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13.7.26

Traduzindo a Montanha Mágica (parte 2)

« continuando da parte 1


A Montanha Mágica se inicia com uma belíssima e vívida descrição do percurso de trem que sai da Alemanha e escala o mundo até os Alpes suíços. Tal narrativa domina boa parte do primeiro subcapítulo da obra, A chegada, que vai se encerrar justamente com o encontro entre Hans Castorp e o primo adoentado, Joachim Ziemssen, que o espera na estação de trem em Davos.

Conversa vai, conversa vem, e o subcapítulo se encerra dessa modo na tradução mais conhecida até 2026 (quando a obra de Thoman Mann entra em domínio público), a de Herbert Caro (revisada por Paulo Astor Soethe; trecho retirado da edição tradicional da Cia. das Letras, pág. 20):

“[...] Você vai gostar dele. E ainda há o Krokowski, seu assistente – um tipo muito capaz. No prospecto fala-se especialmente das sua atividade: a dissecação psíquica dos pacientes.

— O quê? Dissecação psíquica? Que coisa nojenta! – gritou Hans Castorp, e com isso, a hilaridade tomou conta dele. Já não conseguia dominá-la. Depois de tudo o que ouvira, a dissecação psíquica lhe encheu as medidas. Riu-se tanto que as lágrimas lhe brotavam entre a mão com que, inclinando-se para a frente, cobria os olhos. Também Joachim riu de todo o coração, o que parecia fazer-lhe bem. Assim, o desembarque dois dois jovens deu-se com alegria e descontração, ao deixarem o carro que lentamente os trouxera por uma rampa íngreme e serpenteante até o portal do Sanatório Internacional Berghof.”

Fim de subcapítulo. Pois bem, a despeito do uso de alguns termos meio datados na tradução do trecho, fica evidente que os primos literalmente choraram de rir de uma coisa que Joachim disse, e que em seguida chegaram ao Sanatório Berghof. Tudo bem, mas seja sincero: você entendeu a piada? O que diabos, afinal, é “dissecação psíquica”? E, supondo que saiba exatamente do que se trata, por que ambos os personagens iriam rir tanto da mera pronúncia do termo?

Ora, nada disso é explicado na tradução de Caro. Mesmo na cuidadosa revisão e edição da Cia. das Letras, sem dúvida uma das principais editoras do país, não há sequer uma nota de rodapé. Eles simplesmente supuseram que todo leitor teria plenas condições de entender a piada – ou, quem sabe, que faria uma busca rápida na internet para entender.

Mas eu nem entendi a piada e nem consegui resolver tão facilmente tal enigma, a despeito de ter toda a rede mundial ao alcance das mãos e dos olhos. Após algumas buscas, eventualmente cheguei à informação de que “dissecação psíquica” é, na realidade, uma abreviação de “dissecação da personalidade psíquica”, uma teoria ou técnica da análise apresentada por Sigmund Freud no início dos anos 1930. Eis abaixo um resumo da coisa:

“A ‘dissecação da personalidade psíquica’ é um conceito fundamental na psicanálise. Introduzido por Freud na Conferência XXXI de 1933, o modelo propõe que a mente não é uma unidade global, mas um aparelho psíquico dividido em três instâncias interligadas: o Ego, o Id e o Superego.”

Até aqui tudo bem, aparentemente o tal Krokowski era um psicanalista do Sanatório, isto é, alguém que praticava a “dissecação psíquica”. Tudo certo, mas aonde exatamente isso é tão engraçado?

Para resolver esse enigma, tive de recorrer ao termo em alemão, e ao seu significado literal. O termo em si, seelenzergliederung, que aparece na obra original de Mann, e que foi traduzido para “dissecação psíquica”, significa literalmente “a dissecação da alma”...

Finalmente estava resolvida a questão: os personagens choraram de rir pelo absurdo da ideia de que a alma possa ser dissecada, como se fosse um corpo morto. Em alemão, é isso o que a palavra quer dizer; e, além disso, é bem possível que na época em que se situa a história o próprio termo fosse desconhecido ao ponto de poucos o associarem, ao menos de imediato, à atividade da análise ou da psicanálise. Pelo que entendi do trecho, fica evidente que Hans Castorp nunca tinha ouvido o termo antes, e que apenas o seu primo sabia que se tratava de “análise” – mas que, mesmo assim, não conseguiu escapar de rir junto com Hans Castorp do absurdo da imagem de uma alma sendo dissecada.

