Pular para conteúdo
6.12.25

É preciso amar o feminino

O primeiro ser humano a assinar a autoria de um texto foi uma mulher, Enheduanna, poeta e sacerdotisa de Ur, filha do rei Sargão, que viveu na Mesopotâmia, mais de 4.200 anos atrás, quando a presença feminina no reinado das ideias e das artes ainda era tida em alta conta. Muitos séculos depois, viveu em Alexandria uma das últimas pensadoras registradas pela história antiga, Hipátia, a quem o bispo Sinésio chamava de “divina mestra”. Depois, foram necessários mais séculos e séculos para que alguma delas fosse devidamente considerada como filósofa ou cientista, e aqui vale citar a brilhante Marie Curie, a primeira pessoa a ganhar duas vezes um Prêmio Nobel (um na física, outro na química). Ora, e o que aconteceu entre Hipátia, que viveu no século quinto, e Marie, que foi reconhecida como grande cientista no século vinte? Será que entre elas não viveram grandes filósofas, cientistas, pensadoras, artistas? Ou será que a história simplesmente deixou de registrar as poucas que conseguiam se sobressair em meio a um brutal mundo de homens?

Sim, um mundo de homens, vocês sabem do que estou falando, do patriarcado e coisa e tal... Mas, apesar delas certamente merecerem toda compaixão e caridade, este texto não pretende exaltar ou aconselhar as mulheres, que bem ou mal foram obrigadas a reconhecer e conviver com seu lado masculino, a fim de simplesmente sobreviverem nesta terra – não, eu vim aqui falar com vocês, homens, que podem não saber ou não querer saber, mas que têm sim um lado feminino, um lado cujo reconhecimento e bom convívio é essencial para uma vida, uma alma equilibrada. E, ao contrário do caso delas, esse mundo só nos fez afastar de nossa parte feminina.

Com isso não quero dizer que nós homens somos uns coitados, vítimas privadas de seu lado feminino. Certamente não brincaria com isso, pois nós não fomos sucessivamente dominados, adestrados, violentados, assassinados das formas mais brutais e covardes possíveis. Não, mas ainda assim, nós também saímos perdendo, e não foi pouca coisa.

Na psiquê humana, assim como em tudo o mais, há sempre dois lados, dois polos, e não é como se um deles fosse positivo e o outro negativo, no sentido qualitativo, pois ambos são essenciais e complementares: o lado feminino precisa reconhecer e conviver com o masculino para se tornar inteiro, equilibrado; e o mesmo ocorre no outro polo. Mas é justamente aqui o grande problema dos homens de hoje, que foram ensinados não somente a ignorar seu lado feminino, como a temê-lo, evitá-lo e, em casos mais extremos, odiá-lo com todas as forças.

Para começo de conversa, é bom dizer que isso tem pouco a ver o gênero, a orientação sexual ou mesmo o sexo em si – até mesmo porque o sexo, algo sagrado tanto para a alma quanto para o corpo e a fecundidade em geral, há tempos tem sido reduzido a uma mera sessão de falos e orifícios, algo mais mecânico do que propriamente natural, humano. Em suma, o que quero dizer é que reconhecer o seu lado feminino não fará de você “menos homem”, muito menos um homossexual. Por outro lado, também é fácil perceber que os homens homossexuais em geral, ou pelo menos os assumidos, já estão bem mais adiantados na via de convívio com seu lado feminino.

E o que diabos ganhamos ao reconhecer nosso lado feminino? O que estamos perdendo, por deixá-lo de escanteio em nossas vidas? Bem, qual foi a última vez que você chorou ao lado dos seus amigos, e não por razões religiosas, políticas ou futebolísticas? Qual foi a última vez que você saiu com um amigo para desabafar sobre coisas íntimas, puramente emocionais? Qual foi a última vez que você foi a um teatro, um recital de poesia, uma exposição de arte, quem sabe assistir um filme de drama no cinema? Qual foi a última vez que você se permitiu estar só, realmente só, refletindo sobre a vida? Qual foi a última vez que você abraçou sua melancolia, sabendo que ela também é apenas o outro lado da moeda? Qual foi a última vez que você contemplou a natureza a sua volta, espantado com tamanho espetáculo de fecundidade? Qual foi a última vez que você amou uma mulher como amiga, como companheira, como igual, e não somente como um orifício?

Sim, parafraseando Renato, é preciso amar o feminino. É preciso amar a mulher, a ideia da mulher, o pensamento da mulher, a arte de ser mulher, é preciso amá-las não somente com o corpo, por conta do corpo, mas também, e sobretudo, com a alma, pela alma...

A verdade é que é difícil colocar em palavras o que ganhamos, o que perdemos, se reconhecemos ou não nosso lado feminino. As palavras são cascas de sentimento, e o feminino, sendo puro sentimento, pura emoção, é mais fugidio que o masculino, mais difícil de ser capturado pela linguagem. Aliás, se fosse tão simples recuperar nosso lado feminino, este mundo de homens já teria deixado de ser tão, tão brutal, há muito tempo. No entanto, é preciso começar de algum lugar, algum dia, com um pensamento que seja, e depois seguir dali, passo a passo, rumo a uma noite mais enluarada, mais acolhedora, mais misteriosa.

E assim, no rastro da lua, vamos beneficiar enormemente não somente a nós, homens, como também a elas, que decerto ficarão contentes com mais uma alma equilibrada, e menos um agressor em potencial na sociedade. Pois quanto mais varremos para debaixo do tapete, quanto mais enrustimos nosso feminino, mais nutrimos um ódio inconsciente dele, mais sentimos raiva dos outros homens que se deixam conectar com seu feminino, mais nos afastamos da alma da mulher, mais nos ressentimos delas, simplesmente por serem mulheres, e vivemos uma meia-vida, uma existência incompleta, que justamente por negar as emoções, é assolada e dominada por elas. E, depois, ainda descontamos nossas mágoas em quem não tinha absolutamente nada a ver com o assunto.

Para encerrar, gostaria de trazer este discurso (ou desabafo) da única mulher atualmente exercendo o cargo de Ministra do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia:

Há uma forte hipocrisia no discurso pela igualdade que ignora a cultura de violência contra a mulher. Mata-se a mulher por ser mulher; só por isso, por ela ser o que ela é. E nós gostamos de ser mulher, e não queremos que matem os homens. O compromisso da mulher é com a vida, não com a morte. E não é civilizada uma sociedade que mata mulheres e crianças [...] E ainda hoje nós vemos homens que matam e depois dizem, “o comportamento dela não era bom”, ou, como nós vimos no início da década de 1980, [...] quando uma mulher foi morta, e estava sentada, levando quatro tiros, dois no rosto – como é próprio do feminicídio, em geral nos desfiguram, jogam cal, esfaqueiam, atiram na face, para negar a imagem do que foi aquela mulher. Isto é um nível de crueldade, de perversidade, que demonstra que uma sociedade que compactua com isso não alcançou a etapa civilizatória. E não adianta virem dizer que somos todos a favor da igualdade: não são. Se fossem, nós não estaríamos precisando nos reunir para dizer em alto e bom som que somos todos iguais em nossa humanidade, em nossa dignidade, em nossos direitos.

 

por Raph em 06/12/25

***

Crédito da imagem: Brittani Burns/unsplash

Marcadores: , , , , , , , , , , ,

22.8.24

A felicidade possível

Em abril do ano 65 d.C., numa vila nos arredores de Roma, a filosofia ocidental viveu mais um grande drama: após Sócrates, era a vez de outro expoente do amor a sabedoria ter a sua sentença de morte. O seu nome era Sêneca, um espanhol nascido aproximadamente no ano 3 a.C., que teve como pai um habitante instruído de Roma. Ele seguiu carreira política e vinha sendo razoavelmente bem-sucedido quando o imperador Cláudio o exilou na Córsega (em 41 d.C.), por conta de uma birra da imperadora Messalina. Mas a segunda esposa de Cláudio, Agripina, o retirou de seu exílio forçado (em 48 d.C.) e o nomeou tutor de seu filho, então com 11 anos. Sêneca, entretanto, não teve a mesma sorte de Aristóteles: o seu pupilo cresceu para se tornar o imperador Nero, aquele que entrou para a história como o louco que pôs fogo em Roma.

Aos 28 anos, com distúrbios mentais cada vez mais agravados, Nero foi informado da existência de uma conspiração para afastá-lo do trono. Fora de si, ele buscou vingança contra todos a sua volta (incluindo sua própria mãe, seu meio-irmão e sua esposa, além de inúmeros nobres e senadores, todos sentenciados à morte). Embora não houvesse prova alguma do envolvimento de Sêneca na tentativa de golpe, e a despeito de ter sido o seu tutor e depois um ministro leal por mais de uma década, Nero o sentenciou à morte como medida de precaução.

Um centurião foi enviado a sua casa com as instruções do imperador: Sêneca deveria dar cabo da própria vida imediatamente, escolhendo o método que achasse melhor. Os familiares e amigos do filósofo empalideceram e começaram a chorar assim que souberam da notícia. Todavia, segundo o relato de Tácito, um historiador daquela época, Sêneca permaneceu inabalado, e tratou de acalmar todos a sua volta:

Ora, meus amigos, onde está sua filosofia? E o que foi feito da decisão de jamais se deixarem abater diante da iminência de qualquer desgraça que, durante tantos anos, todos temos incentivado uns aos outros a manter? Decerto ninguém aqui ignorava que Nero era cruel! Após matar a própria mãe e o irmão, só lhe restava matar seu conselheiro e tutor.

