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2.7.10

Livro: Em Seus Mares, versão impressa a venda

Poesias de Rafael Arrais no livro Em Seus Mares

Achei uma editora que possibilita a venda de meus livros em versão impressa. Para quem me perguntava sobre isso, surgiu a oportunidade!

Release
Para quem já conhece o trabalho do poeta espiritualista Rafael Arrais do blog Textos para Reflexão, esta é a oportunidade de ter em mãos sua obra impressa e com diagramação profissional.

Para quem não conhece, esta é a oportunidade de entrar em contato com uma nova dimensão poética, digna de grandes poetas como Tagore e Gibran.

"Eu navego em seus mares
E mesmo em minha pequena embarcação
Já percebi que no mar existe a dor:
Refletida em sua superfície;
Mas no mar também existe o amor:
O amor é mais profundo"

***

Nota: A versão impressa tem 3 poesias exclusivas, que não constam na versão em PDF.

» Você também pode baixar o livro gratuitamente em PDF

***

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11.6.10

Ubuntu – the world goes around

best if viewed in Fullscreen ("More" > "Fullscreen"):


Ubuntu is a very peculiar african word
It has so many meanings, as many as the breeds of men
For to know it’s true meaning, we would have to ask one of them
Of the hundred that left Africa to explore the world
The adams and eves of our age
The mothers and fathers of men

Ubuntu means that a hunter wouldn’t need to ask for food
When passing by the villages of another people
Cause we hunt to survive
But it’s in the sharing, it’s in the kindness to each other
That we actually find that precious feeling
A breeze of joy
A pleasure to be alive

Ubuntu means that no man is an island
That we are like continents, looking to sail back
Looking to unite the shores of our kingdoms
To form once again the Pangaea
A place with no foreigners, no rulers and no slaves
Where roads connect every city and every heart
And nobody see any frontier

Ubuntu means that the age of men is just a blink
In the eyes of eternity
That we are but a link in the web of life
Billions came before us, billions are yet to pass
To walk in the long plains and to climb the hills of Africa
To look at the grass, and the flowers, and the trees
And understand that no daylight is the same
And all things float like dust in gentle wind, unbound
The world goes around

Ubuntu means that no man can live in cages
Be it prisons or dogmas
We must look to discover, to uncover, to enlight
To love and to change, to move millions with thoughts
Like the gandhis, the mandelas, the kings
Cause this world is no kingdom for just one ruler
But we are all rulers of our own lands
We should exchange our knowledge and wisdom
And never bullets and bombs

Ubuntu means that men should work toghether
Walking beside, holding hands
Facing the horizon like the old hunters
Yet, no more to fight in the war of hunger and pain
But to reach a precious trophy
The prize of self-knowledge
A distinct vision of the true meaning of the word

Yes, there are many breeds of men indeed
And many breeds of life
But we are all one, all of us
Represented in so many forms, so many substances
So many meanings for this one concept
So many villages in the ocean of night
So many hunters walking on all those waves of light
So many preys waiting to be unbound
Ubuntu – the world goes around

raph’10 (aka. Rafael Arrais, this blog's author)

***

Ubuntu – o mundo dá voltas

Ubuntu é uma palavra africana muito peculiar
Ela tem tantos significados, tantos quanto as linhagens dos homens
Pois para saber seu verdadeiro significado, precisaríamos perguntar para um deles
Um dos cem que deixaram a África para explorar o mundo
Os adãos e evas de nossa era
As mães e os pais de todos nós

Ubuntu quer dizer que um caçador não precisaria pedir por comida
Quando passando pelos vilarejos de outros povos
Pois nós caçamos para sobreviver
Mas é no compartilhar, no carinho para com cada um
Que nós realmente encontramos essa sensação preciosa
Uma brisa de alegria
Um prazer em se estar vivo

Ubuntu quer dizer que nenhum homem é uma ilha
Que somos como continentes, esperando navegar de volta
Procurando unir as praias de nossos reinos
Para formar uma vez mais a Pangeia
Um lugar sem estrangeiros, governantes ou escravos
Onde as estradas conectam cada cidade e cada coração
E onde ninguém vê nenhuma fronteira

Ubuntu quer dizer que a era dos homens é tão somente um piscar
Dos olhos da eternidade
Que nós somos apenas um fio na teia da vida
Bilhões vieram antes de nós, bilhões esperam passar
Para caminhar nas longas planícies e escalar os montes da África
Para olhar para a grama, e as flores, e as árvores
E compreender que nenhuma luz da manhã é a mesma
E que todas as coisas flutuam como poeira em brisas suaves, libertas
O mundo dá voltas

