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21.8.26

Traduzindo a Montanha Mágica (parte 3)

« continuando da parte 2


A Montanha Mágica possui uma personagem feminina que em boa parte do livro (ao menos enquanto está residindo no Sanatório Berghof) chega a rivalizar com o protagonismo de Hans Castorp. A sua primeira aparição na história se dá quando Hans Castorp decide se virar da cadeira e descobrir quem diabos efetivamente deixa a porta do refeitório bater estrondosamente sempre que adentra o recinto. Apesar de obeservá-la de longe, Hans Castorp presta grande atenção às suas mãos, que de certa forma servem como metáfora para a sua própria personalidade, e também para o que Hans Castorp supunha dela (eis o trecho em questão, na minha tradução):

“Enquanto caminhava, ela manteve uma mão no bolso de sua jaqueta de lã, enquanto a outra estava ocupada na parte de trás da cabeça, arrumando o cabelo. Hans Castorp olhou para aquela mão – ele tinha um bom olho e um bom senso crítico para as mãos, e era seu hábito sempre primeiro dirigir seu olhar para elas ao conhecer alguém. A mão que arrumava seus cabelos não era particularmente feminina, não era refinada ou bem cuidada, não da maneira como as damas do círculo social do jovem Hans Castorp cuidavam delas. Era bastante larga, com dedos grossos; havia algo primitivo e infantil ali, um pouco como a mão de uma colegial. Suas unhas claramente nunca tinham visto uma manicure, e haviam sido aparadas descuidadamente – novamente, como as de uma estudante; e as cutículas tinham um aspecto irregular, quase como se ela fosse culpada do pequeno vício de roer as unhas. Hans Castorp apenas supôs tudo isso, no entanto, mais do que efetivamente viu – ela estava realmente muito longe.”

Antes de prosseguir falando sobre madame Chauchat, a personagem em questão, é preciso voltar o olhar para o próprio Hans Castorp. O leitor atento deve ter percebido, não somente neste trecho, como em muitos outros, como Hans Castorp presta atenção excessiva a maneira como os homens e mulheres se vestem. Em dado momento, fica claro que o autor quer nos dizer algo com isso, nem que seja nas entrelinhas... Ora, e me parece inescapável concluir que Hans Castorp, o “herói” da obra-prima de Thomas Mann, tem um lado feminino bastante aflorado, embora jamais assumido abertamente – nem mesmo em seus próprios pensamentos.

Isso fica ainda mais evidente quando descobrimos que Hans Castorp está apaixonado por madame Chauchat, e toda a cena onde eles finalmente conversam, após meses de convívio, carrega uma associação clara com uma “paixão” anterior do jovem, ainda na época da escola, quando ele também pede um lápis emprestado à pessoa – isto é descrito num sonho, e ainda no sonho ele confunde a pessoa que empresta o lápis com a própria madame Chauchat, que depois de fato lhe empresta um lápis numa noite de Carnaval. Bem, e essa pessoa do sonho, da época da escola, é um jovem, um homem, Pribislav Hippe (há, inclusive, um subcapítulo intitulado “Hippe”).

A genialidade do autor se dá justamente na descrição de tudo isso, do sonho, da associação de Hippe e Chauchat, dos lápis emprestados... É tudo simplesmente tão “suave”, tão nas entrelinhas, que posso apostar que a maioria dos leitores da época (quiçá de hoje em dia também) sequer percebeu que Hans Castorp é bissexual. Além disso, nem mesmo o próprio Hans Castorp compreende isso, já que em nenhum momento associa a sua paixão por Hippe à algo propriamente sexual (embora claramente o fosse).

Thomas Mann foi casado com Katia Mann, com quem teve seis filhos, mas ao longo da vida sentiu forte atração sexual por outros homens, o que foi devidamente registrado em seus diários, e explorado mais abertamente em outra obra, Morte em Veneza. Mann soube descrever uma “bissexualidade enrustida” de forma tão competente justamente por ele mesmo ser, tal qual Hans Castorp, bissexual.