Na minha tradução, essa explicação toda veio resumida numa nota de rodapé. Vejam como ficou o mesmo trecho:

““[...] Aposto que vai gostar dele. E depois há Krokowski, seu assistente – um tipo muito capaz. No guia falam especificamente da sua atividade: a dissecação da alma dos pacientes. [nota de rodapé]”

“O quê? Dissecação da alma? Que coisa bizarra!” – Hans Castorp exclamou, e o riso novamente levou a melhor sobre ele. Ele não conseguia mais se controlar ante tantos absurdos. A dissecação da alma havia terminado o trabalho, e ele se inclinou e riu tanto que as lágrimas escorreram por baixo da mão com a qual cobrira os olhos. Joachim riu com vontade também – isso pareceu fazer bem a ele. E assim os dois jovens estavam de bom humor no desembarque de sua carruagem, que os carregou lentamente por uma via íngreme, serpenteando pela paisagem até chegar ao portal do Sanatório Internacional Berghof.”

Para mim, este tipo de nota de rodapé é algo essencial num trecho como este, que encerra um subcapítulo. O mesmo termo reaparece algumas vezes nos capítulos subsequentes, sempre associado à algo engraçado – mas, sem o auxílio desse tipo de explicação, infelizmente a grande maioria dos leitores provavelmente seguiu sua leitura sem entender a piada.

Mais para o final do livro aparece outro caso parecido. Ludovico Setembrini, o homem das letras italiano que acompanha Hans Castorp por quase mil páginas, eventualmente se despede do grande amigo, que está retornando à Alemanha pela mesma estação de trem que chegou, lá no início. Vejamos como se deu a tradução de Herbert Caro (pág. 823):

“[...] — E così in giù – ele disse –, in giù finalmente! Addio, Giovanni mio! Eu teria preferido ver você partir de outra forma, mas vá lá, que seja, os deuses dispuseram as coisas assim e não de outro modo.”

Italiano à parte (a obra, apesar de alemã na sua maior parte, traz muitos trechos em francês, italiano, espanhol e latim), a grande questão aqui é que Hans Castorp, após literalmente centenas de páginas, é chamado pela primeira e única vez de Giovanni... Novamente, nenhuma nota de rodapé, os editores supuseram mais uma vez que o leitor saberia identificar facilmente o motivo do uso de “Giovanni” no lugar de “Hans”.

E eu, não tendo entendido nada, tive de sair à busca de uma explicação para aquilo. E eventualmente cheguei numa solução surpreendente. Abaixo trago na íntegra a minha nota de rodapé específica para o caso:

““Giovanni” nada mais é do que “Hans” em italiano. Aliás, se nosso herói tivesse nascido no Brasil (como a mãe de Thomas Mann), ele se chamaria “João”. E tanto o “João” português quanto o “Giovanni” italiano e o “Hans” alemão derivam do latim medieval “Johannes”, ou do latim clássico “Ioannes”. Esta obra é a história de João Castorp.”

Ou seja, o personagem italiano chama Hans pelo seu nome italiano, pela primeira e única vez, quando se despedem, possivelmente em definitivo, após quase mil páginas, e alguns bons anos de convívio.

Espero que com notas como essas eu tenha conseguido facilitar o entendimento do leitor. Creio, inclusive, que a própria edição da Cia. das Letras teria muito a ganhar com a adição de algumas notas como essas numa eventual nova edição. Acho muito inconveniente quando tradutores e editores simplesmente supõem que o leitor terá plenas condições de ler obras como essa sem o auxílio da edição. Afinal, o leitor não tem a menor obrigação de ser tão erudito quanto o tradutor.


» Na sequência, uma noite de Carnaval... em francês!

***

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (estrada de ferro para Davos; imagem atual); [ao longo] Google Image Search (Freud).

Você pode encontrar minha tradução de A Montanha Mágica em ebook ou na versão impressa, ambas disponíveis na Amazon.