Ubuntu quer dizer que nenhum homem pode viver em celas
Sejam prisões ou dogmas
Nós precisamos descobrir, desvelar, iluminar
Amar e mudar, mover milhões com pensamentos
Como os gandhis, os mandelas, os kings
Porque este mundo não é um reino para apenas um rei
Mas todos somos os reis de nossas próprias terras
Nós deveríamos trocar nosso conhecimento e sabedoria
E nunca mísseis e bombas

Ubuntu quer dizer que os homens deveriam trabalhar juntos
Caminhando lado a lado, de mãos dadas
Encarando o horizonte como os antigos caçadores
Porém, não mais para lutar na guerra da fome e da dor
Mas para alcançar um troféu precioso
O prêmio do auto-conhecimento
Uma distinta visão do verdadeiro significado da palavra

Sim, existem realmente muitas linhagens de homens
E muitas linhagens de vida
Mas todos somos um, todos nós
Representados em tantas formas, em tantas substâncias
Tantos significados para apenas este conceito
Tantos vilarejos no oceano da noite
Tantos caçadores caminhando em todas essas ondas de luz
Tantas presas aguardando a liberdade
Ubuntu – o mundo dá voltas

raph’10

***

Em homenagem ao espírito da Copa do Mundo de 2010, na África do Sul

Crédito da foto: Daylife (Nelson Mandela e Desmond Tutu - grandes colaboradores de Ubuntu)

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26.5.10

Navegar é preciso

Poema de Fernando Pessoa

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso."

Quero para mim o espírito desta frase, transformada
A forma para a casar com o que eu sou: Viver não
É necessário; o que é necessário é criar.

Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande, ainda que para isso
Tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso
Tenha de a perder como minha.

Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho
Na essência anímica do meu sangue o propósito
Impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
Para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.


***

Comentário
Além de interpretar seus diversos heterônimos, Pessoa era também mestre em interpretar palavras e simbolismos, de modo que muitas de suas poesias têm vários graus de interpretação – geralmente (mas não necessariamente) um mais profundo do que o outro, como nesse caso.

Esta é a origem da frase citada no poema: "Navigare necesse; vivere non est necesse" - latim, frase de Pompeu, general romano, 106-48 aC., dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra (cf. Plutarco, in Vida de Pompeu).

A primeira interpretação que muitos chegam, principalmente em focando somente a frase e não o contexto do poema, é a de que navegar, explorar o mundo ou até mesmo ser um guerreiro disciplinado é mais importante do que viver uma vida rotineira, sedentária e monótona.

A segunda interpretação envolve um olhar das entrelinhas da etimologia do jogo de palavras nesta frase. Nesse caso, navegar é preciso no sentido de ser uma atividade, uma ciência precisa; Já viver não é preciso no sentido de que a vida envolve não somente o lado racional, como também o emocional e o espiritual – viver não é nem nunca será, portanto, uma atividade precisa. Viver é deliciosamente ou terrivelmente impreciso, dependendo dos olhos de quem vê.

A interpretação derradeira e mais profunda (na minha opinião é claro) no entanto envolve parte do conceito das interpretações anteriores, com algo a mais. Pessoa quis dizer que para engrandecer sua pátria e colaborar com a evolução da humanidade, não lhe é necessário viver a vida egoisticamente como se esta fosse somente sua, e sim dedicar a vida – ou “perdê-la” – em prol da humanidade como um todo (sua pátria é o mundo e não Portugal).

Qualquer semelhança com alguns ensinamentos de Jesus não é mera coincidência. Mas além disso podemos ir um pouco mais além: a vida continua sendo imprecisa, mas navegar pelo oceano do mundo é mais necessário do que viver ancorado a sua aldeia (e dogma) local. O misticismo de sua Raça (com “R” maiúsculo) não é o misticismo dos portugueses ou dos homens de “raça branca” (na verdade raça não existe, apenas a espécie homo sapiens), mas o misticismo dos grandes sábios – esses que, como desejava Pessoa um dia o ser, viveram não para si, mas para toda a sua Raça.

