de nebulosas!
AUM [Palavra Criadora] os sopra, rompendo seus véus;
E, veja: eles se espalham pelas galáxias, que maravilha!
Elétrons cintilam em tudo, como pérolas no mar,
E tudo está em paz...
Até que, ao toque do tambor cósmico,
Desvanecem os aglomerados em radiação eterna;
Um êxtase além das palavras, além dos limites,
Preenche tudo que há.

Do êxtase eu vim, pelo êxtase eu vivo, no sagrado êxtase eu sou diluído.
Como uma mente oceânica, eu bebo as ondas da criação.
Quatro véus se estendem pelo cosmo:
Sólido, líquido, gasoso e luminífero.
Eu, estando em tudo, adentro o Grande Eu.
Sombras vacilantes e tênues da memória mortal
Parecem ter se aniquilado para sempre.
No grande céu mental, já não estou aqui ou acolá,
Nem muito acima nem abaixo, nem perto nem distante:
Eu e a eternidade, um único facho singrando o vazio...

Então, uma pequena bolha de riso se forma,
E eu me torno o próprio Oceano da Alegria.


(tradução por Rafael Arrais)

***

Abaixo, segue uma prévia (de parte) da capa de nossa edição. Ela será vendida como e-book na Amazon, Google Play e demais lojas (pelo preço de um café!). E possivelmente teremos ainda uma versão impressa à venda em alguns sites internacionais da Amazon (como de costume, não temos a intenção de competir no mercado impresso nacional, que já conta com uma tradução em português).

Marcadores: , , , , , ,

16.8.22

Live sobre mantras com MariAisha Savitri

Em mais uma Live do canal Textos para Reflexão, pegamos emprestada a gravação do Boteco Mayhem comigo, Rafael Arrais, e MariAisha Savitri, espiritualista, estudante e praticante de mantras, dona do Espaço SuryAmar e representante da Ordem Sufi Naqshbandi no estado do Mato Grosso do Sul. A Mari comanda atividades quinzenais e intercaladas de canto de mantras e de zikr (mantras do sufismo) em seu espaço, e neste vídeo trouxemos alguns dos nossos cantos e seus significados. E, sim, nós cantamos alguns deles ao vivo! Assista abaixo:

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


Marcadores: , , , , , , ,

1.7.22

Astros dançarinos

Vem querida, vamos dançar novamente.
Vem, me dê a mão, giremos assim
devagarinho
em torno deste amor.

Nesse giro meus pensamentos
são como um batalhão de abelhas
prontas a adentrar a Terra do Mel:
bem na pupila dos seus olhos.

Nessa dança meus instintos
são como aves dinossauros
ávidas por bebericar cada uma
de suas infindas flores.

Dancemos então;
dancemos no ritmo da música
do silêncio primaveril das matas.

Abaixo de nós, o que há de mais sagrado;
em nosso entorno, o fluir do tempo das montanhas,
a eternidade sussurrada pelas brisas.

Onde estaremos a girar?
Que é esta existência, afinal?
O que começou tudo isso,
até onde vai esta dança?

O amor, este amor que nos abraça e abarca,
que nos preenche e acalenta:
o amor não é uma resposta para nossas questões;
o amor é uma experiência.

Vivamos então, e dancemos,
até que já não exista mais nada
além do cintilar dos sóis mais longínquos.

Eu e você: astros dançarinos do amor
da humanidade inteira.


raph'22

***

Crédito da imagem: Ahmad Odeh/Unsplash

Marcadores: , , ,

15.4.22

Lançamento: Rubaiyat de Omar Khayyam

As Edições Textos para Reflexão trazem a poesia persa para o formato digital.

Hoje Nixapur é uma cidade modesta situada no nordeste do Irã, mas há cerca de mil anos ela era uma das maiores cidades do mundo, sendo um ponto importante da famosa Rota da Seda. Na época, em meio aos impérios persas, nela nasceu e morreu um cientista, astrônomo e matemático chamado Omar Khayyam. Dizem que também foi poeta, e teria nos deixado centenas de poemas compostos por quatro versos – os rubaiyat, plural de rubai (poema em quarteto). Muitos séculos depois, tais versos foram transpostos ao inglês por um poeta de ascendência irlandesa chamado Edward FitzGerald, que foi o grande responsável por tornar o Rubaiyat de Omar Khayyam célebre em todo o Ocidente.

