Pular para conteúdo
15.6.22

Nossa vida nas cartas (parte 1)

Ainda me lembro bem do dia em que descobri o que era o tarot (ou tarô): fui encontrar meu amigo Marcelo Del Debbio enquanto ambos estávamos no Rio de Janeiro, e como a agenda dele estava concorrida, ficamos de almoçar juntos no intervalo da aula que ele estava ministrando próximo ao Largo do Machado. Era um sábado, e ele havia alugado uma sala em um colégio da região. Foi só quando cheguei que soube que ainda levaria cerca de meia hora de aula para o intervalo do almoço, e decidi entrar e assistir um pouco.

Já alojado em minha cadeira ginasial, recordando com um sorriso meio amargo dos tempos de escola, olhei para o quadro onde a apresentação estava sendo projetada e vi alguma pintura que me lembrou um dos meus artistas prediletos, Albrecht Dürer. Na sequência, uma outra mais conhecida, O Andarilho, do grande Hieronymus Bosch. Foi só aí que me dei conta de que o tema daquele curso era Os Arcanos Maiores do Tarot. Mas, como sou formado em Belas Artes e conhecia boa parte daqueles artistas, decidi prestar um pouco mais de atenção, afinal até então o tarot para mim era alguma outra coisa que, decididamente, tinha pouco a ver com a história da pintura.

Foi naquela meia hora que eu descobri que estava redondamente enganado sobre o que era, afinal, o tarot. Até aquele dia eu achava que se tratava de um oráculo divinatório em formato de baralho (ou algo assim), no entanto, enquanto o Marcelo explicava sobre dois dos vinte e dois Arcanos Maiores, o Louco e o Mago, eu percebi que o tarot definitivamente era muito, muito mais do que isso.

Isso foi há cerca de uma década, a data e mesmo o ano exato, já não lembro ao certo. De lá para cá eu estudei bastante, fiz o curso do Del Debbio a distância e até mesmo cheguei a iniciar a cocriação do meu próprio tarot, mas em todo esse tempo ainda não cheguei a uma conclusão acerca do que é exatamente esse jogo que, de alguma forma estranha, parece trazer nossa vida nas cartas de um baralho.

No meio ocultista e nos círculos esotéricos em geral o tarot é considerado algo muito, muito antigo, possivelmente da antiguidade egípcia. Já entre os céticos, o tarot é uma invenção moderna, com cerca de 500 anos, e 99% dos baralhos atuais têm menos de um século de idade. O mais impressionante é que ambos, de alguma forma, parecem estar certos.

Para entender com isso se dá, é preciso primeiro compreender em que contexto o tarot foi “declarado egípcio”. Antoine Court de Gébelin nasceu em uma família protestante francesa em torno de 1725. Como a França vivia uma época conturbada, seu pai, que era pastor, exilou-se com a família na Suíça a partir de 1730. Gébelin voltou à França só após a morte dos pais, em 1763, quando também já era doutor em teologia. Sua ascensão na chamada alta sociedade parisiense foi meteórica: escritor coroado pela Academia Francesa e membro de outras academias, censor do reino, erudito, gramático e especialista em mitologia, eventualmente também se tornou maçom. Em 1768, decidiu publicar um projeto grandioso, uma obra “que seria a chave de todos os séculos e de todos os conhecimentos humanos”. Lançou uma espécie de financiamento coletivo que, na época, dependia basicamente do dinheiro dos reis, príncipes e nobres em geral. Mas, ao contrário de outros enciclopedistas comuns em seu tempo, seu objetivo era outro. Gébelin não desejava listar os conhecimentos de seu próprio século, e sim buscar a fonte comum de todos os saberes humanos por meio de uma ampla síntese. O nome do seu projeto era O Mundo Primitivo.

Mais de mil assinantes sustentaram a empreitada. Ele queria publicar um volume de cerca de setecentas páginas por ano, até completar nove deles. E assim foi: entre 1773 e 1784, Gébelin escreveu mais de 6 mil páginas! Mesmo assim, tocou diversos outros projetos ao longo da escrita. Em 1780, tornou-se presidente de uma sociedade que mais tarde daria origem ao Museu de Paris, e financiou quase a metade dos seus projetos. Apesar de sua notoriedade, Gébelin não tinha linhagem na nobreza ou alguma herança familiar relevante, e quando morreu, em 1784, estava cheio de dívidas.

Ainda que tenha escrito sobre uma vasta amplitude de assuntos, Gébelin foi lembrado pela história basicamente pelo que falou sobre o tarot. Isso se deu no tomo VIII do Mundo Primitivo, cujos temas eram “a história, o brasão, as moedas e os jogos”. Lá pelas tantas, ele narra que foi convidado por uma amiga a conhecer o “Jogo dos Tarôs” junto com alguns amigos em comum e que, em dado momento, decidiram analisar com mais calma cada um dos Arcanos Maiores:

