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23.2.24

Lançamento: A Tábua de Esmeralda de Hermes

As Edições Textos para Reflexão retornam ao hermetismo!

A Tábua de Esmeralda foi um dos textos fundamentais que deram origem à alquimia, ao hermetismo e a boa parte do ocultismo e esoterismo que conhecemos hoje. Esta edição conta com tradução e comentários de Rafael Arrais e luxuosa introdução de Thiago Tamosauskas, alquimista praticante.

Já disponível em e-book na Amazon e também na versão impressa, pelo Clube de Autores:

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» Leia minha tradução da Tábua


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15.6.22

Nossa vida nas cartas (parte 1)

Ainda me lembro bem do dia em que descobri o que era o tarot (ou tarô): fui encontrar meu amigo Marcelo Del Debbio enquanto ambos estávamos no Rio de Janeiro, e como a agenda dele estava concorrida, ficamos de almoçar juntos no intervalo da aula que ele estava ministrando próximo ao Largo do Machado. Era um sábado, e ele havia alugado uma sala em um colégio da região. Foi só quando cheguei que soube que ainda levaria cerca de meia hora de aula para o intervalo do almoço, e decidi entrar e assistir um pouco.

Já alojado em minha cadeira ginasial, recordando com um sorriso meio amargo dos tempos de escola, olhei para o quadro onde a apresentação estava sendo projetada e vi alguma pintura que me lembrou um dos meus artistas prediletos, Albrecht Dürer. Na sequência, uma outra mais conhecida, O Andarilho, do grande Hieronymus Bosch. Foi só aí que me dei conta de que o tema daquele curso era Os Arcanos Maiores do Tarot. Mas, como sou formado em Belas Artes e conhecia boa parte daqueles artistas, decidi prestar um pouco mais de atenção, afinal até então o tarot para mim era alguma outra coisa que, decididamente, tinha pouco a ver com a história da pintura.

Foi naquela meia hora que eu descobri que estava redondamente enganado sobre o que era, afinal, o tarot. Até aquele dia eu achava que se tratava de um oráculo divinatório em formato de baralho (ou algo assim), no entanto, enquanto o Marcelo explicava sobre dois dos vinte e dois Arcanos Maiores, o Louco e o Mago, eu percebi que o tarot definitivamente era muito, muito mais do que isso.

Isso foi há cerca de uma década, a data e mesmo o ano exato, já não lembro ao certo. De lá para cá eu estudei bastante, fiz o curso do Del Debbio a distância e até mesmo cheguei a iniciar a cocriação do meu próprio tarot, mas em todo esse tempo ainda não cheguei a uma conclusão acerca do que é exatamente esse jogo que, de alguma forma estranha, parece trazer nossa vida nas cartas de um baralho.

No meio ocultista e nos círculos esotéricos em geral o tarot é considerado algo muito, muito antigo, possivelmente da antiguidade egípcia. Já entre os céticos, o tarot é uma invenção moderna, com cerca de 500 anos, e 99% dos baralhos atuais têm menos de um século de idade. O mais impressionante é que ambos, de alguma forma, parecem estar certos.

Para entender com isso se dá, é preciso primeiro compreender em que contexto o tarot foi “declarado egípcio”. Antoine Court de Gébelin nasceu em uma família protestante francesa em torno de 1725. Como a França vivia uma época conturbada, seu pai, que era pastor, exilou-se com a família na Suíça a partir de 1730. Gébelin voltou à França só após a morte dos pais, em 1763, quando também já era doutor em teologia. Sua ascensão na chamada alta sociedade parisiense foi meteórica: escritor coroado pela Academia Francesa e membro de outras academias, censor do reino, erudito, gramático e especialista em mitologia, eventualmente também se tornou maçom. Em 1768, decidiu publicar um projeto grandioso, uma obra “que seria a chave de todos os séculos e de todos os conhecimentos humanos”. Lançou uma espécie de financiamento coletivo que, na época, dependia basicamente do dinheiro dos reis, príncipes e nobres em geral. Mas, ao contrário de outros enciclopedistas comuns em seu tempo, seu objetivo era outro. Gébelin não desejava listar os conhecimentos de seu próprio século, e sim buscar a fonte comum de todos os saberes humanos por meio de uma ampla síntese. O nome do seu projeto era O Mundo Primitivo.