Ainda assim, A Montanha Mágica não tem realmente muitas personagens femininas interessantes. A maioria é ou funcionária do sanatório, ou alguma paciente sem muita coisa para acrescentar à história. O próprio Hans Castorp perdeu a mãe cedo, e não tem nenhuma figura feminina como referência. Pode-se dizer até que, além de bissexual enrustido, ele era claramente machista. Assim, Mann investiu todo o seu lado feminino em madame Chauchat, e ela sozinha compensa todo um conjunto de personagens femininas desinteressantes.

Logo depois que analisa suas mãos, Hans Castorp pergunta do seu marido para sua colega de mesa, e recebe a resposta de que “ele nunca esteve aqui, nem uma vez; nenhum de nós saberia reconhecê-lo.”

Assim, em pleno início de século 20, madame Chauchat é uma mulher de ascendência russa que, sofrendo de tuberculose, vai se hospedar sozinha numa sanatório nos Alpes e não é nem uma vez visitada pelo marido. Além disso, como dito na primeira observação de Hans Castorp, ela “não era particularmente feminina, refinada ou bem cuidada”... Seja como for, isso tudo não impediu Hans Castorp de se apaixonar por ela, tampouco de ir descobrindo sua beleza, pouco a pouco, independentemente do seu “refinamento”.

Madame Chauchat representa sobretudo o lado “selvagem” do feminino que não se adequa às regras patriarcais. Ela é livre, vai aonde quer (mesmo sendo sustentada pelo marido), veste-se como quer (sem se preocupar em agradar homens com senso crítico para as mãos) e, para além de tudo isso, não fala muito bem alemão, mas apenas o russo e o francês.

Isso nos leva para um dos momentos essenciais da obra, quando Hans Castorp e madame Chauchat travam uma longa conversa numa noite de Carnaval; mas boa parte dela se dá em francês, e não no alemão, inclusive no original!

Thomas Mann escreveu esses diálogos diretamente em francês, e não em alemão para depois traduzir. Embora seu próprio francês não fosse perfeito, ele usou o idioma para criar um efeito específico, como ele mesmo confessou. Presumivelmente a sua principal intenção era enfatizar a tensão e o contraste entre a rígida cultura alemã e a espontaneidade mais associada à cultura francesa. De início, Hans Castorp ainda usa o alemão, mas logo em seguida passa a arriscar o francês, e a conversa entre o casal segue assim, em francês, até o final da noite.

Em algumas traduções modernas, esses trechos em francês costumam ser mantidos no texto principal, com a tradução fornecida em uma longa série de notas de rodapé. Esta solução, no entanto, não me pareceu a mais adequada, principalmente no formato digital (e-books). Assim, optei por traduzir o francês diretamente para o português, apenas indicando no texto o momento onde Hans Castorp passa a alternar do alemão para o francês.

Penso que a experiência ideal, imaginada por Mann, fosse uma leitura bilingue mesmo, mas é muito mais fácil achar falantes de alemão e francês na Alemanha do que aqui, a meio mundo de distância. Por isso o trabalho de tradução é feito de escolhas, e aqui não foi diferente. Espero que tenha tornado a leitura de A Montanha Mágica a experiência mais fluida possível, já que não é fácil encarar uma montanha de páginas - e o trabalho do tradutor e do editor é justamente tornar esse escalada íngreme o passeio mais prazeroso possível.


» Na sequência, o derretimento das palavras.

***

Crédito das imagens: [topo] Google Gemini AI (madame Chauchat); [ao longo] Google Gemini AI (Hans Castorp).

Você pode encontrar minha tradução de A Montanha Mágica em ebook ou na versão impressa, ambas disponíveis na Amazon.

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15.8.26

Lançamento: Como vejo o mundo, de Einstein

As Edições Textos para Reflexão publicam mais uma tradução do maior cientista do século 20.

Em Como vejo o mundo, publicado em sua primeira versão em 1934, temos uma vislumbre das ideias de Einstein sobre pacifismo, humanismo, religião, política, economia, e até mesmo da busca científica como um ideal de vida. Trata-se de uma compilação de artigos, discursos e cartas escritos naquela época.

