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28.11.23

Mas o que exatamente eu sou?

René Descartes foi um dos grandes pensadores modernos, tanto que é considerado por alguns como “o fundador da filosofia moderna”, e por outros como “o pai da matemática moderna”. E, de fato, ele foi tão ou mais importante para a ciência e a matemática quanto o foi para a filosofia em si. Entretanto, se formos analisar hoje pelo que Descartes é mais lembrado, será difícil escapar da sua célebre afirmação:

Penso, logo existo.

Tal frase, cuja tradução do latim original – cogito ergo sum – seria melhor definida como “Penso, logo sou”, surgiu em um livro que a princípio era quase que um prefácio para outras obras mais científicas, intitulado Discurso sobre o Método. Nesta obra, escrita em 1637 e publicada originalmente na Holanda, pois nessa época o pensador francês residia por lá, Descartes propõe um modelo quase matemático para conduzir o pensamento humano, uma vez que a matemática tem por característica a certeza, a ausência de dúvidas. De acordo com o próprio autor, parte da inspiração de seu método (descrito nesse tratado) veio de três sonhos ocorridos na noite de 10 para 11 de novembro de 1619: em tais sonhos lhe surgiu “a ideia de um método universal para encontrar a verdade”.

E o método de Descartes entrou para a história, ao ponto de se confundir com as bases do próprio método científico como veio a ser conhecido de lá para cá. Mas o que me interessa discutir aqui é a tal frase, o “penso, logo sou”. Como exatamente ele chegou nela?

Ora, Descartes estava preocupado com a validade das evidências que poderiam comprovar as verdades da nossa existência. Se devemos questionar tudo, por que devemos confiar nas informações que colhemos da natureza, já que tudo passa pela interpretação dos nossos cinco sentidos?

Tudo o que olhamos, cheiramos, escutamos, tocamos ou saboreamos só pode ser analisado pela consciência quando passa pelos nossos ouvidos, olhos, boca, tato e nariz. E, para piorar, essa interpretação é pessoal e intransferível. Como confiar que todas as pessoas perceberiam esses estímulos da mesma forma, permitindo que uma verdade se tornasse válida para todos?

O francês concluiu que nós só temos a capacidade de duvidar dos nossos sentidos (isto é, pensar) porque estamos vivos para receber esses estímulos. Ter a convicção da nossa existência seria a única coisa da qual não podemos duvidar. Eis as suas palavras, traduzidas do original:

“[...] ao analisar com atenção o que eu era, e vendo que podia presumir que não possuía corpo algum e que não havia mundo algum, ou lugar onde eu existisse, mas que nem por isso podia supor que não existia; e que, ao contrário, pelo fato mesmo de eu pensar em duvidar da verdade das outras coisas, resultava com bastante evidência e certeza que eu existia; ao passo que, se somente tivesse parado de pensar, apesar de que tudo o mais que alguma vez imaginara fosse verdadeiro, já não teria razão alguma de acreditar que eu tivesse existido; compreendi, então, que eu era uma substância cuja essência ou natureza consiste apenas no pensar, e que, para ser, não necessita de lugar algum, nem depende de qualquer coisa material. De maneira que esse eu, ou seja, a alma, por causa da qual sou o que sou, é completamente distinta do corpo e, também, que é mais fácil de conhecer do que ele, e, mesmo que este nada fosse, ela não deixaria de ser tudo o que é.

Depois disso, considerei o que é necessário a uma proposição para ser verdadeira e correta; pois, já que encontrara uma que eu sabia ser exatamente assim, pensei que devia saber também em que consiste essa certeza. [Assim, percebi] que nada há no eu penso, logo sou que me dê a certeza de que digo a verdade, salvo que vejo muito claramente que, para pensar, é preciso existir.”

Ou seja, ainda que tudo o que percebemos com os sentidos desde que nos entendemos por gente for algum tipo de ilusão, e ainda que não possamos obter uma certeza derradeira e absoluta sobre basicamente nenhuma verdade, ainda assim não podemos negar que existimos, que estamos aqui pensando sobre a existência. Descartes havia encontrado a única certeza genuína da filosofia, a única que não pode ser questionada. E vejam que, ainda assim, o fato de existirmos não significa que tenhamos sequer a certeza sobre a nossa própria vontade, ou liberdade de agir; porém, fato é que algo existe, e não nada.

Agora, me desculpem, mas nesse momento não posso deixar de sorrir ante tamanha ironia, isto é: que um dos tratados que servem de alicerce para o próprio método científico, que um dos pilares da racionalidade moderna seja mais lembrado justamente por sua afirmação mais mística, mais espiritual, ainda que a imensa maioria dos que esbarraram nela não tenha percebido sua profundidade abissal.

Sim, pois muitos se comportam diante dela como aqueles que estavam se preparando para a sua primeira aula de mergulho na praia mas, ao ver a placa informando “Perigo, correnteza forte”, preferiram se abster de mergulhar. Tivessem mergulhado, a primeira coisa que teriam de se deparar era com a continuação até mesmo óbvia da preposição de Descartes:

Penso, logo sou. Mas o que exatamente eu sou?

Então cairiam de cabeça no misticismo, ou seja, na tentativa de conceber a verdadeira natureza do que existe, do que é. E poderia falar aqui de Parmênides, dos estoicos, de Plotino ou Benedito Espinosa, mas será mais fácil se deixarmos a filosofia de lado e recorrermos à poesia, mais precisamente a poesia de Jalal ud-Din Rumi, um poeta sufi (o misticismo do Islam) que viveu no século XIII. Eis o que ele soube nos dizer sobre o tema:

Na verdade nós somos uma só alma, eu e você. Nos mostramos e escondemos, você em mim, eu em você.

Eis o sentido profundo da nossa relação: é que entre você e eu não existe nem eu nem você.

Os poemas de Rumi eram um eterno diálogo entre ele e Allah, ou Deus. Mas a ideia principal, a que permeia toda a sua obra, e também a de todo místico genuíno, é justamente esta: “entre eu e você, não existe nem eu nem você”. O que existe é o que é, sempre foi e será, justamente porque existe, porque não é nada. Mas isto não se entende com palavras.

Afinal, se fosse necessário pensar através de alguma espécie de linguagem, por mais rudimentar que fosse, então não existiríamos enquanto recém-nascidos, e só passaríamos a existir a partir de dado momento desta vida. Ocorre que mesmo tal ideia é absurda nesse contexto: “passar a existir”. Não faz o menor sentido. Mas isto também não se entende com palavras.

E, mesmo no ápice de sua racionalidade, o próprio Descartes intuiu a mesma coisa, embora talvez não tenha conseguido se expressar através de um conceito cristão. Pois o pensador francês ainda defende a existência de Deus poucas páginas após o trecho que eu trouxe acima. E, para tal, ele se vale de uma lógica que muitos consideram até mesmo infantil: ele afirmou basicamente que o fato de concebermos a ideia da perfeição e do infinito, mesmo sendo imperfeitos e finitos, era a prova da existência de Deus.

Faltou a Descartes justamente ir um pouco além, e mergulhar nos mares abissais do Grande Mistério. Nós não “concebemos” Deus, nós somos Deus. Nós somos o que existe.

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Crédito das imagens: [topo] Corbis (Descartes); [ao longo] Cristofer Maximilian/unsplash.

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22.6.23

Lançamento: Artemagia

O Projeto Ars Magica chegou ao fim, e o seu título final é Artemagia: uma reflexão sobre o Caminho.

Em Artemagia, Rafael Arrais se vale da sua escrita poética e hipnotizante para nos trazer preciosas e profundas reflexões acerca do Caminho, o caminho espiritual, e tudo o que ele abarca: a Arte, a magia, a religião, a filosofia, a ciência, a espiritualidade, a chamada Verdadeira Vontade, o contato com anjos e demônios, as vias da mão direita e esquerda, o tarot etc. Se souber ler com o coração, você também será mudado para sempre por este livro.

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» Leia alguns trechos da obra


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16.1.23

Lançamento: Ad infinitum, edição comemorativa de 10 anos

Quatro personagens. Um diálogo sobre o Uno: o infinito da existência, o universo, a evolução das espécies na Terra, religião, ciência, filosofia, fé e ceticismo. Saiu a edição comemorativa de 10 anos do lançamento da obra filosófica mais relevante de Rafael Arrais.

