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20.10.26

Traduzindo a Montanha Mágica (parte final)

« continuando da parte 3


Segundo a imensa maioria dos críticos e analistas literários, A Montanha Mágica traz discussões políticas e filosóficas que resumem boa parte das ideias em circulação no Ocidente pré-Grande Guerra (como era conhecida a Primeira Guerra Mundial, antes de ter havido uma segunda). Tais debates se dão quase sempre entre dois personagens, Ludovico Settembrini e Leo Naphta, homens maduros que disputam a consciência do jovem Hans Castorp, tentando moldar suas ideias.

Não nego, obviamente, que seja assim. No entanto, me parece que Mann estava falando de coisas que iam muito além de um momento específico do início do século 20. E isso se dá justamente quando, em dado momento da obra, as palavras e as discussões se dissolvem, e os temas atrelados a um momento do tempo são vencidos por uma percepção atemporal da própria existência.

Antes de chegar lá, entretanto, temos de passar pelos personagens em questão, e por seu longo duelo pela “alma” do herói da história:

O italiano Ludovico Settembrini é quem primeiro aparece na obra. É apresentado logo cedo a Hans Castorp, enquanto o jovem ainda imaginava que passaria não mais que algumas semanas visitando o primo no Sanatório Berghof. Ele rapidamente se torna uma espécie de mentor intelectual de Hans Castorp. Settembrini representa os ideais da chamada “civilização Ocidental”, do Renascimento e do Iluminismo – em suma, razão, liberdade individual, humanismo e progresso.

Já Leo Naphta surge apenas na segunda metade do livro. Trata-se de um judeu polonês de juventude conturbada, que eventualmente se torna um jesuíta de pensamento radical. Desde o primeiro momento em que ele é introduzido na trama fica claro que, embora sejam amigos, a relação de Settembrini e Naphta é marcada por profundas discordâncias de ideias.

Mann esboça seus personagens colocando-os uns contra os outros, em vez de descrevê-los diretamente. Naphta é caracterizado em função de seu adversário intelectual, Settembrini. A perspicácia intelectual de Naphta se iguala à do italiano, mas sua mentalidade é essencialmente irracional. Enquanto para Settembrini a morte é apenas a ausência de vida, Naphta insiste que a morte se encontra em um reino próprio, metafísico: independente da vida, a morte trava uma batalha perene contra ela. Seu dualismo é, portanto, a base de sua glorificação da doença, do sofrimento e da morte. Seu amor pelos extremos e seu desprezo pelos ideais humanistas o levam a defender a Inquisição e os aspectos autoritários do catolicismo e do comunismo.

Após a primeira aparição de Naptha, invariavelmente a história se desenrola através das discussões cada vez mais longas e complexas entre o religioso e o humanista. Em meio ao embate de ideias, Hans Castorp ora se vê considerando um lado, ora o outro, e em seus pensamentos ficam claras as contradições presentes no pensamento de cada um deles. Neste momento da obra ao meu ver fica claro o porquê de, mesmo aqui, o jovem Hans Castorp continuar sendo o herói da história: pois ainda que não tenha nem um terço do conhecimento e da experiência de vida dos dois debatedores que disputam sua simpatia, ele é herói justamente por buscar pensar por si mesmo, erigindo as próprias ideias, muitas vezes formadas por parte de um lado, e parte de outro. Este tipo de heroísmo é bem raro, e segue sendo necessário até os dias de hoje.

E assim os debates vão se tornando cada vez mais enérgicos, complexos, no fundo sem sentido, já que em dado momento já não há nada mais a ser acrescentado, e a opinião de um e de outro debatedor não muda sequer uma vírgula. Nestes trechos, o próprio autor procura deixar claro que todo debate do tipo – onde as pedras já não se chocam buscando produzir novas faíscas, novas ideias, mas tão somente tiram lascas umas das outras – nos leva inexoravelmente a tragédia do extremismo, da polarização sem volta... e, para sairmos dessa armadilha, é preciso abandonar as palavras, ir além delas.

Então Clavdia Chauchat enfim retorna ao Sanatório (ela havia ido embora logo após a tal noite de Carnaval), e desta vez com um homem mais velho, uma espécie de amigo íntimo e amante, Mynheer Peeperkorn.

Trata-se de um rico plantador de café holandês aposentado que passou anos em Java, nas Índias Orientais Holandesas. Tão ou mais doente que Settembrini e Naphta, ele passa boa parte dos dias no Sanatório ou acamado ou celebrando a vida, geralmente bebendo e se mantendo embriagado a maior parte do tempo. No entanto, Peeperkorn tem uma personalidade tão magnética, um carisma pessoal tão avassalador, que sua mera presença em qualquer roda social ofusca os demais debatedores, como se suas palavras e argumentos lógicos simplesmente se dissolvessem na presença de algo maior, mais misterioso, atemporal.

Com seu hedonismo radical, sua entrega completa e absoluta ao reino das emoções, Peeperkorn é de longe o personagem mais interessante do livro como um todo, muito embora apareça mais para o final. Aliás, é interessante dizer que, quando falo em “dissolvimento das palavras”, isso também ocorre literalmente no texto da obra, em praticamente todas as falas de Peeperkorn. Isso trouxe um desafio de tradução que suplanta quaisquer outras partes do livro. Abaixo, trago um de seus diálogos como exemplo, na minha tradução:

“Cavalheiros”, disse o holandês, levantando a mão de capitão com as unhas pontiagudas, num gesto imperial. “Tudo bem, cavalheiros, concordo, excelente! O ascetismo... a indulgência... o prazer dos sentidos... deixe-me dizer isso... certamente! Muitíssimo importante! Muitíssimo controverso! E, no entanto, permita-me dizer... temo que estejamos prestes a cometer... senhoras e senhores, estamos evitando, estamos irresponsavelmente evitando o mais sagrado dos...” – ele respirou fundo. “Este ar, senhoras e senhores, o ar de hoje é tão rico em caráter, tão ternamente sugestivo e reminiscente da fragrância da primavera. Não devemos respirá-lo apenas por respirar... eu imploro a vocês: não devemos fazê-lo. Isso é um insulto! É unicamente a ele que deveríamos dedicar toda a nossa... a suprema e mais intensa... Isso basta, senhoras e senhores! E o nosso peito, esse que o respira, deveria louvá-lo sem restrições... É até aqui que eu chego, senhoras e senhores, em homenagem a esse...” – ele parou de falar; inclinou-se para trás, com o chapéu sombreando os olhos, e todos seguiram seu exemplo.
“Chamo sua atenção”, disse ele, “para as alturas acima, muito acima de nós, para aquela mancha negra circulando lá no alto, contra o azul meio escurecido – é uma ave de rapina, uma imensa ave de rapina. E, se eu não estou muito enganado, meus senhores, e você, minha filha, trata-se de uma águia. Eu conclamo a atenção de todos para isso – vejam lá! Isso não é urubu, não é abutre... Se os senhores tivessem as mesmas dificuldades de enxergar que eu, na minha avançada... Sim, minha filha, já é avançada... Meus cabelos estão brancos, ou não estão? Bem, vocês poderiam ver ainda melhor que eu... vejam, a curva obtusa das asas... É uma águia, senhoras e senhores! Uma águia real.
Ela circula diretamente acima de nós, pairando no azul, sem bater as asas, lá naquelas alturas magníficas – e, com certeza, nos espia com seus olhos poderosos, que enxergam longe, sob os ossos salientes das órbitas... A águia, senhoras e senhores, a ave de Júpiter, a rainha de sua espécie, a leoa dos ares! Ela tem pernas emplumadas e um bico de ferro, curvado na ponta... e garras de poder horrendo, garras que se voltam para dentro... e uma longa garra traseira que forma um gancho de ferro com as da frente. Olhem lá, é assim mesmo!” – e ele tentou imitar a garra de uma águia com sua própria mão de capitão, com unhas de lança. “Minha companheira, por que você fica aí circulando, nos espiando?” – e de novo dirigiu seu olhar para cima. “Desça já aqui! Crave seu bico de aço na cabeça de alguém, dilacere seu ventre, o ventre do homem... a criatura a quem Deus... Perfeito! Liquidado! Suas garras ficarão emaranhadas em suas entranhas, e seu bico pingará sangue...”

Por focar mais nas emoções sentidas do que na lógica ou na descrição do que é percebido, a presença de Peeperkorn por si só encerra a fase de debates intelectuais da obra, e a encaminha para seu final.

