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28.9.26

Lançamento: A Ciência da Religião, de Yogananda

As Edições Textos para Reflexão voltam a publicar Yogananda!

Em A Ciência da Religião, temos a compilação da primeira palestra de Paramahansa Yogananda no Ocidente, dada em 1920 num Congresso em Boston, nos EUA.

A nova tradução de Rafael Arrais já está disponível em e-book e também na versão impressa:

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25.6.26

O mistério de Amherst

A Natureza é a mais elevada das artes –
Apenas ver o céu de verão já é poesia

Se leio um livro e isso deixa todo o meu corpo tão gélido
Que não há fogo que posso aquecê-lo,
Sei que isso é poesia –
Se sinto, fisicamente,
Como se o topo da minha cabeça fosse arrancado,
Sei que isso é poesia –
Essas são as únicas maneiras de saber –
Haverá outra?


No século XIX, Amherst era uma pequena cidade cerca de 150 km ao oeste de Boston, cuja população girava em torno de 2 a 4 mil habitantes. Nessa época, a vida do cidadão médio era marcada por uma combinação de trabalho agrícola, religiosidade protestante intensa, forte valorização da educação e uma vida social relativamente restrita para os padrões atuais. A maioria das famílias dependia direta ou indiretamente da agricultura, e os dias de trabalho começavam cedo, muitas vezes antes do nascer do sol.
No entanto, o nível de alfabetização e interesse pela leitura era consideravelmente elevado se comparado à cidades norte-americanas do mesmo porte. A cidade contava com instituições de peso, como o Amherst College, fundado em 1821, e posteriormente a Universidade de Massachusetts Amherst, fundada em 1863. Além da Bíblia, muitos dos seus cidadãos eram versados nas obras de William Shakespeare, John Milton, Ralph Waldo Emerson e Henry Wadsworth Longfellow.
Isso pode explicar, quem sabe, o surgimento de um grande poeta numa cidadezinha tão modesta. Certamente ele teria viajado bastante, quiçá rumo a outros continentes, para compensar a falta de diversidade cultural em sua cidade natal. Talvez fosse um agitador social, presente em saraus de poesia em Boston e outras grandes cidades de sua época.
Mas que esse poeta tenha vivido toda a vida em sua própria região, que nunca tenha participado de saraus públicos, movimentos culturais, tampouco tido algum livro de poemas publicado em vida – e que, ainda por cima, tal poeta tenha sido recluso e isolado em sua própria residência por boa parte da vida, e que seja lido e reconhecido até hoje como um dos maiores poetas da língua inglesa e, além de tudo isso, que seja uma mulher, uma mulher que viveu sua vida numa sociedade profundamente patriarcal e conservadora, autora de poemas que exploram temas universais como o amor, a morte, a natureza, a eternidade, a dúvida religiosa e a consciência individual de uma forma extraordinariamente original e, por que não dizer, mística: eis o grande mistério em torno de Emily Dickinson.


Viver é tão surpreendente que deixa pouco espaço para outras ocupações.


Nascida em 10 de dezembro de 1830, Emily era filha de um proeminente família de região. Tanto seu pai quanto seu avô foram advogados de renome. Ela sempre viveu ao lado da família, a quem era muito apegada: os pais, o irmão Austin e a irmã Lavinia que, assim como ela, nunca se casou. A irmã foi também uma de suas grandes amigas ao longo da vida, e após sua morte tornou-se a guardiã de sua obra poética – sem Lavinia, dificilmente o mundo conheceria Emily Dickinson.
Nossa poetisa sempre demonstrou uma grande sagacidade aliada a um temperamento espirituoso, muitas vezes irônico, e uma forte tendência à introspecção e a solitude. Estudou até os 17 anos num seminário para moças, onde foi uma aluna brilhante, sendo versada em inglês, latim, história, geografia, matemática e, principalmente, botânica, pois era grande amante das flores. Com exceção de algumas viagens a Boston e outras cidades da região, Emily passou praticamente a vida toda na mesma residência onde nasceu, chamada “The Homestead” – uma mansão bela e espaçosa, hoje transformada no Emily Dickinson Museum.
Lá ela tinha o seu quarto, um cômodo relativamente simples, com uma pequena mesa de canto iluminada por um lampião, onde escreveu, quase sempre à noite, após encerrar as tarefas domésticas, centenas de poemas que entraram para a história. Isso também se explica pelo seu grande interesse pela leitura, aliado ao fato do pai possuir uma grande biblioteca que estava sempre à disposição. Emily era especialmente versada na Bíblia e na obra de Shakespeare, mas também admirava Charles Dickens, George Eliot e as irmãs Brontë. Na poesia, teve contato com Ralph Waldo Emerson, William Blake, John Keats e Elizabeth Browning. Todavia, seus poemas não parecem ter influência direta de nenhum deles, sendo talhados com extrema originalidade, o que decerto a ajudou a ser lida e reconhecida até os dias atuais.

E assim, com essa sabedoria, orei –
Grande Espírito, dá-me
Um Céu não tão grande quanto o teu,
Mas grande o suficiente para mim


Durante toda a sua vida teve menos de dez poemas publicados, todos enviados a jornais por pessoas da família, sem o nome da autora. Logo de cara, ao verificar que alguns de seus poemas foram impressos com “melhorias” e “correções” editoriais, Emily desistiu de publicá-los como livro, e passou a enviá-los, por correspondência, somente aos seus amigos mais próximos – mesmo que fossem apenas amigos das letras, isto é, cujo contato com a poeta se dava quase sempre pela via das cartas.
Quanto aos casos amorosos, fossem ou não platônicos, ela sempre os manteve em segredo, embora os vivenciasse intensamente. Seja como for, as suposições acerca de sua vida amorosa são baseadas tão somente nas cartas que ela enviou e que foram parcialmente recuperadas ao longo do tempo, já que todas as cartas que ela recebeu de seus correspondentes foram queimadas pela irmã após sua morte, atendendo seu desejo expresso. Dito isso, parece certo que chegou a ter diversos flertes na juventude, e que na maturidade três homens lhe despertaram um forte sentimento. Eram todos casados, mais velhos, figuras que ela admirava: um ministro presbiteriano, o editor de um jornal e um juiz. Com os três a poeta manteve correspondência por muitos anos, e num e noutro ano, deram-se até mesmo raras visitas pessoais. O terceiro, o juiz Otis Lord, um grande amigo de seu pai, ficou viúvo e teve um romance de poucos meses com Emily. Ao que tudo indica, em 1882 ele a pediu em casamento, mas ela recusou, pois isso a obrigaria a mudar-se de Amherst. Dois anos depois, o juiz faleceu.
Também são bastante evidentes os sinais apaixonados nas dezenas de “cartas poema” (letter poems) que ela enviou à sua grande amiga Susan Dickinson, casada com seu irmão Austin. Susan, uma mulher culta e inteligente, em geral era a primeira a receber os poemas de Emily, sendo também a sua principal crítica literária. Esse diálogo duradouro entre as duas foi essencial para o processo criativo e o crescimento intelectual da autora.


Derramei o orvalho –
Mas colhi a flor da manhã –
Escolhi esta estrela:
Única dentre a Noite Imensa –
Sue - para sempre Sue!


Emily amava a Natureza e não se cansava de tentar colocar tal sentimento em palavras. Com seu conhecimento de botânica, cultivava flores numa estufa com tanta dedicação que havia sempre alguma espécie em floração, inclusive no inverno. Na companhia de seu cão Carlo, costumava passear pelos jardim da propriedade da família, o que sem dúvida a inspirava na escrita noturna.
Embora criada no Puritanismo, seus poemas demonstram aversão aos dogmas religiosos mais limitantes. Ao mesmo tempo, era evidente o fervor de sua religiosidade íntima, captada tantas vezes em seus versos mais arrebatadoramente místicos. Emily não se furtava de falar com profundidade tanto do Céu quanto do Inferno.


E se você fosse salva,
E eu condenada a estar
Onde você não estivesse,
Isso já seria o Inferno para mim.

Com a morte de seu cão, um companheiro diário por dezesseis anos, cessaram seus passeios pelos jardins, e Emily se tornou cada vez mais reclusa na própria casa, no próprio quarto, protegida pela irmã e pela criada da família.
Essa tendência à reclusão já havia se manifestado desde seus vinte e poucos anos, mas foi gradualmente se agravando diante da perda de diversas pessoas queridas. Já aos quatorze anos havia perdido uma prima e grande amiga, Sophie, da mesma idade. Ela perdeu o pai em 1874 e poucos anos depois, foi obrigada a testemunhar o adoecimento da mãe, até sua morte em 1882. Aliás, num curto período de alguns anos, a poeta perdeu a mãe, o querido sobrinho Gilbert, de meros 8 anos, uma grande amiga de infância, Helen Hunt Jackson, e ainda o juiz Lord, com quem quase se casou.
De fato, em sua época, anterior à penicilina e o saneamento básico, a morte era um espectro constante em torno dos vivos. Mesmo nas classes mais abastadas era comum morrer de acidentes, de parto, malária, tuberculose, tifo etc. Portanto, não é de admirar que Emily dialogasse constantemente com a morte e a imortalidade da alma em seus poemas. Em alguns deles, a Morte se torna uma espécie de personagem mitológica, uma semideusa, ou quem sabe um aspecto de Deus.


