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3.3.12

O sétimo deus

Este conto é uma continuação, ou epílogo, do conto “o sexto deus”, também publicado no Portal TdC. E foi baseado num comentário lá (da Mariana) que surgiu a inspiração para este novo conto...

Após os outros deuses terem deixado a fazenda, ainda angustiados com a falta de uma resposta clara acerca do futuro de seu sistema de existência, o Sábio falou ao seu amigo, o dono da fazenda e mestre das plantações:

“Porque você mesmo não lhes falou do que sabe de nosso futuro, porque deixou que eles continuassem a crer que eu era o mais sábio de nós?”

Sereno, o Agricultor finalmente se manifestou: “Não me importa quem é o mais sábio, o que importa é que somos aqui todos amigos, e não queria dar uma notícia tão triste aos meus amigos, não hoje...”

“Triste? Quer dizer que não teremos nenhuma solução? Não é possível que o fim do ouro acarrete também o nosso próprio fim... Não é possível que seja assim!”

“É a Natureza, apenas ela, quem determina o que é ou não possível, meu amigo. E se sou algo mais sábio do que fui há milênios, é porque soube observá-la: observar como cada pequeno inseto luta por sua sobrevivência, como cada predador luta a guerra da fome, e como cada presa vive a temer a morte na bocarra de alguma besta a sua espreita. Não existe almoço grátis: todos têm de batalhar para sobreviver. E porque justamente nós, os imortais, não conseguimos viver em paz? Falta-nos o conflito, falta-nos a batalha.”

“Mas como? Se fossemos mais amigos uns dos outros, como eu e você, todos os deuses deste mundo poderiam viver em perfeita harmonia, e o ouro não seria necessário para nada: seríamos uma verdadeira fraternidade. Não nos falta a guerra, nos falta o amor.”

“E como seres imortais poderiam amar uns aos outros como os mortais, que lutam pela sobrevivência, que batalham pela vida num pequeno lampejo de existência que se estende do nascimento a morte? Nós não iremos morrer, jamais, e por isso mesmo jamais iremos mudar, teremos sempre essas mesmas características, condenados a ser eternamente os mesmos deuses, a carregar as mesmas pendências uns com os outros... O ouro acabou, e o planeta pode acabar, mas o que regia nosso sistema não era tanto o ouro, mas sim a fé que cada um de nós depositou em seu valor: apenas por ser raro. No fundo, o que sempre quisemos era estar num degrau um pouco mais elevado que nossos irmãos: ser o deus mais rico!”

“Mas eu nunca desejei ser o mais rico! Nunca me importei com ter ouro algum...”

“Mas você ainda assim queria provar alguma coisa a seus irmãos, queria, enfim, ser o mais sábio.”

Triste e cabisbaixo, o Sábio respondeu: “Você... tem toda razão. Eu hoje reconheço: você, meu amigo, que apenas observou a Natureza, acabou se tornando o mais sábio dentre nós. É exatamente por isso que creio que você tem a solução para o nosso problema, não tem?”

“Tenho, mas não para o nosso problema, tenho uma solução para a vida.”

“Como assim?”

“Olhe ao seu redor, este mundo é minúsculo, e de nada adiantaria levar adiante o meu plano aqui... Eu pretendo enviar uma semente de vida a outro planeta de alguma galáxia, um planeta maior, onde haja água e um sol generoso, para que novas sementes de vida brotem, para que novas florestas surjam e, com elas, um novo ciclo de vida.”

“Mas, e o que isso tem a ver conosco, afinal?”

“Vou impregnar tal semente com nossas personalidades, nossas características, para que um dia, após bilhões de anos, surjam finalmente seres de nossa raça, conscientes, que erguerão grandes cidades e civilizações, que terão cultura e arte, magia e ciência, guerra e paz, ouro e mercado, legisladores e trabalhadores, sábios e ignorantes, mas com uma diferença crucial... Eles serão muitos, diversos, e eles poderão morrer. E assim, morrendo, voltarão para viver novamente, desde o berço, para que suas próprias personalidades possam se renovar sempre, para que suas potencialidades não se estagnem na imortalidade inútil. Assim, chegará dia, meu amigo, que eles farão tudo o que fizemos aqui neste pequeno mundo, e ainda muito mais, muito mais...”

E assim, muitos ciclos depois daquela conversa, os seis deuses se reuniram em um grande ritual comandado pelo Agricultor, que também era o xamã daquela pequena tribo de deuses, e assim sua essência imortal foi retirada de suas cascas, e irradiada em um novo deus, um deus-semente, um deus de vida, o sétimo dentre eles... E, enterrado no solo do pequeno planeta, dia veio em que seu sol finalmente morreu, e seu mundo tornou-se um pequeno pedaço de pedra desgovernado em meio ao turbilhão cósmico. Até que nalgum tempo, de alguma forma, ele se chocou com algum outro planeta, e não demorou muito até que algumas bactérias fossem vistas nadando em um lago escaldante...

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Crédito da foto: Martin Puddy/Corbis

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7.2.12

Uma nova era

Este conto foi originalmente publicado no Portal Teoria da Conspiração, onde tenho uma coluna (dias 1, 11 e 21 de cada mês). Ele foi publicado nas primeiras horas deste ano.


Então, este é o primeiro dia de uma nova era...

Há tempos que temos orado e esperado por uma grande mudança espiritual no mundo – mas, porque ela nunca chega?

Quando éramos crianças pequenas e inocentes, brincávamos em nossas caixas de areia... O parque nos era desconhecido, mas em nossas brincadeiras pelos pequenos montes de areia, éramos verdadeiros especialistas. Os seres a perambular em nossa volta eram ignorados, mas sabíamos o nome de cada uma das crianças a brincar conosco na areia.

Por vezes formávamos grupos, até que uns brincavam apenas entre si, e não deixavam as crianças “de fora” entrar... Por vezes até discutíamos uns com os outros, ou brigávamos: um grupo contra o outro... E os seres a nos observar, passeando pelo parque, davam gargalhadas: “São apenas crianças, têm ainda muito por conhecer”.

Mas e o que seriam nossas doutrinas religiosas senão o fruto das brincadeiras que alguns profetas encenaram em seus pequenos desertos? E o que seriam tais mandamentos senão as regras para que as crianças pudessem continuar brincando sem se ferir?