Mais de mil assinantes sustentaram a empreitada. Ele queria publicar um volume de cerca de setecentas páginas por ano, até completar nove deles. E assim foi: entre 1773 e 1784, Gébelin escreveu mais de 6 mil páginas! Mesmo assim, tocou diversos outros projetos ao longo da escrita. Em 1780, tornou-se presidente de uma sociedade que mais tarde daria origem ao Museu de Paris, e financiou quase a metade dos seus projetos. Apesar de sua notoriedade, Gébelin não tinha linhagem na nobreza ou alguma herança familiar relevante, e quando morreu, em 1784, estava cheio de dívidas.

Ainda que tenha escrito sobre uma vasta amplitude de assuntos, Gébelin foi lembrado pela história basicamente pelo que falou sobre o tarot. Isso se deu no tomo VIII do Mundo Primitivo, cujos temas eram “a história, o brasão, as moedas e os jogos”. Lá pelas tantas, ele narra que foi convidado por uma amiga a conhecer o “Jogo dos Tarôs” junto com alguns amigos em comum e que, em dado momento, decidiram analisar com mais calma cada um dos Arcanos Maiores:

“Tivemos o cuidado de [iniciar pela] mais caricatural dentre as figuras, que não apresentava nenhuma relação com seu nome: o Mundo. Observo-a e logo reconheço a alegoria. Todos [vêm] para ver esta carta maravilhosa, na qual percebo o que os outros nunca viram; cada um me mostra outra carta e, em 15 minutos, o jogo é examinado, explicado, declarado egípcio e, como esse não era o jogo que havíamos imaginado, mas o efeito de suas relações escolhidas e sensíveis com tudo o que conhecemos das ideias egípcias, comprometemo-nos a divulgá-lo algum dia ao público: [...] um livro egípcio que teria escapado da barbárie, da destruição pelo tempo, dos incêndios e da ignorância. [Eis o] efeito necessário da forma frívola e leviana desta obra, que lhe possibilitou vencer todas as épocas e chegar até nós com uma rara fidelidade: a ignorância na qual nos encontramos até agora a respeito do que ela representava foi um feliz salvo-conduto que lhe permitiu atravessar tranquilamente todos os séculos sem que se pensasse em fazê-la desaparecer.”

Segundo o próprio Gébelin esclarece em seu texto, o objetivo daquele encontro não era investigar a simbologia do tarot, foi algo que ocorreu espontaneamente, e até a data ele praticamente ignorava a sua existência. Apesar disso, em cerca de quinze minutos, aquele estranho jogo foi “examinado, explicado e declarado egípcio”. Daquele dia em diante, essa ideia nunca mais seria esquecida.

Gébelin teve em mãos uma das inúmeras versões do chamado Tarot de Marselha, um dos baralhos clássicos, cuja origem remonta ao século XV e ao norte da Itália. Ele poderia ter criado um novo tarot com simbologia claramente egípcia, ao contrário daquele que, como veremos, está carregado de símbolos da Europa medieval. Se não o fez, é possivelmente por duas razões: primeiro, porque tinha honestidade intelectual; e segundo, porque acreditava que a simbologia medieval também era uma herança de ideias mais antigas. Assim, é perfeitamente possível que, do ponto de vista de Gébelin, ser “declarado egípcio” era o mesmo que ser “declarado muito, muito antigo”. Afinal, se alguém passa quase uma década pesquisando e escrevendo sobre como as ideias de um “mundo primitivo” ainda reverberam em seu tempo, é porque ele não precisava ver uma esfinge ou uma pirâmide para reconhecer que algumas das questões mais antigas do espírito humano simplesmente não podem ir embora, não podem ser totalmente esquecidas, são como histórias reencenadas em cada novo tempo por um novo conjunto de símbolos, de personagens, mas não obstante com sua essência intacta.

Se isso for verdade e soubermos interpretar o que Gébelin quis dizer de fato, isso não invalida os registros históricos que nos dizem que o tarot não pode ter muito mais do que 500 anos; mas, ao mesmo tempo, é preciso ter olhos para reconhecer o que o tarot tem de “egípcio”, no que ele dialoga com assuntos que habitam o espírito humano há milênios, até mesmo muito antes da primeira pirâmide ser erguida no norte africano. E, para tal análise, vamos precisar da ajuda da psicologia do século XX.