Um e-book já disponível para o Amazon Kindle, e também na versão impressa:

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» Conheça a simbologia do Ouroboros e da Árvore da Vida (capa do livro)

» Veja o release de lançamento original


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6.9.22

A origem do universo, com o Boteco Mayhem

Por que a noite é escura? Para responder a esta pergunta, eu e os outros participantes do Bate-papo Mayhem fizemos uma jornada até o início de tudo, num episódio cheio de ciência, mitologia e espiritualidade. Assista abaixo:

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15.3.22

Seria o Caibalion uma invenção moderna?

Neste vídeo vamos analisar se o "Caibalion" é uma obra que traz de fato conhecimentos da Antiguidade, ou se trata-se simplesmente de uma releitura moderna do hermetismo. Também abordaremos a história do hermetismo e tentaremos desvendar quem seriam, afinal, os Três Iniciados, os supostos autores do "Caibalion". Assista abaixo:

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9.3.22

O Caibalion é uma fraude?

Eu já não lembro mais o que exatamente me levou a adquirir o exemplar antigo do Caibalion que tenho na minha estante, mas certamente não foi pela beleza da capa, que é somente um símbolo semelhante a um meio círculo por cima de um fundo verde chapado. Poderia ser o título em si, mas duvido que soubesse do que se tratava “O Caibalion”. Quiçá fosse pelo “Três Iniciados” logo acima dele, mas acho que não: visualizando ela agora, posso apostar que foi pelo outro texto abaixo do título:

Estudo da filosofia hermética do antigo Egito e da Grécia

Até então eu nunca tinha lido nada de relevante sobre o antigo Egito, mas talvez as palavras “filosofia” e “Grécia” tenham me levado a um interesse maior, pois naquela época eu certamente já havia lido Platão. Em todo caso, uma vez que se pega o Caibalion numa estante de livraria e começa a folhear, fica difícil não ser seduzido – ao menos se você, como eu, se interessa por espiritualidade e mitologia. Também ajudou, é claro, o fato da edição da editora Pensamento ser bem em conta na época.

Isso possivelmente se passou no final do século passado, e de lá para cá eu não somente reli o Caibalion algumas vezes, como cheguei eu mesmo a traduzi-lo do inglês original. E, se eu sempre soube que era uma obra de autoria anônima, com o tempo alguns outros “mitos” em torno dela foram caindo: ela não foi escrita na Antiguidade, mas em 1908; seus autores, portanto, não eram sábios milenares, mas espiritualistas anônimos (ou nem tão anônimos, como veremos a seguir); e, finalmente, até mesmo os famosos “Sete Princípios Herméticos” não necessariamente advinham todos de textos herméticos mais antigos. Assim, uma dúvida desconfortável passou a transitar em minha mente:

O Caibalion é uma fraude?

Antes de respondermos a tal pergunta, é preciso considerar que atribuir antiguidade a uma doutrina ou filosofia, particularmente as que se conectam com o campo da religião, é uma prática muito comum na história da humanidade. Se formos nos ater estritamente à pesquisa acadêmica, o próprio hermetismo não é algo tão antigo quando se imagina, ao menos não antigo ao ponto de ter se originado no antigo Egito.

Segundo Mircea Eliade, um dos grandes estudiosos do campo em questão no século XX, “sob a denominação de hermetismo compreendemos a totalidade das crenças, ideias e práticas transmitidas na literatura hermética”. Depois, ele prossegue [1]:

“Trata-se de uma coletânea de textos de desigual valor, redigidos entre o século III a.C. e o século III d.C. Distinguem-se duas categorias: os escritos pertencentes ao hermetismo popular (astrologia, magia, ciências ocultas, alquimia) e a literatura hermética erudita, em primeiro lugar os 17 tratados, em grego, do Corpus Hermeticum.”

Eliade situa o hermetismo popular como algo mais antigo do que os tratados herméticos, que vieram a se tornar definitivamente populares somente no século II d.C. Ele também dá destaque a trajetória conturbada do hermetismo ao longo dos séculos:

“A transmissão do hermetismo constitui um capítulo apaixonante na história do esoterismo: efetuou-se através das literaturas siríaca e árabe, e sobretudo graças aos sabeus de Harran, na Mesopotâmia, que sobreviveram no Islã até o século XI. [...] No entanto, o verdadeiro “renascimento” do hermetismo na Europa ocidental teve início com a tradução do Corpus Hermeticum, empreendida por Marsílio Ficino por solicitação de Cosme de Médicis, e concluída em 1463.”

Assim, chegamos a duas datas importantes acerca do hermetismo: século II d.C., quando surgiu o Corpus Hermeticum no mundo grego, e 1464, quando ele foi redescoberto na Europa latinizada. Mas, e o Caibalion?

O Caibalion foi publicado pela primeira vez em 1908 na língua inglesa pela Yogi Society, ligada a um templo maçônico de Chicago, nos EUA. A obra é anônima, assinada somente pelo codinome ou pseudônimo “Três Iniciados”. No entanto, existem indícios de que o livro esteja ligado ao Movimento Novo Pensamento, que surgiu nos Estados Unidos no final do século XIX. Esse movimento era formado por filósofos, espiritualistas, escritores e pessoas que compartilhavam crenças e participavam de estudos metafísicos associados a temas diversos da espiritualidade e da parapsicologia.

Das diversas teorias ligadas à autoria do Caibalion a mais aceita é a de que o livro foi escrito pelo espiritualista americano William Walker Atksinson (mais conhecido como Yogi Ramacharaka, e também popular por usar diversos pseudônimos em suas obras) em parceria com outros estudiosos, como o maçom Paul Foster Case ou a teosofista Mabel Collins. Por exemplo, na própria introdução do Caibalion há uma citação em destaque do trecho de um poema de Edward Carpenter, e esse mesmo trecho aparece em um dos livros (oficiais) de Atkinson. Em todo caso, a verdade é que nunca saberemos ao certo quantos foram os colaboradores da obra, e quais os seus nomes, principalmente porque, sejam quem forem, simplesmente optaram pelo anonimato.

Ora, era isso que eu pensava até pouco tempo atrás: que os autores do Caibalion optaram pelo anonimato para exaltar a obra em si, e não para aumentar sua “aura de mistério”. Afinal de contas, se é óbvio que o Caibalion se trata de um extenso comentário acerca de alguns poucos trechos de obras herméticas mais antigas, fato é que ele traz alguns princípios muito conhecidos do hermetismo, como o famoso Princípio da Correspondência: “O que está em cima é como o que está embaixo; o que está embaixo é como o que está em cima”. E, se ele traz pelo menos um princípio que sabemos ser de fato antigo, ou pelo menos do século II d.C., é claro que os demais também são, certo?

Mais ou menos. Pois se isso fosse inteiramente verdade, teríamos de explicar como diabos algum sábio, ou grupo de sábios, chegou à conclusão que “Nada está parado; tudo se move; tudo vibra” (o Princípio da Vibração) muito antes do advento do microscópio ou da física de partículas!

Mesmo Demócrito, quando observou pequenas partículas de poeira dançando na brisa matinal em um faixo de luz solar, jamais chegou a afirmar que tudo, absolutamente tudo, vibra. Pois ele não tinha um microscópio para dizer que até mesmo um átomo, então pura construção teórica, vibra e nunca está parado. Isso só foi descoberto muito, muito tempo depois. Em 1908, quando o Caibalion foi publicado, era uma ideia da vanguarda científica.

Por muito tempo essa questão me inquietou, e por muito tempo eu considerei que ela era talvez a maior prova de que os sábios herméticos tinham de fato alcançado um conhecimento da natureza inexplicável em sua época. Talvez tivessem aprendido a alcançar estados alterados de consciência que lhes permitisse observar as menores partículas em vibração, e daí tivessem intuído que tudo, absolutamente tudo vibra, até mesmo o que parece estar parado e imóvel: uma pedra, um galho seco, a sua mão, uma igreja, uma ponte de concreto, até mesmo um continente inteiro. E, se de fato sabemos disso com certeza há cerca de 150 anos, tal conhecimento era inacessível aos sábios herméticos de outrora.

Tal questão foi resolvida recentemente, quando vi o depoimento de um amigo que já frequentou incontáveis ordens iniciáticas, desde as discretas as invisíveis, e garantiu que o chamado Princípio da Vibração foi uma invenção dos autores do Caibalion, que simplesmente nunca existiu nem no Corpus Hermeticum nem em qualquer outro texto ou tratado hermético. De fato, hoje não tenho razão alguma para duvidar dele, e sim da intenção real dos autores do Caibalion. Mas, afinal, o Caibalion é uma fraude?