E quando uma criança se exalta e brada: “Eu conheço todas as brincadeiras do mundo!”, aqueles seres transeuntes do parque apenas comentam: “Eles ainda estão na era das caixas de areia...”.

Mas quando afinal chegará nossa vez de conhecer todo o parque a volta? Será que precisaremos realmente esperar este pequeno planeta rodear seu sol por mais um tanto de vezes? E que diferença isso faria, se nosso sol é apenas mais um grão de poeira a girar pela galáxia – e a galáxia, mais um punhado de grãos empurrados adiante pelos ventos do infinito...

E o que seria este dia, senão mais um despertar de nossa consciência, após mais um passeio pelo parque etéreo dos sonhos? E quem seriam afinal os grandes responsáveis pela instauração de uma nova era espiritual no mundo, senão nós mesmos?

Temos brincado e rolado juntos pelos montes de nossa pequena caixa de areia, e por vezes a temos tentado apanhar com as mãos – mas tal areia do deserto é como o tempo a escorrer entre os dedos, e não é possível guardar quase nada de todo esse turbilhão. Tudo o que guardamos são as brincadeiras, tudo que nos resta é continuar a brincar...

E, quem sabe, dia virá em que percebamos como fomos tolos em brincar em grupos fechados, separados uns dos outros por uma ou outra regra de um jogo que, no fim, todos nós temos jogado a tantas e tantas eras...

Que aquele que bate no peito e se sente no direito de ditar aos outros como todos os jogos têm de ser jogados, é porque ainda não aprendeu a grande brincadeira da vida: persistir em semear todos esses parques em meio ao infinito de si mesma, e observar todas essas brincadeiras que suas crianças têm brincado, até que se cansem de rolar pela areia, e se juntem aos transeuntes do parque.

Mas eis que há muitos parques no Reino, e no momento em que chegamos finalmente a um deles, há uma grande festa a nossa espera:

“Bem vindo, agora se inicia uma nova era!”


raph'11

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Crédito da foto: Roderick Chen/All Canada Photos/Corbis

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9.1.12

O traçador de círculos

Caminhando pela Galileia, o Mensageiro dos Céus falava aos desavisados sobre o Reino, e alguns poucos decidiam segui-lo por onde quer que fosse, enquanto a maioria apenas o agradecia ou amaldiçoava ou, talvez tanto pior, simplesmente o ignorava...

As almas simples que o admiravam em sua parca compreensão começaram a tratá-lo como um deus encarnado na terra, no que ele sempre se irritava: “Apenas uma vez pude ver ao Pai de relance, nalgum sonho esquecido, mas sua luz era tanta que fui obrigado a cobrir os olhos... Sigo esta luz até hoje, mas não sou este de quem falam. Como já lhes disse: vocês mesmos farão tudo que tenho feito e saberão tudo que tenho conhecido, e ainda muito mais, pois este é o destino infinito do Reino!”. Mas nem todos o compreendiam, e o Mensageiro estava saudoso de seus mestres do Oriente, com quem podia conversar sobre assuntos celestes.

Até que um dia seu grupo chegou a um vilarejo onde todos afirmavam haver um grande profeta que tinha o poder de trazer chuvas, o que se fazia bastante necessário naquela secura das regiões próximas aos desertos, pois poderia garantir colheitas de trigo e milho e, tanto mais importante, impedir que crianças e idosos e doentes morressem de fome.

O Mensageiro ficou entusiasmado com a oportunidade de falar a um profeta: Honi, o traçador de círculos. Se ele podia mesmo trazer chuvas, dispunha de um acesso ainda mais íntimo ao Pai e a seu Reino, mais íntimo do que o dele próprio... Aproximou-se enfim do ancião de vestes brancas e um longo cajado de madeira, meditando de olhos entreabertos em meio a um círculo traçado na terra, nos arredores do vilarejo:

Mensageiro – Desculpe-me, sei que pedira para não ser perturbado, mas eu gostaria muito de falar por um momento com o senhor...

Honi – Mas você não me perturba, apenas me traz luz, como a lua a refletir o sol na noite de nossa alma.

Mensageiro – Pois é isto: o perturbado então sou eu mesmo... Como podem me saudar desta forma no Oriente e na Galileia, se sou ainda tão ignorante da luz, dos assuntos celestes? Há tantos outros, mais sábios e mais famosos que eu... Menahem, Simão, Apolônio, até mesmo meu primo Batista...

Honi – Estes são sábios também, tanto quanto nós. Mas eu, como eles, sou famoso no reino de baixo. Você, Yeshua, é conhecido no reino de cima. E digo-te: nossa mensagem passará como o novo dia cobre a noite e a primavera nos faz esquecer do inverno, mas não a tua, a tua mensagem perdurará. E, através dela, todos conhecerão um pouco mais do reino celeste.

Mensageiro – É assim, assim que consegue trazer as chuvas? Você pede por elas no reino de cima?

Honi – Eu não sei nada de trazer chuvas, meu amigo. Tudo que faço dentro deste círculo é tentar me religar aos céus e agradecer, agradecer por cada dia vivido neste Reino maravilhoso – sejam dias secos ou molhados...

Mensageiro – Então você também é como eu, prefere rezar com terra debaixo dos pés e pássaros a sobrevoar os céus, do que dentro de sinagogas?

Honi – Sinagogas são importantes para proteger o pensamento que está dentro daquele que está fora. Mas de nada adiantam se abrigam dentro de seus próprios tetos adornados os pensamentos mais obscuros... Eu aprendi que é muito mais simples traçar a minha própria sinagoga no solo, e apenas meditar sobre o Reino dentro dela.

Mensageiro – Mas isso só vem a confirmar meus questionamentos: como posso ser o profeta de que dizem, se não sei de tantas coisas ainda?

Honi – Você, Yeshua, apenas pensa que não sabe. Venha, trace um círculo ao meu lado, entre nele e ore, e medite, e agradeça, e relembre de quem realmente é, de quem está destinado a ser!

Seguindo o conselho do traçador de círculos, o Mensageiro traçou o seu próprio círculo no solo sagrado do Reino, e adentrando nele, tentou se lembrar da vez em que viu o Pai, e dessa vez tentou descobrir o rosto, lentamente, e tentou ver por um breve momento a luz que se irradiava por tudo o que há...