Nessa versão, contamos com a primorosa tradução de Rafael Arrais – também tradutor de Rumi, outro grande poeta associado ao misticismo sufi, e membro da Ordem Sufi Naqshbandi. Além disso, a edição traz mais de 30 ilustrações de grandes artistas.

Um ebook já disponível para o Amazon Kindle e na Google Play:

Comprar eBook (Kindle) Comprar eBook (Google Play)


Marcadores: , , , , ,

18.3.22

Odes ao vinho (que não se colhe da videira)

Hoje Nixapur é uma cidade modesta situada no nordeste do Irã, mas há cerca de mil anos ela era uma das maiores cidades do mundo, sendo um ponto importante da famosa Rota da Seda. Na época, em meio aos impérios persas, nela nasceu e morreu um cientista, astrônomo e matemático chamado Omar Khayyam. Dizem que também foi poeta, e teria nos deixado centenas de poemas compostos por quatro versos – os rubaiyat, plural de rubai (poema em quarteto). Muitos séculos depois, tais versos foram transpostos ao inglês por um poeta de ascendência irlandesa chamado Edward FitzGerald, que foi o grande responsável por tornar o Rubaiyat de Omar Khayyam célebre em todo o Ocidente. Em suas versões portuguesas, o Rubaiyat recebeu o epíteto de “Odes ao vinho”, pelo simples fato da bebida ser muito celebrada em suas quadras. No entanto, até hoje persiste o debate acerca do significado desse vinho, e do Rubaiyat como um todo: uns dizem que se trata de vinho literal, e estes classificam a obra como agnóstica e hedonista; mas há tantos outros que afirmam que se trata do vinho “que não se colhe da videira”, de uma metáfora das experiências místicas do sufismo (o misticismo do Islã), e esses incluem a obra de Khayyam entre os grandes poemas místicos da humanidade.

Quem sabe o Rubaiyat possa ser lido das duas formas; talvez caiba somente a quem lê, a quem interpreta e mergulha na profundidade (ou superficialidade?) de seus versos, dizer, sentir do que eles se tratam. Um brinde a vida, e outro brinde a morte: bem-vindo ao Rubaiyat de Omar Khayyam.

O poeta que observava estrelas
Filho de um fabricante de tendas, Omar Khayyam nasceu em Nixapur por volta do ano 1040, e faleceu em 1123. Seu verdadeiro nome era Ghiyat ud-Din Abu Fat Omar Ibn Ibrahim al-Khayyam. Sua vida esteve conectada a personagens que também marcaram a história: Hassan Sabbah, o lendário “Velho da Montanha”, e Nizam al-Mulk, que foi vizir do sultão Alp Arslan.

Quando jovens, Hassan e Nizam foram atraídos a Nixapur pela fama do imã Novassak (na época, um ancião), buscando a sua instrução. Lá conheceram Khayyam, que já estudava matemática e astronomia, e entre eles nasceu uma duradoura amizade. Desta amizade veio uma espécie de pacto: quem primeiro fosse bem-sucedido financeiramente na vida deveria ajudar os outros dois.

Quem chegou lá primeiro foi Nizam, que foi um secretário e depois vizir do sultão Alp Arslan, o Leão. Logo, seus amigos foram lembrá-lo do pacto de Nixapur. O pedido de Hassan foi por um cargo na Corte; porém, ao se envolver em intrigas palacianas, logo caiu em desgraça, retirando-se às montanhas do sul do mar Cáspio, onde eventualmente veio a se tornar o lendário “Velho da Montanha”, o mestre da Ordem dos Assassinos.

Já o pedido de Khayyam foi consideravelmente mais modesto: uma espécie de pensão vitalícia para que pudesse voltar a Nixapur e se dedicar tão somente à matemática e à observação das estrelas. E sua pensão foi quantia suficiente para que pudesse passar o restante de seus dias entregue ao cultivo do estudo e da poesia. Cercou-se de amigos e com eles dedicou-se a aproveitar a vida. Dizem que seu maior prazer era simplesmente beber e conversar com amigos, sob a luz da lua, no terraço de sua casa, geralmente ao som de tocadores de alaúde e, volta e meia, apreciando a arte das dançarinas persas.