Em seguida, Sêneca se voltou para sua esposa, Paulina, e lhe deu um longo e afetuoso abraço, recomendando que achasse consolo para aquela tragédia em uma vida bem vivida. Mas ela não podia conceber uma vida sem o filósofo ao seu lado, e lhe pediu permissão para cortar os pulsos juntamente com ele. A princípio, ainda segundo Tácito, ele não impôs barreiras ao seu desejo:

Não impedirei que você dê um exemplo tão admirável. Podemos morrer com uma força moral idêntica, embora o seu fim seja muito mais nobre que o meu.

No entanto, o centurião e seus soldados impediram que aquela tragédia fosse ainda mais cruel, quiçá na esperança de serem lembrados como meros cumpridores de ordens, e não como monstros. Já o que se sucedeu ao próprio Sêneca, segundo os relatos, foi algo extraordinário, quase sobrenatural.

Mesmo após ter cortado os pulsos, as veias dos tornozelos e da parte interna dos joelhos, o sangue simplesmente não fluía com rapidez suficiente de seu corpo já quase septuagenário. Foi então que, lembrando da morte de Sócrates, 464 anos antes, Sêneca pediu a seu médico que lhe preparasse uma taça de cicuta. Afinal, assim como outros expoentes do estoicismo [1], ele tinha a figura de Sócrates na mais alta conta, um verdadeiro exemplo de como era possível vencer as tragédias do mundo com a ajuda da filosofia. Em uma carta escrita anos antes daquele dia, ele já havia deixado registrada tal admiração:

Ele viveu em tempos de guerra e sob o jugo de tiranos (...), mas todas essas provações afetaram tão pouco seu espírito que suas feições jamais se alteraram [na morte]. Que privilégio tão raro e maravilhoso! Ele manteve a mesma atitude até o fim. (...) Em meio a tantos reveses da [deusa] Fortuna, ele foi imperturbável.

Seja como for, o desejo de Sêneca em seguir Sócrates até na morte não pôde ser concretizado. Ele bebeu a cicuta, duas vezes, mas continuava bem vivo! Depois de tantas tentativas em vão, ele finalmente pediu que o colocassem em um banho de vapor, onde sufocou lentamente até a morte, sereno e impassível diante do revés derradeiro.

Com sua morte, Sêneca ajudou a consolidar um dos pilares do estoicismo, uma abordagem comedida e serena em relação as tragédias e os desprazeres da vida. Ao se portar tal qual Sócrates em seus momentos finais, ele comprovou que sua filosofia não era somente algo teórico, metafísico, mas sim extremamente prático. Sêneca tentou ser filósofo 24 horas por dia, e tudo indica que foi extremamente bem-sucedido nisso, do contrário dificilmente teria continuado filósofo nos momentos derradeiros. Foi justamente porque praticou sua filosofia em boa parte da vida que foi, verdadeiramente, um filósofo.

Podemos ter uma boa ideia de como era esta prática pela espécie de reflexão que Sêneca recomendava a todos que fizessem todos os dias, pela manhã, de preferência logo após despertar:

Nenhuma dádiva da [deusa] Fortuna nos pertence de fato.
Nada, seja público ou privado, é estável: os destinos dos homens, assim como os das cidades, estão sujeitos a um turbilhão. Qualquer edificação que tenha levado longos anos para ser erguida, à custa de grande sacrifício e graças ao bom humor dos deuses, pode dispersar-se ou desfazer-se em um único dia. Não, aquele que disse “um dia” exagerou, dando um prazo longo demais para um revés repentino: uma hora, um átimo, é o bastante para promover a queda de impérios.
Com que frequência cidades da Ásia foram destruídas por um único tremor de terra? Quantas aldeias na Síria, ou na Macedônia, já não foram engolidas? Quantas vezes devastações desse tipo já não deixaram o Chipre em ruínas?
Vivemos em meio a coisas que estão, sem qualquer exceção, destinadas a morrer.
Mortal você nasceu; mortal você dá à luz.
Não se surpreenda com nada, espere tudo.

A sua morte não foi o único exemplo de como a sua sabedoria não estava limitada à teoria. Quando exilado na ilha de Córsega, ele se viu repentinamente privado de todos os luxos de que dispunha, afinal aquela ilha em específico estava muito distante de gozar dos benefícios da civilização romana. Assim, as condições de vida no exílio deveriam ter formado um doloroso contraste com a vida em Roma. No entanto, em uma carta a sua mãe, Sêneca explicou como havia conseguido se adaptar às circunstâncias, graças aos anos de meditação pela manhã, regados a água e sopa rala:

Nunca confiei na Fortuna, mesmo quando ela parecia estar oferecendo paz. Todas aquelas bênçãos que generosamente derramou sobre mim  riquezas, cargos, prestígio  eu releguei de tal maneira que ela pudesse retomá-las sem me causar grandes aflições. Sempre mantive grande distância entre mim e seus favores. Ela tão somente me tirou o que havia concedido, portanto nada arrancou de mim.

Há uma espécie de metáfora estoica que resume muito bem tanto o pensamento de Sêneca quanto de outros expoentes dessa filosofia. Ela foi formulada pelo filósofo Zenão de Cítio, fundador do estoicismo, e “repaginada” pelos seus discípulos, Cleantes e Crisipo, sucessivamente. A sua referência mais antiga é relatada pelo sacerdote romano Hipólito:

Quando um cão atrelado a uma carroça quiser acompanhá-la, ele é puxado por ela e avança, fazendo com que seu gesto espontâneo coincida com a necessidade. Mas se o cão decidir não se mexer, o movimento da carroça irá obrigá-lo a segui-la, de qualquer maneira. O mesmo se passa com os homens: mesmo que não queiram, eles são forçados a obedecer o que o destino lhes reservou.

Ou seja, um homem é livre para seguir em qualquer direção que queira. Todavia, como sugere a metáfora, se os seus movimentos são limitados, é melhor acompanhar a direção da carroça do destino do que ser arrastado por ela. Embora o nosso primeiro impulso possa ser o de lutar contra a guinada repentina do veículo, caso ele siga noutra direção, o nosso sofrimento decorrerá exclusivamente de nossa resistência. Se vivemos de acordo com as necessidades da natureza, aceitando tanto a liberdade momentânea de seguirmos na direção desejada quanto a necessidade, igualmente momentânea, de irmos para onde não gostaríamos de ir, então não há realmente nada que possa nos abalar.

Os filósofos antigos tinham um belo nome para tal estado de contentamento: eudaimonia. A sua tradução literal seria algo como “o estado de ser habitado por um bom daemon, ou espírito”. Os estoicos, provavelmente, diriam que é simplesmente o estado alcançado quando “vivemos de acordo com a natureza”. Isto é, quando temos perfeita noção da natureza e do mundo a nossa volta, e sabemos que há coisas que podemos decidir, e outras que nos escapam totalmente o controle. Assim, seria inútil buscar a felicidade todo o tempo, algo literalmente impraticável, de modo que o mais sábio é sabermos discernir a felicidade possível em meio a um mundo impermamente e, muitas vezes, brutalmente dolorido. Mas viver apenas lamentando as dores do mundo seria tão equivocado quanto buscar somente os prazeres, todo o tempo. O estado de contentamento com a vida, eudaimonia, surge justamente da sabedoria que reconhece a felicidade possível, mesmo que a carroça volta e meia nos arraste para aqui e acolá.

Sêneca foi o filósofo estoico que mais deixou obras inteiras para a posteridade, e dentre mais de uma centena de cartas, peças de teatro e diálogos filosóficos, quiçá aquela que melhor resuma o seu pensamento seja justamente a que fala da felicidade possível, De Vita Beata, cujo título foi traduzido do latim como Da Felicidade ou A Vida Feliz.

***

[1] O estoicismo é uma escola de filosofia helenística que floresceu na Grécia Antiga e, posteriormente, também na Roma Antiga. Os estoicos acreditavam que a prática das virtudes filosóficas era suficiente para alcançar a eudaimonia (ver restante do artigo) e, consequentemente, uma vida bem vivida. Foi fundada na antiga Atenas por Zenão de Cítio, em torno de 300 a.C.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Sêneca); [ao longo] A Morte de Sêneca; pintura de Manuel Domínguez Sánchez (1840-1906); Olu Eletu/unsplash

Marcadores: , , , , ,

17.6.24

Oceânico, parte 2

« continuando da parte 1


A religião matriarcal

Há muito nos acostumamos a ver por aí religiões dominadas pelos homens, com seus deuses nos postos de comando celeste, e seus sacerdotes ditando as regras cá embaixo. Mas, será que foi sempre assim? E, se não foi, quando é que as religiões deixaram de ser matriarcais e predominantemente ligadas ao feminino?

