Traduzindo a Montanha Mágica (parte 3)
A Montanha Mágica possui uma personagem feminina que em boa parte do livro (ao menos enquanto está residindo no Sanatório Berghof) chega a rivalizar com o protagonismo de Hans Castorp. A sua primeira aparição na história se dá quando Hans Castorp decide se virar da cadeira e descobrir quem diabos efetivamente deixa a porta do refeitório bater estrondosamente sempre que adentra o recinto. Apesar de obeservá-la de longe, Hans Castorp presta grande atenção às suas mãos, que de certa forma servem como metáfora para a sua própria personalidade, e também para o que Hans Castorp supunha dela (eis o trecho em questão, na minha tradução):
“Enquanto caminhava, ela manteve uma mão no bolso de sua jaqueta de lã, enquanto a outra estava ocupada na parte de trás da cabeça, arrumando o cabelo. Hans Castorp olhou para aquela mão – ele tinha um bom olho e um bom senso crítico para as mãos, e era seu hábito sempre primeiro dirigir seu olhar para elas ao conhecer alguém. A mão que arrumava seus cabelos não era particularmente feminina, não era refinada ou bem cuidada, não da maneira como as damas do círculo social do jovem Hans Castorp cuidavam delas. Era bastante larga, com dedos grossos; havia algo primitivo e infantil ali, um pouco como a mão de uma colegial. Suas unhas claramente nunca tinham visto uma manicure, e haviam sido aparadas descuidadamente – novamente, como as de uma estudante; e as cutículas tinham um aspecto irregular, quase como se ela fosse culpada do pequeno vício de roer as unhas. Hans Castorp apenas supôs tudo isso, no entanto, mais do que efetivamente viu – ela estava realmente muito longe.”
Antes de prosseguir falando sobre madame Chauchat, a personagem em questão, é preciso voltar o olhar para o próprio Hans Castorp. O leitor atento deve ter percebido, não somente neste trecho, como em muitos outros, como Hans Castorp presta atenção excessiva a maneira como os homens e mulheres se vestem. Em dado momento, fica claro que o autor quer nos dizer algo com isso, nem que seja nas entrelinhas... Ora, e me parece inescapável concluir que Hans Castorp, o “herói” da obra-prima de Thomas Mann, tem um lado feminino bastante aflorado, embora jamais assumido abertamente – nem mesmo em seus próprios pensamentos.
Isso fica ainda mais evidente quando descobrimos que Hans Castorp está apaixonado por madame Chauchat, e toda a cena onde eles finalmente conversam, após meses de convívio, carrega uma associação clara com uma “paixão” anterior do jovem, ainda na época da escola, quando ele também pede um lápis emprestado à pessoa – isto é descrito num sonho, e ainda no sonho ele confunde a pessoa que empresta o lápis com a própria madame Chauchat, que depois de fato lhe empresta um lápis numa noite de Carnaval. Bem, e essa pessoa do sonho, da época da escola, é um jovem, um homem, Pribislav Hippe (há, inclusive, um subcapítulo intitulado “Hippe”).
A genialidade do autor se dá justamente na descrição de tudo isso, do sonho, da associação de Hippe e Chauchat, dos lápis emprestados... É tudo simplesmente tão “suave”, tão nas entrelinhas, que posso apostar que a maioria dos leitores da época (quiçá de hoje em dia também) sequer percebeu que Hans Castorp é bissexual. Além disso, nem mesmo o próprio Hans Castorp compreende isso, já que em nenhum momento associa a sua paixão por Hippe à algo propriamente sexual (embora claramente o fosse).
Thomas Mann foi casado com Katia Mann, com quem teve seis filhos, mas ao longo da vida sentiu forte atração sexual por outros homens, o que foi devidamente registrado em seus diários, e explorado mais abertamente em outra obra, Morte em Veneza. Mann soube descrever uma “bissexualidade enrustida” de forma tão competente justamente por ele mesmo ser, tal qual Hans Castorp, bissexual.
Ainda assim, A Montanha Mágica não tem realmente muitas personagens femininas interessantes. A maioria é ou funcionária do sanatório, ou alguma paciente sem muita coisa para acrescentar à história. O próprio Hans Castorp perdeu a mãe cedo, e não tem nenhuma figura feminina como referência. Pode-se dizer até que, além de bissexual enrustido, ele era claramente machista. Assim, Mann investiu todo o seu lado feminino em madame Chauchat, e ela sozinha compensa todo um conjunto de personagens femininas desinteressantes.
Logo depois que analisa suas mãos, Hans Castorp pergunta do seu marido para sua colega de mesa, e recebe a resposta de que “ele nunca esteve aqui, nem uma vez; nenhum de nós saberia reconhecê-lo.”
Assim, em pleno início de século 20, madame Chauchat é uma mulher de ascendência russa que, sofrendo de tuberculose, vai se hospedar sozinha numa sanatório nos Alpes e não é nem uma vez visitada pelo marido. Além disso, como dito na primeira observação de Hans Castorp, ela “não era particularmente feminina, refinada ou bem cuidada”... Seja como for, isso tudo não impediu Hans Castorp de se apaixonar por ela, tampouco de ir descobrindo sua beleza, pouco a pouco, independentemente do seu “refinamento”.
Madame Chauchat representa sobretudo o lado “selvagem” do feminino que não se adequa às regras patriarcais. Ela é livre, vai aonde quer (mesmo sendo sustentada pelo marido), veste-se como quer (sem se preocupar em agradar homens com senso crítico para as mãos) e, para além de tudo isso, não fala muito bem alemão, mas apenas o russo e o francês.
Isso nos leva para um dos momentos essenciais da obra, quando Hans Castorp e madame Chauchat travam uma longa conversa numa noite de Carnaval; mas boa parte dela se dá em francês, e não no alemão, inclusive no original!
Thomas Mann escreveu esses diálogos diretamente em francês, e não em alemão para depois traduzir. Embora seu próprio francês não fosse perfeito, ele usou o idioma para criar um efeito específico, como ele mesmo confessou. Presumivelmente a sua principal intenção era enfatizar a tensão e o contraste entre a rígida cultura alemã e a espontaneidade mais associada à cultura francesa. De início, Hans Castorp ainda usa o alemão, mas logo em seguida passa a arriscar o francês, e a conversa entre o casal segue assim, em francês, até o final da noite.
Em algumas traduções modernas, esses trechos em francês costumam ser mantidos no texto principal, com a tradução fornecida em uma longa série de notas de rodapé. Esta solução, no entanto, não me pareceu a mais adequada, principalmente no formato digital (e-books). Assim, optei por traduzir o francês diretamente para o português, apenas indicando no texto o momento onde Hans Castorp passa a alternar do alemão para o francês.
Penso que a experiência ideal, imaginada por Mann, fosse uma leitura bilingue mesmo, mas é muito mais fácil achar falantes de alemão e francês na Alemanha do que aqui, a meio mundo de distância. Por isso o trabalho de tradução é feito de escolhas, e aqui não foi diferente. Espero que tenha tornado a leitura de A Montanha Mágica a experiência mais fluida possível, já que não é fácil encarar uma montanha de páginas - e o trabalho do tradutor e do editor é justamente tornar esse escalada íngreme o passeio mais prazeroso possível.
» Na sequência, o derretimento das palavras.
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Crédito das imagens: [topo] Google Gemini AI (madame Chauchat); [ao longo] Google Gemini AI (Hans Castorp).
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