Envolto em tal atmosfera, Khayyam iniciou a composição dos seus famosos rubaiyat. Eram poemas que cantavam o amor, o vinho, a vida e a morte; às vezes, de um pessimismo aterrador, noutras tantas, de uma exaltada homenagem à existência.

Além de poeta, foi um celebrado homem de ciências. Escreveu um famoso tratado de álgebra, elaborou tabelas astronômicas e reformulou o calendário muçulmano, tendo recomendado a adoção do ano bissexto cinco séculos antes de tal ideia ser retomada no Ocidente, com a promulgação do Calendário Gregoriano.

Após sua morte, um de seus amigos mais jovens e discípulo, Kuajah Nizam, escreveu sobre ele o seguinte: “Nós costumávamos conversar com o mestre em um jardim. Um dia, ele nos disse: Vocês irão achar meu túmulo no local onde o vento do norte possa cobri-lo de rosas. Anos depois, ao retornar para Nixapur após uma longa ausência, me dirigi ao lugar que tinham me indicado como sendo o túmulo do meu mestre. Encontrei-o junto a um jardim. As árvores, exuberantes em plena primavera, inclinavam seus galhos por cima de um muro vizinho, enquanto uma brisa suave desfolhava suas flores. Ao cair, pétala por pétala, cobriam o túmulo de muitas cores...”

Uma releitura ocidental
Os rubaiyat persas seriam hoje algo solenemente ignorado no Ocidente, não fosse pelo fato do poeta Edward FitzGerald (1809 – 1883) ter tomado conhecimento da obra de Khayyam, vertendo-a para o inglês e publicado sua tradução em 1859.

Entretanto, FitzGerald não foi propriamente um tradutor, mas antes um adaptador. Alguns afirmam que sua obra poderia ser intitulada: “De como Omar Khayyam teria escrito Rubaiyat, acaso se chamasse Edward FitzGerald e vivesse na Inglaterra vitoriana”. Dito isso, não se pode negar o fato de que ele foi o grande responsável por tornar o erudito persa conhecido no Ocidente. À sua tradução, aliás, seguiram-se várias outras, tornando Rubaiyat um dos livros de poesia mais traduzidos e vendidos do século XX, merecendo inclusive diversas edições luxuosas, ilustradas por artistas renomados.

Em certo aspecto, Rubaiyat é um livro de poesia diferente de todos os demais: cada vez que uma nova edição é publicada, surge uma obra diversa. Isso se deve a alguns fatores: primeiro, o próprio Khayyam parece não ter somente composto os próprios rubaiyat, como colecionado muitos que circulavam em Nixapur na época; segundo, alguns rubaiyat podem ter sido introduzidos posteriormente a sua morte, provavelmente por poetas apócrifos que gostariam de ver seus versos eternizados sob a autoria de um cientista renomado; e, terceiro, no fim das contas a tradução da poesia persa para outra língua é quase sempre uma releitura.

Para além disso tudo, ainda resta a polêmica acerca do Rubaiyat ser ou não uma obra mística. Ora, no prefácio de sua tradução o próprio FitzGerald associou-a ao epicurismo, uma visão filosófica da vida mais focada nas pequenas alegrias e prazeres ditos “mundanos” do que em experiências religiosas. Farid ud-Din Attar (1145 – 1221), um célebre místico islâmico conterrâneo de Nixapur, disse certa vez que “Khayyam não era um místico, mas um livre-pensador”.

Entretanto, em 1867, J. Nicolas, o cônsul francês na Pérsia, realizou uma nova tradução do Rubaiyat, afirmando que o poeta era um sufi, e que suas quadras traziam, de forma alegórica, o pensamento e os ensinamentos desta vertente mística do Islã. Segundo esta visão, a taberna seria a mesquita; o vinho, a essência de Allah; o cálice, o mundo inteiro (por onde se espalha o vinho que não se colhe na videira); e a embriaguez em si, o êxtase místico, o contato direto com o amor divino.

A lição que fica é que o Rubaiyat será, sobretudo, aquilo que causar no coração de seus leitores. E, se você for mais um deles, então responda por si mesmo: do que, afinal, se trata o Rubaiyat de Omar Khayyam?

