O sétimo deus
Este conto é uma continuação, ou epílogo, do conto “o sexto deus”, também publicado no Portal TdC. E foi baseado num comentário lá (da Mariana) que surgiu a inspiração para este novo conto...
Após os outros deuses terem deixado a fazenda, ainda angustiados com a falta de uma resposta clara acerca do futuro de seu sistema de existência, o Sábio falou ao seu amigo, o dono da fazenda e mestre das plantações:
“Porque você mesmo não lhes falou do que sabe de nosso futuro, porque deixou que eles continuassem a crer que eu era o mais sábio de nós?”
Sereno, o Agricultor finalmente se manifestou: “Não me importa quem é o mais sábio, o que importa é que somos aqui todos amigos, e não queria dar uma notícia tão triste aos meus amigos, não hoje...”
“Triste? Quer dizer que não teremos nenhuma solução? Não é possível que o fim do ouro acarrete também o nosso próprio fim... Não é possível que seja assim!”
“É a Natureza, apenas ela, quem determina o que é ou não possível, meu amigo. E se sou algo mais sábio do que fui há milênios, é porque soube observá-la: observar como cada pequeno inseto luta por sua sobrevivência, como cada predador luta a guerra da fome, e como cada presa vive a temer a morte na bocarra de alguma besta a sua espreita. Não existe almoço grátis: todos têm de batalhar para sobreviver. E porque justamente nós, os imortais, não conseguimos viver em paz? Falta-nos o conflito, falta-nos a batalha.”
“Mas como? Se fossemos mais amigos uns dos outros, como eu e você, todos os deuses deste mundo poderiam viver em perfeita harmonia, e o ouro não seria necessário para nada: seríamos uma verdadeira fraternidade. Não nos falta a guerra, nos falta o amor.”
“E como seres imortais poderiam amar uns aos outros como os mortais, que lutam pela sobrevivência, que batalham pela vida num pequeno lampejo de existência que se estende do nascimento a morte? Nós não iremos morrer, jamais, e por isso mesmo jamais iremos mudar, teremos sempre essas mesmas características, condenados a ser eternamente os mesmos deuses, a carregar as mesmas pendências uns com os outros... O ouro acabou, e o planeta pode acabar, mas o que regia nosso sistema não era tanto o ouro, mas sim a fé que cada um de nós depositou em seu valor: apenas por ser raro. No fundo, o que sempre quisemos era estar num degrau um pouco mais elevado que nossos irmãos: ser o deus mais rico!”
“Mas eu nunca desejei ser o mais rico! Nunca me importei com ter ouro algum...”
“Mas você ainda assim queria provar alguma coisa a seus irmãos, queria, enfim, ser o mais sábio.”
Triste e cabisbaixo, o Sábio respondeu: “Você... tem toda razão. Eu hoje reconheço: você, meu amigo, que apenas observou a Natureza, acabou se tornando o mais sábio dentre nós. É exatamente por isso que creio que você tem a solução para o nosso problema, não tem?”
“Tenho, mas não para o nosso problema, tenho uma solução para a vida.”
“Como assim?”
“Olhe ao seu redor, este mundo é minúsculo, e de nada adiantaria levar adiante o meu plano aqui... Eu pretendo enviar uma semente de vida a outro planeta de alguma galáxia, um planeta maior, onde haja água e um sol generoso, para que novas sementes de vida brotem, para que novas florestas surjam e, com elas, um novo ciclo de vida.”
“Mas, e o que isso tem a ver conosco, afinal?”
“Vou impregnar tal semente com nossas personalidades, nossas características, para que um dia, após bilhões de anos, surjam finalmente seres de nossa raça, conscientes, que erguerão grandes cidades e civilizações, que terão cultura e arte, magia e ciência, guerra e paz, ouro e mercado, legisladores e trabalhadores, sábios e ignorantes, mas com uma diferença crucial... Eles serão muitos, diversos, e eles poderão morrer. E assim, morrendo, voltarão para viver novamente, desde o berço, para que suas próprias personalidades possam se renovar sempre, para que suas potencialidades não se estagnem na imortalidade inútil. Assim, chegará dia, meu amigo, que eles farão tudo o que fizemos aqui neste pequeno mundo, e ainda muito mais, muito mais...”
E assim, muitos ciclos depois daquela conversa, os seis deuses se reuniram em um grande ritual comandado pelo Agricultor, que também era o xamã daquela pequena tribo de deuses, e assim sua essência imortal foi retirada de suas cascas, e irradiada em um novo deus, um deus-semente, um deus de vida, o sétimo dentre eles... E, enterrado no solo do pequeno planeta, dia veio em que seu sol finalmente morreu, e seu mundo tornou-se um pequeno pedaço de pedra desgovernado em meio ao turbilhão cósmico. Até que nalgum tempo, de alguma forma, ele se chocou com algum outro planeta, e não demorou muito até que algumas bactérias fossem vistas nadando em um lago escaldante...
raph’12
***
Crédito da foto: Martin Puddy/Corbis
Marcadores: contos, contos (41-50), espiritualidade, existência, morte, natureza








