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17.6.22

Nossa vida nas cartas (parte final)

« continuando da parte 2

Nessa altura do campeonato, talvez já tenha ficado claro que o tarot pode servir para muitas coisas. Entretanto, de um ponto de vista estritamente prático, mundano, se algo serve para alguma coisa, é preciso saber qual é a sua função, real utilidade ou, para resumir em uma pergunta que já ouvi muitas vezes: “Afinal, o tarot funciona?”

Essa é uma boa pergunta. Ocorre que, em se tratando do tarot, ela também pode ter uma miríade infindável de respostas. Antes de prosseguirmos, no entanto, é preciso deixar claro que para aquele que não acredita no tarot, que não o conhece nem se sente minimamente inclinado a conhecer, é bastante óbvio que o tarot não funciona, e jamais irá funcionar.

Até mesmo os mais céticos dentre nós podem encontrar uma utilidade para o tarot: a apreciação artística. Se o tarot é encarado enquanto obra de arte, ele é tão funcional quanto uma pintura, uma escultura ou uma sessão de teatro. No que essas coisas podem funcionar, afinal, senão no sentido de tocar as teclas de nossa alma, de nos encaminhar a estados de consciência mais poéticos, mais espirituais, mais próximos das belezas da arte do que das mazelas da rotina mundana? E, se é assim para tais expressões artísticas, o mesmo se dá com o tarot. Nesse sentido, um cético pode colecionar baralhos de tarot pela mesma razão que coleciona graphic novels de super-heróis, por exemplo. E, se prefere ilustrações modernas às representações medievais de baralhos como o de Marselha, tanto melhor: de fato, a grande maioria dos baralhos atuais foi concebida há poucas décadas, e alguns deles são primorosamente ilustrados.

Então entra a questão da simbologia. Agora sabemos que as cartas espelham arquétipos, e que eles perduram, de alguma forma, por centenas ou milhares de representações diversas. Mas, isso não teria um limite? Um artista contemporâneo não precisaria saber minimamente sobre o que o tarot quer dizer para conceber um baralho capaz de reter ao menos uma parte da luz arquetípica? Ora, mas a beleza da coisa é que o tarot regula a si mesmo: baralhos que tentem falsificar ou tratar de forma demasiadamente superficial os Arcanos Maiores, ou mesmo os Menores, serão esquecidos bem mais facilmente do que outros.

Isso não quer dizer que o tarot não possa se atualizar. Na realidade, ele deve. Se nossa vida está nas cartas, elas devem espelhar de alguma forma o nosso tempo, e não se manterem fossilizadas no medievo. Peguemos a figura do Louco, por exemplo. Nem sempre ele teve esse nome. No Tarot de Marselha, o seu nome era Le Mat, o que provavelmente foi um erro de tradução ao francês do italiano Matto, que significa Louco (este baralho na verdade surgiu no norte da Itália). No entanto, até mesmo isso repercutiu na história: mat vem do árabe, e está relacionado à “morte”, ou ao “xeque-mate” no jogo de xadrez, quando o rei adversário está encurralado, e perdeu a partida. Ocorre que mesmo esse “final de partida” continua tendo tudo a ver com a ideia arquetípica do Louco: o aventureiro ou iniciado que se encontra no início de uma nova jornada. Isto é, perde-se ou ganha-se uma partida e inicia-se outra [1].

Pictoricamente, o Louco em Marselha é uma espécie de andarilho maltrapilho, que traz seus pertences embrulhados num pequeno saco atado na ponta de um bastão, e tem um cachorro rasgando parte de sua calça. Isso está mais próximo do “xeque-mate” da pobreza do medievo do que de outras representações mais modernas. No Tarot de Waite-Smith, por exemplo, criado mais ou menos na época do sonho de Jung, o Louco se parece com um viajante nobre, com roupas confortáveis e uma espécie de bolsa de couro no lugar do saco, enquanto atrás dele um belo cão branco saltita sem no entanto tentar mordê-lo. Ainda que o novo Louco continue se vestindo com roupas relativamente antigas para sua época, ele é claramente um filho dos ideais humanistas e espiritualistas do início do século XX, e já abandonou há tempos a pobreza de alguns dogmas dos séculos mais antigos.