Se voltamos a época pré-histórica, é possível constatar que há um farto registro arqueológico de alguma espécie de culto feminino, ou pelo menos foram achadas inúmeras esculturas de alguma espécie de Deusa, com seios fartos e em geral bem corpulentas, que foram chamadas de Estatuetas de Vênus, sendo a mais célebre a Vênus de Willendorf, encontrada por um explorador na Áustria, em 1908, e que pode ter até 30 mil anos.

Bem, há 30 mil anos não existia agricultura, e a totalidade dos seres humanos vivia da caça e da coleta, perambulando aqui e ali em um nomadismo sem fim. Diz-se que nessa época o próprio nascimento de um bebê era um grande mistério, de modo que a figura da mulher era grandemente valorizada, até mesmo de forma religiosa, como a fonte primária da vida. Então, há cerca de 11,5 mil anos atrás nós descobrimos a agricultura, e lentamente fomos deixando de ser nômades e nos tornando sedentários.

É mais ou menos aqui que surge uma história relativamente conhecida de como as mulheres podem ter perdido seu posto religioso. Primeiro, eventualmente se entendeu que os homens também eram necessários no surgimento da vida, e o seu sêmen também foi associado à fertilização da terra pelas águas do céu (por isso na maioria dos panteões há um deus celeste que germina a deusa da terra), de modo que a figura da mulher não mais monopolizava o mistério da vida. Segundo, com o surgimento da agricultura, os grupos de caçadores-coletores viram que era mais vantajoso simplesmente se assentar em terrenos férteis e guardar os excedentes das colheitas para as épocas mais difíceis, como no pico do inverno. Assim eles começaram a guardar grãos em silos, e em volta desses silos surgiram aldeias cada vez maiores. Ocorre que isso não se deu da noite para o dia, e enquanto alguns agrupamentos formavam aldeias, outros grupos de nômades, muitas vezes famintos, ainda perambulavam no entorno.

Agora imagine que você é um caçador-coletor faminto, que já não acha mais nada para caçar, mas se depara com uma aldeia cheia de grãos, e que nessa aldeia, por falta de necessidade, muitos deixaram de se armar para a caça, e tenham optado por viver apenas da agricultura: isto é, você tem fome e está bem armado, e eles têm comida de sobra e mal sabem se defender, o que você acha que acontece então? Pois é, invariavelmente você rouba os grãos, e se deixar alguém vivo na aldeia já é lucro para eles.

Mas não acaba aí: alguns aldeãos sedentários eram mais espertos que outros, e eventualmente chegaram à conclusão de que era mais fácil comprar os caçadores nômades com comida, e transformá-los basicamente em soldados, em defensores dos limites da aldeia. Até que surgiram aldeias com muros de madeira, de pedra, e torres de defesa, e cidades, e metrópoles. Com isso, um mundo onde agricultores pacíficos poderia sobreviver com certa autonomia passou a ser dominado pela guerra de cidades-estado tentando defender seu próprio território – e eventualmente abocanhar a terra alheia. E, nesse mundo, era inviável que as posições de poder religioso e/ou político se mantivessem entre as mulheres. Segundo a moral dessa história, os homens derrotaram a religião matriarcal na base da porrada.

Ora, essa história sempre me pareceu um tanto verossímil. Claro que se trata de uma grande aproximação da realidade, sem condições de descrever como as coisas se passaram em maiores detalhes, sem muita precisão histórica ou de datas. Mas, ainda assim, verossímil. O problema é que ela delimita a chamada transição do matriarcado para o patriarcado numa data muito distante, muito anterior à formação das grandes civilizações do Ocidente e do Oriente. Segundo essa narrativa, não poderia haver mulheres em posição proeminente de poder religioso e/ou político em praticamente nenhuma dessas sociedades, salvo raríssimas exceções.

Bem, ocorre que eventualmente eu me deparei com situações onde as grandes sacerdotisas ainda eram a regra, e não a exceção, e isso numa época bem mais recente do que “logo após o surgimento das primeiras aldeias”. Muitos de vocês devem conhecer Pitágoras, e alguns devem saber que ele é considerado “o pai da filosofia”, visto que supostamente ele mesmo cunhou o termo, ele mesmo se considerava, acima de tudo, um filósofo, um amigo ou amante (filos) do saber (sophia). Ocorre que Pitágoras teve uma mestra no início de sua trajetória, chamada Temistocleia, uma sacerdotisa do templo de Apolo em Delfos. A conexão entre Pitágoras e Temistocleia é feita num trecho da Vida dos Grandes Filósofos, de Diógenes Laércio, um historiador que viveu no século III d.C (cerca de 8 séculos depois do filósofo). Lá no livro, Diógenes nos diz que “Pitágoras derivou a maior parte de suas doutrinas éticas a partir dos ensinamentos de Temistocleia, sacerdotisa de Delfos”.

As sacerdotisas dos templos em Delfos e outras grandes cidades da Grécia Antiga também eram chamadas de pitonisas, e além de realizar profecias e ensinar jovens filósofos, eram amplamente reconhecidas como grandes autoridades religiosas, o que certamente lhes conferia certa relevância política. E, vejam bem, não eram duas ou três, eram diversas mulheres, diversas sacerdotisas, que em sua época eram mais famosas e relevantes do que homens como Pitágoras. Prova disso é que o próprio Sócrates, alguns séculos depois, iniciou sua jornada na filosofia justamente porque outra sacerdotisa em Delfos disse a um amigo seu que ele era “o homem mais sábio de Atenas”. Se as pitonisas não fossem tão importantes, se o seu conselho oracular não fosse amplamente respeitado por todos, Sócrates não teria se disposto a buscar por alguém mais sábio, e talvez Platão sequer tivesse sobre o que escrever.

E, se nos parágrafos acima eu lhes trouxe um exemplo relevante de como existiram sacerdotisas com amplo poder religioso mesmo muitos séculos após “o advento da civilização”, em Quando Deus era mulher a escritora e pesquisadora norte-americana Merlin Stone nos traz inúmeros outros casos parecidos. A obra nos conta a história do antigo culto à Deusa Mãe, e de como o rito às deidades femininas foi suprimido ao longo dos séculos. Antes de publicá-la, em 1976, Stone passou quase uma década pesquisando as deusas na Antiguidade, período em que a vida social, política, econômica e cultural de muitos povos girava em torno da mulher.

Pessoalmente, o que achei mais curioso e importante na interpretação histórica de Stone foi a sua defesa de que a perseguição aos cultos da Deusa Mãe não tiveram motivação puramente religiosa, pois a política e, principalmente, a questão da herança, também foram tão ou mais importantes na equação. Afinal, como ela bem descreve no livro, na religião matriarcal a herança passava da mãe para os filhos, de modo que eram as sacerdotisas quem decidiam o rumo de suas vidas, e de seus templos, exatamente como o fazem hoje os sacerdotes de religiões patriarcais. Mas o mais interessante é como exatamente isso se dava, o que nos dá uma bela dica do porquê a própria sexualidade foi amplamente demonizada, juntamente com as sacerdotisas e suas deusas:

As mulheres [sacerdotisas] que residiam nos recintos sagrados da Deusa Mãe tomavam amantes dentre os homens da comunidade, fazendo amor com aqueles que vinham prestar honra à Deusa. Para aquelas pessoas o ato sexual era considerado sagrado, tão santificado e precioso que era efetuado dentro da casa da Criadora do Céu, da Terra e de toda a vida. Um dos muitos aspectos da Deusa, e pelo qual era reverenciada, era ser a deidade padroeira do amor sexual. [...] Na minha opinião, tais costumes sexuais devem ter se desenvolvido em virtude da primeira compreensão e tomada de consciência da relação entre sexo e reprodução. Já que essa conexão foi provavelmente observada de início pelas mulheres, pode ter sido integrada na estrutura religiosa como um meio de assegurar a procriação entre as mulheres que escolhiam viver e criar seus filhos dentro do complexo do templo, e também, possivelmente, como um método de controlar a gravidez.

(Merlin Stone, Quando Deus era mulher)

Ou seja, a Deusa subitamente se torna definitivamente mais diabólica para as religiões patriarcais; afinal, nos templos de culto à Deusa, são as mulheres quem decidem quando e com quem terão filhos, e são elas quem detém os direitos à herança, que é matrilinear. Assim, não admira que as religiões matriarcais e os cultos femininos tenham sido tão perseguidos na Antiguidade. E não admira, certamente, que até hoje a sexualidade, principalmente a sexualidade ditada pela mulher, seja tão demonizada, tão deturpada e distorcida de seu aspecto sagrado. Tudo isso, infelizmente, ainda é um eco de milênios atrás.

Mas, e como eram exatamente tais cerimônias religiosas que envolviam o sexo? Como a sexualidade sagrada pode nos ajudar a compreender melhor esse tal sentimento oceânico citado pelo amigo de Freud? Bem, isso certamente terá de ficar para o próximo texto.


» Na sequência, a pequena morte.

***

Bibliografia
Quando Deus era mulher, de Merlin Stone (Editora Goya/Aleph).
Mulheres que inspiram, diversas autoras (Edições Textos para Reflexão).

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (A Vênus de Willendorf); [ao longo] John Collier (A Sacerdotisa de Delfos); Foto que consta na capa da biografia de Merlin Stone, Merlin Stone Remembered: Her Life and Works.