» Na sequência, uma coleção de arquétipos.

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Bibliografia
Para esta série nos valemos de conhecimentos e trechos obtidos nos livros História do Tarô (Isabelle Nadolny; tradução Luciana Soares da Silva; Editora Pensamento), Tarot Hermético (Marcelo Del Debbio e Priscilla Martinelli; Daemon Editora) e O Homem e seus Símbolos (Carl G. Jung e colaboradores; tradução Maria Lúcia Pinho; Harper Collins), no portal Clube do Tarô (por Constantino K. Riemma e outros colaboradores) e nos cursos Os Mistérios do Tarot – Arcanos Maiores e Menores (Marcelo Del Debbio) e Tarot: Os Mitos Modernos e a Cultura Pop (Rodrigo Grola e Marcos Keller).

Crédito das imagens: [topo] Hieronymus Bosch (O Andarilho); [ao longo] Google Image Search (Antoine Court de Gébelin e alguns arcanos do Tarot de Marselha – incluindo O Mundo, à direita).

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13.12.11

Nova Damanhur

Em 1992 a polícia italiana foi deslocada para o sopé do vale Valchiusella, 50Km ao norte de Turim, para investigar um possível crime de evasão fiscal de uma comunidade que ali vivia. Era já a segunda visita, e os policiais suspeitavam de que algo estava sendo construído no subterrâneo, sob o vale. Eles deram um ultimato: “Se não nos levarem até os túneis, vamos dinamitar toda a encosta até encontrar alguma coisa”.

Para os membros da comunidade, não restou outra alternativa que não levar os policiais até uma “porta secreta” num dos lados de uma casa da região... Uma vez aberta, aos polícias incrédulos revelou-se uma sala subterrânea de 8 metros de diâmetro suportada por colunas esculpidas e revestidas com folhas de ouro. As paredes estavam cobertas por pinturas de cores exuberantes; vitrais e uma imensa claraboia central derramavam luz multicolorida por todo o lado. Encontravam-se na Sala da Terra, apenas a primeira de um complexo arquitetônico de nove espaços que compõem Damanhur.

Tudo havia começado ainda na década de 60, quando Oberto Ariaudi, conhecido como Falco (Falcão), ainda criança começou a ter sonhos extremamente realistas de estranhos templos sagrados de civilizações há muito esquecidas, assim como de uma estrutura social bem distinta de nossa sociedade ocidental moderna. Seria apenas mais um dentre tantos casos de crianças que se lembram de vidas passadas (e, eventualmente, esquecem), não fosse pela persistência de Falco em tornar os seus sonhos realidade...

Com uma carreira consolidada de corretor de seguros, e mais 24 amigos e colaboradores que partilhavam de sua visão de uma nova sociedade, Falco fundou Damanhur, que na verdade é o nome de uma cidade do antigo Egito que existe até hoje [1], e começou a cavar... Cavar, cavar, e construir estruturas quase além da imaginação.

Quando foram descobertos, em 1992, pensaram que seria o fim: a primeira ordem das autoridades italianas foi para que tudo fosse parado até segunda ordem, já que se tratava de uma construção ilegal. Falco temeu que mandassem destruir tudo, mas então os governantes da região pensaram duas vezes, e perceberam que aquilo poderia auxiliar em muito a dinamização do turismo regional. Não só permitiram que Damanhur continuasse “de pé”, mas eventualmente foram liberados para continuar a construir mais e mais, para debaixo das montanhas de Valchiusella.

Hoje a Federação de Damanhur é um “experimento social para o futuro da humanidade”, e já conta com mais de mil moradores, dentre milhares de outros colaboradores que não vivem no local. Os Templos da Humanidade, como são chamados, comportam um complexo de templos interligados imenso e magnífico. São 300.000 m3 de salas e galerias de uma arquitetura grandiosa, interligadas em cinco níveis situados 30m abaixo da superfície, e profusamente decoradas com esculturas, pinturas, mosaicos e vitrais narrando à história da humanidade. Acima da terra, a comunidade já conta com sua própria universidade, escolas, mercados orgânicos, fazendas e casas ecológicas ganhadoras de prêmios.