Obviamente eu teria muito mais coisas a falar sobre este livro de proporções bíblicas que marcou a literatura do século 20. Poderia relatar a interessante relação a três entre Hans Castorp, madame Chauchat e Peeperkorn, uma espécie de defesa da não monogamia, antes mesmo do termo ter ido inventado; poderia falar de como Mann conhecia profundamente a história da Maçonaria, ao ponto de ter um dos principais personagens da obra, o sr. Settembrini, como um maçom; poderia, finalmente, falar da viagem mística de Hans Castorp em sua arriscada caminhada nas montanhas, quando teve de sobreviver a uma nevasca – isto é, se é que as palavras dariam conta de abarcar o evento...

Mas, após 16 meses de tradução e 3 artigos sobre A Montanha Mágica, me retiro dos Alpes neste quarto e último artigo, já que não se pode abandonar o mundo das planícies por completo, ao menos não enquanto estamos aqui, encarnados em carne, osso e coração.

***

Crédito das imagens: [topo] Google Gemini AI (sr. Settembrini); [ao longo] Google Gemini AI (Leo Naphta e Peeperkorn).

Você pode encontrar minha tradução de A Montanha Mágica em ebook ou na versão impressa, ambas disponíveis na Amazon.

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11.11.24

Lançamento: Raízes do Estoicismo (os clássicos de Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio)

As Edições Textos para Reflexão lançam o seu primeiro box de filosofia estoica.

O estoicismo ficou conhecido como a filosofia que ajuda as pessoas a atravessarem momentos de crise, mas em realidade vai muito além disso: ensina-nos a viver. Esta edição traz traduções comentadas das principais obras do estoicismo: dois dos mais celebrados textos de Sêneca, o Manual de Epicteto e as Meditações do imperador Marco Aurélio.

Este compilado com traduções de Rafael Arrais já está disponível na Amazon, em e-book, e também na versão impressa:

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18.10.24

O estoicismo oculto

Se há uma função pela qual o estoicismo se tornou mundialmente conhecido, é a de auxiliar as pessoas a atravessarem momentos de crise. Isso, por si só, já explica o porquê da filosofia estoica ter voltado às prateleiras dos títulos mais vendidos em nossas livrarias. Mas, dito assim, “auxiliar as pessoas nos momentos de crise”, pode parecer que o estoicismo é uma espécie de autoajuda, e é mesmo: a raiz da autoajuda, ou seja, conhecer a si mesmo pela prática da filosofia, para assim ajudar a si mesmo a viver uma vida melhor. A questão está, portanto, em não ler o estoicismo de forma superficial, como quem segue uma receita de bolo. Afinal, não é porque este ou aquele guru lhe disse que o estoicismo era isto ou aquilo, que você deveria adentrar esta filosofia, e sim porque você mesmo a leu, conheceu, praticou, e viu que funciona, que de fato modificou sua vida para melhor. A filosofia estoica, afinal, é muito, muito mais do que um fenômeno de marketing.

Os grandes expoentes do estoicismo viveram em sua fase romana. Sêneca (ca. 3 a.C. – 65 d.C.) foi um dos mais célebres pensadores do Império Romano, tendo ao mesmo tempo alcançado altos patamares na Política de seu tempo, ao ponto de ter sido um conselheiro do imperador. Já Epicteto (ca. 50 – 135 d.C.) teve origem muito diversa: nascido como um escravo grego, eventualmente se tornou um homem livre, vivendo e lecionando em Roma até perto de sua morte. Marco Aurélio (121 – 180 d.C.), por sua vez, estava na outra ponta da escala social. Era sobrinho e filho adotivo do imperador Antonino Pio, a quem sucedeu em 161 d.C. para governar o maior império do mundo, enquanto ainda encontrava tempo para escrever suas Meditações.

Seja como for, se foi em Roma que o estoicismo se tornou imensamente popular, com seus filósofos mais preocupados em falar de uma vida virtuosa, voltada para problemas práticos, como mudar o que se pode mudar, e aceitar o que não temos controle para decidir, foi na antiga Grécia que ele nasceu – pela mente de um personagem quase lendário, Zenão de Cítio.

Nascido na ilha do Chipre, na cidade de Cítio, em torno de 332 a.C., Zenão chegou a Atenas aos 22 anos, por volta de 310 a.C. Foi descrito como um homem de pele morena, franzino, sempre de cara séria e vestido com roupas leves. Vivia de maneira frugal e comia moderadamente, sobretudo pão e mel. Amava um bom vinho, embora bebesse raramente. Era sociável até certo ponto, frequentando muitos banquetes, embora temesse a multidão, raramente sendo visto com mais do que duas ou três pessoas ao seu redor. As fontes variam sobre as circunstâncias de sua chegada a Atenas. Elas concordam no fato de que ele era um comerciante que importava mercadorias da Fenícia, mas, segundo alguns, teria perdido toda a sua carga em um naufrágio; e, para outros, vendeu toda a sua mercadoria e depois resolveu se dedicar somente à filosofia, que teria descoberto por acaso ao perambular por Atenas.

Durante aproximadamente uma década, seguiu os ensinamentos de três correntes filosóficas que tinham suas origens no célebre Sócrates: os megáricos dialéticos, dos quais não nos restou quase nada; os cínicos e, sobretudo, a Academia de Platão. Zenão abriu sua própria escola aproximadamente em 301 a.C., sob o pórtico de Atenas conhecido na época como Pórtico das Pinturas (Stoa Poikile), daí o nome de Stoa, do qual derivou o termo “estoicismo”, ou simplesmente “O Pórtico”. O sucesso foi rápido e, por ocasião da sua morte, em torno de 262 a.C., a cidade lhe prestou honrarias dignas de um sábio.

As principais características da escola inaugurada por Zenão, que hoje em dia vemos tão em voga, são a busca por se levar uma vida virtuosa, pautada na ética e no autocontrole, assim como aceitar aquilo que não podemos mudar, e focar naquilo que pode ser feito, isto é, aceitar corajosamente o destino e a morte, e ter uma visão mais racional da vida, avaliando constantemente nossos sentimentos, e os mantendo sob controle.

Mas toda a filosofia antiga, além da parte comportamental e ética, também se propunha a responder questões como “De onde viemos?” e “Para onde vamos?”, com sua própria cosmogonia. No caso do estoicismo, o Cosmos é finito, com a Terra, o Sol, a Lua e os demais planetas e estrelas; porém eles rejeitavam a ideia de um vácuo, um vazio absoluto, pois para eles tudo era conectado de alguma forma.

Antes do Cosmos, no entanto, existia o pneuma, o sopro divino, a substância que é a origem de tudo, a força criativa, isto é, o Deus Primordial que tudo criou a partir de si próprio. Segundo os estoicos, a criação do Universo se inicia com o fogo, que tudo moldou; e, da mesma forma, tudo há de aniquilar no fim dos tempos. No estoicismo, Deus (ou Zeus), como a substância original, dava origem ao universo, aos demais deuses, à natureza e aos seres humanos; mas, ao mesmo tempo, tudo era composto desse Deus-Substância. Seja como for, não sobraram muitas orações estoicas, nada de apelo aos deuses, visto que eles acreditavam que isso não era algo muito necessário em um universo racionalmente ordenado.

Em suas raízes, a filosofia estoica é monista, ou seja: “tudo é um”; e também panteísta, Deus como um princípio associado à natureza, compondo tudo o que existe. Além disso, é materialista, atribuindo um corpo físico até mesmo para a alma, e muito focada na mecânica dualista de “ativo e passivo”, que afirma que tudo o que existe é capaz de agir ou de receber uma ação. O Cosmos material, entretanto, é preenchido com o pneuma, com o sopro divino, que é racional e ordena a realidade.

Embora tenha sido convenientemente deixado de lado por boa parte dos estudiosos acadêmicos, o estoicismo também guarda um lado profundamente espiritual, até mesmo esotérico: dentre as suas principais contribuições para a cena esotérica do Ocidente estão a ideia do perenialismo e a doutrina das correspondências.

É comum, ao pensarmos nos primeiros seres humanos, que os imaginemos como ignorantes, desprovidos de conhecimento e ingênuos, pois somos influenciados pelas ideias da biologia evolutiva, que considera que os humanos vão se tornando mais inteligentes e complexos após muitas e muitas gerações. Para os estoicos, no entanto, era justamente o contrário: para eles os primeiros humanos, surgidos do fogo criador, eram homens e mulheres de profunda capacidade intelectual, com uma natureza até mesmo semidivina, capazes de compreender o Cosmos de forma precisa, sem falhas de interpretação. Eles eram considerados muito superiores, em todos os sentidos, aos homens da época de Zenão. Os estoicos também acreditavam que a primeira linguagem surgiu diretamente do contato do homem com a natureza divina e profunda, sendo que a natureza e a linguagem eram conceitos intimamente conectados.