Todavia, houve a introdução de um elemento novo: o abismo. O Louco se encaminha para ele, e o cão amigo talvez tente alertá-lo do perigo da jornada à frente, do caminho espiritual. Mas ele segue com fé e esperança de que, de alguma forma, “saltará” sobre o abismo. Um cético dos segredos do tarot certamente estaria mais seguro retornando com seu cão para casa. Em nosso Tarot da Reflexão, eu e meu amigo Roe Mesquita representamos um Louco místico, já iniciado, que simplesmente voa para fora da carta e arrasta seu cão pela coleira. Ele já passou por aquela colina muitas vezes, e sabe que ainda serão infindáveis jornadas no caminho. Nosso Louco é fruto de uma esperança renovada, quiçá ingênua, na espiritualidade de nosso próprio século.

Quem estará “mais certo”? Nós? Arthur Edward Waite e Pamela Smith? Ou os criadores do Tarot de Marselha, sejam eles quem forem? Todos, e ninguém. Tudo vai depender do que cada baralho é capaz de despertar na alma daquele que se utiliza dele. Seja como obra de arte. Seja como simbologia. Seja como oráculo.

E aqui retornamos ao início de tudo, a quando eu achava que o tarot era “somente” um oráculo divinatório. Ora, ele é decerto muito mais do que isso, como temos visto até aqui, mas isso não significa que ele deixe de ser oráculo. E, em sendo um oráculo, como ele pode funcionar? Aliás, o tarot funciona?

Meu amigo Marcelo Del Debbio descreve uma espécie de “exercício” para quem quer se conectar com o tarot: todos os dias pela manhã, retirar uma carta do baralho e colocá-la sobre uma mesa com a face voltada para baixo. Depois, ao fim do dia, ao chegar em casa do trabalho ou antes de ir dormir, desvirar a carta e refletir sobre o que o seu Arcano tem a ver com o que foi vivido naquele dia. A ideia é que, com o tempo, você se torne tão afinado com o tarot que já vai saber qual é a carta antes mesmo de desvirá-la. Eventualmente, você também poderá desvirar a carta logo cedo e prever como será o seu dia, de tão adaptado que estará ao seu tarot.

O cético poderá ficar boquiaberto ao perceber que isso, de alguma forma estranha, funciona. Afinal, o que diabos seria se conectar, se afinar ou se adaptar ao tarot? Ora, no espiritualismo em geral há vários nomes para isso, mas no Brasil nos acostumamos a usar o termo mediunidade.

Há inúmeras teorias acerca de como e porque a mediunidade pode funcionar, mas podemos resumir em, talvez, três grandes hipóteses:

A primeira postula que o nosso inconsciente é algo muito mais vasto que nossa experiência consciente, e assim ele guarda consigo uma imensidão de informações que, no dia a dia, são simplesmente filtradas de nossa consciência, do contrário a vida seria impossível. Pense na quantidade de informação que uma pessoa moderna, moradora de alguma metrópole e conectada as redes sociais, acessa de alguma forma todo santo dia. Decerto muita coisa é varrida para debaixo do tapete da consciência, rumo ao inconsciente. A mediunidade poderia ser uma forma de acessar pedacinhos específicos desse inconsciente. Isso explicaria como podemos nos autoconhecer melhor através do tarot, mas se formos considerar que o tarot também pode trazer respostas acerca da vida de outras pessoas, isso só poderia ser viável através do acesso ao inconsciente coletivo proposto por Jung.

A segunda hipótese diz respeito à ideia de um anjo da guarda, Eu Superior ou Sagrado Anjo Guardião, ou ainda, a entidades espirituais em geral, sejam elas espíritos desencarnados ou deuses. Através da mediunidade, todos poderíamos nos conectar e conversar de alguma forma com tais seres do chamado mundo astral, e o tarot nada mais seria do que uma dessas interfaces – assim como, por exemplo, o jogo de búzios no candomblé ou a psicografia no espiritismo. Tais entidades não necessariamente seriam externas: há teorias que afirmam que o Sagrado Anjo Guardião, por exemplo, é nós mesmos em algum futuro distante, onde saberíamos tudo o que se passou nos milhares de anos de caminho espiritual. Segundo essa teoria, nós usaríamos o tarot para fazer perguntas a nós mesmos no futuro. Dá um baita filme de ficção científica!