Porque eu não pude parar para a Morte –
Ela gentilmente parou para mim –
A carruagem levava apenas nós dois –
E a Imortalidade.


Em 1886, aos 55 anos e após dois anos de declínio de sua saúde, a poeta tomou a Carruagem. Morreu em sua cama, no mesmo cômodo onde teceu sua poesia, cuidada por Lavinia e Susan. O atestado de óbito menciona nefrite, mas pelos sintomas que ela descrevia, como desmaios e forte dores na nuca, hoje suspeita-se que fosse hipertensão. Seja como for, e medicina de sua época seria incapaz de salvá-la.
Ao organizar seus pertences, sua irmã Lavinia ficou surpresa ao encontrar, numa gaveta, centenas de poemas reunidos em 40 livretos manuscritos – uma produção desconhecida até mesmo da família. Assim, como Emily fez Lavinia jurar que queimaria todas as cartas recebidas pela irmã, mas nada disse sobre sua poesia, seguiu-se uma verdadeira epopeia da compilação de todos os seus poemas, inclusive os que foram remetidos por cartas aos amigos, que eventualmente também se tornaram seus primeiros editores.
Em 1890, quatro anos após sua morte, foi publicada a primeira seleção preparada por Todd e Higginson: Poems, com 115 poemas. Este pequeno livro alcançou um surpreendente sucesso de crítica e de público, esgotando onze reimpressões em dois anos. Na sequência, os mesmos editores lançaram mais duas coletâneas, Poems, Second Series (1891) e Poems, Third Series (1896).
Hoje amplamente reconhecida como uma das maiores poetas da língua inglesa, senão a maior, Emily Dickinson seguiu o mesmo caminho de outros grandes autores clássicos que foram muitas vezes ignorados em sua própria época, mas cuja obra venceu o tempo e veio a se tornar imemorial.
Ficou famosa a carta em que Emily faz uma pergunta ao “Sr. Higginson”, seu futuro editor:


O senhor (...) pode me dizer se o meu Verso está vivo?
A Mente está, ela própria, tão próxima – não pode ver com clareza – e não tenho a quem perguntar –
Se o senhor achar que respira – e puder me dizer – eu sentiria imediata gratidão.


Hoje podemos constatar que o seu Verso, minha amiga, segue mais vivo do que nunca!

 

(em breve as Edições Textos para Reflexão vão publicar uma seleção dos melhores poemas de Emily Dickinson... aguardem!)

***

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Emily Dickinson em forografia da época, colorizada por computador); [ao longo] Google Image Search (Amherst no século XIX; Emily Dickinson em sua mesa de escrita)

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17.1.26

Manual de Canto

Às vezes me pego perguntando
por que será que as criancinhas
brincam de construir castelos de areia
tão perto do mar?

Afinal, para que será que servem
em seu esplendor fugidio?

No entanto, lá estão elas
entusiasmadas, cheias de sorrisos,
contemplando seus portões de conchas,
suas janelas de pedrinhas,
seu palácio inteiro,
que não durará além desta tarde.

 

Depois de vir tanto nessa praia,
eu já não me pergunto se isso tudo
serve para alguma coisa ou não:
me pergunto, isto sim,
quais são os castelos de areia
que construímos na vida adulta.

Será que somos mesmo capazes,
como as criancinhas,
de olhar para nossas obras e conquistas
como o mesmo entusiasmo,
a mesma cintilação perene
de um brincadeira que é brincada agora,
e não além desta tarde?

Pois que é a vida,
senão o dia que virará tardinha?
E que é a morte,
senão a noite que antecede
um novo dia?


“Mas eu temo a morte.”

“Por quê?”

“Porque me aflige imensamente
saber que um dia não serei mais eu.”

“Então faça como os construtores
de castelos de areia,
que não se importam em ser lembrados
pela sua magnífica arquitetura;
sabe por quê?”

“Não, me diga, mevlana...”

“Por que estão entusiasmados demais,
preenchidos demais,
para pensar em ter um ‘eu’:
isso sequer faz algum sentido
para quem vive tão perto do mar.”


Às vezes me pego lembrando
do som que as ondas fazem
quebrando suavemente na beira,
e então não preciso mais pensar em nada...


“Por que esse poema é tão estranho?
Quem são essas pessoas dialogando?”

“Bem, tudo o que posso dizer é que
essa é a maneira sufi de recitar,
querer ir além disso
seria como entregar
um Manual de Canto
para um rouxinol.”


raph'26

***

Crédito da imagem: Kits Unger/unsplash

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6.12.25

É preciso amar o feminino

O primeiro ser humano a assinar a autoria de um texto foi uma mulher, Enheduanna, poeta e sacerdotisa de Ur, filha do rei Sargão, que viveu na Mesopotâmia, mais de 4.200 anos atrás, quando a presença feminina no reinado das ideias e das artes ainda era tida em alta conta. Muitos séculos depois, viveu em Alexandria uma das últimas pensadoras registradas pela história antiga, Hipátia, a quem o bispo Sinésio chamava de “divina mestra”. Depois, foram necessários mais séculos e séculos para que alguma delas fosse devidamente considerada como filósofa ou cientista, e aqui vale citar a brilhante Marie Curie, a primeira pessoa a ganhar duas vezes um Prêmio Nobel (um na física, outro na química). Ora, e o que aconteceu entre Hipátia, que viveu no século quinto, e Marie, que foi reconhecida como grande cientista no século vinte? Será que entre elas não viveram grandes filósofas, cientistas, pensadoras, artistas? Ou será que a história simplesmente deixou de registrar as poucas que conseguiam se sobressair em meio a um brutal mundo de homens?

Sim, um mundo de homens, vocês sabem do que estou falando, do patriarcado e coisa e tal... Mas, apesar delas certamente merecerem toda compaixão e caridade, este texto não pretende exaltar ou aconselhar as mulheres, que bem ou mal foram obrigadas a reconhecer e conviver com seu lado masculino, a fim de simplesmente sobreviverem nesta terra – não, eu vim aqui falar com vocês, homens, que podem não saber ou não querer saber, mas que têm sim um lado feminino, um lado cujo reconhecimento e bom convívio é essencial para uma vida, uma alma equilibrada. E, ao contrário do caso delas, esse mundo só nos fez afastar de nossa parte feminina.

Com isso não quero dizer que nós homens somos uns coitados, vítimas privadas de seu lado feminino. Certamente não brincaria com isso, pois nós não fomos sucessivamente dominados, adestrados, violentados, assassinados das formas mais brutais e covardes possíveis. Não, mas ainda assim, nós também saímos perdendo, e não foi pouca coisa.

Na psiquê humana, assim como em tudo o mais, há sempre dois lados, dois polos, e não é como se um deles fosse positivo e o outro negativo, no sentido qualitativo, pois ambos são essenciais e complementares: o lado feminino precisa reconhecer e conviver com o masculino para se tornar inteiro, equilibrado; e o mesmo ocorre no outro polo. Mas é justamente aqui o grande problema dos homens de hoje, que foram ensinados não somente a ignorar seu lado feminino, como a temê-lo, evitá-lo e, em casos mais extremos, odiá-lo com todas as forças.

Para começo de conversa, é bom dizer que isso tem pouco a ver o gênero, a orientação sexual ou mesmo o sexo em si – até mesmo porque o sexo, algo sagrado tanto para a alma quanto para o corpo e a fecundidade em geral, há tempos tem sido reduzido a uma mera sessão de falos e orifícios, algo mais mecânico do que propriamente natural, humano. Em suma, o que quero dizer é que reconhecer o seu lado feminino não fará de você “menos homem”, muito menos um homossexual. Por outro lado, também é fácil perceber que os homens homossexuais em geral, ou pelo menos os assumidos, já estão bem mais adiantados na via de convívio com seu lado feminino.

E o que diabos ganhamos ao reconhecer nosso lado feminino? O que estamos perdendo, por deixá-lo de escanteio em nossas vidas? Bem, qual foi a última vez que você chorou ao lado dos seus amigos, e não por razões religiosas, políticas ou futebolísticas? Qual foi a última vez que você saiu com um amigo para desabafar sobre coisas íntimas, puramente emocionais? Qual foi a última vez que você foi a um teatro, um recital de poesia, uma exposição de arte, quem sabe assistir um filme de drama no cinema? Qual foi a última vez que você se permitiu estar só, realmente só, refletindo sobre a vida? Qual foi a última vez que você abraçou sua melancolia, sabendo que ela também é apenas o outro lado da moeda? Qual foi a última vez que você contemplou a natureza a sua volta, espantado com tamanho espetáculo de fecundidade? Qual foi a última vez que você amou uma mulher como amiga, como companheira, como igual, e não somente como um orifício?

Sim, parafraseando Renato, é preciso amar o feminino. É preciso amar a mulher, a ideia da mulher, o pensamento da mulher, a arte de ser mulher, é preciso amá-las não somente com o corpo, por conta do corpo, mas também, e sobretudo, com a alma, pela alma...