***

» Veja também Navegar é preciso, uma coletânea em e-book dos textos místicos de Fernando Pessoa

Crédito da foto: jazz dalek

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17.5.10

Meu semelhante

Eu ando pelo mundo dentre olhares e expressões
Promessas de curas e maldições
Acordos de paz que não podem seguir adiante
Pois os homens em suas guerras
Por riquezas ou santificações
Já não o vêem mais, meu semelhante

Nem a vida que lhes oferta a fronte
Nem os peixes nem as aves nem as vacas sagradas
Nada que nade, caminhe ou voe pelo horizonte
Nada, apenas esse fétido ouro negro
A escravizar aqueles que lhe buscam lá fora
Pois que são como cascas vazias, meu semelhante

Quem dera pudessem olhar o céu noturno
E ver sua luz trazendo as boas novas
De épocas em que não participamos
Não como homens, mas como átomos
Como luz a cruzar o infinito
Quem dera vissem suas estrelas
Como quem vê poesia em quadro negro
Como quem se alegra, mas guarda segredo

Que nem todos estão preparados para enxergar
O que vêem a olho nu
Preferem se iludir ou se entreter com essas sombras
Essas cascas de sentimento
Esses manuais de verdades absolutas
Esses códigos de ciência infalível
E promessas e barganhas de um mundo melhor
Um céu que está sempre lá fora a ser alcançado
Nunca aqui dentro, a ser amado

Eu quero conhecer só a ti, meu semelhante
Que estamos todos conectados:
Pela biologia, a vida.
Pela química, aos planetas.
Pelos átomos, as estrelas.
Mas é tão somente pelo agitar da mente
E pelas lentes claras do pensamento
Que percebemos que aqui sempre estivemos
Que sempre fomos semelhantes
Pois nunca um poderia estar fora do outro
Embora sua substância nos permeie a todos
Como o perfume dos amantes

Todo o turbilhão de partículas do cosmos
E todas as galáxias e estrelas
E todas as eras geológicas
E todas as poesias, e todas as equações
E todos os olhares e expressões
Todo amor e toda a gratidão para ti
A substância que não pode criar a si mesma
Mas que tudo o mais criou
Eu quero desvendar todos os mistérios e enigmas
Todos os códigos que nos ocultou
Dentre essa brisa de poeira vacilante
Eu quero conhecer só a ti, meu semelhante

raph'10

***

Crédito da foto: Descubra o Cosmos (NASA)

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10.4.10

Não precisa passagem no trem

Uma homenagem a Raul Seixas e seu inesquecível "O Trem das 7", numa curiosa edição da animação "O Expresso Polar" (Warner Bros.) por daffad:

Ói, ói o trem, vem surgindo de trás das montanhas azuis, olha o trem
Ói, ói o trem, vem trazendo de longe as cinzas do velho éon

Ói, já é vem, fumegando, apitando, chamando os que sabem do trem
Ói, é o trem, não precisa passagem nem mesmo bagagem no trem

Quem vai chorar, quem vai sorrir?
Quem vai ficar, quem vai partir?
Pois o trem está chegando, tá chegando na estação
É o trem das sete horas, é o último do sertão, do sertão

Ói, olhe o céu, já não é o mesmo céu que você conheceu, não é mais
Vê, ói que céu, é um céu carregado e rajado, suspenso no ar

Vê, é o sinal, é o sinal das trombetas, dos anjos e dos guardiões
Ói, lá vem Deus, deslizando no céu entre brumas de mil megatons

Ói, olhe o mal, vem de braços e abraços com o bem num romance astral

Amém

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19.3.10

O fóton primordial

Einstein nos trouxe esta poesia: E=Mc²
Quantos enigmas, desvelados e por desvelar
Quanto infinito em pouca matemática a rimar!

Eis que espaço e tempo são uma mesma substância
E tudo o que vemos é o que a curvatura da noite
Esticada, nos permite enxergar em nossa ânsia
Por descobrir o que esconde a gravidade
Nos buracos e dobras do céu estelar

Tudo o que tocamos é luz a bailar
A luz não gosta de ser contida, gosta de irradiar
Apertos de mão são sintonias de amizade
Jamais serão bombas a estourar

E vejam só que curioso: mesmo que por ocasião
Pudéssemos nalgum dia ficar perfeitamente imóveis
Em relação a todo o restante da imensidão
Ainda assim estaríamos viajando a velocidade maior
Pelo tempo, como a luz que nunca para...