Marcadores: , , , , , , , , ,

12.9.23

Deuses endemoniados

Incertos os locais e os tempos em que viveram. Os tempos: mais de três mil anos atrás. [...] A área: o norte do subcontinente indiano, mas sem fronteiras precisas. Não deixaram objetos nem imagens. Deixaram somente palavras. Versos e fórmulas que marcavam rituais. Meticulosos tratados que descreviam e explicavam esses mesmos rituais. [1]

O Rigveda é um dos textos mais antigos da humanidade. Escrito em sânscrito, a ancestral língua sagrada dos hindus, ele detalha em minúcias os rituais e sacrifícios endereçados aos seus deuses primordiais, ou devas. Agni, deva do fogo, era tão importante que é o seu nome que inaugura a primeira linha do Rigveda. Depois dele, vieram muitos, muitos outros: Indra, Mitra, Varuna, Krishna, Shiva, Ganesha, a lista chegaria literalmente aos milhares.

Hoje o sânscrito é considerado uma língua morta, isto é, sem falantes nativos. Entretanto ele faz parte do conjunto de línguas oficiais da Índia, pois é até hoje extensivamente utilizado nos rituais religiosos, incluindo o canto de mantras. Mas, se hoje o sânscrito está longe de estar morto de fato, há milhares de anos ele serviu com base para a escrita de tantos documentos que pesquisadores estimam que há mais escritos antigos em sânscrito do que em latim e em grego antigo, somados.

Ao longo dos Vedas, os textos sagrados hindus, do qual o Rigveda foi o primeiro, os deuses são chamados de devas desde sempre. A palavra sânscrita deriva da raiz div, que significa “resplandecente, fonte de luz, luminoso”, e cujo uso como adjetivo remonta a algo “celeste, divino”. De vez em quando, os Vedas mais antigos associavam os devas a um outro nome, asura. Como veremos, este termo sânscrito foi consideravelmente ressignificado ao longo dos séculos, mas lá no início ele parecia se referir a uma qualidade: “poderoso”. Portanto, inicialmente muitos devas tinham a qualidade asura, e até mesmo alguns reis védicos eram associados ao termo. 

Com o passar do tempo, no entanto, asura veio a significar coisa muito diferente: primeiro, semideuses sobre-humanos com boas e más qualidades; e, eventualmente, algo que se assemelha em muito ao que chamamos de demônios no Ocidente cristão. Ao que parece, os asura se tornaram deuses endemoniados, mas por que será que o termo passou por uma ressignificação tão radical?

uma teoria muito interessante que conecta o termo sânscrito a um termo muito parecido de um idioma que serviu como base para os textos sagrados do zoroastrismo, religião da antiga Pérsia: tal idioma era o avéstico, um primo do próprio sânscrito. Segundo os Gatas, os livros mais importantes da religião persa, cuja autoria é atribuída ao próprio Zoroastro, os deuses podiam ser divididos em duas classes: os ahuras eram aqueles dignos de adoração, enquanto os daevas deveriam ser evitados. O termo ahura estava, inclusive, associado ao próprio nome do deus e criador supremo dos seguidores dos Gatas: Ahura Mazda.

Com o passar do tempo, entre os zoroastristas os daevas foram sendo cada vez mais demonizados. Se antes eram somente deuses menores, indignos de adoração, eventualmente se tornaram... adivinhem? Isso mesmo: algo que se assemelha em muito ao que chamamos de demônios no Ocidente cristão. E não é necessário se aprofundar muito mais para notar o que a teoria nos diz: para os hindus, os deuses (ahuras) dos Gatas se tornaram demônios (asuras), ao passo que para os zoroastristas foi justamente o oposto, os deuses (devas) dos Vedas é que viraram demônios (daevas).

Aliás, conhecendo a humanidade como conhecemos, não é difícil compreender como essa teoria pode ter base sólida na realidade. Afinal, quantos não foram os povos ditos civilizados que classificaram todo e qualquer estrangeiro como bárbaro? E quantos não foram os religiosos que chamaram seus rituais de “religião oficial”, e todos os demais de “magia e bruxaria”? Assim, para boa parte da humanidade, o deus de um povo era o demônio do outro, e vice versa; mas terá sido sempre assim?


Pelo que dela me contaram, acho que não há nada de bárbaro e selvagem nessa nação, a não ser que cada um chame de barbárie o que não é seu costume. Assim como, de fato, não temos outro critério de verdade e de razão além do exemplo e da forma das opiniões e usos do país em que estamos. Nele sempre está a religião perfeita, o governo perfeito, o uso perfeito e consumado de todas as coisas. [2]

Quando os padres europeus vieram ao Brasil, então recém-descoberto por eles (mas os índios chegaram milênios antes), se depararam com a dupla tarefa de evangelizar tanto os indígenas quanto os escravizados africanos. E, se entre os índios havia tantos povos distintos que foi difícil determinar um único conjunto de deuses, entre os africanos essa etapa foi mais simples, pois muitos deles cultuavam os chamados orixás, que eram como deuses da natureza.

Não demorou muito, e eles tentaram identificar qual dos orixás seria o representante do mal, isto é, o demônio. Como encontraram um símbolo de Exu com um pênis ereto, e como muitos deles associavam o sexo ao pecado, e o pecado ao mal eterno, ficou acertado assim, de forma um tanto apressada, que na falta de um representante melhor, Exu seria o Coisa Ruim.

Ora, ocorre que entre os orixás, assim como entre muitos outros panteões, inclusive o dos deuses gregos, não há um representante do mal, um adversário direto do Criador, muito menos um anjo caído. Veja bem: isto não significa que os orixás, ou até mesmo os demais deuses, não possam praticar atos de maldade, eles apenas não representam o mal. Os deuses em geral já cometeram desde adultérios a genocídio generalizado por meio de dilúvios, mas isso por si só não quer dizer que Zeus e Jeová (para dar nome aos bois) sejam demônios, muito pelo contrário. Então, por que diabos Exu deveria ser demônio somente porque foi visto com o pênis ereto?

Uma das possíveis explicações para a ausência de um representante do mal entre os orixás pode ser o fato de que os povos africanos que cultuavam tais entidades da natureza não travaram nenhum tipo de conflito cultural, onde a religião de um povo tentou se infiltrar no território de outro, como provavelmente se passou entre os hindus e os zoroastristas. Mas talvez a explicação seja ainda mais simples, talvez o próprio demônio não seja exatamente aquilo que a maioria pensa.

O termo “demônio” vem do latim, daemon (em grego, daimon) cuja tradução aproximada está mais próxima do que chamamos hoje de “espírito”. Aliás, a prova de que o termo não era originalmente associado a algum ser maléfico, ou grupo de entidades que representavam o mal, e somente o mal, é que os gregos antigos usavam termos como eudaemon, um espírito ordeiro, e cacodaemon, um espírito caótico. Mesmo o cacodaemon não seria necessariamente mal, mas antes uma espécie de espírito zombeteiro, que não seguia as regras. O próprio Sócrates, grande sábio da filosofia grega, dizia estar em contato constante com seu daemon, isto é, uma espécie de espírito guardião.

E, se ainda não foi o suficiente para mudar sua opinião, os gregos ainda tinham um termo muito curioso para expressar uma espécie de estado de plenitude do ser, de grande felicidade e contentamento ante a existência, eudaimonia. E o que significa eudaimonia? Ser habitado por um bom daemon, viver sob a influência de um bom espírito.

Assim, da próxima vez que alguém passar pelo seu caminho desesperado, temendo o demônio que dobrou a esquina, diga para que não fuja, diga para chamá-lo para tomar um café. Vai saber, talvez o seu demônio na realidade seja o seu próximo grande amigo.


(este texto eu dedico ao meu amigo Robson Belli, pelo conjunto da Obra; a ideia inicial surgiu de um comentário do Guilherme Romano no Boteco Mayhem)

***

[1] Trecho do início de O ardor, de Roberto Calasso (trad. Federico Carotti; Companhias das Letras).

[2] Trecho dos Ensaios de Montaigne, mais precisamente do ensaio intitulado Sobre os canibais, onde ele comenta sobre o que ouviu falar dos índios brasileiros (trad. Rosa Freire D’Aguiar; Companhia das Letras).

Crédito das imagens: [topo] raph (puja, ou ritual do fogo, celebrado de forma muito similar aos Vedas, aqui em Campo Grande/MS, por Atmaji e seus discípulos); [ao longo] Google Image Search (representação clássica de Ahura Mazda); Guito Moreto/O Globo (Exu representado no desfile da Grande Rio na Marquês de Sapucaí; a escola venceu o Carnaval de 2022).

Marcadores: , , , , , , , , , ,

4.7.23

O que está sempre vivo

Um homem do norte adentra sua casa no fim da tardinha. Os últimos raios de sol de um dia entre dias cada vez mais curtos, com cada vez menos claridade, adentram sua cabana de madeira. Lá dentro, sua família celebra o presente que ele vinha arrastando a duras penas pela estrada: não a carcaça de um animal, mas o tronco de uma árvore pequena, da família dos pinheiros, com suas folhas perenes – folhas que não morrem completamente nem mesmo no outono, que está prestes a ficar para trás.

