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20.10.26

Traduzindo a Montanha Mágica (parte final)

« continuando da parte 3


Segundo a imensa maioria dos críticos e analistas literários, A Montanha Mágica traz discussões políticas e filosóficas que resumem boa parte das ideias em circulação no Ocidente pré-Grande Guerra (como era conhecida a Primeira Guerra Mundial, antes de ter havido uma segunda). Tais debates se dão quase sempre entre dois personagens, Ludovico Settembrini e Leo Naphta, homens maduros que disputam a consciência do jovem Hans Castorp, tentando moldar suas ideias.

Não nego, obviamente, que seja assim. No entanto, me parece que Mann estava falando de coisas que iam muito além de um momento específico do início do século 20. E isso se dá justamente quando, em dado momento da obra, as palavras e as discussões se dissolvem, e os temas atrelados a um momento do tempo são vencidos por uma percepção atemporal da própria existência.

Antes de chegar lá, entretanto, temos de passar pelos personagens em questão, e por seu longo duelo pela “alma” do herói da história:

O italiano Ludovico Settembrini é quem primeiro aparece na obra. É apresentado logo cedo a Hans Castorp, enquanto o jovem ainda imaginava que passaria não mais que algumas semanas visitando o primo no Sanatório Berghof. Ele rapidamente se torna uma espécie de mentor intelectual de Hans Castorp. Settembrini representa os ideais da chamada “civilização Ocidental”, do Renascimento e do Iluminismo – em suma, razão, liberdade individual, humanismo e progresso.

Já Leo Naphta surge apenas na segunda metade do livro. Trata-se de um judeu polonês de juventude conturbada, que eventualmente se torna um jesuíta de pensamento radical. Desde o primeiro momento em que ele é introduzido na trama fica claro que, embora sejam amigos, a relação de Settembrini e Naphta é marcada por profundas discordâncias de ideias.

Mann esboça seus personagens colocando-os uns contra os outros, em vez de descrevê-los diretamente. Naphta é caracterizado em função de seu adversário intelectual, Settembrini. A perspicácia intelectual de Naphta se iguala à do italiano, mas sua mentalidade é essencialmente irracional. Enquanto para Settembrini a morte é apenas a ausência de vida, Naphta insiste que a morte se encontra em um reino próprio, metafísico: independente da vida, a morte trava uma batalha perene contra ela. Seu dualismo é, portanto, a base de sua glorificação da doença, do sofrimento e da morte. Seu amor pelos extremos e seu desprezo pelos ideais humanistas o levam a defender a Inquisição e os aspectos autoritários do catolicismo e do comunismo.

Após a primeira aparição de Naptha, invariavelmente a história se desenrola através das discussões cada vez mais longas e complexas entre o religioso e o humanista. Em meio ao embate de ideias, Hans Castorp ora se vê considerando um lado, ora o outro, e em seus pensamentos ficam claras as contradições presentes no pensamento de cada um deles. Neste momento da obra ao meu ver fica claro o porquê de, mesmo aqui, o jovem Hans Castorp continuar sendo o herói da história: pois ainda que não tenha nem um terço do conhecimento e da experiência de vida dos dois debatedores que disputam sua simpatia, ele é herói justamente por buscar pensar por si mesmo, erigindo as próprias ideias, muitas vezes formadas por parte de um lado, e parte de outro. Este tipo de heroísmo é bem raro, e segue sendo necessário até os dias de hoje.

E assim os debates vão se tornando cada vez mais enérgicos, complexos, no fundo sem sentido, já que em dado momento já não há nada mais a ser acrescentado, e a opinião de um e de outro debatedor não muda sequer uma vírgula. Nestes trechos, o próprio autor procura deixar claro que todo debate do tipo – onde as pedras já não se chocam buscando produzir novas faíscas, novas ideias, mas tão somente tiram lascas umas das outras – nos leva inexoravelmente a tragédia do extremismo, da polarização sem volta... e, para sairmos dessa armadilha, é preciso abandonar as palavras, ir além delas.

Então Clavdia Chauchat enfim retorna ao Sanatório (ela havia ido embora logo após a tal noite de Carnaval), e desta vez com um homem mais velho, uma espécie de amigo íntimo e amante, Mynheer Peeperkorn.