Por isso a filosofia estoica era tão preocupada com a linguagem, com o significado das palavras, e sempre recomendava que tentássemos encontrar a sua origem profunda, primeva. Tal conhecimento poderia revelar a real natureza da natureza, que era considerada divina. Para os estoicos, as verdade primordiais estavam preservadas na filosofia da natureza, nas leis e nos mitos religiosos.

Aliás, os mitos eram vistos como extremamente importantes, por serem superiores à simples narrativa, assim como pelo seu profundo caráter épico: eles carregavam verdades que precisavam ser interpretadas e compreendidas. Assim, por meio da linguagem e do estudo dos mitos, era possível exercer a piedade, no sentido espiritual do termo, e decifrar o entendimento divino por trás dessas histórias de heróis e deuses. Ou seja, os estoicos foram pioneiros em defender interpretações não literais dos contos mitológicos, como uma forma de se conectar espiritualmente à natureza divina.

Assim, vemos conceitos importantes do estoicismo que viriam a influenciar o perenialismo, ou a filosofia perene, que busca identificar a verdade que une todas as religiões, algo que posteriormente iria ser mais aprofundado por espiritualistas da era moderna, como René Guénon e Helena Blavatsky. Ou seja, eles acreditavam que analisar as diversas crenças poderia dar origem a um corpo de entendimento que é comum a todas elas, que existe uma verdade que é expressa em todas as religiões. E não só isso, como a própria busca do significado das palavras e do entendimento profundo da linguagem, segundo eles, era algo que poderia nos levar à compreensão da natureza.

É engraçado considerar tudo isso como advindo de uma filosofia que hoje em dia é vista como algo tão racional, tão voltado para o dia a dia mundano.

Bem, e a principal conexão estoica com a espiritualidade é justamente a ideia da ligação entre as coisas: os estoicos acreditavam que havia um princípio ordenador, um pneuma, que ligava os objetos e mantinha a natureza racionalmente coesa. E o pneuma não somente conectava as coisas, como também espalhava sinais e símbolos na própria natureza, para que fossem interpretados pelos seres que a contemplassem. Dessa forma, o sábio poderia contemplar o leão, e por meio de uma compreensão oculta, associá-lo ao Sol. Ou ainda identificar tanto o leão quanto o Sol com o ouro. Tal doutrina parte do desejo estoico de buscar compreender as pistas e os sinais deixados pela inteligência divina.

E é por tudo isso que você pode, sim, ser ao mesmo tempo um estoico e um espiritualista, e se dedicar tanto a uma vida virtuosa quanto à busca pelos sinais divinos ocultos na natureza a sua volta. Essas são as verdadeiras raízes do estoicismo, e quando Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio falam em “viver de acordo com a natureza”, são tais ideias que eles têm em mente.


Bibliografia
História da filosofia ocidental, de Bertrand Russell; Epicteto e a sabedoria estoica, de Jean-Joël Duhot; A odisseia da filosofia, de José Francisco Botelho; Canais Esoterica (por Dr. Justin Sledge) e Barbarismo Esotérico (por João Drewes) no YouTube.

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Crédito das imagens: Google Image Search

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27.9.24

Lançamento: Da Felicidade, de Sêneca

As Edições Textos para Reflexão retornam ao estoicismo.

Sêneca foi o filósofo estoico que mais deixou obras inteiras para a posteridade, e dentre mais de uma centena de cartas, peças de teatro e diálogos filosóficos, quiçá aquela que melhor resuma o seu pensamento seja justamente a que fala da felicidade possível, De Vita Beata, cujo título foi traduzido do latim como Da Felicidade.

A nova tradução de Rafael Arrais já está disponível na Amazon, em e-book:

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22.8.24

A felicidade possível

Em abril do ano 65 d.C., numa vila nos arredores de Roma, a filosofia ocidental viveu mais um grande drama: após Sócrates, era a vez de outro expoente do amor a sabedoria ter a sua sentença de morte. O seu nome era Sêneca, um espanhol nascido aproximadamente no ano 3 a.C., que teve como pai um habitante instruído de Roma. Ele seguiu carreira política e vinha sendo razoavelmente bem-sucedido quando o imperador Cláudio o exilou na Córsega (em 41 d.C.), por conta de uma birra da imperadora Messalina. Mas a segunda esposa de Cláudio, Agripina, o retirou de seu exílio forçado (em 48 d.C.) e o nomeou tutor de seu filho, então com 11 anos. Sêneca, entretanto, não teve a mesma sorte de Aristóteles: o seu pupilo cresceu para se tornar o imperador Nero, aquele que entrou para a história como o louco que pôs fogo em Roma.

Aos 28 anos, com distúrbios mentais cada vez mais agravados, Nero foi informado da existência de uma conspiração para afastá-lo do trono. Fora de si, ele buscou vingança contra todos a sua volta (incluindo sua própria mãe, seu meio-irmão e sua esposa, além de inúmeros nobres e senadores, todos sentenciados à morte). Embora não houvesse prova alguma do envolvimento de Sêneca na tentativa de golpe, e a despeito de ter sido o seu tutor e depois um ministro leal por mais de uma década, Nero o sentenciou à morte como medida de precaução.

Um centurião foi enviado a sua casa com as instruções do imperador: Sêneca deveria dar cabo da própria vida imediatamente, escolhendo o método que achasse melhor. Os familiares e amigos do filósofo empalideceram e começaram a chorar assim que souberam da notícia. Todavia, segundo o relato de Tácito, um historiador daquela época, Sêneca permaneceu inabalado, e tratou de acalmar todos a sua volta:

Ora, meus amigos, onde está sua filosofia? E o que foi feito da decisão de jamais se deixarem abater diante da iminência de qualquer desgraça que, durante tantos anos, todos temos incentivado uns aos outros a manter? Decerto ninguém aqui ignorava que Nero era cruel! Após matar a própria mãe e o irmão, só lhe restava matar seu conselheiro e tutor.

Em seguida, Sêneca se voltou para sua esposa, Paulina, e lhe deu um longo e afetuoso abraço, recomendando que achasse consolo para aquela tragédia em uma vida bem vivida. Mas ela não podia conceber uma vida sem o filósofo ao seu lado, e lhe pediu permissão para cortar os pulsos juntamente com ele. A princípio, ainda segundo Tácito, ele não impôs barreiras ao seu desejo:

Não impedirei que você dê um exemplo tão admirável. Podemos morrer com uma força moral idêntica, embora o seu fim seja muito mais nobre que o meu.

No entanto, o centurião e seus soldados impediram que aquela tragédia fosse ainda mais cruel, quiçá na esperança de serem lembrados como meros cumpridores de ordens, e não como monstros. Já o que se sucedeu ao próprio Sêneca, segundo os relatos, foi algo extraordinário, quase sobrenatural.

Mesmo após ter cortado os pulsos, as veias dos tornozelos e da parte interna dos joelhos, o sangue simplesmente não fluía com rapidez suficiente de seu corpo já quase septuagenário. Foi então que, lembrando da morte de Sócrates, 464 anos antes, Sêneca pediu a seu médico que lhe preparasse uma taça de cicuta. Afinal, assim como outros expoentes do estoicismo [1], ele tinha a figura de Sócrates na mais alta conta, um verdadeiro exemplo de como era possível vencer as tragédias do mundo com a ajuda da filosofia. Em uma carta escrita anos antes daquele dia, ele já havia deixado registrada tal admiração:

Ele viveu em tempos de guerra e sob o jugo de tiranos (...), mas todas essas provações afetaram tão pouco seu espírito que suas feições jamais se alteraram [na morte]. Que privilégio tão raro e maravilhoso! Ele manteve a mesma atitude até o fim. (...) Em meio a tantos reveses da [deusa] Fortuna, ele foi imperturbável.

Seja como for, o desejo de Sêneca em seguir Sócrates até na morte não pôde ser concretizado. Ele bebeu a cicuta, duas vezes, mas continuava bem vivo! Depois de tantas tentativas em vão, ele finalmente pediu que o colocassem em um banho de vapor, onde sufocou lentamente até a morte, sereno e impassível diante do revés derradeiro.