Damanhur também têm sua própria constituição, que é revisada de tempos em tempos (atualmente é usada a de 2007), além de uma peculiar estrutura de “comunidades familiares” de 200 a 220 membros que se dedicam a uma atividade em particular. Tais atividades podem variar de pesquisas filosóficas e práticas espiritualistas até a pesquisa científica por novas soluções ecológicas, como o uso de energia eólica, por exemplo. Toda a estrutura da comunidade é dividida em 4 grandes “escolas”: a Escola de Meditação se fundamenta na tradição ritualística; A Escola Social se foca na realização da sociedade como um todo; O Jogo da Vida trata da parte dinâmica e em constante renovação da vida; Já a Tecnacarto, a mais recente, trata da realização individual e autoconhecimento.

Uma das máximas da constituição damanhuriana diz assim: “Da criação da tradição compartilhada, da cultura compartilhada, da história compartilhada, da ética compartilhada, as pessoas nascem”... E isso não ficou apenas na teoria, hoje Damanhur conta com a terceira geração de pessoas, ou seja: os netos dos primeiros damanhurianos que nasceram já dentro da comunidade, ainda na década de 70.

E pensar que no final do século 19 chegou-se a pensar que a religião e a espiritualidade entrariam em franco declínio, cedendo lugar a nova era da razão... Até mesmo ainda hoje, há muitos que creem que novas religiões não são formadas, e que toda a tradição religiosa remete a doutrinas milenares. De certa forma estão certos, pois uma seita recém criada só adquire o “status” de religião após aproximadamente um século, mas dito isso, o que não falta nessa verdadeira Nova Era são religiões e comunidades autossustentáveis surgindo a torto e a direito, seja aqui no Brasil, seja no Japão, seja nos Alpes italianos [2].

Você pode até achar irracional muitas das crenças de Nova Era, pode até achar confuso como tantas seitas diversas podem ter tantos pontos de crença em comum; Pode, sobretudo, achar absurdo que uma comunidade de mais de um milhar dedique suas vidas inteiras a construção do sonho de uma criança... Mas o que não poderá negar é o próprio assombro no olhar, ao constatar o que o sonho humano é capaz de construir – a Nova Damanhur.

Clique nas imagens abaixo para abrir em tamanho maior:

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Veja também:

» Tour vitual pelos Templos da Humanidade (clique nos Thumbnails ou no Mapa para ir avançando)

» Vídeo da Sala dos Espelhos (Hall of Mirros)

» Trailer do filme Sonhos de Damanhur (Dreams of Damanhur)

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[1] No antigo Egito a cidade era conhecida como Timinhor, "a cidade de Hórus". Na época ptolemaica a cidade era denominada Hermópolis Parva, para à distinguir de Hermópolis Magna, sendo a capital do 7º nomo do Baixo Egito (o nomo do "Arpão Ocidental"). Segundo o mito, o deus Toth seria oriundo deste local. Durante a Idade Média, a cidade tornou-se próspera devido a estar situada entre a rota de caravanas que passava entre o Cairo e Alexandria. Em 1302 foi destruída por um terremoto, mas foi restaurada pelo califa mameluco Barquq no final do século XIV. Segundo o próprio Falco, em uma de suas supostas vidas passadas ele teria vivido na antiga Damanhur. Outra curiosidade é que os Templos da Humanidade foram construídos em um dos locais da região em torno de Turim onde passa uma linha de Ley.

[2] Para um estudo elaborado do presente e futuro da espiritualidade humana, recomendo ler o livro “O futuro de Deus” (Bakas e Buwalda), publicado no país por A Girafa.

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Crédito das imagens: Divulgação (Tour virtual; Damanhur no Facebook; Artigo do Daily Mail)

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19.11.11

Egito perdido, Egito reencontrado

Texto de Rose-Marie e Rainer Hagen em "Egipto: Pessoas – Deuses – Faraós” (Ed. Taschen [Portugal]), tradução de Maria da Graça Crespo – Trechos das pgs. 218 a 221. Os comentários ao final são meus.

O incêndio da biblioteca de Alexandria teria destruído 700.000 documentos referentes à civilização faraônica; aí se encontrava, entre outros, o único exemplar completo da lista dos reis, redigido pelo sacerdote Manétho. Considera-se que esta catástrofe pôs termo ao legado do Antigo Egito, ainda que dela se ignore a data precisa. Em 48 a.C., quando César mandou incendiar os seus arsenais, ter-se-ia propagado o fogo ao célebre templo-biblioteca? Teria sido em 391, quando o imperador romano Teodósis I, querendo impor o cristianismo como religião oficial, mandou saquear os templos pagãos? Segundo uma terceira visão, os manuscritos – ou o que deles restava – foram queimados por ordem do califa Omar.