A verdade é que é difícil colocar em palavras o que ganhamos, o que perdemos, se reconhecemos ou não nosso lado feminino. As palavras são cascas de sentimento, e o feminino, sendo puro sentimento, pura emoção, é mais fugidio que o masculino, mais difícil de ser capturado pela linguagem. Aliás, se fosse tão simples recuperar nosso lado feminino, este mundo de homens já teria deixado de ser tão, tão brutal, há muito tempo. No entanto, é preciso começar de algum lugar, algum dia, com um pensamento que seja, e depois seguir dali, passo a passo, rumo a uma noite mais enluarada, mais acolhedora, mais misteriosa.

E assim, no rastro da lua, vamos beneficiar enormemente não somente a nós, homens, como também a elas, que decerto ficarão contentes com mais uma alma equilibrada, e menos um agressor em potencial na sociedade. Pois quanto mais varremos para debaixo do tapete, quanto mais enrustimos nosso feminino, mais nutrimos um ódio inconsciente dele, mais sentimos raiva dos outros homens que se deixam conectar com seu feminino, mais nos afastamos da alma da mulher, mais nos ressentimos delas, simplesmente por serem mulheres, e vivemos uma meia-vida, uma existência incompleta, que justamente por negar as emoções, é assolada e dominada por elas. E, depois, ainda descontamos nossas mágoas em quem não tinha absolutamente nada a ver com o assunto.

Para encerrar, gostaria de trazer este discurso (ou desabafo) da única mulher atualmente exercendo o cargo de Ministra do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia:

Há uma forte hipocrisia no discurso pela igualdade que ignora a cultura de violência contra a mulher. Mata-se a mulher por ser mulher; só por isso, por ela ser o que ela é. E nós gostamos de ser mulher, e não queremos que matem os homens. O compromisso da mulher é com a vida, não com a morte. E não é civilizada uma sociedade que mata mulheres e crianças [...] E ainda hoje nós vemos homens que matam e depois dizem, “o comportamento dela não era bom”, ou, como nós vimos no início da década de 1980, [...] quando uma mulher foi morta, e estava sentada, levando quatro tiros, dois no rosto – como é próprio do feminicídio, em geral nos desfiguram, jogam cal, esfaqueiam, atiram na face, para negar a imagem do que foi aquela mulher. Isto é um nível de crueldade, de perversidade, que demonstra que uma sociedade que compactua com isso não alcançou a etapa civilizatória. E não adianta virem dizer que somos todos a favor da igualdade: não são. Se fossem, nós não estaríamos precisando nos reunir para dizer em alto e bom som que somos todos iguais em nossa humanidade, em nossa dignidade, em nossos direitos.

 

por Raph em 06/12/25

***

Crédito da imagem: Brittani Burns/unsplash

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25.11.25

A beleza duradoura de Sofia

Poucos dias atrás eu estava descendo uma escada rolante no coração de São Paulo, mais precisamente no Hotel Nacional Inn Jaraguá, próximo à Praça da República, onde já se hospedaram artistas como Alain Delon, Sophia Loren e Mick Jagger. Por acaso eu também me dirigia a um encontro anual de artistas, embora nem sempre eles sejam compreendidos como tal.

Tal encontro é hoje conhecido como Sofia, ou Simpósio de Ocultismo e Filosofias Arcanas, mas ele também já foi chamado de Simpósio de Hermetismo, sendo a continuidade de algo que surgiu lá em 2010. Ele representa um genuíno caravançará espiritual. Calma, eu também não conhecia essa palavra até agora pouco, quando pesquisei sobre algum sinônimo para “uma parada de caravanas”. Eis a resposta do sr. Google:

Uma parada de caravanas no deserto é um caravançará, um ponto de descanso e comércio com alojamento para viajantes e camelos, localizado ao longo de rotas comerciais importantes. Eles serviam como base para caravanas que atravessavam o deserto, oferecendo água, abrigo, e suprimentos, facilitando o comércio de longas distâncias. Os caravansários também eram cruciais para a sobrevivência, conectando comunidades e impulsionando o desenvolvimento cultural e econômico nas regiões desérticas da Ásia, África e Oriente Médio.

Ora, não importa se a sua caravana de busca espiritual, de busca de um sentido, um entusiasmo que vá além do chumbo do mundo, é grande ou pequenina, fato é que no Sofia formamos todos uma grande caravana de almas, ainda que ela dure poucos dias, e depois se desfaça... Será?

Descendo as escadas, a primeira alma que vi foi justamente o coração do Sofia, Pri Martinelli, uma das sonhadoras que materializou nosso encontro. Nos cumprimentamos pessoalmente após cerca de um ano, após um giro da Terra em torno do Sol, e no entanto parecia que aquele nosso último encontro tinha sido ontem. De certa forma, estando ali, naquele mesmo local do ano anterior, parecia que o próprio tempo transcorrido havia se tornado, subitamente, algo irrelevante, sem importância: era como se ali, naquele encontro de caravanas, o próprio registro do tempo se desse de outra forma, como se ali cada momento, cada troca de cumprimentos e de saberes, fosse mais eterna, mais duradoura.

Os magos e os místicos, esses praticantes da Arte e de tudo o que ela irradia, são realmente capazes de ver a beleza, o ouro oculto entre o chumbo do mundo. O problema é que a vemos, e logo vem o chumbo e nos faz esquecer. Mas nenhum de nós realmente se esqueceu de nenhum de nossos encontros, de nossas rodas em torno da fogueira, de nossas peregrinações pelo deserto, de nossas aventuras na floresta, de nossos renascimentos na caverna... Ainda que isso ainda resida velado em nosso inconsciente, de alguma forma parte disso vem à tona em encontros como esse, em pleno centro de São Paulo. Esta é a beleza duradoura de Sofia.

Desde que participei do meu primeiro caravançará espiritual, em 2012, pude sentir e compreender que, embora muito importante e iluminador, o conteúdo das palestras dos expositores era algo que ficava claramente em segundo plano, ofuscado pela simples oportunidade de finalmente, finalmente, podermos conviver alguns dias em meio a uma comunidade de buscadores, de caminhantes, de gente que veio de todos os cantos do Brasil, e até de fora, para estar com seus semelhantes. E a nossa principal semelhança é querer buscar o que está além do dogma, além do julgamento, além das ideias de certo e errado. O Sofia é um campo onde as almas se encontram e são o que são.

Pode parecer fácil, mas não é. A magia mais difícil é ser quem realmente somos. A cada vez que paramos nossas caravanas isoladas nesse grande campo, a cada vez que percebemos que todas aquelas regrinhas hipócritas de “faça isso ou não faça aquilo senão aquilo outro pode acontecer”, de “pratique este caminho e jamais olhe, sequer de relance, para os demais”, ou de “nós somos os escolhidos e não podemos nos misturar com aqueles ali”, a cada vez que constatamos que tais regrinhas não passam de palavras ao vento, incapazes de gravar um coração sequer, nos voltamos um pouco mais, um pensamento de cada vez, para a grande realidade do que realmente somos.

E aquilo que buscávamos esse tempo todo também estava nos buscando. Também estava ali, no olhar de nossos irmãos mais adiantados no caminho; e como eles não poderiam caminhar por nós, tiveram de ser assim, pacientes, esperando que chegássemos até eles. Uma coisa que aprendi no deserto é que uma caravana precisa apenas do suficiente para alcançar a próxima parada, todo o acúmulo de preceitos, todo o empilhamento de dogmas, serve apenas para nos atrasar, nos fazer arrastar, cheios de julgamentos, nas areias escaldantes.

No fim das contas, a coisa toda é realmente simples: tudo tem a ver com amar e com não amar.

Amar nos enche de entusiasmo, nos faz ser habitados pelos deuses, nos faz querer ser antes de ter. Mas o amor não é algo escondido numa masmorra entre a floresta, não é um prêmio que se conquista ao final de alguma aventura fantástica, não é uma medalha de algum grau maçônico: o amor sempre esteve à nossa volta, tudo o que temos de fazer é derrubar, pedra por pedra, toda essa muralha de julgamentos que erguemos entre nós e ele. Daí então poderemos nos dedicar a construir um belo templo no lugar.

Quando nos aproximamos do grande caravançará de Sofia, pode ser que alguns desses templos dourados cintilem demais e nos façam fraquejar, imaginando que estamos distantes demais de tamanha beleza. Mas tudo o que os mestres querem é que façamos tudo aquilo que eles fizeram, e ainda mais. É somente assim que a chama pode realmente ser passada adiante. É somente assim que a beleza pode realmente se tornar duradoura, atemporal, eterna.

Seja como for, essa viagem não acaba nunca, e esse universo é vasto o suficiente, paciente o suficiente, amoroso o suficiente, para nos aguardar no próximo encontro.

Até lá, caravansárias e caravansários!

 

por Raph em 25/11/25

***

Crédito da imagem: Guilherme Zorba (Déia Filha D'Água)

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7.8.25

Pequeninos

Quando eu era pequenino,
achava que era Cristo.