Em alguns minutos, uma chuva fina cobriu a vila inteira.


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Este conto é uma continuação direta de "O ungido", e continua em "O zelote".

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Crédito da imagem: Corbis (RF)

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8.12.11

O cão filósofo

Diz à lenda que num belo dia ensolarado, em Atenas, um grande leão conquistador de territórios encontrou-se com um cão filósofo em seu barril...

“Heféstion, meu amigo, eu já venho cansado de conselhos militares. Se tenho alguma esperança de avançar e conquistar toda a Pérsia, preciso do auxílio dos filósofos, dos sábios, como foi com meu professor na infância...”

“Mas Alexandre, o que buscas com tanta generosidade? De que adianta sustentar Anaxarco, o músico, e ficar distribuindo ouro e talentos para Pirro, Xenócrates, e quaisquer outros que te cruzem o caminho e se digam filósofos?”

“Heféstion, eu tenho muito sangue nas mãos... A guerra se faz necessária, e eu fui educado por meu pai para ser o maior conquistador do mundo, mas isso não me traz nenhuma paz de espírito, nenhuma sabedoria... Às vezes, eu gostaria de ter sido uma outra pessoa...”

Nisso cruzaram com Onesícrito, então soldado de Alexandre, a caminhar em direção ao Craneu. O conquistador angustiado pareceu perceber um brilho no olhar daquele homem, e mandou que o parassem:

“Onesícrito, te darei uma armada para comandar se me disseres de onde vem essa felicidade em teu olhar!”

“Vem da sabedoria de um cão, meu senhor...”

“Um cão? Ora, mas como sabe da sabedoria de um cão, se ele não pode lhe falar nada sobre ela?”

“Este cão é um homem, meu senhor, e mora em um barril numa viela do Craneu. Ele é o homem mais pobre de Atenas, e por isso lhe chamaram de cão. Mas é, não obstante, o cão mais sábio de todo o mundo.”

Alexandre ficou curioso, e pediu que apenas parte de sua escolta o seguisse até onde se encontrava o filósofo cão, para que ele não se assustasse, e pudesse, quem sabe, lhe ensinar alguma coisa de útil para as guerras vindouras.

Chegando ao Craneu, viram um homem perambulando em torno de um barril velho cheio de feno, com meia dúzia de cães em torno, carregando uma lamparina acesa numa das mãos...

“Quem és tu, ó cão?” – Perguntou Alexandre.

“Me chamam Diógenes, e venho de Sínope, o resto é apenas um elogio.” – Respondeu, como se a sua frente estivesse um homem como qualquer outro de Atenas, e não Alexandre, o Grande.

“Para que a lamparina? Está cedo, há sol.” – Alexandre já havia simpatizado com o homem, mesmo sem compreender exatamente o motivo...

“Procuro por homens verdadeiros: auto-suficientes, virtuosos, que não dependem de nada além de si mesmos para serem felizes.”

“E encontrou algum?”

“Até hoje, só meia dúzia de cães, mas nenhum homem.”

“Ora, mas dizem que você é um cão. Qual tipo de cão serias, Diógenes?

“Quando tenho fome, um maltês, que não assusta nem uma donzela. Quando estou saciado, um cão caçador, daqueles que os homens jamais conseguirão acompanhar o ritmo nas caçadas, por que se cansarão primeiro. Por isso também moro só, neste barril... Apesar de ter muitos amigos, nenhum deles teria coragem de conviver comigo.”

“Pois, maltês ou caçador, é deveras um homem sábio, um cão filósofo! Eu fui educado por um de sua raça, de modo que reconheço sua ascendência entre os homens. Você é um digno cidadão de Atenas, ó cão!”

“Sou um cidadão do mundo. Apenas vivo em Atenas, mas em meu barril, em minha mente, eu penso sobre todo o mundo... Como poderia me limitar a uma só cidade?”

E, ao ouvir aquelas palavras, Alexandre sentiu-se como um reles escravo perante a um verdadeiro conquistador do mundo. Subitamente todas as cidades que havia conquistado tinham agora menos importância do que a sabedoria na voz daquele cão...

“És mesmo um sábio, Diógenes” – E interpondo-se entre o cão e sua escolta de soldados, prosseguiu – “Pede-me o que quiseres, e será teu.”

Diógenes então agachou-se, apagou sua lamparina e, sentando no feno de seu barril, retrucou:

“Não me faças sombra. Devolve o meu sol”.

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Alexandre espantou-se e ficou tão maravilhado pela vida e pela posição assumida por este homem, a ponto que, frequentemente, lembrando-se dele, dizia: “Se não fosse Alexandre, eu queria ser Diógenes”. O que significa: “Se eu não tivesse feito filosofia por meio das obras, eu teria me dedicado aos raciocínios”. Alexandre não disse: “Se eu não fosse rico ou Argeades”; com efeito, não colocou a fortuna acima da sabedoria e a púrpura real e a coroa acima do bornal e do manto desgastado, mas disse: “Se não fosse Alexandre, eu seria Diógenes”; o que significa: “Se eu não me tivesse proposto reunir entre si os bárbaros e os gregos, percorrendo todos os continentes para levá-los à civilização, e de alcançar os confins extremos da terra e do mar reunindo a Macedônia com o Oceano para lançar as sementes da Grécia e difundir entre todos os povos justiça e paz, não estaria em ócio no luxo, mas imitaria a simplicidade de Diógenes”.

Plutarco, Sobre a fortuna ou virtude de Alexandre.

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Crédito da imagem: Wikipedia (Pintura de Jean-Léon Gérôme, 1860)

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5.12.11

Uma correspondência de amor

Este conto em homenagem aos 5 anos deste blog...

Oi menina. Resolvi lhe enviar uma carta, já que esse me parece o meio mais sincero que tenho para me expressar sobre nossa relação.

E aqui estou eu escrevendo a mim mesmo, e desse modo também a você. Parece estranho não? Mas é verdade. A menina que eu conheço é aquela que eu sinto dentro de mim, e a cada vez que a encontro, aprendo mais sobre ela, até que ela fique cheia e brilhe como uma estrela no meu coração.