Nas línguas antigas do norte europeu, esse tipo de árvore era chamada júl, e a preservação de um tronco pequeno em casa era parte das preparações para a celebração do solstício de inverno, que tinha o mesmo nome da árvore. Entre os de língua inglesa, tal celebração ficou conhecida como Yule, embora muitos escandinavos a chamem, até hoje, simplesmente de Júl.

A Terra não gira em torno do Sol com seu eixo totalmente vertical. Ele é relativamente inclinado, e por isso todo ano, enquanto nosso planeta completa uma volta em torno da estrela, nós temos dois solstícios. No solstício de verão no hemisfério sul, a parte de baixo da Terra está mais inclinada em direção ao Sol; porém, exatamente no mesmo dia, o hemisfério norte recebe menos raios de sol, tem o dia mais curto do ano, e daí se celebra o solstício de inverno. Meio ano depois, a situação se inverte, e enquanto o norte atravessa o dia mais longo do ano, o sul se encontra no mais curto – isto é, no menor período de luminosidade.

Além disso, para os astrônomos ancestrais, que observavam os astros a olho nu, já estava claro que o Sol nascia todos os dias num ponto um pouco diferente do anterior. E assim era até chegar o próximo solstício, quando o Sol começava a nascer de volta na outra direção do horizonte. No entanto, tais observadores também constataram que, logo após o solstício de inverno, o Sol ficava três dias nascendo exatamente no mesmo ponto do horizonte, para só então voltar a se deslocar. Foi tal fato astronômico que deu origem aos mitos de deuses e heróis que morrem para renascer três dias depois. Ademais, como o próprio solstício de inverno também traz consigo a noite mais longa do ano, em muitas culturas pagãs o ano-novo se iniciava justamente ali: uma morte seguida de um renascimento.

Ora, os povos ancestrais tinham o Sol em grande conta, ainda mais aqueles que viviam no norte europeu, e passavam invernos rigorosos com pouca (às vezes, nenhuma) luz solar. Para eles, o fato do astro seguir invencível, noite após noite, para renascer no dia seguinte, certamente o alçava à imortalidade, e decerto não foi difícil associá-lo a própria divindade. Assim, o ritual do corte de um pinheiro, de um júl, para trazê-lo até em casa e com ele passar todo o inverno, também tinha um simbolismo parecido, afinal as folhas do pinheiro são perenes, seguem verdes por semanas mesmo após o corte – elas representam o que sempre está vivo.

Além disso, o próprio fato das raízes de uma árvore como esta estarem fincadas no solo, enquanto seu tronco segue vertical por alguns metros, e seus galhos tentam alcançar o céu, faz dela um símbolo vivo da conexão entre o mundo e o reino celeste, a própria terra dos deuses. Séculos e séculos depois, na mesma região do mundo, um mito peculiar veio do Oriente Médio, e aos poucos conquistou a mente de boa parte das pessoas, de modo que as celebrações pagãs, então conectadas estritamente ao movimento do Sol, passaram por grande ressignificação. O próprio Sol não era mais propriamente um deus, mas a representação de um homem-deus: o Cristo que, crucificado, ressuscitou três dias depois.

Mas fica mais estranho que isso. Para os descendentes dos europeus que vieram se estabelecer no hemisfério sul, como no Brasil, as celebrações cristãs passaram a ser celebradas de modo invertido, de modo que o Natal, antigo Yule, não é celebrado no solstício de inverno, mas no de verão! E os pinheiros caseiros, transformados em árvores plásticas cheias de bolotas coloridas, já não tinham mais nenhuma conexão simbólica possível com os júl ancestrais.

E assim, enquanto no norte todos passam pela noite mais longa, pela morte do Sol, para celebrar seu renascimento três dias depois, no sul estamos suando a pino num jantar cheio de carne e vinho. Na verdade, no sul nós não deveríamos estar celebrando Yule, mas Litha, a festividade do solstício de verão, a celebração do dia mais longo do ano, quiçá a mais antiga festa religiosa da humanidade.

Bem antigamente, antes de Litha os pagãos celebravam Beltane, que marcava o início do verão. Era um festival da fertilidade, no sentido de que boa parte das colheitas já vinha sendo realizada. Nessa festa, grandes fogueiras eram feitas com gravetos de júl e carvalhos, árvores tidas como sagradas. Tais fogueiras eram consideradas portadoras de energia divina, e eram mantidas acesas por semanas e semanas, até que chegasse Litha, quando as pessoas tinham o costume de saltar por suas labaredas, agora próximas do apagamento, para absorver sua energia.

Séculos e séculos depois, ainda hoje pulamos as fogueiras das festas juninas, que foram ressignificadas pela Igreja para homenagear o nascimento de São João Batista, aquele que batizou o Cristo, e que foi o primeiro mártir do cristianismo. Ocorre que, mesmo isso, fazemos ao contrário no hemisfério sul: celebramos o dia mais longo do ano, o início do verão, quando estamos atravessando o dia mais curto, o início do inverno.

É verdade que a Igreja conseguiu dissociar as celebrações cristãs das pagãs, transformando a posição do Sol em símbolos que já não tinham quase nada que ver com ele. Mas foi no hemisfério sul que isso se deu de forma mais completa e absoluta, pois além de nossas festividades cristãs estarem dissociadas das estações do ano, elas ainda se encontram invertidas.

Por outro lado, para aqueles sulistas que se prestam a voltar a realizar tais festividades, sem necessariamente abandonar o Cristo, tal separação não é de todo ruim: afinal, você pode celebrar o Sol Invicto no fim de junho, e voltar a celebrar sua contraparte humanizada, o nascimento do Cristo, no Natal. Você pode, de fato, comemorar o nascimento de um deus duas vezes por ano.

***

Crédito das imagens: [topo] Bruno Leschi/unsplash; [ao longo] Sérgio Bernardo/JC Imagem.

Marcadores: , , , , , , , ,

15.6.22

Nossa vida nas cartas (parte 1)

Ainda me lembro bem do dia em que descobri o que era o tarot (ou tarô): fui encontrar meu amigo Marcelo Del Debbio enquanto ambos estávamos no Rio de Janeiro, e como a agenda dele estava concorrida, ficamos de almoçar juntos no intervalo da aula que ele estava ministrando próximo ao Largo do Machado. Era um sábado, e ele havia alugado uma sala em um colégio da região. Foi só quando cheguei que soube que ainda levaria cerca de meia hora de aula para o intervalo do almoço, e decidi entrar e assistir um pouco.

Já alojado em minha cadeira ginasial, recordando com um sorriso meio amargo dos tempos de escola, olhei para o quadro onde a apresentação estava sendo projetada e vi alguma pintura que me lembrou um dos meus artistas prediletos, Albrecht Dürer. Na sequência, uma outra mais conhecida, O Andarilho, do grande Hieronymus Bosch. Foi só aí que me dei conta de que o tema daquele curso era Os Arcanos Maiores do Tarot. Mas, como sou formado em Belas Artes e conhecia boa parte daqueles artistas, decidi prestar um pouco mais de atenção, afinal até então o tarot para mim era alguma outra coisa que, decididamente, tinha pouco a ver com a história da pintura.

Foi naquela meia hora que eu descobri que estava redondamente enganado sobre o que era, afinal, o tarot. Até aquele dia eu achava que se tratava de um oráculo divinatório em formato de baralho (ou algo assim), no entanto, enquanto o Marcelo explicava sobre dois dos vinte e dois Arcanos Maiores, o Louco e o Mago, eu percebi que o tarot definitivamente era muito, muito mais do que isso.

Isso foi há cerca de uma década, a data e mesmo o ano exato, já não lembro ao certo. De lá para cá eu estudei bastante, fiz o curso do Del Debbio a distância e até mesmo cheguei a iniciar a cocriação do meu próprio tarot, mas em todo esse tempo ainda não cheguei a uma conclusão acerca do que é exatamente esse jogo que, de alguma forma estranha, parece trazer nossa vida nas cartas de um baralho.

No meio ocultista e nos círculos esotéricos em geral o tarot é considerado algo muito, muito antigo, possivelmente da antiguidade egípcia. Já entre os céticos, o tarot é uma invenção moderna, com cerca de 500 anos, e 99% dos baralhos atuais têm menos de um século de idade. O mais impressionante é que ambos, de alguma forma, parecem estar certos.

Para entender com isso se dá, é preciso primeiro compreender em que contexto o tarot foi “declarado egípcio”. Antoine Court de Gébelin nasceu em uma família protestante francesa em torno de 1725. Como a França vivia uma época conturbada, seu pai, que era pastor, exilou-se com a família na Suíça a partir de 1730. Gébelin voltou à França só após a morte dos pais, em 1763, quando também já era doutor em teologia. Sua ascensão na chamada alta sociedade parisiense foi meteórica: escritor coroado pela Academia Francesa e membro de outras academias, censor do reino, erudito, gramático e especialista em mitologia, eventualmente também se tornou maçom. Em 1768, decidiu publicar um projeto grandioso, uma obra “que seria a chave de todos os séculos e de todos os conhecimentos humanos”. Lançou uma espécie de financiamento coletivo que, na época, dependia basicamente do dinheiro dos reis, príncipes e nobres em geral. Mas, ao contrário de outros enciclopedistas comuns em seu tempo, seu objetivo era outro. Gébelin não desejava listar os conhecimentos de seu próprio século, e sim buscar a fonte comum de todos os saberes humanos por meio de uma ampla síntese. O nome do seu projeto era O Mundo Primitivo.