Quem nunca?
Você não?
Então deixe-me explicar melhor:

Meu Cristo não estava pregado numa cruz dourada,
não decorava gabinetes nem parlamentos,
não servia de escudo para os homens de bem,
não justificava preconceitos nem atrocidades –
o meu Cristo
era o Cristo dos pequeninos.

Esses que sobem em árvores
e lançam somente pipas aos céus;
esses que não contam nem dias nem horas,
e quando têm algum dinheirinho,
torram tudo em balas e figurinhas;
esses que montam times de futebol
em qualquer pedaço de terra,
com qualquer outro pequenino que apareça.

Pois é importante dizer isso deles:
eles não julgam,
não são bons nem maus,
e jamais, jamais
falam em nome do Pai.

Quando eu era pequenino,
achava que era Cristo,
pois que vivia sempre junto dele...

Um dia cresci, e me perdi,
e achei que estava redondamente enganado.
Mas o mais interessante da coisa toda
é que eu não estava!

Depois de muito tempo,
percebi o que o Rabi quis dizer com
“venham a mim os pequeninos,
pois é deles o Reino dos Céus.”

Então descobri que eu realmente fui Cristo,
um Cristo pequenino,
como são pequeninas e sem importância para este mundo
todas as coisas do lado de lá,
do lado que realmente importa,
da vida que verdadeiramente levamos,
ainda que nossa alma esteja tão embaçada.

Quando eu era pequenino,
achava que era Cristo;
hoje sei que não somente eu,
como todos os demais pequeninos
sempre fizemos parte dele,
e ele de nós –
hoje sei que toda a extensão do meu Caminho
reside em voltar a ser
um pequenino.


raph'25

***

Crédito da imagem: Katharina Kammermann/unsplash

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7.2.25

Financiamento coletivo de "Artemagia" junto aos "231 Portais de Iniciação"

Após muitos anos estudando e se dedicando integralmente ao tema, meus amigos Pri Martinelli e Marcelo Del Debbio estão lançando mais um financiamento coletivo de sucesso no Catarse (sim, ele mal foi lançado e já ultrapassou 100% da meta): "231 Portais de Iniciação - Os Estudos Avançados da Cabalá e dos Arcanos Maiores do Tarot".

Vocês podem ficar sabendo mais sobre a história toda lendo a própria página no site do Catarse. Mas o que interessa aqui é que eles estão lançando, juntamente com o projeto, o meu livro "Artemagia - uma reflexão sobre o Caminho", e também o excelente "Bruxaria - nascido em berço de palha", de outro grande amigo, André Correia.

Assim, é possível fazer a compra prévia de todos os livros e receber daqui a alguns meses, como em qualquer projeto de financiamento coletivo. Mas a vantagem é que, como ele foi financiado em poucas horas (literalmente), tudo indica que a versão final virá cheia de brindes extras. Não posso prometer, mas há grande chance do meu livro e o do André virem em capa dura, embora estejam no preço de capa comum.

Então não percam essa oportunidade de incentivar o mercado editorial nacional, e receber de volta um conhecimento inestimável:

catarse.me/231portais

obs.: Você pode apoiar este projeto até o dia 12/03/2025


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7.1.25

Para estar com nosso Amigo

Há um bebê em seu carrinho
passando do outro lado da rua.
Ele me observa, e me pego indagando
o que será que vê:
uma parte dele, com pernas, braços,
cabeça e coração;
uma parte dele
a olhar de volta.

Sei que também já fui assim,
recém-nascido na Criação,
consciente de tudo,
inconsciente de mim.
Sei que também já fui assim,
anjo, santo, inocente:
haverá Céu maior que este?

Por que será, então, que temos de despencar
cá abaixo?
Por que será que temos de provar
do chumbo do mundo?
Seria essa toda a história:
cair e, desde ali, lutar para retornar?

Ou não seria justamente neste mundo
que deveríamos achar o Céu?
Não na vida que nos mandam viver,
não no dinheiro que nos mandam ganhar,
não nas quinquilharias que nos mandam comprar,
mas na essência da vida em si,
esta que jamais foi guiada por mandamentos,
por promessas de ganhos eternos
ou pelo medo de fogaréus.

Sim, na essência de tudo,
no encantamento que sentimos
em simplesmente observar
a brisa passar, as folhas farfalharem,
as formigas marcharem, pé ante pé;
no que quer se dê em nosso coração
quando percebemos que há partes de nós
que vivem, sempre, nos amigos e nas amigas
que amamos.

Para mim o Céu não poderia ser uma colônia de férias,
nem qualquer lugar específico na Criação,
mas antes um hometruck, um trem, um dirigível,
o que quer que possa levar a mim,
a minhas amigas e meus amigos
por todos os cantos e paragens,
por todos os céus e infernos,
por todas as partes de Deus.

E eu lhe digo, meu coleguinha de viajem:
não é preciso voltar a caber neste carrinho;
não é preciso morrer, nem renascer,
para estar com nosso Amigo.


raph'25

***

Crédito da imagem: Google Image Search

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26.11.24

Hafiz, aquele que fala do que nos transcende

O amor não tem limites, é eterno, é para sempre.

Hafiz acreditava no amor como a causa de todas as coisas.

Khwaja Shamsuddin Mohammad Hafiz Shirazi (c. 1315 – 1390), conhecido como Hafiz, é um dos mais célebres poetas persas, cujos poemas capturaram os corações e as mentes de inúmeras pessoas ao longo dos séculos. Sua coleção de poemas acerca do amor rivaliza tão somente com Jalal ud-Din Rumi em termos de popularidade e influência (Rumi foi um poeta místico do séc. XIII que viveu na atual Turquia).

A energia mística do amor e da paixão em seus poemas tem sido uma fonte de inspiração para muitos poetas, compositores e artistas em geral. A poesia de Hafiz é um precioso tesouro de riquezas simbólicas, mas também traz consigo uma paradoxal ambiguidade de imagens. Ele se vale de tais ferramentas para transmitir as emoções mais profundas da melhor maneira possível.

As odes de Hafiz, conhecidas como gazeis (ou gazals), são muitas vezes carregadas de emoções variadas, e revelam o poeta na sua busca por Allah (ou Deus) em sua própria alma.

Ó belo garçom,
traga a taça de vinho,
coloque-a em meus lábios.

A via do amor parecia fácil em seu início,
mas o que surgiu dela
foram as mais diversas provações.

Hafiz foi um escritor e cientista que viveu na cidade de Shiraz (no atual Irã) no séc. XIV, quando ela fazia parte do antigo reino persa. O nome de seu pai era Baha ud-Din Muhammad, um comerciante de carvão, mas ele morreu de forma trágica quando o poeta ainda era uma criança. Em sua adolescência, Hafiz foi aprendiz de padeiro e viveu uma vida cheia de dificuldades junto com a mãe. Com o tempo, no entanto, ele dominou todos os aspectos religiosos e científicos ao seu alcance, de modo que no início da fase adulta ele já era reconhecido como um grande expoente da literatura e das ciências em toda a região.

É interessante saber que ele havia memorizado por completo o Alcorão, o livro sagrado do Islam, e foi justamente por isso que lhe deram o nome de Hafiz, cuja tradução é “memorizador”.

Ele também era conhecido como Lesan Al-Ghayb, ou “aquele que fala sobre o oculto, o desconhecido, o que nos transcende” (séculos depois, o criador da série de ficção científica Duna, Frank Herbert, emprestou esse conceito para o personagem principal da trama). Hafiz parecia falar daquilo que existe além das palavras.

Um cavaleiro sombrio, o medo das ondas,
um redemoinho tão implacável!
Como pode o fardo tão leve das praias
saber da angústia em nossas profundezas?

A visão de mundo do poeta é inseparável do contexto do Islam medieval, assim como do gênero da poesia de amor persa, mas ainda assim é impossível defini-lo com exatidão. Hafiz é um místico que zomba dos místicos. Ele é conhecido como aquele que compreendeu o Alcorão com o coração, e mesmo assim não se cansa de fazer graça com a hipocrisia dos religiosos. Ele demonstra sua própria vocação espiritual, enquanto sua poesia está repleta de referências à intoxicação do vinho, algo que pode ser literal para alguns, e puramente simbólico para outros.

Vá, vá e cuide dos seus próprios assuntos.
Por que você me culpa?
Meu coração se rendeu ao amor,
o que você sabe sobre tal rendição?

O aspecto mais sublime da poesia de Hafiz é justamente a sua ambiguidade. Em seus poemas, os temas são organizados de forma tão intrincada que podem ter diferentes impactos na alma do leitor, de acordo com o seu estado emocional no ato da leitura.

Muitos dos seus poemas são até hoje usados como provérbios e ditados, sobretudo na região da antiga Pérsia, atual Irã. Já o seu senso travesso de ironia atraiu muitos poetas e compositores ocidentais ao longo dos séculos – incluindo Goethe, Brahms e Wagner.

O Divan (termo persa que significa literalmente “coleção de poemas”) de Hafiz contém 500 sonetos, 42 quadras e diversas odes que ele escreveu ao longo de meio século. Ele foi publicado em dezenas de variações, sendo improvável que qualquer uma delas possua de fato a totalidade de sua obra poética.