Talvez que a biblioteca tenha sido por três vezes presa das chamas. Os manuscritos são material tão combustível que não é difícil admiti-lo. Mas nada proíbe considerar também que este incêndio tenha sido mais fictício que real [1]. As gerações seguintes se recusaram a aceitar o fim de uma grande e misteriosa tradição que [...] havia se arrastado através dos séculos.

Com efeito, as ideias religiosas dos Antigos Egípcios estavam em vias de desaparecer, e a expansão agressiva do cristianismo, e depois do Islã, aceleraram este processo. No Antigo Egito, a vida espiritual estava ligada ao templo. Assim que o clero deixou de ser legitimado ou mantido pelos soberanos locais ou pela população, a base material desapareceu.

Os sacerdotes desapareceram e o conhecimento dos hieróglifos e de outras escritas egípcias extinguiram-se com eles [2]. Foi o declínio da religião, e não as chamas, a causa do termo deste universo.

Uma herança misteriosa
Na Itália, particularmente em Roma, o culto de Ísis, originário do Egito, popularizou-se durante muito tempo, e os monumentos egípcios continuaram a fascinar os viajantes. [...] O imperador Augusto, no ano de 10 a.C., mandou que pela primeira vez se transportasse um obelisco para Roma, que hoje se encontra na Piazza de Popolo. Ergue-se em frente a São Pedro, e a cruz que lhe ornamenta o cimo assinala, de longe, que o cristianismo domina todas as outras religiões, ainda que podendo considerar-se outra interpretação, visto que os ensinamentos cristãos se apoiam na sabedoria egípcia: numerosas imagens e histórias bíblicas são provenientes do Nilo [3].

Os Egípcios pensavam que Deus tinha formado o homem com barro, concepção esta que se encontra no Antigo Testamento. O inferno cristão lembra o submundo egípcio, com os perigos e os castigos que espreitam os defuntos, e os faraós subiram ao céu anteriormente a Cristo [4]. O príncipe da Ressurreição era bem conhecido dos Egípcios, graças ao exemplo de Osíris despedaçado, cujos bocados foram reunidos por Isís, a grande Mãe, tal como Maria, venerada pelos católicos. As similaridades na concepção de Deus são notáveis: o Cristo, cordeiro pascal; a pomba do Espírito Santo correspondente à tradição egípcia, segundo o que os deuses se oferecem sob a forma animal. Quanto à Santíssima Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo – toda ela é simples e tipicamente egípcia – as divindades manifestam-se sob diferentes formas, são conteúdo de uma e de outra e reagrupam-se preferencialmente em tríades [5].

Os Egípcios já contavam histórias que nos parecem inseparáveis da Natividade bíblica, como por exemplo a deusa Ísis, que prestes a ser mãe, procura um albergue, e, rejeitada por várias grandes damas, deu à luz ao seu filho no pobre abrigo de uma filha de lameiros. Ou como a de Quéops, que, como Herodes, quis mandar matar três dos seus filhos porque uma predição anunciou que eles se disputariam. No que diz respeito aos símbolos visuais, a cruz copta, a dos cristãos egípcios, é descendente direta da cruz alada, a chave da vida dos Egípcios [6].

Seria possível prosseguir indefinidamente por esta via. Estes exemplos não questionam a essência dos ensinamentos cristãos, mas abalam a concepção da Igreja, segundo a qual os textos bíblicos teriam sido, por assim dizer, ditados por Deus. Os historiadores da região sabem desde há muito que nesses textos se encontra algo do legado egípcio, e sem que os crentes tenham consciência disso, as ideias herdadas da civilização faraônica mantêm-se vivas.

A Terra negra
Os Egípcios também inventaram o calendário, dividindo o dia em 24 horas e o ano em 365 dias. Resolveram alguns problemas matemáticos e redigiram listas de doenças com as respectivas terapias. Os seus conhecimentos foram transmitidos e evoluíram por intermédio dos Gregos e dos Romanos. Mas o seu ideal de equidade e retidão, exemplar no plano da vida social, é pelo menos igualmente importante. Maât simboliza a justiça à qual todos os homens estão sujeitos – particularmente os reis – e ensina que a justiça deve ser exercida independentemente do poder. Na Europa, a deusa continua a existir sob os traços da Justiça. Nas democracias ocidentais a justiça é devida, a par do governo e do parlamento, como a terceira potência independente no centro do Estado.