Com sua morte, Sêneca ajudou a consolidar um dos pilares do estoicismo, uma abordagem comedida e serena em relação as tragédias e os desprazeres da vida. Ao se portar tal qual Sócrates em seus momentos finais, ele comprovou que sua filosofia não era somente algo teórico, metafísico, mas sim extremamente prático. Sêneca tentou ser filósofo 24 horas por dia, e tudo indica que foi extremamente bem-sucedido nisso, do contrário dificilmente teria continuado filósofo nos momentos derradeiros. Foi justamente porque praticou sua filosofia em boa parte da vida que foi, verdadeiramente, um filósofo.

Podemos ter uma boa ideia de como era esta prática pela espécie de reflexão que Sêneca recomendava a todos que fizessem todos os dias, pela manhã, de preferência logo após despertar:

Nenhuma dádiva da [deusa] Fortuna nos pertence de fato.
Nada, seja público ou privado, é estável: os destinos dos homens, assim como os das cidades, estão sujeitos a um turbilhão. Qualquer edificação que tenha levado longos anos para ser erguida, à custa de grande sacrifício e graças ao bom humor dos deuses, pode dispersar-se ou desfazer-se em um único dia. Não, aquele que disse “um dia” exagerou, dando um prazo longo demais para um revés repentino: uma hora, um átimo, é o bastante para promover a queda de impérios.
Com que frequência cidades da Ásia foram destruídas por um único tremor de terra? Quantas aldeias na Síria, ou na Macedônia, já não foram engolidas? Quantas vezes devastações desse tipo já não deixaram o Chipre em ruínas?
Vivemos em meio a coisas que estão, sem qualquer exceção, destinadas a morrer.
Mortal você nasceu; mortal você dá à luz.
Não se surpreenda com nada, espere tudo.

A sua morte não foi o único exemplo de como a sua sabedoria não estava limitada à teoria. Quando exilado na ilha de Córsega, ele se viu repentinamente privado de todos os luxos de que dispunha, afinal aquela ilha em específico estava muito distante de gozar dos benefícios da civilização romana. Assim, as condições de vida no exílio deveriam ter formado um doloroso contraste com a vida em Roma. No entanto, em uma carta a sua mãe, Sêneca explicou como havia conseguido se adaptar às circunstâncias, graças aos anos de meditação pela manhã, regados a água e sopa rala:

Nunca confiei na Fortuna, mesmo quando ela parecia estar oferecendo paz. Todas aquelas bênçãos que generosamente derramou sobre mim – riquezas, cargos, prestígio – eu releguei de tal maneira que ela pudesse retomá-las sem me causar grandes aflições. Sempre mantive grande distância entre mim e seus favores. Ela tão somente me tirou o que havia concedido, portanto nada arrancou de mim.

Há uma espécie de metáfora estoica que resume muito bem tanto o pensamento de Sêneca quanto de outros expoentes dessa filosofia. Ela foi formulada pelo filósofo Zenão de Cítio, fundador do estoicismo, e “repaginada” pelos seus discípulos, Cleantes e Crisipo, sucessivamente. A sua referência mais antiga é relatada pelo sacerdote romano Hipólito:

Quando um cão atrelado a uma carroça quiser acompanhá-la, ele é puxado por ela e avança, fazendo com que seu gesto espontâneo coincida com a necessidade. Mas se o cão decidir não se mexer, o movimento da carroça irá obrigá-lo a segui-la, de qualquer maneira. O mesmo se passa com os homens: mesmo que não queiram, eles são forçados a obedecer o que o destino lhes reservou.

Ou seja, um homem é livre para seguir em qualquer direção que queira. Todavia, como sugere a metáfora, se os seus movimentos são limitados, é melhor acompanhar a direção da carroça do destino do que ser arrastado por ela. Embora o nosso primeiro impulso possa ser o de lutar contra a guinada repentina do veículo, caso ele siga noutra direção, o nosso sofrimento decorrerá exclusivamente de nossa resistência. Se vivemos de acordo com as necessidades da natureza, aceitando tanto a liberdade momentânea de seguirmos na direção desejada quanto a necessidade, igualmente momentânea, de irmos para onde não gostaríamos de ir, então não há realmente nada que possa nos abalar.

Os filósofos antigos tinham um belo nome para tal estado de contentamento: eudaimonia. A sua tradução literal seria algo como “o estado de ser habitado por um bom daemon, ou espírito”. Os estoicos, provavelmente, diriam que é simplesmente o estado alcançado quando “vivemos de acordo com a natureza”. Isto é, quando temos perfeita noção da natureza e do mundo a nossa volta, e sabemos que há coisas que podemos decidir, e outras que nos escapam totalmente o controle. Assim, seria inútil buscar a felicidade todo o tempo, algo literalmente impraticável, de modo que o mais sábio é sabermos discernir a felicidade possível em meio a um mundo impermamente e, muitas vezes, brutalmente dolorido. Mas viver apenas lamentando as dores do mundo seria tão equivocado quanto buscar somente os prazeres, todo o tempo. O estado de contentamento com a vida, eudaimonia, surge justamente da sabedoria que reconhece a felicidade possível, mesmo que a carroça volta e meia nos arraste para aqui e acolá.

Sêneca foi o filósofo estoico que mais deixou obras inteiras para a posteridade, e dentre mais de uma centena de cartas, peças de teatro e diálogos filosóficos, quiçá aquela que melhor resuma o seu pensamento seja justamente a que fala da felicidade possível, De Vita Beata, cujo título foi traduzido do latim como Da Felicidade ou A Vida Feliz.

***

[1] O estoicismo é uma escola de filosofia helenística que floresceu na Grécia Antiga e, posteriormente, também na Roma Antiga. Os estoicos acreditavam que a prática das virtudes filosóficas era suficiente para alcançar a eudaimonia (ver restante do artigo) e, consequentemente, uma vida bem vivida. Foi fundada na antiga Atenas por Zenão de Cítio, em torno de 300 a.C.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Sêneca); [ao longo] A Morte de Sêneca; pintura de Manuel Domínguez Sánchez (1840-1906); Olu Eletu/unsplash

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6.6.24

Lançamento: O mal-estar na civilização

As Edições Textos para Reflexão publicam uma das principais obras do fundador da psicanálise.

Em O mal-estar na civilização vemos Sigmund Freud teorizando como um grande pensador da humanidade, disposto a comentar não apenas questões individuais e clínicas, mas sendo um pensador profundo, capaz de fazer uma análise da cultura e da sociedade. É uma obra importante não apenas para a psicanálise, mas também para a filosofia.

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23.2.24

Lançamento: A Tábua de Esmeralda de Hermes

As Edições Textos para Reflexão retornam ao hermetismo!

A Tábua de Esmeralda foi um dos textos fundamentais que deram origem à alquimia, ao hermetismo e a boa parte do ocultismo e esoterismo que conhecemos hoje. Esta edição conta com tradução e comentários de Rafael Arrais e luxuosa introdução de Thiago Tamosauskas, alquimista praticante.

Já disponível em e-book na Amazon e também na versão impressa, pelo Clube de Autores:

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15.12.23

Lançamento: Adquirir a sua alma na paciência

As Edições Textos para Reflexão adentram os reinados da filosofia existencialista com um de seus fundadores.

Em Adquirir a sua alma na paciência, o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard nos oferece a chave para o encontro e a conquista do nosso "eu". Comentando uma passagem bíblica, o autor nos apresenta um conceito único de "paciência", que tem mais a ver com a teologia do que com a filosofia.

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» Leia também o nosso prefácio para esta edição: O andarilho de Copenhague.

» Caso deseje se aprofundar na obra de Kierkegaard, recomendamos seguir o perfil da Maitê Sartori (psicóloga especializada na filosofia do autor) no Instagram, ou quem sabe se increver em algum dos seus cursos sobre o tema.


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1.12.23

O andarilho de Copenhague

O texto abaixo foi escrito para compor o prefácio de Adquirir sua alma na paciência, o discurso de Soren Kierkegaard que tive a honra de traduzir de versões inglesas. Como a maioria dos meus prefácios, procurei falar sobre não apenas o que o autor nos trouxe em sua obra, mas também sobre como viveu sua vida. Creio que ganhamos muito ao nos imaginar, tal qual o pensador dinamarquês, simplesmente caminhando pelas vielas de Copenhague, saudando as almas que nos cruzam o caminho...


A vida só pode ser compreendida quando olhamos para trás, mas só pode ser vivida olhando para frente.

Esta frase, retirada de uma das suas cerca de 7.000 páginas de diários, acabou se tornando uma das mais famosas de Kierkegaard; e, como toda célebre frase de um pensador, resume muito do que ele buscou falar em sua obra. Você arriscaria dizer sobre o que o pensador dinamarquês falou? Bem, se pensou em “autorreflexão”, “autoconhecimento”, ou ainda em “como lidar com a existência humana”, não está muito longe da resposta, seja ela qual for.