Mais ou menos. É inegável que o Caibalion foi extremamente bem sucedido no que seus autores se propunham: tornar a divulgação do hermetismo algo mais simples, mais acessível ao público leigo e aos curiosos em geral. Afinal, quantos de nós não demos nossos primeiros passos no hermetismo, e até mesmo nas ciências ocultas em geral, graças ao Caibalion?

Dito isso, o fato de os autores do Caibalion terem se valido justamente de mistificações para auxiliar na divulgação de um conteúdo místico não deve ser ignorado por nenhum estudioso sério do hermetismo. Assim, podemos muito bem agradecer aos “Três Iniciados” por nos fazerem chegar ao Corpus Hermeticum e obras similares, mas jamais endeusá-los nem considerar tudo o que disseram, principalmente os seus “Sete Princípios Herméticos”, como alguma espécie de verdade absoluta. Assim somos obrigados a continuar pensando por nós mesmos, a prosseguir tateando no escuro da história oculta, sem usar atalhos perigosos para alcançar algum mítico “conhecimento superior”. Este sim seria o grande pecado do hermetista moderno.

***

[1] Trechos retirados de História das crenças e ideias religiosas, volume II, XXVI, 209. Tradução de Roberto Cortes de Lacerda.

Crédito das imagens: [topo] Editora Pensamento (capa do Caibalion – edição de capa verde); [ao longo] Gravura de autoria anônima, vista primeiramente (em preto e branco) em um livro de Camille Flammarion intitulado L’atmosphère: météorologie populaire (1888).

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26.3.20

O Apocalipse do COVID-19 (parte 1)

Em geral costuma valer a pena buscar a origem etimológica das palavras quando nos propomos a refletir sobre seu significado. “Apocalipse”, por exemplo, vem do grego apokálypsis e significa literalmente “revelação”. Apesar do livro bíblico supostamente trazer a revelação do fim dos tempos, esta é também somente uma interpretação: o fim de um tempo pode, afinal, apenas significar a transição repentina para um novo tempo.

No entanto, se tem uma coisa que não foi repentina foi o surto do chamado Novo Coronavírus, o COVID-19. Aliás, hoje boa parte do planeta se encontra em quarentena por conta dele, e na origem do próprio termo “quarentena” nós já podemos verificar que certamente já passamos por várias crises como esta, e em situações tecnológicas e sanitárias bem mais calamitosas.

A origem da palavra vem da língua veneta (antigo dialeto italiano), e se referia originalmente ao período de quarenta dias em que todos os barcos deveriam ser isolados antes que passageiros e tripulantes pudessem desembarcar numa cidade costeira. Era a época da peste negra, que no século XIV matou cerca de um terço da população europeia.

Ora, é óbvio que o Coronavírus não é uma nova peste negra, mas mesmo assim ele pode ser bem mais perigoso do que se julgou a primeira vista. Para explicar melhor o seu real perigo, é preciso falar de ciência:

A ciência e o Coronavírus
Existem muitos coronavírus diferentes. A maioria deles causa doença em animais. No entanto, sete tipos de coronavírus são conhecidos por causar doença em seres humanos. Quatro dessas sete infecções por coronavírus em humanos envolvem doença do trato respiratório superior leve, que causa os mesmos sintomas do resfriado comum. No entanto, três das sete infecções por coronavírus em humanos podem ser muito mais graves, e recentemente causaram grandes surtos de pneumonia mortal.

A primeira, assim como o COVID-19, também surgiu na China, em 2002, e o seu nome era SARS (ou Síndrome Respiratória Aguda Grave). Houve um surto mundial que resultou em mais de oito mil casos no mundo todo, e um total de 811 mortes. Nenhum caso foi relatado no mundo desde 2004, e hoje se considera que a SARS foi totalmente erradicada (a doença, mas não o vírus). Presume-se que a fonte imediata de transmissão do vírus para os humanos tenham sido as civetas, mamíferos semelhantes a gatos, que estavam sendo vendidas em mercados de animais vivos (wet markets) como alimentos exóticos. Como as civetas foram infectadas não está claro, embora os biólogos presumam que os morcegos sejam o hospedeiro reservatório do vírus SARS na natureza.

A segunda ficou conhecida como MERS (ou Síndrome Respiratória do Oriente Médio) e teve origem no Oriente Médio, em 2012. Ainda não foi inteiramente erradicada, mas hoje novos casos são bem raros. Ela ceifou cerca de 790 vidas em todo o mundo, e os biólogos presumem que seu hospedeiro na natureza seja o dromedário.

A terceira, no entanto, é um caso totalmente a parte. Surgida no final de 2019, em meados de Fevereiro do ano seguinte ela já havia matado mais do que as duas anteriores. Em Março de 2020 o COVID-19, ou Novo Coronavírus, já estava matando diariamente em países como Itália e Espanha mais do que a MERS e a SARS mataram até hoje em todo o mundo. No entanto, sua taxa de letalidade é consideravelmente inferior as anteriores, girando em torno de 3% a 4%. Então, como diabos esse vírus pegou o mundo desprevenido? Em boa medida, porque o mundo não o levou tão a sério, até que fosse tarde demais.

Como a China havia concentrado a grande maioria dos casos e dos óbitos do SARS quase 20 anos antes, a princípio muitos governos imaginaram que o mesmo ocorreria com o COVID-19. Além disso, cerca de 80% dos que pegam o vírus apresentam no máximo os mesmos sintomas de uma gripe comum, e estima-se que tais pacientes assintomáticos foram responsáveis por dois em cada três casos de contágio. Para piorar a situação, ao contrário de doenças mais graves que debilitam o paciente em poucas horas ou dias, o COVID-19 tem um tempo de incubação médio de 5 dias, podendo chegar até mesmo a 14 dias. Nesse período quase todos estão sem sintoma algum e, no entanto, já podem transmitir o vírus aos demais. Somente 20% dos casos, em média, requerem tratamento em leito hospitalar, sendo que só 5% chegam a necessitar de internação em UTI. Assim sendo, de cada pessoa infectada que sente sintomas graves o suficiente para buscar um hospital, quatro outras estarão com sintomas de uma gripe comum, ou inteiramente assintomáticas – a maioria, portanto, nem vai perceber que pegou o vírus.

Quando ouvi dizer que somente cerca de 3,5% das pessoas infectadas estavam morrendo de COVID-19, eu mesmo achava que o Brasil deveria estar se preocupando mais com o surto da Dengue, para dar um exemplo prático. No entanto, eu estava redondamente enganado, assim como muitos dos que, por pura ignorância, subestimaram o novo vírus.

Ora, ocorre que, devido ao seu longo tempo de incubação e a possibilidade de ser transmitido mesmo por pessoas sem sintoma algum, a capacidade do COVID-19 de se espalhar rapidamente pelo planeta, de forma exponencial, é o que o torna um desafio sem precedentes para os sistemas de saúde pública da era moderna. A grande questão é que, ainda que somente 20% dos infectados necessite de tratamento hospitalar, quando o vírus atinge um novo país, alcançando uma nova população que nunca entrou em contato com ele, o COVID-19 pode potencialmente se espalhar de maneira tão rápida que serão dezenas de milhares de contagiados a bater as portas dos hospitais ao mesmo tempo, e isso nem a China nem qualquer outro país do mundo teria condições de suportar sem que o seu sistema de saúde entrasse em colapso.

É exatamente o que ocorreu no norte da Itália, e ligou o sinal de alerta vermelho em todo o mundo. Enquanto a China, uma ditadura comunista, não teve grandes dificuldades em manter uma quarentena forçada em Wuhan, mantendo quase 11 milhões de pessoas (quase uma São Paulo) presas em casa, a Itália teve idas e vindas em sua própria quarentena, o que comprometeu seriamente a sua eficácia.

Moral da história: o COVID-19 está longe de ser o vírus mais letal do mundo, e de fato a maioria dos infectados não sofrerá grandes consequências. Mas é exatamente por isso que ele é um problema tão grave para os sistemas de saúde no mundo, principalmente em suas ondas iniciais de contágio. É por isso que em Março de 2020 boa parte do Ocidente fechou as portas, mantendo toda a sua população em quarentena. Na Índia, por sinal, tivemos o início da maior quarentena da história humana, com mais de um bilhão de pessoas restritas aos seus devidos lares.

Isso deve causar uma crise econômica global que vai entrar para os anais da história. Mas é melhor que os livros de história no futuro falem de uma época onde houve um súbito pico de desemprego e falências de empresas [1] do que de um tempo onde caixões se amontoavam nas ruas, e precisavam ser buscados por caminhões do exército.

» Na sequência, no que a Filosofia pode nos ajudar nessa crise.