A nova tradução de Rafael Arrais já está disponível em e-book e na versão impressa:

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13.7.26

Traduzindo a Montanha Mágica (parte 2)

« continuando da parte 1


A Montanha Mágica se inicia com uma belíssima e vívida descrição do percurso de trem que sai da Alemanha e escala o mundo até os Alpes suíços. Tal narrativa domina boa parte do primeiro subcapítulo da obra, A chegada, que vai se encerrar justamente com o encontro entre Hans Castorp e o primo adoentado, Joachim Ziemssen, que o espera na estação de trem em Davos.

Conversa vai, conversa vem, e o subcapítulo se encerra desse modo na tradução mais conhecida até 2026 (quando a obra de Thoman Mann entra em domínio público), a de Herbert Caro (revisada por Paulo Astor Soethe; trecho retirado da edição tradicional da Cia. das Letras, pág. 20):

“[...] Você vai gostar dele. E ainda há o Krokowski, seu assistente – um tipo muito capaz. No prospecto fala-se especialmente da sua atividade: a dissecação psíquica dos pacientes.

— O quê? Dissecação psíquica? Que coisa nojenta! – gritou Hans Castorp, e com isso, a hilaridade tomou conta dele. Já não conseguia dominá-la. Depois de tudo o que ouvira, a dissecação psíquica lhe encheu as medidas. Riu-se tanto que as lágrimas lhe brotavam entre a mão com que, inclinando-se para a frente, cobria os olhos. Também Joachim riu de todo o coração, o que parecia fazer-lhe bem. Assim, o desembarque dois dois jovens deu-se com alegria e descontração, ao deixarem o carro que lentamente os trouxera por uma rampa íngreme e serpenteante até o portal do Sanatório Internacional Berghof.”

Fim de subcapítulo. Pois bem, a despeito do uso de alguns termos meio datados na tradução do trecho, fica evidente que os primos literalmente choraram de rir de uma coisa que Joachim disse, e que em seguida chegaram ao Sanatório Berghof. Tudo bem, mas seja sincero: você entendeu a piada? O que diabos, afinal, é “dissecação psíquica”? E, supondo que saiba exatamente do que se trata, por que ambos os personagens iriam rir tanto da mera pronúncia do termo?

Ora, nada disso é explicado na tradução de Caro. Mesmo na cuidadosa revisão e edição da Cia. das Letras, sem dúvida uma das principais editoras do país, não há sequer uma nota de rodapé. Eles simplesmente supuseram que todo leitor teria plenas condições de entender a piada – ou, quem sabe, que faria uma busca rápida na internet para entender.

Mas eu nem entendi a piada e nem consegui resolver tão facilmente tal enigma, a despeito de ter toda a rede mundial ao alcance das mãos e dos olhos. Após algumas buscas, eventualmente cheguei à informação de que “dissecação psíquica” é, na realidade, uma abreviação de “dissecação da personalidade psíquica”, uma teoria ou técnica da análise apresentada por Sigmund Freud no início dos anos 1930. Eis abaixo um resumo da coisa:

“A ‘dissecação da personalidade psíquica’ é um conceito fundamental na psicanálise. Introduzido por Freud na Conferência XXXI de 1933, o modelo propõe que a mente não é uma unidade global, mas um aparelho psíquico dividido em três instâncias interligadas: o Ego, o Id e o Superego.”

Até aqui tudo bem, aparentemente o tal Krokowski era um psicanalista do Sanatório, isto é, alguém que praticava a “dissecação psíquica”. Tudo certo, mas aonde exatamente isso é tão engraçado?

Para resolver esse enigma, tive de recorrer ao termo em alemão, e ao seu significado literal. O termo em si, seelenzergliederung, que aparece na obra original de Mann, e que foi traduzido para “dissecação psíquica”, significa literalmente “a dissecação da alma”...

Finalmente estava resolvida a questão: os personagens choraram de rir pelo absurdo da ideia de que a alma possa ser dissecada, como se fosse um corpo morto. Em alemão, é isso o que a palavra quer dizer; e, além disso, é bem possível que na época em que se situa a história o próprio termo fosse desconhecido ao ponto de poucos o associarem, ao menos de imediato, à atividade da análise ou da psicanálise. Pelo que entendi do trecho, fica evidente que Hans Castorp nunca tinha ouvido o termo antes, e que apenas o seu primo sabia que se tratava de “análise” – mas que, mesmo assim, não conseguiu escapar de rir junto com Hans Castorp do absurdo da imagem de uma alma sendo dissecada.