Tendo nascido e vivido em Copenhague, na Dinamarca, Soren Kierkegaard (1813 – 1855) foi ao mesmo tempo melancólico e bem-humorado, ao mesmo tempo filósofo e teólogo, mas quase sempre brilhante. Sua mãe, Ane Sorensdatter Kierkegaard, trabalhou como empregada doméstica antes de se casar com seu pai, Michael Pedersen Kierkegaard. Ela era uma pessoa simples, que não recebeu nenhuma educação formal, mas exerceu uma influência duradoura na vida do filho. Já seu pai, Michael, foi um comerciante de lã muito bem-sucedido. Mesmo sendo um homem severo, cultivava interesse por filosofia e costumava hospedar intelectuais em sua casa. Por conta da influência do pai, ele entrou em contato com os livros de Platão ainda bem jovem, e foi especialmente tocado pela figura de Sócrates.

Kierkegaard era o mais novo dos sete filhos do casal. Contudo, quando contava 22 anos, já havia perdido cinco dos seus irmãos, tendo restado apenas Peter Kierkegaard, que mais tarde veio a se tornar um bispo luterano. Logo depois, naquele mesmo ano de 1834, foi a vez da sua mãe deixar o mundo; e, poucos anos depois, em 1838, veio o falecimento do pai. Não admira, portanto, que o filósofo fosse íntimo dos grandes sofrimentos da existência humana, e que tenha se dedicado justamente a viver da melhor forma possível, apesar deles.

Com a herança da sua família, Kierkegaard pôde custear a sua educação, a sua vida e várias publicações das suas primeiras obras. Em 8 de setembro de 1840, Kierkegaard formalizou o pedido de noivado a Regine Olsen, jovem dinamarquesa que havia conhecido cerca de três anos antes. No entanto, ele logo se sentiu desiludido com as perspectivas da vida a dois. Encerrou o noivado em 11 de agosto de 1841, apesar de se acreditar que havia um amor profundo entre eles. Nos seus Diários, Kierkegaard menciona a sua crença de que sua “melancolia” o tornava impróprio para o casamento, mas o motivo exato para o rompimento permanece obscuro até hoje. Dali em diante, seu matrimônio seria com a filosofia e, por assim dizer, com a própria existência.

Uma das primeiras descrições da aparência física do pensador dinamarquês veio de Hans Brochner, um convidado para a festa de casamento do seu irmão, Peter, em 1836: “Eu achei [sua aparência] quase cômica. Na época ele estava com 23 anos de idade. Ele tinha algo bastante irregular em toda a sua forma e usava um penteado estranho. Seu cabelo subiu quase seis centímetros acima de sua testa em uma forma de crista desgrenhada, que lhe dava uma estranha aparência de espanto”. Já o próprio Kierkegaard se descreveu como alguém de composição frágil: “Franzino, raquítico e fraco para poder valer como um homem completo. [E ainda] melancólico, submetido ao sofrimento interior, profundamente ferido de muitas maneiras no íntimo da alma. Bem, a mim só uma coisa me foi concedida: uma inteligência eminente, com certeza para que eu não ficasse inteiramente desarmado”.

Em seu tempo, as ruas de Copenhague eram tortuosas, de modo que poucas carruagens passavam por elas. Kierkegaard amava caminhar pelas ruelas e simplesmente observar o dia a dia das pessoas comuns. Em 1848, ele escreveu: “Eu tinha verdadeira satisfação cristã no pensamento de que, se não houvesse outro, definitivamente havia um homem em Copenhague com quem todas as pessoas pobres poderiam abordar livremente e conversar na rua; se não houvesse outro, havia um homem que, qualquer que fosse o seu círculo social mais frequentado, não se esquivava do contato com os pobres, mas saudava toda empregada que lhe parecia familiar, todo servo, todo trabalhador comum”. Também podemos resumir boa parte da sua teologia sob esse ponto de vista: ao teólogo dinamarquês interessava mais a figura do Cristo andarilho e contador de parábolas do que toda a Igreja que se construiu ao redor dele.

Sócrates dizia que “uma vida irrefletida não vale a pena ser vivida”, e o pensador dinamarquês levou essa afirmação as últimas consequências. Em O desespero humano, publicado em 1849 e, para alguns, uma das obras inaugurais da filosofia existencialista, Kierkegaard nos apresenta a autorreflexão como uma ferramenta para entender o problema do “desespero”, que para o pensador não derivava da depressão em si, mas antes da alienação do “eu”. Assim, ele classificou diversos graus de desespero. O mais inferior e comum é derivado da ignorância: o indivíduo mal sabe o que o “eu” significa, e não tem a menor consciência da natureza do seu “eu” potencial, a melhor versão de si. Tal desconhecimento é quase uma bênção, e tão sem consequência que Kierkegaard não estava certo se deveria ser classificado como desespero. Segundo ele, o verdadeiro desespero ocorre quando temos mais consciência de nós mesmos, uma vez que os graus mais profundos de desespero derivam de uma profunda consciência do “eu” aliada a uma profunda aversão por esse mesmo “eu”.

Quando algo dá errado, quando falhamos e, por exemplo, não passamos numa prova, nós aparentemente nos desesperamos porque perdemos algo. Mas numa análise mais atenta, segundo o pensador dinamarquês, fica óbvio que a pessoa não se desespera por conta do fato em si, como não passar na prova, mas antes por conta de si mesma. O “eu” que não conseguiu conquistar seu objetivo se torna intolerável. A pessoa queria se tornar um “eu” diferente, alguém que passou no vestibular, mas agora está presa a um “eu” fracassado, em desespero. Mas seria possível nos desviar desse desespero simplesmente sendo bem-sucedidos em tudo aquilo que desejamos alcançar?

Para responder esta pergunta, Kierkegaard usou como exemplo um homem que queria se tornar imperador. E demonstrou que, ironicamente, ainda que ele conseguisse alcançar seu objetivo, na verdade ainda teria abandonado o seu antigo “eu”. Ou seja, tanto em seu desejo quanto em sua conquista, ele queria “se livrar de si mesmo”. Ora, essa negação do “eu” é dolorosa: é avassalador o desespero de uma pessoa que quer se afastar de si, que “não possui a si mesma; que não é ela mesma”.

Mas ele também propôs, é claro, uma solução para tal dilema. Kierkegaard concluiu que um homem poderia alcançar a paz e a harmonia internas se tivesse a coragem de ser seu verdadeiro “eu”, em vez de querer ser outro. “Querer ser quem se é realmente é, na realidade, o oposto do desespero”, ele resumiu. O pensador acreditava que o desespero desaparece quando paramos de negar quem realmente somos e aceitamos a nossa verdadeira natureza.

Em um trecho dos seus Diários, datado de 1835, Kierkegaard esboçava a essência do que viria a tratar em suas obras posteriores:

O que eu realmente preciso é ter clareza sobre o que devo fazer e não o que eu preciso saber, a não ser na medida em que o conhecimento deve preceder cada ato. O que importa é encontrar um propósito, para ver o que realmente é que Deus quer que eu faça; o mais importante é encontrar uma verdade que é verdade para mim, encontrar a ideia pela qual estou disposto a viver e morrer.

Em sua busca por si mesmo, por quem realmente é, em oposição às inúmeras máscaras sociais ofertadas pela sociedade da época, Kierkegaard nos deu uma contribuição que já era muito relevante em sua época, e que hoje, na sociedade da ebulição da informação e das redes sociais, se tornou ainda mais relevante.

Mas foi em Adquirir a sua alma na paciência, um dos Quatro Discursos Edificantes, publicado em 1843, que o andarilho de Copenhague nos ofereceu a chave para o encontro e a conquista de nossa própria alma. Comentando uma passagem do Novo Testamento bíblico, Kierkegaard nos apresenta um conceito único de “paciência”: uma paciência que tem mais a ver com o mundo espiritual, mais com a sua teologia do que com a sua filosofia. Para um estudante de filosofia ou psicologia, tal conceito pode soar demasiadamente místico, até mesmo incômodo. Se for o caso, vá mais além, mergulhe em tal “incômodo”, desvele o que acha que é o misticismo, se aventure pelo misticismo real, a coisa em si: você mesmo – mas tenha toda a paciência do mundo!


Soren Kierkegaard morreu em 1855, aos 42 anos. Embora a causa de sua morte não seja clara, estudos recentes apontam que a possível causa foi uma doença na coluna vertebral (antes, se achava que ele havia falecido em decorrência da tuberculose). Seu corpo se encontra sepultado no Cemitério Assistens, em Copenhague.