***

[1] Como o tema é particularmente polêmico, cabe uma explicação mais "direto ao ponto": é óbvio que ninguém deseja causar uma crise econômica desnecessariamente, mas hoje já sabemos que se não for feita uma quarentena abrangente, como a chinesa, corremos o risco de estender a própria crise econômica por ainda mais tempo, como ocorre na Itália. Dito isso, é preciso bom senso para decidir com a devida cautela o que é ou não um serviço essencial, que não deveria ser afetado pela quarentena. No Brasil, por exemplo, penso que postos de estrada são essenciais para que nossos caminhoneiros continuem abastecendo os supermercados e farmácias país afora sem morrerem de fome no caminho; já quanto aos templos e igrejas, não faz o menor sentido que fiquem abertos.

Crédito das imagens: [topo] Adli Wahid/unsplash (na China, cartazes em homenagem ao Dr. Li Wenliang, o primeiro a alertar as autoridades acerca da gravidade do vírus, e que infelizmente morreu infectado); [ao longo] Vaticano (o Papa Francisco abençoa o Vaticano esvaziado em plena quarentena).

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6.11.19

Indicações de livros

Quando comecei este blog, há mais de uma década, jamais imaginei que ele poderia durar tanto, e que eu pudesse escrever tanto nele. Nesses anos todos os leitores assíduos, assim como os ocasionais, puderam ver como o meu caminho através da espiritualidade, da filosofia e da ciência foi se tornando mais e mais aprofundado. Isso, obviamente, não caiu do céu.

Não me entendam mal: como poeta, eu sei muito bem do valor da intuição e das ideias voadoras que volta e meia são capturadas em sua rede. Para isto, de fato, os livros não ajudam tanto. Mas, para todo o resto, os livros são o que há de mais precioso no auxílio do nosso caminho. Por isso eu resolvi, finalmente, trazer a vocês uma lista extensa e definitiva dos livros, sejam físicos ou digitais, que formam os alicerces do Textos para Reflexão.

Todas as listas se encontram hospedadas no site da Amazon. De lá vocês podem comprar e-books e ler através do app gratuito Kindle, ou comprar os livros impressos – muitos deles com frete grátis para quem tem o Amazon Prime (que pode ser assinado gratuitamente por 30 dias).

Mas não para por aí: se vocês comprarem qualquer um deles através dos links desta página (e somente dos links desta página), eu receberei uma parte da sua compra, e isso ajudará muito o blog, o canal e as Edições Textos para Reflexão.

Assim sendo, aqui vão os links para as listas com as minhas indicações de livros, tarots e e-books, separadas em categorias específicas para facilitar a navegação:

» Filosofia
De Platão a Byung-Chul Han, os livros de filosofia e da história da filosofia que foram essenciais em meu caminho.

» Literatura
De Tolkien a Alan Moore, as histórias e os quadrinhos que foram essenciais em meu caminho.

» Poesia
De Safo a Gibran, os poemas que foram essenciais em meu caminho.

» Espiritualidade, Mitologia e Magia
De Lao Tse a Joseph Campbell, os livros sagrados, ou nem tão sagrados, que foram essenciais em meu caminho.

» Baralhos de Tarot
Os melhores decks de tarot disponíveis.

» Ciência
De Darwin a Carl Sagan, os livros de ciência e divulgação científica que foram essenciais em meu caminho.

» Economia, História e Política
De Huizinga a Yuval Harari, os livros que me ajudaram a entender nossa história, e foram igualmente essenciais em meu caminho.

***

Obs (1).: Vale lembrar que eu receberei uma parcela de qualquer compra que fizerem na Amazon se vocês a acessarem usando qualquer um dos links desta página, mesmo que seja um smartphone, uma camiseta ou um produto de limpeza :)

Obs (2).: Se preferirem, podem deixar esta URL salva nos seus favoritos para acessarem mais tarde, sempre que forem fazer uma nova compra na Amazon (ela contém os mesmos links acima):

raph.com.br/tpr/amazon


Boa Leitura e Bom Caminho!
raph


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24.9.19

Do que é formado o espírito?

Neste vídeo contaremos com a ajuda de Allan Kardec para tentar responder se os espíritos são, afinal, materiais ou imateriais. Também adentraremos em conceitos da filosofia e da ciência para tentar compreender melhor a resposta desta questão.

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17.12.18

O hermetismo e a ciência moderna (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo veremos como as ideias de um deus ou homem ou grupo de sacerdotes da Antiguidade grega (ou egípcia) anteciparam em milênios descobertas científicas que só foram possíveis na chamada era da ciência moderna. Teria Hermes Trismegisto sido o primeiro cientista da história? Ao final, trago mais informações sobre a minha tradução do "Caibalion", o grande livro introdutório ao hermetismo.

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10.12.18

A Ilha do Conhecimento (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo falaremos sobre uma metáfora que, embora diga mais respeito a ciência, também pode ser aplicada a outras áreas do conhecimento humano, como a filosofia e até mesmo a religião: se cada vez que expandimos o nosso horizonte de conhecimento a nossa margem com o Oceano do Desconhecido aumenta, será que algum dia poderemos chegar ao ponto de "conhecer tudo"? Haveria uma teoria final unificada para a Natureza? Também veremos como a própria perfeição (ou nossa perfeita compreensão dela) pode muito bem ser mais um sonho inalcançável.

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2.10.18

Dawkins e o Capacete de Deus (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo vamos tentar entender o que diabos é o "capacete de deus", e porque um experimento científico pode ser arruinado pelas próprias expectativas dos cientistas em relação ao seu resultado. Teria o célebre ateu, Richard Dawkins, encontrado a Deus em um capacete que irradia ondas eletromagnéticas? Seriam as experiências místicas e religiosas tão somente "devaneios" do cérebro? Faz sentido a existência de uma "neuroteologia" na Academia?

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10.9.18

Princípio Antrópico: uma coincidência cósmica? (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo vamos entender o que diabos é Princípio Antrópico, e talvez cheguemos a conclusão de que ganhamos na loteria da vida todo santo dia, ou não. Até chegar lá, precisaremos explicar a teoria do Big Bang, as tretas entre defensores de uma visão de universo estático e eterno, e os que sempre defenderam os mitos de Criação. Pode uma árvore ser árvore sem nunca ter sido semente? Podem as leis da natureza evoluírem com o tempo? Se você ama a ciência, vai ficar arrepiado (em todos os sentidos)!

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27.7.18

Hermes, o Adivinho?

Alguns dizem que ele viveu na região de Ninus, no Egito antigo, nalgum ponto do tempo entre 2.500 a.C. e 1.500 a.C. Dizem que era legislador e filósofo, e teria escrito 36 livros sobre teologia e filosofia (que naquela época não eram tão separadas) e 6 sobre medicina, todos eles perdidos ao longo das invasões e saques e mudanças de impérios regionais. Alguns o confundem com deuses, uns o chamaram de Toth, mas ficou mais conhecido como Hermes. Hermes Trimegisto (ou Trismegisto, quem se importa), o Três Vezes Grande, fonte primária do que se convencionou chamar hermetismo.

Segundo Mircea Eliade em História das crenças e das ideias religiosas (vol. II), o hermetismo teria florescido entre os séculos III a.C. e III d.C. no mundo helênico e romano, primeiramente através da própria cultura popular e depois como filosofia profunda, onde ele situa a obra mais importante, o Corpus Hermeticum, escrito em grego. Eliade vê no hermetismo um imenso sincretismo de filosofias espirituais judaicas, egípcias, iranianas e até mesmo platônicas. É muito difícil, portanto, cravar que Hermes foi somente um homem, ou um deus, ou um grupo de sacerdotes escritores, ou que viveu somente no Egito etc. O que nos importa aqui são os famosos 7 Princípios Herméticos: teria Hermes, seja ele quem for, adivinhado em boa medida os avanços da ciência e do conhecimento modernos milênios atrás? Veremos...

I. “O Todo é Mente; o Universo é Mental.”
Se é verdade que não encontramos teorias científicas de muito destaque que associem o universo diretamente a uma mente, seria apressado afirmar que Hermes chutou em falso logo em seu primeiro princípio. Ocorre que a própria lógica da demonstração deste axioma nos remete ao próprio momento da Criação, e de como “uma substância não pode gerar a si mesma” (como resumiu Benedito Espinosa em sua Ética, muitos séculos depois): ou seja, para algo surgir sem depender de outro algo já existente, há que se ter uma criação mental.