Trata-se de um rico plantador de café holandês aposentado que passou anos em Java, nas Índias Orientais Holandesas. Tão ou mais doente que Settembrini e Naphta, ele passa boa parte dos dias no Sanatório ou acamado ou celebrando a vida, geralmente bebendo e se mantendo embriagado a maior parte do tempo. No entanto, Peeperkorn tem uma personalidade tão magnética, um carisma pessoal tão avassalador, que sua mera presença em qualquer roda social ofusca os demais debatedores, como se suas palavras e argumentos lógicos simplesmente se dissolvessem na presença de algo maior, mais misterioso, atemporal.

Com seu hedonismo radical, sua entrega completa e absoluta ao reino das emoções, Peeperkorn é de longe o personagem mais interessante do livro como um todo, muito embora apareça mais para o final. Aliás, é interessante dizer que, quando falo em “dissolvimento das palavras”, isso também ocorre literalmente no texto da obra, em praticamente todas as falas de Peeperkorn. Isso trouxe um desafio de tradução que suplanta quaisquer outras partes do livro. Abaixo, trago um de seus diálogos como exemplo, na minha tradução:

“Cavalheiros”, disse o holandês, levantando a mão de capitão com as unhas pontiagudas, num gesto imperial. “Tudo bem, cavalheiros, concordo, excelente! O ascetismo... a indulgência... o prazer dos sentidos... deixe-me dizer isso... certamente! Muitíssimo importante! Muitíssimo controverso! E, no entanto, permita-me dizer... temo que estejamos prestes a cometer... senhoras e senhores, estamos evitando, estamos irresponsavelmente evitando o mais sagrado dos...” – ele respirou fundo. “Este ar, senhoras e senhores, o ar de hoje é tão rico em caráter, tão ternamente sugestivo e reminiscente da fragrância da primavera. Não devemos respirá-lo apenas por respirar... eu imploro a vocês: não devemos fazê-lo. Isso é um insulto! É unicamente a ele que deveríamos dedicar toda a nossa... a suprema e mais intensa... Isso basta, senhoras e senhores! E o nosso peito, esse que o respira, deveria louvá-lo sem restrições... É até aqui que eu chego, senhoras e senhores, em homenagem a esse...” – ele parou de falar; inclinou-se para trás, com o chapéu sombreando os olhos, e todos seguiram seu exemplo.
“Chamo sua atenção”, disse ele, “para as alturas acima, muito acima de nós, para aquela mancha negra circulando lá no alto, contra o azul meio escurecido – é uma ave de rapina, uma imensa ave de rapina. E, se eu não estou muito enganado, meus senhores, e você, minha filha, trata-se de uma águia. Eu conclamo a atenção de todos para isso – vejam lá! Isso não é urubu, não é abutre... Se os senhores tivessem as mesmas dificuldades de enxergar que eu, na minha avançada... Sim, minha filha, já é avançada... Meus cabelos estão brancos, ou não estão? Bem, vocês poderiam ver ainda melhor que eu... vejam, a curva obtusa das asas... É uma águia, senhoras e senhores! Uma águia real.
Ela circula diretamente acima de nós, pairando no azul, sem bater as asas, lá naquelas alturas magníficas – e, com certeza, nos espia com seus olhos poderosos, que enxergam longe, sob os ossos salientes das órbitas... A águia, senhoras e senhores, a ave de Júpiter, a rainha de sua espécie, a leoa dos ares! Ela tem pernas emplumadas e um bico de ferro, curvado na ponta... e garras de poder horrendo, garras que se voltam para dentro... e uma longa garra traseira que forma um gancho de ferro com as da frente. Olhem lá, é assim mesmo!” – e ele tentou imitar a garra de uma águia com sua própria mão de capitão, com unhas de lança. “Minha companheira, por que você fica aí circulando, nos espiando?” – e de novo dirigiu seu olhar para cima. “Desça já aqui! Crave seu bico de aço na cabeça de alguém, dilacere seu ventre, o ventre do homem... a criatura a quem Deus... Perfeito! Liquidado! Suas garras ficarão emaranhadas em suas entranhas, e seu bico pingará sangue...”

Por focar mais nas emoções sentidas do que na lógica ou na descrição do que é percebido, a presença de Peeperkorn por si só encerra a fase de debates intelectuais da obra, e a encaminha para seu final.

Obviamente eu teria muito mais coisas a falar sobre este livro de proporções bíblicas que marcou a literatura do século 20. Poderia relatar a interessante relação a três entre Hans Castorp, madame Chauchat e Peeperkorn, uma espécie de defesa da não monogamia, antes mesmo do termo ter ido inventado; poderia falar de como Mann conhecia profundamente a história da Maçonaria, ao ponto de ter um dos principais personagens da obra, o sr. Settembrini, como um maçom; poderia, finalmente, falar da viagem mística de Hans Castorp em sua arriscada caminhada nas montanhas, quando teve de sobreviver a uma nevasca – isto é, se é que as palavras dariam conta de abarcar o evento...