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27.6.26

Lançamento: Emily Dickinson - Poemas de amor e de morte

As Edições Textos para Reflexão retornam à poesia com a maior poeta da língua inglesa.

Uma mulher que viveu sua vida numa sociedade profundamente patriarcal e conservadora, autora de poemas que exploram temas universais como o amor, a morte, a natureza, a eternidade, a dúvida religiosa e a consciência individual de uma forma extraordinariamente original e, por que não dizer, mística: eis o grande mistério em torno de Emily Dickinson. Esta edição traz uma seleção dos seus poemas mais profundos.

A nova tradução de Rafael Arrais já está disponível na Amazon, em e-book, e também na versão impressa:

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» Saiba mais sobre Emily Dickinson no Epílogo da edição: O mistério de Amherst


25.6.26

O mistério de Amherst

A Natureza é a mais elevada das artes
Apenas ver o céu de verão já é poesia

Se leio um livro e isso deixa todo o meu corpo tão gélido
Que não há fogo que posso aquecê-lo,
Sei que isso é poesia
Se sinto, fisicamente,
Como se o topo da minha cabeça fosse arrancado,
Sei que isso é poesia –
Essas são as únicas maneiras de saber –
Haverá outra?


No século XIX, Amherst era uma pequena cidade cerca de 150 km ao oeste de Boston, cuja população girava em torno de 2 a 4 mil habitantes. Nessa época, a vida do cidadão médio era marcada por uma combinação de trabalho agrícola, religiosidade protestante intensa, forte valorização da educação e uma vida social relativamente restrita para os padrões atuais. A maioria das famílias dependia direta ou indiretamente da agricultura, e os dias de trabalho começavam cedo, muitas vezes antes do nascer do sol.
No entanto, o nível de alfabetização e interesse pela leitura era consideravelmente elevado se comparado à cidades norte-americanas do mesmo porte. A cidade contava com instituições de peso, como o Amherst College, fundado em 1821, e posteriormente a Universidade de Massachusetts Amherst, fundada em 1863. Além da Bíblia, muitos dos seus cidadãos eram versados nas obras de William Shakespeare, John Milton, Ralph Waldo Emerson e Henry Wadsworth Longfellow.
Isso pode explicar, quem sabe, o surgimento de um grande poeta numa cidadezinha tão modesta. Certamente ele teria viajado bastante, quiçá rumo a outros continentes, para compensar a falta de diversidade cultural em sua cidade natal. Talvez fosse um agitador social, presente em saraus de poesia em Boston e outras grandes cidades de sua época.
Mas que esse poeta tenha vivido toda a vida em sua própria região, que nunca tenha participado de saraus públicos, movimentos culturais, tampouco tido algum livro de poemas publicado em vida – e que, ainda por cima, tal poeta tenha sido recluso e isolado em sua própria residência por boa parte da vida, e que seja lido e reconhecido até hoje como um dos maiores poetas da língua inglesa e, além de tudo isso, que seja uma mulher, uma mulher que viveu sua vida numa sociedade profundamente patriarcal e conservadora, autora de poemas que exploram temas universais como o amor, a morte, a natureza, a eternidade, a dúvida religiosa e a consciência individual de uma forma extraordinariamente original e, por que não dizer, mística: eis o grande mistério em torno de Emily Dickinson.


Viver é tão surpreendente que deixa pouco espaço para outras ocupações.