Como já disse Carl Sagan em Cosmos, “se você quiser fazer uma torta de maçã a partir do zero, você deve primeiro inventar o universo”. É que a única forma de fazer tal torta sem depender da pré-existência dos seus ingredientes é imaginá-los, da mesma forma que imaginamos uma cadeira de madeira sem depender da pré-existência da madeira. Assim sendo, compreender o universo inteiro como uma criação mental nos leva necessariamente ao fato de ele ter tido um início no tempo.

Ora, o próprio termo “Big Bang” foi primeiramente cunhado de forma pejorativa pelo astrônomo inglês Fred Hoyle, que como quase todos os cientistas de sua época, defendiam que o universo provavelmente “esteve sempre lá”, mais ou menos do mesmo tamanho, e que não poderia, de forma alguma, estar se expandindo indefinidamente desde algum ponto no tempo onde seu diâmetro cabia na cabeça de um alfinete. Não ajudava, decerto, o fato da própria teoria do Big Bang haver sido proposta por um padre jesuíta belga, Georges Lamaître, que também calhava de se interessar por astronomia e cosmologia. Tudo aquilo parecia bíblico demais, mas no final das contas se comprovou realidade, e toda a astronomia moderna eventualmente se curvou aos fatos.

A diferença é que Hermes não disse que “no princípio Deus criou o céu e a terra”. Ele disse algo distinto: o Todo é o céu e a terra, o Todo é a imaginação divina. O Todo não criou o mundo e depois foi descansar, mas imaginou tudo que há a partir de si mesmo. O Todo simplesmente é.

II. “Assim acima como abaixo; assim abaixo como acima.”
Mais ou menos quando o hermetismo surgiu no mundo grego, já era válida a chamada “física aristotélica”, baseada nas ideias de Aristóteles sobre o Cosmos. Ela foi inicialmente tão respeitada que era quase intocável, mas eventualmente sofreu críticas e, somente muitos séculos depois, com o advento do telescópio e da ciência moderna, foi derrubada em definitivo.

Ora, há pelos menos dois princípios fundamentais da física aristotélica que batem de frente com o segundo axioma de Hermes. Segundo Aristóteles, objetos muito acima da superfície da Terra não são constituídos por matéria originalmente terrestre, comum, mas pelo chamado Éter ou Quintessência. Ele também defendia que o Sol e os planetas são esferas perfeitas que não se alteram. Bem, isso basicamente queria dizer que o Céu, ou tudo que havia para além da Terra, não seguia as mesmas leis físicas, tampouco era constituído da mesma matéria básica. Não foi isso que arriscou Hermes, seu princípio diz claramente que as mesmas leis que valem acima, no Céu, devem valer abaixo, na Terra; muito embora elas possam variar em grau, tal variação jamais será absoluta.

Hoje sabemos que somos formados pela poeira de estrelas, que os elementos pesados de nosso corpo foram todos forjados no núcleo estelar, e que nossa matéria é prima de toda a matéria do universo, seja em que ponto estiver no espaço e no tempo... Hermes não precisou de telescópio para acertar mais um chute. Um sujeito muito sortudo, eu diria!

III. “Nada se encontra parado; tudo se movimenta; tudo vibra.”
Quando Hermes elaborou tal axioma, o máximo que se podia observar do mundo atômico era o que se conseguia enxergar com olhos nus. Demócrito fala em átomos indivisíveis, e dizem que tal ideia veio da observação de poeira flutuando pelos raios de sol de alguma tardinha. Tudo bem, o filósofo grego não estava longe da verdade, mas como, como diabos Hermes pode ter tomado conhecimento de que tudo o que há de fato está em constante vibração, e jamais parado?

As ideias de Demócrito só vieram a ser revistas em meados do século XIX, sendo que a física de partículas e a mecânica quântica só surgiram para valer na ciência moderna no século passado. Hoje sabemos que no mundo atômico e subatômico, as partículas não somente estão vibrando incessantemente, como sequer podem ser medidas com grau completo de certeza quanto a sua posição e movimento: segundo o princípio da incerteza na física quântica, ou sabemos de uma informação, ou de outra.

Em seu estado mais fundamental, os elementos que constituem o Cosmos estão não somente em vibração eterna, como se movimentam de forma tão elusiva que sua posição no espaço é antes uma probabilidade do que uma certeza. Como já disse uma vez um físico muito simpático, “se você acha que entendeu alguma coisa sobre mecânica quântica, então é porque você não entendeu nada”.

No entanto, há milênios atrás, sem microscópio algum, o lazarento do Hermes acertava na mosca mais uma vez. O que será que ele fumava?

IV. “Tudo é Dual; tudo tem polos; tudo tem o seu par de opostos; igual e desigual são o mesmo; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau; os extremos se encontram; todas as verdades são nada mais que meias-verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados.”
Embora tenhamos chegado num dos axiomas que tratam mais de conceitos metafísicos do que físicos, é inegável que Hermes já falava em polaridade desde o mundo antigo.

Todo mundo que já teve de trocar as pilhas do seu controle remoto já viu que há em cada uma delas um polo positivo [+] e um negativo [-]. Tal conceito fundamental do eletromagnetismo é também um fruto dos avanços da ciência moderna. Assim, ainda que para nossa ciência atual não esteja tão claro que absolutamente tudo na natureza tenha dois polos, pelo menos nesse aspecto (eletromagnético) Hermes acertou, mais uma vez.

V. “Tudo flui, para fora e para dentro; tudo tem suas marés; tudo sobe e cai; a oscilação pendular se manifesta em tudo; a medida da oscilação à direita é a medida da oscilação à esquerda; o ritmo é a compensação.”
Novamente um axioma mais metafísico do que propriamente científico. No entanto, foi somente recentemente na história da ciência que desvendamos todos os segredos das marés, ou seja, as oscilações cíclicas no nível da água dos oceanos.

Na época de Hermes muita gente ainda deveria acreditar que os mares escoavam para o abismo no fim do mundo, que era compreendido como algo plano. Hermes não, o danado parece que ficava imaginando como seria o futuro, e chutou com felicidade de novo.

VI. “Toda Causa tem o seu Efeito; todo Efeito tem a sua Causa; tudo ocorre de acordo com a Lei; o Acaso é tão somente um nome para uma Lei não reconhecida; existem muitos planos de causalidade, mas nada escapa à Lei.”
Este talvez seja o axioma mais científico de Hermes. Parece simples para muitos de nós hoje imaginar que nenhum pedregulho sequer rola de uma encosta montanhosa sem uma causa física anterior, como chuvas torrenciais ou a lenta degradação da mata no entorno. Porém, numa época onde o pensamento mágico era ainda amplamente aceito, arriscar dizer que nada poderia simplesmente surgir ou ocorrer do nada, ao acaso, como num passe de mágica, ainda era algo revolucionário.

Ah sim, e ele acertou outra vez!

VII. “O Gênero está em tudo; tudo tem seu Princípio Masculino e Feminino; o Gênero se manifesta em todos os planos.”
A primeira vista este último axioma parece, de todos, o chute mais fácil de ter sido acertado naquela época. Afinal, bastava olhar para os homens e as mulheres, e os machos e as fêmeas no mundo animal, e elaborar uma teoria básica.

No entanto, Hermes parece ter se referido a algo mais profundo, algo com o que a psicologia só veio a esbarrar mais seriamente nos dias atuais: gênero não é sexo biológico, e sexo biológico não é gênero. Se há crianças que, desde bem novas, dizem “estarem presas no corpo errado”, é que enxergam a si mesmas antes pelos princípios, seja masculino ou feminino, que dominam sua alma, do que propriamente pelo corpo em que habitam.

A transexualidade é ainda um tabu tão grande que foi somente neste ano, 2018, que a Organização Mundial da Saúde (OMS) a retirou da lista de transtornos mentais. Hoje por todo o mundo civilizado se debate o que é gênero, e se existe mesmo alguém 100% macho ou fêmea, ou, se pelo contrário, se todos somos compostos por uma mescla de princípios ou energias masculinas e femininas.

Assim, há muita gente que nunca ouviu falar de hermetismo, que sequer acredita em alma ou reencarnação, que se debruça profundamente sobre tais questões de gênero; algo que, de certa forma, Hermes também antecipou há milênios...

Como pode ser tão sortudo?
Mas, como pode Hermes ter sido tão afortunado em tantos chutes? Ou será que ele dispunha de ferramentas que nós não dispomos, ou pelo menos ainda não identificamos em nós mesmos?

Teria Hermes adivinhado tudo isso por pura simpatia da Deusa Fortuna, ou teria ele descoberto tudo isso e muito mais contemplando aos espaços misteriosos de sua própria mente?