O seu túmulo está localizado ao norte de Shiraz, em um belo monumento cercado de bosques, onde a fragrância das flores se faz presente na maior parte do ano. Nos dias atuais, é uma das atrações turísticas mais importantes e visitadas do Irã.

Hafiz acreditava que o caminho para Allah residia nos mistérios do amor. Para ele, o amor não apenas criou este mundo, como é a resposta para todas as questões que afligem nossa alma.

Eu segui pelo meu próprio caminho no amor,
e hoje tenho uma má reputação.
Mas como poderia um segredo permanecer oculto,
se rodasse pelas línguas de todas as rodas de fofoca?

Se é a presença do Amado o que busca, Hafiz,
por que se importar com o que dirão de ti?
Permaneça junto Aquele que reside em seu coração,
deixe de lado os delírios de grandeza.

***

Após ter lançado dois livros com poemas de Rumi selecionados e traduzidos de versões inglesas, chegou a hora de mergulhar na poesia de Hafiz. Ao longo de 2025 estarei intercalando outras traduções com mais uma jornada no misticismo sufi. Assim que tiver mais notícias, trarei aqui no blog.

Rafael Arrais

***

Crédito das imagens: Mahmoud Farshchian (artista iraniano inspirado pela obra de Hafiz)

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18.10.24

O estoicismo oculto

Se há uma função pela qual o estoicismo se tornou mundialmente conhecido, é a de auxiliar as pessoas a atravessarem momentos de crise. Isso, por si só, já explica o porquê da filosofia estoica ter voltado às prateleiras dos títulos mais vendidos em nossas livrarias. Mas, dito assim, “auxiliar as pessoas nos momentos de crise”, pode parecer que o estoicismo é uma espécie de autoajuda, e é mesmo: a raiz da autoajuda, ou seja, conhecer a si mesmo pela prática da filosofia, para assim ajudar a si mesmo a viver uma vida melhor. A questão está, portanto, em não ler o estoicismo de forma superficial, como quem segue uma receita de bolo. Afinal, não é porque este ou aquele guru lhe disse que o estoicismo era isto ou aquilo, que você deveria adentrar esta filosofia, e sim porque você mesmo a leu, conheceu, praticou, e viu que funciona, que de fato modificou sua vida para melhor. A filosofia estoica, afinal, é muito, muito mais do que um fenômeno de marketing.

Os grandes expoentes do estoicismo viveram em sua fase romana. Sêneca (ca. 3 a.C. – 65 d.C.) foi um dos mais célebres pensadores do Império Romano, tendo ao mesmo tempo alcançado altos patamares na Política de seu tempo, ao ponto de ter sido um conselheiro do imperador. Já Epicteto (ca. 50 – 135 d.C.) teve origem muito diversa: nascido como um escravo grego, eventualmente se tornou um homem livre, vivendo e lecionando em Roma até perto de sua morte. Marco Aurélio (121 – 180 d.C.), por sua vez, estava na outra ponta da escala social. Era sobrinho e filho adotivo do imperador Antonino Pio, a quem sucedeu em 161 d.C. para governar o maior império do mundo, enquanto ainda encontrava tempo para escrever suas Meditações.

Seja como for, se foi em Roma que o estoicismo se tornou imensamente popular, com seus filósofos mais preocupados em falar de uma vida virtuosa, voltada para problemas práticos, como mudar o que se pode mudar, e aceitar o que não temos controle para decidir, foi na antiga Grécia que ele nasceu – pela mente de um personagem quase lendário, Zenão de Cítio.

Nascido na ilha do Chipre, na cidade de Cítio, em torno de 332 a.C., Zenão chegou a Atenas aos 22 anos, por volta de 310 a.C. Foi descrito como um homem de pele morena, franzino, sempre de cara séria e vestido com roupas leves. Vivia de maneira frugal e comia moderadamente, sobretudo pão e mel. Amava um bom vinho, embora bebesse raramente. Era sociável até certo ponto, frequentando muitos banquetes, embora temesse a multidão, raramente sendo visto com mais do que duas ou três pessoas ao seu redor. As fontes variam sobre as circunstâncias de sua chegada a Atenas. Elas concordam no fato de que ele era um comerciante que importava mercadorias da Fenícia, mas, segundo alguns, teria perdido toda a sua carga em um naufrágio; e, para outros, vendeu toda a sua mercadoria e depois resolveu se dedicar somente à filosofia, que teria descoberto por acaso ao perambular por Atenas.

Durante aproximadamente uma década, seguiu os ensinamentos de três correntes filosóficas que tinham suas origens no célebre Sócrates: os megáricos dialéticos, dos quais não nos restou quase nada; os cínicos e, sobretudo, a Academia de Platão. Zenão abriu sua própria escola aproximadamente em 301 a.C., sob o pórtico de Atenas conhecido na época como Pórtico das Pinturas (Stoa Poikile), daí o nome de Stoa, do qual derivou o termo “estoicismo”, ou simplesmente “O Pórtico”. O sucesso foi rápido e, por ocasião da sua morte, em torno de 262 a.C., a cidade lhe prestou honrarias dignas de um sábio.

As principais características da escola inaugurada por Zenão, que hoje em dia vemos tão em voga, são a busca por se levar uma vida virtuosa, pautada na ética e no autocontrole, assim como aceitar aquilo que não podemos mudar, e focar naquilo que pode ser feito, isto é, aceitar corajosamente o destino e a morte, e ter uma visão mais racional da vida, avaliando constantemente nossos sentimentos, e os mantendo sob controle.

Mas toda a filosofia antiga, além da parte comportamental e ética, também se propunha a responder questões como “De onde viemos?” e “Para onde vamos?”, com sua própria cosmogonia. No caso do estoicismo, o Cosmos é finito, com a Terra, o Sol, a Lua e os demais planetas e estrelas; porém eles rejeitavam a ideia de um vácuo, um vazio absoluto, pois para eles tudo era conectado de alguma forma.

Antes do Cosmos, no entanto, existia o pneuma, o sopro divino, a substância que é a origem de tudo, a força criativa, isto é, o Deus Primordial que tudo criou a partir de si próprio. Segundo os estoicos, a criação do Universo se inicia com o fogo, que tudo moldou; e, da mesma forma, tudo há de aniquilar no fim dos tempos. No estoicismo, Deus (ou Zeus), como a substância original, dava origem ao universo, aos demais deuses, à natureza e aos seres humanos; mas, ao mesmo tempo, tudo era composto desse Deus-Substância. Seja como for, não sobraram muitas orações estoicas, nada de apelo aos deuses, visto que eles acreditavam que isso não era algo muito necessário em um universo racionalmente ordenado.

Em suas raízes, a filosofia estoica é monista, ou seja: “tudo é um”; e também panteísta, Deus como um princípio associado à natureza, compondo tudo o que existe. Além disso, é materialista, atribuindo um corpo físico até mesmo para a alma, e muito focada na mecânica dualista de “ativo e passivo”, que afirma que tudo o que existe é capaz de agir ou de receber uma ação. O Cosmos material, entretanto, é preenchido com o pneuma, com o sopro divino, que é racional e ordena a realidade.

Embora tenha sido convenientemente deixado de lado por boa parte dos estudiosos acadêmicos, o estoicismo também guarda um lado profundamente espiritual, até mesmo esotérico: dentre as suas principais contribuições para a cena esotérica do Ocidente estão a ideia do perenialismo e a doutrina das correspondências.

É comum, ao pensarmos nos primeiros seres humanos, que os imaginemos como ignorantes, desprovidos de conhecimento e ingênuos, pois somos influenciados pelas ideias da biologia evolutiva, que considera que os humanos vão se tornando mais inteligentes e complexos após muitas e muitas gerações. Para os estoicos, no entanto, era justamente o contrário: para eles os primeiros humanos, surgidos do fogo criador, eram homens e mulheres de profunda capacidade intelectual, com uma natureza até mesmo semidivina, capazes de compreender o Cosmos de forma precisa, sem falhas de interpretação. Eles eram considerados muito superiores, em todos os sentidos, aos homens da época de Zenão. Os estoicos também acreditavam que a primeira linguagem surgiu diretamente do contato do homem com a natureza divina e profunda, sendo que a natureza e a linguagem eram conceitos intimamente conectados.

Por isso a filosofia estoica era tão preocupada com a linguagem, com o significado das palavras, e sempre recomendava que tentássemos encontrar a sua origem profunda, primeva. Tal conhecimento poderia revelar a real natureza da natureza, que era considerada divina. Para os estoicos, as verdade primordiais estavam preservadas na filosofia da natureza, nas leis e nos mitos religiosos.

Aliás, os mitos eram vistos como extremamente importantes, por serem superiores à simples narrativa, assim como pelo seu profundo caráter épico: eles carregavam verdades que precisavam ser interpretadas e compreendidas. Assim, por meio da linguagem e do estudo dos mitos, era possível exercer a piedade, no sentido espiritual do termo, e decifrar o entendimento divino por trás dessas histórias de heróis e deuses. Ou seja, os estoicos foram pioneiros em defender interpretações não literais dos contos mitológicos, como uma forma de se conectar espiritualmente à natureza divina.