Na minha tradução, essa explicação toda veio resumida numa nota de rodapé. Vejam como ficou o mesmo trecho:

““[...] Aposto que vai gostar dele. E depois há Krokowski, seu assistente – um tipo muito capaz. No guia falam especificamente da sua atividade: a dissecação da alma dos pacientes. [nota de rodapé]”

“O quê? Dissecação da alma? Que coisa bizarra!” – Hans Castorp exclamou, e o riso novamente levou a melhor sobre ele. Ele não conseguia mais se controlar ante tantos absurdos. A dissecação da alma havia terminado o trabalho, e ele se inclinou e riu tanto que as lágrimas escorreram por baixo da mão com a qual cobrira os olhos. Joachim riu com vontade também – isso pareceu fazer bem a ele. E assim os dois jovens estavam de bom humor no desembarque de sua carruagem, que os carregou lentamente por uma via íngreme, serpenteando pela paisagem até chegar ao portal do Sanatório Internacional Berghof.”

Para mim, este tipo de nota de rodapé é algo essencial num trecho como este, que encerra um subcapítulo. O mesmo termo reaparece algumas vezes nos capítulos subsequentes, sempre associado à algo engraçado – mas, sem o auxílio desse tipo de explicação, infelizmente a grande maioria dos leitores provavelmente seguiu sua leitura sem entender a piada.

Mais para o final do livro aparece outro caso parecido. Ludovico Setembrini, o homem das letras italiano que acompanha Hans Castorp por quase mil páginas, eventualmente se despede do grande amigo, que está retornando à Alemanha pela mesma estação de trem que chegou, lá no início. Vejamos como se deu a tradução de Herbert Caro (pág. 823):

“[...] — E così in giù – ele disse –, in giù finalmente! Addio, Giovanni mio! Eu teria preferido ver você partir de outra forma, mas vá lá, que seja, os deuses dispuseram as coisas assim e não de outro modo.”

Italiano à parte (a obra, apesar de alemã na sua maior parte, traz muitos trechos em francês, italiano, espanhol e latim), a grande questão aqui é que Hans Castorp, após literalmente centenas de páginas, é chamado pela primeira e única vez de Giovanni... Novamente, nenhuma nota de rodapé, os editores supuseram mais uma vez que o leitor saberia identificar facilmente o motivo do uso de “Giovanni” no lugar de “Hans”.

E eu, não tendo entendido nada, tive de sair à busca de uma explicação para aquilo. E eventualmente cheguei numa solução surpreendente. Abaixo trago na íntegra a minha nota de rodapé específica para o caso:

““Giovanni” nada mais é do que “Hans” em italiano. Aliás, se nosso herói tivesse nascido no Brasil (como a mãe de Thomas Mann), ele se chamaria “João”. E tanto o “João” português quanto o “Giovanni” italiano e o “Hans” alemão derivam do latim medieval “Johannes”, ou do latim clássico “Ioannes”. Esta obra é a história de João Castorp.”

Ou seja, o personagem italiano chama Hans pelo seu nome italiano, pela primeira e única vez, quando se despedem, possivelmente em definitivo, após quase mil páginas, e alguns bons anos de convívio.

Espero que com notas como essas eu tenha conseguido facilitar o entendimento do leitor. Creio, inclusive, que a própria edição da Cia. das Letras teria muito a ganhar com a adição de algumas notas como essas numa eventual nova edição. Acho muito inconveniente quando tradutores e editores simplesmente supõem que o leitor terá plenas condições de ler obras como essa sem o auxílio da edição. Afinal, o leitor não tem a menor obrigação de ser tão erudito quanto o tradutor.


» Na sequência, uma noite de Carnaval... em francês!

***

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (estrada de ferro para Davos; imagem atual); [ao longo] Google Image Search (Freud).

Você pode encontrar minha tradução de A Montanha Mágica em ebook ou na versão impressa, ambas disponíveis na Amazon.

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