Finalmente, a terceira hipótese, de longe a mais metafísica, parte da ideia que veio do hermetismo e afirma basicamente que “o Todo é mente”. Simplificando bastante, isso quer dizer que quem ou o que criou o espaço-tempo está, sempre esteve e sempre estará presente nele. Ou seja, não haveria nada no cosmos fora ou mesmo longe deste Todo, que é tudo o que existe. E, como fomos criados “a sua imagem e semelhança” ou, para citar outro conceito hermético, “o que está em cima é como o que está embaixo”, este Todo é tão mente quanto a gente: nós fazemos parte dele, somos como personagens na sua história. Nesse sentido, enquanto o inconsciente coletivo de Jung seria, para nós, inconsciente, para o Todo ele seria pura consciência – consciência universal. E, sim, isso tudo quer dizer que nós usaríamos o tarot para fazer perguntas diretamente a Deus, ou como queira chamá-Lo.

Seja de que ponto de vista você observe o tarot, fato é que há que se ter certa humildade diante dele, afinal ninguém, absolutamente ninguém, pode dizer que o compreendeu inteiramente. Nossa vida está e sempre estará nas cartas, mas as cartas são lâminas espelhadas, não estão vivas: refletem a vida. Há quem use tais lâminas para objetivos mesquinhos e egóicos, e se cortam nelas, e sangram sem necessidade. Mas há quem compreenda que elas podem refletir a luz do Alto, e assim jogar luz na escuridão da inconsciência, e tornar nosso caminho como um todo mais prazeroso, mais iluminado e mais colorido. A luz foi criada para ser refletida, e ela tem muitas cores!

***

[1] Alguns podem dizer que isso teria mais a ver com o próprio Arcano da Morte. Ora, mas é preciso lembrar que o Louco se encontra espalhado por todos os outros Arcanos. Ou foi só um erro de tradução mesmo...

Bibliografia
Para esta série nos valemos de conhecimentos e trechos obtidos nos livros História do Tarô (Isabelle Nadolny; tradução Luciana Soares da Silva; Editora Pensamento), Tarot Hermético (Marcelo Del Debbio e Priscilla Martinelli; Daemon Editora) e O Homem e seus Símbolos (Carl G. Jung e colaboradores; tradução Maria Lúcia Pinho; Harper Collins), no portal Clube do Tarô (por Constantino K. Riemma e outros colaboradores) e nos cursos Os Mistérios do Tarot – Arcanos Maiores e Menores (Marcelo Del Debbio) e Tarot: Os Mitos Modernos e a Cultura Pop (Rodrigo Grola e Marcos Keller).

Crédito das imagens (com links da maioria dos tarots na Amazon): [topo] Jack Sephiroth/Heaven & Earth Tarot (a imagem traz o Louco, e este tarot é obviamente uma releitura do Tarot de Waite-Smith); [ao longo] Anônimo e Pamela Smith (a imagem traz o Louco no Tarot de Marselha e no Tarot de Waite-Smith); Roe Mesquita (a imagem traz o Louco no Tarot da Reflexão, do qual sou cocriador, mas não ilustrador); Jen Theodore/unsplash (na imagem, o Wild Unknown Tarot, de Kim Krans).

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16.6.22

Nossa vida nas cartas (parte 2)

« continuando da parte 1

No início do século XX um homem teve um sonho muito curioso, que de certa forma mudou a história da psicologia. Eis o seu relato em primeira mão [1]:

“Sonhei que estava em minha casa, aparentemente no primeiro andar, numa sala de estar muito confortável e agradável, mobiliada no estilo do século XVIII. Estava admirado por nunca ter estado naquela saleta antes, e começava a me perguntar como seria o andar térreo. Desci e cheguei a um cômodo bastante escuro, de paredes almofadadas e uma mobília do século XVI, ou talvez mais antiga ainda. Minha surpresa e curiosidade aumentaram. Queria conhecer toda a disposição da casa. Desci então ao porão, onde encontrei uma porta que abria para uma lance de degraus de pedra, levando a uma grande sala abobadada. O piso era de enormes lajes de pedra e as paredes pareciam muito antigas. Examinei a argamassa e verifiquei que estava misturada a pedaços de tijolos. Obviamente eram paredes de origem romana. Sentia-me cada vez mais agitado. Num canto vi uma laje com uma argola de ferro. Puxei a argola e encontrei outro lance de degraus estreitos que conduziam a uma gruta, uma espécie de sepultura pré-histórica, onde se encontravam duas caveiras, alguns ossos e cacos de cerâmica. Nesse momento acordei.”