Para mim, o amor se constrói...
Para mim, o amor não se baseia em uma condição, é incondicional...
Para mim, o amor não exige nem é exigido, ele apenas é, existe. Como o gato que simplesmente dorme, come, recebe carinho e corre atrás dos mosquitos de luz...

Pergunte para o gato como é ser gato e ele lhe dirá mais ou menos assim: "Sei lá, mesmo que eu tivesse consciência sobre o que sou acho que não gostaria de saber. Eu apenas sou o gato".

Assim eu também apenas sou eu, seu amigo, que te ama.
Um amigo que te ama.

Talvez alguém que você não entenda... Algum maluco que entrou na sua vida e fica mandando cartas sem sentido. Mas não existe tanto sentido nisso não. Não dá para explicar, você tem de descobrir por você mesma. Eu posso só ajudar.

Não quero dizer que sei de algum segredo que vai mudar sua vida, sou só apenas eu. Mas acho que posso te amar, e eu sei que isso vai te ajudar. Basta que você seja sincera. Primeiro, com você mesma, e depois comigo...
E antes que isso pareça uma cobrança, digo que não é...

Que se dane se vou te beijar ou não. Coisa pouca. Já estou feliz por lhe ter encontrado e conhecido... Se continuar como está, que seja maravilhoso como é. Como sempre foi maravilhoso, e sempre será, encontrar pessoas simples e puras como você.

Eu sei que você criou mascarás para se proteger da falsidade dos outros, e também sei dos seus defeitos. Mas eu enxergo através da mascará, pois consigo ser verdadeiro. Eu perdoo os defeitos, pois também tenho defeitos em mim, e não me culpo por isso. Trabalho para atenua-los.

Não me limito, não mais. Eu já cansei de me preocupar com o que pode acontecer. Cansei de não dizer a verdade por orgulho ou medo. Eu estou em paz. Quem sabe até quando ela vai durar, mas sinto que dentro dessa paz também sou sábio de certa forma...

Sábio como uma andorinha, mas pelo menos acho que conquistei algo que não irá mais se perder. Não irá sumir com a primeira rajada de vento, como uma cabana de palha...

Portanto, da nossa relação, espero que também tenha a mesma base de cimento sólido, que não se racha. E então poderemos ver a andorinha virar uma águia... E sabe lá quão alto irá voar.

Não tenha medo de voar, como todo o resto, é coisa pequena, e não devemos esquentar a cabeça com elas... Assim, quando percebemos sua grandeza, nem nossa própria sombra ignorante poderá interrompê-la.

Apesar de tudo, acho que o ser humano nasceu para ser feliz.
E que melhor maneira de ser feliz do que amando os outros?
Portanto, não tenho medo de te falar desse amor, e eu mesmo sei que um dia você também não o terá. Vamos trabalhar para isso então.

E o resto é o resto...


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Crédito da imagem: Arman Zhenikeyev/Corbis

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15.11.11

Dançando com ciganos, parte 3

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

« continuando da parte 2

E a festa continuou... Ao ritmo de músicas latinas, espanholas, ciganas, espíritos dançavam em meio à mata carioca, úmida, a refletir uma lua cheia em céu límpido, estrelado, infinito. Quantos e quantos espíritos já dançaram nesta terceira pedra do sol, quantas e quantas vidas nômades encontraram refúgio em nosso planeta, quantas ainda por chegar...

Quando digo que espíritos dançavam, é por não saber ao certo se eram os médiuns encarnados a dançar, ou espíritos de outrora, ou de agora, daqui ou de algum lugar, pegando emprestado seus corpos para que dançassem como seres humanos uma vez mais. Como disse, segundo meus colegas de faculdade, quase todos estavam emprestando gentilmente seus corpos. Mas eu não – eu não queria, não poderia, perder aquela dança.

Para mim a dança, sobretudo a espiritual, é uma espécie de ritual em movimento. Quando estou nesse estado, de dançarino da vida, alguma coisa em mim, alguma coisa maravilhosa, passa a influenciar meus passos, meus movimentos, meus pensamentos... Para lhes dizer a verdade, minha relação com a dança é tão intensa (apesar de eu ter iniciado somente lá pelos 16 anos, num casamento de minha família), que eu jamais poderia acreditar em um Deus que não soubesse dançar.

No entanto, nunca gostei de decorar passos de dança, assim como nunca gostei de decorar orações. Para mim a maior oração é aquela que se faz no ato de viver no amor, e a maior dança é aquela que reflete o agitar de nossa própria alma, ao vivenciar este amor.

E aquela poesia noturna continuou...

Quando os ciganos dançam
Saias e lenços vermelhos
Bailam pelo ar
Estamos no mesmo passo
No mesmo ritmo
Todos a amar

Sob a proteção de Sara
Dos astros
E do mar
Destinados a felicidade
Banhados pela luz
De um tênue luar [1]


Até que a música cedeu lugar às consultas com os médiuns (incorporados). Foi nesse momento que me aproximei da fila que se formava em torno de Madalena, e enquanto aguardava minha vez, fiquei de olhos e ouvidos bem abertos para tudo o que era perguntado, e respondido...

Uma coisa que constatei na época, e que até hoje me intriga quando visito centros espíritas, espiritualistas, umbandistas, e festas espirituais em geral, é como as pessoas perguntam sobre coisas pequenas, mundanas, praticamente irrelevantes se comparadas com a divina oportunidade de conversarmos por alguns momentos com entidades que parecem habitar o outro lado do véu, nalguma outra dimensão... “Como vai minha situação no trabalho, será que serei demitido este ano?”; “Queria saber se sicrano gosta de mim mesmo, ou seria de fulano?”; “Você acha que esse ano é um bom ano para iniciar meu novo negócio?” – nada disso me parece importante perto de tal fenômeno.

Além disso, muitas vezes (talvez a maioria) um médium não estará realmente incorporando outro espírito, mas o seu próprio, seja alguma parte inconsciente, seja alguma personalidade de outra vida – o que é conhecido usualmente como animismo. Se usamos tal comunicação para perguntar perguntas como estas, melhor seria consultar um psicólogo, um filósofo, talvez um leitor de tarô, e não um ser que veio de outra dimensão da natureza para nos visitar... Apesar de que, muitas vezes, tampouco haverá ser algum ali para nos responder, apenas o animismo do próprio médium.