Mas, após 16 meses de tradução e 3 artigos sobre A Montanha Mágica, me retiro dos Alpes neste quarto e último artigo, já que não se pode abandonar o mundo das planícies por completo, ao menos não enquanto estamos aqui, encarnados em carne, osso e coração.

***

Crédito das imagens: [topo] Google Gemini AI (sr. Settembrini); [ao longo] Google Gemini AI (Leo Naphta e Peeperkorn).

Você pode encontrar minha tradução de A Montanha Mágica em ebook ou na versão impressa, ambas disponíveis na Amazon.

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28.9.26

Lançamento: A Ciência da Religião, de Yogananda

As Edições Textos para Reflexão voltam a publicar Yogananda!

Em A Ciência da Religião, temos a compilação da primeira palestra de Paramahansa Yogananda no Ocidente, dada em 1920 num Congresso em Boston, nos EUA.

A nova tradução de Rafael Arrais já está disponível em e-book e também na versão impressa:

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21.8.26

Traduzindo a Montanha Mágica (parte 3)

« continuando da parte 2


A Montanha Mágica possui uma personagem feminina que em boa parte do livro (ao menos enquanto está residindo no Sanatório Berghof) chega a rivalizar com o protagonismo de Hans Castorp. A sua primeira aparição na história se dá quando Hans Castorp decide se virar da cadeira e descobrir quem diabos efetivamente deixa a porta do refeitório bater estrondosamente sempre que adentra o recinto. Apesar de obeservá-la de longe, Hans Castorp presta grande atenção às suas mãos, que de certa forma servem como metáfora para a sua própria personalidade, e também para o que Hans Castorp supunha dela (eis o trecho em questão, na minha tradução):

“Enquanto caminhava, ela manteve uma mão no bolso de sua jaqueta de lã, enquanto a outra estava ocupada na parte de trás da cabeça, arrumando o cabelo. Hans Castorp olhou para aquela mão – ele tinha um bom olho e um bom senso crítico para as mãos, e era seu hábito sempre primeiro dirigir seu olhar para elas ao conhecer alguém. A mão que arrumava seus cabelos não era particularmente feminina, não era refinada ou bem cuidada, não da maneira como as damas do círculo social do jovem Hans Castorp cuidavam delas. Era bastante larga, com dedos grossos; havia algo primitivo e infantil ali, um pouco como a mão de uma colegial. Suas unhas claramente nunca tinham visto uma manicure, e haviam sido aparadas descuidadamente – novamente, como as de uma estudante; e as cutículas tinham um aspecto irregular, quase como se ela fosse culpada do pequeno vício de roer as unhas. Hans Castorp apenas supôs tudo isso, no entanto, mais do que efetivamente viu – ela estava realmente muito longe.”

Antes de prosseguir falando sobre madame Chauchat, a personagem em questão, é preciso voltar o olhar para o próprio Hans Castorp. O leitor atento deve ter percebido, não somente neste trecho, como em muitos outros, como Hans Castorp presta atenção excessiva a maneira como os homens e mulheres se vestem. Em dado momento, fica claro que o autor quer nos dizer algo com isso, nem que seja nas entrelinhas... Ora, e me parece inescapável concluir que Hans Castorp, o “herói” da obra-prima de Thomas Mann, tem um lado feminino bastante aflorado, embora jamais assumido abertamente – nem mesmo em seus próprios pensamentos.

Isso fica ainda mais evidente quando descobrimos que Hans Castorp está apaixonado por madame Chauchat, e toda a cena onde eles finalmente conversam, após meses de convívio, carrega uma associação clara com uma “paixão” anterior do jovem, ainda na época da escola, quando ele também pede um lápis emprestado à pessoa – isto é descrito num sonho, e ainda no sonho ele confunde a pessoa que empresta o lápis com a própria madame Chauchat, que depois de fato lhe empresta um lápis numa noite de Carnaval. Bem, e essa pessoa do sonho, da época da escola, é um jovem, um homem, Pribislav Hippe (há, inclusive, um subcapítulo intitulado “Hippe”).