Mais de mil assinantes sustentaram a empreitada. Ele queria publicar um volume de cerca de setecentas páginas por ano, até completar nove deles. E assim foi: entre 1773 e 1784, Gébelin escreveu mais de 6 mil páginas! Mesmo assim, tocou diversos outros projetos ao longo da escrita. Em 1780, tornou-se presidente de uma sociedade que mais tarde daria origem ao Museu de Paris, e financiou quase a metade dos seus projetos. Apesar de sua notoriedade, Gébelin não tinha linhagem na nobreza ou alguma herança familiar relevante, e quando morreu, em 1784, estava cheio de dívidas.

Ainda que tenha escrito sobre uma vasta amplitude de assuntos, Gébelin foi lembrado pela história basicamente pelo que falou sobre o tarot. Isso se deu no tomo VIII do Mundo Primitivo, cujos temas eram “a história, o brasão, as moedas e os jogos”. Lá pelas tantas, ele narra que foi convidado por uma amiga a conhecer o “Jogo dos Tarôs” junto com alguns amigos em comum e que, em dado momento, decidiram analisar com mais calma cada um dos Arcanos Maiores:

“Tivemos o cuidado de [iniciar pela] mais caricatural dentre as figuras, que não apresentava nenhuma relação com seu nome: o Mundo. Observo-a e logo reconheço a alegoria. Todos [vêm] para ver esta carta maravilhosa, na qual percebo o que os outros nunca viram; cada um me mostra outra carta e, em 15 minutos, o jogo é examinado, explicado, declarado egípcio e, como esse não era o jogo que havíamos imaginado, mas o efeito de suas relações escolhidas e sensíveis com tudo o que conhecemos das ideias egípcias, comprometemo-nos a divulgá-lo algum dia ao público: [...] um livro egípcio que teria escapado da barbárie, da destruição pelo tempo, dos incêndios e da ignorância. [Eis o] efeito necessário da forma frívola e leviana desta obra, que lhe possibilitou vencer todas as épocas e chegar até nós com uma rara fidelidade: a ignorância na qual nos encontramos até agora a respeito do que ela representava foi um feliz salvo-conduto que lhe permitiu atravessar tranquilamente todos os séculos sem que se pensasse em fazê-la desaparecer.”

Segundo o próprio Gébelin esclarece em seu texto, o objetivo daquele encontro não era investigar a simbologia do tarot, foi algo que ocorreu espontaneamente, e até a data ele praticamente ignorava a sua existência. Apesar disso, em cerca de quinze minutos, aquele estranho jogo foi “examinado, explicado e declarado egípcio”. Daquele dia em diante, essa ideia nunca mais seria esquecida.

Gébelin teve em mãos uma das inúmeras versões do chamado Tarot de Marselha, um dos baralhos clássicos, cuja origem remonta ao século XV e ao norte da Itália. Ele poderia ter criado um novo tarot com simbologia claramente egípcia, ao contrário daquele que, como veremos, está carregado de símbolos da Europa medieval. Se não o fez, é possivelmente por duas razões: primeiro, porque tinha honestidade intelectual; e segundo, porque acreditava que a simbologia medieval também era uma herança de ideias mais antigas. Assim, é perfeitamente possível que, do ponto de vista de Gébelin, ser “declarado egípcio” era o mesmo que ser “declarado muito, muito antigo”. Afinal, se alguém passa quase uma década pesquisando e escrevendo sobre como as ideias de um “mundo primitivo” ainda reverberam em seu tempo, é porque ele não precisava ver uma esfinge ou uma pirâmide para reconhecer que algumas das questões mais antigas do espírito humano simplesmente não podem ir embora, não podem ser totalmente esquecidas, são como histórias reencenadas em cada novo tempo por um novo conjunto de símbolos, de personagens, mas não obstante com sua essência intacta.

Se isso for verdade e soubermos interpretar o que Gébelin quis dizer de fato, isso não invalida os registros históricos que nos dizem que o tarot não pode ter muito mais do que 500 anos; mas, ao mesmo tempo, é preciso ter olhos para reconhecer o que o tarot tem de “egípcio”, no que ele dialoga com assuntos que habitam o espírito humano há milênios, até mesmo muito antes da primeira pirâmide ser erguida no norte africano. E, para tal análise, vamos precisar da ajuda da psicologia do século XX.

» Na sequência, uma coleção de arquétipos.

***

Bibliografia
Para esta série nos valemos de conhecimentos e trechos obtidos nos livros História do Tarô (Isabelle Nadolny; tradução Luciana Soares da Silva; Editora Pensamento), Tarot Hermético (Marcelo Del Debbio e Priscilla Martinelli; Daemon Editora) e O Homem e seus Símbolos (Carl G. Jung e colaboradores; tradução Maria Lúcia Pinho; Harper Collins), no portal Clube do Tarô (por Constantino K. Riemma e outros colaboradores) e nos cursos Os Mistérios do Tarot – Arcanos Maiores e Menores (Marcelo Del Debbio) e Tarot: Os Mitos Modernos e a Cultura Pop (Rodrigo Grola e Marcos Keller).

Crédito das imagens: [topo] Hieronymus Bosch (O Andarilho); [ao longo] Google Image Search (Antoine Court de Gébelin e alguns arcanos do Tarot de Marselha – incluindo O Mundo, à direita).

Marcadores: , , , , , , , ,

18.3.22

Odes ao vinho (que não se colhe da videira)

Hoje Nixapur é uma cidade modesta situada no nordeste do Irã, mas há cerca de mil anos ela era uma das maiores cidades do mundo, sendo um ponto importante da famosa Rota da Seda. Na época, em meio aos impérios persas, nela nasceu e morreu um cientista, astrônomo e matemático chamado Omar Khayyam. Dizem que também foi poeta, e teria nos deixado centenas de poemas compostos por quatro versos – os rubaiyat, plural de rubai (poema em quarteto). Muitos séculos depois, tais versos foram transpostos ao inglês por um poeta de ascendência irlandesa chamado Edward FitzGerald, que foi o grande responsável por tornar o Rubaiyat de Omar Khayyam célebre em todo o Ocidente. Em suas versões portuguesas, o Rubaiyat recebeu o epíteto de “Odes ao vinho”, pelo simples fato da bebida ser muito celebrada em suas quadras. No entanto, até hoje persiste o debate acerca do significado desse vinho, e do Rubaiyat como um todo: uns dizem que se trata de vinho literal, e estes classificam a obra como agnóstica e hedonista; mas há tantos outros que afirmam que se trata do vinho “que não se colhe da videira”, de uma metáfora das experiências místicas do sufismo (o misticismo do Islã), e esses incluem a obra de Khayyam entre os grandes poemas místicos da humanidade.

Quem sabe o Rubaiyat possa ser lido das duas formas; talvez caiba somente a quem lê, a quem interpreta e mergulha na profundidade (ou superficialidade?) de seus versos, dizer, sentir do que eles se tratam. Um brinde a vida, e outro brinde a morte: bem-vindo ao Rubaiyat de Omar Khayyam.

O poeta que observava estrelas
Filho de um fabricante de tendas, Omar Khayyam nasceu em Nixapur por volta do ano 1040, e faleceu em 1123. Seu verdadeiro nome era Ghiyat ud-Din Abu Fat Omar Ibn Ibrahim al-Khayyam. Sua vida esteve conectada a personagens que também marcaram a história: Hassan Sabbah, o lendário “Velho da Montanha”, e Nizam al-Mulk, que foi vizir do sultão Alp Arslan.

Quando jovens, Hassan e Nizam foram atraídos a Nixapur pela fama do imã Novassak (na época, um ancião), buscando a sua instrução. Lá conheceram Khayyam, que já estudava matemática e astronomia, e entre eles nasceu uma duradoura amizade. Desta amizade veio uma espécie de pacto: quem primeiro fosse bem-sucedido financeiramente na vida deveria ajudar os outros dois.

Quem chegou lá primeiro foi Nizam, que foi um secretário e depois vizir do sultão Alp Arslan, o Leão. Logo, seus amigos foram lembrá-lo do pacto de Nixapur. O pedido de Hassan foi por um cargo na Corte; porém, ao se envolver em intrigas palacianas, logo caiu em desgraça, retirando-se às montanhas do sul do mar Cáspio, onde eventualmente veio a se tornar o lendário “Velho da Montanha”, o mestre da Ordem dos Assassinos.

Já o pedido de Khayyam foi consideravelmente mais modesto: uma espécie de pensão vitalícia para que pudesse voltar a Nixapur e se dedicar tão somente à matemática e à observação das estrelas. E sua pensão foi quantia suficiente para que pudesse passar o restante de seus dias entregue ao cultivo do estudo e da poesia. Cercou-se de amigos e com eles dedicou-se a aproveitar a vida. Dizem que seu maior prazer era simplesmente beber e conversar com amigos, sob a luz da lua, no terraço de sua casa, geralmente ao som de tocadores de alaúde e, volta e meia, apreciando a arte das dançarinas persas.