Este homem era Carl Gustav Jung, e foi ele próprio quem decifrou seu sonho, associando-o ao desenrolar da própria vida ou, mais especificamente, ao desenvolvimento de sua mente, desde a infância. Jung cresceu numa casa que tinha duzentos anos, filho de pais protestantes (o pai era reverendo luterano), tendo estudado as filosofias de Kant e Schopenhauer na juventude. O grande acontecimento da época era o trabalho de Charles Darwin. Até ali, o jovem ainda vivia orientado pelos conceitos medievais de seus pais, para quem o mundo humano ainda era conduzido primordialmente pela providência divina. Logo aquela visão tornou-se para ele antiquada, e sua fé cristã perdeu preponderância ao se ver defrontada com as religiões orientais e a filosofia grega. Depois, eventualmente se interessou por paleontologia e, enquanto foi assistente em um instituto de pesquisas na área, ficou fascinado com fósseis de hominídeos ancestrais. Tudo isso estava descrito de alguma forma em seu sonho, e Jung viu tudo isso analisando-o desperto, mas optou por não falar sobre sua autoanálise a Sigmund Freud, de quem ainda era grande colaborador na época:

“Logo verifiquei que Freud procurava algum “desejo inconfessável” no meu sonho. Por isso sugeri que as caveiras poderiam referir-se a alguns membros da minha família cuja morte eu desejasse, por um motivo qualquer. [...] Mas não se tratava do sonho de Freud, e sim do meu. Num lampejo intuitivo compreendi o que meu sonho queria me dizer. Tal conflito ilustra um ponto vital na análise dos sonhos: é menos uma técnica que se pode aprender e aplicar de acordo com certas regras do que uma troca dialética entre o analista e o sonhador. [...] Assim, eu desejava que o processo de cura nascesse da própria necessidade do paciente analisado, e não de minhas sugestões enquanto analista, que teriam apenas um efeito passageiro.”

Pouco depois de chegar a tais conclusões, Jung rompeu sua célebre parceria com Freud, e os dois grandes expoentes da psicologia do século XX passaram a seguir caminhos consideravelmente diversos na exploração do inconsciente humano. Eventualmente, Jung chegou a uma ideia que até hoje é polêmica: a de que o inconsciente humano poderia ser coletivo. Que, assim como uma cidade grande cresce, ao longo dos séculos, sobre as ruínas de bairros antigos, e assim como o próprio cérebro humano segue uma evolução parecida, com áreas associadas aos instintos animais sendo incrementadas com outras bem mais sofisticadas, relacionadas a raciocínios complexos, o mesmo se deu com a própria cultura humana, seus símbolos, deuses, heróis etc.

Para elaborar sua tese, Jung foi profundamente influenciado pelas ideias de Darwin. Ele dizia que nossa mente jamais poderia ser um produto sem história, ao contrário de nosso corpo, cuja história evolutiva pode ser traçada até pequenos mamíferos roedores que viveram há dezenas de milhões de anos. E, se houve um longo desenvolvimento do corpo humano, se por milhões de anos fomos mais animais que homens, o mesmo se deu com a mente. Para Jung, essa parte infinitamente antiga da mente é na realidade a base sobre a qual todo o resto foi erguido. Assim, em toda mente humana há “resíduos arcaicos”, “imagens primordiais” ou, para usar um termo que ficou para a história: arquétipos.

Mas tais arquétipos, ao contrário do que muitos são levados a pensar, não têm nada que ver com imagens específicas ou temas mitológicos bem definidos. Isso é o que se dá em cada geração ou grupo de gerações humanas, nesta ou naquela cultura. O arquétipo é algo anterior: é uma tendência a formar essas mesmas representações de um motivo (que podem ter inúmeras variações de detalhes) sem perder a sua essência ou configuração original.  O arquétipo é muito mais uma tendência instintiva do que algo que possa ser definido racionalmente, é como o impulso das aves para fazer seu ninho ou o das formigas para se organizarem em colônias: se nos pedem para definir racionalmente porque damos tanto valor a grandes heróis ou a uma ideia de Grande Mãe, não sabemos explicar bem o porquê, da mesma forma que uma abelha não saberia explicar porque se dedica tanto a produção de mel.