E como eu não estava ali somente para dançar, mas, sobretudo, para observar e aprender algo de útil, quando veio a minha vez de dialogar com Madalena, lhe trouxe uma pergunta um pouco mais profunda do que as demais:

“O que eu gostaria muito de saber é acerca da natureza do tempo. É verdade que ele é somente uma parte do espaço? E, sendo assim, é verdade que vocês aí de cima conseguem visualizar outras partes do tempo, ou seja, o nosso futuro aqui na Terra?”

O espírito que habitava Madalena me olhou de uma forma doce e respondeu, como se houvesse uma espécie de “tradução simultânea” sendo realizada, enquanto ela buscava as palavras certas para seus pensamentos:

“Jovem, não existe em cima e embaixo, nem o que passou e o que vai passar, existe só amor. Tudo isso aqui, toda essa festa, toda essa música, é só pelo amor que tudo existe...”

Sem refletir muito sobre a resposta dada, prossegui:

“Mas, e como é isso? Porque estamos aqui desse lado, vivendo no tempo? Se já sabem do futuro, tudo já foi escolhido por nós? Somos fantoches?

“Não! Vocês têm isso... Como que chamam aí? Vontade! Vocês têm vontade! Então, vocês é que escolhem, a gente só observa... Mas, sobre o futuro, jovem, é melhor não saber... Ainda não podem saber... Seria muito, muito ruim, que soubessem quando vão morrer... Têm muito medo, vocês daí, de morrer...”

E já estava terminando meu tempo com ela, então parti para a pergunta que jamais poderia ter deixado de fazer:

“Mas, e quem é você? É algum guia de Madalena?”

“Não... Eu sou guia é das águas... Eu cuido de um lago no Japão há muitos, muitos anos atrás... Acho que... Isso, mais de mil anos atrás! Adeus, é hora de retornar.”

E o que posso dizer é que até hoje estou refletindo sobre aquela última resposta de quem quer que seja que pegou Madalena emprestada [2].

***

[1] Trecho de um poema que escrevi na época, Festa cigana.

[2] Sendo que, o máximo a que cheguei em relação ao assunto se encontra relatado em minhas Reflexões sobre o tempo. Já se acharam estranho um espírito da natureza oriental estar freqüentando uma festa cigana, lembro que os ciganos se originaram de migrações da Índia para a Europa há 1.500 anos; E, independente disso, é muito comum que entidades de egrégoras diversas operem certo “turismo espiritual” em egrégoras alheias – ou, em outras palavras, o mundo é um só.

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Crédito da foto: knulp (Torii de Shirahige, Shiga, Japão)

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8.11.11

Dançando com ciganos, parte 2

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

« continuando da parte 1

Outro amigo nosso da faculdade, o Caio, também foi convidado para a tal “festa dos ciganos”. Então viajamos no carro eu, Caio, Amanda e os pais dela, com Jânio no volante. Estranho de se pensar, mas eu hoje mal me lembro desse percurso ou até mesmo para qual região do interior do Rio nos locomovemos (lembro apenas, claro, que não era região de praia) – acho que isso ocorreu porque os registros de minha memória na festa em si foram tão mais interessantes e relevantes, que esses outros detalhes acabaram esquecidos, apesar de eu usualmente me recordar bem de qualquer lugar novo para o qual viajo, principalmente de carro.

Apesar de bastante curiosos acerca dos “assuntos espiritualistas”, meus colegas de faculdade na verdade ainda tinham aquele certo receio, até mesmo natural, do desconhecido... Chegando na chácara, ficou muito claro para quase todos quem eram os médiuns a incorporar, e quem eram apenas os “observadores”, ou seja, gente “normal”. Ficou claro, isto é, para quase todos, mas aparentemente não para mim: somente dias depois que meus colegas me contaram como eu agia tão naturalmente com os médiuns incorporados, e como chegaram até a pensar que eu mesmo poderia estar incorporado também. Será que eles tinham razão?

Um dos eventos que me lembro muito bem desta festa noturna é a da chegada de um sujeito chamado Pablo: chegara sozinho e bastante “desconfiado”, tinha um físico de lutador de artes marciais e aparência típica de playboy da zona sul carioca, com seu semblante carrancudo era a definição mais perfeita de “peixe fora d’água” que se poderia imaginar... Além disso, era o tipo de pessoa com a qual eu raramente me sentiria a vontade para dialogar, pois provavelmente não tínhamos quase nenhum interesse em comum, aquela coisa de “cada um na sua tribo” própria da juventude mesmo...

Mesmo assim, eu fui a primeira pessoa para a qual ele dirigiu a palavra, não faço ideia do por que:

“Você acredita nessas paradas aí?”

“Não sei, estou vindo à primeira vez, estou só observando...”

“Eu também. Não era nem para eu estar aqui... Eu não sei por que eu vim, eu não queria vir... Mas esse pessoal ali, parece que fica me chamando, parecem familiares... Eu não entendo o que acontece comigo...”

A essa altura ele parecia transtornado, como alguém “impelido” a estar em um lugar que jamais gostaria de adentrar, quase como um fugitivo passando ao lado da cadeia... Mesmo assim, Pablo se dirigiu lentamente a uma espécie de “roda de ciganos” numa área mais afastada da festa, bem em meio ao mato mesmo. Na verdade, eram umas 7 ou 8 médiuns (todas mulheres) incorporadas, que ficavam girando lentamente em círculo enquanto conversavam sabe-se lá o que umas com as outras. Eu fiquei observando Pablo se dirigir cada vez mais lentamente até lá, até que cambaleou, ajoelhou e se prostrou com a cabeça no solo... Fiquei preocupado, ele não parecia estar nada bem!

Então, o que ocorreu à seguir faz parte da minha própria experiência religiosa naquele evento singular. Até hoje eu não sei por onde aquela vontade de ajudar tomou conta de mim, mas fato é que eu agi tão naturalmente que naquele momento era como se fosse à única coisa que eu poderia pensar em fazer – me dirigi até o círculo de ciganas e bradei, até mesmo algo irritado, para uma delas:

Vocês não vão ajudá-lo?