Desde a primeira explosão, o primeiro raio
Navega pelo Cosmos como um mensageiro
Trazendo as boas novas da eternidade
Para ele – o fóton primordial
Não existe tempo, não existe idade...
Eis que todo dia é relativo
Eis que toda luz é imortal!

raph'10

***

Crédito da foto: Atronomy Picture of the Day (NASA)

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25.2.10

Pequeno hino para o Infinito

Tenho pensado em muitas coisas
Coisas demais, coisas profundas...
Na vida e na morte passageira
No tempo que segue na mesma direção
Em que todos arrastam suas almas
Dentre pântanos de solidão

Tenho tentado ser mais cético
Hoje talvez creia mais na esperança
Que o próprio ser traz dentro de si
Do que em bênçãos e salvações
E todas essas barganhas que os homens fazem
Com tais etéreas monções

Tenho me afastado de Ti
Tenho me reaproximado de Nós
Tenho orado menos com a voz
Tenho feito de minha vida uma oração
Que recita: “a todo ser basta querer,
eis que o pensamento abarca toda imensidão”

Tenho pensado em muitas coisas
Coisas demais, coisas profundas...
Na morte e na vida renovada
No tempo que se move sem sair do lugar
Em tudo isso que os homens pensam:
Em toda sua divina dúvida
Em toda sua angústia e perplexidade
Perante tamanho baile de estrelas
Dentre um Cosmos sem idade

Em suma, tenho pensado
Em tudo isso que os homens amam
E em tudo o que já amaram
Em tudo isso que buscam lá fora
E ainda não encontraram...

raph'10

***

Crédito da foto: Atronomy Picture of the Day (NASA)

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28.1.10

Irmãos de armas

Dire Straits canta o seu clássico , "Brothers in Arms ", no Mandela Live Concert de 1988

Essas montanhas cobertas por névoa
Hoje são minha casa
Mas meu lugar é nas planícies
E sempre será
Algum dia vocês irão retornar
A seus vales e fazendas
E não mais irão arder para serem
Irmãos de armas

Por esses campos de destruição
Batizados por fogo
Eu vi todos os seus sofrimentos
Quando a batalha tornou-se árdua
E apesar deles terem me machucado tanto
Em seu medo e alarme
Vocês não me desertaram
Meus irmãos de armas

Existem tantos mundos diferentes
Tantos sóis diversos
E nós temos apenas um mundo
Mas vivemos em [mundos] diferentes

Agora o sol foi para o inferno
E a lua segue no alto
Deixe-me dar-lhe adeus
Todo homem tem de morrer
Porém está escrito na luz das estrelas
E em cada linha de sua mão:
Nós somos tolos por guerrear
Com nossos irmãos de armas

Tradução de Rafael Arrais para a letra original em inglês

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24.1.10

Como uma oração

Uma interepretação inspirada de Madonna para um de seus clássicos, "Like a Prayer", em sua apresentação para a campanha em prol do Haiti: Hope for Haiti

A vida é um mistério, todos precisam suportar sozinhos
Eu ouço você chamar meu nome
E me sinto em casa

Quando você chama meu nome é como uma pequena oração
Eu estou caída em meus joelhos, eu quero te levar lá
A meia-noite eu posso sentir seu poder
Como uma oração você sabe que eu te levarei lá

Eu ouço sua voz, é como um anjo suspirando
Eu não tenho escolha, eu ouço sua voz
É como estar voando
Eu fecho meus olhos, oh Deus eu penso que estou caindo
Fora do céu, eu fecho os olhos
Que os céus me ajudem

Quando você chama meu nome é como uma pequena oração
Eu estou caída em meus joelhos, eu quero te levar lá
A meia-noite eu posso sentir seu poder
Como uma oração você sabe que eu te levarei lá

Como uma criança você sussurra suavemente para mim
Você está no controle exatamente como num sonho
Agora estou dançando
É como um sonho, sem fim e sem começo
Você está aqui comigo, é como um sonho
Deixe o coral cantar

Quando você chama meu nome é como uma pequena oração
Eu estou caída em meus joelhos, eu quero te levar lá
A meia-noite eu posso sentir seu poder
Como uma oração você sabe que eu te levarei lá
(2x)

Como numa oração, sua voz pode me levar até lá
Assim como uma musa
Você é um mistério
Assim como um sonho, você não é o que parece
Como oração
Sem escolha
Sua voz pode me levar até lá

Como numa oração
Eu vou te levar até lá
Isso é como um sonho para mim
(4x)

Tradução de Rafael Arrais para a letra original em inglês

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14.1.10

Monte Castelo

Para quem conhece Legião Urbana, vale a lembrança; Para quem não conhece, eis aqui uma de suas músicas mais inspiradas - assim como alguns dos versos mais inspirados de Paulo de Tarso e Camões:

Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua do anjos, sem amor eu nada seria.