O próprio Jung nos traz um belo exemplo de como foi um arquétipo que deu origem à figura do Cristo:

“A ideia geral de um Cristo Redentor pertence ao tema universal e pré-cristão do herói e salvador que, apesar de ter sido devorado por um monstro, reaparece de modo milagroso, vencendo seja qual for o animal que o engoliu. Onde e quando essa imagem surgiu, ninguém sabe. E tampouco sabemos de que maneira conduzir tal investigação. A única certeza aparente é que essa imagem parece ter sido conhecida tradicionalmente em cada geração, que por sua vez a recebeu de gerações precedentes. Assim, podemos supor que a sua “origem” vem de um período em que o homem ainda não sabia que possuía o mito do herói; numa época em que nem mesmo refletia, de maneira consciente, sobre aquilo que fazia. A figura do herói é um arquétipo – existe desde tempos imemoriais.”

Finalmente retornando ao tarot, creio que já sabem onde quero chegar: assim como as figuras mitológicas em suas variadas representações, os Arcanos Maiores do tarot foram sendo construídos com o tempo, muito embora ninguém saiba ao certo por quem, e com que intenção. É que se trata essencialmente de uma criação coletiva, uma criação do inconsciente humano: nossa vida está nas cartas porque elas também espelham arquétipos. É nesse sentido que o tarot pode ser “declarado egípcio”, não porque tenha sido criado por um sacerdote específico há milhares de anos, mas porque, assim como nossos mitos mais antigos, o tarot diz respeito a arquétipos que se recusaram a desvanecer no tempo.

Um analista meticuloso da simbologia dos 22 Arcanos Maiores que compõem o tarot atual, baseados em baralhos clássicos como o Tarot de Marselha, dirá que eles surgiram da Europa cristã de cerca de 500 anos atrás, com representações do poder (o Papa, o Imperador, a Papisa, a Imperatriz), de três das virtudes cardeais (a Força, a Temperança, a Justiça), de alegorias religiosas (a Morte, o Diabo, a Casa de Deus – mais tarde, a Torre –, o Juízo Final ou Julgamento), de símbolos da cultura popular da época (a Roda da Fortuna, o Amor ou Enamorados, o Carro, o Louco, Bobo da Corte ou Andarilho) e, enfim, os planetas e os astros (a Estrela, a Lua, o Sol, o Mundo). No entanto, também sabemos que já existiram baralhos com número diferente de Arcanos, em ordenações diversas e com incontáveis representações pictóricas – afinal, até hoje a essência de um baralho de tarot original consiste em trazer novas imagens, e não as mesmas de séculos atrás, e nos primórdios não foi diferente. Ora, até mesmo o próprio Marselha teve versões bem específicas para regiões protestantes da Europa, onde o Papa e a Papisa foram substituídos pelos deuses Júpiter e Juno.

O que isso tudo quer dizer é que, à luz dos arquétipos e do conceito de inconsciente coletivo, pouco importa quem criou o primeiro tarot, quantos eram os seus Arcanos Maiores e quais eram exatamente suas imagens e simbologia: o tarot não se tornou tão difundido por um pretenso mistério acerca de suas origens, o tarot importa, e continuará importando por séculos e séculos, justamente por não sabermos ao certo de onde veio, e porquê. Essa resposta cabe a cada geração humana.

» Na sequência, por que o tarot não funciona.

***

[1] Os parágrafos com trechos entre aspas foram retirados do livro de Jung na Bibliografia.

Bibliografia
Para esta série nos valemos de conhecimentos e trechos obtidos nos livros História do Tarô (Isabelle Nadolny; tradução Luciana Soares da Silva; Editora Pensamento), Tarot Hermético (Marcelo Del Debbio e Priscilla Martinelli; Daemon Editora) e O Homem e seus Símbolos (Carl G. Jung e colaboradores; tradução Maria Lúcia Pinho; Harper Collins), no portal Clube do Tarô (por Constantino K. Riemma e outros colaboradores) e nos cursos Os Mistérios do Tarot – Arcanos Maiores e Menores (Marcelo Del Debbio) e Tarot: Os Mitos Modernos e a Cultura Pop (Rodrigo Grola e Marcos Keller).

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Carl Jung); [ao longo] Marcos Paulo Prado/unsplash (Cristo Redentor, no Rio de Janeiro); Manik Roy/unsplash (Tarot Mitológico).