“Ele nos deve. Tomou o que era do grupo somente para ele, e até hoje não devolveu... Mas agora é tarde para ele, vai ter de merecer voltar para nós...” [1]

Há essa altura, eu já havia percebido que se tratava de uma questão de vidas passadas, e que, de alguma estranha forma, aquelas almas estavam se reencontrando para resolver antigas pendências, em uma chácara do interior do estado do Rio de Janeiro, muito distante das terras natais dos ciganos na Europa [2]...

“Mas vocês não o querem de volta? Ele não está arrependido? Você não quer ajudá-lo?” – repeti.

“E você acha que eu preciso estar ali do lado dele para poder ajudar?”

Com essa resposta seca e enigmática, acabei me afastando da médium... Por um momento achei que elas estavam ali realmente o auxiliando “a uma certa distância”, mas depois me dei conta que, independente de estarem perto ou longe, não estavam nem aí para o aparente sofrimento de Pablo. E foi então que eu me ajoelhei próximo a ele e dirigi a palma da minha mão direita a sua cabeça – e o mais interessante é que eu não tinha nenhuma ideia consciente do que estava realmente realizando ali.

Mas imaginei, imaginei uma luz peculiar e “poderosa” descendo dos céus e envolvendo Pablo. Em minha mente (pois já estava de olhos fechados), imaginei que eu estava tentando erguê-lo, para que se apresentasse de pé, sem medo, sem vergonhas, diante do seu grupo de antigos amigos (ou nem tão amigos assim)... Essa foi a primeira vez que auxiliei “não fisicamente” um espírito nesta vida; E, por mais estranho que pareça, era um espírito encarnado, e eu o estava auxiliando por pura intuição, realizando automaticamente, e mentalmente, certas coisas, certos rituais, que só iria “aprender” muitos anos depois... Obviamente que as palavras não são suficientes para descrever propriamente o que eu experienciei naquele momento.

Quando voltou a si, Pablo estava um tanto aliviado, mas ainda assim prontamente se levantou e se afastou para bem longe daquela roda de ciganos. Somente no decorrer da festa que pude confirmar que aquilo tudo que imaginei não foi mera fantasia da minha mente, ou pelo menos foi algo que Pablo imaginou junto comigo. Na verdade, ele me pareceu imensamente agradecido, quase como se eu tivesse salvo sua vida – mas talvez ele tenha exagerado um pouco, pois nem mesmo eu sei se fui eu quem o ajudou, ou um outro alguém oculto, através de mim...

Mas o que mais me afetou a memória naquele dia ocorreu assim que Pablo se afastou do círculo. Uma das ciganas, a mesma com a qual havia conversado anteriormente, veio até bem próximo de mim e disse algo como... “Você é cigano? Você vai deixar eu entrar em você também...

Então, de repente, senti uma sensação “intrusiva” no topo da cabeça, quase como se uma imensa garra de águia estivesse prendendo minha cabeça no lugar, e alguma coisa estivesse tentando se apossar de mim... Essa experiência foi tão drástica que até hoje eu tenho imensa dificuldade em incorporar espíritos, mesmo que parcialmente ou de forma plenamente consciente (que, em todo caso, provavelmente será a única forma que eu nalgum dia irei incorporar) – A sensação que eu tinha era a de perda de consciência, e prontamente imaginei uma espécie de “escudo mental” a me proteger, e algo dentro de mim ficou furioso, e expulsou aquela garra de águia para bem longe!

Quando eu abri os olhos, a médium na minha frente estava assustada, e claramente tinha “voltado ao corpo” de forma abrupta, de modo que o espírito que a incorporava (e que talvez tenha tentado “pular para dentro de mim”) tinha sumido de uma hora para a outra. Tudo que pude fazer foi me desculpar:

“Me desculpe, é que não estou acostumado com essas coisas...”

“Está tudo bem, meu filho. Eles só entram onde têm condições de entrar... Acho que aí dentro de você, tão cedo nenhum cigano vai querer entrar...” [3]

» Na continuação, minha consulta atemporal com Madalena.

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[1] Uma das características mais conhecidas das comunidades ciganas, que mesmo eu sabia ainda naquela época, era a de compartilhar todos os objetos e utensílios, que não eram “pessoais”, mas “de quem está usando”, ou por vezes “de todo o grupo”. Um cigano que se desinteressava pelo uso de algum objeto, automaticamente o “perdia” para quem quer que encontrasse uso para ele.

[2] Em realidade os ciganos se originam de migrações de nômades da Índia entre os séculos IV e IX, mas o que conhecemos hoje como povo cigano se refere principalmente as comunidades que ainda vivem relativamente isoladas na Europa, principalmente na Romênia e na Bulgária, muito embora existam pequenas comunidades genuinamente ciganas em diversos países, incluindo o Brasil. Que eu saiba, de todos os presentes na festa, nenhum era cigano.

[3] Que fique bem claro: não estou sugerindo que ciganos são “espíritos inferiores”, até mesmo porque existem espíritos nas mais variadas gradações morais, nas mais variadas frequências vibratórias, encarnados ou não, em todos os povos e etnias da Terra. Certamente não me deparei com os melhores exemplos de sabedoria cigana naquela roda, mas a festa tampouco havia acabado, e ainda haveria tempo para encontrar seres um tanto mais elevados.

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Crédito da foto: Clã Cigana Zoraya

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6.11.11

Dançando com ciganos, parte 1

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

Na faculdade conheci a Amanda, que além de ser uma bela garota tão interessada em artes quanto eu [1], ainda apareceu num belo dia com O livro dos espíritos na mochila... Conversa vai e conversa vem, acabei descobrindo que os pais dela não somente eram espíritas, como a própria mãe, Madalena, era uma médium ostensiva desde a infância. Apesar deles morarem num bairro afastado na zona oeste do Rio de Janeiro, consegui convencer a Amanda e trazer seus pais numa das reuniões semanais do Teatro Vannucci, no Shopping da Gávea, perto da minha casa na zona sul da cidade. Conforme já havia dito em outro conto desta série, os encontros espiritualistas ecumênicos deste teatro foram, para mim, como uma espécie de “missa semanal” por muitos anos [2]...