“Tivemos o cuidado de [iniciar pela] mais caricatural dentre as figuras, que não apresentava nenhuma relação com seu nome: o Mundo. Observo-a e logo reconheço a alegoria. Todos [vêm] para ver esta carta maravilhosa, na qual percebo o que os outros nunca viram; cada um me mostra outra carta e, em 15 minutos, o jogo é examinado, explicado, declarado egípcio e, como esse não era o jogo que havíamos imaginado, mas o efeito de suas relações escolhidas e sensíveis com tudo o que conhecemos das ideias egípcias, comprometemo-nos a divulgá-lo algum dia ao público: [...] um livro egípcio que teria escapado da barbárie, da destruição pelo tempo, dos incêndios e da ignorância. [Eis o] efeito necessário da forma frívola e leviana desta obra, que lhe possibilitou vencer todas as épocas e chegar até nós com uma rara fidelidade: a ignorância na qual nos encontramos até agora a respeito do que ela representava foi um feliz salvo-conduto que lhe permitiu atravessar tranquilamente todos os séculos sem que se pensasse em fazê-la desaparecer.”

Segundo o próprio Gébelin esclarece em seu texto, o objetivo daquele encontro não era investigar a simbologia do tarot, foi algo que ocorreu espontaneamente, e até a data ele praticamente ignorava a sua existência. Apesar disso, em cerca de quinze minutos, aquele estranho jogo foi “examinado, explicado e declarado egípcio”. Daquele dia em diante, essa ideia nunca mais seria esquecida.

Gébelin teve em mãos uma das inúmeras versões do chamado Tarot de Marselha, um dos baralhos clássicos, cuja origem remonta ao século XV e ao norte da Itália. Ele poderia ter criado um novo tarot com simbologia claramente egípcia, ao contrário daquele que, como veremos, está carregado de símbolos da Europa medieval. Se não o fez, é possivelmente por duas razões: primeiro, porque tinha honestidade intelectual; e segundo, porque acreditava que a simbologia medieval também era uma herança de ideias mais antigas. Assim, é perfeitamente possível que, do ponto de vista de Gébelin, ser “declarado egípcio” era o mesmo que ser “declarado muito, muito antigo”. Afinal, se alguém passa quase uma década pesquisando e escrevendo sobre como as ideias de um “mundo primitivo” ainda reverberam em seu tempo, é porque ele não precisava ver uma esfinge ou uma pirâmide para reconhecer que algumas das questões mais antigas do espírito humano simplesmente não podem ir embora, não podem ser totalmente esquecidas, são como histórias reencenadas em cada novo tempo por um novo conjunto de símbolos, de personagens, mas não obstante com sua essência intacta.

Se isso for verdade e soubermos interpretar o que Gébelin quis dizer de fato, isso não invalida os registros históricos que nos dizem que o tarot não pode ter muito mais do que 500 anos; mas, ao mesmo tempo, é preciso ter olhos para reconhecer o que o tarot tem de “egípcio”, no que ele dialoga com assuntos que habitam o espírito humano há milênios, até mesmo muito antes da primeira pirâmide ser erguida no norte africano. E, para tal análise, vamos precisar da ajuda da psicologia do século XX.

» Na sequência, uma coleção de arquétipos.

***

Bibliografia
Para esta série nos valemos de conhecimentos e trechos obtidos nos livros História do Tarô (Isabelle Nadolny; tradução Luciana Soares da Silva; Editora Pensamento), Tarot Hermético (Marcelo Del Debbio e Priscilla Martinelli; Daemon Editora) e O Homem e seus Símbolos (Carl G. Jung e colaboradores; tradução Maria Lúcia Pinho; Harper Collins), no portal Clube do Tarô (por Constantino K. Riemma e outros colaboradores) e nos cursos Os Mistérios do Tarot – Arcanos Maiores e Menores (Marcelo Del Debbio) e Tarot: Os Mitos Modernos e a Cultura Pop (Rodrigo Grola e Marcos Keller).

Crédito das imagens: [topo] Hieronymus Bosch (O Andarilho); [ao longo] Google Image Search (Antoine Court de Gébelin e alguns arcanos do Tarot de Marselha – incluindo O Mundo, à direita).

Marcadores: , , , , , , , ,

2 comentários:

Anonymous Nemeton Kieran disse...

Sou uma buscadora em absoluto início de caminhada e meus estudos sobre o Tarot estão apenas engatinhando, mas quando me deparo com as especulações sobre sua origem imediatamente me lembro que até os dias de hoje pouco se conseguiu explicar o funcionamento do cérebro humano, a origem do Universo e outras coisinhas mais... Sinto que existem assuntos que ainda não temos permisão de saber.

16/6/22 13:00  
Blogger AKASHA ELETROMAGNÉTICA disse...

Eu sempre fiquei meio que hipnotizada pelas artes das lâminas, meus olhos brilhavam quando eu contemplava as cartas e ardia uma curiosidade respeitosa em mim. Mas, me ensinaram que era coisa proibida, pecaminosa e foi necessário algumas décadas até eu adquiri meus primeiros tarôs. Ainda estou em fase de aprendizagem, mas sou imensamente grata por ter a oportunidade de aprender e desfrutar dessa ferramenta tão misteriosa que se perpetua graciosamente até os dias de hoje.

16/6/22 21:30  

Postar um comentário

Toda reflexão é bem-vinda:

‹ Voltar a Home