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15.6.22

Nossa vida nas cartas (parte 1)

Ainda me lembro bem do dia em que descobri o que era o tarot (ou tarô): fui encontrar meu amigo Marcelo Del Debbio enquanto ambos estávamos no Rio de Janeiro, e como a agenda dele estava concorrida, ficamos de almoçar juntos no intervalo da aula que ele estava ministrando próximo ao Largo do Machado. Era um sábado, e ele havia alugado uma sala em um colégio da região. Foi só quando cheguei que soube que ainda levaria cerca de meia hora de aula para o intervalo do almoço, e decidi entrar e assistir um pouco.

Já alojado em minha cadeira ginasial, recordando com um sorriso meio amargo dos tempos de escola, olhei para o quadro onde a apresentação estava sendo projetada e vi alguma pintura que me lembrou um dos meus artistas prediletos, Albrecht Dürer. Na sequência, uma outra mais conhecida, O Andarilho, do grande Hieronymus Bosch. Foi só aí que me dei conta de que o tema daquele curso era Os Arcanos Maiores do Tarot. Mas, como sou formado em Belas Artes e conhecia boa parte daqueles artistas, decidi prestar um pouco mais de atenção, afinal até então o tarot para mim era alguma outra coisa que, decididamente, tinha pouco a ver com a história da pintura.

Foi naquela meia hora que eu descobri que estava redondamente enganado sobre o que era, afinal, o tarot. Até aquele dia eu achava que se tratava de um oráculo divinatório em formato de baralho (ou algo assim), no entanto, enquanto o Marcelo explicava sobre dois dos vinte e dois Arcanos Maiores, o Louco e o Mago, eu percebi que o tarot definitivamente era muito, muito mais do que isso.

Isso foi há cerca de uma década, a data e mesmo o ano exato, já não lembro ao certo. De lá para cá eu estudei bastante, fiz o curso do Del Debbio a distância e até mesmo cheguei a iniciar a cocriação do meu próprio tarot, mas em todo esse tempo ainda não cheguei a uma conclusão acerca do que é exatamente esse jogo que, de alguma forma estranha, parece trazer nossa vida nas cartas de um baralho.

No meio ocultista e nos círculos esotéricos em geral o tarot é considerado algo muito, muito antigo, possivelmente da antiguidade egípcia. Já entre os céticos, o tarot é uma invenção moderna, com cerca de 500 anos, e 99% dos baralhos atuais têm menos de um século de idade. O mais impressionante é que ambos, de alguma forma, parecem estar certos.

Para entender com isso se dá, é preciso primeiro compreender em que contexto o tarot foi “declarado egípcio”. Antoine Court de Gébelin nasceu em uma família protestante francesa em torno de 1725. Como a França vivia uma época conturbada, seu pai, que era pastor, exilou-se com a família na Suíça a partir de 1730. Gébelin voltou à França só após a morte dos pais, em 1763, quando também já era doutor em teologia. Sua ascensão na chamada alta sociedade parisiense foi meteórica: escritor coroado pela Academia Francesa e membro de outras academias, censor do reino, erudito, gramático e especialista em mitologia, eventualmente também se tornou maçom. Em 1768, decidiu publicar um projeto grandioso, uma obra “que seria a chave de todos os séculos e de todos os conhecimentos humanos”. Lançou uma espécie de financiamento coletivo que, na época, dependia basicamente do dinheiro dos reis, príncipes e nobres em geral. Mas, ao contrário de outros enciclopedistas comuns em seu tempo, seu objetivo era outro. Gébelin não desejava listar os conhecimentos de seu próprio século, e sim buscar a fonte comum de todos os saberes humanos por meio de uma ampla síntese. O nome do seu projeto era O Mundo Primitivo.

Mais de mil assinantes sustentaram a empreitada. Ele queria publicar um volume de cerca de setecentas páginas por ano, até completar nove deles. E assim foi: entre 1773 e 1784, Gébelin escreveu mais de 6 mil páginas! Mesmo assim, tocou diversos outros projetos ao longo da escrita. Em 1780, tornou-se presidente de uma sociedade que mais tarde daria origem ao Museu de Paris, e financiou quase a metade dos seus projetos. Apesar de sua notoriedade, Gébelin não tinha linhagem na nobreza ou alguma herança familiar relevante, e quando morreu, em 1784, estava cheio de dívidas.