É só o amor, é só o amor.
Que conhece o que é verdade.
O amor é bom, não quer o mal.
Não sente inveja ou se envaidece.

O amor é o fogo que arde sem se ver.
É ferida que dói e não se sente.
É um contentamento descontente.
É dor que desatina sem doer.

Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.

É um não querer mais que bem querer.
É solitário andar por entre a gente.
É um não contentar-se de contente.
É cuidar que se ganha em se perder.

É um estar-se preso por vontade.
É servir a quem vence, o vencedor;
É um ter com quem nos mata a lealdade.
Tão contrário a si é o mesmo amor.

Estou acordado e todos dormem, todos dormem, todos dormem.
Agora vejo em parte, mas então veremos face a face.

É só o amor, é só o amor.
Que conhece o que é verdade.

Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua do anjos, sem amor eu nada seria.

Composição: Renato Russo (O soneto 11 de Luiz Vaz de Camões, foi adaptado musicalmente pelo grupo Legião Urbana. A letra é complementada com referências ao texto bíblico 1 Coríntios 13, de Paulo de Tarso).

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15.12.09

Pequenos redemoinhos

A todos aqueles que não cansam de dizer
Que o mundo é cinzento
Que todo momento é feito de dor
E que não há fórmula para resolver
A angústia de se existir
Eu me pergunto: será mesmo que estão
A viver no mesmo mundo que eu?

Que na imensidão semi-plana das terras
Pode-se dizer que montanhas nada mais são
Do que cicatrizes e rugas de épocas
Perdidas na memória das eras
Mas as paredes que nos escondem o horizonte
São como um deus imóvel, tão profundamente
Absorto no próprio pensamento
Que mal percebe o sol e a lua a lhe reverenciar
No eterno baile do firmamento

Não vejo como alguém poderia reduzir
As águas caudalosas que vêm lá do alto
Fazendo a luz da manhã refletir
Nas encostas cheias de neblina úmida
Apenas a rios, cachoeiras e oceanos
Que cada córrego tem seu próprio jeito
Peculiar de se esgueirar pela lama do solo
Até atingir no rio o leito, e prosseguir
Ao além-mar

E dizer que cada flor é apenas outra cor
Com que a natureza presenteia os raios da tarde
É ignorar que cada uma delas se curva
De sua maneira – ao céu, ao vento, e a chuva
Cada fragância guarda a história de seu campo
E do amor com que foi ofertada
As abelhas e aos beija-flores
Que distribuem seu pólen, ainda que sem saber
Como sementes divinas do novo amanhecer

A todos aqueles que não cansam de dizer
Que o amor nada vale ante a morte
E que todas as coisas são como poeira
Assoprada por ventos, vindos de algum lugar
Desconhecido – eu não posso evitar
Questionar: e será que não é melhor amar
E perder, do que nunca haver sequer amado?
Pois que é a morte, senão o eterno renovar
Das coisas que formam a vida?

E o que é o desconhecido, o oculto, o inexplicado
Senão o combustível do conhecimento?
Senão buscar para se encontrar, e em se encontrando
Continuar buscando – até o alto das montanhas
Por detrás dos horizontes e muito além do mar
Após a fragância das flores e as incertezas do amor
Terem se rendido ao soar do vento
Onde toda dor se resume ao momento
Em que o ser se encara: face a face

Vai meu filho... Meu amigo... Meu irmão
Vai e procura... Vai e encontra...
E continua sempre a procurar!
Que nessa estrada infinita de seres
Todo o amor do mundo se encerra em Ti
E à Seus pés encontram-se rendidos
Todos os poetas e todos os sábios
E todo conhecimento oculto a dançar
Por entre pequenos redemoinhos de vento

raph'09

***

Crédito da foto: f. a. photography

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29.11.09

Na floresta

Na floresta não existe nem rebanho, nem pastor
Quando o inverno caminha, segue seu distinto curso como faz a primavera
Os homens nasceram escravos daquele que repudia a submissão
Se ele um dia se levanta, lhes indica o caminho, com ele caminharão
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o pasto das mentes,
e o lamento da flauta perdura mais que rebanho e pastor