***

O Rubaiyat de Omar Khayyam será o próximo lançamento das Edições Textos para Reflexão, na tradução de Rafael Arrais (a partir da versão inglesa de Edward FitzGerald), em um e-book ilustrado por diversos artistas cuja obra já entrou em domínio público (o que infelizmente não é o caso do tailandês Niroot Puttapipat, cuja arte ilustra este artigo).

***

Crédito das imagens: Niroot Puttapipat

Marcadores: , , , , , , , , ,

3.2.22

Tempo cíclico

Através de você meu tempo bagunçou:
já não se trata de uma sucessão de olimpíadas e copas do mundo,
mas algo que circunda a eternidade
e dança e sorri
e vai e volta
e é aqui e agora,
e lá, e acolá.

Quando você veio e o segurei nos braços
como uma pequenina parte de minh’alma,
eu logo o entreguei à enfermeira;
e, quando estive novamente só,
me ajoelhei no chão e agradeci;
não sei a quem ou ao quê:
uma oração que se faz sem dizer nada,
algo que simplesmente irrompe.
Se pudesse colocar em palavras,
diria assim:
“Muito obrigado, ó você que veio
da Mansão do Amanhã!”

Através de você eu me vi na passagem do meio,
não como se pudesse haver antes, ou depois,
mas antes como alguém que já não é um homem:
é pai e é filho
ao mesmo tempo,
tal um espírito santo
que existe para sempre.

Quando você cresceu e fui lhe deixar
em seu primeiro dia na escola,
já não sabia se era você que conhecia sua nova turma
ou eu que estava lá de volta,
na doce timidez dos primeiros encontros,
na revoada da alma
que desvela o mundo
(outra vez).

Através de você eu cumpri o destino
dos descendentes do Kalahari.
Quantos dias de caça,
quantos reinos e quantas noitinhas sob as estrelas
de lá até aqui?

Ó meu filho, você também é filho
das histórias dos primeiros xamãs
e do fogo sagrado
das primeiras fogueiras.

Isso não acaba nunca!


raph'22

***

Crédito da imagem: CHUTTERSNAP/Unsplash

Marcadores: , , ,

24.8.21

Amor sob vontade

Há uma praga lá fora, pelas ruas.
Um inimigo que mata sem ser visto;
e, como tudo o que é invisível,
está aberto à interpretações:
nesse momento, teólogos e cientistas debatem
se tal mal foi obra de Deus, do acaso ou do homem.
Entra um pensador na sala e pergunta:
“Mas Deus, o acaso e o homem não são a mesma coisa?”

Fato é que estamos em quarentena,
isolados uns dos outros. De modo que se antes
nós perambulávamos sem rumo pelas vielas e estradas,
agora estamos sem rumo dentro de quatro paredes:
há uma grande diferença!

Assim, tanto tempo dentro de casa, dentro de nós,
quem sabe a roda da carroça enfim deixe de perseguir o boi,
e passe a rodar pelos velhos sulcos
deixados no Caminho.
Quem sabe nesses dias e noites tenhamos a preciosa chance
de desvelar o homem e a mulher e tudo o mais.
Nada disso precisa rimar,
a única rima necessária
é a da alma com a consciência dela mesma.

Então vemos uma foto nossa na parede,
e notamos que já não há nada em comum entre a antiga imagem
e o que somos hoje: nada, exceto pelo fato
de serem a mesma pessoa.
E, se morremos tantas vezes em vida,
por que imaginar a morte como um fim?
Por que temer que o sol se ponha para nunca mais nascer?
Faz algum sentido,
se toda aquela antiga vida, em todo caso,
não passava de um poema de rimas forçadas?

Há uma praga lá fora, pelas ruas,
mas o único inimigo sempre esteve aqui,
e ele é um muro que construímos à duras penas:
um muro entre o que pode ser nomeado
e o que simplesmente é.
Desde então, cada movimento da vida é dedicado
a derrubar paredes, romper casulos:
um tijolo, um pensamento de cada vez.
Até que não reste em nós nada além de amor,
amor sob vontade.


raph'21

***

Crédito da imagem: Sasha Freemind/Unsplash

Marcadores: , , , ,