Essas são questões que merecem ser consideradas com carinho por todo estudante de hermetismo. Se Hermes foi algum deus, foi também outro sábio da sua época quem disse: “sois deuses, e dia virá em que farão tudo isso que eu tenho feito, e ainda muito mais”. Ora, se eles foram deuses, nós também somos da raça dos deuses. Nós também somos cocriadores nesta Criação. Nós também somos a imagem e a semelhança do Todo. Agora, basta navegar adentro...

Boa viagem, ó argonautas da mente!

***

» Veja também a minha tradução do Caibalion, e o artigo O dia em que a terra parou, onde jogamos luz no papel que o hermetismo teve no próprio advento da chamada ciência moderna, com Copérnico e Galileu.
 
Crédito das imagens: [topo] Google Image Search; [ao longo] The Ritman Library; Google Image Search.

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5.6.18

Xamanismo, Arte e Magia (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo falo sobre como a religião, a filosofia, a ciêcia e todas as formas de arte tiveram sua origem no xamanismo ancestral. Também veremos como o hermetismo foi essencial para o advento da chamada ciência moderna, como estamos a todo momento navegando num oceano de informação, e como podemos estar fazendo magia mesmo sem saber:

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9.5.18

Racismo é ignorância (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo falo sobre o único código que não surgiu da mente humana, o mesmo que trouxe a mensagem da Natureza, e ela dizia "que só há uma raça humana". Também veremos como nossos ancestrais migraram da África para todos os demais continentes, e ao final ainda temos uma surpresa especial:

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27.4.18

As grandes questões do ocultismo (tomo final)

« continuando do tomo III


Imagine esta noite, há dez mil anos, fria e úmida, nalgum canto europeu onde tudo o que os homens sabiam acerca de outros homens se resumia a tribos que foram vistas de passagem pela margem da floresta, e que logo se esconderam dos olhares estranhos. Um mundo ancestral, onde vivíamos isolados, andarilhos vivendo da caça e da coleta, temerosos dos trovões e da raiva dos deuses. Conectados, em todos os momentos, à Natureza em nossa volta, ao ponto de nem precisar lhe dar um nome: a Natureza já era todo o mundo.

Alguns poucos dentre nós eram escolhidos, geralmente desde a infância, para serem os discípulos do xamã da tribo, aprendendo com ele todos os dias e todas as noites a se comunicar com os espíritos de antigos heróis e sábios tribais, assim como com os seres etéreos da natureza; e, de vez em quando, até mesmo com alguns dos seus deuses. Um xamã abandonava seu corpo, sua mortalha, para ir habitar do outro lado, e então o seu discípulo assumia o seu lugar, e logo escolheria outro para também um dia lhe substituir no futuro, pois que nenhuma tribo era capaz de sobreviver por muito tempo sem o auxílio daquele que se comunica com espíritos, que dá conselhos sobre as caçadas e conhece todos os segredos das ervas medicinais.

Imagine esta noite, ao redor da fogueira, onde o velho xamã canta (acompanhado de alguns tocadores de tambor) antigos poemas sobre caçadas épicas, tempos de fartura de frutos, e metamorfoses de seu próprio ser com diversos animais – vivenciadas em transe profundo, no único lugar onde todos os seres fantásticos, os espíritos, os deuses e demônios existem incontestavelmente: a mente humana.

Nessa era, quando todos os conhecimentos espirituais eram centrados na figura do xamã, a magia sequer tinha um nome. Por se tratar “de tudo o que tem relação com o espírito humano”, ela não precisava realmente ser rotulada, reduzida a uma palavra, um signo... no entanto, se um xamã fosse intimado a falar acerca da sua teologia, ele provavelmente responderia como um sacerdote xintoísta respondeu a Joseph Campbell: “nós não temos teologia, nós dançamos”.

Desde os primórdios da humanidade, a mente e o espírito sempre encontraram caminhos propícios para transbordar sua subjetividade no mundo objetivo, para de alguma forma estranha, tornar possível a migração de informações do mundo das ideias, do mundo interior, onde tudo é fluido, onde tudo pode ser simplesmente imaginado, até o mundo das coisas, até o mundo exterior, onde tudo tem corpo e forma, onde tudo tem o seu tempo de nascer, viver e morrer. Assim, sempre nos pareceu (e para a maioria de nós ainda parece) que este mundo dito objetivo é mais como uma passagem, um entrecruzamento de vias férreas, onde os trens de nossas vidas podem apitar uns para os outros, por breves períodos, até que precisem novamente zarpar para a próxima estação.

Lá no início de tudo, lá, muito antes da linguagem, a magia já brotava como uma espécie de noivado com a consciência. Através da magia, o que era somente imaginado pôde, passo a passo, ser transferido para o mundo lá fora. Na falta de um nome melhor, lhe chamamos A Arte...

Enclausurados no fundo das cavernas, com pouquíssima iluminação, se valendo de sangue animal e de tintas arcaicas, os xamãs gravaram no ventre da própria Terra imagens de suas caçadas, do que vivenciavam em seus transes, e da morte e renascimento em suas próprias iniciações, quando também eles vieram desvanecer no ventre da Mãe, para renascerem como filhos de Gaia, irmãos de todos os demais xamãs do mundo. E isto, que hoje chamamos de arte rupestre, nada mais foi do que o surgimento da pintura.

Muitos também aprenderam a talhar a pedra não somente para produzir pontas de lanças e flechas, como para trazer ao mundo das formas sólidas as figuras dos mais antigos deuses, sobretudo a Deusa Mãe, com suas formas fartas, garantidora da vida e da fertilidade da tribo. Assim surgiu a escultura.

Da música e da poesia nós já falamos, mas considere como ambas foram reunidas com danças e encenações, quando já não bastava mais somente contar uma história: era preciso reencená-la novamente, e quantas vezes fossem precisas, nas noites em que a tribo rememorava antigos acontecimentos dignos de nota. Muito tempo, e algumas civilizações depois, tais encenações passaram a ser independentes da religião em si, e foram chamadas de teatro pelos gregos antigos. Conforme a ópera e o próprio cinema não poderiam ter surgido sem o teatro, há que se considerar que todos eles ainda derivam, em última instância, da Arte.

Finalmente, foi inventada a escrita, e todas as histórias ancestrais puderam fluir da mente daqueles que as recitavam de memória para os símbolos que, se eram incapazes de trazer consigo todo o sentimento, toda emoção daqueles que um dia cantaram ao redor das fogueiras ancestrais, ao menos podiam registrar com exatidão inimaginável algo que se passava tão somente na mente do xamã. Milhares de anos depois, o próprio ocultismo iria se basear largamente na forma como certas palavras são recitadas, assim como no estilo com a qual elas eram guardadas nos livros e nos grimórios. A isso tudo nós também demos outro nome: literatura.

É bem verdade que os primeiros magi (magus, no singular) eram sacerdotes do zoroastrismo, que mais tarde vieram a ser rotulados de “praticantes de magia” pelos gregos, que ironicamente não viam o que eles faziam com bons olhos. Assim, quando a Arte recebeu o nome “magia”, foi mais por um acidente da história. É curioso como, mais ou menos desde essa época, tudo o que era realizado pelas religiões dos povos estrangeiros foi considerado “magia”, sobretudo como forma de diferenciação para com as práticas sagradas da religião oficial do próprio país. Até hoje é fácil se encontrar coisa parecida: “macumba é magia negra, mas as minhas simpatias, as minhas orações aos santos, isso é tudo coisa de Deus”.

Na realidade, como pudemos ver, desde o xamanismo antigo, a própria religião, a própria religação a Natureza, ao Cosmos e aos deuses, esteve indissociada da Arte. Religião também é, e sempre será, uma forma de magia (uma das mais antigas, por sinal).

Aliás, quando a então famosa pitonisa de Delfos, Temistocleia, iniciou Pitágoras em seus conhecimentos ocultos, ela ainda poderia ser rotulada como “religiosa”. Foi somente quando o próprio Pitágoras ganhou sua fama (basicamente evangelizando a sabedoria de sua mestra), que ele eventualmente foi chamado de “filósofo”: amante (filos) da sabedoria (sophia). Assim surgiu a filosofia no Ocidente, e também ela, obviamente, é filha da Arte.