Na floresta não existe ignorante ou sábio
Quando os ramos se agitam, a ninguém reverenciam
O saber humano é ilusório como a cerração dos campos
que se esvai quando o sol se levanta no horizonte
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o melhor saber,
e o lamento da flauta sobrevive ao cintilar das estrelas

Na floresta só existe lembrança dos amorosos
Os que dominaram o mundo e oprimiram e conquistaram,
seus nomes são como letras dos nomes dos criminosos
Conquistador entre nós é aquele que sabe amar
Dá-me a flauta e canta!
E esquece a injustiça do opressor
Pois o lírio é uma taça para o orvalho e não para o sangue

Na floresta não há crítico nem censor
Se as gazelas se perturbam quando avistam companheiro, a águia não diz: 'Que estranho'
Sábio entre nós é aquele que julga estranho
apenas o que é estranho
Ah, dá-me a flauta e canta!
O canto é a melhor loucura
e o lamento da flauta sobrevive aos ponderados e aos racionais

Na floresta não existem homens livres ou escravos
Todas as glórias são vãs como borbulhas na água
Quando a amendoeira lança suas flores sobre o espinheiro,
não diz: 'Ele é desprezível e eu sou um grande senhor'
Dá-me a flauta e canta!
Que o canto é glória autêntica,
e o lamento da flauta sobrevive ao nobre e ao vil

Na floresta não existe fortaleza ou fragilidade
Quando o leão ruge não dizem: 'Ele é temível'
A vontade humana é apenas uma sombra que vagueia no espaço do pensamento,
e o direito dos homens fenece como folhas de outono
Dá-me a flauta e canta!
O canto é a força do espírito,
e o lamento da flauta sobrevive ao apagamento dos sóis

Na floresta não há morte nem apuros
A alegria não morre quando se vai a primavera
O pavor da morte é uma quimera que se insinua no coração
Pois quem vive uma primavera é como se houvesse vivido séculos
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o segredo da vida eterna,
e o lamento da flauta permanecerá após findar-se a existência

Gibran Khalil Gibran
(no vídeo, declamado pela atriz Letícia Sabatella, com fundo musical por Marcus Viana)

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27.11.09

Hawking goes high

Hey, there goes Hawking!
Moving while standing still
What exactly is he doing?
Should not be that much…
People say he’s very ill

Hey, there goes Hawking!
Thinking about a billion worlds
Compressed in a nutshell
People say he’s crazy
But how can he think so well?

Hey, there goes Hawking!
He goes high
Thoughts floating
Over the Cosmos
We can walk
But he can fly

raph'09

***

Hawking vai alto

Ei, lá vai o Hawking!
Movendo-se enquanto permanece parado
O que ele faz exatamente?
Não pode ser muita coisa...
Dizem que ele é muito doente

Ei, lá vai o Hawking!
Pensando em um bilhão de mundos
Comprimidos numa casca de noz
Dizem que ele é louco
Mas como pode raciocinar tão bem?

Ei, lá vai o Hawking!
Ele vai alto
Pensamentos flutuando
Por todo o Cosmos
Nós podemos caminhar
Mas ele pode voar

raph'09 (traduzido do original em inglês)

***

Crédito da foto: Tambako

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16.11.09

Muito além

Estamos nesse mundo de
Luz e sombras,
Trovões e brisas,
Lírios, orquídeas,
Espinhos e cercados...
Usando máscaras
Para a alma.

A alma que quer ver a
Luz na leveza das brisas,
Na beleza das flores,
Por detrás, ou atrás da dor...
A alma que apenas quer
Desmascarar o amor.

Esse amor que passa
Pelas ruas, entre a multidão,
Disfarçado de aparências,
Disfarçado de costumes,
Esse amor que nada vê...
Disfarçado
Para enganar ao ser.

O ser está em busca
Do outro ser...
Ser feliz, ser apenas paz...
Paz para buscar o que?
Sem entender,
Sem querer, o ser
Não quer mais saber.

Estamos nesse mundo e
Buscamos o saber
Do ser que ama
A alma e o mundo,
Que vive a cantarolar,
Bailando com seu par
Pelos bosques, pelo mar,
Além dos cercados,
Além das máscaras,
Muito além... Muito além...

Além da dor,
Na terra do amor,
Muito além... Muito além...

Além desse mundo,
Onde só você vai estar,
Muito além... Muito além...

