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20.9.11

Um caso sugestivo de psicopictografia

No vídeo abaixo, temos a inauguração do quadro “Dom Especial” na TV Xuxa, da Rede Globo, apresentando um caso sugestivo de psicopictografia, através da mediunidade de Lívio Barbosa. Uma das obras, atribuída a Monet, é depois analisada no palco por um crítico de arte, uma estudante da doutrina espírita, e um cientista cético.

O vídeo pode demorar um pouco a abrir:

Para quem não se interessar pela história de vida do médium, pode pular para o minuto 14:00, aproximadamente, que é quando ele começa a pintar.

Há muitos que evitarão sequer ver o vídeo, ou ler este texto, assim que se depararem com alguns termos – como “mediunidade” ou “psico...grafia” por exemplo –; Mas se você permaneceu conosco até aqui, o convido para refletir sobre algumas teorias que foram elaboradas para explicar esse tipo de fenômeno.

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Primeiro, é preciso lembrar que esse tipo de mediunidade não é assim tão raro, embora até hoje tenha encontrado poucos médiuns com tal capacidade e qualidade na pintura mediúnica. Eu colocaria Lívio par a par com Luiz Gasparetto, por exemplo, que também realizou fenômenos impressionantes nessa área (hoje, por alguma razão, ele não pinta mais).

Segundo, é preciso destacar que a grande maioria desses médiuns (pelo menos os que seguem a doutrina espírita) não teve estudo artístico específico (como pintura ou escultura, por exemplo), e tampouco fica com os ganhos das vendas de suas pinturas mediúnicas – elas quase que sempre servem para financiar as próprias instituições de caridade em que foram produzidas. Leia-se: instituições em torno do país todo (e às vezes até fora dele), não apenas aquelas que frequentam regularmente.

Com tais informações, fica claro que esse tipo de fenômeno ocorre com a frequência necessária para que mereçam estudos mais aprofundados da parapsicologia, e é isso o que ocorre. Vale lembrar que segundo o próprio Alan Kardec, o espiritismo enquanto ciência é uma ciência muito mais próxima da psicologia do que da física e da química, por exemplo. Afinal, “não é possível fazer experimentos com espíritos conforme se faz experimentos com uma pilha voltaica”. Se esses estudos caem no ramo da parapsicologia, e não da psicologia, é mera formalidade – afinal a Academia ficaria “de cabelo em pé” se fosse forçada a admitir o fato de que tais fenômenos são psicológicos (no mínimo) e que, portanto, efetivamente existem.

Vejamos então algumas teorias para a psicopictografia:

Criptomnésia
Segundo muitos céticos, cientistas e neurologistas, tudo o que ocorre na pintura mediúnica pode ser compreendido se considerarmos que nosso inconsciente é ainda um grande desconhecido. Ele não só é capaz de captar e armazenar muito mais informações do que nosso processo consciente nos deixa “a par”, como também pode ocorrer de que grandes aglomerados de informação se encontrem ocultos a consciência por toda a vida. Em suma, é como se os médiuns tivessem tido acesso a esse tipo de informação ao longo da vida, desde a infância, sem que tenham se dado conta disso, pelo menos não de forma consciente.
Então, nos chamados estados alterados de consciência, que ocorrem usualmente no sono e sonambulismo, mas também podem ser “acessados” através do uso de certas drogas, da meditação transcendental, ou da mediunidade (dentre outros métodos mais “ocultos”), a consciência consegue acessar todas essas informações, produzindo fenômenos extraordinários – e que, na maior parte das vezes, são chamados paranormais.
É essa a explicação dada pelo cientista no final do vídeo acima. De acordo com ele, Lívio teve acesso aos quadros de todos esses pintores em algum momento da vida, e os guardou na inconsciência, ainda que aparentemente não se lembre disso. Falta explicar como esse tipo de informação é “acessada” de forma tão extraordinária, como consegue desenvolver a habilidade de pintar com pincéis, dedos, ao bater das mãos, e até mesmo com os pés, e apenas durante o transe. Em suma: há muito o que se estudar mesmo assim!