***

Crédito das imagens: [topo] Desenho não terminado de Kierkegaard feito pelo seu primo, Niels Christian Kierkegaard (c. 1840); [ao longo] Martinus Rorbye (pintura de 1831; retrata a Copenhague da época).

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28.11.23

Mas o que exatamente eu sou?

René Descartes foi um dos grandes pensadores modernos, tanto que é considerado por alguns como “o fundador da filosofia moderna”, e por outros como “o pai da matemática moderna”. E, de fato, ele foi tão ou mais importante para a ciência e a matemática quanto o foi para a filosofia em si. Entretanto, se formos analisar hoje pelo que Descartes é mais lembrado, será difícil escapar da sua célebre afirmação:

Penso, logo existo.

Tal frase, cuja tradução do latim original – cogito ergo sum – seria melhor definida como “Penso, logo sou”, surgiu em um livro que a princípio era quase que um prefácio para outras obras mais científicas, intitulado Discurso sobre o Método. Nesta obra, escrita em 1637 e publicada originalmente na Holanda, pois nessa época o pensador francês residia por lá, Descartes propõe um modelo quase matemático para conduzir o pensamento humano, uma vez que a matemática tem por característica a certeza, a ausência de dúvidas. De acordo com o próprio autor, parte da inspiração de seu método (descrito nesse tratado) veio de três sonhos ocorridos na noite de 10 para 11 de novembro de 1619: em tais sonhos lhe surgiu “a ideia de um método universal para encontrar a verdade”.

E o método de Descartes entrou para a história, ao ponto de se confundir com as bases do próprio método científico como veio a ser conhecido de lá para cá. Mas o que me interessa discutir aqui é a tal frase, o “penso, logo sou”. Como exatamente ele chegou nela?

Ora, Descartes estava preocupado com a validade das evidências que poderiam comprovar as verdades da nossa existência. Se devemos questionar tudo, por que devemos confiar nas informações que colhemos da natureza, já que tudo passa pela interpretação dos nossos cinco sentidos?

Tudo o que olhamos, cheiramos, escutamos, tocamos ou saboreamos só pode ser analisado pela consciência quando passa pelos nossos ouvidos, olhos, boca, tato e nariz. E, para piorar, essa interpretação é pessoal e intransferível. Como confiar que todas as pessoas perceberiam esses estímulos da mesma forma, permitindo que uma verdade se tornasse válida para todos?

O francês concluiu que nós só temos a capacidade de duvidar dos nossos sentidos (isto é, pensar) porque estamos vivos para receber esses estímulos. Ter a convicção da nossa existência seria a única coisa da qual não podemos duvidar. Eis as suas palavras, traduzidas do original:

“[...] ao analisar com atenção o que eu era, e vendo que podia presumir que não possuía corpo algum e que não havia mundo algum, ou lugar onde eu existisse, mas que nem por isso podia supor que não existia; e que, ao contrário, pelo fato mesmo de eu pensar em duvidar da verdade das outras coisas, resultava com bastante evidência e certeza que eu existia; ao passo que, se somente tivesse parado de pensar, apesar de que tudo o mais que alguma vez imaginara fosse verdadeiro, já não teria razão alguma de acreditar que eu tivesse existido; compreendi, então, que eu era uma substância cuja essência ou natureza consiste apenas no pensar, e que, para ser, não necessita de lugar algum, nem depende de qualquer coisa material. De maneira que esse eu, ou seja, a alma, por causa da qual sou o que sou, é completamente distinta do corpo e, também, que é mais fácil de conhecer do que ele, e, mesmo que este nada fosse, ela não deixaria de ser tudo o que é.

Depois disso, considerei o que é necessário a uma proposição para ser verdadeira e correta; pois, já que encontrara uma que eu sabia ser exatamente assim, pensei que devia saber também em que consiste essa certeza. [Assim, percebi] que nada há no eu penso, logo sou que me dê a certeza de que digo a verdade, salvo que vejo muito claramente que, para pensar, é preciso existir.”

Ou seja, ainda que tudo o que percebemos com os sentidos desde que nos entendemos por gente for algum tipo de ilusão, e ainda que não possamos obter uma certeza derradeira e absoluta sobre basicamente nenhuma verdade, ainda assim não podemos negar que existimos, que estamos aqui pensando sobre a existência. Descartes havia encontrado a única certeza genuína da filosofia, a única que não pode ser questionada. E vejam que, ainda assim, o fato de existirmos não significa que tenhamos sequer a certeza sobre a nossa própria vontade, ou liberdade de agir; porém, fato é que algo existe, e não nada.

Agora, me desculpem, mas nesse momento não posso deixar de sorrir ante tamanha ironia, isto é: que um dos tratados que servem de alicerce para o próprio método científico, que um dos pilares da racionalidade moderna seja mais lembrado justamente por sua afirmação mais mística, mais espiritual, ainda que a imensa maioria dos que esbarraram nela não tenha percebido sua profundidade abissal.

Sim, pois muitos se comportam diante dela como aqueles que estavam se preparando para a sua primeira aula de mergulho na praia mas, ao ver a placa informando “Perigo, correnteza forte”, preferiram se abster de mergulhar. Tivessem mergulhado, a primeira coisa que teriam de se deparar era com a continuação até mesmo óbvia da preposição de Descartes:

Penso, logo sou. Mas o que exatamente eu sou?

Então cairiam de cabeça no misticismo, ou seja, na tentativa de conceber a verdadeira natureza do que existe, do que é. E poderia falar aqui de Parmênides, dos estoicos, de Plotino ou Benedito Espinosa, mas será mais fácil se deixarmos a filosofia de lado e recorrermos à poesia, mais precisamente a poesia de Jalal ud-Din Rumi, um poeta sufi (o misticismo do Islam) que viveu no século XIII. Eis o que ele soube nos dizer sobre o tema:

Na verdade nós somos uma só alma, eu e você. Nos mostramos e escondemos, você em mim, eu em você.

Eis o sentido profundo da nossa relação: é que entre você e eu não existe nem eu nem você.

Os poemas de Rumi eram um eterno diálogo entre ele e Allah, ou Deus. Mas a ideia principal, a que permeia toda a sua obra, e também a de todo místico genuíno, é justamente esta: “entre eu e você, não existe nem eu nem você”. O que existe é o que é, sempre foi e será, justamente porque existe, porque não é nada. Mas isto não se entende com palavras.

Afinal, se fosse necessário pensar através de alguma espécie de linguagem, por mais rudimentar que fosse, então não existiríamos enquanto recém-nascidos, e só passaríamos a existir a partir de dado momento desta vida. Ocorre que mesmo tal ideia é absurda nesse contexto: “passar a existir”. Não faz o menor sentido. Mas isto também não se entende com palavras.

E, mesmo no ápice de sua racionalidade, o próprio Descartes intuiu a mesma coisa, embora talvez não tenha conseguido se expressar através de um conceito cristão. Pois o pensador francês ainda defende a existência de Deus poucas páginas após o trecho que eu trouxe acima. E, para tal, ele se vale de uma lógica que muitos consideram até mesmo infantil: ele afirmou basicamente que o fato de concebermos a ideia da perfeição e do infinito, mesmo sendo imperfeitos e finitos, era a prova da existência de Deus.

Faltou a Descartes justamente ir um pouco além, e mergulhar nos mares abissais do Grande Mistério. Nós não “concebemos” Deus, nós somos Deus. Nós somos o que existe.

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Crédito das imagens: [topo] Corbis (Descartes); [ao longo] Cristofer Maximilian/unsplash.

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29.9.23

Minha tradução de O Príncipe publicada pela Faro Editorial

Em 2020 eu vendi três das minhas traduções à Faro Editorial e me tornei definitivamente um tradutor profissional. Este ano negociei mais uma das minhas traduções com a Faro, o célebre O Príncipe de Nicolau Maquiavel.

Logo abaixo trarei imagens da edição, que já foi lançada. Eu não recebo direitos autorais pela venda do livro, pois a negociação de uma tradução se dá por um pagamento único, como a venda de um produto mesmo. No entanto, caso vocês o comprem na loja da Amazon utilizando o link abaixo, eu ganharei uma comissão praticamente equivalente à parte que um autor leva de direitos autorais :)

Eis as imagens do livro:

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Obs.: O Príncipe foi publicado pelo selo Avis Rara, da Faro Editorial.

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6.9.23

Lançamento: Fédon (ou Da Alma)

As Edições Textos para Reflexão voltam aos primódios da filosofia ocidental com o seu maior clássico.