Ainda me lembro quando os avistei no corredor do shopping. Era óbvio que o casal um pouco mais velho que andava junto com a minha colega de faculdade eram seus pais, mas conforme a Amanda ainda não tinha me visto, seria improvável que qualquer um dos dois me reconhece-se a certa distância naquele corredor. No entanto, assim que me viu a mãe dela mal conseguiu tirar o olhar de mim – ela me parecia estar até mesmo apreensiva [3]. Somente quando a sua filha me viu e me apresentou, que ela pareceu relaxar.

Então assistimos juntos a palestra espiritualista do dia, rezamos e meditamos junto com todos os presentes ao final, e depois fomos comer um lanche no shopping. Só então pude compreender o motivo do “estranhamento” de Madalena com minha presença: seu marido, Jânio, me explicou pacientemente que ela costuma ver espíritos desencarnados desde pequena, e que até hoje, até aquele preciso momento, isso ocorria. Madalena chegava a evitar sair sozinha na rua, porque as vezes não tinha como saber se estava vendo ou até mesmo conversando com um espírito desencarnado – era necessário alguém encarnado ao seu lado, para que ela pudesse se certificar: “você está vendo alguém ali ao lado?”.

Pode parecer até mesmo uma situação cômica, do tipo de “causos do Chico Xavier”, mas na vida real esse tipo de coisa estava longe de ser engraçada ou trivial, pelo menos para a própria Madalena. Foram necessários muitos anos de desenvolvimento da própria mediunidade, de auto conhecimento e meditação, para que ela pudesse deixar de ser “alguma louca varrida” e pudesse viver normalmente. É claro que muitos céticos vão resumir casos assim como patologias mentais, mas o que importa nesse caso é que o espiritismo efetivamente possibilitou que Madalena pudesse levar uma vida (quase) normal, ao ponto de parecer uma dona de casa perfeitamente normal, não do tipo que vê espíritos por todo o lado (apesar de ver).

Na verdade a certa altura da conversa eu já havia percebido que a mãe da minha colega era uma das médiuns mais “capacitadas” que já havia encontrado pessoalmente [4] – apesar de não demonstrar nenhuma capacidade intelectual acima de média, e de se expressar com linguagem simples, ela exalava sabedoria por todos os poros, e principalmente pelo olhar. Ela me explicou porque ficou particularmente apreensiva ao me ver: “Com o tempo aprendi a reconhecer os desencarnados, mas algumas pessoas as vezes parecem estar desencarnadas; Não sei se é pelo que estão pensando a sua volta, pelo olhar, pela forma de caminhar, mas você ali no corredor me parecia mais um espírito do que uma pessoa”.

Mas que tipo de espírito, um bonzinho né?” – perguntei, sem pensar muito no que estava dizendo.

“Bonzinho ou mauzinho, isso a gente nunca sabe não é? O que eu vi era uma névoa em volta da sua cabeça, daquele tipo formada por pensamentos meio que fora desse mundo, sabe como é? O tipo de coisa em que os espíritos se interessam bem mais do que nós...”

E ela não poderia estar mais correta. Como qualquer artista, espiritualista, ou poeta, eu na minha juventude passava mais tempo pensando em coisas de um outro mundo do que propriamente deste... Apesar das contas para pagar, apesar do casamento e do futebol, acho que até hoje isso ainda não mudou tanto assim.

Segundo a Amanda, o mais impressionante daquela noite toda não foi o fato de sua mãe ter me confundido com um espírito desencarnado, mas sim o fato de que Jânio, o seu pai, havia “ido com a minha cara”. E, segundo ela, o seu pai era um tanto carrancudo e raramente gostava a primeira vista de quaisquer amigos dela (principalmente amigos homens, sabem como é)... Isso significava, em suma, que eles estavam dispostos a me levar para passar um final de semana numa chácara no interior do estado, onde ocorreria um encontro semestral de um grande grupo espiritualista da zona norte do Rio. Ela me disse que “provavelmente alguns deles iriam incorporar ciganos” – e eu, é claro, aceitei na hora!

» Na continuação, a festa mais estranha da minha vida (até aqui)...

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[1] Ambos cursávamos Gravura (Belas Artes), na UFRJ.

[2] Ver o conto “Orando em teatros”.

[3] Até hoje certos médiuns me olham dessa maneira, principalmente os que nunca me viram antes. É um olhar um tanto específico, mas até hoje não tive coragem de perguntar o que exatamente eles estão vendo...

[4] Pelo menos 80% ou mais dos médiuns ostensivos que tive a oportunidade de conhecer pessoalmente eram mulheres. Acredito que muitos espiritualistas devem ter chegado a números parecidos, ao menos aqui no Brasil. Waldemar Falcão, por exemplo, descreve algumas delas no seu excelente Encontros com médiuns notáveis (Ed. Nova Era).

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Crédito da foto: Oliver Rossi/Corbis (essa pessoa não é a Madalena do conto).

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17.10.11

Diálogo zen

(Discípulo) Mestre, acabei de ler sobre uma pesquisa que fizeram no Ocidente - Perguntaram o que as pessoas tem de indispensável para o seu dia a dia, e a maioria respondeu que era o seu celular!

(Mestre) Que curioso...

(D.) Um absurdo, todo esse materialismo...

(M.) Mas o que deveria ser indispensável em sua vida?

(D.) Ora, penso que meus amigos, minha família, minha mulher...

(M.) Mas como? As pessoas não nos pertencem... Essa resposta não nos serve.

O discípulo pensou por um longo momento e acrescentou:

(D.) Muito bem, agora entendi: tudo o que temos é a sabedoria! Ela sim é indispensável.

(M.) Concordo... Mas me diga: como saberemos com certeza se temos mesmo alguma sabedoria?

(D.) Ora, pela opinião dos outros, mestre - Eu mesmo afirmo: você é um sábio!

(M.) Fico imensamente grato... Mas, e se estiver enganado? Outros podem aparecer por aqui e afirmar exatamente o oposto: que sou apenas algum louco... Ou pior, um charlatão...

(D.) Mas mestre, todos que conviverem um dia que seja contigo hão de concordar que é mesmo um sábio...

(M.) Como?

(D.) Ora, porque passarão a amá-lo como todos os outros discípulos tem lhe amado.

