Traduzindo a Montanha Mágica (parte 2)
A Montanha Mágica se inicia com uma belíssima e vívida descrição do percurso de trem que sai da Alemanha e escala o mundo até os Alpes suíços. Tal narrativa domina boa parte do primeiro subcapítulo da obra, A chegada, que vai se encerrar justamente com o encontro entre Hans Castorp e o primo adoentado, Joachim Ziemssen, que o espera na estação de trem em Davos.
Conversa vai, conversa vem, e o subcapítulo se encerra dessa modo na tradução mais conhecida até 2026 (quando a obra de Thoman Mann entra em domínio público), a de Herbert Caro (revisada por Paulo Astor Soethe; trecho retirado da edição tradicional da Cia. das Letras, pág. 20):
“[...] Você vai gostar dele. E ainda há o Krokowski, seu assistente – um tipo muito capaz. No prospecto fala-se especialmente das sua atividade: a dissecação psíquica dos pacientes.
— O quê? Dissecação psíquica? Que coisa nojenta! – gritou Hans Castorp, e com isso, a hilaridade tomou conta dele. Já não conseguia dominá-la. Depois de tudo o que ouvira, a dissecação psíquica lhe encheu as medidas. Riu-se tanto que as lágrimas lhe brotavam entre a mão com que, inclinando-se para a frente, cobria os olhos. Também Joachim riu de todo o coração, o que parecia fazer-lhe bem. Assim, o desembarque dois dois jovens deu-se com alegria e descontração, ao deixarem o carro que lentamente os trouxera por uma rampa íngreme e serpenteante até o portal do Sanatório Internacional Berghof.”
Fim de subcapítulo. Pois bem, a despeito do uso de alguns termos meio datados na tradução do trecho, fica evidente que os primos literalmente choraram de rir de uma coisa que Joachim disse, e que em seguida chegaram ao Sanatório Berghof. Tudo bem, mas seja sincero: você entendeu a piada? O que diabos, afinal, é “dissecação psíquica”? E, supondo que saiba exatamente do que se trata, por que ambos os personagens iriam rir tanto da mera pronúncia do termo?
Ora, nada disso é explicado na tradução de Caro. Mesmo na cuidadosa revisão e edição da Cia. das Letras, sem dúvida uma das principais editoras do país, não há sequer uma nota de rodapé. Eles simplesmente supuseram que todo leitor teria plenas condições de entender a piada – ou, quem sabe, que faria uma busca rápida na internet para entender.
Mas eu nem entendi a piada e nem consegui resolver tão facilmente tal enigma, a despeito de ter toda a rede mundial ao alcance das mãos e dos olhos. Após algumas buscas, eventualmente cheguei à informação de que “dissecação psíquica” é, na realidade, uma abreviação de “dissecação da personalidade psíquica”, uma teoria ou técnica da análise apresentada por Sigmund Freud no início dos anos 1930. Eis abaixo um resumo da coisa:
“A ‘dissecação da personalidade psíquica’ é um conceito fundamental na psicanálise. Introduzido por Freud na Conferência XXXI de 1933, o modelo propõe que a mente não é uma unidade global, mas um aparelho psíquico dividido em três instâncias interligadas: o Ego, o Id e o Superego.”
Até aqui tudo bem, aparentemente o tal Krokowski era um psicanalista do Sanatório, isto é, alguém que praticava a “dissecação psíquica”. Tudo certo, mas aonde exatamente isso é tão engraçado?
Para resolver esse enigma, tive de recorrer ao termo em alemão, e ao seu significado literal. O termo em si, seelenzergliederung, que aparece na obra original de Mann, e que foi traduzido para “dissecação psíquica”, significa literalmente “a dissecação da alma”...
Finalmente estava resolvida a questão: os personagens choraram de rir pelo absurdo da ideia de que a alma possa ser dissecada, como se fosse um corpo morto. Em alemão, é isso o que a palavra quer dizer; e, além disso, é bem possível que na época em que se situa a história o próprio termo fosse desconhecido ao ponto de poucos o associarem, ao menos de imediato, à atividade da análise ou da psicanálise. Pelo que entendi do trecho, fica evidente que Hans Castorp nunca tinha ouvido o termo antes, e que apenas o seu primo sabia que se tratava de “análise” – mas que, mesmo assim, não conseguiu escapar de rir junto com Hans Castorp do absurdo da imagem de uma alma sendo dissecada.