Onde só você
Vai estar...


raph'02

***

Crédito da foto: Jean-Baptiste Rabouan/Hemis/Corbis

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13.11.09

Poesia em quadrinhos

Ao lado temos um belo exemplo de como poesia também pode ser feita em pequenas tiras de arte seqüêncial, mais conhecida como quadrinhos. Clique na imagem para vê-la em tamanho maior.

Créditos e textos abaixo

Primeira tirinha:
Crédito: Do veterano quadrinista Laerte.
Texto: Vinha lendo, distraido, quando, de repente... (...) Era o mundo.

Segunda tirinha:
Crédito: Por João, o mais jovem quadrinista brasileiro.
Texto: Eu sou o Rei do Mundo!!! (...) Socorro!!!

Terceira e última tirinha:
Crédito: Do genial André Dahmer, nem sempre tão malvado assim.
Texto: "A coragem do primeiro pássaro" - No final das contas, somos todos sobreviventes de nós mesmos / Lá nas prisões do finito, ousar ser eterno: amor como atalho e labirinto / Mas se você não está morto, sonhará porto por perto / Anoiteça o que anoitecer, coração aberto

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4.11.09

Poemas presos

muitas doenças que as pessoas têm são
poemas presos
abscessos tumores nódulos pedras são
palavras
calcificadas
poemas sem vazão

mesmo cravos pretos espinhas cabelo
encravado
prisão de ventre poderia um dia ter sido
poema

pessoas às vezes adoecem de gostar de palavra
presa
palavra boa é palavra líquida
encorrendo em estado de lágrima

lágrima é dor derretida
dor endurecida é tumor
lágrima é alegria derretida
alegria endurecida é tumor
lágrima é raiva derretida
raiva endurecida é tumor
lágrima é pessoa derretida
pessoa endurecida é tumor
tempo endurecido é tumor
tempo derretido é poema

palavra suor é melhor que palavra cravo
que é melhor que palavra catarro
que é melhor que palavra bílis
que é melhor que palavra ferida
que é melhor que palavra nódulo
que nem chega perto da palavra tumores internos
palavra lágrima é melhor
palavra é melhor
é melhor poema

(...)

Parte da seqüencia "Poema Preso", por Viviane Mosé

***

Crédito da foto: Juliana Coutinho

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10.7.09

S.A.G.

Tu que és eu mesmo, além de tudo meu;
Sem natureza, inominado, ateu;
Que quando o mais se esfuma, ficas no crisol;
Tu que és o segredo e o coração do Sol;
Tu que és a escondida fonte do universo;
Tu solitário, real fogo no bastão imerso;
Sempre abrasando; tu que és a só semente;
De liberdade, vida, amor e luz eternamente;
Tu, além da visão e da palavra;
Tu eu invoco; e assim meu fogo lavra!
Tu eu invoco, minha vida, meu farol,
Tu que és o segredo e o coração do Sol
E aquele arcano dos arcanos santo
Do qual eu sou veículo e sou manto
Demonstra teu terrível, doce brilho:
Aparece, como é lei, neste teu filho!

Aleister Crowley

Igne Natura Renovatur Integra (INRI) - Pelo Fogo a Natureza se Renova Inteiramente

Faz o que tu queres, há de ser o todo da lei.
O amor é a lei, amor sob a vontade.

***

Crédito da foto: Rodrigo Martin

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8.7.09

Preto Velho

Sou preto. Negro como a noite sem estrelas.

Sou velho. Velho como as vidas de meus irmãos.

Mas se sou ainda negro, é porque trago em mim as marcas do tempo, as marcas do Cristo. Essas marcas são as estrelas de minha alma, de minha vida.

Sou negro. Mas a brancura do linho se estampa na simplicidade do meu olhar, que tenta ver apenas o lado bonito da vida.

Sou velho, sim. Mas é na experiência da vida que se adquire a verdadeira sabedoria, aquela que vem do Alto. Sou velho. Velho no falar; velho na mensagem, velho nas tentativas de acertar.

A minha força, eu a construí na vida, na dor, no sofrimento. Não no sofrimento como alguns entendem, mas naquele decorrente das lutas, das dificuldades do caminho, da força empreendida na subida.

A força da vida se estrutura nas vivências. É à medida que construímos nossa experiência que essa força se apodera de nós, nos envolve e nós então nos saturamos dela. É a força e a coragem de ser você mesmo, do não se acovardar diante das lutas, de continuar tentando.

Sou forte.