Inconsciente coletivo
O psiquiatra suíço Carl G. Jung desenvolveu o conceito de inconsciente coletivo – uma parte da mente, compartilhada por todos, como produto da ancestralidade. Para ele, esse inconsciente inclui os arquétipos (conceitos universais inatos), como mãe, Deus, herói, etc., detectáveis na forma de mitos, símbolos e instinto. Presume-se que ele via o inconsciente coletivo como um tipo de memória popular, corporificado na estrutura do cérebro. Ora, que o cérebro de um recém-nascido obtenha registros em seu hipocampo, trazendo memórias armazenadas por seus ancestrais, nem seria um grande problema científico, contanto que fossem detectadas as partículas responsáveis por tal transmissão.
Richard Dawkins, quando estava mais preocupado com o estudo da natureza do que com a difusão do ateísmo, desenvolveu o curioso conceito dos memes, que seriam as tais unidades de informação responsáveis pela transmissão desse tipo de conhecimento de forma não-física (pois que genes transmitem apenas características físicas), através das gerações humanas.
Segundo essa teoria, o fato de Lívio pintar com tal habilidade pode ser explicado pelo seu “acesso” as informações ancestrais do inconsciente coletivo da espécie, durante o estado alterado de consciência.

Imatéria
Na grandiosa série de quadrinhos Promethea, o escritor e ocultista Alan Moore nos apresenta o conceito de imatéria: uma espécie de “reino das ideais”, um tanto quanto similar ao platônico, por onde todos os pensamentos da humanidade “flutuam” como poeira ao vento, e onde alguns de nós – particularmente os artistas – conseguem acessar informações durante os momentos de inspiração.
Interessante que é essa mais ou menos a explicação dada pelo crítico de arte no final do vídeo acima. Provavelmente ele nunca leu Promethea, mas quando diz que “o Lívio acessou o imaginário de Monet, e pintou de forma genuinamente impressionista”, ele está em essência se alinhando com a teoria de Moore.

Espiritualismo
Segundo as diversas teorias espiritualistas, espíritos são seres como nós, com processos conscientes tão ativos quanto os nossos, mas que vivem fora do que compreendemos como corpo físico – muito embora a grande maioria dessas teorias também concorde que espíritos têm corpos, são formados por matéria, apenas esta matéria não interage com fótons (luz), é uma matéria mais fluida, por assim dizer, e por isso nunca foi detectada diretamente em experimentos científicos.
Segundo a estudante espírita do vídeo acima, Lívio deixa de ter “vontade própria” no momento da pintura, e passa a ser mero canal passivo para a mensagem do espírito que age sobre o seu cérebro, comandando certas partes do seu corpo físico como alguém que opera um robô humanoide – salvo as devidas proporções.
Ela vai ainda mais além e afirma que “os espíritos já haviam pintado o quadro, e o que ocorre é um fenômeno parecido com o de uma fotografia sendo revelada”. Essa informação adicional é interessante porque remete a possibilidade de que todas as teorias acima possam ser também parte da totalidade da explicação desse tipo de fenômeno.

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Resta-nos saber, é claro, se os artistas mencionados são realmente os mesmos espíritos quando em sua última encarnação terrena. Conforme o objetivo final das pinturas é a caridade, talvez essa questão nem seja assim tão importante.

Há espíritas que se digladiam com céticos afirmando que tais fenômenos podem ser descritos de forma exata, e que os pintores são realmente os grandes artistas de outrora, e que existe sem dúvida um mundo espiritual exatamente desta ou daquela forma – mas estes não nos auxiliam em quase nada na busca pela real compreensão desses fenômenos.

Nesse sentido, nem o pseudo-ceticismo (ou ceticismo de negação a priori, como gosto de chamar) nem a crença exaltada nos servirão. Se quisermos um dia saber efetivamente o que ocorre nos arcabouços do inconsciente, e se existe realmente a possibilidade de processos conscientes ocorrerem sem um cérebro físico como casa, precisaremos igualmente da ciência e da imaginação, da dúvida e do bom senso, enfim, de um certo deslumbramento perante a existência – e de uma certa humildade em admitir o quão pouco sabemos sobre a natureza do Cosmos.

Até lá, continuemos pelo menos a admirar a arte, seja por onde ela chegue a este mundo...

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Crédito da foto: Arianna Ramella

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