Desde Demócrito os antigos “filósofos da Natureza” (título que, aliás, foi assumido por alguns desta estirpe até poucos séculos atrás) começaram a focar sua atenção também nos eventos que ocorrem lá fora, e investigaram tanto os átomos quanto as constelações. Eratóstenes já sabia que a Terra não era plana cerca de 2 séculos antes de Cristo, e chegou a calcular sua circunferência com precisão invejável. Mas foi alguma espécie de deus ou semideus, Hermes o Três Vezes Grande, quem antecipou em milênios a física de partículas e o estudo de outros sóis e outros mundos: pelo menos desde a antiga Grécia ele já havia arriscado dizer que “tudo vibra, e nada está parado”, e que as leis que regem o Alto são as mesmas que regem o que acontece por aqui.

Quando Nicolau Copérnico publicou o seu célebre Das revoluções das esferas celestes, algumas linhas abaixo da primeira ilustração do heliocentrismo estava descrita a sua maior inspiração: Hermes Trimegistus. Diz a “história oficial” que a Igreja mandou um de seus monges (Giordano Bruno) para a fogueira simplesmente por defender que a Terra girava em torno do Sol. Eles preferem ignorar o que realmente se passou, e como Bruno quis fundir o cristianismo com o hermetismo, criando uma nova religião cósmica. Tivesse tido sucesso, o mundo ocidental seria hoje muito, muito diferente...

Em todo caso, fato é que o que havia se iniciado lá em Demócrito hoje está plenamente consolidado na era moderna: a separação definitiva entre a Arte e a ciência, entre a alquimia e a química, entre a astrologia e a astronomia, entre o conselho xamânico e a psicanálise.

Diz o atual dogma científico que nada do que escapa ao puramente objetivo deve ser considerado pela ciência. Nem sempre foi assim, mas hoje a Academia prefere relegar o que pode ser chamado de “sobrenatural” as “esquisitices da mente” e ao efeito placebo. Que seja, que a magia seja a arte de se catalisar efeitos placebo. E, quanto à mente, bem, é justamente nela que se passa toda a nossa existência, seja ela “esquisita” ou “normal” (não sabemos o que é mais estranho).

Foi mais ou menos assim que a Arte se decompôs em inúmeras partes, infindáveis campos de estudo, incontáveis maneiras de se contemplar a Natureza. No entanto, se pudéssemos voltar atrás, e reconciliar toda a nossa sociedade de acordo com os preceitos arcaicos do xamanismo, ainda seríamos divididos entre caçadores e artistas. Ora, felizes aqueles que não necessitam caçar para sobreviver, e podem se dedicar plenamente a Arte, e a sua Grande Obra. Para isso, sim, meus irmãos, para isso vale a pena estar aqui, para isso vale a pena apontar nossos espelhos pequeninos para a luz do Alto, a luz que se encontra espalhada por tudo o que há, mas que ainda é invisível para quem se arrasta sonolento pela existência.

Acorde! Recorde que você é um homem, que veio de uma estrela, que está em uma estrela, que irá para outra estrela...

Imagine esta noite, há dez mil anos, com você sentado ao redor da fogueira. Imagine, sinta como a sua chama lhe aquece. Feche os olhos e veja: na sua frente, do outro lado da fogueira, está um xamã ancestral, também de olhos fechados. Ele abre os olhos, e lhe encara... de alguma forma, você sabe, você sempre esteve lá. Isto é Ars Magica.

Pouse suavemente. Os mensageiros orientam...


raph’18

***

Crédito das imagens: [topo] TASS/Vladimir Smirnov (xamã siberiana); [ao longo] Sisse Brimberg/National Geographic (arte rupestre na caverna de Lascaux, França); Google Image Search (Angkor Wat).

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7.3.18

Frases (21)

Palavras nômades que vêm e vão. Costumam aparecer primeiro no meu twitter, e depois aqui (sim, eu fiquei bastante tempo sem atualizar o blog com as frases, então desta vez vamor ter mais do que o habitual):


"O que é a consciência afinal? Se dizemos que é uma ilusão, estamos iludidos!"

"Não há nada mais intenso do que a guerra contra o ego. O "estado zen" é o "espólio" da guerra, e não a guerra em si."

"Veja o ego andando em zigue-zague pelo caminho do meio, perdido em linha reta."

"Os extremos se cruzam diversas vezes, mas estão vendados."


"Um guia para a vida virtuosa: julgar aos outros o mínimo possível, julgar a nós mesmos com certa regularidade, e dar bons exemplos."

"Desejamos a eternidade, e a única coisa eterna dentro do tempo é o amor."

"Não há nada no universo detectado mais extraordinário do que uma alma humana."

"Quanto as almas, eu as vejo como espelhos, apontando para o que está além da detecção. Dar um nome ou uma qualidade a isso seria inútil."


"Não julgar a espiritualidade alheia lhe ajuda bastante com a sua própria espiritualidade."

"Quem muito julga os outros, pode esquecer do julgamento mais essencial: o de si mesmo."

"Se você pergunta a duas pessoas, uma em Tóquio, outra no Rio, se é dia ou é noite, elas darão respostas diversas, mas ambas estarão corretas."

"Temos de criar navegantes e não recitadores de enciclopédia."


"Toda a minha filosofia se resume a tentar passar adiante o sentimendo de estar navegando por Deus, em cada momento, em cada pensamento."

"Os místicos não detém a verdade absoluta, não querem evangelizá-la. Conhecendo uma alma por dentro, a sua própria, eles tocam todas elas."

"Todo ser é livre em seu interior. Livre, inclusive, para se manter aprisionado na ignorância. No mundo todo, não há liberdade maior."

"Nenhum mestre chama a si mesmo de mestre, pode no máximo aceitar que um discípulo o chame assim enquanto for discípulo. Isto pois o grande objetivo do mestre é tornar o discípulo tão mestre quanto ele."


"Sócrates deve ter sido muito mais gente boa que Platão, e Epicuro mais que Diógenes; Nietzsche mais que Schopenhauer; e Montaigne mais do que todos."

"Todos os dias há um eclipse do sol pelo horizonte, lá pela tardinha..."

"Profissão menos reconhecida da história: Arauto do Final dos Tempos. Quando um deles acertar, não terá direito a prêmio algum."

"Eu acredito em criação do futuro."


"Se fosse para usarmos outro nome para homo sapiens, seria afro-descendentes. A genética explica."

"O código genético é a única linguagem usada pelo ser humano que não foi criada por ele."

"A "transmissão de efeito placebo telepaticamente do acupunturista para o cavalo" é uma explicação consideravelmente mais "sobrenatural" do que o suposto funcionamento da acupuntura em si."

"Um objeto, um troféu, pode ser lindo, mas só uma alma é interessante. Entre a mulher-objeto e a mulher-alma, prefiro mil vezes a que é, de fato, interessante :)"


"Como encontrar um fato num palheiro de pós-verdades?"

""Mas o seu partido também rouba". Assim, roubam todos, e ficamos discutindo sobre quem rouba mais ou menos."

"Temos de ter muito cuidado com o que pedimos ao Universo. Imagina quem pediu, em 2012, para ser tão rico e bem sucedido quanto o Eike Batista?"

"Dar um voto de protesto é como alugar um quarto num hotel, não gostar dele, e reclamar cagando na cama: você ainda terá de dormir nesta cama." (Alan Moore)


"O mistério da vida não é um problema a se resolver, mas uma realidade a se experienciar." (Anônimo/Slack)

"Para o ignorante, o mundo inteiro é seu inimigo. Porém, para o sábio o mundo inteiro é seu professor." (Charaka Samhita, texto clássico Ayurveda)

"Se um homem está vivo, há sempre o perigo de que possa morrer, embora se deva reconhecer que este perigo é bem menor se ele for um morto-vivo." (Thoreau)

"Ter muitos amigos no Facebook é como ser rico no Banco Imobiliário." (L. Riponche)

"Isto é a Vida Eterna, bem aqui. Realize-se, seja feliz, gentil, apaixone-se e nunca faça algo com o qual não possa conviver pra sempre." (Alan Moore)


"Há pedras que se chocam para tirar lascas umas das outras, e há pedras que produzem novas e belas faíscas." (Abenides Faria)

"Um deus me concedeu a arte de exprimir o quanto sofro, nas circunstâncias em que os outros homens se calam com a sua dor." (Goethe)

"Se você não quer um Deus, é melhor que tenha um Multiverso." (Bernard Carr)

"Você me pergunta "o que é Deus?"; eu lhe respondo com outra pergunta: "O que não é Deus?". Se você souber esta resposta, também saberá a outra." (Atmaji)

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Crédito da foto: Christopher Campbell/unsplash

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1.3.18

Uma crítica a Academia

Texto por Roberto Leon Ponczek, trechos da obra Deus, ou seja, a Natureza (SciELO). Os comentários ao final são meus.