Os Egípcios mostraram-nos o caminho de uma outra herança do Egito faraônico que é a alquimia que visa entre outros objetivos, fabricar o elixir da imortalidade. Este desejo de imortalidade explica a concepção egípcia da preservação do corpo defunto, que será reanimado pela alma no Além.

Vários símbolos da alquimia são também egípcios: a serpente ouroboros que morde a cauda simboliza a eternidade, e a fênix que renasce das próprias cinzas representa a ressurreição. Alexandria foi considerada o berço da alquimia. Seu pai era o deus Hermes Trimegisto, que se identifica com Toth, deus egípcio da Sabedoria e da Escrita, aquele que guia as almas no submundo. A química, tal como nós a consideramos, desenvolveu-se a partir das experiências e das técnicas dos alquimistas. Aliás, o seu nome evoca a sua origem. Kemet significa em egípcio arcaico, Terra negra; Kemet é lodo negro dos campos do Nilo, e o nome que seus habitantes deram ao Egito [7].

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Comentários
Este livro que faz parte das comemorações de 25 anos da Taschen (1980-2005) foi concebido para ser um belo livro de arte repleto de fotos espetaculares da arte e arquitetura egípcias, mas o estilo do texto dos autores combinado com sua minuciosa pesquisa história, particularmente sobre detalhes da vida cotidiana dos Egípcios (o que bebiam, o que comiam, para quem rezavam, etc.), fez com que acabasse se tornando ao mesmo tempo um surpreendente conjunto de belos textos e imagens.

[1] Independente do legado faraônico ter ou não sido extinto por conta da destruição da grande biblioteca, fato é que sua destruição ocorreu (mesmo que em vários incêndios em separado), e que com ela se perderam grandes escritos não só dos egípcios, como dos gregos – por exemplo, Aristarco de Samos já previa na época que os planetas giravam em torno do Sol, a perda de sua obra atrasou em muito o desenvolvimento da astronomia.

[2] Somente em 1822 o jovem e genial linguista francês Jean-François Champollion decifrou a escrita em hieróglifos a partir de comparação com um mesmo texto em grego, na famosa Pedra de Roseta. Estava então fundada a egiptologia. Segundo alguns reencarnacionistas de renome, Champollion fora ele próprio um sacerdote egípcio em vidas passadas...

[3] Como ficará bem demonstrado no texto que se segue, em realidade as guerras religiosas conseguem que uma igreja seja vitoriosa sobre um território (e isso, obviamente, quase nada tem a ver com religião), mas raramente os mitos antigos são suprimidos, na verdade são incorporados as novas doutrinas dominantes, sem jamais desaparecer por completo. Considerar que o cristianismo se baseia numa doutrina que teoricamente condena o paganismo é de uma ironia monumental...

[4] A grande diferença entre o Hades e o Inferno, é que no primeiro os sofrimentos são proporcionais aos pecados, enquanto que no último ladrões de galinha e assassinos aparentemente sofrem igualmente a mesma punição (algo como queimar eternamente num lago de fogo, sem jamais perecer).

[5] Aqui foram citados Osíris e Ísis, que geram um filho: Hórus. No hinduísmo temos a trindade de Brahma, Vishnu e Shiva. Em mitologias antigas pelo mundo todo veremos diversos agrupamentos parecidos.

[6] É de uma infelicidade tremenda que sejamos obrigados a ver a chave da vida manchada pelo sangue de um grande sábio ainda crucificado nela própria. E mais triste ainda vermos a glorificação dessa imagem de sofrimento.

[7] E eis que mesmo na mitologia sagrada, tanto quanto na alquimia e na química, nada se perde, mas tudo se renova e se transforma.

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Crédito das imagens: [topo] Corbis Art (escultura do deus Osíris); [ao longo] Kenneth Garrett/National Geographic Society/Corbis

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14.10.11

Almas egípcias

Texto de Rose-Marie e Rainer Hagen em "Egipto: Pessoas – Deuses – Faraós” (Ed. Taschen [Portugal]), tradução de Maria da Graça Crespo – Trechos das pgs. 162 a 167. Os comentários ao final são meus.

