Deus cego, deusa manca

Mal houve tempo para que ambos os deuses pudessem se esconder no sótão da casa da velha cigana. A vila em que moravam desde que nasceram ficava bem na região de encontro das duas grandes marchas: o exército da bandeira com o cordeiro azul defendia a sua verdade absoluta, mas o exército da bandeira com a meia-lua rubra igualmente defendia sua própria verdade absoluta. Eram ambos os exércitos plenos de certezas; de modo que o resultado da guerra, e quantos inocentes iriam morrer, e quantos iriam escapar, era a única dúvida naquele infeliz horizonte temporal...
A pequena deusa manca, tão criança quanto seu irmão, estava feliz por ele ter nascido cego. Era um garotinho muito sensível, amoroso até demais, via bondade e esperança em quase tudo... Ficaria um tanto traumatizado se pudesse enxergar a selvageria que acomete os homens em suas guerras. Os pedaços decapitados de corpos a voar pelo ar, os rios de sangue se formando pelo solo, o desespero no rosto daqueles jovens que foram quase que arrastados pelas circunstâncias de seus reinos para a linha de frente da batalha. A guerra era, enfim, a imagem da morte. Que bom que o deus cego não podia ver tudo aquilo!
O deus cego agradecia aos céus por ter as pernas fortes e as costas largas (para seu tamanho), de modo que podia carregar sua irmã nas costas. Mesmo naquele sótão, podia ouvir todo o som da batalha. O pior não eram os gritos selvagens ou brados de guerra rapidamente interrompidos por decapitações – muito pior eram os grunhidos e gemidos baixos daqueles que não tiveram a sorte de receber um golpe letal, e eram abandonados no solo ensanguentado, agonizando em mortes lentas.
“Vamos embora agora” – alertou a pequena deusa.
“Como sabe que é seguro sair agora?” – indagou seu irmão.
“Pelo que soube de ouvir falar das batalhas que dizimaram outras vilas, ambos os exércitos enviam uma quantidade X de solados, e quando nenhum lado sai claramente vitorioso, eles retornam as suas bases com os levemente feridos, para que possam se tratar, e receber as novas ordens de seus comandantes. Isso usualmente leva uma quantidade Y de tempo, que é exatamente o tempo que teremos para fugir daqui.”
“Mas como você pode ter certeza? X e Y não me parecem muito confiáveis...”
“E os deuses para os quais reza nos céus, são por acaso confiáveis? Impediram que nossa vila fosse dizimada?”
A pequena deusa foi convincente, e prontamente seu irmão a levantou cuidadosamente e a colocou sobre as próprias costas, de modo que ela apoiava os braços cruzando-os por seus ombros... Suas pernas tortas, defeituosas de nascença, eram substituídas pelo caminhar ágil e vigoroso do deus cego. Por outro lado, ele não saberia onde ir em meio aquela calamidade, não fosse pelos olhos da irmã, que o guiavam em meio a loucura dos homens...
Sua irmã por vezes se tornava angustiada e pessimista em relação ao futuro daqueles reinos e suas verdades absolutas. Às vezes, era quase como se o fato de não conseguir andar também fizesse com que fosse incapaz de seguir adiante com seus pensamentos, projetos e estudos da natureza. Ela já sabia tanto, e queria saber ainda muito mais!
E conseguiram escapar ilesos da guerra que devastara seu vilarejo. Seguindo o conselho da velha cigana, buscaram pelas ruínas de um antigo castelo de outrora, que jazia na estrada para o fim da terra, e onde nem o reino do cordeiro azul nem o da meia-lua rubra tinham quaisquer interesses em conquistar...
Chegando lá, foram reconstruindo o antigo castelo aos poucos, recrutando todos os refugiados que passavam em torno. Até que o castelo foi reerguido em toda sua glória, e em torno dele uma pequena vila, que depois se transformou em cidade, e depois numa larga metrópole, onde todos eram convidados para viver em harmonia, estudando e compreendendo a natureza com a mesma alegria que oravam aos céus. E diz-se que esse reino até hoje existe, mas que se encontra flutuando acima da terra, e que somente os poetas e os loucos conseguem o encontrar, por vezes, em seus sonhos mais doces e amor...
Este conto foi diretamente inspirado pela pintura “Barefoot” (pés descalços) da jovem Akiane Kramarik, e também pela frase abaixo:
“A ciência sem a religião é manca, a religião sem a ciência é cega.”
(Albert Einstein)
raph'11
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Crédito da imagem: Akiane Kramarik ("Barefoot", quadro pintado aos 16 anos de idade)
Marcadores: Akiane Kramarik, ciência, contos, contos (41-50), Einstein, religião
3 comentários:
Ótimo texto.Parabéns!!!
Obrigado :)
Muito bom Raph
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