Envolto em tal atmosfera, Khayyam iniciou a composição dos seus famosos rubaiyat. Eram poemas que cantavam o amor, o vinho, a vida e a morte; às vezes, de um pessimismo aterrador, noutras tantas, de uma exaltada homenagem à existência.

Além de poeta, foi um celebrado homem de ciências. Escreveu um famoso tratado de álgebra, elaborou tabelas astronômicas e reformulou o calendário muçulmano, tendo recomendado a adoção do ano bissexto cinco séculos antes de tal ideia ser retomada no Ocidente, com a promulgação do Calendário Gregoriano.

Após sua morte, um de seus amigos mais jovens e discípulo, Kuajah Nizam, escreveu sobre ele o seguinte: “Nós costumávamos conversar com o mestre em um jardim. Um dia, ele nos disse: Vocês irão achar meu túmulo no local onde o vento do norte possa cobri-lo de rosas. Anos depois, ao retornar para Nixapur após uma longa ausência, me dirigi ao lugar que tinham me indicado como sendo o túmulo do meu mestre. Encontrei-o junto a um jardim. As árvores, exuberantes em plena primavera, inclinavam seus galhos por cima de um muro vizinho, enquanto uma brisa suave desfolhava suas flores. Ao cair, pétala por pétala, cobriam o túmulo de muitas cores...”

Uma releitura ocidental
Os rubaiyat persas seriam hoje algo solenemente ignorado no Ocidente, não fosse pelo fato do poeta Edward FitzGerald (1809 – 1883) ter tomado conhecimento da obra de Khayyam, vertendo-a para o inglês e publicado sua tradução em 1859.

Entretanto, FitzGerald não foi propriamente um tradutor, mas antes um adaptador. Alguns afirmam que sua obra poderia ser intitulada: “De como Omar Khayyam teria escrito Rubaiyat, acaso se chamasse Edward FitzGerald e vivesse na Inglaterra vitoriana”. Dito isso, não se pode negar o fato de que ele foi o grande responsável por tornar o erudito persa conhecido no Ocidente. À sua tradução, aliás, seguiram-se várias outras, tornando Rubaiyat um dos livros de poesia mais traduzidos e vendidos do século XX, merecendo inclusive diversas edições luxuosas, ilustradas por artistas renomados.

Em certo aspecto, Rubaiyat é um livro de poesia diferente de todos os demais: cada vez que uma nova edição é publicada, surge uma obra diversa. Isso se deve a alguns fatores: primeiro, o próprio Khayyam parece não ter somente composto os próprios rubaiyat, como colecionado muitos que circulavam em Nixapur na época; segundo, alguns rubaiyat podem ter sido introduzidos posteriormente a sua morte, provavelmente por poetas apócrifos que gostariam de ver seus versos eternizados sob a autoria de um cientista renomado; e, terceiro, no fim das contas a tradução da poesia persa para outra língua é quase sempre uma releitura.

Para além disso tudo, ainda resta a polêmica acerca do Rubaiyat ser ou não uma obra mística. Ora, no prefácio de sua tradução o próprio FitzGerald associou-a ao epicurismo, uma visão filosófica da vida mais focada nas pequenas alegrias e prazeres ditos “mundanos” do que em experiências religiosas. Farid ud-Din Attar (1145 – 1221), um célebre místico islâmico conterrâneo de Nixapur, disse certa vez que “Khayyam não era um místico, mas um livre-pensador”.

Entretanto, em 1867, J. Nicolas, o cônsul francês na Pérsia, realizou uma nova tradução do Rubaiyat, afirmando que o poeta era um sufi, e que suas quadras traziam, de forma alegórica, o pensamento e os ensinamentos desta vertente mística do Islã. Segundo esta visão, a taberna seria a mesquita; o vinho, a essência de Allah; o cálice, o mundo inteiro (por onde se espalha o vinho que não se colhe na videira); e a embriaguez em si, o êxtase místico, o contato direto com o amor divino.

A lição que fica é que o Rubaiyat será, sobretudo, aquilo que causar no coração de seus leitores. E, se você for mais um deles, então responda por si mesmo: do que, afinal, se trata o Rubaiyat de Omar Khayyam?

***

O Rubaiyat de Omar Khayyam será o próximo lançamento das Edições Textos para Reflexão, na tradução de Rafael Arrais (a partir da versão inglesa de Edward FitzGerald), em um e-book ilustrado por diversos artistas cuja obra já entrou em domínio público (o que infelizmente não é o caso do tailandês Niroot Puttapipat, cuja arte ilustra este artigo).

***

Crédito das imagens: Niroot Puttapipat

Marcadores: , , , , , , , , ,

2.12.21

A vida de Éliphas Lévi

Prefácio de Dogma e Ritual da Alta Magia, por Arthur Edward Waite, retirado da sua tradução inglesa de 1896. Alguns trechos foram suprimidos em prol da fluidez da leitura e de um melhor entendimento do público leigo nos detalhes da história do ocultismo europeu.

Arthur Edward Waite (1857-1942) foi um célebre poeta, tradutor e ocultista estadunidense, que é mais conhecido por ter sido o cocriador do Tarot de Rider-Waite, ou Tarot de Waite-Smith.

Tradução ao português por Rafael Arrais.


ÉLIPHAS LÉVI ZAHED é o pseudônimo adotado por Alphonse Louis Constant em seus escritos acerca do ocultismo, e aparentemente se trata do equivalente hebraico do seu nome de batismo. O autor de Dogma e Ritual da Alta Magia (Dogme et Rituel de la Haute Magie no original, em francês) nasceu em circunstâncias humildes no ano de 1810, e era o filho de um sapateiro. Como demonstrou ter uma inteligência acima da média desde cedo, o padre da paróquia local desenvolveu um amável interesse pelo garoto, e o trouxe para a fundação de São Sulpício, onde ele recebeu educação gratuita, sendo encaminhado para a vida do sacerdócio. Ao que tudo indica, ele atravessou o período de estudos no seminário sem desapontar as expectativas que se formaram em torno dele. Além de grego e latim, ele provavelmente adquiriu um considerável conhecimento do hebraico; entretanto, seria um erro supor que qualquer uma de suas obras nos trouxe realizações linguísticas notáveis.

Ele entrou em ordens religiosas como noviço e, pouco a pouco, acabou se tornando um diácono, portanto vinculado a um voto de celibato perpétuo. Porém, não muito tempo depois disso ele foi expulso de São Sulpício por expressar opiniões contrárias aos ensinamentos da Igreja Católica. Os relatos existentes acerca de sua expulsão são nebulosos, e trazem elementos inverossímeis como, por exemplo, de que ele havia sido enviado por seus superiores eclesiásticos para discursar em igrejas de cidades afastadas, onde pregou com grande eloquência, mas em dados momentos se desviou da doutrina oficial da Igreja – no entanto, eu creio que não há precedentes para pregações de diáconos na Igreja Latina. O certo é que, para além da biografia que circulou por alguns anos na França, nós temos pouquíssimo material disponível sobre a vida de “Abbé” Constant.

Em todo caso, ele foi enviado de volta ao mundo lá fora, ainda com as limitações de seus votos religiosos, mas com sua carreira sacerdotal barrada. O que ele fez da vida, ou como sobreviveu ao longo dos anos seguintes, nos é desconhecido. Fato é que lá pelo ano de 1839 ele tinha adquirido alguns amigos no meio literário, incluindo Alphonse Esquiros, o autor esquecido de um romance fantástico intitulado O Mago; e Esquiros eventualmente o apresentou a Simon Ganneau, uma espécie de profeta naqueles tempos, que usava vestidos de mulher e morava em um sótão, de onde pregava um tipo de iluminismo político. Ele era, de fato, a reencarnação do rei Louis XVII, “de volta à Terra para cumprir um trabalho de regeneração”. Constant e Esquiros, que um dia visitara Ganneau por pura zombaria, foram seduzidos por sua eloquência, e tornaram-se seus discípulos. Alguns elementos do socialismo devem ter se mesclado com o iluminismo visionário de Ganneau, e tudo isso parece ter frutificado no cérebro de Constant, o que eventualmente deu origem a um livro, ou panfleto ideológico, intitulado A Bíblia da Liberdade (La Bible de la Liberte), para o qual só se dá alguma importância hoje em dia pelo fato de ter levado o autor a ser preso por seis meses. Há alguma razão para supormos que Esquiros teve uma parte tanto na escrita da obra quanto na punição de Constant.

Com o fim do período de encarceramento, Constant retornou destemido, ainda seguindo seu profeta, e iniciou uma espécie de missão apostólica pelas províncias francesas, falando diretamente ao povo, e sofrendo, conforme ele mesmo nos contou, uma perseguição dos invejosos. No entanto, o tal profeta desistiu de seguir com suas próprias profecias, presumivelmente por falta de uma audiência para a qual falar, e assim o discípulo retornou à Paris, onde, a despeito de seus votos como um diácono, ele teve um envolvimento amoroso com uma bela garota de dezesseis anos, chamada Marie-Noémi Cadiot. Com ela, ele eventualmente teve dois bebês, que infelizmente morreram ainda na tenra infância. Pouco depois de tais eventos trágicos, ela o abandonou. Dizem que, além de belíssima, ela foi muito talentosa, e mais tarde veio a se tornar uma escultora de renome.