Assim, vemos conceitos importantes do estoicismo que viriam a influenciar o perenialismo, ou a filosofia perene, que busca identificar a verdade que une todas as religiões, algo que posteriormente iria ser mais aprofundado por espiritualistas da era moderna, como René Guénon e Helena Blavatsky. Ou seja, eles acreditavam que analisar as diversas crenças poderia dar origem a um corpo de entendimento que é comum a todas elas, que existe uma verdade que é expressa em todas as religiões. E não só isso, como a própria busca do significado das palavras e do entendimento profundo da linguagem, segundo eles, era algo que poderia nos levar à compreensão da natureza.

É engraçado considerar tudo isso como advindo de uma filosofia que hoje em dia é vista como algo tão racional, tão voltado para o dia a dia mundano.

Bem, e a principal conexão estoica com a espiritualidade é justamente a ideia da ligação entre as coisas: os estoicos acreditavam que havia um princípio ordenador, um pneuma, que ligava os objetos e mantinha a natureza racionalmente coesa. E o pneuma não somente conectava as coisas, como também espalhava sinais e símbolos na própria natureza, para que fossem interpretados pelos seres que a contemplassem. Dessa forma, o sábio poderia contemplar o leão, e por meio de uma compreensão oculta, associá-lo ao Sol. Ou ainda identificar tanto o leão quanto o Sol com o ouro. Tal doutrina parte do desejo estoico de buscar compreender as pistas e os sinais deixados pela inteligência divina.

E é por tudo isso que você pode, sim, ser ao mesmo tempo um estoico e um espiritualista, e se dedicar tanto a uma vida virtuosa quanto à busca pelos sinais divinos ocultos na natureza a sua volta. Essas são as verdadeiras raízes do estoicismo, e quando Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio falam em “viver de acordo com a natureza”, são tais ideias que eles têm em mente.


Bibliografia
História da filosofia ocidental, de Bertrand Russell; Epicteto e a sabedoria estoica, de Jean-Joël Duhot; A odisseia da filosofia, de José Francisco Botelho; Canais Esoterica (por Dr. Justin Sledge) e Barbarismo Esotérico (por João Drewes) no YouTube.

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Crédito das imagens: Google Image Search

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13.8.24

Lançamento: Atthaka Vagga, O Livro Budista das Oitavas

As Edições Textos para Reflexão retornam aos primórdios do budismo.

Monges budistas da vertente teravada registraram o Cânone Páli algumas centenas de anos após a morte do Buda. Dentre todo o Cânone, este é um dos registros mais antigos que se conhece dos ensinamentos do Buda. Ele é chamado de Atthaka (oitavas) por ter sido escrito originalmente em 16 seções de 8 estrofes.

A nova tradução de Rafael Arrais já está disponível na Amazon, em e-book, e também na versão impressa, pelo Clube de Autores:

Comprar eBook (Kindle) Comprar livro (Clube de Autores)

» Leia a tradução de um dos 16 poemas da obra

» Leia um dos textos adicionais da edição, "O Buda que Ri"


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28.6.24

Zigue-zague (ou traduzindo o Atthaka Vagga)

Monges budistas da vertente teravada registraram o Cânone Páli algumas centenas de anos após a morte do Buda. Dentre todo o Cânone, o Atthaka Vagga (em páli, Capítulo [vagga] das Oitavas [atthaka]) é um dos registros mais antigos que se conhece dos ensinamentos do Buda. Ele é chamado de Atthaka (oitavas) por ter sido escrito originalmente em 16 seções de 8 estrofes. Em português, eventualmente ficou conhecido como O Livro das Oitavas, ou O Livro Budista das Oitavas.

Após traduzir o Dhammapada anos trás, hoje estou me aventurando nessa tradução de um texto bem mais curto, embora incomparavelmente mais complexo e poético, usando como base diversas versões inglesas. O quinto poema (ou seção) do Atthaka segue abaixo sob o título de Zigue-zague. Os estudiosos irão notar que optei por um título bem exótico – o mais “correto” seria usar O supremo, ou talvez A suprema visão, mas não pude evitar o termo, e creio que muitos dos leitores irão entender o porquê.


Zigue-zague

Ao insistir em uma visão de mundo
que julga ser “suprema”,
uma pessoa a eleva ao pedestal
da coisa mais importante do mundo;
e então, a partir daí,
ela julga todas as outras visões como inferiores,
e não se desenlaça dessas disputas.

Quando ela se vê em vantagem
em tudo o que observa, escuta e sente,
ou em seus hábitos e suas práticas,
quando ela se enlaça em tal sentimento,
ela vê todo o resto, todos os demais,
como inferiores.

E isso também é, dizem os engenhosos,
o que mantém o nó em seu laço
cada vez mais apertado:
a sua vantagem é dependente
do julgamento do outro
como inferior.

Por isso um monge não deve ser dependente
do que é visto, ouvido ou sentido,
nem de seus hábitos nem de suas práticas;
tampouco deve teorizar uma visão de mundo
atrelada a algum conhecimento,
ou hábito, ou prática;
um monge não deve se considerar “um igual”,
muito menos inferior ou superior [1].

Tendo abandonado o que abraçou,
não se apegando a nada,
ele não se torna dependente
nem mesmo do seu conhecimento;
ele não segue esta ou aquela facção
entre aqueles que vivem divididos;
ele não percorre seu caminho
em zigue-zague.

Aquele que não está inclinado
para nenhuma dos lados –
em vir ou não a ser,
neste mundo ou no próximo –;
que não se deixa entrincheirar
ao considerar o que aprendeu
desta ou daquela doutrina;
que não nutre a mínima
percepção teorizada
com relação ao que é visto, ouvido ou sentido:
por quem, sob quais parâmetros
uma pessoa assim poderia ser rotulada
aqui neste mundo?
“Este sábio, este amigo
que não adotou nenhuma visão de como viver,
apenas viveu”.

Pessoas assim não teorizam, não anseiam,
não aderem a nada, nem mesmo às doutrinas.

O sábio, que não se deixou conduzir
nem por hábitos, nem por práticas,
mirou o que há além,
alcançou o que há além:
ele já não anda mais
em zigue-zague.


(tradução por Rafael Arrais)

Obs.: em breve a tradução completa será vendida na Amazon, a princípio apenas na versão digital.

***

[1] Nota do tradutor: Não confundir com questões sociais de igualdade. Aqui me parece que o monge deve se bastar em si mesmo, em sua própria identidade, e não ficar se comparando aos demais, ou adentrando em disputas sobre “qual é a melhor doutrina” – isto é, se juntando a esta ou aquela facção “entre aqueles que vivem divididos”.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search.

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19.6.24

Oceânico, parte final

« continuando da parte 2


Aquele que tenha explicá-lo, mente

Para realizarmos qualquer coisa, mesmo a mais banal, como ir até a sorveteria tomar um sundae ou uma banana split, antes de mais nada precisamos ter a vontade de agir. Segundo Freud, todos nós temos uma espécie de reservatório de energia psíquica, isto é, uma quantidade de energia disponível para realizar nossas atividades. Freud também chamou essa energia de libido, uma espécie de energia sexual. Tal energia pode se manifestar diretamente na vida sexual em si, como no sexo ou nas fantasias eróticas, mas Freud acreditava que ela também serve como um impulso, uma pulsão, para a realização das mais diversas atividades, mesmo aquelas que julgamos ter pouca ou nenhuma relação com o sexo. Por exemplo, para ele a atividade artística é uma forma de sublimação da libido: ao invés de buscar a satisfação de seus impulsos estritamente sexuais, o artista “desvia” tal energia para a execução de todo tipo de atividade artística. E isso também é válido para a ciência, o trabalho em geral, e até mesmo a espiritualidade. Aliás, essa foi a principal divergência de Freud com Carl Gustav Jung, o jovem psiquiatra que era uma espécie de “discípulo predileto” do fundador da psicanálise.

Ao contrário de Freud, Jung acreditava que a energia psíquica tinha uma origem espiritual, e que poderia se manifestar de diversas formas nas ações humanas, incluindo aí a sexualidade. Mas Freud permaneceu irredutível em sua crença de que tal energia era primordialmente sexual, e que poderia até influenciar a espiritualidade, mas não o contrário. Os dois grandes nomes da psicologia do século XX divergiram justamente no que seria o fundamento da energia psíquica. Ainda assim, é preciso analisar com cuidado a divergência de Jung, pois não é que ele achasse que a sexualidade não tinha papel extremamente importante na vontade humana (e nesse aspecto ele não discordava de Freud), apenas ocorre que Jung não era tão avesso à espiritualidade em geral, e de alguma forma acreditava que a sexualidade por si só não era suficiente para abarcar toda a experiência religiosa, que ela não daria conta de explicar o tal sentimento oceânico (que ele provavelmente chamaria de misticismo).