Nascida em 10 de dezembro de 1830, Emily era filha de um proeminente família de região. Tanto seu pai quanto seu avô foram advogados de renome. Ela sempre viveu ao lado da família, a quem era muito apegada: os pais, o irmão Austin e a irmã Lavinia que, assim como ela, nunca se casou. A irmã foi também uma de suas grandes amigas ao longo da vida, e após sua morte tornou-se a guardiã de sua obra poética – sem Lavinia, dificilmente o mundo conheceria Emily Dickinson.
Nossa poetisa sempre demonstrou uma grande sagacidade aliada a um temperamento espirituoso, muitas vezes irônico, e uma forte tendência à introspecção e a solitude. Estudou até os 17 anos num seminário para moças, onde foi uma aluna brilhante, sendo versada em inglês, latim, história, geografia, matemática e, principalmente, botânica, pois era grande amante das flores. Com exceção de algumas viagens a Boston e outras cidades da região, Emily passou praticamente a vida toda na mesma residência onde nasceu, chamada “The Homestead” – uma mansão bela e espaçosa, hoje transformada no Emily Dickinson Museum.
Lá ela tinha o seu quarto, um cômodo relativamente simples, com uma pequena mesa de canto iluminada por um lampião, onde escreveu, quase sempre à noite, após encerrar as tarefas domésticas, centenas de poemas que entraram para a história. Isso também se explica pelo seu grande interesse pela leitura, aliado ao fato do pai possuir uma grande biblioteca que estava sempre à disposição. Emily era especialmente versada na Bíblia e na obra de Shakespeare, mas também admirava Charles Dickens, George Eliot e as irmãs Brontë. Na poesia, teve contato com Ralph Waldo Emerson, William Blake, John Keats e Elizabeth Browning. Todavia, seus poemas não parecem ter influência direta de nenhum deles, sendo talhados com extrema originalidade, o que decerto a ajudou a ser lida e reconhecida até os dias atuais.

E assim, com essa sabedoria, orei –
Grande Espírito, dá-me
Um Céu não tão grande quanto o teu,
Mas grande o suficiente para mim


Durante toda a sua vida teve menos de dez poemas publicados, todos enviados a jornais por pessoas da família, sem o nome da autora. Logo de cara, ao verificar que alguns de seus poemas foram impressos com “melhorias” e “correções” editoriais, Emily desistiu de publicá-los como livro, e passou a enviá-los, por correspondência, somente aos seus amigos mais próximos – mesmo que fossem apenas amigos das letras, isto é, cujo contato com a poeta se dava quase sempre pela via das cartas.
Quanto aos casos amorosos, fossem ou não platônicos, ela sempre os manteve em segredo, embora os vivenciasse intensamente. Seja como for, as suposições acerca de sua vida amorosa são baseadas tão somente nas cartas que ela enviou e que foram parcialmente recuperadas ao longo do tempo, já que todas as cartas que ela recebeu de seus correspondentes foram queimadas pela irmã após sua morte, atendendo seu desejo expresso. Dito isso, parece certo que chegou a ter diversos flertes na juventude, e que na maturidade três homens lhe despertaram um forte sentimento. Eram todos casados, mais velhos, figuras que ela admirava: um ministro presbiteriano, o editor de um jornal e um juiz. Com os três a poeta manteve correspondência por muitos anos, e num e noutro ano, deram-se até mesmo raras visitas pessoais. O terceiro, o juiz Otis Lord, um grande amigo de seu pai, ficou viúvo e teve um romance de poucos meses com Emily. Ao que tudo indica, em 1882 ele a pediu em casamento, mas ela recusou, pois isso a obrigaria a mudar-se de Amherst. Dois anos depois, o juiz faleceu.
Também são bastante evidentes os sinais apaixonados nas dezenas de “cartas poema” (letter poems) que ela enviou à sua grande amiga Susan Dickinson, casada com seu irmão Austin. Susan, uma mulher culta e inteligente, em geral era a primeira a receber os poemas de Emily, sendo também a sua principal crítica literária. Esse diálogo duradouro entre as duas foi essencial para o processo criativo e o crescimento intelectual da autora.


Derramei o orvalho –
Mas colhi a flor da manhã –
Escolhi esta estrela:
Única dentre a Noite Imensa –
Sue - para sempre Sue!


Emily amava a Natureza e não se cansava de tentar colocar tal sentimento em palavras. Com seu conhecimento de botânica, cultivava flores numa estufa com tanta dedicação que havia sempre alguma espécie em floração, inclusive no inverno. Na companhia de seu cão Carlo, costumava passear pelos jardim da propriedade da família, o que sem dúvida a inspirava na escrita noturna.
Embora criada no Puritanismo, seus poemas demonstram aversão aos dogmas religiosos mais limitantes. Ao mesmo tempo, era evidente o fervor de sua religiosidade íntima, captada tantas vezes em seus versos mais arrebatadoramente místicos. Emily não se furtava de falar com profundidade tanto do Céu quanto do Inferno.