Ainda que tenha escrito sobre uma vasta amplitude de assuntos, Gébelin foi lembrado pela história basicamente pelo que falou sobre o tarot. Isso se deu no tomo VIII do Mundo Primitivo, cujos temas eram “a história, o brasão, as moedas e os jogos”. Lá pelas tantas, ele narra que foi convidado por uma amiga a conhecer o “Jogo dos Tarôs” junto com alguns amigos em comum e que, em dado momento, decidiram analisar com mais calma cada um dos Arcanos Maiores:

“Tivemos o cuidado de [iniciar pela] mais caricatural dentre as figuras, que não apresentava nenhuma relação com seu nome: o Mundo. Observo-a e logo reconheço a alegoria. Todos [vêm] para ver esta carta maravilhosa, na qual percebo o que os outros nunca viram; cada um me mostra outra carta e, em 15 minutos, o jogo é examinado, explicado, declarado egípcio e, como esse não era o jogo que havíamos imaginado, mas o efeito de suas relações escolhidas e sensíveis com tudo o que conhecemos das ideias egípcias, comprometemo-nos a divulgá-lo algum dia ao público: [...] um livro egípcio que teria escapado da barbárie, da destruição pelo tempo, dos incêndios e da ignorância. [Eis o] efeito necessário da forma frívola e leviana desta obra, que lhe possibilitou vencer todas as épocas e chegar até nós com uma rara fidelidade: a ignorância na qual nos encontramos até agora a respeito do que ela representava foi um feliz salvo-conduto que lhe permitiu atravessar tranquilamente todos os séculos sem que se pensasse em fazê-la desaparecer.”

Segundo o próprio Gébelin esclarece em seu texto, o objetivo daquele encontro não era investigar a simbologia do tarot, foi algo que ocorreu espontaneamente, e até a data ele praticamente ignorava a sua existência. Apesar disso, em cerca de quinze minutos, aquele estranho jogo foi “examinado, explicado e declarado egípcio”. Daquele dia em diante, essa ideia nunca mais seria esquecida.

Gébelin teve em mãos uma das inúmeras versões do chamado Tarot de Marselha, um dos baralhos clássicos, cuja origem remonta ao século XV e ao norte da Itália. Ele poderia ter criado um novo tarot com simbologia claramente egípcia, ao contrário daquele que, como veremos, está carregado de símbolos da Europa medieval. Se não o fez, é possivelmente por duas razões: primeiro, porque tinha honestidade intelectual; e segundo, porque acreditava que a simbologia medieval também era uma herança de ideias mais antigas. Assim, é perfeitamente possível que, do ponto de vista de Gébelin, ser “declarado egípcio” era o mesmo que ser “declarado muito, muito antigo”. Afinal, se alguém passa quase uma década pesquisando e escrevendo sobre como as ideias de um “mundo primitivo” ainda reverberam em seu tempo, é porque ele não precisava ver uma esfinge ou uma pirâmide para reconhecer que algumas das questões mais antigas do espírito humano simplesmente não podem ir embora, não podem ser totalmente esquecidas, são como histórias reencenadas em cada novo tempo por um novo conjunto de símbolos, de personagens, mas não obstante com sua essência intacta.

Se isso for verdade e soubermos interpretar o que Gébelin quis dizer de fato, isso não invalida os registros históricos que nos dizem que o tarot não pode ter muito mais do que 500 anos; mas, ao mesmo tempo, é preciso ter olhos para reconhecer o que o tarot tem de “egípcio”, no que ele dialoga com assuntos que habitam o espírito humano há milênios, até mesmo muito antes da primeira pirâmide ser erguida no norte africano. E, para tal análise, vamos precisar da ajuda da psicologia do século XX.

» Na sequência, uma coleção de arquétipos.

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Bibliografia
Para esta série nos valemos de conhecimentos e trechos obtidos nos livros História do Tarô (Isabelle Nadolny; tradução Luciana Soares da Silva; Editora Pensamento), Tarot Hermético (Marcelo Del Debbio e Priscilla Martinelli; Daemon Editora) e O Homem e seus Símbolos (Carl G. Jung e colaboradores; tradução Maria Lúcia Pinho; Harper Collins), no portal Clube do Tarô (por Constantino K. Riemma e outros colaboradores) e nos cursos Os Mistérios do Tarot – Arcanos Maiores e Menores (Marcelo Del Debbio) e Tarot: Os Mitos Modernos e a Cultura Pop (Rodrigo Grola e Marcos Keller).

Crédito das imagens: [topo] Hieronymus Bosch (O Andarilho); [ao longo] Google Image Search (Antoine Court de Gébelin e alguns arcanos do Tarot de Marselha – incluindo O Mundo, à direita).

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