A genialidade do autor se dá justamente na descrição de tudo isso, do sonho, da associação de Hippe e Chauchat, dos lápis emprestados... É tudo simplesmente tão “suave”, tão nas entrelinhas, que posso apostar que a maioria dos leitores da época (quiçá de hoje em dia também) sequer percebeu que Hans Castorp é bissexual. Além disso, nem mesmo o próprio Hans Castorp compreende isso, já que em nenhum momento associa a sua paixão por Hippe à algo propriamente sexual (embora claramente o fosse).

Thomas Mann foi casado com Katia Mann, com quem teve seis filhos, mas ao longo da vida sentiu forte atração sexual por outros homens, o que foi devidamente registrado em seus diários, e explorado mais abertamente em outra obra, Morte em Veneza. Mann soube descrever uma “bissexualidade enrustida” de forma tão competente justamente por ele mesmo ser, tal qual Hans Castorp, bissexual.

Ainda assim, A Montanha Mágica não tem realmente muitas personagens femininas interessantes. A maioria é ou funcionária do sanatório, ou alguma paciente sem muita coisa para acrescentar à história. O próprio Hans Castorp perdeu a mãe cedo, e não tem nenhuma figura feminina como referência. Pode-se dizer até que, além de bissexual enrustido, ele era claramente machista. Assim, Mann investiu todo o seu lado feminino em madame Chauchat, e ela sozinha compensa todo um conjunto de personagens femininas desinteressantes.

Logo depois que analisa suas mãos, Hans Castorp pergunta do seu marido para sua colega de mesa, e recebe a resposta de que “ele nunca esteve aqui, nem uma vez; nenhum de nós saberia reconhecê-lo.”

Assim, em pleno início de século 20, madame Chauchat é uma mulher de ascendência russa que, sofrendo de tuberculose, vai se hospedar sozinha numa sanatório nos Alpes e não é nem uma vez visitada pelo marido. Além disso, como dito na primeira observação de Hans Castorp, ela “não era particularmente feminina, refinada ou bem cuidada”... Seja como for, isso tudo não impediu Hans Castorp de se apaixonar por ela, tampouco de ir descobrindo sua beleza, pouco a pouco, independentemente do seu “refinamento”.

Madame Chauchat representa sobretudo o lado “selvagem” do feminino que não se adequa às regras patriarcais. Ela é livre, vai aonde quer (mesmo sendo sustentada pelo marido), veste-se como quer (sem se preocupar em agradar homens com senso crítico para as mãos) e, para além de tudo isso, não fala muito bem alemão, mas apenas o russo e o francês.

Isso nos leva para um dos momentos essenciais da obra, quando Hans Castorp e madame Chauchat travam uma longa conversa numa noite de Carnaval; mas boa parte dela se dá em francês, e não no alemão, inclusive no original!

Thomas Mann escreveu esses diálogos diretamente em francês, e não em alemão para depois traduzir. Embora seu próprio francês não fosse perfeito, ele usou o idioma para criar um efeito específico, como ele mesmo confessou. Presumivelmente a sua principal intenção era enfatizar a tensão e o contraste entre a rígida cultura alemã e a espontaneidade mais associada à cultura francesa. De início, Hans Castorp ainda usa o alemão, mas logo em seguida passa a arriscar o francês, e a conversa entre o casal segue assim, em francês, até o final da noite.

Em algumas traduções modernas, esses trechos em francês costumam ser mantidos no texto principal, com a tradução fornecida em uma longa série de notas de rodapé. Esta solução, no entanto, não me pareceu a mais adequada, principalmente no formato digital (e-books). Assim, optei por traduzir o francês diretamente para o português, apenas indicando no texto o momento onde Hans Castorp passa a alternar do alemão para o francês.

Penso que a experiência ideal, imaginada por Mann, fosse uma leitura bilingue mesmo, mas é muito mais fácil achar falantes de alemão e francês na Alemanha do que aqui, a meio mundo de distância. Por isso o trabalho de tradução é feito de escolhas, e aqui não foi diferente. Espero que tenha tornado a leitura de A Montanha Mágica a experiência mais fluida possível, já que não é fácil encarar uma montanha de páginas - e o trabalho do tradutor e do editor é justamente tornar esse escalada íngreme o passeio mais prazeroso possível.


» Na sequência, o derretimento das palavras.

***

Crédito das imagens: [topo] Google Gemini AI (madame Chauchat); [ao longo] Google Gemini AI (Hans Castorp).

Você pode encontrar minha tradução de A Montanha Mágica em ebook ou na versão impressa, ambas disponíveis na Amazon.

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