Foi Jung quem popularizou os termos introversão e extroversão (ou “extraversão”, como ele escrevia) quando fundou seu corpus teórico e clínico, que chamou de psicologia analítica. A premissa básica é que os introvertidos buscam energia internamente, em solitude, enquanto os extrovertidos a obtêm da própria relação com as pessoas ao seu redor. No entanto, embora hoje em dia muitos de nós nos descrevamos como “extrovertidos” ou “introvertidos”, e vejamos esses traços como partes essenciais de nossa identidade, as definições de Jung não eram tão polarizadas. Na visão de Jung, precisávamos buscar essa energia tanto nas relações externas quanto dentro de nós mesmos para sermos pessoas plenas. Longe de definir “o que somos”, como algo escrito em pedra, Jung considerava a introversão e a extroversão como tipos de consciência que podemos experimentar de maneiras diferentes em situações distintas. Tanto a introversão quanto a extroversão podem dominar nosso comportamento, mas também podemos nos beneficiar da outra, não dominante. Aproveitando ambas as fontes de energia, podemos realmente expandir nossa experiência de vida.

Jung trouxe da alquimia antiga essa noção de que precisamos equilibrar as nossas caraterísticas internas, e tal noção também perpassa a sexualidade sagrada, a união e o equilíbrio dos polos feminino e masculino, algo que todos nós carregamos conosco, a todo momento. Mas, para explicar isso melhor, será bom recorrermos ao taoismo chinês:

Bem, o taoismo é uma filosofia espiritual bastante vasta, aqui bastará nos focarmos nos conceitos de yin e yang. Eles descrevem duas forças fundamentais, opostas e complementares, que podem ser encontradas em tudo o que há na natureza. O yin é o princípio feminino, a terra, a passividade, a escuridão e a restrição, enquanto o yang é o princípio masculino, o céu, a atividade, a luz e a expansão. Claro que citei apenas alguns exemplos de opostos complementares aqui, pois a lista é infindável. Seja como for, não há qualquer espécie de hierarquia entre os dois princípios. Por exemplo, se dizemos que yang é positivo, ele só é positivo quando comparado a yin, que será negativo. Essa analogia se assemelha a carga elétrica atribuída a prótons e elétrons, de modo que um não é “bom” por ser positivo, tampouco o outro será “mau” por ser negativo.

Segundo essa ideia, cada ser, objeto ou pensamento do universo possui um complemento do qual depende para a sua existência e que, por sua vez, também o traz dentro de si. Disso se tira que nada existe em estado absolutamente puro nem na absoluta passividade, mas sim em constante transformação. Há um símbolo que resume muito bem o yin e yang, e que muitos de vocês possivelmente já viram em algum lugar. Ele se chama taiji, e representa duas carpas vistas do alto, nadando em círculos num lago. Há uma carpa preta, de olho branco; e uma carpa branca, de olho preto. Ou seja, a carpa preta, yin, também tem um pouco de yang; e, da mesma forma, a carpa branca, yang, também carrega um pouco de yin consigo. E ainda temos um conceito essencial no símbolo em si: ambas as carpas jamais param de nadar, e do seu nado advém o equilíbrio e a harmonia de todas as coisas.

Com isso tudo em mente, será muito importante levar em consideração, daqui em diante, que na sexualidade sagrada, nos diversos rituais e práticas de magia sexual, sempre haverá uma conexão entre dois seres humanos, entre duas almas [1], e uma delas fará o papel ativo (yang), enquanto a outra assumirá o passivo (yin). Isso não significa que tais papeis não possam eventualmente se inverter. Tampouco significa, como alguns já devem ter percebido, que todo homem seja sempre ativo, e toda mulher, sempre passiva. Aliás, sequer podemos levar em consideração a própria orientação sexual de cada participante, pois um casal homossexual também terá aquele que se sente mais à vontade no papel de yang, e aquele que está mais próximo de yin. Ou, em outras palavras, no fundo no fundo somos todos alma.

Pois bem, eu sei que muitos gostariam de saber em detalhes como eram exatamente tais rituais sexuais milenares, o que era, o que é exatamente a magia sexual. O que eu posso dizer é que, de certa forma, a única coisa que separa a magia sexual de qualquer outro tipo de magia [2] é o contato íntimo entre os operadores de determinado ritual. Afinal, nada do que se faça com falos e orifícios deveria ser alguma novidade para um mago, de modo que o próprio ato sexual em si é mera parte de um processo, e não um fim em si mesmo.

Como em qualquer ato mágico, o sexo sagrado também busca uma alteração na consciência. Ao contrário de diversas outras técnicas, no entanto, como as que se valem do controle da respiração ou de encenações teatrais específicas, nesse tipo de magia há um momento de alteração radical do estado de consciência, que no mundo profano é chamado de orgasmo.

Ora, sejam ou não magos e sacerdotisas, todos os que já experimentaram ao menos um orgasmo sabem muito bem do que se trata, não é preciso descrever nada: o orgasmo é uma experiência. A questão é saber o que diabos exatamente é essa experiência. Há um termo em francês que também é sinônimo para orgasmo, la petite mort, a pequena morte. Ele compara o orgasmo à morte no sentido de que experimentamos uma alteração tão radical em nosso estado de consciência usual, que é como se tivéssemos “morrido por alguns instantes”. Mas é precisamente esse estado quase que alienígena de consciência, onde muitas vezes sequer temos noção do tempo e do espaço, que possibilita que a própria magia sexual ocorra de modo mais potente. Se quiser saber como é, poderia, por exemplo, nos momentos que antecedem um orgasmo, começar a pensar em natureza, em montanhas e florestas e riachos, em abundância de vida, na Deusa como ela é, ao invés de nádegas e falos.

Nos primórdios da humanidade a religião era matriarcal, a mulher era sagrada, e o seu corpo era um templo. No xamanismo ancestral, os ritos de iniciação eram realizados nas cavernas, pois suas entradas eram comparadas a vaginas, uma vez que o próprio interior da caverna era o ventre da Deusa. Pode parecer estranho pensar sobre isso hoje, mas até mesmo as catedrais góticas seguiram esse padrão simbólico, uma vez que a Igreja também era a “esposa” de Cristo. E, se até hoje bebemos simbolicamente o sangue de Jesus em certas cerimônias, não deveria causar grande surpresa que isso também tenha se originado em ritos muito, muito mais antigos.

No fim das contas, o sentimento oceânico de fato sempre esteve à nossa disposição. Não é sequer o caso de termos de buscá-lo lá fora, no topo de alguma montanha, no texto de algum grimório secreto, mas simplesmente de retirar as barreiras que nós mesmos erguemos contra ele, quiçá por ser tão avassalador, tão irracional, tão além das palavras. Delimitamos nosso ego quando deixamos de ser recém-nascidos na Criação, e experimentar o sentimento oceânico pode ser a via mais breve de retorno ao que sempre fomos.

Há uma wali (amiga de Allah), uma mística sufi que viveu no Oriente Médio, lá no século VIII, que soube descrever essa tal experiência de modo muito poético – quiçá o único modo com que ela possa, de fato, ser descrita:

Em Ishq-e Haqeeqi [3], não há nada se interpondo 
entre um coração e outro.

O querer falar nasce da saudade,
a verdade acerca do real sabor da vida.
Aquele que o provou, sabe;
aquele que tenta explicá-lo, mente...

Como você poderia descrever a verdadeira forma de Algo
em cuja presença você se torna um borrão?
E em cujo Ser você ainda existe e perdura?
E que vive como um signo eterno para a sua jornada?

(Rabia Basri)


***

[1] É claro que os adeptos da não monogamia também podem adentrar a sexualidade sagrada com três ou mais almas, de uma só vez. Apenas leve em consideração que cada alma adicional torna a operação exponencialmente mais complexa. Nada impede, entretanto, a simples alternância de casais dentro de uma relação não monogâmica.

[2] Se você crê que “magia” é o mesmo que “algo que não existe”, ou “algo que se faz contra Deus”, talvez não devesse sequer estar por aqui. Mas, se gostou do que leu até aqui e ficou curioso em descobrir o que é de fato magia, recomendo o meu livro Artemagia (Edições Textos para Reflexão).

[3] Ishq-e Haqeeqi, o amor divino, a experiência de união mística com Deus, algo que pode muito bem ser comparado ao sentimento oceânico. Você pode encontrar este e outros poemas de Rabia Basri no livro Rumi – Além das ideias de certo e errado (Edições Textos para Reflexão).

Crédito das imagens: [topo] cena do filme Um método perigoso (respectivamente, Jung e Freud); [ao longo] Google Image Search (taiji taoista); Dennis Mahlmeister (O Grande Rito).

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17.6.24

Oceânico, parte 2

« continuando da parte 1


A religião matriarcal

Há muito nos acostumamos a ver por aí religiões dominadas pelos homens, com seus deuses nos postos de comando celeste, e seus sacerdotes ditando as regras cá embaixo. Mas, será que foi sempre assim? E, se não foi, quando é que as religiões deixaram de ser matriarcais e predominantemente ligadas ao feminino?

Se voltamos a época pré-histórica, é possível constatar que há um farto registro arqueológico de alguma espécie de culto feminino, ou pelo menos foram achadas inúmeras esculturas de alguma espécie de Deusa, com seios fartos e em geral bem corpulentas, que foram chamadas de Estatuetas de Vênus, sendo a mais célebre a Vênus de Willendorf, encontrada por um explorador na Áustria, em 1908, e que pode ter até 30 mil anos.