Na minha tradução, essa explicação toda veio resumida numa nota de rodapé. Vejam como ficou o mesmo trecho:
““[...] Aposto que vai gostar dele. E depois há Krokowski, seu assistente – um tipo muito capaz. No guia falam especificamente da sua atividade: a dissecação da alma dos pacientes. [nota de rodapé]”
“O quê? Dissecação da alma? Que coisa bizarra!” – Hans Castorp exclamou, e o riso novamente levou a melhor sobre ele. Ele não conseguia mais se controlar ante tantos absurdos. A dissecação da alma havia terminado o trabalho, e ele se inclinou e riu tanto que as lágrimas escorreram por baixo da mão com a qual cobrira os olhos. Joachim riu com vontade também – isso pareceu fazer bem a ele. E assim os dois jovens estavam de bom humor no desembarque de sua carruagem, que os carregou lentamente por uma via íngreme, serpenteando pela paisagem até chegar ao portal do Sanatório Internacional Berghof.”
Para mim, este tipo de nota de rodapé é algo essencial num trecho como este, que encerra um subcapítulo. O mesmo termo reaparece algumas vezes nos capítulos subsequentes, sempre associado à algo engraçado – mas, sem o auxílio desse tipo de explicação, infelizmente a grande maioria dos leitores provavelmente seguiu sua leitura sem entender a piada.
Mais para o final do livro aparece outro caso parecido. Ludovico Setembrini, o homem das letras italiano que acompanha Hans Castorp por quase mil páginas, eventualmente se despede do grande amigo, que está retornando à Alemanha pela mesma estação de trem que chegou, lá no início. Vejamos como se deu a tradução de Herbert Caro (pág. 823):
“[...] — E così in giù – ele disse –, in giù finalmente! Addio, Giovanni mio! Eu teria preferido ver você partir de outra forma, mas vá lá, que seja, os deuses dispuseram as coisas assim e não de outro modo.”
Italiano à parte (a obra, apesar de alemã na sua maior parte, traz muitos trechos em francês, italiano, espanhol e latim), a grande questão aqui é que Hans Castorp, após literalmente centenas de páginas, é chamado pela primeira e única vez de Giovanni... Novamente, nenhuma nota de rodapé, os editores supuseram mais uma vez que o leitor saberia identificar facilmente o motivo do uso de “Giovanni” no lugar de “Hans”.
E eu, não tendo entendido nada, tive de sair à busca de uma explicação para aquilo. E eventualmente cheguei numa solução surpreendente. Abaixo trago na íntegra a minha nota de rodapé específica para o caso:
““Giovanni” nada mais é do que “Hans” em italiano. Aliás, se nosso herói tivesse nascido no Brasil (como a mãe de Thomas Mann), ele se chamaria “João”. E tanto o “João” português quanto o “Giovanni” italiano e o “Hans” alemão derivam do latim medieval “Johannes”, ou do latim clássico “Ioannes”. Esta obra é a história de João Castorp.”
Ou seja, o personagem italiano chama Hans pelo seu nome italiano, pela primeira e única vez, quando se despedem, possivelmente em definitivo, após quase mil páginas, e alguns bons anos de convívio.
Espero que com notas como essas eu tenha conseguido facilitar o entendimento do leitor. Creio, inclusive, que a própria edição da Cia. das Letras teria muito a ganhar com a adição de algumas notas como essas numa eventual nova edição. Acho muito inconveniente quando tradutores e editores simplesmente supõem que o leitor terá plenas condições de ler obras como essa sem o auxílio da edição. Afinal, o leitor não tem a menor obrigação de ser tão erudito quanto o tradutor.
» Na sequência, uma noite de Carnaval... em francês!
***
Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (estrada de ferro para Davos; imagem atual); [ao longo] Google Image Search (Freud).
Você pode encontrar minha tradução de A Montanha Mágica em ebook ou na versão impressa, ambas disponíveis na Amazon.
Marcadores: artigos, artigos (311-320), literatura, Thomas Mann, tradução