Eis um defunto dono de sua Bela Casa da Eternidade. O feitio da tumba evoluiu no decurso de três milênios. A tumba escavada na falésia substituiu a pirâmide e a mastaba, mas um sarcófago ficou dissimulado num poço funerário subterrâneo ou no maior segredo possível.

Este lugar oculto é precedido de uma porta aberta, acessível do exterior: a capela, dotada de uma estrela sobre a qual está gravado o nome, ou, eventualmente, a efígie do morto. Aqui encontra-se a mesa de oferendas. Uma porta virtual, imitação em pedra de uma porta verdadeira, liga espiritualmente as duas salas, a de baixo e a do Além. Só o morto a pode transpor para ir buscar as oferendas que lhe são levadas: pão, legumes, aves e carne vermelha nos dias de festa. Ele aprecia particularmente o incenso que satisfaz o seu olfato, e a cerveja ou a água fresca, visto que habita na orla do deserto.

Os seus filhos devem abastecê-lo com regularidade. Muitas vezes o defunto institui, enquanto vivo, uma doação para a Eternidade, e assim os sacerdotes funerários velam pela manutenção do culto, que fornece sustento ao clero do templo, atendendo a que as oferendas são levadas para a sua mesa.

Contudo, a experiência revelou aos Egípcios, sobretudo durante os períodos intermediários de desordem, que nada perdura neste mundo, nem mesmo as doações eternas. A acreditar na magia da imagem e da escrita, e no poder da palavra, eles tomaram o cuidado de representar também as oferendas nas paredes, ou inscrevê-las em hieróglifos.

Assim, seria suficiente pronunciar o nome das dádivas para que o defunto as pudesse apreciar. É a razão desta prece, inscrita sobre muitas peças decorativas: Vós que viveis na terra e que passeis diante desta estrela, indo e vindo, se ameis a vida e detesteis a morte, dizei que há mil pães e mil potes de cerveja.

Passando pela porta fictícia do seu túmulo, o morto pode vir deliciar-se com as dádivas que lhe são oferecidas e manifestar-se de diversas maneiras, visto que a simples dualidade do corpo e do espírito não satisfaz o pensamento egípcio. Para os Egípcios, a personalidade humana é composta de um corpo material associado a vários princípios espirituais.

Tanto quanto possível, a mumificação evita que o corpo se decomponha, mas se ele se altera ou é queimado, os outros elementos a que se religou são destruídos com ele, a não ser que, dentro do túmulo, se tenha posto um corpo de reserva, uma estátua. Não é muito importante que ela se lhe assemelhe, mas é indispensável que indique o respectivo nome, porque este elemento é essencial ao homem, que, sem ele, não tem personalidade nem, consequentemente, qualquer hipótese de sobrevivência.

O que nós entendemos por alma, difere da noção que os Egípcios tinham de vários princípios espirituais: o ka, o ba, e o akh, e ainda a personalidade que comporta também uma sombra, o shouyt.

O ka é a energia vital, o que mantém a vida. É a ele que se destinam as oferendas, atendendo a que lhe é necessária a alimentação. Quando um homem nasce, o seu ka é modelado pelo deus criador Khnum, no seu torno de oleiro, e nunca mais o deixa. Ele é representado por dois braços erguidos.

O ba corresponde mais à ideia que fazemos de alma e pode afastar-se do corpo mas deve voltar para ele. É simbolizado por um pássaro com cabeça humana, firmado nos ramos de um sicômoro, ao lado do túmulo ou voando nos arredores: Tu sobes, tu desces [...]/ Tu deslizas como o teu coração deseja, / Tu sais do teu túmulo todas as manhãs / Tu regressas todas as noites.

O fato de o morto poder deslocar-se, deixando o seu túmulo, também comporta perigos: Um terceiro princípio espiritual denomina-se akh e pode atormentar os vivos como uma espécie de espírito. Um viúvo do Novo Império implora ao espírito Anchiri numa carta que a sua esposa defunta o deixe em paz, senão ele ver-se á obrigado a apresentar queixa junto aos deuses do Ocidente.

Também havia juízes no Além e antes que um defunto fosse ali acolhido, deveria apresentar-se diante dele – na sua totalidade, com todas as suas partes componentes.