Seja para concordar ou discordar, fato é que boa parte dos pensadores do Ocidente iniciaram sua jornada filosófica justamente por Platão. E é em Fédon (ou Da Alma) que temos ao mesmo tempo o ápice e a melhor introdução possível ao seu pensamento. Em Fédon, somos apresentados ao chamado Mundo das Ideias e ao conceito de transmigração das almas, que podem sim seguir para o além-vida, o Hades, mas que também podem retornar, para aprenderem, vida após vida, a se tornarem melhores e mais sábias.

A nova tradução de Rafael Arrais já está disponível na Amazon, em e-book:

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22.6.23

Lançamento: Artemagia

O Projeto Ars Magica chegou ao fim, e o seu título final é Artemagia: uma reflexão sobre o Caminho.

Em Artemagia, Rafael Arrais se vale da sua escrita poética e hipnotizante para nos trazer preciosas e profundas reflexões acerca do Caminho, o caminho espiritual, e tudo o que ele abarca: a Arte, a magia, a religião, a filosofia, a ciência, a espiritualidade, a chamada Verdadeira Vontade, o contato com anjos e demônios, as vias da mão direita e esquerda, o tarot etc. Se souber ler com o coração, você também será mudado para sempre por este livro.

Já disponível em e-book, na Amazon, e também na versão impressa:

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25.4.23

Lançamento: Filosofar é aprender a morrer e outros ensaios de Montaigne

As Edições Textos para Reflexão retornam à filosofia com uma seleção de seis dos melhores Ensaios de Montaigne.

Ao falar de si mesmo, da filosofia e do mundo com extrema elegância, bom senso, acidez e honestidade intelectual, Montaigne não apenas fundou um novo gênero literário (o ensaio), como demonstrou que os chamados pensadores, ou filósofos, não precisam falar somente de coisas grandiosas, muito sérias e cosmogônicas. Ele trouxe as reflexões do dia a dia para o grande palco da filosofia, e na posteridade decerto fez incontáveis bons amigos: seus leitores.

Filosofar é aprender a morrer e outros ensaios é a mais nova tradução de Rafael Arrais – um ebook já disponível para o Amazon Kindle e na Google Play:

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» Leia o Prefácio desta edição


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6.4.23

Os Ensaios de Montaigne

Prefácio escrito para a minha tradução de Filosofar é aprender a morrer e outros ensaios de Montaigne, a ser lançada em e-book pelas Edições Textos para Reflexão (em breve).


No sudoeste da França, no topo de uma colina arborizada, em torno de cinquenta quilômetros a leste de Bordeaux, há um castelo de pedras amareladas e telhado vermelho. Foi lá que Michel Eyquem de Montaigne nasceu (em 1533), residiu e morreu (em 1592, aos 59 anos).

A propriedade foi adquirida pelo seu avô, que atuava no ramo da pesca, em 1477. Mais tarde, seu pai adicionou algumas alas ao castelo e expandiu sua área de cultivo agrícola. Aos 35 anos, Montaigne tornou-se responsável pelo castelo, embora tivesse pouco interesse pela administração dos negócios familiares, e não entendesse praticamente nada de agricultura. Apesar de ter esposa, filha e um séquito de criados convivendo na mesma propriedade, ele preferia passar boa parte de seu tempo em uma biblioteca circular no terceiro e último andar de uma das torres laterais do castelo. Ela continha em suas prateleiras cerca de mil volumes de filosofia, além de algumas máximas (frases curtas) filosóficas que ele mandou gravar nas ripas de madeira do teto. Ademais, uma cadeira, uma escrivaninha e três janelas com vista para a natureza da região. Este era o seu mundo, e foi nele que encontrou forças para escrever seus Ensaios.

Montaigne viveu em plena Renascença, que marcou um grande reencontro da cultura europeia com os clássicos da Antiguidade. Através de um grande esforço de seus pais e preceptores, ele havia sido alfabetizado em latim, de modo que desde a tenra infância tinha mais facilidade para ler os clássicos do que os próprios livros franceses de sua época. Por volta dos sete ou oito anos, ele já havia lido As metamorfoses de Ovídio. Antes de chegar aos dezesseis, adquiriu a obra de Virgílio e passou a dominar a Eneida. Mas foi de filósofos e pensadores da Antiguidade que ele extraiu a maior inspiração para os seus escritos, particularmente das traduções recentes da obra de Platão para o latim, assim como das obras de Sêneca e Lucrécio, além da descrição de outros sábios dada em Vidas, doutrinas e sentenças dos filósofos ilustres, de Diógenes Laércio.

Tal como Epicuro, outro filósofo clássico, ele acreditava que a amizade era um componente essencial da felicidade humana. Durante poucos anos, ele teve a sorte de encontrar e conviver com um grande amigo. Aos 25 anos, foi apresentado a um escritor de 28 anos e membro do Parlamento de Bordeaux, seu nome era Étienne de La Boétie. Foi um caso de amizade à primeira vista: com La Boétie, Montaigne sentiu que não precisava ocultar os traços de personalidade que costumava ocultar dos demais. Em seus Ensaios, ele chegou a afirmar que apenas La Boétie “teve o privilégio de conhecer a sua verdadeira face”; isto é, ele foi a única pessoa com quem Montaigne se sentiu à vontade para falar de tudo, ou quase tudo, sem os costumeiros filtros do convívio social – particularmente entre a nobreza.

Infelizmente, tal encontro de almas foi um tanto breve. Em agosto de 1563, quatro anos após se conhecerem pela primeira vez, La Boétie caiu de cama com dores no abdômen, e morreu poucos dias depois. Montaigne passou o restante da vida buscando, sem sucesso algum, encontrar um substituto para o convívio com aquele amigo. No fim das contas, ao se retirar em seu castelo, em sua biblioteca circular, para se dedicar a escrita dos seus Ensaios, ele recriou por outros meios o verdadeiro retrato de si mesmo que La Boétie havia reconhecido. Afinal, conforme o próprio Montaigne nos comunica no início da obra, é sobre ele mesmo que ela trata.

É bem possível que Montaigne tenha começado a escrever para abrandar um sentimento pessoal de solidão, mas sua obra também serviu, de certa forma, para abrandar a solidão dos próprios leitores. Ao falar de si mesmo, da filosofia e do mundo com extrema elegância, bom senso, acidez e honestidade intelectual, Montaigne não apenas fundou um novo gênero literário (o ensaio), como demonstrou que os chamados pensadores, ou filósofos, não precisam falar somente de coisas grandiosas, muito sérias e cosmogônicas. Ele trouxe as reflexões do dia a dia para o grande palco da Filosofia, e se não conseguiu encontrar outro La Boétie enquanto vivo, na posteridade decerto fez incontáveis bons amigos: seus leitores.

A primeira edição dos Ensaios foi publicada em 1580, na cidade de Bordeaux, composta por dois livros. Após a segunda edição de 1582 e a terceira de 1587, em Paris no ano de 1588 é publicada a quinta edição dos Ensaios, já com três livros. Curiosamente, não há registros da publicação da quarta edição, mas um exemplar impresso da quinta edição contendo correções e alterações de Montaigne é conhecida como a Cópia de Bordeaux, hoje localizada na Biblioteca Municipal de Bordeaux. Com esta e as várias anotações deixadas por Montaigne, em 1595 é publicada por Marie de Gournay, espécie de discípula intelectual do autor, a primeira edição póstuma, onde ela acrescentou citações, notas e um longo prefácio; esta edição serviu como base para as diversas publicações dos Ensaios ao longo dos séculos. A edição completa traz 107 ensaios de tamanhos variados; esta seleção traz 6 dos seus melhores ensaios, incluindo Filosofar é aprender a morrer e A amizade.


Do editor, neste 06 de abril de 2023.

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Crédito das imagens: Google Image Search (uma das estátuas de Montaigne, situada em Paris).

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24.1.23

Terra, fogo, água e ar (parte 1)

Um convite para a caminhada

Tales de Mileto, possivelmente o primeiro grande filósofo do Ocidente, considerava a água a substância primordial, de onde se originaram todas as coisas. Já um de seus discípulos, Anaxímenes, afirmou que era o ar o princípio de todas as coisas. Parmênides de Eleia, nascido quando Tales já era idoso, defendia que a tal substância é imutável, e que suas transformações visíveis, tudo o que vemos no mundo a nossa volta, era mera ilusão. Heráclito de Éfeso, que viveu na mesma época, discordava totalmente, e dizia que “não podemos atravessar duas vezes o mesmo rio”, pois que tudo na natureza está em constante mudança.