Bem, há 30 mil anos não existia agricultura, e a totalidade dos seres humanos vivia da caça e da coleta, perambulando aqui e ali em um nomadismo sem fim. Diz-se que nessa época o próprio nascimento de um bebê era um grande mistério, de modo que a figura da mulher era grandemente valorizada, até mesmo de forma religiosa, como a fonte primária da vida. Então, há cerca de 11,5 mil anos atrás nós descobrimos a agricultura, e lentamente fomos deixando de ser nômades e nos tornando sedentários.

É mais ou menos aqui que surge uma história relativamente conhecida de como as mulheres podem ter perdido seu posto religioso. Primeiro, eventualmente se entendeu que os homens também eram necessários no surgimento da vida, e o seu sêmen também foi associado à fertilização da terra pelas águas do céu (por isso na maioria dos panteões há um deus celeste que germina a deusa da terra), de modo que a figura da mulher não mais monopolizava o mistério da vida. Segundo, com o surgimento da agricultura, os grupos de caçadores-coletores viram que era mais vantajoso simplesmente se assentar em terrenos férteis e guardar os excedentes das colheitas para as épocas mais difíceis, como no pico do inverno. Assim eles começaram a guardar grãos em silos, e em volta desses silos surgiram aldeias cada vez maiores. Ocorre que isso não se deu da noite para o dia, e enquanto alguns agrupamentos formavam aldeias, outros grupos de nômades, muitas vezes famintos, ainda perambulavam no entorno.

Agora imagine que você é um caçador-coletor faminto, que já não acha mais nada para caçar, mas se depara com uma aldeia cheia de grãos, e que nessa aldeia, por falta de necessidade, muitos deixaram de se armar para a caça, e tenham optado por viver apenas da agricultura: isto é, você tem fome e está bem armado, e eles têm comida de sobra e mal sabem se defender, o que você acha que acontece então? Pois é, invariavelmente você rouba os grãos, e se deixar alguém vivo na aldeia já é lucro para eles.

Mas não acaba aí: alguns aldeãos sedentários eram mais espertos que outros, e eventualmente chegaram à conclusão de que era mais fácil comprar os caçadores nômades com comida, e transformá-los basicamente em soldados, em defensores dos limites da aldeia. Até que surgiram aldeias com muros de madeira, de pedra, e torres de defesa, e cidades, e metrópoles. Com isso, um mundo onde agricultores pacíficos poderia sobreviver com certa autonomia passou a ser dominado pela guerra de cidades-estado tentando defender seu próprio território – e eventualmente abocanhar a terra alheia. E, nesse mundo, era inviável que as posições de poder religioso e/ou político se mantivessem entre as mulheres. Segundo a moral dessa história, os homens derrotaram a religião matriarcal na base da porrada.

Ora, essa história sempre me pareceu um tanto verossímil. Claro que se trata de uma grande aproximação da realidade, sem condições de descrever como as coisas se passaram em maiores detalhes, sem muita precisão histórica ou de datas. Mas, ainda assim, verossímil. O problema é que ela delimita a chamada transição do matriarcado para o patriarcado numa data muito distante, muito anterior à formação das grandes civilizações do Ocidente e do Oriente. Segundo essa narrativa, não poderia haver mulheres em posição proeminente de poder religioso e/ou político em praticamente nenhuma dessas sociedades, salvo raríssimas exceções.

Bem, ocorre que eventualmente eu me deparei com situações onde as grandes sacerdotisas ainda eram a regra, e não a exceção, e isso numa época bem mais recente do que “logo após o surgimento das primeiras aldeias”. Muitos de vocês devem conhecer Pitágoras, e alguns devem saber que ele é considerado “o pai da filosofia”, visto que supostamente ele mesmo cunhou o termo, ele mesmo se considerava, acima de tudo, um filósofo, um amigo ou amante (filos) do saber (sophia). Ocorre que Pitágoras teve uma mestra no início de sua trajetória, chamada Temistocleia, uma sacerdotisa do templo de Apolo em Delfos. A conexão entre Pitágoras e Temistocleia é feita num trecho da Vida dos Grandes Filósofos, de Diógenes Laércio, um historiador que viveu no século III d.C (cerca de 8 séculos depois do filósofo). Lá no livro, Diógenes nos diz que “Pitágoras derivou a maior parte de suas doutrinas éticas a partir dos ensinamentos de Temistocleia, sacerdotisa de Delfos”.

As sacerdotisas dos templos em Delfos e outras grandes cidades da Grécia Antiga também eram chamadas de pitonisas, e além de realizar profecias e ensinar jovens filósofos, eram amplamente reconhecidas como grandes autoridades religiosas, o que certamente lhes conferia certa relevância política. E, vejam bem, não eram duas ou três, eram diversas mulheres, diversas sacerdotisas, que em sua época eram mais famosas e relevantes do que homens como Pitágoras. Prova disso é que o próprio Sócrates, alguns séculos depois, iniciou sua jornada na filosofia justamente porque outra sacerdotisa em Delfos disse a um amigo seu que ele era “o homem mais sábio de Atenas”. Se as pitonisas não fossem tão importantes, se o seu conselho oracular não fosse amplamente respeitado por todos, Sócrates não teria se disposto a buscar por alguém mais sábio, e talvez Platão sequer tivesse sobre o que escrever.

E, se nos parágrafos acima eu lhes trouxe um exemplo relevante de como existiram sacerdotisas com amplo poder religioso mesmo muitos séculos após “o advento da civilização”, em Quando Deus era mulher a escritora e pesquisadora norte-americana Merlin Stone nos traz inúmeros outros casos parecidos. A obra nos conta a história do antigo culto à Deusa Mãe, e de como o rito às deidades femininas foi suprimido ao longo dos séculos. Antes de publicá-la, em 1976, Stone passou quase uma década pesquisando as deusas na Antiguidade, período em que a vida social, política, econômica e cultural de muitos povos girava em torno da mulher.

Pessoalmente, o que achei mais curioso e importante na interpretação histórica de Stone foi a sua defesa de que a perseguição aos cultos da Deusa Mãe não tiveram motivação puramente religiosa, pois a política e, principalmente, a questão da herança, também foram tão ou mais importantes na equação. Afinal, como ela bem descreve no livro, na religião matriarcal a herança passava da mãe para os filhos, de modo que eram as sacerdotisas quem decidiam o rumo de suas vidas, e de seus templos, exatamente como o fazem hoje os sacerdotes de religiões patriarcais. Mas o mais interessante é como exatamente isso se dava, o que nos dá uma bela dica do porquê a própria sexualidade foi amplamente demonizada, juntamente com as sacerdotisas e suas deusas:

As mulheres [sacerdotisas] que residiam nos recintos sagrados da Deusa Mãe tomavam amantes dentre os homens da comunidade, fazendo amor com aqueles que vinham prestar honra à Deusa. Para aquelas pessoas o ato sexual era considerado sagrado, tão santificado e precioso que era efetuado dentro da casa da Criadora do Céu, da Terra e de toda a vida. Um dos muitos aspectos da Deusa, e pelo qual era reverenciada, era ser a deidade padroeira do amor sexual. [...] Na minha opinião, tais costumes sexuais devem ter se desenvolvido em virtude da primeira compreensão e tomada de consciência da relação entre sexo e reprodução. Já que essa conexão foi provavelmente observada de início pelas mulheres, pode ter sido integrada na estrutura religiosa como um meio de assegurar a procriação entre as mulheres que escolhiam viver e criar seus filhos dentro do complexo do templo, e também, possivelmente, como um método de controlar a gravidez.

(Merlin Stone, Quando Deus era mulher)

Ou seja, a Deusa subitamente se torna definitivamente mais diabólica para as religiões patriarcais; afinal, nos templos de culto à Deusa, são as mulheres quem decidem quando e com quem terão filhos, e são elas quem detém os direitos à herança, que é matrilinear. Assim, não admira que as religiões matriarcais e os cultos femininos tenham sido tão perseguidos na Antiguidade. E não admira, certamente, que até hoje a sexualidade, principalmente a sexualidade ditada pela mulher, seja tão demonizada, tão deturpada e distorcida de seu aspecto sagrado. Tudo isso, infelizmente, ainda é um eco de milênios atrás.

Mas, e como eram exatamente tais cerimônias religiosas que envolviam o sexo? Como a sexualidade sagrada pode nos ajudar a compreender melhor esse tal sentimento oceânico citado pelo amigo de Freud? Bem, isso certamente terá de ficar para o próximo texto.


» Na sequência, a pequena morte.

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Bibliografia
Quando Deus era mulher, de Merlin Stone (Editora Goya/Aleph).
Mulheres que inspiram, diversas autoras (Edições Textos para Reflexão).

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (A Vênus de Willendorf); [ao longo] John Collier (A Sacerdotisa de Delfos); Foto que consta na capa da biografia de Merlin Stone, Merlin Stone Remembered: Her Life and Works.

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