De que serve a transmissão de pacotes de informações prontas, em hora e local marcados, se a maior parte do tempo o aprendiz permanece desatento às forças vitais que o cercam a cada instante? Esse adestramento para processar fórmulas preestabelecidas é muitas vezes confundido com conhecimento. Assim, torna-se necessária uma descentralidade do local convencional de aprendizado, como a sala de aula e os mestres com hora marcada. A descentralidade do universo [conforme defendida por Spinoza] requer também a descentralidade do aprendizado, e de seus instrumentos clássicos que, muitas vezes, ao invés de facilitar, constituem-se em instransponíveis barreiras ao livre fluir do verdadeiro conhecimento. Desta forma, estaríamos passando do paradigma de uma “pedagogia pensada e centralizadora do sujeito” para uma novo paradigma da “pedagogia filosofante, pensante e não apenas pensada”.

Outro ponto que carece ser questionado é o fato da maioria das escolas e academias ocidentais do pós-guerra querer transformar seus aprendizes em bibliotecas ambulantes, pretendendo que suas mentes sejam extensas memórias de arquivos bibliográficos. Cada vez menos ensina-se a pensar, e cada vez mais, em arquivar dados e referências bibliográficas. Os livros tornam-se obstáculos a serem transpostos, e os mestres seus oraculares intérpretes.

Julgo que, pelo contrário, o aprendiz deve ser estimulado a pensar sobre um texto, a dialogar com seus autores, sem para tal ter de recorrer a bibliotecas de dimensões babilônicas, respaldando-se numa bateria de referências, e perdendo-se num labirinto de citações de comentadores terceirizados. Consumou-se nas academias o hábito de exigir que o aprendiz respalde seu entendimento sobre um determinado texto, com a opinião de um sem-número de especialistas, como se seu primeiro entendimento intuitivo, possivelmente ainda não lapidado, não merecesse crédito, necessitando de álibis ou testemunhas para ser validado.

Entendo, inspirado em Spinoza, que é este conhecimento primeiro, e possivelmente ainda tosco, que servirá como um primeiro martelo com o qual se forjará uma segunda ferramenta mais lapidada, e assim sucessivamente. Um mestre esclarecido não descartará o conhecimento de seu aprendiz, ou criticará a precariedade de suas referências, por mais rudimentares que sejam. Existem artigos científicos com referências bibliográficas maiores que o próprio texto, como se isso fosse prova de embasamento teórico e metodológico!

Muitas vezes os trabalhos acadêmicos são julgados por sua bibliografia, e não pelo seu valor intrínseco. A leitura desses textos é quase sempre maçante, desencorajando qualquer um de seguir por suas labirínticas notas de rodapé e referências. Nem mesmo o autor deste texto, que ora o leitor tem em mãos, se desvencilhou totalmente da camisa de força imposta pelas normas acadêmicas... Gostaria, em breve, de poder escrever outro livro sem notas de rodapé e sem referências!

Jorge Luis Borges, em seu magistral conto Funes, o memorioso, relata a existência de um indivíduo capaz de memorizar todos os fatos e textos de jornais ocorridos ao longo de sua vida sem, contudo, ser capaz de relacioná-los entre si. Funes torna sua existência um arquivo morto de fatos irrelevantes, pois são textos irrelevantes, ideias ou eventos que não têm relação com o mundo que lhe deu origem, conferindo-lhes uma temporalidade. Nossos aprendizes são, muitas vezes, adestrados para serem os Funes da ciência.

Também não posso me calar diante da febre metodológica que assola, como epidemia, extensos setores das academias, induzindo os estudantes a escolherem trabalhos cada vez mais estreitos, para que caibam em um método dado a priori. Os alunos são desestimulados a abordar temas multidisciplinares, ou até mesmo interdisciplinares, e instados a seguir por estreitas trilhas monotemáticas que se encaixem em alguma metodologia preestabelecida. Será o método o soberano que deve determinar a extensão do tema, ou é a vastidão do tema que deve alargar o método? Afinal, uma bela foto deve ser recortada para que caiba no álbum, ou este é que deve ser adequado às dimensões da foto?

[...] As disciplinas científicas assim enquadradas nas academias comparam-se a castelos medievais cercados por fossos onde vicejam os crocodilos guardiões do feudo. As pontes levadiças são erguidas e abaixadas para permitir apenas a entrada e a saída dos súditos do castelo. A academia se divide assim em vários cantões feudais, cada qual concessionário de uma franquia temática, guardada a sete chaves em seu castelo unidisciplinar, delimitado pelo fosso do método e seus atentos guardiões. Professores e estudantes são orientados a permanecer nesses domínios rigidamente circunscritos, e aqueles que inadvertidamente querem cruzá-los, fatalmente serão abocanhados pelos afiados guardiões do castelo.

Na prática isso equivale a uma espécie de sentença de excomunhão velada a partir da qual os professores transgressores não conseguem bolsas de pesquisa ou de estudo para seus orientados, publicações em revistas importantes, ou ganhar qualquer tipo de concurso público. Criam-se, nas academias, autênticas franquias cada qual delimitando rigidamente como deve ser redigido, divulgado e ensaiado o “seu” tema franqueado. Não é incomum essas franquias temáticas desenvolverem extensos tentáculos que se alastram pelas agências de fomento, bancas examinadoras de teses e concursos, além dos conselhos editoriais das revistas especializadas.

[...] Para contabilizar e fiscalizar a produção acadêmica do corpo docente, tais como artigos, livros e demais trabalhos, criou-se um sistema de avaliação numérica (o Qualis, da Capes), como se a qualidade de um texto ou a originalidade de uma ideia pudessem ser mensuradas por números. Este sistema, que é sistematicamente utilizado pelos zelosos guardiões do castelo, fez surgir uma nova geração de professores especializados em construir seus currículos de acordo com esses cânones numéricos, extraindo a máxima pontuação possível.

Este livro, que ora o leitor folheia, em alguns aspectos trafega na contramão de quase tudo que se faz nas academias. Nele não há fronteiras rígidas entre as várias disciplinas, como a Matemática, a Física e a Pedagogia, e elas se entrelaçam desrespeitando deliberadamente os recortes metodológicos, cultuados como dogmas intocáveis pela academia. O livro é longo demais para os padrões atuais, pois hoje vários autores preferem se associar em coautoria para escrever artigos curtos produzidos em série, contabilizando, nas agências de fomento, um título para cada um.

[...] Na vertente contrária, esta é a obra de um único autor solitário que a produziu num longo período de gestação, praticamente recluso em sua casa de campo, totalizando em seu favor apenas um único trabalho em vários anos. Quando nas academias brasileiras vive-se hoje uma febre delirante por publicação e pontuação, este texto foi pensado e escrito sem compromissos de espécie alguma com grupos de pesquisa financiados pelas agências fomentadoras e sem preocupação de pontuação em plataformas oficiais de curriculae vitae. Apesar da inquisição velada e de todas as dificuldades impostas pelas academias, preferi pensar sem fossos nem recortes, estabelecendo relações e organicidade entre as várias disciplinas de saber que devem se entrelaçar para chegar ao autêntico e verdadeiro conhecimento científico.


Comentários
“Na contramão de quase tudo que se faz nas academias”, como bem definido pelo autor, o professor de Física e grande estudioso de Filosofia e conhecimentos gerais nos traz uma obra monumental que não apenas associa de forma profunda o pensamento de Spinoza às buscas existenciais e científicas de Einstein, como se arrisca a afirmar, com suas próprias palavras, onde eles parecem ter acertado e onde parecem ter errado, sempre se embasando no conhecimento científico mais atual, como a Mecânica Quântica.

Não é fácil, decerto, esmiuçar de forma tão aprofundada os axiomas “lógicos e geométricos” da Ética de Spinoza, mas eu penso que Ponczek acabou por nos presentear com uma das análises mais profundas e honestas da obra do grande pensador holandês, e de todo o fruto que ela gerou no mundo. Que isso tenha sido feito dentro do atual mundo acadêmico, é quase um milagre. Por isso preferi trazer a vocês essa crítica embasada e honesta de um acadêmico que se sente profundamente angustiado com o estado atual de nosso ensino. Ponczek é, antes de mais nada, um professor, e um professor deseja ensinar seres que interpretam o mundo, não máquinas enciclopédicas, autômatos recitadores de Wikipédia.

Recomendo a todos os admiradores de Spinoza, de Einstein ou, simplesmente, dos grandes conhecimentos da humanidade, que confiram a sua obra, um e-book em download gratuito na Amazon.

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Crédito da imagem: Ponczek (foto achada no Facebook, não lá muito acadêmica...)

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