(M.) Mas... Amar assim tão depressa? Será que primeiramente não amariam o saber?

O discípulo acenou com a cabeça, concordando.

(M.) Então, não seria esse amor ao saber o que inicia todo esse caminho espiritual que temos percorrido juntos?

(D.) Sim mestre! Agora percebo que foi assim: primeiro me interessei por seu conhecimento, e só após nosso convívio foi que passei a amá-lo como a um pai...

(M.) E já que agora somos tão amigos, será que quando viajamos para longe um do outro o telefone não passa a ser indispensável para mantermos contato?

(D.) Bem, pode ser... Mas o telefone é apenas um objeto material...

(M.) Meu amigo, o problema não é o objeto, mas o uso que fazemos dele... De fato, não temos um telefone, não temos nossa casa e nem mesmo nossa roupa, o que temos é essa vontade tão antiga de nos conectarmos um ao outro - Eis o indispensável em nossa vida.


raph'11 (em homenagem ao blog de Aoi Kuwan: Magia Oriental)

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Crédito da imagem: budgetplaces

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4.10.11

Deus cego, deusa manca

Mal houve tempo para que ambos os deuses pudessem se esconder no sótão da casa da velha cigana. A vila em que moravam desde que nasceram ficava bem na região de encontro das duas grandes marchas: o exército da bandeira com o cordeiro azul defendia a sua verdade absoluta, mas o exército da bandeira com a meia-lua rubra igualmente defendia sua própria verdade absoluta. Eram ambos os exércitos plenos de certezas; de modo que o resultado da guerra, e quantos inocentes iriam morrer, e quantos iriam escapar, era a única dúvida naquele infeliz horizonte temporal...

A pequena deusa manca, tão criança quanto seu irmão, estava feliz por ele ter nascido cego. Era um garotinho muito sensível, amoroso até demais, via bondade e esperança em quase tudo... Ficaria um tanto traumatizado se pudesse enxergar a selvageria que acomete os homens em suas guerras. Os pedaços decapitados de corpos a voar pelo ar, os rios de sangue se formando pelo solo, o desespero no rosto daqueles jovens que foram quase que arrastados pelas circunstâncias de seus reinos para a linha de frente da batalha. A guerra era, enfim, a imagem da morte. Que bom que o deus cego não podia ver tudo aquilo!

O deus cego agradecia aos céus por ter as pernas fortes e as costas largas (para seu tamanho), de modo que podia carregar sua irmã nas costas. Mesmo naquele sótão, podia ouvir todo o som da batalha. O pior não eram os gritos selvagens ou brados de guerra rapidamente interrompidos por decapitações – muito pior eram os grunhidos e gemidos baixos daqueles que não tiveram a sorte de receber um golpe letal, e eram abandonados no solo ensanguentado, agonizando em mortes lentas.

“Vamos embora agora” – alertou a pequena deusa.

“Como sabe que é seguro sair agora?” – indagou seu irmão.

“Pelo que soube de ouvir falar das batalhas que dizimaram outras vilas, ambos os exércitos enviam uma quantidade X de solados, e quando nenhum lado sai claramente vitorioso, eles retornam as suas bases com os levemente feridos, para que possam se tratar, e receber as novas ordens de seus comandantes. Isso usualmente leva uma quantidade Y de tempo, que é exatamente o tempo que teremos para fugir daqui.”

“Mas como você pode ter certeza? X e Y não me parecem muito confiáveis...”

“E os deuses para os quais reza nos céus, são por acaso confiáveis? Impediram que nossa vila fosse dizimada?”

A pequena deusa foi convincente, e prontamente seu irmão a levantou cuidadosamente e a colocou sobre as próprias costas, de modo que ela apoiava os braços cruzando-os por seus ombros... Suas pernas tortas, defeituosas de nascença, eram substituídas pelo caminhar ágil e vigoroso do deus cego. Por outro lado, ele não saberia onde ir em meio aquela calamidade, não fosse pelos olhos da irmã, que o guiavam em meio a loucura dos homens...

Sua irmã por vezes se tornava angustiada e pessimista em relação ao futuro daqueles reinos e suas verdades absolutas. Às vezes, era quase como se o fato de não conseguir andar também fizesse com que fosse incapaz de seguir adiante com seus pensamentos, projetos e estudos da natureza. Ela já sabia tanto, e queria saber ainda muito mais!

Mas o deus cego, apesar de não saber se guiar muito bem pelas florestas à volta, tinha a convicção inata de que no final tudo acabaria bem... Ele sempre dizia a irmã: “Não tenhamos pressa. Vamos devagar, fazendo as coisas uma de cada vez, mas bem feitas, sobre bases sólidas. Vamos um dia construir um reino de luz nesse mundo, um reino onde não haja mais a busca pelas verdades absolutas, mas a busca pelo amor, e pelas dúvidas que são sagradas”. Sua irmã estava cada vez mais convencida de que aquilo era uma utopia pela qual era inútil lutar... Seu irmão, no entanto, nascera para lutar por utopias.

E conseguiram escapar ilesos da guerra que devastara seu vilarejo. Seguindo o conselho da velha cigana, buscaram pelas ruínas de um antigo castelo de outrora, que jazia na estrada para o fim da terra, e onde nem o reino do cordeiro azul nem o da meia-lua rubra tinham quaisquer interesses em conquistar...

Chegando lá, foram reconstruindo o antigo castelo aos poucos, recrutando todos os refugiados que passavam em torno. Até que o castelo foi reerguido em toda sua glória, e em torno dele uma pequena vila, que depois se transformou em cidade, e depois numa larga metrópole, onde todos eram convidados para viver em harmonia, estudando e compreendendo a natureza com a mesma alegria que oravam aos céus. E diz-se que esse reino até hoje existe, mas que se encontra flutuando acima da terra, e que somente os poetas e os loucos conseguem o encontrar, por vezes, em seus sonhos mais doces e amor...


Este conto foi diretamente inspirado pela pintura “Barefoot” (pés descalços) da jovem Akiane Kramarik, e também pela frase abaixo:

“A ciência sem a religião é manca, a religião sem a ciência é cega.”
(Albert Einstein)


raph'11

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Crédito da imagem: Akiane Kramarik ("Barefoot", quadro pintado aos 16 anos de idade)

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