Para um materialista atual, é muito difícil compreender o que todos esses pensadores da nossa antiguidade estavam realmente discutindo. Para a ciência moderna, os elementos são formados pelos diferentes tipos de átomos que formam as moléculas. A água, por exemplo, é composta por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio. Nos primeiros minutos após o big bang, o evento cósmico que originou o universo conhecido, havia de fato uma abundância de hidrogênio (e hélio), mas o oxigênio só surgiu centenas de milhões de anos depois. A terra e o ar podem ser formados por uma infinidade de materiais sólidos e gasosos, e o fogo sequer pode ser considerado “matéria”, uma vez que é o resultado de reações químicas.

Falta à visão moderna, obviamente, a concepção metafórica do mundo. Ora, é claro que Tales não supunha que o mundo inteiro era uma espécie de ilha surgida, de alguma forma estranha, de um oceano primordial infinito. A “água” a que o pensador antigo se referia não era somente a água que encontramos nos rios, ou que usamos para beber e tomar banho, mas uma ideia, um conceito. Para Tales, fazia mais sentido que todas as coisas tivessem se formado a partir de uma substância tão plástica quanto àquela que encontramos em um jarro de cerâmica – e que, se despejada, por exemplo, numa caneca de latão, assumirá imediatamente a nova forma.

O que os antigos compreendiam pelos quatro elementos – terra, fogo, água e ar – era essencialmente um conjunto de metáforas, usualmente associadas a ideias grandiosas, como substâncias primordiais ou deuses, mas igualmente a tipos psicológicos e qualidades e características puramente humanas. Nesse sentido, tais elementos ainda estão presentes no nosso dia a dia, em nossa linguagem e simbologia, quiçá com outros nomes, sem que percebamos.

Minha intenção aqui é, portanto, investigar a origem de tais associações simbólicas. Se puderem me acompanhar nessa viagem de pura imaginação, ela nos levará aos primórdios da civilização humana – da escrita, da religião, da filosofia etc. –, não importando realmente a região do planeta ou etnia específica. Dito isso, vale lembrar que inúmeros povos antigos chegaram a sistemas parecidos de quatro ou cinco elementos, por vezes se valendo de tipos diversos, como madeira, metal, vácuo ou éter. Minha intenção não é dar uma explicação definitiva para tudo isso, o que seria impossível, mas tão somente refletir sobre a terra, o fogo, a água e o ar.

Nossa viagem percorrerá cavernas iniciáticas, onde o fogo engravida a terra; mares calmos e raivosos, governados pelos espíritos do vento; pensamentos elevados, que necessitam de âncoras densas para permaneceram no mundo; e, finalmente, aos mistérios das chamas que caíram do céu.

Nada disso será acadêmico, no sentido de tentar explicar metáforas antigas, mas talvez uma experiência literária interessante. Se lhe interessa, vamos caminhar juntos por aí.


» Na sequência, a iniciação da terra.

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Bibliografia
Kabbalah Hermética (Marcelo Del Debbio). Wikipédia.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search.

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16.1.23

Lançamento: Ad infinitum, edição comemorativa de 10 anos

Quatro personagens. Um diálogo sobre o Uno: o infinito da existência, o universo, a evolução das espécies na Terra, religião, ciência, filosofia, fé e ceticismo. Saiu a edição comemorativa de 10 anos do lançamento da obra filosófica mais relevante de Rafael Arrais.

Um e-book já disponível para o Amazon Kindle, e também na versão impressa:

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» Conheça a simbologia do Ouroboros e da Árvore da Vida (capa do livro)

» Veja o release de lançamento original


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6.9.22

A origem do universo, com o Boteco Mayhem

Por que a noite é escura? Para responder a esta pergunta, eu e os outros participantes do Bate-papo Mayhem fizemos uma jornada até o início de tudo, num episódio cheio de ciência, mitologia e espiritualidade. Assista abaixo:

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13.9.21

Porque é importante conhecer a filosofia islâmica

O texto abaixo prefaciou o livro A Filosofia Islâmica: Pensadores Islâmicos de todos os tempos, de Thiago Tamosauskas, disponível na Amazon em e-book.


O italiano Cosme de Médici foi um dos homens mais importantes do Renascimento na Europa. Não foi pintor, nem escultor, nem escritor ou mesmo pensador, foi um banqueiro. Herdou do pai a fortuna, a saúde e o talento para os negócios. Além disso, governou Florença durante muitos anos, e ajudou a torná-la a capital da arte em todo o Ocidente. Isso tudo porque Cosme foi um homem rico que soube fazer bom uso de sua fortuna, quiçá o melhor uso: patrocinar as artes em geral.

Ele também amava livros, e como na sua época não existia internet, enviava diversos agentes pelo mundo afora para tentar encontrar tomos raros. Eram caçadores de cultura. Cosme estava particularmente interessado em obras gregas da Antiguidade, uma vez que mais ou menos após o advento do cristianismo, toda a Europa foi, século após século, se esquecendo do grego, e se apegando exclusivamente às obras em latim. Mas Cosme não estava numa busca às cegas, pois sabia exatamente para onde enviar seus agentes: o mundo árabe islâmico.

Ninguém questiona a importância das obras de Platão para o pensamento ocidental, mas quando Cosme cresceu, poucas eram as obras platônicas disponíveis em latim. Já ao leste, principalmente na junção com o Oriente Médio, a situação era outra. Os bizantinos que conheciam o grego podiam continuar a ler Platão no original. Dessa forma, os filósofos do mundo islâmico desfrutavam de um extraordinário grau de acesso à herança intelectual da antiguidade grega. Por exemplo, na Bagdá do século X, leitores árabes tinham o mesmo grau de acesso às obras platônicas quanto os leitores em inglês nos dias de hoje.

Isto foi graças a um movimento de tradução que se iniciou durante o califado Abássida, começando na segunda metade do século VIII. Patrocinado pelo próprio Califa, este movimento almejou importar a filosofia e a ciência grega para a cultura islâmica. O império deles tinha recursos para tal, não só financeiramente, mas culturalmente também. Desde a antiguidade tardia até a ascensão do Islã, o grego sobreviveu como língua de atividade intelectual entre cristãos, especialmente na Síria. Então, quando a aristocracia muçulmana decidiu ter a ciência e a filosofia gregas traduzidas para o árabe, foi para os cristãos que eles se voltaram. Foi um imenso desafio. Mas, já no tempo de Cosme, grandes obras de Platão, Aristóteles, Plotino, assim como o famoso Corpus Hermeticum, estavam não somente preservadas em seu original grego nos califados islâmicos, como traduzidas para o árabe e outras línguas da região.

Enquanto durante muitos séculos os europeus “se esqueceram” de tais ideias, no mundo islâmico elas eram conhecidas a fundo. Em boa medida, o chamado Renascimento foi mais uma redescoberta das ideias da antiguidade grega. Mas, se tais ideias puderam ser revisitadas, foi porque os islâmicos as salvaram da aniquilação. Quando os agentes de Cosme retornaram à Florença, ele logo deu a ordem para que todas as obras encontradas fossem traduzidas para o latim. E o resto é história: tais obras jamais voltaram a ser esquecidas pelo Ocidente.

Mas, estranho de se pensar: se foi o mundo árabe islâmico que preservou tais conhecimentos, será que também não existiram grandes pensadores do Islã? Será que eles se limitaram apenas a preservar tal conhecimento, sem terem dialogado com ele? E, se existiram grandes filósofos islâmicos, por que nós raramente ouvimos falar deles no Ocidente?

Não cabe a mim responder tais perguntas neste prefácio, mas a quem ficou curioso sobre o tema, o restante desta obra será de grande valia. O seu autor, Thiago Tamosauskas, tem se revelado um investigador incansável de escolas de pensamento mundo afora. Antes de falar da filosofia islâmica, ele também já se debruçou sobre a filosofia africana e a filosofia chinesa. Sua intenção, obviamente, não é descrever em minúcias cada uma das ideias dos pensadores islâmicos, mas antes dar uma introdução geral ao assunto, e deixar que cada leitor busque se aprofundar por conta própria no pensamento dos filósofos que mais chamaram a sua atenção – de preferência, lendo-os no original.

Uma grande vantagem do texto do Tamosauskas é que, ao contrário do seu sobrenome, ele é altamente legível e explicativo, às vezes com uma pitada de humor aqui e ali. Em suma: é algo que informa e diverte. Se tudo correr bem, logo logo você estará buscando pelos outros livros desta série, se é que já não os leu.


Rafael Arrais

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Crédito da imagem: Pintura de Osman Hamdi Bey (1902).

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