Quando exatamente Alphonse Louis Constant se iniciou no estudo das ciências ocultas é algo incerto, como quase tudo em sua vida. A declaração dada no Dogma e Ritual da Alta Magia, de que no ano de 1825 ele entrou em um caminho fatídico que, através do sofrimento, o encaminhou ao conhecimento, não deve ser entendida no sentido de que sua iniciação ocorreu exatamente nesse período, que de fato se deu em sua adolescência. Ele obviamente se refere a sua entrada em São Suplício, o que, em certo sentido, o levou ao sofrimento, quiçá à ciência, e certamente lhe conduziu a uma boa educação. Todo o episódio com Ganneau o conectou a uma forma de transcendentalismo, ao menos na parte da alucinação, e pode ter tido algum impacto decisivo ou duradouro em sua mente. Dessa forma, o período em que Constant se devotou a fundo ao estudo do ocultismo muito provavelmente se deu entre a separação de sua mulher e a publicação de Dogma e Ritual da Alta Magia, em 1854.

Nesse interim ele também achou tempo para escrever o extenso Dicionário de Literatura Cristã (Dictionnaire de Littérature Chrétienne), que no entanto não faz nenhum tipo de menção às ciências ocultas – de fato, nele Constant veste a máscara da ortodoxia, e suas palavras estão perfeitamente alinhadas à Igreja em Roma. Em 1860, ele publicou História da Magia (Histoire de la Magie); no ano seguinte, veio A Chave dos Grandes Mistérios (La Clef des Grands Mystères). Em 1864 e 1865 chegaram, respectivamente, Fábulas e Símbolos (Fables et Symboles) e A Ciência dos Espíritos (La Science des Esprits).

Se em sua juventude Constant não dispunha de recursos suficientes, no restante de sua vida a sua situação financeira não teve melhora significativa. Seus livros nunca chegaram a ter grandes tiragens, mas lhe garantiam admiradores e alguns pupilos, de quem volta e meia ele recebeu remuneração por cursos de escrita ou aconselhamentos em geral. Ele costumava circular com vestes de mago medieval, o que pode ser perdoado pelo fato de ter sido um ocultista francês. Constant passou incólume pela guerra franco-prussiana, e eventualmente substituiu a crença no socialismo por uma espécie de “imperialismo transcendentalista”. Em 1875, sua vida contraditória se encerrou em meio ao trabalho na Igreja que por pouco não o expulsou de seu seio. Ele nos deixou diversos manuscritos, muitos dos quais se encontram em processo de publicação. Também há inúmeras cartas enviadas a seus pupilos, como é o caso do Barão Spedalieri, que preservou farta correspondência entre os dois – que, de certa maneira, é mais valiosa que muitos dos livros já publicados [Nota do Tradutor: essa correspondência hoje se encontra no livro Curso de Filosofia Oculta, publicado pela Editora Pensamento].

Nenhum divulgador moderno das ciências ocultas pode ser comparado a Éliphas Lévi. Já entre os antigos, apesar de muitos estarem em maior patamar, nenhum nos é tão interessante de ser estudado, pois ele representa o próprio espírito dos tempos modernos tentando reinterpretar, por vezes forçadamente, os oráculos da antiguidade. É óbvio que há nomes mais grandiosos, mas ninguém excede o fascínio que o mago francês trouxe para a literatura ocultista. Os demais são destinados aos especialistas e aos típicos estudantes sérios capazes de escavar significado em tomos quase incompreensíveis, enquanto nos livros de Lévi conseguimos apreciar de fato a leitura, da mesma forma que podemos apreciar poetas modernos. No texto de Lévi as concepções antigas são devidamente revisitadas e consideradas, mas de cada parágrafo emana um novo espírito primaveril.

Por outro lado, o período de estudo que veio a produzir Dogma e Ritual da Alta Magia como resultado literário não é indicado com exatidão na vida do autor, e tampouco considero que Lévi era capaz de realizar o tipo de estudo profundo e extensivo dos tomos antigos que pudesse produzir resultados mais historicamente consistentes. Assim, seu texto é ao mesmo tempo intenso e fascinante, mas sem muita profundidade de análise; esplêndido em suas generalizações, porém pobre em detalhes. Na realidade, como guia histórico, não pode sequer ser recomendado. Aliás, o seu História da Magia deixa isso muito evidente. Como um ensaio filosófico é admirável, e não há na literatura ocultista nada que chegue perto da sua excelência de escrita, mas ele está inundado de erros históricos. Dessa forma, podemos dizer que se trata de um trunfo literário, mas não de um livro erudito. Para falar a verdade, não creio que Lévi sequer se deu ao trabalho de ler as obras completas dos autores citados.

O seu método de estudo se aproxima mais do verbo francês parcourir (navegar) do que de outro verbo do seu idioma, approfondir (aprofundar). Ou seja, ele mais navega pela história oculta do que se aprofunda em seus detalhes. Assim, não me parece irracional afirmar que se Lévi tivesse sido deixado a sós, jamais teria avançado tanto nas ciências ocultas, pois sua vivacidade teria sido rapidamente apagada pelos horrores da pesquisa em si. Mas, de alguma forma, ele eventualmente encontrou algum círculo iniciático que encurtou enormemente suas necessidades de pesquisa, e o colocou no caminho certo. Aí está, portanto, a importância de Dogma e Ritual da Alta Magia. Ele carrega a voz da iniciação, embora disfarçada. De qual escola, não faz diferença, até mesmo porque nada pode ser dito a céu aberto nesse ramo. E, nesse caso, eu só posso pedir a meus leitores que confiem em mim em tal julgamento.

Lévi ainda estava no meio do caminho de ascensão nos graus iniciáticos quando publicou Dogma e Ritual da Alta Magia. E, se ele havia sido expulso de São Sulpício por ter se desviado em demasia de sua estrutura doutrinária, é provável que tenha sido expulso de sua ordem por haver exposto o que não devia ser exposto. Se foi assim, tais fatos explicariam, em primeiro lugar, a importância dessa obra, pois ela carrega um tipo de conhecimento que não deriva unicamente da leitura de livros de ciências ocultas; em segundo lugar, a falta de detalhamento da mesma, pois ela não é o resultado de um conhecimento completo e absoluto dos temas em questão; e, finalmente, eu penso que isso também evidencia o motivo de vermos tantas retratações e subterfúgios nos livros que se seguiram à sua publicação. Tendo avançado tanto no desvelar dos Mistérios, Lévi naturalmente tentou voltar atrás, e assim como ele se esforçou para seguir o modo de vida eclesiástico em sua adolescência, da mesma forma ele se empenhou em fazer as pazes com tal iniciação ao jogar areia nos olhos dos leitores de suas demais obras. Entretanto, ele falhou em ambos os casos.

Só me resta declarar, portanto, o que eu pessoalmente acredito ser a maior limitação de Lévi: o fato de ter sido um transcendentalista, mas não um místico. Além disso, ele era um cético quanto a qualquer tipo de comunicação com o mundo dos espíritos. Ele define o misticismo como a sombra que limita a luz do intelecto, e não perde oportunidades para destacar seu falso iluminismo, seus excessos e futilidades. Finalmente, não há via direta possível do homem para Deus em seu sistema, e as avenidas de Deus para o homem estão atravancadas por todo tipo de sacramento. Dessa forma, o homem deve se contentar apenas com a intelectualidade se deseja permanecer no reino da razão. A esfera da experiência material é onde deve residir todo o seu conhecimento – além dela, só nos resta confiar em presunções e analogias.

Eu suponho que essa não é a doutrina ensinada pela maioria das ciências ocultas, muito menos o resultado final da via iniciática, da “grande iniciação”. A ordem das coisas do mundo visível tem o seu complemento no invisível, e esse tipo de analogia nos leva a um melhor discernimento da realidade, de modo que todo o processo depende mais de um aprimoramento da nossa própria percepção do que de seguir alguma lei rígida que governa a manifestação de todas as coisas, visíveis e invisíveis. A iniciação nos leva aos primeiros degraus da escada para o mundo invisível, e nos instruí em como subi-la, mas efetivamente subir seus degraus depende inteiramente de nós. As vozes de alguns que nos precederam podem ser ouvidas acima, mas elas também pertencem aqueles que ainda estão subindo – pois que vão morrendo, pouco a pouco, dentre aqueles que alcançaram o Silêncio. E é para lá que nós também devemos ascender sós, lá onde a iniciação já não poderá nos auxiliar, lá na fronteira do limiar, de onde nenhum viajante retorna, e cuja luz só está envolta em mistérios para aqueles que se encontram abaixo.

LONDRES, Setembro de 1896.

***

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search [Éliphas Lévi]; [ao longo] Google Image Search [Igreja de São Sulpício, em Paris; Estátua de Baphomet, de acordo com a ilustração original de Lévi em Dogma e Ritual da Alta Magia].

Marcadores: , , , , , , , , , ,