O tribunal divino tem sede na Sala da plena Justiça, onde, o submundo e o Além estão em contato, e onde se situa uma grande balança. O coração do morto é colocado sobre um prato na balança sob a vigilância de Anúbis e de Toth, o deus-escriba. (Para os Egípcios, o coração é o centro real da personalidade, o assento da razão, da vontade e da consciência moral). No outro prato encontra-se uma pluma, símbolo de Maât, a ordem divina. Se os dois pratos se equilibram, o defunto está absolvido.

A vida terrena do difunto é, portanto, aqui avaliada segundo o ideal da justiça divina, e muitos raros são aqueles que estão à altura dum tal julgamento que todos receiam, porque, ao lado da balança está presente a Grande Devoradora, um monstro híbrido de crocodilo, pantera e hipopótamo, pronto a devorar o defunto se o seu coração tiver um peso excessivo. Este seria o pior dos castigos imagináveis, o aniquilamento total, a morte absoluta sem esperança de ressurreição. Mas os Egípcios estavam prevenidos e tomaram precauções enquanto viveram.

Entre as pernas de grande número de múmias, envolvidos nas suas faixas de linho, há rolos de papiro que contêm fórmulas e imagens que servem de guia para a viagem no Império dos Mortos. [...] Um certo processo de democratização permitiu, mais tarde, que os funerários e sacerdotes bem sucedidos levassem com eles estas instruções. As informações que auxiliavam o defunto estavam inscritas sobre os caixões, e mais tarde em papiros. O Livro dos Mortos podia comprar-se completamente pronto, bastando acrescentar-lhe o nome do proprietário. Custava tanto como duas vacas, um escravo ou seis meses do que era pago a um operário, do que resultava não ser acessível às classes sociais inferiores.

Este guia para o uso no Além, que teria sido redigido pelo próprio Toth, deus da sabedoria, não se refere apenas aos perigos que espreitam o viajante no outro mundo. Incluía também receitas mágicas para os atenuar, ou seja, cerca de duzentas fórmulas que, pronunciadas no momento exato, afastariam o viajante de um passo em falso.

[...] De fato, o texto é uma conjuração: encantados pelas fórmulas e pelas representações mágicas do papiro, os pratos da balança equilibravam-se e os juízes anunciavam que o defunto está em harmonia com a ordem divina: Está justificado. A Devoradora não terá direito sobre ele.

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Comentários
Este livro que faz parte das comemorações de 25 anos da Taschen (1980-2005) foi concebido para ser um belo livro de arte repleto de fotos espetaculares da arte e arquitetura egípcias, mas o estilo do texto dos autores combinado com sua minuciosa pesquisa história, particularmente sobre detalhes da vida cotidiana dos Egípcios (o que bebiam, o que comiam, para quem rezavam, etc.), fez com que acabasse se tornando ao mesmo tempo um surpreendente conjunto de belos textos e imagens.

Como podemos ver no texto acima, que trata das crenças egípcias ligadas aos seus rituais funerários, muitos dos mitos dessa civilização quase perdida em realidade penetram até hoje no íntimo de nossa sociedade, ou pelo menos da parte que bebeu da cultura egípcia através do que os gregos nos transmitiram dela... Isso demonstra, principalmente, que a espiritualidade humana é mesmo muito, muito antiga, provavelmente tão antiga quanto à primeira comunidade de caçadores-coletores; E todos esses séculos a nos separar no final das contas não nos separam tanto assim.

Para os leigos – mesmo o grande Heródoto tirou conclusões errôneas de sua passagem pelo Egito – a civilização egípcia consistia de uma única cultura que perdurou idêntica durante milênios, em que os homens e mulheres adoravam estranhos seres com cabeça de cachorro ou de águia. Para os iniciados – ou, pelo menos, os realmente curiosos – o Egito é uma concha de retalhos de várias culturas e povos se mesclando através de guerras e períodos de paz, e os deuses nada mais são do que reflexos de nossos questionamentos espirituais mais profundos. E ainda hoje o são, embora com outros nomes, desde heróis de quadrinhos até conceitos algo estranhos como “o gene da fé”.

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Crédito das imagens: [topo] Roger Wood/Corbis (escultura do deus Anúbis); [ao longo] Philip de Bay/Historical Picture Archive/Corbis (o julgamento dos mortos, onde se vê Toth como um babuíno).

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