Mas quando me deixo encher de pretensões, então eu descubro que sou fraco. Quando aprendo a sair de mim mesmo e ir em direção ao próximo, aí eu sei que me fortaleço.

Sou andarilho.

Eu sou preto, sou velho, sou humano. Sou como você, sou espírito. Sou errante, aprendiz de mim mesmo.

Na estrada da vida, aprendi que até hoje, e possivelmente para sempre, serei apenas o aprendiz da vida.

Pelas estradas da vida eu corro, eu ando.

Tudo isso para aprender que, como você, eu sou um cidadão do universo, viajor do mundo. Sou um semeador da paz.

Sou preto, sou velho, sou espírito.

Pai João de Aruanda (psicografia de Robson Pinheiro em seu livro Sabedoria de Preto Velho - ed. Casa dos Espíritos)

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Para quem é espírito, ser preto ou branco, velho ou jovem, é tudo uma questão secundária...


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7.7.09

Você vai estar lá?

Me abrace
Como o Rio Jordão
E então eu lhe direi
Você é meu amigo

Me carregue
Como se fosse meu irmão
Me ame como uma mãe
Você vai estar lá?

Quando exausto
Me diga que vai me segurar
Quando errado, você vai me dirigir
Quando perdido você vai me achar?

Mas eles me dizem
Um homem deve ter fé
E seguir mesmo quando não pode
E lutar até o fim
Mas eu sou apenas humano!

Todo mundo está tomando controle de mim
Parece que os mundos
Tem um papel para mim
Estou tão confuso
Você irá me mostrar
Você estará lá para mim
E se importar o suficiente para me suportar?

(me guie)
(encoste sua cabeça devagar)
(suave e corajosamente)
(me leve até lá)

(me segure)
(me ame e me alimente)
(me beije e me liberte)
(eu me sentirei abençoado)

(cerregue)
(carregue-me com coragem)
(me levante devagar)
(me leve até lá)

(me salve)
(me cure e me banhe)
(delicadamente me diga)
(eu vou estar lá)

(me levante)
(me levante devagar)
(carregue-me com coragem)
(me mostre que você se importa)

(necessite de mim)
(me ame e me alimente)
(me beije e me liberte)
(eu me sentirei abençoado)

Em nossa hora mais sombria
No meu desespero mais profundo
Você ainda vai se importar?
Você vai estar lá?
Em minhas provações e tribulações
Por minhas dúvidas e frustrações
Em minha violência
Em minha turbulência
Pelo meu medo e minhas confissões
Em minha angústia e minha dor
Por minha alegria e tristeza
Na promessa de um outro amanhã
Eu nunca deixarei você partir
Pois você estará sempre em meu coração

Michael Jackson (Will You Be There), tradução de Rafael Arrais

***

Não se trata de uma "verdade conveniente", e sim de uma verdade: que o mundo se lembrou de quem era Michael Jackson, embora tarde demais...

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2.7.09

O assombro no olhar

Há esta distinta idéia de retorno à escuridão, ao nada
Onde tudo o que construímos nessa longa estrada
Da vida, nada restará: não há homem são
Que não trema, com um assombro no olhar
Ante tal nefasto pensamento, uma existência inteira
A navegar pelo oceano à beira, tudo em vão,
Tudo perdido neste derradeiro momento:
Da água do mar ficará apenas o gosto amargo do sal
Do mundo, apenas uma brisa, uma curiosidade,
Uma ansiedade por saber de seu final

Entretanto há também outra espécie de assombro
A olhos vistos naqueles que, abrindo-os, vêem
Um baile infinito de partículas pelo ar, um turbilhão
De belos pensamentos a escorar pelo ombro
E não adianta se virar para ver onde vão dar:
O vento sopra onde quer, e não há uma compreensão
De onde vem nem para onde vai; há somente este alento
De se saber que quase nada sabemos realmente
Que nossa ciência não fala exatamente do princípio,
Então, também do fim, não há nada do que se preocupar

Tenha em mente não o futuro em angustiada expectativa
Nem o passado em melancólica lembrança fugitiva
Pois que tens o tempo em suas mãos, e a vontade à disposição
Para dar o passo à frente, caminhar sem mourejar
Com um incerto assombro no olhar:
O assombro de quem molhou os pés na beirada do mar
E se encantou, e mergulhou na profundeza do ser
Apaixonando-se por este momento eternamente...
Tudo o que temos é o presente

raph'09

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Crédito da foto: Bettmann/CORBIS (Rabindranath Tagore)

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