E se você fosse salva,
E eu condenada a estar
Onde você não estivesse,
Isso já seria o Inferno para mim.

Com a morte de seu cão, um companheiro diário por dezesseis anos, cessaram seus passeios pelos jardins, e Emily se tornou cada vez mais reclusa na própria casa, no próprio quarto, protegida pela irmã e pela criada da família.
Essa tendência à reclusão já havia se manifestado desde seus vinte e poucos anos, mas foi gradualmente se agravando diante da perda de diversas pessoas queridas. Já aos quatorze anos havia perdido uma prima e grande amiga, Sophie, da mesma idade. Ela perdeu o pai em 1874 e poucos anos depois, foi obrigada a testemunhar o adoecimento da mãe, até sua morte em 1882. Aliás, num curto período de alguns anos, a poeta perdeu a mãe, o querido sobrinho Gilbert, de meros 8 anos, uma grande amiga de infância, Helen Hunt Jackson, e ainda o juiz Lord, com quem quase se casou.
De fato, em sua época, anterior à penicilina e o saneamento básico, a morte era um espectro constante em torno dos vivos. Mesmo nas classes mais abastadas era comum morrer de acidentes, de parto, malária, tuberculose, tifo etc. Portanto, não é de admirar que Emily dialogasse constantemente com a morte e a imortalidade da alma em seus poemas. Em alguns deles, a Morte se torna uma espécie de personagem mitológica, uma semideusa, ou quem sabe um aspecto de Deus.


Porque eu não pude parar para a Morte –
Ela gentilmente parou para mim –
A carruagem levava apenas nós dois –
E a Imortalidade.


Em 1886, aos 55 anos e após dois anos de declínio de sua saúde, a poeta tomou a Carruagem. Morreu em sua cama, no mesmo cômodo onde teceu sua poesia, cuidada por Lavinia e Susan. O atestado de óbito menciona nefrite, mas pelos sintomas que ela descrevia, como desmaios e forte dores na nuca, hoje suspeita-se que fosse hipertensão. Seja como for, e medicina de sua época seria incapaz de salvá-la.
Ao organizar seus pertences, sua irmã Lavinia ficou surpresa ao encontrar, numa gaveta, centenas de poemas reunidos em 40 livretos manuscritos – uma produção desconhecida até mesmo da família. Assim, como Emily fez Lavinia jurar que queimaria todas as cartas recebidas pela irmã, mas nada disse sobre sua poesia, seguiu-se uma verdadeira epopeia da compilação de todos os seus poemas, inclusive os que foram remetidos por cartas aos amigos, que eventualmente também se tornaram seus primeiros editores.
Em 1890, quatro anos após sua morte, foi publicada a primeira seleção preparada por Todd e Higginson: Poems, com 115 poemas. Este pequeno livro alcançou um surpreendente sucesso de crítica e de público, esgotando onze reimpressões em dois anos. Na sequência, os mesmos editores lançaram mais duas coletâneas, Poems, Second Series (1891) e Poems, Third Series (1896).
Hoje amplamente reconhecida como uma das maiores poetas da língua inglesa, senão a maior, Emily Dickinson seguiu o mesmo caminho de outros grandes autores clássicos que foram muitas vezes ignorados em sua própria época, mas cuja obra venceu o tempo e veio a se tornar imemorial.
Ficou famosa a carta em que Emily faz uma pergunta ao “Sr. Higginson”, seu futuro editor:


O senhor (...) pode me dizer se o meu Verso está vivo?
A Mente está, ela própria, tão próxima – não pode ver com clareza – e não tenho a quem perguntar –
Se o senhor achar que respira – e puder me dizer – eu sentiria imediata gratidão.


Hoje podemos constatar que o seu Verso, minha amiga, segue mais vivo do que nunca!

 

(em breve as Edições Textos para Reflexão vão publicar uma seleção dos melhores poemas de Emily Dickinson... aguardem!)

***

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Emily Dickinson em forografia da época, colorizada por computador); [ao longo] Google Image Search (Amherst no século XIX; Emily Dickinson em sua mesa de escrita)

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